DEUS (SUA NATUREZA SEGUNDO A BÍBLIA)

DEUS (SUA NATUREZA SEGUNDO A BÍBLIA)

DEUS. SUA NATUREZA SEGUNDO A BÍBLIA. — I. No Antigo Testamento. II. No Novo Testamento.

I. NO ANTIGO TESTAMENTO. — Embora Deus pudesse ser conhecido pelos homens por meio das criaturas, de fato, segundo a Bíblia, ele se fez conhecer a eles por revelação, manifestando-lhes alguns de seus atributos e algo de sua natureza. Mas essa manifestação de Deus por si mesmo não se produziu de uma só vez; foi sucessiva e progressiva, e é necessário distinguir os diferentes estágios dessa revelação.

I. DEUS PARA A HUMANIDADE PRIMITIVA. — 1° Suas relações com ela. — Desde a primeira palavra do Gênesis, I, 1, Deus, o verdadeiro e único Deus, aparece como o criador de todas as coisas no céu e na terra. Ver CRIAÇÃO, t. I, col. 2042-2046. Depois de criar o homem e a mulher, Deus, nos dois relatos da criação, Gên., I, 28-30; II, 16, 17, fala-lhes e se revela a eles como senhor da natureza, que criou e cuja dominação lhes transmite, e também de sua vontade livre, que obriga por um preceito positivo. Após a desobediência de Adão e Eva, Deus vinga seus direitos lesados punindo tanto a serpente tentadora quanto os homens prevaricadores. Gên., III, 9-24. Ele aceita as ofertas de Abel e rejeita as de Caim, Gên., IV, 3-7, e pune o fratricídio, IV, 9-14. No tempo de Enos, filho de Sete e neto de Adão, começou-se a invocar Javé por seu nome. Gên., IV, 26. Quando a humanidade se corrompeu, Deus se arrependeu de a ter criado e a fez perecer, salvo Noé e sua família, Gên., VI, 1-8. Quando o dilúvio terminou, Deus restituiu à nova humanidade os direitos da primeira e comprometeu-se a não fazê-la perecer por outro dilúvio. Gên., IX, 1-17. Deus permitiu a dispersão dos povos, saídos dos filhos de Noé, e a divisão das línguas. Gên., XI, 1-9. É tudo o que a Bíblia nos ensina das relações de Deus com a humanidade primitiva e da manifestação que ele lhe deu de si mesmo. 949 — DEUS (SUA NATUREZA). A Bíblia afirma, pois, somente a revelação do monoteísmo aos primeiros homens. O Deus único, criador de todas as coisas, mostra-se unicamente como o soberano do universo e em particular dos homens, que liga por uma obrigação moral e cujo culto aceita. Ele tem direitos sobre as consciências morais e recebe os sacrifícios, o de Noé, Gên., VIII, 20-22, como os de Abel. Gên., IV, 4. Nenhuma noção metafísica da divindade está incluída nessas manifestações antropomórficas. Gên., III, 8; VIII, 16; VIII, 21; IX, 5. Ver também, col. 1368-1369. A Bíblia não acrescenta que o monoteísmo primitivo se tenha fielmente conservado. Sugere antes o contrário, pois se não ensina ex professo a origem do politeísmo, ao menos no Pentateuco, constata sua existência; mas não explica como essa decadência se produziu. Esta ocorreu nas épocas que a Bíblia deixa vazias entre Adão e Noé, entre Noé e Abraão. Quaisquer que sejam as causas, segundo a Bíblia, o monoteísmo precedeu o politeísmo, e este último não pôde sair daquele «senão como um erro sai de uma verdade, por via de negação ou de esquecimento.» P. Lagrange, Études sur les religions sémitiques, 2ª edição, Paris, 1905, p. 3. 2° Seu nome principal. — Nos onze primeiros capítulos do Gênesis, que contam a história da humanidade primitiva, Deus é chamado ora Elohim, ora Javé, quando não se diz Javé Elohim. Os relatos ditos elohistas denominam Elohim o Deus criador, que dirige os primeiros homens; os relatos ditos jeovistas denominavam Jeová ou Javé o Deus que formou o homem e que foi invocado desde o tempo de Enos. Voltaremos mais adiante à denominação Javé, ao falar da revelação desse nome feita a Moisés. O nome de Elohim, dado ao criador do universo, informa-nos sobre a natureza divina, tal como era conhecida pelos primeiros homens. Elohim é o plural do singular Éloah, formado posteriormente, segundo o parecer geral, contra o qual se levantou porém J. Halévy, Éloah, no Journal asiatique, 1905, t. II, p. 339-340. A etimologia desse nome é incerta. Alguns o fizeram derivar da raiz â'lah, «ter medo, buscar refúgio», e lhe deram o sentido de numen tremendum ou colendum, objeto de terror e de temor. Mas a maioria dos hebraístas de hoje o tem por um aumentativo de El, cujo emprego era mais antigo. Teria então a mesma significação etimológica. Ver mais adiante. Seja qual for a origem e o sentido primitivo desse nome, ele designa, nos onze primeiros capítulos do Gênesis, apenas o verdadeiro e único Deus. Para o autor, a forma plural não trazia, pois, nenhum prejuízo à unidade divina. Foi em vão que diferentes críticos ali viram um indício do politeísmo primitivo, pois esse nome plural é sempre seguido de um verbo ou de um qualificativo no singular. Elohim não é, aliás, o nome primitivo de Deus entre os semitas; é, ao contrário, uma das formas mais secundárias do nome divino. Não indica, pois, a soma dos seres divinos que habitavam num lugar. P. Lagrange, Études sur les religions sémitiques, p. 77-78. Também os gramáticos o consideram com razão como um plural de majestade ou de excelência, significando que Deus é a soma de todas as perfeições. Outros pensam que esse plural designa uma abstração, «a divindade». Ver J. Drusius, Elohim, em Critici sacri, Frankfurt-am-Main, 1696, t. VI, col. 2115-2140; Dictionnaire de la Bible de M. Vigouroux, art. Elohim, t. II, col. 1701-1702; F. Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, 6ª edição, Paris, 1896, t. IV, p. 470-480; Driver, The book of Genesis, Londres, 1904, p. 402; M. Hetzenauer, Theologia biblica, Friburgo em Brisgau, 1908, t. I, p. 373-374. Pode-se concluir daí que, desde Adão até Taré, Deus se manifestou aos homens como Deus em geral, Deus de todos, sem relação ainda com um povo escolhido. A humanidade primitiva conhecia, pois, por revelação ou naturalmente, Deus como distinto das criaturas, perfeitamente único, infinitamente poderoso, justo e bom, e governando o mundo. II. DEUS NA ÉPOCA DOS PATRIARCAS. — Não conhecemos as ideias dos patriarcas sobre Deus senão pela Bíblia. Tudo o que se pode dizer fora de seu testemunho não passa de hipótese pura ou sistema a priori. É preciso, pois, extrair do Gênesis as informações que ele recolheu a esse respeito. — 1° Relações de Deus com os patriarcas. — Enquanto ramos da família de Tharé se haviam tornado idólatras na Mesopotâmia, Jos., XXIV, 14, 15; Judite, V, 7-9; Gên., XXXI, 19, 30, 34 (Raquel havia roubado os terafins de Labão, seu pai), Abraão, por uma vocação especial de Deus, retira-se primeiro para Harã, Judite, V, 7, 9, depois para a terra de Canaã, para escapar da idolatria e ser o tronco de um povo fiel ao verdadeiro Deus. Ver t. I, col. 94-98. É o Senhor do céu que assim escolhe Abraão e o faz sair da casa de seu pai. Gên., XXIV, 7. Javé aparece aos patriarcas e intervém em sua vida ordinária. Promete-lhes uma numerosa posteridade, à qual dará a terra de Canaã, e bênçãos especiais. Ver t. I, col. 106-111. Ele é o Deus da humanidade, pois dispõe das regiões idólatras. Gên., XI, 7; XII, 14-17; XV, 18-21; XVI, 8. É conhecido de Melquisedeque, rei de Jerusalém, Gên., XIV, 18, e de Abimeleque, rei de Gerar. Gên., XX, 3. Conhece o futuro de seu povo por vir e prediz a Abraão a servidão dos israelitas no Egito e sua libertação. Gên., XV, 13-16. Faz um pacto eterno com a posteridade de Abraão para ser sempre o seu Deus, Gên., XVII, 7, e institui a circuncisão como sinal dessa aliança, 9-14. Ver t. I, col. 2520. Ele será, pois, o Deus especial do povo escolhido, como já é o Deus de Abraão, Gên., XXIV, 12, e de Isaac, Gên., XVII, 19, 21; XXVIII, 13; XXXI, 42, 53; XXXII, 9; XLVIII, 15, sendo ao mesmo tempo o Deus de toda a humanidade, pois pune os habitantes das cidades da Pentápole. Gên., XVIII, 16-21; XIX, 24, 29. Renova a Isaac as bênçãos e as promessas feitas a Abraão. Gên., XXVI, 2-5, 22, 24; XXVIII, 13-15; XXXV, 9-12; XLVIII, 3, 4. Intervém em sua vida cotidiana e cumpre suas promessas, protegendo-os. Gên., XXVI, 12-14, 28, 29; XXXI, 41-43; XXX, 30; XXXIII, 10, 11. As mulheres de Jacó atribuem a Deus sua fecundidade. Gên., XXX, 2, 6, 17, 18, 20, 22, 23. Elas reconhecem que Deus fez passar para Jacó, seu marido, as riquezas de Labão, seu pai. Gên., XXXI, 16. Deus vê os pactos jurados, e é dele o fiador como a testemunha. Gên., XXVI, 28-29; XXXI, 49-53. Jacó purifica sua casa e retira todos os ídolos que sua gente, vinda da Mesopotâmia, pudesse ter guardado. Gên., XXXV, 2-4. Deus pune os filhos culpados de Judá. Gên., XXXVIII, 7, 10. Protege José em casa de Putifar, Gên., XXXIX, 2, 3, 5, e na prisão. Gên., XXXIX, 21-23. Envia sonhos ao faraó do Egito. Gên., XLI, 25, 32, 39. Os irmãos de José atribuem-lhe o que lhes acontece, Gên., XLII, 28, assim como o próprio José, Gên., XLII, 23. Jacó pede que Deus torne o intendente do Egito favorável a seus filhos. Gên., XLIII, 14. José atribui à vontade divina a conduta de seus irmãos para com ele e nisso reconhece um desígnio da providência. Gên., XLV, 5, 7, 8, 9; L, 19, 20. Deus prediz a Jacó o que acontecerá à sua família no Egito, Gên., XLVI, 2-4. José considera seus filhos como um dom de Deus, Gên., XLVIII, 9, e Jacó chama sobre eles as bênçãos divinas, 15, assim como sobre seu pai, 21; XLIX, 25. José, moribundo, lembra a seus irmãos que Deus cuidará deles e os fará voltar à terra de Canaã, que havia prometido a Abraão, a Isaac e a Jacó. Gên., L, 23. Sem ter, pois, ainda nenhuma ideia metafísica de Deus, os patriarcas o reconheciam como o único Deus verdadeiro, digno de ser honrado, como o criador do céu e da terra, o Deus da humanidade, tendo concluído com Abraão e sua família um pacto particular, em virtude do qual será sempre o seu Deus, com exclusão de qualquer outro. Por conseguinte, sem se desinteressar dos demais homens, que abençoa ou pune conforme o merecem, Deus protege especialmente os patriarcas, vela por eles, intervém em sua vida e rege por sua providência o seu destino. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó é assim o Deus único e verdadeiro, cuja natureza será melhor manifestada a seus descendentes por revelações posteriores. Não haverá interrupção no conhecimento de si mesmo que Deus comunicará à humanidade. Cf. P. de Broglie, Questions bibliques, 2ª ed., Paris, 1904, p. 294-295, 299.

2° Os nomes divinos nessa época. — O Gênesis continua a nomear Deus na época patriarcal, ora Elohim, ora Jeová, segundo as narrações eloístas ou javistas. No entanto, Deus é por vezes designado pelo nome comum El, que é o nome de Deus por excelência. Esses dois nomes nos ensinam que ideia faziam de Deus aqueles que os empregavam. É preciso, pois, estudá-los aqui.

1. Jeová, o Deus dos pais. — Muitos exegetas pensaram que esse nome próprio de Deus havia sido revelado pela primeira vez a Moisés no Sinai, Êxo., III, 14, e que é por essa razão que os relatos ditos eloístas só começam a nomear Jeová como Deus de Israel a partir dessa revelação. Seria, pois, por prolepse ou por antecipação que os relatos javistas teriam empregado esse nome divino na época patriarcal. Deus afirma, com efeito, a Moisés que apareceu a Abraão, a Isaac e a Jacó como El-Saddai e que não foi conhecido deles sob seu nome de Jeová. Êxo., VI, 3. No entanto, nos próprios relatos eloístas, Jeová, que se manifesta a Moisés, diz-se expressamente o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Êxo., III, 6, 15, 16. É, pois, ao menos o mesmo Deus que se manifestou e que era honrado sob nomes diferentes. Parece, no entanto, certo, como veremos mais adiante, que o nome de Jeová era conhecido dos patriarcas antes de Moisés. É, aliás, pouco verossímil que Moisés tenha podido propor aos israelitas, como seu Deus especial, um Deus desconhecido deles. Por isso Moisés repete que Javé foi o Deus dos pais. Deut., I, 21; VI, 3; XXVII, 3. Israel o conhecia, pois, embora ainda não o tivesse como seu Deus especial. Eis por que os relatos javistas empregam constantemente esse nome para designar o Deus criador e o põem na boca de Deus falando a Abraão ou de Abraão falando a Deus, Gên., XV, 6-8; dizem também que Javé foi El de Sem e de sua raça, Gên., IX, 26; que era conhecido de Tharé e de Nacor, Gên., XXXI, 53, de Labão e de Batuel, Gên., XXIV, 50, 51; XXVI, 28, 29; XXX, 27; XXXI, 24, 49, 50, de Melquisedeque, Gên., XIV, 18-20, 22, e de Abimeleque. Gên., XX, 3-7; XXI, 23. Este nome já convinha, pois, ao Deus dos patriarcas com sua significação precisa, que fixaremos mais adiante, embora talvez ela ainda não tivesse sido perfeitamente compreendida.

2. El e El-Saddai. — O Deus dos patriarcas é igualmente designado pelo nome de El sozinho ou acompanhado de epítetos, que exprimem diversos atributos. a) El. — Este nome, que era o nome próprio de Deus entre todos os semitas primitivos, ver P. Lagrange, Études sur les religions sémitiques, p. 70-77, deve ter sido também empregado dessa forma pelos hebreus, embora se tenha tornado apelativo no uso corrente entre eles, como em toda parte. Encontra-se ao menos duas vezes com certeza no Gênesis. Em Bersabeia, Jacó acabava de oferecer sacrifícios ao Elohim de seu pai. Esse Elohim lhe aparece e lhe diz: « Eu sou El (o artigo que, em geral, é de época tardia, deve ter sido acrescentado mais tarde), Elohim de teu pai. » Gên., XLVI, 3. Em Siquém, Jacó já havia erguido um altar e ali honrara El, o Elohim de Israel. Gên., XXXIII, 20. Poderia ser que esse nome tivesse o mesmo caráter em outras passagens, tais como Gên., XXXI, 13; XXXV, 1. Stade, Biblische Theologie des Alten Testaments, Tubinga, 1905, t. I, p. 74-75, pretendeu que, nessas passagens, El designava um deus local, um numen loci, honrado nesses lugares de culto. Mas, no contexto, esse sentido é impossível. Não é um El qualquer que aparece em Betel ou em Fanuel, Gên., XXXII, 30, 31; é o El de Jacó, que se mostra a ele nesses lugares, assim denominados por essa causa. Aliás, o El de Betel aparece a Jacó na Mesopotâmia, Gên., XXXI, 13; não é, pois, um deus ou gênio local. É Elohim que se manifesta em diversos lugares e que é o único Deus para Jacó como para seu pai Isaac. Cf. P. Lagrange, op. cit., p. 81. Numa época em que El já tinha em toda parte o sentido apelativo, Jacó, não tendo senão um Deus, podia empregar esse nome para designar a divindade. Antes de consagrar um lugar para dele fazer um santuário, os patriarcas ali tinham tido uma marca do poder, da bondade ou da presença sempre vigilante do Deus que adoravam como autor da natureza. Os santuários de sua época não eram dedicados a diversos deuses, aos gênios da região, e não são vestígios do politeísmo primitivo dos hebreus. El se reencontra nos nomes arameus Camuel e Batuel, Gên., XXII, 21, 23, e no de Ismael. Gên., XVI, 11. A etimologia de El não é certa.

Muitos fazem derivar essa palavra da raiz verbal em desuso, אָלַח, à qual dão, entre outros, o sentido de « ser forte », de modo que El significaria « o forte ». Outros a fazem vir de אָוָה, que tem o mesmo sentido. Outros deram ao nome o sentido de « primeiro ». P. de Lagarde propôs a significação de termo ao qual tendem os homens por seus desejos e seus esforços; mas, no juízo de Stade, loc. cit., p. 75, אֵל indica a direção e não o objetivo. M. Hetzenauer, op. cit., t. I, p. 372. Cf. P. Lagrange, op. cit., p. 79-81; F. Delitzsch, Babel und Bibel, 1º discurso, 5ª ed., Leipzig, 1905, p. 49, 75, nota 36; A. Jeremias, Monotheistische Strömungen innerhalb der babylonischen Religion, Leipzig, 1904, p. 19; J. Nikel, Der Ursprung des alttestamentlichen Gottesglaubens, 3ª ed., Munster, 1908, p. 31. Todos esses conceitos são muito elevados e mostrariam que os patriarcas tinham um sentimento profundo da superioridade da natureza divina. — Mas, à parte toda etimologia, pode-se determinar o sentido geral de El entre os semitas primitivos, para quem era o mais antigo nome de Deus. « Ou é o nome próprio do deus dos semitas, empregado em seguida como apelativo, ou é um nome comum que se tornou o deus dos semitas por excelência. Podemos por ora deixar a questão em suspenso. Mas, em contrapartida, um ponto parece claro. Se El, nome apelativo, isto é, aplicando-se à natureza divina, pôde tornar-se um nome pessoal, é porque a natureza divina era nesse momento considerada como única, e se, por outro lado, é um nome pessoal que se tornou o nome comum para designar tudo o que participa da natureza divina, era porque, de novo, se dava a essa pessoa divina toda a plenitude da divindade. » P. Lagrange, op. cit., p. 77. Na origem, ele designava, pois, o divino concebido como distinto do resto das coisas e como único de certa maneira. Para o semita primitivo, El era « um ser superior sem nenhuma ligação nem com um lugar especial, nem com uma força da natureza, nem com um objeto animado ou inanimado. A concepção primeira vai a Deus sem se deter em todo o resto: ele é o além. » Ibid., p. 82. Essas ideias tão elevadas dos antigos semitas puderam passar aos antepassados dos hebreus com o nome de El. Cf. Barns (Lagrange), La révélation du nom divin « tétragrammaton », na Revue biblique, 1893, t. II, p. 339-340.

b) 'El Roi. — Agar, tendo fugido para o deserto, teve uma visão e deu à pessoa divina que lhe falava o nome de El Roi. Gên., XVI, 13. No relato, é Javé quem recebe esse nome. Primitivamente, devia tratar-se de El, de quem veio o nome de Ismael e que Agar chama 'El Roi. Entende-se geralmente esse nome no sentido do Deus que vê em toda parte; o Deus que Agar viu é o Deus cujo olhar se estende sobre todos os países. Poderia também significar, na boca dessa mulher, que visa à visão que teve, o Deus da aparição no sentido ativo da palavra.

c) 'El 'Olam. — Abraão, depois de fazer uma aliança solene com Abimeleque, planta uma tamargueira e invoca o Deus da eternidade. Gên., XXI, 33. É Javé quem é designado sob esse título, porque é idêntico a El. El é, pois, o Deus da duração, que viverá sempre no futuro, enquanto o homem passa. A ideia de Baethgen, Beiträge zur semitischen Religionsgeschichte, Berlim, 1888, p. 292, segundo a qual Abraão opunha o Deus dos velhos tempos ao dos tempos novos, não se apoia em nada.

d) 'El 'Elyôn. — Melquisedeque, rei de Salém, é sacerdote do Deus altíssimo; abençoa Abraão em nome do Altíssimo, que criou o céu e a terra, e abençoa esse Deus, cuja proteção deu ao patriarca a vitória sobre seus inimigos. Abraão, por sua vez, jura pelo Altíssimo, senhor do céu e da terra. Gên., XIV, 18-20, 22. Esse nome designa o Deus supremo e assinala sua sublimidade e sua transcendência.

e) 'El Saddai. — Deram-se ao qualificativo Saddai significações bem diferentes. Uns o fazem vir de Sâdad, que significa « devastar », e o traduzem, como fez a Vulgata, por « todo-poderoso »; ele exprime, pois, para eles, o vigor e a energia com que Deus realiza prodígios na natureza e devasta para punir. Gesênio viu antes nisso um plural de majestade, derivado de Sâd, « forte », na primeira pessoa, e traduziu: mei potentes, di mei, ou me deus. Thesaurus, p. 1366-1367. Ch. Robert, seguindo Ewald, ligou essa palavra à raiz Sâdah, que significa « espalhar com abundância » e de onde vem a palavra Sâd, « mama ». Por conseguinte, El Saddai designa Deus como o poder que dá a fecundidade nas famílias, nos rebanhos e nos campos. Esse exegeta mostrou em seguida, pelo exame de todas as passagens do Gênesis, XVII, 1; XXIII, 3; XXXV, 11; XLIII, 14; XLVIII, 3; XLIX, 25, que Deus se manifestou sob esse aspecto aos patriarcas. El Shaddai et Jéhovah, no Muséon, Lovaina, 1891, t. X, p. 361-370; La révélation du nom divin Jéhovah, na Revue biblique, 1894, t. III, p. 162-164. Cf. Stade, op. cit., t. I, p. 76; M. Hetzenauer, op. cit., t. I, p. 383. Sobre El sozinho ou acompanhado de epítetos, ver P. Lagrange, El et Jahvé, na Revue biblique, 1903, t. XII, p. 362-370, artigo que utilizei largamente nas páginas precedentes; Driver, The book of Genesis, p. 402-406. M. Baentsch acreditou reconhecer em 'El Saddai, que Abraão honrava, um deus supremo, de caráter astral, tendo relações com o deus lunar Sin dos babilônios, e localizado no céu, e reduz, por conseguinte, a religião do patriarca a um monoteísmo prático, conciliando-se com o politeísmo, que não era negado teoricamente, mas que concentrava a religião num deus supremo. Altorientalischer und israelitischer Monotheismus, Tubinga, 1906, p. 54-65. Essas ideias sobre um Deus único, onipresente, eterno, altíssimo, e princípio que espalha por toda parte a fecundidade, os israelitas as receberam de seus pais e as levaram para o Egito. Enquanto, nessa região, a massa permanecia fiel a El dos semitas e ao Deus dos antepassados, Deut., XXVI, 6-8; Êxo., III, 7, alguns caíram na idolatria egípcia. Jos., XXIV, 14; Ez., XX, 7, 8. Antes de constituí-los em povo, especialmente consagrado a seu culto, e para afirmar a fé antiga, Deus quis fazer-se melhor conhecer dos filhos de Jacó e lhes revelou sua natureza íntima pelo ministério de Moisés.

II. REVELAÇÃO DE JAVÉ A MOISÉS. — 1° Dupla revelação. — No Êxodo, há dois relatos sucessivos da manifestação de Javé a Moisés. O primeiro, Êxo., III, 12-15, que a crítica atribui ao documento eloísta, contém uma explicação mais que uma revelação do nome divino. O segundo, Êxo., VI, 2-8, que derivaria do código sacerdotal, afirma uma mudança de nome divino e a substituição de Javé por El Saddai.

1. Primeira revelação. Êxo., III, 2-15. — Deus, querendo escolher Moisés para libertar os israelitas escravos no Egito, revelou-se a ele ao pé do Horeb, no meio de uma sarça ardente. Nomeou-se primeiro como o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, 6; prometeu-lhe seu socorro para o cumprimento da missão difícil que lhe confiava, 12. Moisés, sabendo assim que o Deus dos antepassados lhe fala, pergunta-lhe qual é seu nome próprio, a fim de poder dizê-lo aos israelitas que o interrogarem, e Deus responde primeiro a Moisés: « Eu sou aquele que sou. » É de antemão a definição do nome que vai ser pronunciado. Depois, tendo assim preparado seu interlocutor para compreender seu nome, ele lho revela: « Assim falarás aos filhos de Israel: Eu-sou envia-me a vós. » 14. Enfim, afirma que Javé é o nome do Deus dos pais e que este será doravante e para sempre seu nome próprio e característico, 15. O nome que o Deus dos pais assume e explica está contido nas quatro consoantes hebraicas יהוה, de onde lhe veio o nome grego tetragrammaton.

a) Pronúncia deste nome. — A leitura Jeová, à qual estamos habituados, é geralmente tida por inexata. Os rabinos modernos, no entanto, admitiram-na, e ela foi defendida por alguns eruditos, entre outros por Michaelis, Supplementa ad lexica hebraica, 1792, t. I, p. 524, por Drach, De l'harmonie entre l'Eglise et la Synagogue, Paris, 1844, t. I, p. 472-488, por J. H. Lévy, The Tetragrammaton, em Jewish quarterly Review, outubro de 1902, p. 97-99, e por Urquhart, Die Bücher der Bibel, Stuttgart, 1904, t. I, p. 24. Os rabinos encontravam nela a expressão simultânea do presente, do passado e do futuro. Ver Drach, op. cit., t. I, p. 319-333. Essa leitura supõe uma forma verbal monstruosa; é, pois, inadmissível. Pretende-se geralmente que ela é de origem moderna, e atribui-se a Galatino, que a teria posto em voga por volta de 1520. Ora, Galatino declarou que ela era conhecida e recebida em seu tempo. Arcana catholice veritatis, Paris, 1516, p. 77. De fato, era empregada no século XVI por todos os protestantes e por vários católicos. Dionísio Cartuxano (1402-1471) tomara-a emprestada no século XV a Nicolau de Lira e a Paulo de Burgos, Enarratio, in Exod., c. II, Opera, Montreuil, 1896, t. I, p. 521, 522. Porcheto, teólogo do início do século XIV, dela se servira. Cf. Drusius, Tetragrammaton, em Critici sacri, Amsterdã, 1698, t. Ib, col. 351. Enfim, Raimundo Martí, a quem Galatino copiou, empregava-a em seu Pugio fidei (escrito por volta de 1270), part. III, dist. II, cc. II, Paris, 1651, p. 448, 745, nota. Seja qual for sua origem, ela provém da união das vogais do nome Adonai com as consoantes יהוה. Os massoretas acrescentaram essas vogais, com as modificações tornadas necessárias pela diferença das consoantes, para sugerir a leitura Adonai, « o Senhor », que devia ser substituída ao nome inefável de Deus. É um qerî, « o que se deve ler », perpétuo, substituindo o ketîb, « o que está escrito ». Por respeito à sua transcendência, os judeus restringiram cada vez mais o uso do nome divino por excelência e acabaram por suprimi-lo inteiramente, preferindo pronunciar Adonai ou servir-se de שֵׁם, « o nome », que o substituía. Já os Setenta traduziram o tetragrama por Κύριος, que se tornou em latim Dominus e em português « o Senhor ». Josefo também, em seu relato da revelação divina no Horeb, não transcreve o nome divino revelado, porque essa transcrição é proibida. Ant. jud., I, XII, 4. Ver Drusius, Tetragrammaton, 8-10, em Critici sacri, Frankfurt am Main, 1696, t. VI, col. 2153-2155; Drach, op. cit., t. I, p. 350-365, 512-516.

A verdadeira pronúncia do nome inefável não é conhecida com certeza. Os antigos escritores profanos e eclesiásticos assinalaram pronúncias diferentes, que podem reduzir-se a três principais: Ἰαὴβέ (a pronunciar Javé), Ἰαώ ou Ἰαὼ e Ἰά ou Ἰα. — a. Ἀΐα: encontra-se em Clemente de Alexandria, Strom., V, 6, P. G., t. IX, col. 60; Clemens Alexandrinus, Leipzig, 1906, t. II, p. 348, sob as formas Ἰαούαι ou Ἰχους; em santo Epifânio, Her., XL, n. 5, P. G., t. XLI, col. 689; em Teodoreto, In Exod., q. XV, P. G., t. LXXX, col. 244, que o cita como usado entre os samaritanos; e num manuscrito etíope da Bodleiana, no fim de uma enumeração dos nomes divinos. Cf. Driver, Recent theories on the Tetragrammaton, em Studia biblica, Oxford, 1885, t. I, p. 20. — b. Ἰαὼ é representado por Diodoro da Sicília, I, 94, e por Lido, que o atribui a Varrão e a Herênio (Filo de Biblos). De mensibus, ed. Wuensch, p. 111. Santo Irineu, Cont. Her., I, XXI, 3, P. G., t. VII, col. 671 (ou 673), nomeia o éon Ἰαὼ dos valentinianos, que Tertuliano declara ter sido tomado da Escritura. Adversus valentinianos, cc. XIV, P. L., t. II, col. 565. Orígenes conhece esse vocábulo divino, pois interpreta o nome de Jeremias como Ἰαὼ. In Joa., tom. I, n. 1, P. G., t. XIV, col. 105; Origenes, Leipzig, 1903, t. IV, p. 53. Os Graeca fragmenta librinominum hebraicorum, atribuídos a Orígenes e supostamente traduzidos em latim por são Jerônimo, contêm esse nome, ao qual dão o sentido de « invisível », P. L., t. XXI, col. 1189-1190, assim como o Origenianum lexicon nominum hebraicorum. Ibid., col. 1225-1226. Teodoreto tomou-o de uma interpretação dos nomes hebraicos, que lhe dava o sentido de « ser ». Quaest. in Isaiam, praef., P. G., t. LXXXI, col. 208; Graec. affect. curatio, serm. II, De principiis, P. G., t. LXXXIII, col. 840. São Jerônimo o cita como um dos dez nomes divinos. Tractatus de ps. CXLVI, em Morin, Anecdota Maredsolana, Maredsous, 1897, t. IIb, p. 298. Em sua opinião, o nome inefável, que é o nome próprio de Deus, legi potest Jaho. Commentarioli in psalmos, Ps. VII, ibid., 1895, t. Ia, p. 20-21. O Breviarium in psalmos, falsamente atribuído a esse santo doutor, tomou dele essa afirmação. Ps. VII, P. L., t. XXVI, col. 838. A forma Ἰαὼ encontra-se, enfim, muito frequentemente nas pedras gravadas, ditas Abraxas. Ver Baudissin, Studien zur semitischen Religionsgeschichte, Leipzig, 1876, t. I, p. 185 e segs.; Driver, loc. cit., p. 8. Esta forma é provavelmente a transcrição do nome יהו, que entra na composição de nomes teóforos da Bíblia e que foi recentemente lida nos novos papiros de Elefantina. Ver Revue biblique, julho de 1908, p. 326-328. — c. Ἰά é atestado por Orígenes, que censura os ofitas por terem tomado seu Ἰά do יה dos hebreus. Cont. Celsum, l. VI, c. XXX, P. G., t. XI, col. 1345 (ver a nota); Origenes, Leipzig, 1899, t. II, p. 102 (onde se lê Ἰχωϊα). Esse escritor faz aí ainda uma alusão evidente, quando, no início do sl. II, a propósito de ἀλληλουία, diz que em toda parte onde se lê Ἰά (transcrição de Ἰά) no texto hebraico do Antigo Testamento, os gregos traduziram Κύριος. Selecta in psalmos, Ps. II, P. G., t. XII, col. 1104. São Jerônimo notou que a quinta versão das Hexaplas de Orígenes traduzira alleluia, laudate Ia, id est Dominum. Ia unum est de decem nominibus Dei. Commentarioli in psalmos, Ps. CXLVI, em Morin, op. cit., t. IIa, p. 99. Em seu Tractatus sobre o mesmo salmo, ibid., t. Ib, p. 293, assinala, entre os dez nomes divinos, o de Ia, que interpreta invisibilis. Reencontra-o em alleluia, allelu Ia, e relata que Teodocião, volens interpretationis edicere veritatem, ait aivette τον Ἰά. Ver também Epist., XXVI, ad Marcellam, n. 3, P. L., t. XXII, col. 230; Santo Epifânio, Her., XL, n. 5, P. G., t. XLI, col. 685, coloca Ἰά entre os nomes divinos e o traduz Κύριος. Teodoreto diz que os judeus nomeiam Deus Ἰά ou Ἰαβέ. In Exod., q. XV, P. G., t. LXXX, col. 244; Sobre as diferentes formas do nome divino nos papiros mágicos do Egito, ver A. Deissmann, Griechische Transskriptionen des Tetragrammaton, em Bibelstudien, Marburgo, 1895, p. 3-20. Os críticos modernos reconheceram geralmente que a leitura יהוה do Antigo Testamento e da estela de Mesa, lin.

