DIOGNETO (EPÍSTOLA A). — I. Tradição. II. Objeto. III. Integridade. IV. Autor, destinatário, data. V. Caráter.
I. TRADIÇÃO. — A celebridade, para não dizer a popularidade, da Epístola a Diogneto não remonta além da edição princeps que dela deu Henri Estienne, Paris, 1592. Nem a antiguidade cristã nem a Idade Média falaram da Epístola a Diogneto. Só se a reencontrou num único e exclusivo manuscrito, o Cod. Argentorat., 9. Manuscrito do século XII ou do XIV, que provavelmente reproduzia um texto do VIII e que, passado das mãos de Johannes Reuchlin por volta de 1560 para a abadia de Munster, na Alsácia, depois, entre 1793 e 1795, para a biblioteca de Estrasburgo, pereceu em consequência do bombardeio dessa cidade, em 24 de agosto de 1870. Restam-nos presentemente duas cópias, tiradas do original: uma, em 1579, pelo Sr. Bern. Hausius, e que se conserva na biblioteca de Tübingen, M. b. 17; a outra, pelo próprio Estienne, um tanto às pressas, em 1586, e que possui hoje a biblioteca de Leiden, Cod. Voss. Gr. 30. Uma terceira cópia, mais exata, feita por Beurer entre 1587 e 1591, infelizmente desapareceu. H. Kihn, Der Ursprung des Briefes an Diognet, Friburgo, 1882, p. 35 e segs.; Ad. Harnack, Geschichte der altchristl. Litt., t. I, 2, p. 757-758.
II. OBJETO. — Um pagão de nome Diogneto, grande personagem, pediu a um de seus amigos, um cristão, que o esclarecesse sobre a origem, sobre o caráter particular e a eficácia do cristianismo, sobre a razão, enfim, de seu advento tardio entre os homens, c. I. O autor da carta começa, pois, por atacar sucessivamente o paganismo e o judaísmo, por refutar a idolatria, ou antes a forma mais grosseira da idolatria, o fetichismo, c. II, e as superstições rabínicas que pouco a pouco desnaturaram a lei de Moisés e instituíram um culto puramente exterior, indigno de Deus, c. III-IV. Depois disso, o autor, abordando a segunda questão de Diogneto, sem ainda ter esgotado a primeira, traça um quadro requintado da vida dos cristãos de seu tempo, c. V, e faz ressaltar, numa comparação que ficou justamente célebre, o papel da religião nova: «O que a alma é no corpo, os cristãos o são no mundo», c. VI. Uma vez constatado o efeito, nosso autor mostra a causa. Só a intervenção divina pode explicar tão prodigiosa transformação dos costumes. O cristianismo não é uma invenção humana; é de origem divina. Deus enviou seu Filho aos homens, «como um ministro de clemência e de doçura», para salvá-los. A morte heroica dos mártires e a rápida propagação do cristianismo atestam um poder sobrenatural, a presença do Filho de Deus entre nós, c. VII-VIII, 6. Vem aqui a resposta, uma resposta incompleta, todavia, à terceira questão de Diogneto: Por que Deus adiou por tanto tempo nossa redenção? Por que deixou o gênero humano mergulhado no erro e no vício durante tantos séculos? É que quis fazer-nos sentir nossa profunda miséria e a necessidade indispensável que tínhamos de seu socorro, c. VIII, 7-IX. Enfim, depois de exortar Diogneto a abraçar a fé, o autor enumera as vantagens espirituais que daí decorrerão para ele, notadamente a caridade para com o próximo e a semelhança com o próprio Deus, c. X. Nos dois últimos capítulos com que termina a Carta em sua forma atual, o autor declara a seu amigo que não fez senão transmitir-lhe o ensinamento dos apóstolos, de quem ele próprio foi discípulo.
