Doutrina. — O Deuteronômio é mais que um código de leis. Em todas as suas partes históricas, parenéticas e legislativas, ele enuncia uma doutrina dogmática e moral muito elevada.
1° Dogma. — Ele professa o monoteísmo mais absoluto. O Deus de Israel é o único Deus e Senhor, VI, 4. Ele é o Deus dos deuses, o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, justo também, não fazendo acepção de pessoas, e bom, X, 17, 18. Ele é o criador de todas as coisas; por isso não se deve adorar nenhuma de suas criaturas, o céu, o sol, a lua, os astros, IV, 19, nem fazer delas nenhuma imagem, com receio de cair na idolatria, 16-18. Os israelitas deverão, portanto, derrubar todos os ídolos cananeus, XII, 2, 3. A proibição de fazer qualquer imagem de Deus é a afirmação de sua espiritualidade. É preciso adorar e servir a Deus só, X, 20. O Deus único é o senhor de todas as nações, uma vez que poderia ter posto Moisés à frente de um povo maior que Israel, IX, 4. Ele tem poder sobre a matéria e faz prodígios que testemunham sua onipotência. Moisés lembra frequentemente os milagres realizados no Egito para tirar Israel da servidão. Sendo espiritual, não tem forma sensível; manifestou-se somente em meio a relâmpagos e trovões e fez ouvir sua voz, IV, 11, 12; e não se mostrou ao povo sob uma aparência exterior, com receio de ser honrado por ele sob forma de ídolo, 15. Ele é fiel e imutável; cumpriu as promessas que havia feito aos patriarcas; por fidelidade ainda dará aos israelitas a terra de Canaã, que prometeu a seus pais e a eles mesmos. Observará a aliança contraída com eles e dará seus favores àqueles que o amam e que praticam seus mandamentos, até mil gerações, VII, 9. Ele guarda sua palavra mesmo em relação aos estrangeiros; por isso proíbe aos israelitas conquistar a Idumeia, que deu aos filhos de Esaú, II, 5. Embora seja o Deus do mundo inteiro, Jeová tem, contudo, relações particulares com Israel, que é seu povo especialmente escolhido, VII, 6; XIV, 2; XXVI, 18. No deserto, carregou-o como um pai carrega seu filhinho, no caminho que o levava às margens do Jordão, I, 31; instruiu-o como um homem instrui seu filho, VIII, 5. Os israelitas são, portanto, os filhos do Senhor, seu Deus, XIV, 1. Ele já amava seus antepassados, e ama a eles mesmos, IV, 37; VII, 8; X, 15. Se escolheu Israel para seu povo especial, não é por causa de sua grandeza exterior, uma vez que é inferior em número a todos os povos, mas por amor, VII, 6-8. Se lhe assegura a posse da terra de Canaã, não é em consideração à sua própria justiça, pois, ao contrário, ele foi infiel a seu Deus, IX, 6-24; é por fidelidade à palavra dada aos antepassados, VII, 8; IX, 4, 5. Deus, com efeito, contraiu uma aliança com os patriarcas, IV, 31; VII, 12; VIII, 18. Ela foi renovada com seus descendentes em Horebe, V, 2, 3; IX, 9; XXIX, 1, assim como na terra de Moabe. Ora, esta aliança não supõe a igualdade dos contratantes e não foi concluída e consentida da mesma maneira de ambos os lados. Jeová a impôs a Israel e ditou suas condições, que foram voluntariamente aceitas. O pacto assim concluído estabelece entre os contratantes uma certa igualdade, que consiste na obrigação mútua de fidelidade à palavra dada. Deus manterá suas promessas em relação a Israel, se este for fiel às obrigações que aceitou e que o ligam a Deus. Estas obrigações dizem respeito à observação exata das leis impostas por Deus a seu povo, IV, 13, 23; XXIX, 9; XXXIII, 9. Se Israel for fiel à aliança, Deus, que o tirou da servidão do Egito e que vai colocá-lo na posse da terra de Canaã, continuará a protegê-lo; se ele a violar, Deus o castigará, XI, 26-28. Desta aliança decorrem, portanto, os deveres que Israel tem de cumprir para com seu Deus.
Autor original: E. Mangenot
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