18, devia pronunciar-se יהוה, que se transcreveu em francês Yahvé, ou Yahvéh, ou Jahweh, ou Iahveh, ou Iahvé. Alguns concluíram que essa era a única e autêntica pronúncia do nome inefável e que as outras formas Iao ou Jaou e Ia haviam sido extraídas dos nomes teóforos da Bíblia. Mas, encontrando-se a forma הוי empregada regularmente pela colônia judaica estabelecida em Elefantina antes da dominação dos persas, ela aparece doravante como uma forma nova do nome divino, e é dela que deriva a forma abreviada Iah. Ela coexistiu com יהוה, sem que se possa determinar qual das duas foi primitiva. Gramaticalmente, podem derivar uma da outra; poderiam, contudo, ser distintas, se יהוה é a forma indicativa (imperfeito kal) do verbo hebraico היה ou aramaico הוה « ser » e se יהו é a forma jussiva desse mesmo verbo.

b) Etimologia e sentido. — Essa origem é geralmente admitida hoje, e rejeita-se comumente a derivação de uma raiz árabe, significando « soprar » ou « cair », imaginada para fazer de Javé um deus da tempestade, que derrama a chuva ou lança o raio. Desde então, só se discute para saber se יהוה está na voz hifil ou na voz kal. No primeiro caso, esse nome teria o sentido de « aquele que dá o ser », o criador, ou aquele que faz « acontecer » os eventos ou suas promessas, o Deus providente e fiel à sua palavra. Mas a forma hifil desse verbo não existe em hebraico, e é arriscado recorrer a ela para explicar o nome divino. É melhor, pois, dar-lhe a forma indicativa com o sentido de « ser », que a tradição hebraica sempre lhe reconheceu. Admitida essa etimologia, resta determinar se esse nome designa o ser histórico ou o ser metafísico, o que Deus é para os outros ou o que ele é em si mesmo. Os protestantes são, em geral, do primeiro parecer. Uns tomam o sentido do futuro: « Serei o que serei », o que devo ser, vosso protetor, Êxo., iii, 12, ou o que quero ser, sendo o senhor absoluto de minha própria conduta. Arnold, The divine name in Exodus, iii, 14, em Journal of biblical literature, 1907, t. xxvi, p. 107-165. Os outros traduzem pelo presente. Segundo eles, o verbo היה exprime o ser em movimento, o ser que se torna, e o imperfeito indica uma ação começada, mas ainda incompleta. Para Oehler, Theologie des alten Testaments, Stuttgart, 1882, p. 142, Javé é o ser divino que entra em relações com os homens e especialmente com Israel e que se mostra constantemente, em sua intervenção histórica, aquele que é e aquele que é quem ele é. Reconhece-lhe, pois, a independência, a constância absoluta e a fidelidade às suas promessas. Cf. Baentsch, Exodus, Leviticus, Numeri, Gotinga, 1903, p. 23. Para Driver, loc. cit., p. 15; The book of Genesis, p. 407-408, Javé é aquele que é, não somente aquele que simplesmente existe, mas aquele que afirma sua existência e que, diferindo nisso dos falsos deuses, entra em relações pessoais com seus adoradores. Mas o segundo parecer, que dá a Javé o sentido do ser em si, é mais bem fundado. O verbo היה exprime o ser estável tanto quanto o ser em movimento, e o imperfeito hebraico se emprega para enunciar máximas gerais, fazendo assim abstração do tempo. Javé, aliás, nomeia-se a Moisés: « Eu sou », Êxo., iii, 14, e designa assim o que é em si mesmo, o ser por excelência, como vamos ver.

c) Significação desta primeira revelação. — A Moisés, que lhe pergunta seu nome, Deus responde: « Eu sou aquele que sou. » Esta primeira resposta assemelha-se a certas maneiras de falar que, na boca de Deus, Êxo., iv, 13; xxxiii, 19, marcam a independência suprema de quem fala, de tal modo que se poderia traduzi-la: « Eu sou quem eu sou. » Mas Deus, longe de declarar assim que é inominável, indica na frase seguinte que revelou seu nome verdadeiro, pois acrescenta: « Dirás aos filhos de Israel: Eu-sou me enviou a vós. » Eu sou exprime, pois, bem o que Deus é, que ele é o ser. Definindo-se a si mesmo, Deus devia dizer: « Eu sou aquele que é, eu sou. » Todavia, essa fórmula na primeira pessoa não podia reproduzir o nome de Deus no uso dos homens. Ao nomear Deus, os homens deviam exprimir seu ser na terceira pessoa. Por isso Deus, revelando enfim seu nome, chama-se יהוה. Este verbo significa: « Ele é », e tomado como substantivo: « Aquele que é ». Esta revelação mostra, pois, que Deus tem somente em si mesmo sua razão de ser nomeado e que a ideia de ser é a que melhor traduz sua própria natureza. Javé significa o ser absoluto, o ser metafísico, aquele em quem a essência e a existência se confundem, e indica o atributo da aseidade como característica da natureza divina. É inútil objetar que essa noção metafísica de Deus era demasiado abstrata para ser compreendida naqueles tempos primitivos. Não é necessário afirmar que os israelitas do século XIV antes de Jesus Cristo e que o próprio Moisés compreendessem perfeitamente a significação real do nome divino. Basta que o nome revelado tenha contido esse sentido, que foi mais tarde apreendido e compreendido na revelação feita a Moisés. Ver t. iii, col. 2046.

2. Segunda revelação. Êxodo, VI, 2-8. — Depois do insucesso de Moisés junto de Faraó e das recriminações dos israelitas oprimidos ainda mais em consequência dessa diligência, Êxodo, V, 1-21, Moisés se queixa a Deus da missão que lhe confiou, 22, 23, e Deus lhe responde que obrigará o faraó a deixar partir os israelitas. Êxodo, VI, 1. Depois, ele acrescenta: «Eu sou Jahvé. Ora, apareci a Abraão, a Isaac e a Jacó em qualidade de El-Saddai, mas sob meu nome de Jahvé, não me fiz conhecer a eles.» Êxodo, VI, 2, 3. Desse relato, que os críticos atribuem ao código sacerdotal, parece resultar que os patriarcas, dos quais no entanto Jahvé era o Deus, não o conheceram sob esse nome, e concluiu-se que, a partir de Moisés, esse nome, revelado pela primeira vez, substituiu o de El Saddai, anteriormente usado sozinho. Ora, essa afirmação não se harmoniza com o emprego anterior do nome de Jeová no Gênesis nem com o fato de que o nome novo entra em composição em nomes próprios anteriores ao Êxodo, ao menos naquele de Jocabede, mãe de Moisés. Êxodo, VI, 20; Núm., XXVI, 59. Resolveu-se essa dificuldade de diferentes maneiras. Vários comentadores católicos pensaram que o nome divino, revelado a Moisés pela primeira vez, foi empregado no Gênesis por prolepse ou antecipação, e que o nome de Jocabede não é primitivo; a mãe de Moisés se chamava Elicabede; mais tarde, quando o nome de Jahvé passou a ser usado, substituiu-se o nome divino El, que estava em composição, pelo de Jahvé, como o de Oseias foi mudado por Moisés no de Jesua. Núm., XIII, 8, 16. Cf. Franzelin, Tractatus de Deo uno secundum naturam, 2ª ed., Roma, 1876, p. 272. O P. de Hummelauer pensava que o nome de Jahvé foi introduzido no Gênesis por copistas, muito tempo depois de sua redação, e que era inteiramente desconhecido antes de sua revelação a Moisés. Commentarius in Genesim, Paris, 1895, p. 7-9. Ele mudou de opinião e admitiu que os patriarcas conheciam o nome de Jahvé e seu significado, mas que não sabiam que o próprio Deus o havia adotado como seu nome próprio. Commentarius in Exodum et Leviticum, Paris, 1897, p. 71, 73. O Sr. Hoberg, Moses und der Pentateuch, em Biblische Studien, Friburgo em Brisgau, 1905, t. X, fasc. 4, p. 50-52, admite também a permutação dos nomes divinos nas passagens do Gênesis em que são narradas revelações sobrenaturais, permutação feita pelo próprio Moisés ou pelos copistas posteriores. Cf. Die Genesis, 2ª ed., Friburgo em Brisgau, 1908, p. XXV-XXVIII. Isso não passa de uma hipótese, que não se verifica em toda parte, visto que há relatos de revelação sobrenatural nos quais o nome de Elohim foi conservado. O Sr. Hoberg não vê nisso senão uma inconsequência de aplicação. A prova da substituição não está feita. Outros exegetas pensaram que o nome de Jahvé era conhecido dos patriarcas, mas que estes ignoravam sua significação profunda, não tendo compreendido que o ser é o atributo característico de Deus. O sentido e o valor do nome divino foram revelados somente, no tempo do Êxodo, a Moisés e, por seu intermédio, aos israelitas. Cf. Cornely, Introductio specialis in historicos V. T. libros, Paris, 1887, t. I, p. 108-114. Mais recentemente, notou-se que, nesse relato, a antítese não está tanto entre dois nomes divinos quanto entre duas manifestações da divindade. Na época dos patriarcas, Deus se manifestara em qualidade de El-Saddai, porque cumulava seus adoradores de toda sorte de bens, enquanto no tempo de Moisés se manifestou como o Ser, o senhor de tudo o que existe, da terra inteira e de todos os povos. Isso não quer dizer que ele revelou seu nome ou explicou seu sentido. Esse nome era conhecido, assim como sua significação; mas Deus, por seus atos e sua conduta para com Israel, manifestou sua plena significação. Ao passo que, por sua maneira de agir com os patriarcas, se mostrava protetor benfeitor de sua família, doravante se mostrará, a respeito dos israelitas, o senhor do mundo, dispondo dos reinos e das regiões, repartindo a terra como bem lhe parece, privando os cananeus de seu território para nele introduzir seu povo escolhido. C. Robert, El-Shaddai et Jéhovah, em Le Muséon, 1891, t. X, p. 372-374; La révélation du nom divin Jéhovah, na Revue biblique, 1897, t. VI, p. 170-172. Justificou-se essa distinção entre manifestar-se sob um atributo particular e revelar ou explicar o nome por fórmulas análogas, usadas no Egito, F. Robiou, La révélation du nom divin Jéhovah à Moïse, na Science catholique, 1888, p. 618-624, e na própria Bíblia. A. Delattre, Sur un emploi particulier des mots «nom» et «nommer» dans la Bible, ibid., 1892, p. 673-687. Cf. Van Kasteren, Jahvé et El-Schaddai, ibid., 1894, p. 296-315. O P. Lagrange, primeiro sob o pseudônimo de Barns, La révélation du nom divin «tétragrammaton», na Revue biblique, 1893, t. II, p. 338-341 (a que se filiou o P. de Hummelauer, Commentarius in Exodum et Leviticum, p. 71), depois sob seu próprio nome, El et Jahvé, ibid., 1903, t. XII, p. 381-382, estabelece a antítese entre El-Saddai e Jahvé. Deus se manifestara aos patriarcas sob o nome divino El, comum a todos os semitas, e com a qualidade de Saddai como criador do céu e da terra. Quando escolheu um povo, manifestou-se e se fez reconhecer oficialmente sob o nome próprio e pessoal de Jahvé, como o Deus particular dos israelitas; e para evitar o perigo de ser considerado apenas como o Deus nacional de seu povo, adotou a denominação absoluta e universal de Ser, que convinha ao Deus absoluto e universal. Cf. P. de Broglie, Questions bibliques, p. 307-308.

2° Origem do nome. — Se o nome de Jahvé era conhecido antes da revelação que dele foi feita a Moisés, cabe perguntar de onde provém, se era propriedade exclusiva dos israelitas ou se estes o tomaram emprestado de um clã ou de um povo estrangeiro. Multiplicaram-se as hipóteses de empréstimo e fez-se derivar o nome de Jahvé de diferentes povos. Três dessas hipóteses ainda precisam ser discutidas. 1. Origem egípcia. — Tendo Moisés sido educado na sabedoria dos egípcios, Atos, VII, 22, era natural pensar que ele aprendera o nome de Jahvé no Egito. Se não se encontrou no panteão egípcio um nome semelhante ao de Jahvé, aproximou-se a fórmula: «Eu sou aquele que sou» daquela que se lê no Livro dos mortos: Nuk pu nuk, «eu, é eu», que pronuncia a alma, quando transpõe diversas passagens difíceis em sua viagem de além-túmulo através das diversas regiões dos infernos. Mas essa fórmula significa apenas: «Sou realmente eu», fulano, e não tem relação alguma com o Ser absoluto. O faraó não conhece Jahvé, Êxodo, V, 2, e o culto que Jahvé exige de seus adoradores teria sido uma abominação para os egípcios, Êxodo, VIII, 25-27, pois impunha o sacrifício de animais que os egípcios adoravam. 2. Origem quenita. — Segundo vários críticos, Tiele, Stade e Budde, Jahvé era primitivamente o deus local da montanha do Sinai ou do Horebe. Ali apareceu a Moisés na sarça ardente, Êxodo, III, 2 e ss.; ali Israel foi lhe oferecer sacrifícios, 12; ali se mostrou a todo o povo, Êxodo, XIX, 2-4; ali deu a lei a Moisés, Êxodo, XX, 22 e ss.; ali permaneceu enquanto Moisés, por sua ordem, introduzia seu povo na terra prometida, Êxodo, XXXIII, 1 e ss.; do Sinai veio socorrer esse povo na terra de Canaã, Deut., XXXIII, 2; Juízes, V, 5; Elias foi buscá-lo no Sinai. I (III) Reis, XIX, 8 e ss. Ora, essa montanha está situada na terra dos madianitas. Stade, Biblische Theologie des A. T., Tübingen, 1905, t. I, p. 29. Moisés deu esse deus como deus nacional às tribos nômades israelitas que havia tirado da suserania dos egípcios e que havia confederado. Elas o aceitaram porque estavam persuadidas de que esse deus as ajudara a sacudir o jugo egípcio, como mais tarde lhes deu a vitória sobre os amalecitas e os cananeus. Ibid., p. 31. Moisés, com efeito, encontrara Jahvé apascentando na região os rebanhos de seu sogro, o madianita Jetro, Êxodo, III, 1; esse sacerdote ofereceu sacrifícios a Jahvé em reconhecimento pela libertação dos israelitas, Êxodo, XVIII, 11, 12, e Aarão e os anciãos do povo participaram desse sacrifício: o que é um indício de que Israel aprendeu com Jetro a conhecer Jahvé. Jetro, chamado Hobabe, serviu de guia aos israelitas nas marchas e acampamentos no deserto. Núm., X, 29-32. Ora, Hobabe era um quenita, ou cineu, Juízes, IV, 11, e sua família se estabeleceu em Judá. Juízes, I, 16. Cf. I Reis, XXVII, 10; XXX, 29. Ela foi sempre bem tratada pelos israelitas, I Reis, XV, 4-6, e os recabitas, que dela descendiam, I Par., II, 55, permaneceram fiéis adoradores de Jahvé, IV Reis, X, 15, 16, ao mesmo tempo que continuavam a levar a vida nômade de seus antepassados. Jer., XXXV, 9, 10. Por outro lado, se o conselho de Jetro determinou a instituição dos juízes em Israel, Êxodo, XVIII, 13-27, pode-se pensar que o sacerdote de Madiã tinha feito conhecer a seu genro o deus que adorava, o deus do lugar que os israelitas habitavam e que, por consequência, segundo as ideias da época, eles próprios deviam honrar. Budde, Die Religion des Volkes Israel, Giessen, 1900, p. 15 e ss.; Baentsch, Exodus, Leviticus, Numeri, Gotinga, 1903, p. 24-25; Altorientalischer und israelitischer Monotheismus, Tübingen, 1906, p. 51-52, 67-77. Era um deus da natureza, o deus da tempestade ou da trovoada, e, segundo Baentsch, o deus lunar Sin.

Seu poder sobre os elementos lhe permitia reprimir vigorosamente as desordens. Seus atos de repressão do mal lhe fizeram atribuir um caráter moral e mais tarde uma santidade incompatível com as menores decadências. A. Réville, Jésus de Nazareth, Paris, 1897, t. 1, p. 13-17. Para R. Smend, Lehrbuch der alttestamentlichen Religionsgeschichte, 2ª ed., Friburgo em Brisgau, 1899, p. 34-36, Jahvé, o deus do Sinai, já era antes de Moisés o deus nacional dos israelitas, que habitavam desde muito antes do êxodo as vizinhanças do Sinai e que, ao se constituírem em nacionalidade pela reunião de diferentes tribos, tinham adotado o culto do deus da região. O Sr. Loisy, La religion d'Israël, Paris, 1901, p. 41-42, não se pronuncia entre os dois pareceres. Mas esses sistemas carecem de fundamento. Os cineus não habitavam no Sinai, visto que Moisés ali levou, talvez de longe, a apascentar os rebanhos de seu sogro e visto que este ali veio devolver ao genro Séfora e seus filhos. Êxodo, XVIII, 1-5. O Horebe é chamado a montanha de Deus antes da teofania da sarça ardente, Êxodo, III, 4, seja por antecipação, seja porque talvez já estivesse coroado por um santuário e assim indicado para ser o centro de reuniões religiosas. Ver Revue biblique, 1901, p. 500-501. Essa circunstância explicaria apenas por que Jahvé o escolheu por teatro de sua manifestação. Se Jetro é a mesma pessoa que Hobabe, ele opôs uma recusa enérgica às propostas que lhe fez Moisés de acompanhá-lo e guiar os israelitas no deserto, a fim de retornar ao seu país e para junto dos seus. Núm., X, 30. Aliás, os cineus habitavam a terra de Canaã, Gên., XV, 19, ao lado dos amalecitas e numa região rochosa. Núm., XXIV, 21, 22. Se uma fração da tribo se uniu aos israelitas e viveu em meio a eles, é mais provável que tenha recebido o culto de Jahvé, cf. I Par., II, 10, do que o tenha comunicado a estes, pois no Oriente jamais um povo forte aceitou a religião de uma tribo mais fraca. É, portanto, pura hipótese imaginar que Jetro tenha feito Jahvé conhecido de Moisés. O relato do sacrifício oferecido pelo sacerdote de Madiã, Êxodo, XVIII, 11, 12, significa que Jetro se associa ao culto israelita. Por outro lado, nada no Êxodo prova que os israelitas tivessem tido, antes de sua vinda ao Egito, algum vínculo com o Sinai. Quando Moisés pede ao faraó a autorização de ir oferecer a Jahvé um sacrifício no deserto, Êxodo, V, 3, não alega um antigo costume, mas a ordem de Deus, Êxodo, III, 12; para oferecê-lo era preciso sair do Egito, porque um sacrifício de animais, honrados naquele país, teria irritado os egípcios. Êxodo, VIII, 26. Se Jahvé se revelou a ele na sarça, isso se deu de repente, por uma manifestação inesperada, sem ligação prévia com o Sinai. Se conduziu os israelitas ao pé dessa montanha, Êxodo, III, 12, foi para libertá-los da servidão; e para essa obra operou prodígios no Egito em nome de Jahvé. Na bênção de Moisés moribundo, a palavra: «Jahvé veio do Sinai» significa apenas que Deus deu sua lei do alto do Sinai em meio a relâmpagos. Deut., XXXIII, 2. O salmista que dirá mais tarde que Jahvé veio do Sinai ao santuário de Jerusalém, Sal. LXVII (LXVIII), 18, lembra apenas ainda a proteção divina concedida a seu povo desde a partida do Sinai, 8-9, e diz mais adiante que esse Deus é transportado sobre os céus, 34. Em suma, nem Moisés nem os israelitas jamais souberam que seu Deus era o deus do Sinai, e que seus antepassados tinham adotado um deus local para dele fazer seu deus nacional. Cf. Dillmann, Handbuch der alttestamentlichen Theologie, Leipzig, 1895, p. 103. 3. Origem assírio-babilônica. — As duas formas do nome divino, Jaú e Jahvé, foram encontradas nos documentos babilônicos do tempo de Hamurabi. Entram em composição em nomes teóforos. Jaú, no início ou no fim desses nomes, é sempre traduzido em assírio por ia-u. Assim, o nome Ia-u-um-ilu corresponde a Iaú-el ou Joel. Do mesmo modo, nos contratos, encontraram-se outros nomes, tais como Ia-pi-ilu e Ia-pi-ilu, que contêm certamente a transcrição de Jahvé, pois o signo pi é ordinariamente pronunciado wi, como prova o código de Hamurabi. A ausência do determinativo, que indica a divindade, não é razão para negar que o primeiro elemento desses nomes era divino. Cf. F. Delitzsch, Babel und Bibel, Leipzig, 1902, p. 47; Ed. König, Bibel und Babel, Berlim, 1902, p. 37-45; Schrader, Die Keilinschriften und das Alte Testament, 3ª ed., Berlim, 1903, p. 468. Todavia, a leitura desses dois nomes ainda não é totalmente segura. Cf. S. Daiches, Könnt das Tetragrammaton (יהוה) in den Keilinschriften vor? em Zeitschrift für Assyriologie, novembro de 1908, p. 125-136; J. Nikel, Der Ursprung des alttestamentlichen Gottesglaubens, p. 32. Em nomes análogos, cujo primeiro elemento é certamente um nome de deus, tal como Aku-ilum (Aku é deus), falta o determinativo da divindade. Ora, enquanto o nome babilônico Jaú se apresenta gramaticalmente como um substantivo em razão da forma indeterminada um, a outra forma Ia-wi é verbal (forma que se encontra em muitos outros nomes), com a preformante ia. Isso prova que não são babilônicos, mas que pertencem ao grupo setentrional ou ocidental das línguas semíticas (cananeia, aramaica e árabe). Cf. P. Lagrange, Encore le nom de Jahvé, na Revue biblique, 1907, p. 383-386. Conhece-se também pelas inscrições assírias um rei de Hamate, que é chamado ora Iaubidi, ora Ilu-ibi'di. Disso resulta que Ilu e Iau são sinônimos e que Iau é um deus, pois esse nome é precedido do ideograma divino. Mas essas inscrições são do século VIII, e o nome real que elas apresentam pode provir da influência israelita num reino vizinho. Se assim for, deve-se concluir legitimamente que o nome divino, sob suas duas formas Jaú e Jahvé, já era conhecido antes de Moisés na Babilônia. Não se pode, todavia, concluir daí que o deus assim chamado pertencesse ao panteão babilônico, como o fez Hommel, dizendo que o nome de deus A-A devia pronunciar-se Ai ou Ja, e que designava o deus de Eridu. Além de que a identidade dessa divindade não foi provada, a forma Iaú, aproximada de Ia-wi, não pode mais ser a forma nominativa de Ia, e a suposição de Hommel carece de fundamento. Aliás, o nome hebraico יהוה não pôde ser tomado de empréstimo dos babilônios, pois os hebreus ou os arameus jamais teriam acrescentado o h que falta na Babilônia. Ele falta mais provavelmente porque os babilônios negligenciaram transcrevê-lo ao escrever um nome estrangeiro. O nome de Jahvé e de Jaú era, portanto, para eles, o de um deus estrangeiro, de um deus dos semitas ocidentais, cananeus ou arameus. 4. Origem cananeia. — Max Müller, Asien und Europa, 1898, p. 162, 312, 318, e Winckler, Geschichte Israels, t. 1, p. 36 e ss., reconhecem em Jahvé um deus cananeu. O primeiro fundava sua opinião na presença de uma localidade da Palestina, chamada Bai-ti-ya, «casa de Ia», numa lista de Tutmés III. Provamos acima que os israelitas conheciam Jahvé antes de sua entrada na terra de Canaã, e é totalmente inverossímil que Jahvé, se tivesse sido primitivamente um deus dos cananeus, se tivesse tornado, como o é na Bíblia, adversário das tribos cananeias e de seus ídolos. A forma יהוה, se deriva de היה, não pode vir dos cananeus, que, já desde o tempo das cartas de El-Amarna, se serviam, como os hebreus mais tarde, de אֶל. Os fenícios exprimiam a ideia de ser por אִית. Enfim, esse nome não se encontra em parte alguma com certeza nas cartas de El-Amarna, e a forma ya, assinalada por Max Müller numa transcrição egípcia, talvez não represente muito bem o nome divino. Sellin invoca o nome de Jah, encontrado recentemente em Jericó, gravado numa cântara cananeia, Die alttestamentliche Religion im Rahmen der anderen orientalischen, Leipzig, 1908, p. 61. Cf. J. Nikel, op. cit., p. 33. Embora o nome de Jahvé tenha tido uma ampla difusão no mundo semítico e talvez na Palestina já desde o século XVI antes de nossa era, ele não é de origem cananeia, e por sua forma deriva antes da língua aramaica. 5. Origem aramaica. — Ela resulta, pois, já da etimologia, vindo da raiz aramaica הוה, e da forma aramaica do nome divino. É confirmada pelo uso desse nome na família de Naor. Eliezer o emprega junto a Labão, quando pede a mão de Rebeca para Isaac. Gên., XXIV, 31, 50, 51. Labão, embora idólatra, toma Jahvé, o Deus de Abraão e de Naor, como juiz de seus compromissos com Jacó, Gên., XXXI, 49, 53, e notou-se que o autor jeovista, a quem se atribuem esses relatos, tem o cuidado de não colocar o nome divino nos lábios dos homens que não pertencem à raça escolhida. Se ele é aramaico de origem, esse nome não era, portanto, um enigma para a família de Taré. Mas se Jahvé já era conhecido dessa tribo, não se poderia fazer remontar o fato desse conhecimento até Sem, de quem Jahvé era o Deus, Gên., IX, 26, até Enos, em cujo tempo se começou a invocar Jahvé pelo seu nome? Gên., IV, 26. Se a revelação desse nome divino não teve lugar pela primeira vez no Sinai, ela teria sido feita anteriormente à humanidade primitiva e se teria conservado na descendência de Sem e de Abraão. O Sr. Doller, Bibel und Babel, Paderborn, 1903, p. 11, pensa, no entanto, que os homens puderam, com o auxílio das criaturas, conhecer o ser em si e dar-lhe o nome de Jahvé como nome próprio, e o P. Hetzenauer, Theologia biblica, Friburgo em Brisgau, 1908, t. 1, p. 376-377, aprova esse parecer. J. Drusius, Tetragrammaton, em Critici sacri, Francoforte do Meno, 1696, t. VI, col. 2141-2180; J. Corluy, Spicilegium dogmatico-biblicum, Gand, 1884, t. I, p. 97-142; G. d'Eichthal, Sur le nom et le caractère du Dieu d'Israël Jahvé, em Mélanges de critique biblique, Paris, 1886, p. 35-81; Barns (Lagrange), La révélation du nom divin «tétragrammaton», na Revue biblique, 1893, t. II, p. 328-350; Robert, La révélation du nom divin Jéhovah, ibid., 1894, t. II, p. 164-181; F. de Hummelauer, Commentarius in Exodum et Leviticum, Paris, 1897, p. 47-52, 70-74, 548; F. Prat, Jéhovah (nom), no Dictionnaire de la Bible do Sr. Vigouroux, t. III, col. 1220-1234; P. Lagrange, El et Jahvé, na Revue biblique, 1903, p. 370-386; Driver, Recent theories on the Tetragrammaton, em Studia biblica, Oxford, 1885, t. 1, p. 1 e ss.; The book of Genesis, Londres, 1904, p. 407-409; M. Hetzenauer, Theologia biblica, Friburgo em Brisgau, 1908, t. I, p. 374-382; Realencyclopädie, de Hauck, t. VIII, p. 529-541; Encyclopedia biblica, de Cheyne, t. II, col. 3320-3323. Natureza e atributos de Jahvé para Moisés e os israelitas de seu tempo. — 1. Segundo os livros do meio (Êxodo, Levítico, Números). — Se, com os críticos racionalistas, distinguem-se aí três documentos, para o jeovista, ver Baentsch, Exodus, Leviticus, Numeri, p. XVIII-XX, para o eloísta, ibid., p. XXXI-XXXII, e para o código sacerdotal, ibid., p. XLIV-XLV. Cf. E. Mangenot, L'authenticité mosaïque du Pentateuque, Paris, 1907, p. 55-56, 83-85, 442-444. Mas, considerando esses três livros como obra de Moisés, encontra-se neles uma doutrina sobre Deus, que tem seu ponto de partida na revelação do Sinai e que está de acordo com ela. Jahvé, o Deus dos pais, tendo-se manifestado a Moisés como o Ser por excelência, o Ser em si, tem todos os atributos do verdadeiro Deus. Ele é o Deus único, que quer para si somente o culto de seu povo e que proíbe rigorosamente a seus adoradores honrar outros deuses e fazer para si qualquer ídolo, de qualquer forma e de qualquer matéria. Êxodo, XX, 3, 5, 23; XXIII, 13; XXXIV, 14, 17. Ordena destruir os altares dos deuses cananeus e proíbe aliar-se aos habitantes idólatras da Terra prometida, a fim de evitar o contágio da idolatria. Êxodo, XXIII, 24; XXXIV, 12-16. É um Deus poderoso e ciumento, Êxodo, XX, 5; XXXIV, 14; não tolera em Israel outro deus além dele, como o esposo que não quer que outro tenha parte no amor de sua esposa. Pune a iniquidade dos pais até a terceira e a quarta gerações, mas sua misericórdia se estende até mil gerações sobre os que o amam e observam seus preceitos. Êxodo, XX, 5, 6. Ele odeia o ímpio. Êxodo, XXIII, 7. Formou o homem, e criou o surdo e o mudo, o cego e o vidente. Êxodo, IV, 11. É o Deus universal, e age no Egito, sobre as forças da natureza, para mostrar que é o senhor da terra inteira. Êxodo, IX, 29. Manifesta também sua soberania universal dispondo dos bens dos egípcios, Êxodo, III, 21, 22, e da terra de Canaã em favor dos israelitas e por fidelidade às promessas que fizera a seus pais. Êxodo, III, 8, 17; VI, 8. Regula a sorte das tribos cananeias. Êxodo, XXIII, 27-33; XXXIV, 24. Escolhe especialmente Israel para seu povo e faz dele seu primogênito. Êxodo, IV, 22. Por isso se interessa por sua sorte penosa no Egito e o tira da servidão, Êxodo, II, 7, 10, 16, 17, operando golpes de poder para decidir Faraó a deixar sair os israelitas, 19, 20; VI, 6; VII, 4, 5. Intervém assim nos acontecimentos da história, e pelos prodígios que realiza, mostra-se o senhor dos elementos, que faz servir a seus desígnios. As pragas do Egito são ao mesmo tempo represálias de sua vingança sobre os opressores de Israel e marcas de sua soberania. Êxodo, VII, 17; VIII, 22; IX, 14-16; XIV, 4, 31. Ele será doravante o Deus de Israel, Êxodo, VI, 7, que será seu povo. Êxodo, XIX, 4-6. Jahvé não é, portanto, a divindade abstrata; é o Deus vivo, que se ocupa dos homens e rege os destinos de Israel. Por isso guiava esse povo, Êxodo, XIII, 21, 22; combatia por ele, XIV, 14. Assim, depois da passagem do mar Vermelho, Moisés celebra a onipotência, a santidade e a bondade do Salvador de Israel. Êxodo, XV, 3-13. A providência especial de Deus sobre seu povo se manifesta durante toda a permanência deste no deserto, apesar de suas ingratidões e de suas revoltas reiteradas. Deus lhe dá uma legislação religiosa, moral e social. Promete-lhe protegê-lo se lhe for fiel e introduzi-lo na Terra prometida, cujos limites fixa. Êxodo, XXIII, 20-33. Faz um pacto solene com ele. Êxodo, XXIV, 7, 8. Israel obedecerá a todas as ordens de seu Deus.