III. INTEGRIDADE. — Mas a maioria dos críticos modernos assinalou entre esses dois últimos capítulos e o que precede uma diferença bastante forte para que julgassem dever rejeitá-los como apócrifos. O assunto da Carta, tal como as primeiras palavras do autor o expõem e o limitam, está de fato esgotado com o c. X. Daí para os c. XI e XII, nenhuma transição natural. Também o manuscrito de Estrasburgo apresentava justamente nesse ponto uma lacuna, e, segundo toda aparência, não uma lacuna de algumas palavras apenas. Aqui e ali, aliás, estilo, moldura, ideias, tudo é contraste. A linguagem dos c. I-X, enérgica e viva, não deixa de ser ao mesmo tempo simples e translúcida; os c. XI-XII respiram o rebuscamento e o afetamento, a expressão tem algo de vago e de penoso. Nossa Carta, c. I-X, é apenas uma resposta a questões determinadas e precisas; o autor dos c. XI-XII se apresenta como «um discípulo dos apóstolos e um doutor dos gentios». Os c. I-X dirigem-se apenas ao único Diogneto e, por conseguinte, só se servem do singular; os c. XI-XII, ao contrário, dirigem-se em geral a todos os que «querem ser discípulos da verdade», e servem-se ora do singular, c. XI, 7; c. XII, 7, 8, ora do plural, c. XI, 8; c. XII, 1. Os c. XI-XII trazem consigo uma data mais próxima de nós. Testemunham-no o emprego quase exclusivo do termo Logos; enquanto os c. I-X, salvo, no entanto, o c. VII, 2, falam do Filho de Deus; a atribuição a são Paulo do título de apóstolo por excelência, doutor dos gentios; certa coloração gnóstica difundida por toda parte; o caráter semipoético do trecho, que denuncia um fragmento de homilia. Bardenhewer, Geschichte der altkirchl. Literatur, t. I, p. 295, etc. Parece, pois, fora de dúvida que esses c. XI-XII não dependiam originariamente da Epístola a Diogneto. O Sr. Bunsen, Hippolytus und seine Zeit, Leipzig, 1852, t. I, p. 137, os havia atribuído a santo Hipólito; em nossos dias, o Sr. Draeseke, Zeitschrift für wissenschaft. Theologie, 1902, t. XLV, p. 275 e segs., e Bonwetsch, Götting. Nachr. phil. hist. Klasse, 1902, p. 621-634, fizeram reviver as conclusões, um tanto esquecidas, de Bunsen; o Sr. Harnack a elas aderiu, Die Chronologie, t. II, p. 232 e segs.; o Sr. di Pauli, enfim, Theol. Quartalschrift, 1906, t. LXXXVIII, p. 28-36, a elas se associa decididamente e tem os c. XI-XII como o epílogo dos Philosophumena, um epílogo escrito para ser pronunciado.
IV. AUTOR, DESTINATÁRIO, DATA. — 1° Autor. — A Epístola a Diogneto, no Cod. Argentorat. 9, estava anexada às obras de são Justino, ou antes a quatro escritos pseudojustinianos, e trazia o nome do filósofo mártir. Fiando-se no manuscrito de Estrasburgo, Henri Estienne, o primeiro editor de nossa Epístola, conservou-lhe o nome de são Justino e não encontrou, durante um século, contraditores. O criterioso Tillemont, Mémoires, 2ª ed., Paris, 1701, t. I, p. 372; cf. p. 494, rejeitou, o primeiro, em 1691, o testemunho do manuscrito. E, de fato, sem falar da diferença de estilo, que é bem sensível, o contraste flagrante das ideias do autor de nossa Epístola com as ideias de são Justino não permite confundi-las. A opinião que via na Carta a Diogneto a obra de são Justino está, pois, hoje abandonada. Mas, quanto ao nome do verdadeiro autor, nenhum acordo entre os críticos, e nenhuma chance de acordo. Enquanto o Sr. Bunsen, op. cit., e o Sr. Draeseke, Der Brief an Diognet, Leipzig, 1881, por terem percebido em nossa Carta um reflexo do gnosticismo, a atribuem, um a Márcion, o outro ao marcionita Apeles, concluindo ambos, a despeito da lógica, a posse ad esse; o abade Doulcet, Revue des questions historiques, 1880, t. XXVIII, p. 601-602; Annales de philosophie chrétienne, 1880, p. 477-480, 555-567, nela reconhece a mão do filósofo Aristides. Conjectura certamente engenhosa, que o Sr. Kihn, Der Ursprung des Briefes an Diognet, Friburgo, 1882, e o Sr. Krüger, Zeitschrift für wissenschaftl. Theologie, 1894, t. XXXVII, p. 206-223, acolheram um e outro, este último, todavia, para depois se retratar, Nachträge, p. 20, e que, à falta de provas decisivas, se recomenda ao menos por algumas analogias entre nossa Epístola e a obra do filósofo ateniense. Aqui, não se sai, em definitivo, do campo das hipóteses.
2° Destinatário. — Tanto quanto o nome do autor, o do destinatário da Carta ainda não foi descoberto, e muito provavelmente jamais o será. Pode ser que o destinatário seja, como pensou Bunsen depois do P. Halloix (1631), o filósofo estoico Diogneto, um dos preceptores de Marco Aurélio; ou então, segundo Kihn, que faz do nome Diogneto um título honorífico, o próprio imperador Adriano. Mas nada além de talvezes.