Depois de uma primeira infidelidade desse povo de dura cerviz, Êxodo, XXXI, 9; XXXIII, 5, que adorara o bezerro de ouro, Deus, que é misericordioso, paciente e fiel à sua palavra, Êxodo, XXXIV, 7; Núm., XIV, 18, renova solenemente o pacto violado. Êxodo, XXXIV, 10, 27. Os israelitas, várias vezes revoltados, são punidos, sobretudo no deserto de Farã, onde, depois de uma revolta geral, Deus priva da entrada na Palestina toda a população que tinha 20 anos ou mais. Núm., XIV, 28-35. Essa punição severa sucede a perdões de sedições menos graves. Deus era mais paciente, Núm., XIV, 18, do que Moisés, que se queixava amargamente a ele de um povo indócil, que lhe pesava. Núm., XI, 10-15. Quando os 40 anos de penitência no deserto se completaram, Deus fez milagres para ajudar seu povo a chegar às fronteiras da terra de Canaã e a ocupar a parte oriental da região, que lhe destinara. Regulou até os direitos da conquista e os limites do país a conquistar. Núm., XXI, 10; XXXIV, 15. Esse Deus invisível se manifestava, sob formas sensíveis, a Moisés na sarça ardente; o lugar de sua manifestação era santo por esse mesmo fato, e Moisés velava o rosto para não ver o Senhor. Êxodo, III, 2-6. No Sinai, mostrou-se ao povo na nuvem, em meio ao trovão e aos relâmpagos. Êxodo, XIX, 9, 16-18. O povo ouvia sua voz, mas não o via. Somente uma parte dos anciãos pôde inicialmente contemplá-lo, sob formas exteriores. Êxodo, XXIV, 9, 10. Israel inteiro viu depois a glória de seu Deus, que apareceu sobre o Sinai como um fogo brilhante em meio a uma nuvem, 15-17. Deus se manifestava no tabernáculo da aliança numa coluna de nuvem, Êxodo, XXXIII, 9-11. A maior parte das leis foi dada por Deus, falando diretamente a Moisés. Contudo, o próprio Moisés não vira a face do Senhor. Pediu a Deus que lhe mostrasse sua glória; mas Jahvé, reconhecendo embora que era clemente e misericordioso para com quem lhe apraz, declarou a seu enviado que ninguém poderia ver sua face sem morrer, e concedeu-lhe apenas, na fenda do rochedo, vê-lo passar por trás, tanto quanto o permitisse o afastamento momentâneo de sua mão que o encobria. Êxodo, XXXIII, 13-23. Foi para Moisés um privilégio único falar com Deus boca a boca e publicamente; os profetas só ouvirão Deus por enigmas e por figuras, em visão ou em sonho. Núm., XII, 6-8. Deus falava de noite a Balaão. Núm., XXII, 8, 20. Em suas relações com os homens, Deus às vezes age à maneira dos homens e experimenta os mesmos sentimentos que eles. Investe contra Moisés e quer matá-lo, Êxodo, IV, 24; quebra as rodas dos carros egípcios, Êxodo, XIV, 25; escreve com seu dedo o decálogo em tábuas de pedra. Êxodo, XXXI, 18; XXXII, 16. Irrita-se contra Moisés, Êxodo, IV, 14, e contra o povo culpado, e se deixa aplacar pela intervenção de Moisés. Êxodo, XXXII, 10-14; Núm., XI, 1-3; XVI, 46-48; XXV, 3. Deus se irrita também contra Maria e Aarão. Núm., XII, 9. Faz juramentos. Núm., XIV, 23; XIV, 17. Deus rege a conduta dos homens e impõe aos israelitas regras morais pela promulgação do decálogo. Êxodo, XX, 1-17. No pequeno código de santidade, ordena aos israelitas que não imitem os egípcios e os cananeus, mas que observem as regras que lhes traçou, porque é seu Deus. Lev., XVIII, 1-5; XX, 26; XXII, 31-33. Impõe a santidade exterior, porque ele mesmo é santo. Lev., XIX, 2. Suas leis morais são seguidas de sua assinatura: «Eu sou Jahvé; eu sou Jahvé vosso Deus.» Lev., XVIII, 6, 21, 30; XIX, 3, 10, 12, 14, 16, 18, 25, 28, 30, 31, etc. Ele mesmo santifica seus adoradores fiéis, Lev., XX, 8, e seus sacerdotes, Lev., XXI, 8, 15; XXII, 16. Vela pela observação dos preceitos positivos e faz punir de morte um israelita que violara o repouso sabático. Núm., XV, 32-36. No deserto os israelitas são abençoados ou punidos conforme tenham sido fiéis ou infiéis às suas prescrições. Deus não estende apenas sua providência sobre o povo inteiro, ocupa-se também da conduta dos indivíduos. Pune Maria e Aarão, Núm., XII, 1-15, Coré, Datã e Abirão, Núm., XVI, 1-4, o próprio Moisés e Aarão. Núm., XX, 12, 13. Se endurece o coração de Faraó, Êxodo, IX, 12; X, 1, 20; XI, 10; XIV, 8, é porque se tem o direito de lhe atribuir um efeito que ele quis diretamente, Êxodo, IV, 21; VII, 3; XIV, 4, 17, e que se realizou pelo jogo dos acontecimentos, dirigido por ele mesmo. Êxodo, VI, 13.

2. No Deuteronômio. — Moisés insiste aí na unidade de Deus, e estabelece como princípio, para o futuro, a unidade de santuário. Deut., xii, 4-8. Ver col. 661-662. Conclusão. — O verdadeiro monoteísmo: «Não há senão um Deus e ele é um Deus», que é o apanágio próprio e exclusivo do povo judeu na Antiguidade, não é, portanto, como muitos hoje pretendem, criação dos profetas de Israel. Foi dado a esse povo por Moisés, seu fundador, e o monoteísmo de Moisés é absoluto. Este legislador não estabeleceu, portanto, em Israel nem a monolatria nacional, como se Jahvé não fosse senão o deus único e particular desse povo, nem o javismo, culto do Deus nacional. Ele não parou a meio caminho, tendo instituído um monoteísmo nacional e prático, como pensa o Sr. Baentsch, Altorientalischer und israelitischer Monotheismus, p. 77-94. Ele atingiu o monoteísmo teórico e perfeito, condenando definitivamente o politeísmo. Os israelitas, misturados a povos idólatras, bem puderam permanecer fortemente inclinados à idolatria e ter sido infiéis à fé monoteísta, ainda em vida de Moisés e depois de sua morte; o monoteísmo existia entre eles, e Deus tinha realizado grandes milagres para instituí-lo definitivamente em seu povo escolhido, depositário de sua revelação. Os profetas reconduzirão seus contemporâneos a essa revelação primeira, que hão de recordar; depurarão e elevarão as ideias populares, pregando a unidade de Deus e lutando contra a idolatria; não terão de inaugurar uma doutrina que já havia ressoado diante de Israel desde as alturas do Sinai. Cf. König, Bibel und Babel, Berlim, 1902, p. 45-47.

IV. DE MOISÉS AOS PROFETAS DO SÉCULO VIII. — Segundo a teoria dominante entre os críticos racionalistas, é o javismo popular que caracteriza a religião de Israel durante esse período. Esse povo considera Jahvé como seu Deus nacional, mas reconhece como verdadeiros deuses os deuses das outras nações e por vezes os honra a esse título. Em suma, a monolatria, estabelecida por Moisés, teria reinado até o século viii. Vejamos se essa teoria corresponde aos fatos narrados na Bíblia.

1° Sob Josué. — Josué, escolhido por Deus para suceder a Moisés, Num., xxvii, 12-23; Deut., xxxi, 1-8, 14-23; xxxiv, 9, continua com a proteção divina a missão do legislador israelita, conquistando e repartindo entre as tribos a terra prometida. Jos., i, 4-9. Jahvé, cuja sede não está fixada no Sinai, lhe fala e o protege. Raab, que soube das maravilhas realizadas por ele em favor de Israel, sabe que ele é o Deus do céu e da terra, e confia num juramento feito em seu nome. Jos., ii, 8-14. Para Josué, Jahvé vive no meio de seu povo; é o Deus de toda a terra e realiza milagres em favor dos seus. Jos., iii, 5-10. O monumento de pedras, erguido em Gálgala após a passagem miraculosa do Jordão, devia recordar a toda a posteridade dos israelitas e a todos os povos da terra o poder de Jahvé e a obrigação de reverenciá-lo. Jos., iv, 19-25. A tomada de Jericó foi um novo indício de que o Senhor estava com Josué. Jos., vi, 27. Deus pune uma desobediência às suas ordens, Jos., vii, 10-18, e entrega o rei de Hai nas mãos de Josué. Jos., viii, 1, 7, 18. Os gabaonitas, tendo sabido do que Jahvé fizera por Israel no Egito e na margem oriental do Jordão, querem se aliar aos israelitas. Jos., ix, 9, 10. Estes observam rigorosamente um juramento, prestado em nome de Jahvé, embora tenha sido obtido por fraude. Jos., ix, 18-20. Deus entrega a Josué os reis cananeus, Jos., x, 8, 19, 30, 32, e entregará do mesmo modo aos israelitas todos os seus inimigos, 25. Ele combatia com Israel, 42. Cf. xi, 8. Havia endurecido os corações de todos os cananeus, para que, tendo eles mesmos atacado os israelitas, não merecessem nenhuma misericórdia e perecessem como ele o queria. Jos., xi, 20. Assim cumpriu a palavra que dera aos patriarcas. Jos., xxi, 41. As tribos situadas a leste do Jordão deviam cumprir os preceitos divinos, amar o Senhor seu Deus e servi-lo de todo o coração e de toda a alma. Jos., xxii, 5. Ao erguer um altar, não pretendiam transgredir as ordens de Jahvé, 10-34. Josué, antes de morrer, reúne as tribos em Siquém, recorda-lhes os atos e as promessas de Deus e recomenda-lhes que evitem a idolatria, que amem o Senhor e que não se aliem aos cananeus por medo de perversão. Jos., xxiii, 1-16. Deus expõe aos israelitas reunidos tudo o que fez por seus pais e por eles. Visto que tirou Abraão da idolatria, devem rejeitar os deuses estrangeiros e servi-lo só a ele. Dá-lhes a escolher entre ele e os deuses, e todos escolhem o serviço de Jahvé. Jos., xxiv, 2-18. Josué recorda à multidão que Jahvé é um Deus santo, poderoso, ciumento, vingador dos crimes e especialmente da idolatria, mas benfeitor daqueles que o servem. Toma-os todos por testemunhas de sua livre escolha. Todos rejeitam solenemente os deuses estrangeiros e se comprometem a servir só a Jahvé e a obedecer aos seus preceitos. Um monumento foi erguido como testemunho perpétuo desse compromisso público, 19-27. Portanto, em Israel não havia lugar para o culto dos deuses estrangeiros e Jahvé era o único Deus, a quem toda a nação devia render homenagens. Em princípio e em direito, era o monoteísmo absoluto como sob Moisés.

2° Sob os Juízes. — Na verdade, a fé monoteísta sofreu em Israel numerosos eclipses, e a história dessa época resume-se numa série de infidelidades a Jahvé e de retornos ao Deus único, que permitira o castigo dos culpados. Israel serviu a seu Deus durante toda a vida de Josué e enquanto viveram os anciãos que o haviam conhecido e que tinham visto as maravilhas realizadas por Deus em seu tempo. Jud., ii, 7. A nova geração, que não fora testemunha dessas maravilhas, abandonou Jahvé, entregou-se à idolatria e serviu os Baalins e as Astarot. Jud., ii, 10-13. A causa dessa infidelidade estava nas alianças concluídas, apesar das proibições de Deus, pelos israelitas com os cananeus idólatras que haviam permanecido no meio deles por vontade divina. Jud., iii, 4-5. Deus, irritado contra os culpados, entregava-os nas mãos de seus inimigos para castigá-los de seus crimes. Na aflição, os israelitas reconheciam suas culpas e voltavam a seu Deus. Este suscitava juízes, que libertavam as tribos da opressão cananeia e as mantinham no culto do verdadeiro Deus. Após a morte dos juízes, os israelitas recaíam na idolatria. Jud., iii, 10-19. Em sua ira, Deus manteve na Palestina tribos cananeias que deveriam ter sido exterminadas, e elas continuaram a servir de ocasião de idolatria aos filhos de Israel. Jud., ii, 20-iii, 6. Estes fatos resumem a história de Israel, tal como o autor do livro dos Juízes a apresenta. Contudo, a infidelidade não era nem geral nem absoluta. Nem todas as tribos apostatavam ao mesmo tempo, e Jahvé sempre teve fiéis adoradores. O contágio idolátrico só atingia algumas delas, e logo até a desgraça reconduzia os culpados ao culto do verdadeiro Deus. O objetivo do escritor foi mostrar, por exemplos históricos, que a infidelidade a Jahvé sempre foi punida, para daí concluir que Jahvé é o único Deus de Israel e que seu culto constitui a verdadeira religião. Os fatos narrados não são senão episódios escolhidos. Este livro, portanto, não nos dá senão a filosofia religiosa da história de Israel durante esse período.

Estes relatos isolados contêm, no entanto, além disso, alguns traços que caracterizam o Deus de Israel. A unidade da arca da aliança, como símbolo da presença de Jahvé entre os israelitas, é um fato monoteísta, e a ausência de imagem na arca, um indício da proibição de toda forma idolátrica. O poder de Deus sobre a natureza é celebrado no cântico de Débora, por alusão a fatos anteriores da história de Israel. Jud., v, 4, 5. Concluiu-se desta passagem que Jahvé habitava o Sinai e que dali viera, passando por Edom, para socorrer Israel, sob a forma de uma tempestade. Mas, no estado atual do texto, o próprio Sinai é uma das montanhas que tremiam quando Jahvé se pôs em marcha. Alguns críticos pensam que a menção do Sinai é uma glosa, tomada emprestada do Ps. lxvii (lxviii), 9. P. Lagrange, Le livre des Juges, Paris, 1903, p. 81-83. A vitória de Baraque sobre Sísara lhe é atribuída. Foi, de sua parte, uma obra de justiça e de bondade, 41. Por vontade divina, as próprias estrelas, do alto do céu, combateram contra Sísara, 20. Isso não quer dizer que tenham tomado parte no combate por meio de uma tempestade extraordinária, mas simplesmente que a natureza tomou parte na luta. P. Lagrange, op. cit., p. 97-98. A causa de Jahvé estava nisso empenhada, e o poeta amaldiçoa os que não vieram defendê-la, combatendo por ele e sob suas ordens, 23. Ibid., p. 100. Este poeta deseja que todos os inimigos de Jahvé pereçam como Sísara, e que os que amam o Senhor brilhem como o sol ao nascer, 31. A religião de Jahvé exigia, portanto, o amor de Deus.

Na história de Gedeão, Jahvé envia aos israelitas um profeta para lhes censurar o tê-lo esquecido e para lhes lembrar que fez sair seus pais do Egito, que os livrou de todos os seus inimigos e que é o seu Deus, vi, 8-10. À lembrança da mesma libertação do Egito, Gedeão se admira de que Jahvé não intervenha para salvar os seus da opressão midianita, vi, 13. O anjo lhe anuncia precisamente o socorro de Jahvé e lhe confia a missão de derrotar os midianitas, 14-16. Dá-lhe um sinal, 17-21. Gedeão teme morrer, por ter visto o anjo de Jahvé; Jahvé o tranquiliza, 22, 23. Ordena a Gedeão que derrube o altar de Baal e que lhe erga, em seu lugar, um altar a si mesmo. Gedeão executa essa ordem de noite. Os habitantes do lugar queriam matá-lo, mas seu pai declara que Baal, se é deus, se defenderá sozinho, 27-32.

Para mostrar seu poder, Jahvé quer vencer Madiã com 300 homens, e reduz o exército de Gedeão a esse pequeno número, vii, 2-8. Ele lhes entregou o acampamento dos midianitas, sem golpe desferido, 9-23. Os israelitas ofereceram a Gedeão, seu salvador, a realeza, que ele recusou, dizendo: «É Jahvé quem é o vosso senhor.» Jud., viii, 22, 23. Com os anéis de ouro que retirou do despojo, Gedeão fez um éfode, decerto não uma imagem de Jahvé, mas antes um instrumento divinatório, para dar oráculos em nome de Jahvé; depois de sua morte, esse objeto de culto tornou-se, para os israelitas, causa de idolatria, 27, 28, cf. 33-35.

No início da história de Jefté, Deus parece cansar-se das recaídas contínuas dos israelitas na idolatria e ameaçá-los com uma ruptura definitiva, em razão do progresso do mal. O arrependimento reiterado e a conversão generosa dos filhos de Israel excitaram a compaixão divina por seus sofrimentos, x, 10-16. Os anciãos de Galaad tomaram Deus por testemunha de seu juramento, quando reconheceram Jefté como chefe, xi, 10. Jefté declara aos amonitas que os israelitas ocuparam o país dos amorreus por vontade de Jahvé. Por conseguinte, os amonitas não têm direito de retomar o país conquistado. Acaso não possuem eles legitimamente as regiões que seu deus Camos tirou de seus possuidores? xi, 15-24. Essa linguagem diplomática não é uma profissão de fé na divindade de Camos. Se não se pode dizer que, para Jefté, Camos era um ídolo vão que nada podia possuir, tampouco se pode pretender que Jefté colocasse esse deus no mesmo plano que Jahvé. Ele raciocina segundo as ideias comuns da época e parte de princípios admitidos por seus contraditores. Cada um tem, pois, direito de aproveitar as vitórias de seu deus. Ora, Jahvé não combateu pelos amonitas, que nada têm a reclamar do país conquistado sobre os moabitas. Ao falar das vitórias obtidas por Camos, Jefté não pretende limitar o poder de Jahvé, visto que não se trata dos direitos do mais forte. Os direitos de Israel de ocupar o país conquistado são indiscutíveis, e os adversários devem respeitá-los. É tudo o que diz Jefté, que não estabelece uma comparação entre Jahvé e Camos. P. Lagrange, op. cit., p. 199-200. De resto, ele considera Jahvé como juiz da contenda, xi, 27. O Deus de Israel é juiz dos povos. No caso particular, ele não combaterá apenas por seu povo, decidirá entre as duas nações em conflito. Jefté não fala mais de Camos e não recorre a seu arbitramento. Ibid., p. 203, 215. Por isso o espírito de Jahvé veio sobre Jefté, que vota em sacrifício a seu Deus a primeira pessoa que sair de sua casa para vir ao seu encontro após a vitória sobre os amonitas, xi, 29-31. Tendo Jahvé entregado os inimigos, 32, Jefté executa seu voto na pessoa de sua filha única, que aceita ser a vítima de um voto imprudente e brutal, 34-40. Deste fato não se pode concluir que Jahvé não tenha todo o horror ao sangue que se poderia esperar de um Deus justo e bom. Seria dar importância demais a um fato particular. Jefté votou a Jahvé uma vítima humana, e parece que deixou a escolha a Deus, árbitro dos acontecimentos; cria, portanto, que seu Deus aceitava tais vítimas. Se, após a vitória, imola sua própria filha, com o pleno consentimento desta, é porque ambos reconheciam a obrigação de cumprir um voto, mesmo imprudente e cruel. Jefté é um aventureiro; embora apareça como um fiel servo de Jahvé, viveu numa época turbulenta e antes que as ideias morais, contidas no culto de Jahvé, tivessem recebido seu pleno desenvolvimento e exercido sua completa influência sobre um povo ainda rude. P. Lagrange, op. cit., p. 215-217.

Manué, pai de Sansão, oferece um sacrifício a Jahvé, que realiza milagres. Jud., xiii, 19. Teme morrer, por ter visto a Deus, mas sua mulher o tranquiliza, pois se Jahvé tivesse tido a intenção de os fazer morrer, não teria agido para com eles como acabara de fazer, 22, 23. Jahvé quer o casamento de Sansão com uma filisteia como um meio de chegar a seus fins contra os filisteus, xiv, 4. De resto, os atos de Sansão são em sua maioria atribuídos a uma forte ação do espírito de Jahvé sobre ele, xiv, 6, 19; xv, 14. Jahvé opera um milagre para saciar a sede de seu herói e atender à sua oração, xv, 18, 19. Jahvé, de quem ele era nazireu, xvi, 17, era considerado a causa imediata de sua força, visto que esta o havia abandonado assim que a navalha cortara a cabeleira do herói, 20. A fim de se vingar dos filisteus, Sansão pede a Jahvé que lhe conceda, por mais uma vez, forças suficientes para abalar as colunas do edifício onde estavam reunidos, e para esmagá-los a todos com ele, 28-30.

A história de Micas, que fabrica para si um ídolo em honra de Jahvé, um templo, um éfode e teraphins, instituindo sacerdote um de seus filhos, e depois tomando a seu serviço um levita de Belém, xvii, 1-13, a consulta dos espiões danitas, xviii, 5, 6, o roubo dos objetos idolátricos do santuário de Micas pelos danitas, 14-27, para os honrarem em sua própria terra, 29-31 — estes fatos constituem um caso isolado, uma instituição humana, contrária aos usos recebidos. O levita consulta a Deus, é verdade, a pedido dos exploradores danitas, mas não se diz que Jahvé tenha respondido e assim sancionado esse culto idolátrico. Jahvé não favorece o empreendimento de Micas, como este esperara, xvii, 13, visto que os danitas levam consigo o אֱלֹהִים (Elohim) que Micas fizera para si, xviii, 24, 31. O culto que os danitas lhe prestam não é legítimo, visto que, nessa época, a verdadeira casa de Deus estava em Silo, 31. Que se conclui de tudo isto? Um particular organiza por conta própria, mas sem escrúpulo, um culto idolátrico. A tribo de Dã rouba seu ídolo e o honra. A proibição de fazer imagens de Jahvé não havia prevalecido em toda parte; não se pode concluir que ela não existisse, nem que a lei da unidade de santuário não estivesse promulgada, pelo fato de os danitas a violarem. Numa época de anarquia, em que cada um fazia o que queria, xvii, 6; xviii, 31, os abusos se multiplicavam; mas os abusos pressupõem a regra estabelecida, e estes fatos de idolatria pressupõem a proibição de honrar Jahvé sob forma de ídolo. Cf. P. Lagrange, op. cit., p. 293-295.

No episódio do horrível crime dos betlemitas, os demais israelitas consultam três vezes Jahvé em Betel, xix, 18, 23, 26-28. Jahvé autoriza a repressão e entrega os filhos de Benjamim nas mãos de seus irmãos, 28, 35. Na assembleia geral seguinte em Betel, constatou-se a ausência da tribo de Benjamim, xxi, 2-6. O culto de Jahvé era, pois, universal, e os próprios benjaminitas, por pouco morais que fossem, adoravam Jahvé, único Deus de Israel. Os israelitas respeitam rigorosamente seu juramento de não dar suas filhas aos benjaminitas, xxi, 1, 5, 7, e recorrem a meios singulares para não faltar a ele, 8-14, 17-23. Noemi, emigrada para a terra de Moabe, declara que Jahvé teve piedade de seu povo, dando-lhe alimentos depois da fome. Rute, i, 6. Deseja a suas noras que Deus lhes seja misericordioso, como elas o foram para com ela e seus filhos falecidos, i, 8, 9. A mão de Jahvé lhe causou suas desgraças, i, 13. Cf. 20, 21, onde Jahvé é também chamado Sadai. Enquanto Orfa volta a Moabe, a seus deuses, 15, Rute reconhece o Deus de sua sogra, 16. Booz saúda seus ceifeiros, invocando sobre eles as bênçãos de Jahvé, ii, 4. Deseja a Rute que Jahvé, o Deus de Israel, para quem ela veio e sob cujas asas se refugiou, lhe conceda a plena recompensa de sua ação, ii, 12. Noemi bendiz a Jahvé pelo favor que concedeu a seus falecidos na pessoa de Rute, favor semelhante ao que lhes dera em vida, ii, 20. Booz declara a Rute que ela é abençoada por Jahvé e que obteve dele uma misericórdia ainda maior, por não ter procurado outro marido, iii, 10, 13. A multidão invoca as bênçãos divinas sobre Rute, iv, 11, 12. Jahvé dá a Rute um filho, 13, e as mulheres de Belém felicitam Noemi por isso como por uma bênção divina, 14.

Atribui-se também a Jahvé a esterilidade de Ana, I Sam., i, 6; esta mulher pede ela mesma ao Senhor as alegrias da maternidade, 11, e o sumo sacerdote Eli deseja que essa oração seja atendida, 17. Deus se lembrou de Ana, 19, 20, que cumpriu seu voto e consagrou o filho ao serviço do Senhor, 26-28. Em seu cântico de ação de graças, ela celebrava a santidade de Deus, sua unidade, seu poder, sua ciência universal, ii, 2, 3. Jahvé dá a vida e a morte, a riqueza e a pobreza, a humilhação e a glória; ele é o senhor da terra; protege os seus e faz perecer os ímpios que o temem; fere-os com o seu raio, exerce seu juízo sobre toda a terra e comunica sua autoridade ao rei de Israel, 6-10. Eli pede que Deus conceda a Ana outros filhos para substituir Samuel, 20, e Deus fez de Ana mãe de três filhos e duas filhas, 21. Segundo o sumo sacerdote, Deus concede mais facilmente o perdão dos pecados cometidos contra o próximo do que dos sacrilégios contra o seu culto, 25. Por isso pune severamente os crimes dos filhos de Eli, 24-34; iii, 13, 14. O sumo sacerdote se submete à sentença de Jahvé, que faz o que lhe parece bom, iii, 18. Deus comunicava suas vontades a Eli por meio de um profeta, ii, 27-36, e diretamente a Samuel, iii, 1-15, que era seu profeta, 20, 21. Os anciãos de Israel atribuem à vontade divina sua derrota pelos filisteus, iv, 3. Estes não veem em Jahvé, presente na arca, senão um poderoso אֱלֹהִים (Elohim), que bateu os egípcios no deserto, iv, 7, 8, e cujo braço era forte contra eles e contra o seu deus Dagon, v, 7. Cf. 2-6, 9-12. Querem aplacá-lo e devolvem sua arca a Israel, vi, 2-12, 16-18. Porque Jahvé é santo, castigou a falta dos betsamitas, vi, 20. A idolatria se introduzira de novo entre os israelitas. Samuel, querendo uma conversão sincera, exige a exclusão completa dos Baals e das Astarot e o culto único de Jahvé. Com essa condição, Jahvé libertará seu povo da opressão dos filisteus, vii, 3, 4. Jahvé era, pois, mais do que o «Deus pessoal» de Samuel, como pretendeu Renan, Histoire du peuple d'Israël, 6ª ed., Paris, 1887, t. 1, p. 386. O pedido de um rei, feito a Samuel, é considerado por Deus como um desejo de afastar seu reinado sobre Israel e como uma nova apostasia de seu povo, viii, 7, 8. Deus consente nisso, contudo, mas depois de expor os direitos dos futuros reis e de declarar que, quando Israel recorrer a ele contra eles, não atenderá às suas orações, 10-18; cf. x, 18, 19.

3° Sob Saul, Davi e Salomão. — Embora Deus tenha encarregado Samuel de eleger o primeiro rei de Israel, I Sam., viii, 22, foi ele mesmo quem indicou Saul ao vidente, ix, 15-17, o qual atribui a Deus a escolha e a unção do filho de Cis, x, 1. O espírito do Senhor entrou em Saul e fez dele um homem novo, 6, 9, 10. Após a ratificação da escolha divina pela sorte, 20, 21, esse espírito manifestou que animava o rei desde o primeiro ato de soberania que teve de realizar, xi, 6, e Jahvé lhe deu a vitória sobre os amonitas, 13. Samuel, ao abdicar da judicatura, invoca o testemunho de Deus de que não oprimiu o povo nem recebeu presente algum, e o povo se atém a esse testemunho, xii, 3-5. Recorda os benefícios do Deus de Moisés e de Aarão, a série de infidelidades de Israel, suas conversões sucessivas sob os juízes, as libertações da opressão que Deus concedeu ao seu arrependimento; exorta todo o povo e seu rei à fidelidade para com Jahvé, e os ameaça com a vingança divina caso sejam infiéis, 6-15. Acrescenta que, embora tenham errado ao pedir um rei, devem evitar um mal maior, o de se afastarem de Deus, que jurou fazer deles seu povo, e de se dirigirem aos ídolos, que são vãos. O caminho bom e reto é servir a Jahvé de todo o coração. Grandes bens serão a recompensa desse serviço verdadeiro, ao passo que a ruína do povo e do rei será o castigo da perseverança no mal, 20-25. Uma desobediência de Saul às ordens do Senhor priva sua linhagem do direito de sucessão ao trono. Deus já escolheu outro rei, xiii, 13, 14. A vitória alcançada sobre os filisteus é obra de Deus, xiv, 23, e a recusa da proteção divina é o castigo da infração involuntária de um voto, 37-44. Deus ordena a Saul que extermine todos os amalecitas, porque estes se haviam antigamente oposto à passagem de Israel, xv, 1-3. Tendo Saul poupado a vida do rei Agag, Deus se queixou de sua desobediência, pois a obediência lhe é mais agradável do que os sacrifícios, e retirou-lhe os direitos à realeza. Apesar do arrependimento de Saul, Deus não voltou atrás em sua decisão, pois ele não é homem para se arrepender, 10-29. Cf. xxvii, 16-18. Samuel matou Agag com sua própria mão diante de Jahvé, xv, 33. Este traço de crueldade tem sido reprovado a Jahvé, para quem a vida dos amalecitas não conta. Mas a ruína dos amalecitas era um castigo merecido, e a barbárie da época se reflete na expressão das ideias religiosas. Jahvé escolhe Davi para reinar sobre Israel em lugar de Saul, xvi, 1-13, e o espírito do Senhor se afastou de Saul, enquanto um espírito mau, enviado pelo Senhor, o agitava, 14, 15, 23. Jahvé tinha, portanto, poder sobre os espíritos maus, que só agiam com sua autorização. Cf. xviii, 10; xix, 9. Para Davi, Jahvé era o Deus vivo, xvii, 26, 36, e esse Deus, que o tirara da garra do leão, saberia bem livrá-lo da mão de Golias, 37. O jovem ia ao encontro do filisteu incircunciso em nome do Deus dos exércitos, que lho entregaria para que toda a terra soubesse que há um אֱלֹהִים (Elohim) em Israel e que os dois exércitos ali presentes soubessem que Jahvé não salva seu povo pela espada nem pela lança; é dele que depende o desfecho da guerra, e ele entregará os filisteus nas mãos dos israelitas, 45-47. O espírito de Jahvé agitava os soldados de Saul e o próprio rei, que se juntavam aos profetas de Ramá, xix, 20-23. Jônatas se uniu por juramento a Davi, e esse pacto era garantido por Jahvé, xx, 8, 23, 42; Jônatas deseja que Deus destrua todos os inimigos de seu aliado, 15, 16. Jahvé, consultado por Davi, conhece e indica fatos que se teriam realizado se Davi não tivesse escapado de Queila pela fuga, xxiii, 2-13. Davi, que acabara de poupar Saul na caverna, embora Deus lhe tivesse assim entregado seu inimigo, apela ao Senhor como juiz e vingador, xxiv, 5, 11, 15, 16. Saul, reconhecendo a justiça de seu adversário, deseja que Deus o recompense por essa boa ação, 20, e pede um juramento em nome de Jahvé para assegurar a vida a seus descendentes, 22.

Abigail atribui à providência divina a vinda pacífica de Davi, que ela mesma havia preparado, xxv, 26, e faz votos para que Jahvé mantenha Davi no feixe dos vivos e lhe conceda seus benefícios, 28-31. Davi, por sua vez, bendiz a Jahvé, que pôs Abigail em seu caminho e assim o impediu de derramar sangue inocente, 32-34. Para eles, Deus dirige, pois, os acontecimentos por sua providência. Deus faz morrer Nabal, 38, e Davi vê ainda nessa morte a ação de Deus, que, depois de tê-lo impedido de fazer o mal, toma em mãos sua causa e o vinga do opróbrio recebido, 39. Deus põe de novo a vida de Saul em poder de Davi, xxvi, 8, que poupa uma segunda vez seu adversário, 9-11. Forte de sua inocência, declara ao rei que, se é Deus quem o impele a persegui-lo, é preciso aplacá-lo com um sacrifício, para que não permita mais uma má ação. Se são homens maus, sejam amaldiçoados pelo Senhor, eles que obrigam Davi a deixar a terra que é a herança de Jahvé, e o mandam para o exílio servir deuses estrangeiros, como se, expulso de seu país, fosse forçado a prestar homenagem aos deuses da região de seu exílio, 18, 19. Davi apela ainda mais tarde à justiça de Jahvé e à sua fidelidade, e põe nele só, e não em Saul, toda a sua confiança, 23, 24. Samuel, evocado por Saul, anuncia ao rei que Jahvé o abandonará, a ele e a seus filhos, aos filisteus, xxviii, 19. O oráculo divino permite a Davi perseguir os amalecitas e lhe anuncia que retomará o despojo que estes haviam feito, xxx, 8. Um egípcio pede a Davi um juramento por Elohim, e Davi o faz, 15, porque, para ele, só Jahvé é Deus. O sucesso da expedição é por ele atribuído a Jahvé, 23, pois os amalecitas são seus inimigos, 26. É depois de ter consultado Jahvé que Davi se dirige a Hebrom. II Sam., ii, 1. Invoca a misericórdia divina sobre os habitantes de Jabes-Galaad, que sepultaram Saul, 6. Para atrair a Davi os israelitas apegados a Isbosete, Abner lhes lembra que Jahvé prometeu salvar Israel de todos os seus inimigos por meio desse príncipe, iii, 18. Davi se declarou, a si e a seu reino, puro diante de Jahvé do assassinato de Abner, 28, e invocou a vingança divina sobre os que o haviam cometido, 39. Os assassinos de Isbosete atribuem a Jahvé sua morte, a fim de vingar Davi de Saul, iv, 8, mas em nome de Jahvé, que o livrou de toda provação, Davi pune de morte os assassinos de um inocente, 9-12. Todos os israelitas reconheceram a eleição divina de Davi, v, 2, e Jahvé, o Deus dos exércitos, fez prosperar o novo rei, 10. Davi viu assim que Deus confirmava sua escolha anterior, 12. O oráculo de Jahvé lhe assegurou a vitória sobre os filisteus, 19, e depois do sucesso, Davi reconheceu que o Senhor separava seus inimigos diante dele como águas que se separam facilmente, 20. Outra vez, Jahvé indica ao rei a tática a seguir para contornar os filisteus e apanhá-los por trás, 23-25. Jahvé, que ferira Uzá, vi, 7, 8, abençoa a casa de Obed-Edom, onde se havia depositado a arca da aliança, 11, 12. Davi não teme humilhar-se diante do Deus que o escolheu, e considera ser glorificado ao rebaixar-se diante dele, 21, 22. Quando Deus lhe fez responder por Natã que não lhe construiria um templo, e que o trono estaria assegurado à sua posteridade, vii, 4-17, Davi, em sua ação de graças, humilha-se ainda diante de Deus; declara que Jahvé não tem semelhante e que não há Deus fora dele e que não há nenhum povo que, como Israel, tenha recebido de Deus tais benefícios. Deus o tomou por seu povo para sempre e se tornou seu Deus, 22-24. Davi suplica em seguida ao Senhor que cumpra suas promessas, para que seu nome seja por isso glorificado eternamente e se diga: O Senhor dos exércitos é o Deus de Israel, 25, 26. As promessas de Deus são verdadeiras; que se comece, pois, desde já, a ver-lhes o cumprimento pelas bênçãos derramadas sobre a casa de Davi! 28, 29. De fato, Jahvé trouxe Davi são e salvo de todas as guerras que empreendeu, viii, 14. No entanto, o adultério de Davi desagradou a Jahvé, xi, 27, que enviou Natã para o repreender, xii, 1. Pela boca do profeta, Deus lembra ao rei culpado os benefícios dele recebidos, censura-lhe seu duplo crime, cometido em sua presença e com desprezo de sua proibição, e anuncia-lhe o castigo público de uma falta secreta, 7-12. Por causa do seu arrependimento, Deus não lhe aplicou a pena de morte, que ele merecia; mas porque o rei provocou, por sua conduta, as blasfêmias dos inimigos de Deus, o filho do adultério morrerá, 13, 14. As orações e os jejuns do pai não desarmaram o Senhor, que feriu a criança com uma doença mortal, 15-17. David tinha esperado que Deus, tocado por seus jejuns e suas lágrimas, lhe concederia a vida da criança, 22. Jahvé amou Salomão, que, por isso, foi chamado Jedidias, 24, 25. A mulher de Técua lembrou a David que Deus não quer fazer perecer o culpado logo após a sua falta, mas que oculta os seus desígnios para que o infeliz não pereça, xiv, 14. David, fugindo no momento da revolta de Absalão, espera que Deus conceda misericórdia e justiça ao fiel Etai, xv, 20; ele aguarda do favor divino o seu retorno a Jerusalém, 25, e pede ao Senhor que torne insensato o projeto de Aquitofel, 31. Semei reprova ao rei em fuga o receber de Deus a vingança da sua conduta para com a casa de Saul, xvi, 8: é Deus quem deu a dignidade real a Absalão revoltado. David recusa-se a punir essa injúria, porque Deus ordenou a Semei que o amaldiçoasse; era preciso, pois, deixar o insultador continuar seus ataques, para que Deus considerasse a aflição do rei e lhe retribuísse o bem em lugar dessa maldição injustificada, 10-12. Cusai finge reconhecer Absalão como o eleito de Jahvé, 18. Deus permitiu que o útil conselho, dado por Aquitofel a Absalão, fosse abandonado, a fim de causar a desgraça do revoltado, xvii, 14. Obtida a vitória, David abençoa a Deus, que tinha posto fim à revolta, xviii, 28. Cusai pensa também que Deus foi juiz entre o rei e os rebeldes, 31. É um traço de costumes cruéis o pedido dos gabaonitas: eles querem que David lhes entregue sete descendentes de Saul, seu perseguidor, para os pôr em cruz e assim apaziguar a cólera divina, que tinha enviado uma fome, porque o crime de Saul não fora expiado, xxi, 6. David entregou-lhos, e os gabaonitas os crucificaram diante de Jahvé, para lhe dar satisfação, 9. Depois desse ato de justiça tardia, Deus voltou a ser favorável à região, fazendo cessar a fome, 14. David, livrado por Deus de todos os seus inimigos, entoou um cântico de ação de graças, que é reproduzido em II Sam., xxii, 2-xxiii, 7, e que não é, salvo variantes, senão o salmo xvii (xviii). Jahvé é a sua força, a sua rocha, a sua fortaleza, o seu escudo, a sua cidadela, o seu libertador, pois o livrou de todos os seus inimigos. Por isso ele o ama e o invoca, 2-4. Na sua angústia, ele clamou a ele, e descreve o socorro obtido sob a imagem de uma teofania. No meio das nuvens, dos relâmpagos e dos trovões, Deus, transportado pelos querubins e pairando sobre as asas dos ventos, desce do céu, que é o seu palácio, e põe em debandada os inimigos de David, 5-19. Ele interveio na terra, porque amava o seu servo; tratou-o favoravelmente, porque David era justo, observador exato dos seus preceitos e porque as suas ações eram puras, 20-25. Deus se mostra piedoso para com o homem piedoso, íntegro com o homem íntegro, puro com aquele que é puro, mas perverso, isto é, retribuindo o mal merecido, com o perverso, 26-27. Os caminhos de Deus são perfeitos, a sua palavra é purificada, 31. Quem é Deus, senão Jahvé? 32. Ele protege todos os que nele confiam; deu a David ajuda e proteção, 33-46. Louvor, pois, a Jahvé entre as nações. Glória ao seu nome! 47-51. David manifestou a sua fé em Deus em outros salmos, e ela é muito elevada e muito pura. Jahvé conhece o caminho do justo. Sl. i, 6. Ele está sentado nos céus e ri-se das vãs conjurações tramadas pelas nações contra ele e contra o seu Cristo. Sl. ii, 4. Ele castigará os revoltados, 5. Por isso os reis e os juízes da terra devem servi-lo com temor, 11. Protegido pelo seu Deus, o salmista não teme os seus inimigos. Sl. iii, 2-8. Jahvé, seu Deus justo, tem piedade dele, ouve a sua oração e lhe dá plena segurança. Sl. iv, 2, 4, 9. Ele não se compraz no mal, e os maus não podem habitar com ele, Sl. v, 5-7; ele abençoa o justo e o cerca da sua benevolência como de um escudo, 13. Ele castiga o culpado, contra o qual se acende a sua cólera. Sl. vi, 2. Ele é o juiz dos povos e sonda os rins e os corações; faz justiça segundo o direito, porque é justo. Sl. vii, 9-12; ix, 5, 8-11, 17. O seu nome é glorioso sobre a terra, ele criou os céus e fez do homem o rei da criação. Sl. viii, 2, 4-10. As nações o esquecem; ele as julgará. Sl. ix, 18, 20. O mau impune e próspero pretende que não há Deus; que Deus não se deixe desprezar. Sl. ix (x), 4, 11, 13. Ele é rei para sempre, 16. Tem o seu trono nos céus, mas os seus olhos estão abertos sobre os homens; ele é justo e ama a justiça. Sl. x (xi), 4-7. As suas palavras são puras e sem mentira. Sl. xi (xii), 7. Ele é bom, e pode-se ter confiança nele. Sl. xii (xiii), 6. O insensato disse no seu coração: «Não há Deus»; mas o Senhor está com os justos. Sl. xiii (xiv), 4, 5. Para entrar no seu tabernáculo, é preciso ser justo. Sl. xiv (xv), 1-5. Para David, Jahvé é o Senhor e o seu único bem, ao passo que os estrangeiros multiplicam os ídolos, cujo nome o salmista se recusa a pronunciar. Sl. xv (xvi), 2-4. Ele manifesta a sua bondade, salvando os que se refugiam sob a sua destra. Sl. xvi (xvii), 7. Ele se revelou na criação, e os céus cantam a sua glória, Sl. xviii (xix), 2-7; a sua lei é perfeita e a sua religião santa, 8-12. Dos céus onde habita, ouviu e salvou o rei do seu povo, que teve mais confiança nele do que nos carros e nos cavalos do seu exército, Sl. xix (xx), 7-10. Cf. Sl. xx (xxi), 2-8. Abandonado pelo seu Deus, David lembra a Jahvé que ele é santo, que os antepassados dos israelitas confiaram nele, o invocaram e foram ouvidos, e que os seus inimigos zombam da confiança que ele nele depositou desde o seu nascimento. Sl. xxi (xxii), 1-12. Se for socorrido, celebrará a bondade do seu protetor, 23-26. A ele pertence o império; ele domina sobre as nações, 29. Jahvé é o pastor de David. Sl. xxii (xxiii), 1. A ele pertence o mundo inteiro, e a terra que ele criou, Sl. xxiii (xxiv), 1, 2; é preciso ser santo para servi-lo dignamente, 3-6. Ele é forte e poderoso, Jahvé dos exércitos; é um rei glorioso, 7-10. Com uma palavra, criou os céus e o seu exército (os astros), e reuniu as águas do mar. Que a terra inteira e todos os seus habitantes temam o criador de todas as coisas. Sl. xxxii (xxxiii), 6-7. Ele é a esperança do salmista e o seu guia, Sl. xxiv (xxv), 1-5; a sua misericórdia e a sua bondade são eternas; ele é bom e reto, e perdoa os pecados, 6-14. A grandeza divina manifesta-se na tempestade que, do seu trono, ele faz passar sobre a Palestina inteira. Sl. xxviii (xxix), 1-11. A cólera de Deus dura apenas um instante, mas a sua graça manifesta-se sempre. Sl. xxix (xxx), 6. Grande é a sua bondade para com os que o temem. Sl. xxx (xxxi), 20. Ele guarda os seus fiéis e castiga severamente os soberbos, 24. Aquele que confia em Jahvé é cercado da sua graça. Sl. xxxi (xxxii), 10. A sua bondade exerce-se para com os bons, e a sua severidade contra os maus. Sl. xxxiii (xxxiv), 9, 16-23. Que protetor é semelhante a Jahvé? Sl. xxxiv (xxxv), 10. O salmista celebra a bondade, a fidelidade e a justiça de Jahvé. Sl. xxxv (xxxvi), 6-11. O Senhor ri-se do mau e sustenta os justos. Sl. xxxvi (xxxvii), 13, 17-20, 23, 24. Ele ama a justiça, 28. Prefere a obediência do coração aos sacrifícios. Sl. xl (xl), 7-9. Tem piedade do pecador arrependido. Sl. L (li), 3, 19. A sua bondade subsiste sempre. Sl. LI (lii), 3; cf. Sl. LIII (liv), 8. Ele reina eternamente. Sl. LIV (lv), 20. Ele é o altíssimo. Sl. LVI (lvii), 3. Na terra, ele recompensa o justo e mostra assim que há um juiz. Sl. LVII (lviii), 12. Deus dos exércitos e Deus de Israel, ele pode castigar todas as nações. Sl. LVIII (lix), 6, 9. A ele pertence o poder e a bondade, e retribui a cada um segundo as suas obras. Sl. LXII (lxii), 12, 13. Ele enche a terra dos seus benefícios. Sl. LXIV (lxv), 6-14. Ele veio do Sinai, multiplicando os prodígios em favor de Israel. Sl. LXVII (lxviii), 8-19. Ele é conduzido sobre os céus e faz ouvir a sua voz poderosa, 34-36. O Sl. LXXXV (lxxxvi), se não é de David, é ao menos composto de sentenças tomadas dos salmos desse rei. O autor confia na bondade, na clemência e na misericórdia de Jahvé, 5, 15, o Deus supremo e todo-poderoso, o único Deus, 8-10. David está cheio de confiança em Deus no meio dos perigos, porque Jahvé faz justiça aos pobres e aos miseráveis. Sl. CXXXIX (cxl), 2-18; cf. Sl. CXLI (cxli), 2-8. Pede que Jahvé o preserve da sociedade dos maus e de toda participação na malícia deles. Sl. CXL (cxli), 4. Para louvar e celebrar Jahvé, Asafe lembra às gerações futuras os prodígios que Deus realizou em favor dos seus pais, apesar das suas revoltas e das suas idolatrias. Sl. LXXVII (lxxviii). A doutrina do rei salmista sobre Deus é, pois, muito elevada. Não é de admirar que ele peça tão ardentemente ao seu Deus o castigo dos seus inimigos e dos maus. Jahvé é para ele o vingador do justo oprimido, e David reclama energicamente a vingança divina. É que, no seu entender, a justiça divina devia exercer-se já desde este mundo, e disso dependia a glória de Deus, para que os maus não prosperassem sempre. A imperfeição da antiga aliança reflete-se nessa concepção de um Deus vingador dos justos e dos oprimidos. Todavia, David culpado prefere, para a punição da sua falta, entregar-se a Deus, cuja misericórdia é infinita, do que aos homens, e escolhe a peste que Deus enviou a Israel e que por misericórdia fez cessar. II Sam., xxiv, 14-16. Saul e David foram lugar-tenentes de Jahvé. Não adoraram outros deuses. Saul, ao dar a dois dos seus filhos os nomes de Esbaal, I Par., viii, 33; ix, 39 (é Isboset), e Melquisua, I Sam., xiv, 49; I Par., viii, 33; ix, 39, David, ao dar a um dos seus o nome de Baaliada, I Par., xiv, 6 (Elioda, II Sam., v, 16), não tinham a intenção de honrar um baal qualquer, mas o Senhor, isto é, Jahvé, que era verdadeiramente o baal de Israel. Com efeito, baal e mélek não eram nomes individuais como Jahvé ou Camos, eram nomes comuns, que significam «senhor» e «rei» e podiam ser aplicados a um deus qualquer ou ao Deus único. Cf. P.

Lagrange, Études sur les religions sémitiques, 2ª ed., Paris, 1905, p. 83-109. Como esses títulos divinos eram também os nomes pessoais de divindades cananeias, compreendeu-se mais tarde que havia inconveniente em aplicá-los ao verdadeiro Deus. Baal caiu inteiramente em desuso, e se Jahvé continuou a chamar-se «rei», estabeleceu-se uma distinção bem nítida entre ele e o deus Moloque, a quem se sacrificavam crianças no vale de Hinom. O nome de Esbaal, «homem do Senhor», foi mudado no de Isboset, «homem de ignomínia», sendo bôset o nome dado aos ídolos, e Baaliada, «o Senhor conhece», tornou-se Elioda, que tem o mesmo sentido, para que o primeiro nome não fosse tomado no sentido de «Baal conhece». O reinado de David marca a supremacia incontestada de Jahvé em Israel, e esse príncipe, não obstante a sua fraqueza moral, permaneceu com razão o ideal do rei, submisso a Jahvé. Por ele Deus reinava verdadeiramente no meio do seu povo. Seu filho Salomão estabeleceu um Estado próspero e em paz, por vontade de Jahvé, o verdadeiro conquistador e o possuidor real do solo cananeu. Adonias, primeiro candidato ao trono, reconhece logo que a elevação do seu irmão Salomão era obra de Jahvé. I (III) Reis, 11, 15. Mas ele falava por astúcia, e Salomão, que atribuía também ao Senhor a sua realeza, mandou-o matar, 23, 24. Este rei justifica a morte de Joabe, como um ato da vingança divina sobre um homicida, 32. Ele atribui à mesma vingança a conduta de Semei, que lhe custa a vida, 44. Ele pede a Deus, tão misericordioso para com David, um coração dócil e um juízo reto, e Jahvé lhe concede, além disso, as riquezas e a glória que ele não tinha desejado, III, 6-14. A sabedoria que Deus dera ao jovem rei manifesta-se logo num julgamento célebre, 28, e em toda a sua conduta, IV, 29-34. Jahvé deu paz ao seu reinado, V, 4. Hirão, rei de Tiro, bendiz a Jahvé, que tornou Salomão tão sábio, 7. Cf. 12. Jahvé aprova o projeto de lhe erguer um templo em Jerusalém e promete a Salomão, se ele for fiel observador das suas leis, permanecer sempre no meio de Israel, VI, 11-13. No dia da dedicação, a glória de Jahvé encheu o templo, VII, 10, 11. Na sua oração, Salomão declara que Jahvé, o Deus de Israel, não tem igual nem no céu nem na terra pela fidelidade à sua palavra e pela sua bondade para com os seus servos, 23-26. Pode-se crer que Deus habita verdadeiramente na terra? Se os céus não podem contê-lo, como habitará ele num templo? Por isso Salomão pede a Jahvé que, desde o alto do céu, ouça todas as orações que lhe forem dirigidas no templo, 28-53. Ao abençoar o povo, o rei pede que Jahvé proteja sempre Israel, para que todos os povos da terra saibam que ele é o único Deus e que não há outro além dele, 60. Terminadas as festas, os israelitas voltaram alegres à lembrança dos bens que Jahvé tinha concedido a David e a Israel, 66. Deus disse em sonho a Salomão que a sua oração fora ouvida, que, se ele próprio fosse fiel, a sua posteridade reinaria perpetuamente em Israel, e que se os israelitas o abandonassem para servir a deuses estrangeiros, ele destruiria Israel e o templo, IX, 2-9. A rainha de Sabá, atraída a Jerusalém pela fama de sabedoria de Salomão, bendiz a Jahvé, que o fez rei, X, 9. Este rei, cuja sabedoria, dom de Jahvé, toda a terra louvava, 24, desposou mulheres estrangeiras e adorou os seus deuses, XI, 1-8. Jahvé, irritado por essa apostasia, repreendeu Salomão e lhe predisse que, em punição da sua falta, uma parte do reino se separaria da autoridade do seu filho, 9-13. Suscitou contra ele Adade e Razom, 14, 23, e prometeu a Jeroboão dez tribos, 31-37, assegurando-lhe a sua proteção, se ele fosse fiel, 38, 39. Se o salmo LXXI (LXXII) é de Salomão, o rei pede que se reverencie a Deus, enquanto subsistir o sol, enquanto brilhar a lua, 5; bendiz a Jahvé, que só ele faz prodígios, e deseja que toda a terra se encha da sua glória, 18, 19. Nos Provérbios, o sábio rei declarou que o temor de Jahvé é o princípio da sabedoria, I, 7. A própria sabedoria faz compreender o temor de Jahvé e dá o conhecimento de Deus. Jahvé dispensa a sabedoria, e da sua boca saem a ciência e a prudência; ele protege os justos, II, 5-8. A confiança em Jahvé e a fuga do mal fazem parte do temor de Deus, III, 5-8. Se Jahvé corrige e prova, é por amor, como um pai que castiga o seu filho, 12. É pela sabedoria que Jahvé criou o céu e a terra e abriu as fontes da chuva e do orvalho, 19, 20. Jahvé detesta e amaldiçoa os maus; abençoa os justos e os humildes, 32-34. É preciso evitar o adultério, pois os olhos de Jahvé observam os caminhos do homem, V, 21. Jahvé tem em horror sete coisas más, VI, 16-19. A sabedoria de Jahvé é eterna, VIII, 22-31, e os sábios obtêm o favor desse Deus, 35. Jahvé não deixa o justo sofrer fome, mas repele a cobiça do mau, X, 3. A bênção do Senhor traz a riqueza, 22, e o temor de Jahvé aumenta os dias, 27. A balança falsa é em horror a Jahvé, mas o peso justo lhe é agradável, XI, 1. O homem de coração perverso é abominação para Jahvé; o que é íntegro é objeto das suas complacências, 20. O que é bom obtém o favor de Jahvé, que condena o mau, XII, 2. Os lábios mentirosos são em horror a Jahvé; os que agem segundo a verdade lhe são agradáveis, 22. Aquele que teme a Jahvé apoia a sua confiança sobre um fundamento inabalável e os seus filhos têm um refúgio seguro. O temor de Jahvé é uma fonte de vida, XIV, 26, 27. Os olhos de Jahvé estão em todos os lugares e observam os maus e os bons, XV, 3. Jahvé detesta os primeiros e ama os outros, 8, 9. Ele vê o coração dos homens melhor do que a morada dos mortos e o abismo, abertos diante dele, 11. O temor de Jahvé é a escola da sabedoria, 33. Quaisquer que sejam os projetos que o homem agita no seu coração, é Jahvé quem põe nos lábios a melhor resposta a dar. Jahvé pesa os espíritos e julga do seu valor moral, XVI, 1, 2. Cf. XXI, 2. Jahvé fez tudo para o fim que se propôs e o próprio mau para o dia da desgraça. Todo coração altivo lhe é abominação, e ele não ficará impune, XVI, 4, 5. Quando Jahvé tem por agradáveis os caminhos de um homem, reconcilia com ele até os seus próprios inimigos, 7. O coração do homem medita o seu caminho, mas é Jahvé quem dirige os seus passos, 9. Aquele que confia em Jahvé é feliz, 20. Lançam-se as sortes na dobra do manto, mas é Jahvé quem decide, 33. O Senhor prova os corações e conhece o seu valor, XVII, 3. Aquele que absolve o culpado e aquele que condena o justo são ambos abomináveis a Jahvé, 15. O nome de Jahvé é uma torre forte; o justo nela se refugia e nela está seguro, XVIII, 10. Aquele que encontra uma verdadeira esposa recebeu de Jahvé um favor, 22. Cf. XIX, 14. Aquele que tem piedade do pobre empresta a Jahvé, que o recompensará por isso, XIX, 17. O homem propõe; Jahvé faz vingar o seu próprio desígnio, 21. O temor de Jahvé leva à vida, 23. Ter dois pesos e duas medidas é em horror a Jahvé, XX, 10, 23. Ele fez o ouvido que ouve e o olho que vê, 12. Ele dirige os passos do homem, 24. A alma do homem é uma lâmpada de Jahvé, a consciência foi acesa por Deus, 27. O coração do rei é um curso de água na mão de Jahvé; ele o inclina para onde quer, XXI, 1. A prática da justiça e da equidade é preferível aos sacrifícios aos olhos de Jahvé, 3. Cf. 27. Prepara-se o cavalo para o dia do combate, mas de Jahvé depende a vitória, 31. O rico e o pobre são obras de Jahvé, XXII, 2. Cf. XXIX, 13. Os olhos de Jahvé velam sobre os sábios; ele confunde as palavras do pérfido, XX, 12. Aquele contra quem Jahvé se irrita cairá no laço que a boca das cortesãs abre, 14. Jahvé toma nas mãos a causa do pobre e do infeliz, e tira a vida aos que os despojam, 23. Não se deve alegrar com a desgraça do inimigo, com medo de que Jahvé, a quem isso desagrada, volte a sua cólera contra aquele que assim agisse, XXIV, 18. Deve-se socorrer o inimigo infeliz; Jahvé o recompensará por isso, XXV, 21, 22.

Desde o cisma até o século VIII. — Jahvé, que decidira a cisão das dez tribos, desviou Roboão de escutar os sábios conselhos dos anciãos. I (III) Reis, XII, 15. Como essa cisão era obra sua, ele impediu a guerra entre os dois reinos, 24. Jeroboão não foi fiel a Jahvé. Com medo de que o seu povo, indo adorar a Deus em Jerusalém, voltasse à autoridade de Roboão, ele completou a cisão política com um cisma religioso e propôs a Israel dois bezerros de ouro, um em Betel, outro em Dã, como imagem do Deus que tinha tirado do Egito, 26-33. Essa inovação de Jeroboão não prova que a antiga tradição israelita tivesse admitido a representação de Jahvé em forma de touro. Jeroboão imitou os cultos cananeus, ou talvez os cultos egípcios, que conhecera no seu exílio. Jahvé condenou o culto de Betel, XIII, 1-10, 32. A falta de Jeroboão foi punida com a queda da sua dinastia, 33, 34, queda predita por Aías, XIV, 7-11, 14-16, e realizada sob Nadabe, XV, 29, 30. Os habitantes de Judá caíram também na idolatria sob Roboão, XIV, 22-24, e sob Abias, XV, 5. Mas Asa destruiu os ídolos, 11-14. Nadabe, filho de Jeroboão, favoreceu a idolatria, 26, assim como os usurpadores, Baasa, 34, Zambri, XVI, 19, Onri, 26. O filho deste último, Acabe, superou em malícia os seus predecessores e adorou, ao mesmo tempo que Jahvé, Baal, deus de Sidom; o que aumentou a cólera de Jahvé contra ele, 30, 33. Introduziu, com efeito, em Israel, em face de Jahvé, um deus estrangeiro, tido por poderoso, e o novo culto não foi instituído unicamente para Jezabel e os tírios da corte, Acabe o adotava e solicitava a adesão dos israelitas. Elias censurou-o por perturbar Israel com a introdução do culto de Baal, XVII, 18. No monte Carmelo, esse profeta, permanecendo só, propôs um desafio aos 450 profetas de Baal: não se pode «coxear» entre dois deuses; é preciso escolher entre Jahvé e Baal; aquele dos dois que acender o fogo do sacrifício será reconhecido como Deus, 21-24. Elias repelia, pois, o sincretismo de Acabe, que unia Jahvé e Baal. Depois das vãs orações dos profetas de Baal, 25-28, Elias invocou Jahvé, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, suplicando-lhe que mostrasse que ele era o verdadeiro Deus, 36, 37. A oração atendida obrigou o povo a reconhecer que Jahvé era Deus, 38, 39. A vitória foi, pois, para Jahvé. Elias, do qual não temos escrito algum, não deixou outro vestígio da sua teologia. Não podemos afirmar que ele tenha dito expressamente que Baal não era nada e que só Jahvé era Deus; mas se ele não o disse, é incontestável que Baal não era nada para ele. Ele zombava dele no Carmelo, dizendo aos seus sacerdotes: «Gritai mais alto, pois ele é deus; está em meditação, ou está ocupado, ou está em viagem, talvez esteja dormindo, e há de despertar.» I (III) Reis, XVIII, 27. Toda a sua carreira, aliás, foi uma profissão de fé monoteísta. Cf. Gunkel, Elias, Jahve und Baal, Tubinga, 1906, p. 48-64. Todavia, no meio da apostasia de Israel, nem todos tinham abandonado Jahvé, testemunha Abdias, o mordomo de Acabe, que servira a Deus desde a infância, XVIII, 12. Por isso Elias exagerava, quando, fugindo à cólera de Jezabel, e chegado ao monte de Deus, o Horebe, XIX, 8, se queixava a Jahvé, Deus dos exércitos, de lhe ter ficado ele só fiel, 10, 14. Por isso o Senhor lhe deu simbolicamente uma lição de paciência, mostrando-lhe que Jahvé não passava no sopro impetuoso nem no fogo, mas como um vento leve, 11, 12. Declarou-lhe em seguida que se tinha reservado em Israel 7000 homens, que não tinham dobrado o joelho diante de Baal, 18. Elias não estava, pois, isolado em Israel; encontrava no povo um ponto de apoio para lutar com o rei e para defender o culto tradicional de Jahvé. Este último encarregou-o enfim de ungir Hazael como rei da Síria e Jeú como rei de Israel, 15, 16. Prometeu a vitória a Acabe para lhe mostrar que ele era Jahvé, XX, 18. Os sírios atribuíram essa vitória à proteção do deus da montanha, e quiseram fazer a guerra na planície, 23; mas Jahvé deu ainda o sucesso aos israelitas para provar que era o Deus dos vales tanto quanto das montanhas, 28, Deus em todo lugar. Quando Jezabel fez morrer Nabote para que Acabe pudesse apoderar-se da sua vinha, Deus enviou Elias anunciar ao rei qual seria o castigo da sua injustiça, XXI, 17-24, injustiça que Jahvé não pode tolerar. O seu caráter moral aparece claramente nesse episódio. Esse castigo foi retardado por causa da penitência do rei, 27-29. Jahvé decide da sorte de Ramote-Galaad, XXII, 15. Miquéias o vê sobre o seu trono, cercado do exército do céu e enviando um espírito mentiroso para enganar Acabe, 19-23. Ocozias seguiu os maus exemplos do seu pai e serviu a Baal, o que excitou a cólera de Jahvé, 53, 54. Consultou também Belzebu, deus de Ecrom. Elias veio dizer-lhe: Não há, pois, mais Deus em Israel, para que consultes o Deus de Ecrom? II (IV) Reis, I, 2-8. Anunciou-lhe uma pronta morte em punição da sua falta, 16. No reino de Judá, Josafá imitou o seu pai Asa, sem ousar todavia abolir o culto dos lugares altos. I Reis, XXII, 43, 44. Uma vitória que esse rei alcançou sobre os amonitas e os moabitas foi celebrada como obra de Jahvé, que é altíssimo e temível, que é o rei de toda a terra. Sl. XLVII (XLVIII), 2-10. Cf. II Par., XX, 20-22. Que os inimigos de Judá, coligados para atacá-lo, sejam tratados como os antigos inimigos dos seus pais e que saibam que só Jahvé é o Deus altíssimo sobre toda a terra! Sl. LXXXII (LXXXIII). No reino de Israel, Jorão retirou de fato as estátuas de Baal, mas conservou os bezerros de ouro, que Jeroboão tinha fabricado. III (IV) Reis, III, 2. Os três reis de Israel, de Judá e da Idumeia, coligados contra Mesa, rei de Moabe, consultam Jahvé e lhe perguntam se ele os entregou ao seu adversário. Eliseu remete Jorão aos profetas do seu pai e da sua mãe e declara que, se Jahvé não os entregou aos moabitas, isso é unicamente por consideração a Josafá, rei de Judá, 10-14. Jahvé tinha salvo a Síria por intermédio de Naamã, V, 1. A lepra deste não podia ser curada senão por Deus, que tem o poder da vida e da morte, 7. Naamã pensava que Eliseu o curaria invocando o nome de Jahvé, seu Deus, 11.