3° Data. — A crítica é unânime em rejeitar a estranha fantasia do Sr. Donaldson, A critical history of Christian Literature, 1866, t. I, p. 126 e segs., que tem nossa Carta por uma obra do Renascimento, como também a tese do Sr. Overbeck, Ueber den pseudojustin. Brief an Diognet, 1872, em Studien zur Geschichte der alten Kirche, 1875, t. I, p. 1-92, que atribui à nossa Carta uma data posterior a Constantino. Tillemont, que recua a composição para antes da ruína do templo de Jerusalém, no ano 70, já não encontra partidários. É, pois, hoje incontestável que o autor viveu no século II ou no III. Mas, dentro desses limites, na falta de critérios extrínsecos e decisivos, há sempre divergência de opiniões. Segundo o Sr. Harnack, Die Chronologie der altchristl. Literatur, 1897, t. I, p. 514-515, nossa Epístola dataria do século II, talvez do fim do III. O Sr. Kihn, Theol. Quartalschrift, 1902, t. LXXXIV, p. 495-498, faz ressaltar o paralelismo do c. X, 3-6, da Epístola com o último capítulo dos Philosophumena, P. G., t. XVI, col. 3454, para remontar aos arredores do ano 230. Segundo o Sr. Bardenhewer, Geschichte der altkirchl. Litt., t. I, p. 297; Les Pères de l'Église, nouv. édit. franç., p. 157, é também bem um trabalho do século II que denotam a «novidade» do cristianismo e a descrição da vida dos cristãos entre as violências dos pagãos e o ódio pérfido dos judeus.
V. CARÁTER. — A Epístola a Diogneto, com a simplicidade e a precisão de seu estilo, a nitidez de sua exposição, seu método na estrutura do discurso e na disposição das matérias, prende-se visivelmente ao gênero apologético. Ela vai primeiramente refutar sucessivamente, em nome do senso comum, o paganismo, ou antes o fetichismo, e as superstições do rabinismo judaico; depois, das crenças e dos costumes dos cristãos, faz ressaltar a divindade do cristianismo. A intenção apologética é, pois, seu essencial. Mas nenhum recurso aos milagres, salvo, todavia, o da transformação dos costumes pela verdadeira religião e o da constância dos mártires; nenhum recurso às profecias. É à superioridade da moral evangélica e a seu papel no mundo que o autor apela; é da antítese entre a vida cristã e a vida pagã que jorra a grande prova da divindade do cristianismo. O autor, ao mesmo tempo, reconhece e realça a importância, aliás a necessidade, de uma boa disposição da alma em matéria de apologética; impossível, sem ter-se tornado primeiro um homem novo, apreciar a excelência do cristianismo, c. I e II. Encontra-se, sob a pena do autor desconhecido, senão com certeza todos os artigos de seu símbolo, ao menos várias verdades capitais da ordem sobrenatural e cristã. Nossa Carta atesta, entre outras coisas, a necessidade da revelação e da fé para conhecer Deus, c. V e VIII, 1-6, os dogmas da divindade de Jesus Cristo, da encarnação e da redenção, c. VII, VIII e IX, os da eternidade das penas do inferno, c. X, 7, 8, e da justificação; embora duas ou três expressões, c. IX, 4, 5, pareçam indicar uma justiça imputativa, não se pode duvidar de que a Epístola ensine uma justiça interior e real, c. VII, 2; X, 2-6. O autor admite também, contrariamente a são Justino, a imortalidade natural da alma, c. VI, 2-9; X, 2. Edições principais: P. G., t. II, col. 1167-1186; von Gebhardt e Harnack, Patrum apostolicorum Opera, Leipzig, 1878, t. I, 2, p. 142-164; Funk, Patres apostolici, Tübingen, 1901, t. I, p. 390-413. H. Doulcet, na Revue des questions historiques, 1880, t. XXVIII, p. 601-612, e no Bulletin critique, 15 de dezembro de 1882; J. Draeseke, Der Brief an Diognetos, Leipzig, 1881; H. Kihn, Der Ursprung des Briefes an Diognet, Friburgo, 1882; G. Krüger, em Zeitschrift für wissensch. Theologie, 1894, t. XXXVII, p. 206-223; Geschichte der altchristl. Litteratur, Nachträge, Friburgo, 1897, p. 20; R. Seeberg, em Forschungen, de Zahn, 1893, t. V, p. 240 e segs.; Bardenhewer, Geschichte der altkirchl. Litteratur, t. I, p. 290-299; Les Pères de l'Église, nouv. édit. franç., Paris, 1905, t. I, p. 454-458; Harnack, Geschichte der altchr. Litteratur, t. I, p. 757-758; Die Chronologie, p. 514-515; Funk, Patres apostolici, p. CXIII-CXXII.
Autor original: P. Godet
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