Curado depois de se ter lavado no Jordão, professou abertamente que não havia Deus em toda a terra, fora de Israel, 15, e que não ofereceria mais doravante holocaustos a deuses estrangeiros, senão a Jahvé, 17, ainda que pensasse poder assistir com o seu rei ao culto de Remom, sem que Jahvé se ofendesse com isso, 18, 19. O rei de Samaria atribuía a Jahvé a fome, ocorrida durante o cerco da sua capital por Ben-Hadade, rei da Síria, vi, 33. Mas Jahvé anunciou para o dia seguinte a abundância de víveres, vii, 1. Ben-Hadade, doente, mandou consultar Jahvé sobre o desfecho da sua doença, viii, 8. Eliseu soube de Jahvé que o rei morreria de morte violenta, que Hazael lhe sucederia e causaria muitos males a Israel, 10-18. Jorão, filho de Josafá, desposou uma filha de Acabe e introduziu a idolatria em Judá. Jahvé, no entanto, não quis perder Judá por causa da promessa que fizera a David, 18, 19. Ocozias seguiu os passos de Jorão, seu pai, 29. Jeú foi eleito por Jahvé para reinar em Israel e ferir a casa infiel de Acabe, ix, 3, 6-10, 12, 26, 36; x, 10, 17. Aboliu o culto de Baal em Israel, x, 18-28, mas manteve nele o dos bezerros de ouro em Betel e em Dã, 29. Porque tinha cumprido as vontades de Jahvé contra a casa de Acabe, Deus prometeu o trono à sua posteridade até a quarta geração, 30, mas porque tinha conservado as instituições religiosas de Jeroboão, Deus tomou Israel em asco, 31, 32. Quando o grão-sacerdote Joiada estabeleceu o jovem Joás como rei de Judá, fez um pacto entre Jahvé, o rei e o povo para fazer reconhecer os direitos exclusivos de Jahvé sobre o reino, e o povo derrubou os altares e as imagens de Baal, xi, 17, 18. Joás não destruiu, porém, os lugares altos, xii, 2. Depois da morte de Joiada, entregou-se à idolatria e matou o grão-sacerdote Zacarias, que lhe reprovava a conduta. II Par., xxiv, 18-22. Foi por isso punido por Deus, 24. Em Israel, Joacaz, II (IV) Reis, xiii, 2-6, Joás, 11, foram idólatras, e contudo Jahvé os ouviu, quando recorreram a ele, 4, 5, 23, não querendo ainda arruinar inteiramente Israel. Em Judá, Amasias conservou os lugares altos, xiv, 3, 4, e entregou-se à idolatria. II Par., xxv, 14-16. Em Israel, Jeroboão II seguiu os caminhos de Jeroboão I, II (IV) Reis, xiv, 24; contudo, Jahvé ainda não fez perecer Israel, 26, 27. Durante esse período, os fatos o comprovam, Jahvé permaneceu o Jahvé de Moisés. Apesar das apostasias demasiado frequentes da massa da nação, ele era o Deus único, senhor do mundo, o Deus todo-poderoso e justo por excelência, embora as ideias que às vezes se faziam da sua justiça tenham sido imperfeitas e viciadas pelo velho princípio da vingança rigorosa, que se esperava dele e que se lhe pedia. Ele não sofria rival algum e castigava severamente as infidelidades do seu povo. A adoração de outros deuses era uma falta, à qual se deixavam levar com demasiada frequência pela imitação dos cultos grosseiros e sensuais dos povos vizinhos. Por vezes, a massa do povo pôde, nas suas práticas religiosas e na sua vida moral, não ultrapassar muito o nível de uma monolatria, meio pagã. O monoteísmo era, no entanto, conhecido. Jahvé nunca deixou de ter fiéis adoradores, nem em Israel, nem em Judá. O seu nome entra na composição dos nomes de quase todos os reis de Judá a partir de Abias. Os reis mais ímpios de Israel consagram-lhe os seus filhos. Acabe dá ao seu filho o nome de Ocozias, «Jahvé me possui», e à sua filha o de Atalia, «Jahvé é a minha força». Jahvé é considerado como sendo a causa de todos os fenômenos naturais e dos principais acontecimentos da história, como uma espécie de agente universal e a providência especial de Israel. Embora tenha direitos a governar o universo, parece existir apenas para Israel e exercer apenas as funções de um deus nacional. Contudo, ele se ocupa dos povos vizinhos de Israel, regula a sua sorte e se serve deles como ministros da sua cólera contra (SEGUNDO A BÍBLIA) 980 os seus. O seu caráter de Deus universal era reconhecido, embora as suas relações com as nações pagãs ainda não tivessem sido claramente definidas. O seu caráter moral está nitidamente delineado, embora deva alargar-se e purificar-se na pregação dos profetas. É um Deus justo e santo, que ama a justiça e prefere a obediência do coração aos sacrifícios oferecidos por maus. Ele reina nos céus, de onde vela sobre a terra para fazer sentir nela a sua providência tutelar sobre os bons e a sua justiça vingadora sobre os ímpios e os maus. E esses caracteres de Deus resultam apenas dos livros históricos da Bíblia. Por conseguinte, nossas conclusões seriam as mesmas, se não se quisesse levar em conta os Salmos, que consideramos como obra de David, nem a doutrina de uma parte dos Provérbios, que atribuímos a Salomão. Um novo nome é dado a Deus durante esse período; é o de Javé ou de Elohim Sabaoth ou Deus dos exércitos (Élohim Sabaoth). Qualquer que seja o sentido que esse vocábulo tomará mais tarde, resulta dos documentos mais antigos onde é empregado que ele designa Javé como chefe dos exércitos de Israel. Ele tem certamente esse sentido em vários textos do livro de Samuel. Encontra-se nos lábios de Samuel, relatando a Saul um oráculo no qual Deus ordena fazer guerra aos Amalecitas. I Sam., XV, 2. O jovem David corre ao encontro de Golias em nome do Deus dos exércitos, do Deus dos batalhões de Israel. I Sam., XVII, 4, 5. A esse título, Javé fez prosperar David, tornado rei, dando-lhe a vitória sobre seus inimigos. II Sam., V, 10. Aliás, Javé, honrado em Silo, onde estava a arca, é frequentemente chamado o Deus dos exércitos, I Sam., I, 8, 11; IV, 4; II Sam., VI, 2, 18. Ora, a arca era levada às batalhas como símbolo da presença de Javé à frente dos exércitos de seu povo. Jos., IV, 6-16; I Sam., IV, 3-11. Enfim, um antigo documento se intitulava: «O livro das guerras de Javé.» Num., XXI, 14. Esse nome de chefe dos exércitos de Israel convém a Javé numa época de lutas e de combate. Cf. J. P. P. Valeton, no Manuel d'histoire des religions, de Chantepie de la Saussaye, trad. franç., Paris, 1904, c. VII, § 48, p. 202-205; M. Löhr, Untersuchungen zum Buch Amos, Giessen, 1901, p. 59-65; Stade, Biblische Theologie des A. T., t. I, p. 73-74; J. Touzard, Le livre d'Amos, Paris, 1909, p. LIX-LX. 5° Segundo o livro de Jó. — Por sua língua, este livro pertence à idade de ouro da literatura hebraica, que se estende de David a Isaías. Sua composição pode, portanto, ser fixada entre Salomão e Ezequias, embora críticos modernos a reportem ao tempo que se seguiu ao retorno do cativeiro. Como a teodiceia deste poema é muito desenvolvida, importaria grandemente fixar exatamente sua data para marcar cronologicamente os progressos da ideia de Deus em Israel. Todavia, a importância dessa questão é diminuída por esta consideração certa de que a doutrina do livro de Jó, exposta a propósito do problema do sofrimento do justo e do inocente, não tem senão uma relação distante com aquela que a precede e aquela que a segue. Ela forma, portanto, uma etapa distinta e quase completamente isolada das outras. Deve, pois, ser estudada à parte e pode sê-lo mesmo fora de sua época certa, tão especial ela é. Cada leitor a recolocará mentalmente na data precisa que atribui a este livro. Um homem íntegro, reto, temente a Deus e afastado do mal, passa da maior prosperidade a uma extrema miséria. Deus permitiu a Satã pô-lo à prova, para ver se teme a Deus, ferindo-o em seus bens e em sua pessoa, exceto a vida. Submisso à vontade do Senhor, que lhe retomava os bens que lhe havia dado, o virtuoso Jó, longe de se irritar contra Deus, bendiz seu nome no meio de suas aflições, apesar das censuras de sua mulher, que o incitava a amaldiçoar Deus, autor desses males. Recebia de sua mão o mal como o bem, DEUS (SUA NATUREZA), I, 1-11, 10. Três de seus amigos vieram consolá-lo; as queixas de Jó e seus discursos põem o problema do sofrimento, que o próprio Deus causa aos homens, II, 23. Elifaz, Bildade e Sofar pensam que, por meio dos males temporais, o Senhor pune as faltas cometidas pelos homens, e concluem que Jó é infeliz porque foi culpado. Desde o início de seu discurso, Elifaz, para fortalecer Jó, convida-o ao temor de Deus e à pureza de vida, IV, 6. Jamais o inocente pereceu nem o justo foi exterminado; sempre, ao contrário, os maus perecem ao sopro de Deus e são consumidos pelo vento de sua cólera, 7-9. Uma visão noturna confirmou sua experiência e lhe lembrou que nenhum homem é justo diante de Deus, nenhum mortal diante de seu criador; Deus descobre faltas em seus anjos, com muito mais razão nos homens, 17-19. Jó não tem, pois, senão que se voltar para Deus, cujos atos são insondáveis e os prodígios inumeráveis, que devolve a felicidade aos aflitos e frustra os projetos dos maus, V, 8-16. É Deus quem castiga, o todo-poderoso quem corrige, mas ele cura a ferida que fez e ele tira de todas as desgraças, 17-20. Jó, que sente vivamente as flechas do todo-poderoso transpassá-lo e vê os terrores de Deus dispostos em batalha contra ele, VI, 4, pede a Deus a morte, contanto que tenha, ao morrer, a consolação de nunca ter transgredido os mandamentos do Santo, 8-10. O infeliz, tivesse ele abandonado o temor do todo-poderoso, tem direito à piedade de seus amigos, 14. Mas, forte de sua inocência, Jó pergunta a Elifaz que faltas cometeu, 24-30; em seguida, queixa-se amargamente a Deus de seus sofrimentos, VII, 11-16. Por que ele põe à prova o homem a esse ponto e sem lhe deixar trégua? Se Jó pecou, o que pode ele fazer para estar ao abrigo dos golpes do guardião dos homens? 17-21. Bildade censura a Jó tais queixas, VIII, 2. «Será que Deus faz vergar o direito? O todo-poderoso derruba a justiça?» 3. O direito é este: Deus entrega os pecadores nas mãos de sua iniquidade. Se Jó recorre a Deus, se implora o todo-poderoso, se é reto e puro, será protegido e abençoado por Deus novamente, 4-7. As máximas dos antigos afirmam que os que esquecem Deus secam como o junco sem água e que a esperança dos ímpios perece, ao passo que Deus não rejeita o inocente, 8-22. Jó reconhece que o homem não pode ser justo diante de Deus, que Deus é sábio em seu coração e que seu braço tem o poder. Ele comanda a todas as criaturas que fez, e ninguém pode opor-se a seus atos. Nada abranda sua cólera, IX, 2-13. Jó, ainda que fosse justo, não contestaria, pois, com ele; imploraria antes a clemência de seu juiz, 14, 15. Deus é forte; ninguém tem o direito de intimá-lo a juízo; suas sentenças são irreformáveis, 19, 20. Por isso, porque é inocente, Jó põe o problema: «Não faz Deus perecer igualmente o justo e o ímpio?» 22-24. Todavia, porque Deus não é um homem como ele, e embora se creia ele mesmo inocente, 28-31, ele não quer entrar em discussão com ele nem comparecer juntos em juízo; não há árbitro entre eles. Que Deus cesse somente de feri-lo, 32-34. De novo, dá livre curso às suas queixas amargas e censura a Deus, seu criador, por punir a esse ponto suas iniquidades, X, 1-22. Sofar quer confundir Jó, XI, 2, 3. Este se pretende irrepreensível diante de Deus; se Deus quisesse revelar as razões de sua conduta para com Jó, ver-se-ia que foi indulgente, 4-6. A perfeição divina é incomensurável, seu poder irresistível e sua ciência universal, 5-11. Se Jó orar a Deus, se cessar de ofendê-lo, tornará a ser próspero e feliz, 15-19. Escarnecido por seus amigos, que zombam de um justo e de um inocente, Jó invoca Deus, e Deus se digna escutá-lo, XII, 4. Como eles, sabe que o criador de todas as coisas tem poder supremo, que é forte, sábio e prudente, e que faz tudo o que quer, XII, 7-XIII, 2. É com Deus e não com eles, que são maus advogados de Deus e o defendem por mentiras, que quer pleitear sua causa, 3-22, e lhe pergunta ousadamente por quais faltas o pune, 23-28. Persegue então Deus assim o homem frágil e mortal? XIV, 4-6. Em vez de fazê-lo morrer, Deus o pune de seus pecados, 13-17. Elifaz censura então a Jó por destruir assim o temor de Deus e aniquilar a piedade, XV, 4. Ele confessa, pois, sua iniquidade, 5, 6. Assistiu ele aos conselhos de Deus? 8. Tem ele por pouca coisa as consolações de Deus, que lhe são trazidas? 11. Volta sua cólera contra Deus, 13. Deus não confia nem mesmo em seus santos, e os céus não são puros diante dele; quanto menos o homem, perverso e injusto, pode sê-lo, ele que faz o mal como se bebe água? 14-16. É ao mesmo tempo um fato de experiência e o ensinamento dos sábios, 17-19: o mau que levantou sua mão contra Deus, que desafiou o todo-poderoso, 25, é infeliz durante sua vida; sua prosperidade é passageira, e Deus o fará perecer pelo sopro de sua boca, 20-30. Jó replica que Deus o entregou ao perverso e o lançou nas mãos dos maus, XVI, 11, embora não haja iniquidades em suas mãos e sua oração seja pura, 17. Se seus amigos o acusam, ele tem no céu uma testemunha, um defensor nas alturas: é Deus que ele invoca, que constitui seu juiz e sua garantia, 19-21; XVII, 2-4. Bildade descreve a sorte funesta do mau, da qual está seguro, XVIII, 5-21, deixando entender que visa Jó como culpado. Este assume sobre si a responsabilidade de sua falta, XIX, 4, e declara que Deus o oprime e o envolve em sua rede, 6-20. A mão de Deus o feriu, 21. Tem, contudo, a certeza de que será vingado, de que verá Deus e de que a justiça de sua causa será reconhecida, 23-29. Sofar replica vivamente, descrevendo por sua vez o terrível destino que Deus reserva ao mau, XX, 4-29. Jó viu, ao contrário, a prosperidade dos maus. A vara de Deus não os toca, XXI, 7-9. Recusam-se a reconhecer o todo-poderoso e a orar-lhe, 14-15, e Deus não lhes dá quinhão em sua cólera, 17. Castiga-os, dizem, em seus filhos; mas são eles que ele deveria castigar, 19-21. Ao pretender que Deus, o juiz dos seres mais elevados, dá sempre a desgraça aos maus, quer-se dar-lhe uma lição de sabedoria? 22. De fato, no dia da desgraça, o mau é poupado e morre feliz, 23-33. Pela terceira vez, os amigos de Jó retomam a discussão e lhe censuram diretamente suas faltas. Elifaz declara categoricamente que, uma vez que a justiça e a integridade do homem não são de nenhuma utilidade para Deus, não é por causa de sua piedade que Deus castiga Jó, XXII, 2-4, e enumera as faltas de seu amigo, 5-11. Deus, que habita as alturas do céu, as via e as julgava, 12-20. Que Jó se reconcilie, pois, com ele e o apazigúe, e a prosperidade lhe voltará, 21-30.

Jó gostaria de encontrar Deus, chegar até seu trono para pleitear sua própria causa diante dele e ser absolvido, XXIII, 3-7; mas não o encontra, 8, 9. Contudo, Deus conhece seus caminhos e sua fidelidade, 10-12. Mas ele é soberano e imutável em seus desígnios, e executará aquilo que decidiu para pôr Jó à prova, 13-17. Todavia, uma vez que o todo-poderoso conhece os tempos, por que não faz ver seu dia àqueles que o servem? XXIV, 1. Os maus oprimem os inocentes, e Deus não repara nesses crimes, 2-12. Os violentos e os ímpios são felizes até a morte, 13-25. Em resposta, Bildade se contenta em dizer que Deus é poderoso e que o homem não pode ser puro e justo diante dele, uma vez que a lua perde seu brilho e as estrelas não são puras a seus olhos, XXV, 2-6. Jó proclama também tão alto quanto seu amigo o poder divino, que descreve maravilhosamente, XXVI, 5-14. Num novo discurso, Jó, embora constatando que o Deus vivo lhe recusa justiça, que o todo-poderoso enche sua alma de amargura, XXVII, 2, proclama sua inocência, 3-7. Não tem os sentimentos do ímpio, quando Deus o aflige, 8-10. O rico feliz até a morte é punido em sua posteridade, que não desfruta dos bens amontoados, 11-23. Deus, que tudo vê e que tudo criou, ensinou a sabedoria aos homens, dizendo-lhes que ela consiste na fuga do mal e no temor do Senhor, XXVIII, 28. Em seguida, Jó descreve os anos de sua prosperidade, os dias em que Deus velava por sua guarda, quando o visitava familiarmente e vivia com ele, XXIX, 2-5. Opõe-lhes por contraste suas misérias presentes, XXX, 1-31. Contudo, em previsão da recompensa que o todo-poderoso lhe reservava de seu céu, XXXI, 2, ele que conhece seus caminhos e contou todos os seus passos, 4, levou uma vida irrepreensível e não teme o julgamento de Deus, 5-13. Se fosse culpado, não saberia o que responder a seu criador, 14-34; porque não cometeu os crimes que enumera, não teme prestar contas a seu juiz, 35-37. Um jovem, ouvinte mudo dos discursos precedentes, intervém com impetuosidade. Rejeita a teoria dos amigos de Jó, que veem em todas as desgraças um castigo que Deus inflige aos culpados, tanto quanto o sentimento de Jó, que encontra em seus males uma espécie de injustiça da parte de Deus, XXXII, 13, 14. Não é a idade que dá a sabedoria, mas o sopro do todo-poderoso, 8, 9. Criatura de Deus como Jó, o jovem é seu igual diante de Deus e pode dar-lhe a lição, XXXIII, 4-7. O ódio que Jó supôs em Deus, que fere um inocente, não existe, 8-11. Deus é maior que o homem, e não tem contas a prestar a ninguém, 12, 13. Deus fala aos homens de diversas maneiras, pela dor tanto quanto pelos sonhos e pelas visões, 14-22. A dor é um anjo que reconduz a Deus e faz reconhecer que a doença e a prova, mesmo reiteradas, são proveitosas, 23-30. Dirigindo-se em seguida aos sábios, Eliú pergunta categoricamente se Jó teve razão de se proclamar inocente e de dizer que Deus lhe recusava justiça, XXXIV, 5, 6. Considera essas palavras blasfematórias; é uma impiedade dizer: «De nada serve ao homem buscar o favor de Deus», 7-9. O todo-poderoso é justo; Deus não comete a iniquidade nem viola a justiça; retribui ao homem segundo suas obras, retribui a cada um segundo seus caminhos, 10-12. Governa o mundo e vela por ele para conservá-lo; se pensasse apenas em si mesmo, se retirasse seu espírito e seu sopro, toda carne expiraria e o homem voltaria ao pó, 13-15. Aliás, um inimigo da justiça não pode ter o poder supremo; o justo, o poderoso não faz acepção de pessoas, condena os grandes, que são maus, não olha o rico mais do que o pobre, porque todos são obra de suas mãos. Seus olhos estão abertos sobre os caminhos do homem; vê todas as iniquidades; não tem necessidade de abrir inquérito; fere os ímpios e os poderosos injustos, os indivíduos tanto quanto os povos, 17-32. Jó falou, pois, contra Deus, 37. Não é justo dizer: «Tenho razão contra Deus», XXXV, 2. A maldade dos homens não é mais nociva a Deus do que sua justiça lhe é útil, 6, 7. Mas Deus não atende aos discursos insensatos e o todo-poderoso não escuta as queixas imerecidas, 13-16. O criador é justo, com efeito, XXXVI, 2, 3, pois é poderoso e não despreza ninguém; pune o mau e faz justiça ao justo infeliz, 5-7. Se os bons são afligidos, é para afastá-los do mal; se compreendem a lição, são felizes; senão, perecem como os ímpios, que não clamam a Deus quando ele os fere. Deus salva o infeliz, infligindo-lhe a libertação, 8-15. Que Jó tema que [Deus] não lhe inflija um castigo irremediável, 18. Deus é sublime em seu poder; é o senhor; ninguém pode traçar-lhe seu caminho e censurá-lo por ter agido mal. Suas obras são admiráveis; é soberanamente grande e eterno; é todo-poderoso sobre a natureza e sobre os povos, 22-33. Comanda o relâmpago, faz cair a neve e a chuva, comanda a natureza para que os homens reconheçam seu criador, XXXVII, 2-13. Produz maravilhas na natureza; sua majestade é temível, seu poder ilimitado. É grande pela força, pelo direito e pela justiça; não dá atenção aos sábios que querem repreendê-lo, 14-24. Deus, do seio das nuvens, responde a Jó, que obscureceu sua providência, XXXVIII, 1-3. Interroga-o, e traça um magnífico quadro de sua obra criadora, XXXVIII, 4-XXXIX, 30. Que pode responder o censor do todo-poderoso? XL, 2. Jó é reduzido ao silêncio, 3-5. Deus não é apenas todo-poderoso, é ainda justo, 8, 9, ele, o criador do hipopótamo e do crocodilo, 15-33. Se ninguém ousa provocar o crocodilo, quem ousaria resistir a Deus face a face? Deus nada deve a ninguém, e tudo o que está sob o céu lhe pertence, XLI, 1, 2. Jó confessa a onipotência de Deus; ninguém pode obscurecer sua providência, e Jó reconhece que errou ao queixar-se da providência divina, XLII, 1-6. Deus censura em seguida os três amigos do patriarca, porque não falaram dele segundo a verdade, 7. Restabelece Jó em seu primeiro estado e lhe rende o dobro de seus bens, 10. V. NA PREGAÇÃO DOS PROFETAS DO SÉCULO VIII AO SÉCULO VI. — Segundo os críticos racionalistas, foi somente no século VIII que o monoteísmo substituiu em Israel a monolatria nacional. Os profetas dessa época conceberam de Javé uma ideia bem superior àquela que dele se tinha antes. Ele foi, para eles, não mais apenas o Deus único de sua nação, mas o único verdadeiro Deus, e um Deus nitidamente espiritual e moral. Javé, todo-poderoso e santo, castigava Israel por suas numerosas infidelidades, fazendo marchar as nações contra ele, e já não queria um culto puramente exterior, mas desejava ser amado e obedecido por adoradores, amigos da justiça e fiéis observadores da lei moral. Os deuses dos outros povos não existiam e eram não-deuses. Os profetas seriam, pois, os criadores do monoteísmo, do monoteísmo puro e absoluto. Ver Kuenen, citado pelo abade de Broglie, Questions bibliques, 2ª ed., Paris, 1904, p. 248. Ninguém nega que os profetas desse período tenham sido os ardentes pregadores do monoteísmo e os adversários resolutos da idolatria. Mas da exposição precedente resulta que não foram os criadores da ideia do Deus único e universal. Os israelitas, antes deles, tinham essa ideia, embora sua conduta prática tenha sido frequentemente politeísta. Se se quer que os profetas tenham sido os criadores do monoteísmo, é preciso considerar Moisés como o primeiro deles. Os profetas, aliás, não apresentam sua teologia como uma doutrina nova; pregam a adoração do Deus de seus pais; longe de pretender inovar, querem apenas conservar a religião antiga. «Nunca supõem contestável para um filho de Israel o princípio que reserva ao único Javé a homenagem de seu povo; falam como tendo a seu favor, não a evidência da razão, da qual não se trata, mas o direito tradicional; não creem ter de pleitear sua própria causa, de defender opiniões particulares, admitem implicitamente, e sem buscar provas, como se o fato não comportasse discussão, que toda prática politeísta vem de uma influência estrangeira. Com que direito nos insurgiríamos contra esse juízo, que, por não ser resultado de um estudo arqueológico, não é tampouco uma conjectura de teólogo e um subterfúgio de apologista, mas se funda numa situação histórica e num fato tradicional? Os profetas não têm a pretensão de instituir uma nova religião. Sua existência, o êxito relativo de sua pregação, a própria atitude daqueles cujos erros condenam são puros enigmas, se não devemos considerá-los como os representantes da mais antiga e da melhor tradição israelita, e se os costumes que combatem tivessem sido realmente sancionados pela prática do javismo primitivo. É fácil falar de criação puramente moral e de Javé identificando-se com a consciência dos profetas; a criação moral de que se trata e a consciência dos profetas não puderam apoiar-se no vazio. O passado os sustenta, e a tradição os cobre com seu prestígio.» A. Loisy, La religion d'Israël, Paris, 1901, p. 50. Cf. P. de Broglie, Questions bibliques, p. 70-74, 277-282, 310-315, 317. «Existem em Israel falsos profetas como existem verdadeiros; uns e outros estão constantemente em luta, mas suas discussões incidem sempre sobre os acontecimentos que anunciam, ou sobre as falsas divindades em que alguns pretendem inspirar-se, jamais sobre a natureza do verdadeiro Deus nem sobre a maneira de concebê-lo.» F. Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, 6ª ed., Paris, 1896, t. IV, p. 492. Enfim, «se os profetas jamais tivessem apelado senão para sua inspiração pessoal, se não se tivessem ligado a nenhum princípio reconhecido ao redor deles, a nenhuma tradição autorizada por um longo passado, seu papel seria inconcebível e sua ação impossível de explicar.» A. Loisy, op. cit., p. 49-50. «Na ausência de toda lei religiosa monoteísta anterior, como se explicaria a doutrina dos profetas? Onde a teriam buscado? Seriam, pois, filósofos à maneira de Sócrates e de Platão? Como se encontraram de acordo sobre uma mesma doutrina? Como se explica que o pastor Amós e o príncipe de sangue real, Isaías, professem o culto do mesmo Deus? Encontraram-se de acordo por acaso sobre a definição do Ser supremo, ou, tendo um deles a descoberto, tiveram os outros a rara docilidade de tomá-lo por mestre, e de aceitar sua doutrina sem modificá-la? Como teria esse mestre permanecido desconhecido?» P. de Broglie, op. cit., p. 74, cf. p. 310-311. Ver Konig, Die Hauptprobleme der altisraelitischen Religionsgeschichte, Leipzig, 1884, p. 15-22; J. Robertson, Early religion of Israel, 5ª ed., 1896, p. 51-73. Todavia, se os profetas do século VIII não são os criadores do monoteísmo absoluto, é preciso reconhecer que, sob a inspiração divina, desenvolveram a noção do Deus único e universal, criador de todas as coisas e senhor do mundo, que puseram em evidência a universalidade de sua misericórdia e de seu amor, que mostraram com mais clareza no Deus de Israel o Deus de todos os povos, e que insistiram mais fortemente do que nunca sobre a inutilidade dos sacrifícios e do culto exterior quando não se pratica a justiça. Pregaram, pois, o monoteísmo transcendente e moral, mas mais uma vez não o criaram inteiramente, e se condenam práticas religiosas, mais ou menos toleradas antes deles, não resulta tampouco que tenham inventado o princípio que os fez rejeitar esses usos. Fizeram apenas progredir em Israel o espírito monoteísta, que ali reinava anteriormente. Resta-nos, pois, constatar, na obra de cada profeta, o progresso que trouxe, por sua parte, à ideia do verdadeiro Deus. O livro de Amós, que é reconhecido pelos críticos mais avançados como autêntico em sua maior parte, é um documento de primeiríssima ordem sobre a doutrina teológica dos profetas na primeira metade do século VIII. Ora, o monoteísmo mais puro e mais absoluto aí se manifesta com força e clareza, e o profeta não o propõe como uma doutrina nova, desconhecida do passado e que ele pregaria pela primeira vez, nem tampouco a formula em termos expressos, tanto a supõe conhecida teoricamente, senão sempre na prática. Uma única vez, V, 26, ele fala do culto dos deuses estrangeiros, de origem assíria, já introduzido no reino de Israel, ao menos entre alguns particulares. Cf. A. Van Hoonacker, Les douze petits prophètes, Paris, 1908, p. 252-254; J. Touzard, Le livre d'Amos, Paris, 1909, p. 55-58. Havia também aludido às práticas idolátricas, usadas no reino de Judá, II, 4. Para designar Javé, emprega denominações antigas, as de Adonai e de Senhor dos exércitos; mas parece bem dar a esta última uma significação nova. Adonai sozinho, VII, 7, 8; IX, 1, 8, mais frequentemente com Javé, designa, sob sua forma plural, que faz deste nome, assim como de Elohim, um plural de majestade, Javé como senhor supremo e exprime com força a onipotência divina. Quanto ao nome de Deus dos exércitos, cuja origem Wellhausen, Smend e Cornill atribuíram ao próprio Amós, não designa mais Javé como o chefe e o guia dos exércitos de Israel em combate. No livro de Amós, como nos dos profetas, seus sucessores, ele «evoca sobretudo a ideia dos exércitos celestes, a dos astros cujos movimentos tão regularmente ordenados sugeriam a ideia de tropas conduzidas por um chefe hábil e poderoso, a dos espíritos cuja morada estava situada nas regiões superiores. Assim, este título é uma nova expressão da majestade de Deus, dessa autoridade que se exerce nos céus tanto quanto na terra e nos fenômenos que ali se sucedem; é uma nova afirmação da onipotência divina.» J. Touzard, op. cit., p. LX. Cf. Löhr, op. cit., p. 66. Aliás, Javé é, aos olhos de Amós, o senhor todo-poderoso da natureza e autor dos fenômenos cósmicos. Sem falar das doxologias, IV, 13; V, 8; IX, 5, 6, que certos críticos declaram interpoladas, resta ainda na obra, reconhecida por todos como autêntica, do profeta, afirmações da soberania de Javé sobre a natureza.

Com efeito, Javé é o autor dos astros, V, 8, dos ventos e das montanhas, IV, 13. É o senhor dos elementos, e todos os flagelos da natureza são atos de sua vontade, IV, 7-11. Cf. VIII, 8, 9; IX, 5, 6. Enquanto os politeístas distinguem tantos deuses quantos elementos há a dirigir, Amós atribui a Javé o governo de todos. Este senhor dos céus, da terra, do mar, persegue em todos os lugares aqueles que sua vingança quer atingir, IX, 2-4. Deus da natureza inteira, é também o Deus de todos os povos e o Deus da história. Fez vir os Filisteus de Caftor e os Sírios de Quir como os Israelitas do Egito, e os Etíopes são para ele tão culpados quanto os Israelitas, IX, 7. De Sião, onde habita, I, 2, pede contas de seus crimes aos Sírios de Damasco, 3-5, aos Filisteus de Gaza, 6-8, aos Tírios, 9, 10, aos Idumeus, 11, 12, aos Amonitas, 13-15, aos Moabitas, II, 1-3, tanto quanto aos Judeus, 4, 5, e aos Israelitas, 6-16. Censura aos povos vizinhos de Israel por terem violado, sobretudo na guerra, as leis de humanidade, comuns a todos, e tem-nos por responsáveis perante seu julgamento. Destruiu os Amorreus, II, 9. Convoca os Filisteus de Asdode e os Egípcios para assistirem ao julgamento de Israel, III, 9. Suscitará contra os Israelitas um povo (os Assírios) para oprimi-los, VI, 13-16; VI, 14, e levá-los cativos para além de Damasco, V, 17. Javé é, pois, o Deus de todos os povos, e é precisamente por seu caráter moral, pois exerce seus direitos sobre as nações pagãs, que violaram as leis fundamentais da consciência. É também a violação dessas mesmas leis que censura ao seu povo de eleição e que pune severamente. Embora tenha livremente escolhido Israel para seu povo dentre todas as tribos da terra por ocasião da saída do Egito, III, 1, 2, não favorece seus crimes; tirará antes deles uma vingança mais retumbante. Apesar de seus privilégios e por causa deles, Israel será punido e considerado por Deus como qualquer outro povo culpado, IX, 7. Se condena Judá porque rejeitou sua lei e não observou seus decretos, II, 4, censura sobretudo a Israel suas injustiças e seus maus procedimentos para com os pobres, 6-8, censura tanto mais merecida quanto Israel havia sido, da parte dele, objeto de marcas de predileção, 9-12. Em diferentes ocasiões, Javé condena as violências dos seus contra os fracos e os pequenos, II, 9, 10; IV, 1; V, 7, 10-12; VI, 12; VIII, 4-7. Para afastar o castigo divino, seria preciso odiar o mal e fazer o bem, e em particular restaurar o direito à porta nos julgamentos, V, 15. Em vez de multiplicar as festas e os sacrifícios, seria melhor que o direito corresse como a água e a justiça como uma torrente inesgotável, 21-24. Não é, contudo, que Deus censure as numerosas práticas religiosas de Israel, que são todas realizadas em sua honra; condena apenas que se associem à injustiça. O culto que ama é um culto moral; censura o caráter puramente formalista e exterior, que lhe dão em Israel, IV, 4, 5; V, 4-7, 21-24. Protesta contra os abusos e contra as práticas imorais do culto, II, 7, 8. Destruirá os altos lugares de Israel, VI, 9. Não ataca diretamente os bezerros de ouro, emblemas de Javé, a menos que se veja uma alusão nisso no «pecado de Samaria», e o Deus de Dã, VIII, 14. Cf. Touzard, op. cit., p. LXIX-LXXII. Israel não compreendeu os castigos que seu Deus lhe havia infligido no curso de sua história para retirá-lo do mal, IV, 6-11; VI, 1-6. Se quiser escapar a uma punição mais grave, Israel deve buscar Javé, isto é, conhecê-lo bem, escutá-lo e obedecer-lhe, V, 4; praticar o bem e fugir do mal, V, 14, 15; escutar os profetas e imitar os Nazireus, II, 11, 12. A um povo enriquecido, a gente satisfeita, VI, 1, às damas de Samaria, IV, 1, Amós prega, em nome de Javé, um ideal de justiça, e ameaça-os com o dia de Javé, do Deus justo e justiceiro, grande reparador dos torts de todos os povos, IV, 2; VI, 8; VIII, 7. Os versículos 5 e 6 do c. IX são uma elevação sobre a grandeza e o poder de Deus, destinada a realçar a força com a qual perseguirá a obra do castigo. Cf. B. Duhm, Die Theologie der Propheten, Bonn, 1875, p. 118-126; J.-J. P. Valeton, Amos und Hosea, trad. alemã, Giessen, 1898, p. 101-115; J. Touzard, op. cit., p. LVI-LXXXI; A. Van Hoonacker, op. cit., p. 193-195. Oseias apenas considera Jahvé em suas relações com Israel. Essas relações se resumem a isto: Jahvé é o Deus de Israel, e Israel é o povo de Jahvé. Datam da saída do Egito, ii, 17; xii, 10; xi, 1. Israel não deve conhecer outro deus senão aquele que foi seu salvador e seu pastor no deserto, xiii, 4, 5, pelo ministério de um profeta (Moisés), xii, 14. Desde o Egito, Jahvé chamou Israel de seu filho, e o amou, quando ele era criança, xi, 1. Ele encontrou os israelitas como uvas no deserto, como frutos primícios numa figueira, ix, 10. É Oseias quem, o primeiro dos profetas, fala assim da paternidade de Deus para com Israel. Israel, ainda criança, em vez de responder aos apelos reiterados de Jahvé, desviou-se dele e ofereceu sacrifícios aos Baals, a Baal-Peor, ix, 10. A essas ingratidões Deus respondeu com os cuidados de um amor perseverante; ensinou Efraim a andar; tomou-o em seus braços, querendo curá-lo; procurava atrair a si os israelitas por laços de amor; foi para eles como uma ama que abraça uma criança, se inclina para ela e lhe dá de comer, xi, 3-4. Eles não reconheceram essas provas de amor. Ele havia concluído com eles uma aliança que eles violaram, pecando contra sua lei, vi, 7; cf. vi, 7. Essa aliança era tão estreita que é representada como um casamento entre Jahvé e Israel, considerado como uma unidade. Por conseguinte, os membros da nação, esposa de Jahvé, são os filhos de Deus. Se a nação se entrega à idolatria, cai na fornicação e no adultério, i, 2; ii, 4, 6, 7, 9-15; v, 3; vi, 7; ix, 1, etc. Assim é na época de Oseias, que insiste fortemente na idolatria de seus contemporâneos, i, 2, representados pelos filhos da fornicação, nascidos a Oseias, i, 2-9. Ver também iv, 12-14; v, 3-7; vi, 7, 10; vii, 4, 9; ix, 1. Os israelitas não são mais o povo de Jahvé, daquele que é o Ser por excelência, i, 9, e Israel não é mais seu esposo, ii, 4. Jahvé o punirá barrando-lhe o caminho, para fazê-lo lamentar seu primeiro estado e reconduzi-lo a seu esposo, ii, 8, 9; esse povo havia empregado os bens recebidos de Jahvé para honrar os Baals; Jahvé lhe tirará seus bens, 10-15; depois falará ao seu coração e lhe devolverá os bens retirados, 16, 17. Como foram os Baals que o fizeram prevaricar, ele suprimirá de sua boca o próprio nome dos Baals, e não quererá mais que sua esposa, tendo voltado a ele, o chame, como no passado, de seu baal ou seu senhor, mas que lhe dê o nome mais terno de seu homem, 18, 19. Uma aliança será contraída por ele com Israel, novos esponsais, que serão eternos, mas esponsais na justiça e no direito, na benevolência e no amor. Assegurada assim a fidelidade de Israel, Israel conhecerá Jahvé, que lhe será propício e lhe devolverá a prosperidade temporal. A Não-meu-Povo Jahvé dirá: «Tu és meu povo», e ele dirá a Jahvé: «Meu Deus!» 20-25. Os israelitas serão então chamados «filhos do Deus vivo», i, 10. Jahvé havia continuado a amar os israelitas, mesmo quando eles se voltavam para outros deuses, iii, 1. Se cessarem de fornicar, converter-se-ão e buscarão Jahvé, seu Deus, e, trêmulos de alegria, se apressarão em direção a Jahvé, de quem receberão os benefícios, iii, 5. Jahvé, esposo de Israel, tinha, pois, para com os filhos de Israel, os sentimentos de um pai. Ele quer que seus filhos culpados o busquem, se ponham em busca dele e voltem a ele, v, 15-vi, 3. Essa busca consiste em conhecê-lo tal como ele é e em honrá-lo como ele quer ser honrado. Por isso ele reprova o culto idolátrico e puramente exterior que lhe prestam em Samaria, com a mesma energia que os cultos cananeus infiltrados em Israel. Ele prefere a piedade, o culto interior, aos holocaustos e aos sacrifícios, vi, 6. Ele repudia o bezerro de Samaria, viii, 5, que foi fabricado por um artesão e que de modo algum é Deus, 6. Será levado para a Assíria, x, 5, 6. Efraim multiplicou os altares para pecar, viii, 11. Cf. x, 1. Por causa da malícia de suas obras, Jahvé expulsará os israelitas de sua casa e não continuará a amá-los; ele os odiou, ix, 15; ele os repudiou, porque não o escutaram, 17. Seus altos lugares serão destruídos, x, 8. Jahvé pune para converter e reconduzir a si os culpados. Ele não quer perder Efraim, apenas o põe à prova, porque é Deus e não homem, porque é santo e não age por um movimento de vingança impiedosa; ele não se compraz em destruir, xi, 9. Fará perecer apenas os israelitas ímpios com seus ídolos de nada. Em Guilgal, esses rebeldes haviam oferecido sacrifícios, mas seus altares serão como montes de pedra nos sulcos dos campos, xii, 11, 12. Haviam feito para si uma obra de fundição com sua prata e estátuas, mero trabalho de artesãos, a que chamavam deuses e a quem ofereciam sacrifícios. Homens dirigiam beijos a bezerros! xiii, 1, 2. A expiação chega a Samaria, porque ela se revoltou contra seu Deus. Que Israel, que tropeçou em sua iniquidade, volte, pois, a Jahvé! xiv, 1, 2. Que os israelitas não digam mais: «Nosso Deus», à obra de suas mãos, xiv, 4. Que Efraim restaurado não tenha mais nada em comum com os ídolos! 9. Que quem é sábio compreenda estas coisas, que quem é prudente as conheça! Pois são retos os caminhos de Jahvé; os justos caminharão neles, ao passo que os maus neles tropeçarão, 10. Oseias enfim faz ressaltar o caráter moral de Jahvé. Ele censura seus contemporâneos por suas injustiças tanto quanto por suas infidelidades. Os príncipes de Judá se tornaram semelhantes a deslocadores de marcos; Efraim oprime o direito, v, 10, 11, e Jahvé o punirá por isso, 12-14. Ele se retirará mesmo dele e voltará ao seu lugar, até que os israelitas tenham expiado sua falta e busquem sua face. Quando estiverem na angústia, se porão em busca de Jahvé, voltarão a ele, e se esforçarão por conhecê-lo melhor, por conhecê-lo tal como ele realmente é, v, 15; vi, 3, justo e amando o direito. Jahvé deseja a piedade, e não o sacrifício, o conhecimento de Deus da parte de seus adoradores mais do que os holocaustos, vi, 6. Os israelitas haviam violado a aliança, que exigia a prática da justiça e da piedade. Galaad se tornara uma cidade de malfeitores, uma cidade cuja força vinha dos bandidos, vi, 7, 8. Os vícios de Samaria são a falsidade, o roubo e o banditismo; são patentes aos olhos de Jahvé, vii, 1, 2. Israel repudiou o bem; o inimigo o perseguirá, viii, 3. Por causa da malícia de suas obras, Jahvé expulsará os israelitas de sua casa e não continuará a amá-los, ix, 15. Que o castigo lhes sirva para fazer sementeiras de justiça e preparar colheitas de piedade; que busquem Jahvé, que virá ensinar-lhes a justiça, x, 12. Jahvé, que habita em Israel, ali está cercado de mentira e fraude. Judá é traidor para com Deus. Efraim persegue o vento e corre atrás do furacão; multiplica a falsidade e a frivolidade por suas alianças com os povos estrangeiros, xii, 1, 2. Se quiser voltar ao seu Deus, que observe a piedade e o direito, que ponha sempre em Deus sua esperança, xii, 7. Efraim é um mercador, cuja mão sustenta uma balança enganosa e que ama a fraude, xii, 8. Que os israelitas convertidos digam a Jahvé: «Perdoa toda iniquidade e acolhe o que é bom», xiv, 3. Cf. B. Duhm, op. cit., p. 137-141; J. J. P. Valeton, Amos und Hosea, p. 144-155; A. Van Hoonacker, Les douze petits prophètes, p. 4-6, e passim.

Um salmista da escola de Asafe convida os israelitas a celebrar uma festa, prescrita por Jahvé, após a saída do Egito, e os exorta a rejeitar do meio deles todo deus estrangeiro, pois Jahvé é o Deus que os fez subir do Egito. Foram infiéis e Jahvé os deixou no endurecimento de seu coração. Se Israel o escutasse e caminhasse em seus caminhos, Jahvé o protegeria contra seus opressores e asseguraria sua duração para sempre. Sl. LXXX (LXXXI).

Isaías, quanto à sua doutrina sobre Deus, se aproxima mais de Amós do que de Oseias. Ele dá ao Senhor dois nomes principais: o Santo de Israel e Jahvé dos exércitos. Pelos exércitos de que ele é o Deus, deve-se entender os exércitos celestes, xxiv, 21, 23; xxxiv, 4, tanto quanto os da terra, xiii, 4; xxxi, 4. As estrelas são dele, xl, 13; os céus e a terra devem escutar sua voz, quando ele fala, i, 2; xxxiv, 1. Ele é o criador do homem, xlv, 7. Em sua cólera, exerce seu poder sobre os elementos da natureza, dos quais é o senhor, xi, 10, 13. Habita no céu, xxvi, 21; xxxiv, 5. Ali se assenta sobre um trono, cercado dos serafins, que formam sua corte e celebram sua santidade, vi, 1-4. Sua realeza é ainda afirmada, xxiv, 23. Deus de toda a natureza, ele é também o Deus de todos os povos. Julgará as nações, ii, 4. Sua mão está estendida sobre todas, xiv, 26. Ele regula a sorte do rei da Síria tanto quanto a do rei de Israel, vii, 1-9. Chama o Egito e a Assíria, v, 26-29; vii, 18, e serve-se deles como instrumento para castigar Judá, vii, 20. Quando o instrumento de sua cólera ultrapassa sua missão, ele o quebra, x, 5-11, ou o golpeia, x, 14-16; xxx, 27-33. Suscita e fortalece os inimigos de Israel, viii, 7, 8; ix, 10, 14. Excita os Medos, xiii, 17; xxi, 2. Comanda os etíopes, xviii, 4-6. Mas pune todos os povos culpados: Babilônia, xiii, 19; xiv, 5, 22, e todos os seus deuses, xxi, 9; os filisteus, xiv, 28-32; Moab, xv, xvi; Damasco, xvii, 1-3; o Egito, xix, xx; Tiro, xxiii, 1-15. Ao ruído de seu trovão, põe em fuga os povos e dispersa as nações, xxxiii, 3; reparte a terra a cordel, xxxiv, 17. Todos os seus desígnios se cumprem, xiv, 24; xxv, 1; xxxvii, 26. Ele é o Deus de Israel, xxv, 9, e de Davi, xxxviii, 5, o poderoso de Israel, i, 24; xxx, 5, e o rei de Judá, xxxiii, 22. É sublime e grande em suas obras, x, 4-6, sobretudo em seus juízos, v, 16; xxxv, 2, que manifestam sua majestade e o fazem temível, ii, 10, 19. Pune e abate os soberbos, e ele será o único exaltado, ii, 17. Vê e conhece tudo, porque é o criador do olho e do ouvido, xxix, 15, 16. Foi um pai para Israel e criou filhos, i, 2; nada negligenciou por sua vinha, v, 1-4. Ezequias põe nele sua confiança, xxxvi, 7.

O general em chefe do rei da Assíria compara Jahvé aos deuses das outras nações, que não puderam defender seus povos contra as forças de seu senhor, 18-20; xxxvii, 10-13. Essa comparação não diminui a confiança de Ezequias, porque Jahvé, esse sim, é o Deus vivo, xxxvii, 4. Tem por trono os querubins, é o único Deus de todos os reinos da terra, e criou o céu e a terra, 16. É o Deus vivo, ao passo que os deuses das nações, vencidas pelos assírios, não eram deuses, mas obra das mãos do homem, madeira e pedra, 19. Jahvé libertará seus servos, para que todos os reinos da terra saibam que ele é o único Deus, 20. Entretanto, muitos judeus haviam abandonado o Senhor e se haviam entregado à idolatria, i, 29; xvi, 10, 14. Seus bosques sagrados serão destruídos e seus altares derrubados, xxv, 9; ao se converterem, rejeitarão seus ídolos de ouro e prata, i, 20; xxx, 22, que haviam fabricado com suas próprias mãos, xxxi, 7. Ezequias havia removido os altos lugares e os altares idolátricos; estava assim mais assegurado do socorro divino, xxxvi, 7. Cf. II (IV) Reg., xviii, 4-7, 22; Hepat, XXXII sq.

Os habitantes de Judá eram filhos rebeldes; estavam cobertos de crimes, i, 2-4, 21-23; iii, 8, 9, 12, 15; v, 7, 8, 20-23; ix, 1, 2. Jahvé não só os pune por isso, i, 5-9, 24-26; como também rejeita seu culto puramente exterior, porque suas mãos estão cheias de sangue, 11-15. Ele exige a pureza dos atos e dos pensamentos, as obras de justiça e de misericórdia, 16, 17, e nessas condições concederá o perdão dos pecados e devolverá suas boas graças, 18-20. Contudo, endurecerá os culpados, vi, 9, 10, e cegará seu povo, xxix, 10-12. O Deus de toda justiça, xxx, 18; xxx, 5, tirará vingança dos crimes, xii, 1; preparará de longe suas vinganças, xxii, 11; xxxi, 2, e devastará a terra, xxiv, 1; xxxvii, 21, 22. Dá o espírito de justiça àqueles que quer salvar, xxxviii, 6. Os justos salvos celebrarão sua majestade, xxv, 14. É o refúgio do fraco, xxv, 4, e nele se pode depositar a confiança para sempre, xxvi, 4; cf. xii, 1, 2.

Ele não é somente justo; é santo. Chama-se o santo de Israel, i, 4, etc., ou de Jacó, xxix, 23. É três vezes santo, vi, 3. Os serafins proclamam sua santidade, e os homens devem tê-lo por santo, temê-lo e recear-lhe, viii, 13. É santo pela justiça, v, 16. Os judeus repudiaram a lei e desprezaram o santo, v, 24, por isso ele está irado contra seu povo, 25. Quer sobreviventes santos, iii, 3, um germe santo, vi, 13. Estabelecerá o reino da justiça, xxxii, 1-5, 16, e na nova Sião, tomará o direito por cordel e a justiça por nível, xxviii, 17. Por isso Isaías quer estar puro para falar ao santo de Israel, vi, 5-7. Essa santidade não era uma santidade puramente exterior e legal, mas sim uma santidade moral, que impõe boas obras. Duhm, op. cit., pp. 168-178. Majestade e santidade são, pois, os dois principais atributos de Deus que Isaías faz ressaltar na primeira parte de seus oráculos.

Na segunda parte de Isaías, é ainda a majestade de Jahvé que aparece em sua onipotência criadora e em seu domínio soberano, mais do que em sua cólera vingadora contra os povos. Jahvé é o criador de todas as coisas, dos céus e da terra, xl, 12, 21, 22; xliv, 24; xlv, 7, 12. Por sua força e seu poder, criou os exércitos dos céus, xl, 26. Por isso as criaturas são convidadas a cantar sua glória, xliv, 23; xlix, 13. O céu é seu trono, lxvi, 1, e essa morada elevada é santa e gloriosa, lvii, 15; lxiii, 15. Ele não teve necessidade de conselheiro, xl, 13, 14. Todas as nações são nada diante dele, xl, 16, 17, assim como seus príncipes, 23, 24. Julga as ilhas, xli, 1-3, 5; predisse e suscitará Ciro, xlv, 2, 5; xlv, 1-5. Não há outro Deus além dele; é o primeiro e o último, Deus desde a eternidade; ninguém pode discutir com ele, xliii, 5, 10, 11; xliv, 5, 6, 9, 10; xlviii, 12, 13; li, 13. Não tem igual; só ele conhece o futuro; é o único refúgio, xlvi, 6, 7. É o Deus do mundo inteiro, liv, 5. Não se pode compará-lo aos ídolos das nações, que são obra do fundidor, xl, 18-20; xli, 6, 7. Por isso lhes lança um desafio, xli, 21-24, a esses ídolos, que não são nada, puro nada, 29. Cf. xliv, 9-20; xlvi, 6, 7. Os que neles confiam serão cobertos de vergonha, xlii, 17. Não há, portanto, motivo algum para temê-los. Deus eterno é também imutável; não se cansa nem se esgota, xl, 28. Existe desde o princípio, e sempre o mesmo, xli, 4. Executa tudo o que decretou, xlvi, 10, 11. Seus pensamentos e seus caminhos não são como os dos homens, lv, 8, 9; sua palavra se cumpre, 11. Glória, pois, a Jahvé somente, xlii, 8, e em toda parte, 10-13.

Jahvé é, no entanto, todo especialmente o Deus de Israel, xli, 1, 2, 8, 9; elegeu Jacó, criou-o, formou-o, é seu rei, xli, 8-10; xliii, 1, 15; xliv, 1, 2, 21. Era o pai dos judeus, lxiii, 16; lxiv, 7. Mas, porque Israel foi culpado, Deus o puniu, xlii, 21-25. Israel estava sem verdade nem justiça, xlviii, 1; havia adorado os ídolos, 5; havia assim se tornado adúltero e se prostituíra, lvii, 3-13; lxv, 2, 3, 7, 11; lxvi, 3. Deus lhe perdoou, depois de tê-lo punido, xliii, 25. Ele o reconduzirá do exílio, xliii, 5-9, 16-21. Vingar-se-á da Babilônia, que o fez cativo, xlvii, 1-15. Sua glória se manifestará pelo retorno dos judeus a sua terra, xl, 5. Vem com poder; seu braço lhe submete tudo, 10. Toda carne o verá e saberá que ele é o único Deus, xlix, 26; li, 10. Aniquilará os inimigos de Israel, xli, 11, 12, e o santo de Israel será o salvador de seu povo, 14, que deverá depositar nele toda a sua confiança, 13-20. Deus, que o salvou, xliii, 1-4, o protege doravante e o ama, xlvi, 3-5, como uma mãe ama seus filhos, lxvi, 13. Instruiu-o para o bem, xlviii, 17; fará dele um povo santo, lxii, 12. Censura-lhe seus crimes passados, lix, 1-8, 12-15, e recomenda-lhe observar o direito, lvi, 1, que ele ama, lxi, 8. Fará germinar nele a justiça, 11, e aceita a observância do jejum e do sábado, unida à equidade, lviii, 6, 7, 9, 10. Protege os pobres e os desafortunados, xli, 17. As nações se converterão a ele e o honrarão, xlv, 14, 20-25. Seu servo lhes exporá sua lei, xlii, 4; li, 1, 3, 15; lx, 1-4. O reino futuro do Deus único e universal será universal e se estenderá à terra inteira. Cf. Duhm, op. cit., p. 279-282.

Miqueias, que era contemporâneo de Isaías, tem sobre Deus as mesmas ideias. Convoca todos os povos, a terra inteira, os montes e as colinas para servirem de testemunhas do juízo que Jahvé vai proferir contra seu povo, i, 2; vi, 1, 2. Do fundo de seu palácio, que é o céu, Deus desce sobre as alturas da terra, que se desfazem em sua presença, i, 3. Vem julgar Samaria e condená-la por causa de seus crimes: sua prostituição aos ídolos, i, 7, suas injustiças, seus pensamentos iníquos e a violação do direito, iii, 1, 2, sobretudo da parte de seus juízes, iii, 1-4, 7, 9-11. Seus ídolos serão suprimidos para que os israelitas não adorem mais a obra de suas mãos, i, 7; v, 12. As injustiças e as más ações serão punidas, vi, 10-13; vii, 2-4. Que não se acuse Jahvé de impaciência; que não se lhe censure tratar assim seu povo. Suas palavras não são acaso benevolentes para com aquele cuja conduta é reta? ii, 7. Seu povo foi ingrato, vi, 3, 4. O que Jahvé pede a Israel não são sacrifícios multiplicados e variados; sozinhos, esses atos de religião não são capazes de obter o favor ou o perdão de Deus. O que é bom e o que Jahvé pede é praticar o direito, amar a bondade e ser humilde diante dele, vi, 6-8. Por mais que os juízes iníquos imolem vítimas e clamem a Jahvé, ele não os escuta; por causa de sua perversidade, esconde deles sua face, iii, 3, 4. Não quer, contudo, fazer perecer seu povo; será o pastor dos bons no meio da aflição, ii, 12; iv, 6-8; vii, 14. A nação se reconstituirá e estará em segurança, pois o poder de Jahvé será reconhecido por toda a terra, v, 3. Todos os povos virão honrar Jahvé em Jerusalém, iv, 1-8. É preciso, pois, esperar em Jahvé, o Deus salvador de Israel, vii, 7-10. Os povos admiram os prodígios que ele realiza em favor de Israel e tremem de temor diante dele, 16, 17. Por isso o profeta termina seu livro com este elogio a Jahvé: «Que Deus é semelhante a ti, que tiras a iniquidade e perdoas a prevaricação! Ele não se obstina perpetuamente em sua cólera, pois ama, ele sim, a misericórdia. Tem piedade de Israel, a quem perdoa suas faltas, porque é fiel a Jacó, propício a Abraão, segundo suas antigas promessas», 18-20. Cf. Duhm, op. cit., p. 183-188.

Poetas, provavelmente contemporâneos de Ezequias, exprimiram a fé dos israelitas piedosos de seu tempo. Têm uma confiança absoluta, em meio aos maiores perigos, na proteção de Deus, que aliás acaba de se manifestar de maneira fulgurante (por ocasião da invasão dos exércitos de Senaqueribe). Deus habita no meio de Jerusalém. Faz ouvir sua voz e as nações que se agitavam se dissolvem de pavor. Jahvé dos exércitos está com os seus; mostrou com brilho que é Deus e que domina sobre as nações e sobre a terra. O Deus de Jacó é em Israel uma cidadela. Sl. xlvi (xlvi), 2-12; cf. xlvii (xlvii), 2-9; xlvi (xlvi), 4-11; lxxiv (lxxv); lxxv (lxxvi).

O Sl. xlix (l) está no espírito dos profetas dessa época. Jahvé convoca a terra e o céu para assistirem ao juízo que vai proferir sobre seu povo, 1-6. Não lhe censura recusar-lhe os sacrifícios de que não tem necessidade, 7-14, mas antes não praticar os preceitos e fazer aliança com os ladrões, os adúlteros e os fraudadores, 16-20. Deus, que prefere a ação de graças aos sacrifícios e que salva aqueles cujos caminhos são retos, repreende os culpados e os ameaça para convertê-los, 21-23.

Um asafita declara que Deus é bom para os que têm o coração puro. Sl. lxxiii (lxxxiii), 1. Ele foi, no entanto, abalado em sua fé na providência, ao ver a insolente prosperidade dos maus, 2-9, o que é um escândalo para o povo fiel, 10-15; mas considerou que Deus conduz os maus à sua perda, 18. Por isso deposita somente em Deus sua confiança, 23-28.

Deus, juiz da terra, profere sua sentença contra os juízes infiéis, que tomam o partido dos maus, e lhes ordena que façam justiça aos fracos e aos órfãos, aos pobres e aos desafortunados. Sl. lxxxi (lxxxii).

O Sl. xciv (xciv) é o apelo de um oprimido à justiça e à vingança de Jahvé, 1, 2. Os maus triunfam e pretendem que Jahvé não repara em suas opressões, 3-7. Mas Deus, criador dos homens, ouve e vê seus crimes, conhece a vaidade de seus pensamentos, 8-11. Jahvé fará com que o juízo volte a ser conforme à justiça, 15; sustenta os oprimidos, 16-19, e castigará os maus juízes, 20-23.

Para um salmista desconhecido, Jahvé é rei, rei dos povos e da terra, rei de Sião; seu nome é grande e temível; é um rei poderoso que ama a justiça. Sl. xcviii (xcix), 1-5. É preciso exaltá-lo, pois é santo o Deus de Sião, 9.

Glória a Jahvé por causa de sua bondade e de sua fidelidade! Sl. cxv (cxv), 1. As nações perguntam onde está o Deus de Israel, 2. «Nosso Deus está no céu; tudo o que quer, ele o faz», 3. Os ídolos de prata e ouro, obra da mão dos homens, são mudos, cegos e surdos, imóveis e sem palavra, 4-8. Jahvé é o socorro e o escudo de Israel, que pode nele depositar sua confiança, 9-11, e continuará seus benefícios, 12-14. Fez os céus e deu a terra aos homens, 15, 16.

Será verdade que «a intervenção da Assíria nos negócios dos povos palestinos obrigou os profetas a olhar bem além das fronteiras de Israel e a conceber do mundo e da humanidade, por conseguinte de Deus, uma ideia mais ampla e mais profunda», como pensa o Sr. Loisy? La religion d'Israël, p. 63. Isso não quer dizer, como pretendeu Renan, Histoire du peuple d'Israël, Paris, 1889, t. ii, p. 465, que «o Jahvé nacional não tinha senão um modo de se salvar, que era tornar-se o Deus universal». Jahvé sempre havia sido o Deus universal, sendo ao mesmo tempo o Deus especial de Israel. Continuou a guardar a primazia absoluta que já lhe pertencia antes. Mas, alargando-se o horizonte político, as relações de Israel com os conquistadores assírios fizeram compreender melhor o governo providencial de Jahvé sobre as nações. O Deus todo-poderoso e justo suscitava esse novo povo, porque tudo o que acontece no mundo se dá por sua vontade; permitia-lhe oprimir Israel, porque este não havia sido fiel a seu Deus, lhe preferira ídolos, não o havia honrado como ele queria ser honrado e não havia obedecido à sua lei. A unidade divina não resultou dessas concepções. Se ela não tivesse sido admitida anteriormente em Israel, não teria sido sugerida pela nova situação política. Muitos outros povos tiveram de sofrer com os assírios e não deram, no entanto, um passo em direção ao monoteísmo; permaneceram fiéis a seus deuses nacionais. Todavia, os êxitos do império assírio, queridos por Jahvé, eram uma ocasião de manifestar mais nitidamente aos olhos de todos a providência divina, de marcar melhor seu caráter moral e de dar uma ideia mais completa das relações de Jahvé com seu povo e com a humanidade. Os acontecimentos políticos da época serviram para desenvolver a ideia de Deus em Israel por meio da pregação moral dos profetas. Essa ideia não se transforma, apenas se eleva e se amplia.

Sob o reinado de Manassés, filho de Ezequias, a idolatria retomou em Judá com novo recrudescimento. Esse rei ímpio restaurou os altos lugares e reergueu os altares de Baal, que seu pai havia destruído. Foi mais longe e ergueu altares idolátricos no próprio templo de Jahvé em Jerusalém. II (IV) Reg., xxi, 2-9. Em punição desse crime, Jahvé fez anunciar por seus profetas a ruína de Jerusalém, 10-15. Amon imitou seu pai e abandonou Jahvé, o deus dos antepassados, 20-22. Mas o piedoso rei Josias seguiu os passos de Davi, xxii, 2. Após a descoberta do Deuteronômio, renovou a aliança com Jahvé; e extirpou a idolatria do meio de Jerusalém, xxiii, 3-14, e derrubou o altar de Betel, 15-20. Como verdadeiro israelita, honrou Jahvé de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças, e observou fielmente a lei que Moisés havia dado em nome de Jahvé, 25. Não obstante, Jahvé puniu Judá por causa dos crimes que Manassés o havia feito cometer, 26, 27; xxiv, 3, 4.

Aliás, a massa do povo não havia sido convertida; o espírito idolátrico foi apenas contido por alguns anos e o verdadeiro culto de Jahvé, consistindo no amor da justiça, não foi praticado senão pela minoria. A vingança divina é predita pelos profetas contemporâneos de Josias, Sofonias e Jeremias.

No século VII, Sofonias, profeta de Judá, proclama a justiça terrível de Jahvé, que atingirá a terra inteira, I, 2, 3, e primeiro Judá e os habitantes de Jerusalém, do meio dos quais fará desaparecer os últimos restos de idolatria, punindo aqueles que não buscaram nem honraram Jahvé, 4-6, os chefes, que abusaram de suas riquezas, 8-12. O dia de Jahvé está próximo, 7; será terrível, 14-18. Para escapar dele, seria preciso conformar-se à regra; para evitar os efeitos da cólera divina, seria preciso buscar Jahvé, praticar sua lei, buscar a justiça e a humildade, II, 1-3. Mas Jerusalém é rebelde a Jahvé, a quem não escutou; não se deixou instruir; seus chefes são maus, III, 1-4. Jahvé é justo no meio dela; não comete a iniquidade; todas as manhãs estabelece seu juízo, 5; por isso exterminará os culpados, para se fazer temer por eles e levá-los a se deixarem instruir, 6, 7. Seu juízo se estenderá a todos os povos contra os quais pronuncia ameaças, II, 4-10, 12-15. Far-se-á temer deles; fará perecer todos os seus deuses, e todos os homens o adorarão, 11. Tornará puros seus lábios para que invoquem seu nome e o sirvam com zelo unânime, III, 9-10. A própria Jerusalém, livre de seus arrogantes fanfarrões, será um povo humilde e modesto, que porá sua esperança no nome de Jahvé. Esses sobreviventes de Israel não cometerão mais a iniquidade, não proferirão mentira e sua língua não será mais enganosa, 11-13. Que Sião se regozije! Jahvé será seu salvador e seu restaurador, 14-20. O dia de Jahvé, para Sofonias, é, pois, o dia em que Deus assegurará o triunfo de sua justiça sobre a iniquidade no mundo inteiro, mesmo em Judá. Este triunfará, mas depois que os arrogantes tiverem sido exterminados, e o restante será constituído pelos humildes. Esse profeta mostra, pois, o caráter moral de Jahvé em todo o seu rigor. Cf. Duhm, op. cit., p. 222-228; Van Hoonacker, op. cit., p. 501-502.

A profecia de Naum, contemporâneo de Sofonias, é dirigida contra Nínive, II, 4-11, III, 19, sem que a ruína predita dessa cidade seja atribuída a Jahvé ou justificada pela conduta dessa cidade para com Israel. A vingança divina não é, pois, afirmada diretamente. Mas o salmo alfabético do início, I, 2-1, 3, caracteriza Jahvé sob dois aspectos. É um Deus ciumento, pronto à cólera e à vingança para com seus adversários; põe em ação os elementos da natureza e nada pode resistir à sua ira, I, 2-6. Mas é bom para com aqueles que nele esperam; é o refúgio deles no dia da aflição. Conhece aqueles que recorrem a ele e os protege contra seus inimigos, 7, 8. Israel culpado será ele mesmo punido. Jahvé extirpará do meio dele as imagens esculpidas e os ídolos fundidos. Seu povo será destruído, mas para ser restaurado, I, 13, II, 3. Cf. Duhm, op. cit., p. 218-219.

Jeremias começou seu ministério profético sob Josias, ao mesmo tempo que Sofonias e Naum. Deus o havia conhecido antes de sua concepção e o havia santificado antes de seu nascimento, tendo em vista a missão que queria lhe confiar, I, 5, e para cujo cumprimento o fortalece, 6-10. Velará pela realização de seus projetos, 12. No tocante a Judá, Jeremias é encarregado de censurar-lhe suas faltas, em particular sua idolatria, 16, e de lhe predizer o castigo. Deus sustentará seu profeta, que estará sozinho a lutar contra todo o seu povo, 19. Como Oseias, Jeremias considera as relações de Jahvé com Israel como um casamento, contraído por amor, II, 2. Do mesmo modo que seus pais, os judeus se entregaram à idolatria, 5, 8. Comportaram-se para com seu Deus de maneira mais indigna do que os pagãos para com os seus. Se estes trocavam seus deuses, que não são nada, o povo de Jahvé trocou-o, ele mesmo, por um ídolo, que não é nada, 11. Os céus devem ficar estupefatos com isso, 12. Abandonaram Jahvé enquanto ele os guiava, 17, e já não o temem, 19. Recusaram-se a servi-lo e se prostituíram aos ídolos, 20, 23; disseram ao lenho: « Tu és meu pai », e à pedra: « Tu me geraste », 27. Mas os deuses que eles próprios fizeram não os salvarão no dia da aflição, 28. Esquecendo-se de Deus, não seguiram o bom caminho e cometeram injustiças, 32-35. Contudo, podem esperar o seu perdão; Jahvé retomará a sua esposa adúltera, III, 1-5. Judá não compreendeu o exemplo de Israel e entregou-se como ele à fornicação idolátrica, 6-10. Mas Jahvé é santo; não se ira para sempre; perdoará aos culpados, se se converterem, 11-25, se chamarem Deus de pai, 19. A conversão consiste em caminhar na verdade, no juízo e na justiça e em circuncidar o coração, IV, 1-4. Jerusalém será punida, 5-18; que ela se converta antes! 14-18. Sua corrupção consiste na ausência de justiça, V, 1-6, 8, 25-28; IX, 2-9, 13, 14, e na idolatria, que é uma fornicação, V, 7; IX, 14. Por isso será punida por Jahvé, V, 19-24. Os povos e a terra serão testemunhas disso, VI, 18, 19.

Judá confia no templo de Jerusalém, que é a casa de Jahvé. Aqueles que praticaram as obras da justiça e que não seguiram os deuses estrangeiros podem ter essa esperança, VII, 2-7. Mas os maus, os violentos e os idólatras têm uma esperança enganosa, 8-15. A oração de Jeremias pelos culpados não será atendida, 16; XI, 14; XIV, 11. Jahvé pediu a seus pais, não que lhe oferecessem holocaustos, mas que observassem os seus preceitos; não lhe obedeceram, fizeram o mal, não escutaram os profetas. Seus descendentes fizeram pior, não ouviram a voz do seu Deus e não se submeteram às suas ordens. A piedade pereceu neles, VII, 21-25; Jahvé tirará vingança disso, 29-34. Porque não tiveram arrependimento e se endureceram em seus crimes, VIII, 4-12, serão punidos, 13-17. Jahvé compraz-se na misericórdia, na justiça e no direito, IX, 24; XV, 19; XXI, 12; XXII, 3. Ferirá todos os incircuncisos e com eles os israelitas, cujo coração é incircunciso, IX, 25, 26. Não há esperança a ter nos ídolos, que são feitos por mão de homem e que não são capazes de fazer nada, nem em bem nem em mal, X, 1-5. Jahvé não tem igual; só ele é grande e poderoso; é o rei dos povos; todos devem temê-lo. Os ídolos de ouro e de prata não são nada. Só Jahvé é o verdadeiro Deus, o Deus vivo e o rei eterno. Os deuses não fizeram o céu e a terra; que desapareçam de debaixo do céu e de sobre a terra! Aquele que fez o céu e a terra em seu poder, sua sabedoria e sua prudência, que amontoa as nuvens, dá a chuva e faz troar o trovão, é a porção de Jacó, a herança de Israel. Jahvé dos exércitos é o seu nome, 6-16. Ele havia feito com Israel um pacto, XI, 2-8, que não foi observado, 9-10, 17; XXII, 9; Israel será por isso punido e não será protegido pelos deuses que escolheu, 12, 13. Jeremias se queixa da prosperidade dos ímpios, XII, 1-3, e da dos inimigos de Judá, 7-13; Jahvé castigará a estes, 14-17. Judá e Jerusalém são culpados, XIII, 8-10, 27. Seus jejuns e suas orações unidos à iniquidade são inúteis, XIV, 12. Deus perscruta os corações e retribui a cada um segundo os seus méritos, XVII, 10; XX, 12. Os bons voltarão do cativeiro, XXIV, 5-7. Jahvé recomenda a observância do sábado, XVII, 19-27; a obediência à lei, XXVI, 4, 5; XXXV, 13; em particular ao decreto sobre o escravo hebreu, XXXIV, 13-16. Ele exige, pois, a prática das obras exteriores tanto quanto a justiça e a caridade fraterna. Porque Jahvé é justo, Lament., I, 18, sua cólera foi justamente provocada contra Sião, Lament., II, 2, 3; III, 42, 43; IV, 11, e ele justamente realizou os seus desígnios de vingança, Lament., II, 17. Contudo, ele é misericordioso, Lament., III, 22, e pode-se esperar nele, 25. Prometeu restaurar Judá: será definitivamente seu Deus, e Judá será seu povo. Jer., XXX, 22; XXXII, 38. Ele o amou, XXXI, 3; teve piedade dele, 20, e o reconduziu ao caminho reto, 21. Contratará com ele uma nova aliança, e porá a sua lei no seu coração; todos conhecerão Jahvé, 31-34. Todos terão um só coração e seguirão um só caminho, o do temor de Jahvé, e o novo pacto será eterno, XXXII, 39, 40. À aliança escrita, contratada com todo um povo, Deus substituirá uma aliança impressa no coração de cada um. A solidariedade coletiva de Israel será destruída, e cada alma terá com Deus um vínculo direto e pessoal. Porque Jahvé é bom e misericordioso, XXX, 11, ele reserva em Judá um germe de justiça, 15. Os judeus, refugiados no Egito, entregaram-se à idolatria a exemplo de seus antepassados; por isso serão punidos, XLIV, 3, 8, 15, 19, 23. Jahvé, o Deus de Israel, é o criador de todas as coisas, XXVI, 5; XXXII, 17. Ele é misericordioso e severo, muito forte, grande e poderoso; não se pode concebê-lo e ele permanece incompreensível. Seus olhos estão abertos sobre todos os filhos de Adão, e ele retribui a cada um segundo os seus caminhos e segundo os frutos dos seus pensamentos, XXXII, 18, 19. Ele é eterno e imutável, Lament., V, 19. É o rei de todos os povos, Jer., X, 7. Por isso apresenta o cálice do seu furor a todas as nações assim como a Judá, XXV, 15-18, e envia correntes aos povos vizinhos de Israel, XXVII, 2-11. Por isso Jeremias pronuncia em seu nome uma série de oráculos contra o Egito, XLVI, os filisteus, XLVII, Moab, XLVIII, Amon, a Iduméia, Damasco, Cedar e Asor, Elam, XLIX, e contra Babilônia, L, que não será defendida por seus ídolos contra a vingança do criador de todas as coisas, 15-16. Cf. Duhm, op. cit., p. 235-240.

Habacuc, que o Sr. Van Hoonacker, op. cit., p. IX, situa sob o reinado de Joaquim, por volta de 605-600, é contemporâneo de Jeremias. A providência de Jahvé exerce-se, para ele, sobre os povos estrangeiros, pois Jahvé suscita os caldeus contra Judá, I, 5, 6. Ele permite a esses conquistadores cúpidos apanhar em suas redes todas as nações e torna os homens oprimidos semelhantes a peixes, tirados ao anzol e à rede, I, 14-17; II, 14, 15. Jahvé, que é assim o rei da humanidade, comanda as forças e os elementos da natureza, quando vem em socorro de Judá, III, 2-16. Ele habita no céu em seu santo palácio, e a terra inteira deve calar-se diante dele, II, 20. Os ídolos de madeira e de pedra não agem e não têm sopro de vida; são nulidades mudas, fabricadas ou fundidas pela mão do artífice, II, 18, 19. Contudo Jahvé é especialmente o Deus santo de Judá desde os primeiros tempos de sua nação; estabeleceu esse povo para o direito e a justiça; não o deixará, pois, perecer inteiramente, I, 12, apesar de suas faltas, pois, diante de seu opressor, Judá é como o justo às voltas com o ímpio; não pode ser abandonado, do contrário o direito seria falseado, I, 2-4, 13; II, 13. O vencedor injusto deve perecer e o justo ter a vida em razão de sua confiança em Deus, II, 4. Os atributos de santidade e de pureza de Jahvé exigem o triunfo do justo, I, 18. Jahvé respondeu a essa confiança do profeta que a punição do opressor está assegurada e que ela chegará; se a execução for retardada, é preciso ter paciência e crer em sua promessa, que não falhará, II, 3, pois Jahvé há de castigar o salteador, 5. Cf. Duhm, op. cit., p. 219-222; Van Hoonacker, op. cit., p. 499-460.

Enquanto Judá agonizava e ia se tornar presa dos babilônios, os israelitas, transportados desde 721 para a Assíria, conservavam, ao menos em parte, a fé monoteísta de seus antepassados. Tobias que, em sua juventude, não havia adorado os bezerros de ouro de Israel e permanecera fiel a Jahvé, Tob., I, 4-8, não abandonou o verdadeiro caminho na terra de seu cativeiro, 2. Ensinou a seu filho a temer a Deus e a abster-se de todo pecado, 10. Porque se lembrava de Jahvé de todo o coração, Jahvé fez com que encontrasse graça aos olhos de Salmanasar, 13. Sob o reinado de Senaquerib, Tobias continuou suas boas obras, 19-21; II, 1-9, temendo a Deus mais que ao rei. Suportou pacientemente, como Jó, a prova da cegueira que Jahvé havia permitido, e esperava de Deus a recompensa de suas boas ações, III, 12-18. Objeto de zombaria para seus amigos, seus parentes e até mesmo sua esposa, confiou na justiça de Jahvé, cujos caminhos são misericórdia, verdade e retidão, e pediu ao Senhor que esquecesse suas faltas e as de seus pais, III, 1-6. Por sua vez, Sara, filha de Raguel, recorria a Deus com os mesmos sentimentos, esperando de sua bondade o fim de suas provações e bendizendo o seu nome apesar de tudo, 12-23. Deus atendeu as orações de seus dois bons servos, 24. Tobias aconselha a seu filho a fuga do mal, a prática da virtude e a fidelidade constante a Jahvé, IV, 6-20. Nisso consiste o verdadeiro bem, 23. Raguel abençoa o jovem Tobias e Sara em nome do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, VII, 15. O jovem Tobias também abençoa Jahvé, o Deus de seus pais e o criador de todas as coisas, VII, 7, 8. Raguel deseja que o Deus de Israel seja reconhecido por todas as nações como o único e verdadeiro Deus sobre toda a terra, 17-19. O anjo Rafael chama Jahvé de o Deus do céu, a quem foram agradáveis as boas obras de Tobias, ao mesmo tempo que provava a virtude desse justo, XII, 6-15. O velho Tobias celebrou então os louvores de Jahvé, sua grandeza, seu reinado eterno e sua providência universal. Os israelitas, dispersos entre as nações que ignoram Deus, devem contar as suas maravilhas e proclamá-lo como o único Deus todo-poderoso. Ele os castigou por causa de suas iniquidades, e os salvará por misericórdia. É preciso, pois, bendizê-lo como o Deus dos séculos; ele manifestou a sua majestade contra um povo pecador. Os israelitas devem converter-se, ser justos e esperar em seguida em sua misericórdia, XIII, 1-8. Jahvé restabelecerá Jerusalém, 11-23; XIV, 6-11.

As ameaças divinas contra Jerusalém e Judá começavam a se realizar. Sob Jeconias, filho de Josias, os caldeus sitiaram Jerusalém e levaram ao cativeiro o rei e a maior parte da nação. IV (IV) Reg., XXIV, 10-16. Cinco anos depois, Baruc, antigo secretário de Jeremias, leu aos judeus cativos a sua profecia, Bar., I, 2-4, e estes juntaram dinheiro para fazer oferecer a Deus sacrifícios no templo de Jerusalém, ainda em pé, para pedir a coragem de suportar a provação e a luz para reparar as suas faltas passadas, 10-13.

Reconheciam a justiça de Jahvé, seu Deus, que os havia justamente coberto de confusão por causa de sua incredulidade e de sua idolatria, 15-22; 11, 1-10. Imploravam a misericórdia do Deus de Israel, 1, 41-49, que por seus profetas os havia ameaçado de castigo, se não se convertessem, 20-30, e que havia predito que sua conversão só se realizaria na terra do cativeiro, 31-35. Reconhecendo suas culpas, recorrem, pois, com confiança ao Deus todo-poderoso, eterno e misericordioso de Israel, 11, 1-8. A profecia de Baruc, cuja leitura produziu nos cativos tais sentimentos, é uma exortação do profeta ao povo. Israel definha em terra estrangeira, porque abandonou a sabedoria, que não existe nem entre os poderosos nem entre os sábios das nações, mas que Deus deu a Jacó, seu filho, e a Israel, seu bem-amado, e que se encontra na lei, o livro dos preceitos de Deus, 1, 9-IV, 4. O povo de Deus não foi vendido às nações para sua perda, mas porque provocou a cólera de seu Deus. Irritou esse Deus eterno, imolando vítimas aos demônios, que não são deuses, e esquecendo-se de Deus, que o havia alimentado, IV, 5-8. Jerusalém queixa-se às nações vizinhas e a seus próprios filhos de sua desobediência aos preceitos de Deus, que os puniu justamente por isso, mas que os reconduzirá ao seu seio; o Santo os salvará por misericórdia, e Israel caminhará doravante com cuidado pela honra de Deus, IV, 9-V, 9. Por outro lado, Jeremias havia escrito aos judeus cativos em Babilônia, para prevení-los contra o perigo da idolatria. Viam ao redor de si deuses de ouro, de prata, de pedra e de madeira, levados em procissão e fazendo-se temer das nações. Longe de se deixarem seduzir pelo seu culto, que digam no fundo de seus corações: « É a vós somente que se deve adorar, ó Jahvé. » VI, 3-5. Treze vezes o profeta repete: « Não são deuses, não os temais, não os adoreis », 14, 15, 22, 28, 39, 44, 46, 49, 51, 55, 63, 64, 68, 71. Essa verdade, que ele inculca tão fortemente, ele a estabelece pelos raciocínios mais simples. Esses ídolos são fabricados e ornados por mão de homem. Não podem se defender contra a poeira, a fumaça, o incêndio, os ladrões, a ferrugem e os vermes. Não podem andar, nem se levantar quando caem. São incapazes de dar riquezas, de punir o mal, de constituir um rei, de exigir que se cumpram os votos feitos em sua honra, de conceder aos homens algum bem, nem sequer a chuva. São semelhantes às pedras da montanha, de onde foram tirados. O culto que se lhes presta é imoral, pois compreende a prostituição das mulheres. Esses deuses são inferiores a um rei, que concede favores a seus súditos, ao sol, à lua, aos astros, às forças da natureza, que são úteis aos homens, aos animais domésticos, que podem fugir e prestar serviço a seu dono. As honras que se lhes prestam são, pois, inúteis, e o homem justo, que não tem ídolo, estará isento dos opróbrios de que esses deuses não podem livrar os seus adoradores, VI, 7-72.

No mesmo ano, um dos cativos, levados com Jeconias, teve visões em Tell-Abib, perto do rio Cobar, na Caldeia. Ezech., 1, 2, 3. A glória de Jahvé lhe apareceu sobre um carro misterioso, 1, 4-II, 1. Deus lhe traçou a sua missão, que era anunciar aos israelitas apóstatas os castigos de sua apostasia e procurar fazer-se ouvir dessa casa irritante, II, 3-7; III, 16-21. Mas eles não quererão ouvir o profeta, tanto quanto não quererão ouvir a Deus, que o envia, III, 4-9. Porque Jerusalém desprezou os juízos de Deus e não observou os seus preceitos, Deus a julgará à vista das nações e, em sua indignação, a despovoará e a tornará deserta. Jahvé o disse, V, 5-17. Todo o país ficará deserto por causa da idolatria que nele reina, e seus habitantes serão mortos diante dos altares. Os sobreviventes se lembrarão de que Jahvé infligiu esse castigo aos idólatras fornicadores, VI, 1-14. O fim de Judá se aproxima. Jahvé, irado, julga o reino segundo os seus caminhos e as suas abominações, VII, 2-13; não terá mais misericórdia. Nada poderá salvá-lo, nem o ouro nem a prata, de que fizeram os ídolos, 19, 20. O país está cheio de injustiça e de iniquidade, 23. Deus os julgará segundo os seus caminhos, e saberão que ele é Jahvé, 27. A glória de Jahvé leva em visão o profeta a Jerusalém e lhe mostra as abominações idolátricas que ali se cometem, até mesmo no templo. Sua gravidade já não permite que Jahvé se deixe aplacar pelas orações, VIII, 1-18. Todos perecerão, exceto os que estão marcados com o thav́ν, IX, 8-6. Por causa de suas iniquidades, Jahvé abandona o país inteiro; não terá misericórdia, 9, 10. A glória de Jahvé sai do templo sobre o carro dos querubins, X, 18. Os príncipes culpados perecerão pela espada, XI, 1-12. Os sobreviventes se santificarão na terra do cativeiro; voltarão a Israel e ali serão fiéis a Deus e à sua lei, 14-21. Cf. XIII, 16. Toda predição de Jahvé se realizará, XII, 25-28. As falsas profetisas, que impedem o povo de se converter, não mais profetizarão a mentira, XIII, 22, 23. Aos velhos impuros que vêm consultá-lo, Jahvé manda responder que Israel, para escapar à sorte que o espera, deveria converter-se, pois castigará todo israelita idólatra e injusto, XIV, 1-8, assim como todo profeta enganador, 9-11. Os três justos, Noé, Daniel e Jó, se ainda estivessem no meio do povo culpado, não o livrariam do castigo que merece, 12-20. A ruína de Jerusalém é causada pelas prevaricações de seus habitantes, XV, 8. Essa cidade se prostituiu vergonhosamente aos ídolos, que honrou com sacrifícios humanos e torpezas; será severamente castigada, pois é mais culpada que Sodoma e Samaria, XVI, 1-52. Jahvé, contudo, lhe perdoará e fará com ela uma nova aliança, que será eterna, 53-63. Mas a violação da antiga aliança será punida, XVII, 19-21. Todos os homens pertencem a Jahvé: os justos viverão, mas se seus filhos forem maus, perecerão, ao passo que o filho inocente de um pai culpado não será punido. O ímpio que fizer penitência será salvo; o justo que prevaricar será castigado, XVIII, 4-28. Ezequiel considera, pois, cada indivíduo em suas relações com Deus tanto quanto o povo inteiro, e este oráculo é um dos primeiros cujo caráter individualista é dos mais marcados. O caminho de Jahvé é reto; o dos israelitas é mau. Que se convertam, se querem viver, pois Jahvé não quer a morte do moribundo, 29-32. Depois de recordar as prevaricações de Israel no Egito, no deserto e na terra prometida, XX, 4-29, Jahvé se recusa a responder aos anciãos do povo que o consultam, porque foram idólatras como seus pais, 30, 31. Estabelecerá o seu reinado sobre eles em seu furor, exterminando todos os ímpios, mas reconduzirá os sobreviventes a Jerusalém, apesar dos crimes de seus pais, para ali ser honrado por eles, para glória de seu nome, 32-44. O rei da Babilônia é, nas mãos de Jahvé, uma espada afiada, que em breve castigará Judá e Amon, XXI, 1-32. Ezequiel faz uma nova descrição dos pecados de Jerusalém: a idolatria e a injustiça, XXII, 41-31. Duas irmãs, a grande Oolá ou Samaria, a pequena Ooliba ou Jerusalém, entregaram-se à fornicação adorando os ídolos da Assíria, do Egito e da Caldeia. Assim como a primeira foi entregue aos assírios, seus amantes, a segunda será entregue aos seus, os caldeus, XXIII, 1-35. As duas irmãs sofrerão assim a pena de sua idolatria, 32-49. Jerusalém será queimada por causa de suas violências e de suas impurezas, XXIV, 6-14. Mas Ezequiel profetiza também contra os povos estrangeiros: os amonitas, os moabitas, os idumeus e os filisteus, XXV, 1-17, contra os tírios, XXVI, 1-XXVIII, 24, contra os egípcios e os assírios, XXIX, 1-XXXII, 32. Todos esses povos orgulhosos serão humilhados e assim aprenderão a conhecer que Jahvé é Deus, o único Deus, o Deus de toda a terra. Quando Jahvé tiver humilhado esses povos, santificará os restos de Israel diante de todas as nações, e os restabelecerá em Jerusalém, para que eles próprios saibam que ele é o seu Deus, XXVIII, 25, 26. Com efeito, se ele faz perecer o ímpio que persevera em sua impiedade, conserva a vida ao ímpio que se converte, XXXIII, 7-9. Ora, ele não quer a morte do ímpio, mas a sua conversão. É um novo traço da pregação individualista de Ezequiel. Por isso este profeta deve dizer à casa de Israel que se converta e mostrar-lhe a equidade dos caminhos de Jahvé, 10-20. Quando Jerusalém foi devastada por Nabucodonosor, Jahvé mandou anunciar aos habitantes que permaneciam nas ruínas de sua cidade que não se iludissem com uma vã esperança: seus pecados os votaram à ruína, 23-29. Jahvé pede em seguida aos pastores culpados de Israel contas do rebanho que lhes fora confiado e que lhes será tirado por causa de seus crimes, XXXIV, 1-10. Ele mesmo governará doravante as suas ovelhas dispersas; as reunirá e lhes dará por chefe um novo David. Será o seu Deus, fará com elas um pacto de paz, as abençoará, as protegerá, e não permitirá mais que sejam o opróbrio das nações. Essas ovelhas são homens, e ele é Jahvé, seu Deus, 11-31. Se a Iduméia deve ser devastada, porque os idumeus derramaram o sangue dos israelitas e quiseram apoderar-se da terra de Israel, XXXV, 1-15, os montes de Israel, devastados, serão repovoados para sempre, XXXVI, 1-15. Jahvé, que puniu os crimes de seus antigos habitantes, purificará os sobreviventes de suas impiedades e de suas iniquidades e os reconduzirá à sua terra, 16-38. Será uma ressurreição, e os ressuscitados terão o espírito de Jahvé, XXXVII, 1-14. Os sobreviventes dos dois reinos de Israel e de Judá, uma vez purificados, formarão um só povo de Jahvé, que caminhará na prática de seus preceitos e que será o povo santo de Jahvé no meio de todas as nações, 15-28. Os inimigos, que atacarem esse novo povo de Deus, serão exterminados por Jahvé, para que todas as nações saibam que ele é o Santo de Israel, XXXVIII, 1-XXXIX, 2. A casa de Israel saberá também que Jahvé é doravante e para sempre o seu Deus, e que ela é o seu povo, purificado pelo cativeiro e animado pelo espírito de Jahvé, 29-29. No vigésimo quinto ano da transmigração, Ezequiel viu em visão a nova teocracia, o seu templo, o seu culto e a partilha do país, XL-XLVIII. E o nome da cidade nova é: Jahvé está ali, XLVIII, 35. Os dois principais caracteres que Ezequiel reconhece em Jahvé são a fidelidade à aliança por ele concluída com Israel, tanto às suas promessas quanto às suas ameaças, e a santidade, que pune os crimes, perdoa ao arrependimento e abençoa cada um dos fiéis observadores de sua lei. O caráter moral de Jahvé, tão fortemente acentuado nos oráculos deste profeta, une-se perfeitamente à prática dos ritos, para os quais Ezequiel elaborou um plano novo para a época da restauração de Israel. Cf. Duhm, op. cit., p. 252-263.

Outro profeta do cativeiro, Daniel, é, na corte dos reis da Babilônia, o intérprete do Deus de Israel, de quem permanece o servo fiel, Dan., I, recusando-se a adorar os deuses de Nabucodonosor e a estátua do rei, III, 12, 14, 15. Nos sonhos que interpreta, nas visões que vê, tem ocasião de enunciar os atributos divinos, e dá a Jahvé nomes variados, que correspondem bem aos mesmos atributos. Ver col. 73. É o Deus dos pais, sábio e poderoso, que constitui os reinos e os transfere, que dá aos sábios a ciência e a sabedoria e que revela os segredos ocultos, II, 20-23. Este Deus do céu revelou o futuro em sonho a Nabucodonosor, 28, 29; deu-lhe o seu reino, o poder e a glória, 37. Nabucodonosor o reconhece como o Deus dos deuses, 47. Este Deus é suficientemente poderoso para tirar Daniel e seus companheiros da fornalha ardente, III, 17. Em nome da justiça e da misericórdia de Jahvé, Azarias pede a proteção divina para que os caldeus aprendam que Jahvé é o único Deus, glorioso sobre toda a terra, 26-45. Preservados das chamas, os três jovens israelitas glorificam e bendizem o seu protetor, 51-90. Nabucodonosor declara que Jahvé é o único Deus capaz de fazer um milagre semelhante, 95, 96. Escreve a todos os seus súditos que o Deus altíssimo lhe deu sinais maravilhosos, que quer dar a conhecer, 99, 100. Daniel, que tem o espírito dos deuses santos, IV, 5, 6, interpretou o sonho da árvore, enviado ao rei para que aprendesse que o Altíssimo dá os reinos a quem quer, 14, 22, 29. Curado, Nabucodonosor rendeu glória ao Altíssimo, cujas obras são todas verdadeiras e cujos caminhos são justos, 31-34. Daniel o recorda a Baltasar, seu filho, V, 18-21. Este rei honrou deuses que não veem, nem ouvem, nem sentem, e não glorificou o Deus que tem em sua mão o seu sopro e os seus caminhos, mas se ergueu contra ele, 22, 23. Este Deus lhe faz dizer que o seu reinado está terminado e que o seu reino se torna a partilha dos medos e dos persas, 24-28. Apesar das ordens de Dario, Daniel orava a seu Deus; foi lançado na cova dos leões, VI, 10-16. Dario tinha a esperança de que o seu Deus, o Deus vivo, o salvaria, 16, 20. O Deus de Daniel enviou um anjo para proteger o seu servo, 22. Dario promulgou por decreto que era preciso, em todo o seu império, temer o Deus de Daniel, o Deus vivo, eterno e todo-poderoso, 25-27. Nas visões, o Ancião de dias, que se assenta num trono, julga os reis da terra, VII, 9-12, e dá ao Filho do homem o poder sobre todos os povos, 13, 14. Daniel roga a Deus por seu povo. Deus é, a seus olhos, grande, terrível, fiel, misericordioso para com os que o amam e observam os seus mandamentos, mas justo e severo para com os israelitas culpados, IX, 4-14. Que ele faça misericórdia a Jerusalém e perdoe ao arrependimento, 15-19! A profecia das semanas e a dos reinos dos persas e dos gregos mostram que Deus conhece o futuro, que é o senhor dos povos e que rege a sorte dos impérios. Em Babilônia, Susana temia a Deus e havia sido educada na lei de Moisés, XIII, 2, 3. Acusada pelos anciãos, depositou a sua confiança em Jahvé, 35, e pediu a esse Deus eterno, que conhece todas as coisas antes mesmo de serem feitas, que protegesse a sua inocência, 42, 43. Jahvé atendeu à sua oração e inspirou Daniel, 44, 45, que sabia que Deus não deixa perecer o inocente e o justo, 53. Daniel não adorava o deus Bel, um ídolo feito por mão de homem, mas o Deus vivo, que criou o céu e a terra e tem poder sobre toda carne, XIV, 3, 4. O rei pretendia que Bel vivia, pois comia e bebia todos os dias.

Daniel respondeu que ele era de barro por dentro e de bronze por fora, 6, e provou por um hábil estratagema que os sacerdotes retiravam o alimento que se preparava todos os dias para o ídolo e faziam crer que o deus o havia comido, 7-21. Fez perecer também um dragão que os babilônios adoravam, para mostrar que ele não era um deus vivo, mas que só Jahvé era o Deus vivo, 23-26. Foi protegido por seu Deus na cova dos leões; o rei louvou a grandeza do Deus de Daniel e o fez honrar por toda a terra, 29-42.

Alguns salmistas, provavelmente contemporâneos do cativeiro, suspiram pelo Deus vivo, pelo seu templo santo, do qual estão afastados. Esperam em seu Deus. O abandono e o esquecimento, em que Jahvé parece deixá-los e que seus perseguidores lhes atribuem, não diminuem a sua confiança em seu protetor e seu salvador. Ps. XLI (XLII), 2-12. A lembrança dos benefícios que Deus concedeu a seus pais por amor reanima a sua esperança de vitória. Deus já não sai à frente dos exércitos de Jacó; dispersa o povo entre as nações, embora esse povo não tenha esquecido o seu Deus, nem tenha estendido as mãos a um deus estrangeiro. Deus, que conhece os segredos dos corações, não o teria visto? Que ele desperte, pois, e se levante para socorrer os seus! Ps. XLIII (XLIV), 9-27. À vista das ruínas de Jerusalém, Ps. LXXIII (LXXIV), 3-9, à lembrança dos antigos benefícios de Deus, 2, 10-14, e de seu poder criador, 15-17, um salmista pergunta a Deus se rejeitou os israelitas para sempre, 1, e reclama proteção, 18-23. Cf. Ps. LXXVII (LXXVIII), 8-21; LXXIX (LXXX), 1-13; LXXX (LXXXI), 2-18. Quando a dinastia de Davi, a quem Jahvé havia prometido a estabilidade, foi derrubada, Etã lembra a esse Deus poderoso e temível, ao criador do céu e da terra, a sua fidelidade às suas promessas para com a família real. Ps. LXXXVIII (LXXXIX). Um salmista anônimo celebra a bondade e a misericórdia eterna do Senhor; invoca o socorro divino para o seu povo culpado, Ps. CV (CVI), 1-6, como o fizeram os seus pais, 7-46, aos quais Deus, não obstante, socorreu. Que Jahvé reúna os judeus do meio das nações, para que possam celebrar o seu santo nome! 47.

VI. DEPOIS DO RETORNO DO CATIVEIRO. — O monoteísmo espiritual, pregado pelos profetas do século VII e do século VI, havia sido contrariado pela maioria da nação até a destruição de Jerusalém pelos caldeus. Triunfou definitivamente em terra estrangeira. Os verdadeiros israelitas impregnaram-se profundamente de seu espírito durante o cativeiro, e quando o edito de Ciro lhes permitiu voltar à Palestina e reerguer as ruínas de Jerusalém, em 538, uma parte do grupo fiel voltou, e a nova comunidade de Israel se reorganizou pouco a pouco segundo o espírito dos profetas da lei divina. Desde então, Jahvé reinou sem rival entre o seu povo, à espera de que, pela vinda do Messias, o seu reinado entre as nações começasse a se realizar.

1° Sob a dominação persa. — Não se pode certamente ver no decreto de Ciro uma profissão de fé monoteísta em Jahvé, Deus do céu. II Par., XXXVI, 23; I Esd., I, 2-4. É preciso ver nele apenas a expressão dos bons sentimentos de um conquistador acomodatício e hábil político, que fala com respeito de todos os deuses de seus novos súditos e se apresenta como seu adorador. Cria ter recebido deles ordens e autoriza a continuação ou a retomada do seu culto. F. Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, 6e édit., Paris, 1896, t. IV, p. 405-419. Os primeiros repatriados ergueram em Jerusalém o altar do Deus de Israel e recomeçaram a oferta de sacrifícios. I Esd., III, 2-6. Lançaram os alicerces do templo, celebrando com grandes clamores a bondade e a misericórdia de Jahvé, 10-13. Os trabalhos, interrompidos pelo ciúme dos samaritanos, IV, 1-5, foram retomados no segundo ano de Dario e concluídos no sexto, IV, 24; V, 1-15, com os incentivos dos dois profetas Ageu e Zacarias. Em nome de Jahvé dos exércitos, Ageu censura os repatriados por negligenciarem a reconstrução do templo; as más colheitas dos anos precedentes são a justa punição que Deus inflige por essa negligência; Jahvé põe o seu prazer e a sua glória nessa ressurreição, I, 1-11. Jahvé está com os repatriados em virtude da aliança concluída na saída do Egito, II, 5. Tem o poder de transtornar o céu, a terra e o mar para glorificar o novo templo, menor que o antigo. Toda a prata e todo o ouro lhe pertencem, 6-9, 21, 22. Porque se obedeceu às suas ordens, Jahvé derrama suas bênçãos sobre os campos, 16-19. Os oito primeiros capítulos de Zacarias dizem respeito também à construção do templo, mas de um ponto de vista diferente das exortações de Ageu. O acabamento da casa de Deus é aí apresentado como devendo trazer a manifestação completa do favor divino para com a comunidade reintegrada na graça, ao passo que os pais tinham sido punidos por seus crimes. A ação da providência divina far-se-á, pois, sentir benfazeja no futuro, como se exercera severa e punitiva no passado. Jahvé dos exércitos estava irritado contra os pais por causa de seus caminhos e de suas obras más, que seus filhos não devem seguir, I, 2-5, 12, 14. Os pais não escutaram os profetas que lhes pregavam a prática da verdade, da bondade e da justiça, e foram punidos pelo cativeiro, VII, 8-14. Mas a nação se converteu, I, 6; essa conversão fez cessar a cólera divina, 12, e a comunidade nova receberá as bênçãos divinas. A destruição do império da Babilônia, a libertação do povo cativo, a reconstrução do templo, queridas por Deus, não são senão o começo de maiores benefícios, I, 15-17; II, 4-17. A reabilitação do sumo sacerdote é também um penhor de prosperidade futura, III, 1-10. Cf. VI, 9-15. O candelabro de ouro de sete lâmpadas entre duas oliveiras representa a vigilância de Jahvé e os agentes de que ele se serve para se esclarecer na formação de seus bons desígnios para com a comunidade, IV, 10-14. A antiga maldição sai do país, onde doravante não haverá mais ladrão nem perjuro, V, 3, 4. Os dias de jejum, instituídos para expiar as faltas passadas, devem ser transformados em alegres dias de festa, VII, 1-7. Jahvé ama Sião com uma paixão ardente, e fará dela uma cidade fiel, uma montanha santa. Seus habitantes serão seu povo, e ele será o seu Deus em verdade e em justiça, VIII, 1-8. Eles, que tinham sido uma maldição entre as nações, serão uma bênção, 9-16; mas deverão praticar a sinceridade e a justiça, pois Jahvé odeia o falso juramento, 16, 17. Os jejuns são transformados para eles em dias de alegria, com a condição de que amem a verdade e a paz, 18, 19, e as nações virão a Jerusalém para conquistar o favor de Jahvé e para buscar Jahvé dos exércitos, 20-23. Cf. Duhm, op. cit., p. 314-318.

Se, com M. Van Hoonacker, op. cit., p. 649-662, se admite a unidade de composição de Zacarias, I-VIII; IX-XI + XIII, 7-9; XI-XIII, 6 + XIV, considerar-se-ão as promessas messiânicas da segunda e da terceira seções como a continuação das bênçãos preditas na primeira à nova comunidade. Vencidos os inimigos, IX, 1-7, Sião estará sob a proteção de Jahvé ao abrigo de toda invasão, e seu rei messiânico proclamará a paz para todas as nações, 8-10, pois Jahvé terá combatido por seu povo, 11-16. Depois de punir os maus pastores, Jahvé visitará o seu rebanho, salvá-lo-á e fortalecê-lo-á, X, XI. O criador do céu, da terra e do homem anuncia o triunfo de Jerusalém sobre seus inimigos, sua restauração e a regeneração espiritual de seus futuros habitantes, XIII, 1-10; XIV, 1-5. Não haverá mais em Jerusalém nem pecado nem mancha, e Jahvé dela removerá os ídolos, XIII, 1, 2. Jahvé será rei sobre toda a terra, XIV, 9. As nações virão honrar Jahvé dos exércitos em Jerusalém, 16-19, e oferecer-lhe sacrifícios, 20, 21. Cf. Duhm, op. cit., p. 145-149.

Vários salmos parecem ter sido compostos para celebrar a reconstrução do templo. O sl. XCV (XCVI) convida todos os povos da terra a cantar os louvores de Jahvé, a bendizer o seu nome, a celebrar a sua glória, pois ele é grande, digno de louvor e temível mais que todos os deuses, que não são senão nada. Ele criou os céus. Todos os povos devem reconhecê-lo por rei e por juiz, um juiz justo e fiel à sua palavra. O sl. CXVI (CXVIII) convém à dedicação do segundo templo. O povo e os sacerdotes cantam a bondade e a misericórdia eterna de Jahvé, 1-4. Jahvé salvou Israel, que o tinha invocado; socorreu-o, depois de o ter castigado duramente, 5-18. As portas do novo templo são as portas da justiça, pelas quais podem entrar os justos, 19, 20. Jahvé é Deus; é preciso louvá-lo, 27, 28.

Por ocasião da destruição de Jerusalém pelos caldeus, os iduméus regozijaram-se com a queda da capital judaica. Lament., IV, 21, 22; Ezech., XXXV, 5-15; Ps. CXXXVI (CXXXVII), 7. É por isso que Abdias, que Van Hoonacker, op. cit., p. 285-297, situa na época que se seguiu ao retorno do cativeiro, anuncia que Jahvé destruirá inteiramente esse povo, 1-16, ao passo que salvará Sião e a fará próspera, ele a quem pertence o império, 17-21. E um pouco mais tarde, Malaquias declara que essa diferença de sorte provém do fato de Jahvé ter amado Jacó e odiado Esaú, I, 2-4. Da vingança infligida aos iduméus, os judeus concluirão que Jahvé é grande para além do território de Israel, 5. Porque é pai e senhor, ele pergunta aos sacerdotes prevaricadores como o temem, quando não observam exatamente as prescrições do ritual, 6-10. Seu nome é grande entre as nações, 11, 14. Se os sacerdotes não se aplicarem de coração às suas obrigações, Jahvé os amaldiçoará e os castigará, II, 1-4. Em virtude do pacto concluído com Levi, o sacerdote deve ser franco, íntegro e reto, 5-9. Jahvé é o pai e o criador de todos os judeus, que no entanto são pérfidos e profanam a aliança, desposando eles, coisa sagrada que Jahvé ama, as filhas de um deus estrangeiro, 10-12. Jahvé não tem por agradáveis as suas ofertas, porque eles se divorciam por motivos injustos, 13-16. Eles lhe são pesados, porque dizem: Todo aquele que faz o mal é bom aos olhos de Jahvé, que nele se compraz, ou então: Onde está o Deus da justiça? 17. Eles são, pois, maus; mas o Messias renovará o sacerdócio e a nação, III, 1, 2; os levitas oferecerão a Jahvé sacrifícios em justiça; Jahvé julgará os adúlteros, os perjuros e os opressores, 3-5, pois ele não mudou, ao passo que os judeus não cessaram de fazer o mal, 6, 7. Para voltar a ele, não deverão mais fraudar no pagamento do dízimo, 7-12. É sem razão que os judeus se queixam dele, dizendo que serviram em vão, que não tiraram nenhum proveito da observância de sua lei. Consideram felizes os arrogantes, visto que os que fazem o mal estão na prosperidade e escapam ao castigo, embora tentem a Deus, 13-15. Jahvé ouviu essas queixas e prestou-lhes atenção. Assim, no dia em que ele agir, os que o temem serão para ele como sua propriedade, como filhos para com os quais será indulgente. Ver-se-á então a diferença que ele faz entre o justo e o ímpio, entre aquele que o serve e aquele que não o serve, 16-18. Os ímpios serão punidos e os servos de Jahvé recompensados, 19-21. Que estes pratiquem, pois, a lei de Moisés! 22. Jahvé quer que seus servos cumpram não somente as obras da justiça, mas também os preceitos de sua lei e os próprios ritos. Cf. Duhm, op. cit., p. 318-320.

A esta pregação de Malaquias associa-se hoje a dupla missão de Neemias, que teria precedido a de Esdras. A ideia que Neemias tem de Deus é a mesma de Malaquias. Ele ora ao Deus do céu, o Deus poderoso, grande e terrível, que é fiel e misericordioso para com os que o amam e observam os seus mandamentos. Confessa os seus pecados e os de seu povo, e a justiça de seu castigo, predito a Moisés, e pede que Jahvé escute a sua oração e a dos israelitas que temem a Deus. II Esd., I, 5-11. Deus, a quem tinha orado, II, 4, tornou-lhe favorável o rei dos persas, 8, e sugeriu-lhe o desígnio de levantar de novo os muros de Jerusalém, 12. Pedia o socorro do Deus do céu para essa obra, 20. Quando os samaritanos lhe fazem obstáculo, Neemias pede ainda a Deus o êxito, IV, 4, 5, 9, confiante no poder desse Deus terrível, 14. Deus dissipou os projetos dos adversários, 15. Os judeus tinham razão de esperar que ele combateria por eles, 20. O temor de Deus não se pode conciliar com a cobrança de juros sobre o dinheiro emprestado, V, 9, e Deus castigará os que o fizerem, 13. Por temor de Deus, Neemias não cobrou os impostos a que seu cargo lhe dava direito, 15, e espera que Deus se lembre desse sacrifício feito em prol do povo e o abençoe por isso, 19, como pelos aborrecimentos que lhe causaram Tobias, Sanabalate e os profetas que o desviavam de sua obra, VI, 14. Deus sugere a Neemias a ideia de recensear os habitantes de Jerusalém, VII, 5. Ele deu a todos uma grande alegria no dia da dedicação dos muros de Jerusalém, XII, 42. Se o relato de II Mach., I, 20-36, é histórico, Neemias, para reencontrar o fogo sagrado, invocou Jahvé, o criador, recordando todos os seus atributos, 24, 25. Havia estabelecido anteriormente que se observariam as prescrições divinas relativas aos casamentos mistos. II Esd., X, 30. Quando voltou a Jerusalém, no trigésimo segundo ano de Artaxerxes, constatou que o abuso desses casamentos tinha persistido, assim como outros, aos quais pôs em ordem, XIII, 4-31. Deus os tinha permitido, 18, mas Neemias espera que Deus se lembre dele e o abençoe por ter suprimido tais abusos, 14, 22, 29-31.

Segundo M. Van Hoonacker, op. cit., p. 342-344, o livro de Jonas foi composto em meados do século V. O mesmo crítico crê mais no caráter didático e moral do relato do que na realidade dos fatos narrados, cuja encenação se destina a inculcar mais fortemente as lições morais. Ora, na primeira parte, I, 11, Jonas tenta subtrair-se à missão que Jahvé lhe confiara, mas é reconduzido à costa por um duplo milagre, I, 4; II, 1, a fim de mostrar que um enviado de Deus pretenderia em vão libertar-se de seu mandato, apesar da vontade divina. Deus exerce sobre o seu profeta uma autoridade absoluta e tem o poder de se fazer obedecer. Por outro lado, Jahvé tem também autoridade sobre as nações pagãs, visto que envia Jonas anunciar a Nínive que a malícia dessa cidade subiu diante dele, I, 2.

Os marinheiros pagãos, atemorizados com a tempestade enviada por Jahvé, o Deus do céu que fez a terra e o mar, rogam a esse Deus, que não conheciam, que poupe os inocentes e só castigue o culpado, I, 7-16. Jahvé, que os atende, escuta pois favoravelmente as orações de todos os homens, mesmo dos pagãos, que, por suas obras, o reconheceram como o verdadeiro Deus. O milagre do peixe prova a onipotência de Jahvé, que dispunha de meios soberanos para reconduzir um profeta recalcitrante à execução de sua missão. A oração de Jonas foi atendida, e o profeta lançado à costa pelo monstro marinho. A providência divina exerce-se mesmo sobre os culpados, contanto que recorram a Deus; somente os servos dos ídolos não podem contar com o favor daqueles que invocam, II, 9, 10.

Na segunda parte, Jahvé ordena de novo a Jonas que pregue a Nínive a destruição da cidade culpada; mas os ninivitas creem em Deus e fazem penitência, e Deus, vendo a sua conversão e os seus atos de penitência, mudou de resolução e não destruiu a sua cidade, III, 1-10. O profeta concebeu por isso despeito e queixou-se a Jahvé de sua clemência e de sua longanimidade; Deus provou-lhe pelo milagre da mamoneira que suas queixas eram inspiradas por um amor-próprio egoísta, IV, 1-11. Deus guarda, pois, uma independência absoluta; sua misericórdia pode sempre outorgar o perdão ao arrependimento. Jonas irrita-se sem razão com os procedimentos benevolentes da providência divina, que, misericordiosa tanto quanto justa, se estende a todos os homens, pagãos e judeus.

Para M. Van Hoonacker, op. cit., p. 145-154, o oráculo de Joel é um pouco posterior ao livro de Jonas. Ao anúncio da proximidade do dia de Jahvé, todo Israel deve jejuar e reunir-se na casa restaurada de Jahvé, I, 14, 15, para orar a esse Deus que castiga, 19. Esse dia de Jahvé não é o dia da ruína dos inimigos de Israel, como nos antigos profetas, mas sim o do julgamento de Jahvé sobre todos os povos, IV, 11. Para se prepararem para ele, os judeus devem voltar a Jahvé de todo o coração, pois ele é propício e misericordioso, cheio de longanimidade e mui clemente; arrepende-se do mal com que ameaça, e volta atrás das medidas vingadoras que tomou, II, 13. Assim, talvez em vez da maldição predita contra Sião, deixe ele uma bênção, 14. Que se convoque, pois, em Sião uma assembleia geral para clamar a Jahvé: Tem piedade do teu povo; que a tua herança não seja o opróbrio das nações que a dominam, e que elas não possam dizer: Onde está o seu Deus? 15-17. Por amor, Jahvé poupou o seu povo, afastou dele os males anunciados e derramou sobre ele os seus benefícios materiais e espirituais, II, 18-26. Os israelitas saberão assim, pelas maravilhas realizadas em seu favor, que Jahvé é o seu Deus, que não há outro além dele, 27. O dia de Jahvé será, pois, para Israel um dia de bênção: Jahvé derramará o seu espírito sobre todos, III, 1-2; todo aquele que invocar o nome de Jahvé será salvo, 5; Judá e Jerusalém serão restaurados, IV, 1, e as nações que os oprimiram serão julgadas e punidas, 2-16. Os judeus saberão que Jahvé, seu Deus, habita em Sião, sua santa montanha. Jerusalém será santa e os estrangeiros não passarão mais por ela, 17; os bens messiânicos ali correrão, 18, ao passo que o Egito e a Idumeia serão castigados. Judá e Jerusalém durarão para sempre, e Jahvé habitará em Sião, 19-21. O novo povo de Deus não perecerá. Cf. Duhm, op. cit., p. 312.

Sob Artaxerxes II, em 398, Esdras traz de volta à Judeia uma nova colônia de emigrantes. I Esd., VIII, 1-26. Esse escriba, instruído na lei de Moisés, recebe do rei, por disposição de Jahvé, a missão de reorganizar no templo de Jerusalém o culto do Deus do céu. Bendiz por isso o Deus dos pais, que lhe fez obter esse favor do rei dos persas, 27, 28. Ordena um jejum para obter a proteção de Jahvé durante a viagem. Tinha dito ao rei que a mão de Deus protege os que o buscam no caminho do bem, e que a sua fúria onipotente cai sobre os que o abandonam, VIII, 21-23, 31. Os casamentos mistos eram, aos olhos de Esdras, uma grave transgressão da lei de Jahvé. Essa iniquidade do povo somava-se aos pecados dos antepassados. Esdras pede por isso perdão ao Deus de Israel, que proibira tais uniões, IX, 6-15. Por uma medida radical, todas as mulheres estrangeiras foram repudiadas, X, 1-44. Esdras fez ler o livro da lei e celebrar a festa dos Tabernáculos. II Esd., VIII, 1-18. Fez renovar a aliança com Jahvé. Para ele e para os seus contemporâneos, Jahvé era o único e verdadeiro Deus, o criador do céu e de seus exércitos, dos astros, da terra e dos mares, o vivificador universal. Escolheu Abraão; tirou Israel do Egito e deu-lhe no Sinai a sua lei. Esse Deus propício, clemente, misericordioso, longânime, não abandonou no deserto os israelitas rebeldes; introduziu-os na terra prometida e multiplicou a sua raça. Eles o irritaram pelo abandono de sua lei; mataram os profetas que lhes enviava. Ele os castigou; eles voltaram a ele na desgraça, e do céu ele os atendeu. Nunca os abandonou apesar de suas repetidas apostasias, porque é misericordioso e clemente. Foi justo, desde o dia em que os castigou por meio da Assíria. Todos tinham abandonado os seus preceitos. Eis que eles voltaram à terra de seus pais; que as suas bênçãos se multipliquem para eles e para os reis, sob cujo domínio os colocou! IX, 6-37. As condições do novo pacto são a observância fiel de todos os preceitos de Jahvé, 29-33. O povo de Deus tornou-se assim a nação sacerdotal de Jahvé, que é o Deus do céu tanto quanto o Deus de Israel. As prescrições divinas serão fielmente observadas; as da pureza, mesmo exterior, porque Deus é santo, as do culto, que Jahvé quer ver unidas à prática da justiça e da moral. O monoteísmo é garantido pela fidelidade às práticas religiosas, impostas pelo Deus único, que punham Israel ao abrigo das influências pagãs pela observância exata dos regulamentos severos e minuciosos. Desde Neemias e Esdras, o reinado da lei foi absoluto entre os judeus. A prática do culto manteve nele viva a religião, sem destruir a piedade individual sob a influência ressecante do legalismo. A piedade individual exprimiu-se, nessa época, num certo número de Salmos que, em acentos de um nacionalismo surpreendente, traduzem a religião do coração e acabam de nos informar sobre a fé monoteísta de seus autores no Deus vivo do universo. Esses hinos, destinados talvez desde a sua composição ao uso litúrgico, cantam também o culto público de Jahvé no templo de Jerusalém e recomendam calorosamente a observância integral da lei divina.

O sl. LXXXIV (LXXXV) é uma ação de graças a Jahvé, que trouxe de volta os cativos de Jacó, depois de ter perdoado os seus pecados e feito cessar a sua ira contra eles, 2-4, um pedido de salvação completa, 5-8, e uma brilhante descrição da restauração na bondade e na verdade, na justiça e na paz, 9-14. O altíssimo e o todo-poderoso é um refúgio contra todos os perigos; pode-se confiar nele. Ps. XC (XCI), 1-16; cf. Ps. CXXV (CXXVI), 4-6. É preciso louvar Jahvé, o criador e o moderador do universo, Ps. XCI (XCII), 2-7, o eterno que dispersa todos os ímpios, 8-10, o Deus justo que recompensa os bons, 11-16. Jahvé é rei, um rei cheio de majestade e de força, cujo trono é eterno e que é ele próprio magnífico nas alturas, Ps. XCII (XCIII), 1-4; suas promessas são imutáveis e a sua casa é santa, 5. É preciso celebrar com alegria Jahvé, a rocha da salvação. Ps. XCIV (XCV), 1, 2. Jahvé é um grande Deus, um grande rei acima de todos os deuses, 3. Criou a terra e o mar, que lhe pertencem, 4, 5. Jahvé é o criador e o Deus de Israel, que é o seu povo e o seu rebanho, 6, 7, por longo tempo infiel, 8-14; não se deve imitar a rebeldia dos antepassados. Jahvé é rei; a justiça e a equidade são a base do seu trono; ele é o Senhor de toda a terra, que treme diante dele. Os céus proclamam a sua justiça, e todos os povos contemplam a sua glória. Os adoradores de ídolos serão confundidos; todos os deuses se prostram diante de Jahvé; ele é o altíssimo e lhes é soberanamente superior. Os fiéis que odeiam o mal são protegidos por ele, que semeia a luz para o justo e a alegria para os corações retos. Ps. XCVII (XCVIII), 1-11; cf. Ps. CXXXIII (CXXXIV). Todos os habitantes da Palestina devem servir a Jahvé e reconhecer que ele é Deus. Fez de Israel o seu povo; os israelitas devem louvá-lo, pois ele é bom; a sua misericórdia e a sua fidelidade são eternas. Ps. XCIX (C), 1-5. O salmista ora a Jahvé; esgotou-se clamando por ele. Ps. CI (CII), 1-12. Jahvé, que está assentado num trono eterno, terá piedade de Sião e lhe fará graça. Todas as nações reverenciarão o seu nome, porque reedificou Sião. Que o novo povo celebre Jahvé, que olhou de sua santa altura, dos céus, para a terra, para escutar os gemidos dos cativos! 13-23. Ele é eterno, ele, o criador da terra e dos céus. Suas criaturas perecerão e mudarão, ele permanece imutável, e seus anos não têm fim, 25-28. Bendito seja Jahvé por causa de seus numerosos benefícios! Ps. CII (CIII), 1-5. Ele exerce a justiça e faz justiça a todos os oprimidos, 6. É misericordioso e compassivo, tardio para a ira e rico em bondade. A sua ira dura apenas um momento, e nunca castiga tanto quanto se merece. A sua bondade para com os que o temem é tão grande quanto os céus são elevados acima da terra. Sua compaixão é a de um pai para com os seus filhos. O homem não é senão uma flor, um sopro ressecado; a bondade de Deus é eterna, assim como a sua justiça. Jahvé estabeleceu o seu trono nos céus, e o seu império estende-se sobre todas as coisas, 6-19. Cf. Ps. CXLIV (CXLV), 1-21. O sl. CIII (CIV) é um hino ao criador, infinitamente grande, revestido de majestade e de esplendor, 1, 2. A natureza inteira, que ele fez, está ao seu serviço. Criou tudo, os céus, a terra, os mares; é autor de tudo o que a terra produz para as aves, os animais e os homens. Fez a lua e o sol, o dia e a noite, 3-23. Suas obras são numerosas e feitas todas com sabedoria, 24-30. Glória, pois, a Jahvé em suas obras! 31. O sl. CIV (CV) é um convite a louvar Jahvé e a fazer conhecer entre as nações os benefícios que concedeu a Israel e que são descritos, 9-44. O Deus de Israel lembra-se eternamente da sua aliança, 8, e cumpre fielmente as suas condições se Israel guardar os seus preceitos e observar as suas leis, 45. Os remidos de Jahvé devem dizer: «Louvai a Jahvé, pois ele é bom e a sua misericórdia é eterna.» Ps. CVI (CV), 1-8. O salmista descreve em seguida, com o auxílio de ricas comparações, o que Jahvé fez por eles, repetindo várias vezes: «Que louvem a Jahvé por sua bondade!» 8, 15, 21, 31. A conclusão é esta: «Que o sábio note esta conduta de Jahvé e compreenda as bondades de seu Deus!» 43. Cf. Ps. CXXXV (CXXXVI), cântico de louvor cujo refrão é: «Pois a sua misericórdia é eterna.» Um salmista canta ele mesmo entre as nações a bondade e a fidelidade de Jahvé. Ps. CVIII (CVII), 4, 5. Deus é mais elevado que os céus, e a sua glória brilha sobre toda a terra, 6, porque socorreu Israel contra os seus opressores, 12-14. Cf. Ps. CX (CXI), 4-9. Outro salmista louva a Deus de todo o coração, pelas grandes obras que fez por Israel. Ps. CX (CXI), 1, 2. Sua justiça subsiste para sempre, 3; ele é misericordioso e compassivo, 4; suas obras são verdade e justiça; seus mandamentos são imutáveis, estabelecidos segundo a retidão e a verdade, 7, 8. Seu nome é santo e temível, 9. O temor de Jahvé é o começo da sabedoria, e os que observam a sua lei são verdadeiramente sábios, 10. Cf. Ps. CXIV e CXV (CXVI), CXVII (CXVIII), CXLV (CXLVI)-CL.

Uma última série desses cânticos recomenda a observância da lei divina e faz o seu elogio. O sl. CXI (CXII) proclama feliz o homem que teme a Jahvé e que põe o seu prazer em observar os seus preceitos. O longo sl. CXVIII (CXIX) celebra em repetidas ocasiões a beleza da lei divina e o seu valor inestimável. Ela afasta do mal e procura a sabedoria. O verdadeiro fiel deve meditá-la sem cessar e praticá-la o mais fielmente que puder, porque ela vem de Deus e ele prometeu misericórdia e perdão aos que a guardam. Deus é bom e benfazejo, 68; é o criador do homem, 73; seus juízos são justos, 75; sua fidelidade é duradoura, como a terra que criou, 90. Tudo subsiste segundo as suas leis, e todos os seres obedecem às suas ordens, 91. Ele é justo; seus juízos são equitativos, 137, 138, e sua justiça é eterna, 142. Suas misericórdias são infinitas, 156.

Os salmos graduais, ou cânticos das subidas, cantam a alegria de vir a Jerusalém em peregrinação. Jerusalém é santa, porque contém a casa de Jahvé, a casa onde os levitas o servem. O socorro vem de Jahvé, que fez o céu e a terra. Ps. CXX (CXXI), 2; CXXIII (CXXIV), 8; CXXXIII (CXXXIV), 3. Jahvé assenta-se nos céus. Ps. CXXII (CXXIII), 1. Feliz o homem que teme a Jahvé e que anda nos seus caminhos! Ps. CXXIX (CXXX), 1-6. Jahvé conhece todos os pensamentos do homem, que não pode escapar-lhe; sua ciência é, pois, infinita como a sua imensidão. Ps. CXXXVIII (CXXXIX), 1-12. Criou o homem, de quem conhece os destinos futuros, 13-16.

2° Sob o domínio sírio. — Alguns desses salmos pertencem provavelmente ao período sírio e representam-nos a crença judaica numa época sobre a qual estamos pouco informados. Não temos documentos certos datados do século III. Do século II, temos os livros dos Macabeus e os escritos sapienciais do Eclesiastes, do Eclesiástico e da Sabedoria. Os livros dos Macabeus celebram o heroísmo da fé dos judeus fiéis. Quando Seleuco Filopátor (187-175) enviou Heliodoro para saquear o tesouro do templo de Jerusalém, sob o pontificado de Onias III, o povo invocou o Deus todo-poderoso, que interveio visivelmente para expulsar o usurpador. II Mach., III, 23-30. Essa intervenção divina deu-se em consideração ao sumo sacerdote, 33. Heliodoro, ferido por Deus, foi convidado a proclamar o seu poder; ofereceu um sacrifício e publicou por toda parte as obras e o poder do grande Deus que habita no céu e que é honrado em Jerusalém, 34-39. Sob o reinado de Antíoco Epifânio (175-164), judeus abandonaram a fé de seus pais e adotaram os costumes gregos. I Mach., I, 12-16. Ao voltar de sua segunda campanha no Egito, Antíoco retirou do templo os vasos sagrados.

Deus, irritado com as faltas de seu povo, não castigou esse usurpador como tinha castigado Heliodoro. O lugar santo, que escolhera para morada, foi abandonado por causa dos crimes da nação e da ira do todo-poderoso. II Mach., v, 16-20; I Mach., i, 20, 24, 38, 59. O culto de Jahvé foi abolido, I Mach., i, 41, 46-52, e templos foram erguidos aos ídolos, 50, 57-60. II Mach., vi, 1-7. Houve apóstatas, I Mach., i, 55, 62, mas também muitos fiéis e mártires, 65, 66. O velho Eleazar preferiu a morte à desobediência às leis divinas, II Mach., vi, 23, e os suplícios dos homens ao castigo de Deus, 26, entregando-se ao conhecimento que Deus tinha de suas disposições, 30. Os sete irmãos tinham os mesmos sentimentos, segundo o testemunho do mais velho, vii, 2, e esperavam de Deus, que conhece a verdade, a consolação de seus males, 6. O terceiro e o quarto esperavam do Deus do céu a ressurreição de seus corpos, 11, 14. O quinto apelava para o poder de Deus, que vingará o seu povo, 16, 17, e o sexto advertiu o tirano de que não conte com a impunidade da parte de Deus, 19. Sua mãe tinha em Deus a mesma esperança; reconhece-o como o criador do mundo e o autor da vida dos homens, 23, 29. O mais jovem ameaça o rei com o castigo de Deus, que permite a perseguição dos seus por causa de seus pecados, mas que, depois da conversão dos culpados, punirá o perseguidor, 31-36. Suplica a Deus que mostre que ele é o único Deus, 37, e representa-se, a si e a seus irmãos, como vítimas que aplacarão a ira do todo-poderoso, 38. Manteve até a morte a sua confiança em Jahvé, 40. O sacerdote Matatias e seus filhos revoltaram-se contra o tirano, confiantes no socorro divino, porque não queriam abandonar a lei e os justos preceitos de Deus. I Mach., ii, 21. Encorajavam-se na fidelidade à lei pelo exemplo dos antigos, 49-63. Judas pensava que a vitória lhe viria do céu mais do que de seu exército, podendo Deus igualmente livrá-lo de um grande número como de um pequeno número de inimigos, iii, 18, 19. Seus soldados combaterão, mas Jahvé derrubará os inimigos diante deles, 21, 22. Os revoltosos contavam, pois, principalmente com o socorro de Deus, 58, submissos que estavam à vontade divina até a morte, 60. Sua confiança fundava-se na lembrança da proteção de Deus na passagem do mar Vermelho e na fidelidade de Jahvé à aliança que tinha contraído com seus pais. Graças à intervenção divina em seu favor, todas as nações saberão que é Jahvé quem salva Israel, iv, 9-11. Nicanor contava com a vitória e não pensava que o todo-poderoso tiraria vingança dele. II Mach., viii, 11. Os judeus, que não criam na justiça de Deus, fugiam, 13; outros vendiam os seus bens e pediam a Jahvé que os livrasse do general ímpio, senão em atenção a si mesmos, ao menos por causa da aliança feita com os antepassados e porque eles próprios tinham invocado o seu nome grande e santo, 14, 15. Judas confia, não como o seu adversário na força de seu exército, mas no todo-poderoso que, por um único ato de vontade, pode destruir o universo, 18, e lembra-se dos socorros que deu outrora a Israel, especialmente contra Senaqueribe, 19, 20. Sob o estandarte do socorro de Jahvé, 23, foi ajudado pelo todo-poderoso, 24, e o seu exército bendisse Jahvé, que começara a derramar sobre Israel a sua misericórdia, 27, cuja continuação ele pede, 29. Antes de outra batalha, Judas invocou o salvador de Israel e, lembrando-lhe a proteção que dera às armas de Davi e de Jonatas, pediu a vitória para as suas. I Mach., iv, 30-33. Nicanor, humilhado por Deus, II Mach., viii, 35, publicava por toda parte que Jahvé protege os judeus, 35. Antíoco Epifânio, a quem Jahvé, Deus de Israel, tinha ferido com uma chaga invisível, ix, 5, não reconheceu de início o poder de Deus, que se exercia sobre ele, 8. Não podendo suportar ele mesmo o fedor que exalava de seu corpo, confessou que era justamente castigado e recorreu à misericórdia divina, 12, 13, prometendo restituir os vasos do templo e proclamar o poder de Deus, 16, 17. Reconheceu o justo julgamento de Deus, 18. Vencedor, Judas purificou o templo e restabeleceu o culto. I Mach., iv, 42-58; II Mach., x, 1-3. Os judeus, prostrados por terra, suplicavam a Jahvé, pedindo que tais males não lhes fossem mais infligidos no futuro e que seus pecados fossem reprimidos mais suavemente. II Mach., x, 4. Sob Antíoco Eupátor, Judas implorou o socorro de Jahvé no início de sua expedição contra a Iduméia, 16. Quando Timóteo, chefe do exército sírio, recomeçou a guerra, Judas e seus soldados suplicavam a Deus que lhes fosse favorável, 25, 26. Desde o início da batalha, Jahvé lhes deu um penhor de sucesso, 28, depois interveio visivelmente para lhes assegurar a vitória completa, 29-31. O exército bendisse Jahvé pelas maravilhas por ele operadas em favor de Israel, 38. Lísias, não reconhecendo o poder de Deus, xi, 4, veio com novas tropas invadir a Judeia. Judas e os seus pedem com lágrimas a salvação, 6. Uma intervenção divina dá nova prova da misericórdia de Jahvé e é penhor seguro de vitória, 8-10. Lísias, julgando os hebreus invencíveis graças à proteção do Deus das misericórdias, concluiu a paz, 13. Em suas outras guerras, Judas invoca o juiz justo, xii, 5, o grande príncipe do mundo, que outrora derrubou Jericó sem exército, 15, 16, o todo-poderoso, 28, Jahvé, seu auxiliar e o chefe da guerra, 36, e obtém o socorro divino, 10; a presença do Deus que tudo vê espalha o terror no exército inimigo, que foge, 22. Judeus traziam sob suas túnicas objetos consagrados a ídolos, 40; pereceram no combate por um justo juízo de Deus, 41, e Judas fez oferecer em Jerusalém um sacrifício pela expiação de sua falta, 42-46. O rei dos reis excita a animosidade de Eupátor contra o traidor Menelau, xiii, 4. Avançando Eupátor contra a Judeia, Judas ordenou preces públicas para reclamar, mais uma vez, o socorro de Deus, 10-12. Ele confiava o desfecho da expedição ao juízo de Jahvé, o criador do mundo, 13, 14. Obteve a vitória, graças à proteção divina, 17. Sob o reinado de Demétrio I (162-150), Nicanor ameaçava derrubar o templo de Jerusalém. Os sacerdotes invocaram aquele que sempre combatera por sua nação; pediam ao senhor de todas as coisas, que de nada necessita, que preservasse a casa que ele havia escolhido, e ao santo dos santos que a protegesse contra toda mácula. I Mach., vii, 37, 38; II Mach., xiv, 34-36. Nicanor queria atacar Judas num dia de sábado. Os judeus que o acompanhavam lhe representaram que o Deus vivo e poderoso, que está no céu, ordenava o repouso nesse dia. II Mach., xv, 1-4. Ele queria apoderar-se de Judas; este último esperava sempre em Deus e reavivava a esperança de seus soldados no todo-poderoso, que enviaria do céu a vitória, 7, 8. Na véspera da batalha, ele pediu ao Senhor que renovasse a derrota milagrosa do exército de Senaqueribe. I Mach., vii, 41, 42; II Mach., xiv, 21-24. Sua prece e a de seus soldados foram atendidas; reconfortados pela presença de Deus, obtiveram a vitória e por ela deram graças ao todo-poderoso, 26-29, 34. Os judeus de Jerusalém, nessa aflição, haviam escrito a seus irmãos do Egito. Depois do triunfo, enviam uma segunda carta para lhes anunciar que Deus atendera suas preces, e desejam que, em memória de sua aliança com os patriarcas, esse Deus os abençoe, os una e lhes dê o verdadeiro espírito religioso. II Mach., i, 1-8. Uma terceira carta rememora o socorro divino, concedido contra Antíoco e seus sucessores, e bendiz a Deus, que os livrou de grandes males e lhes entregou os ímpios, 11, 17. Termina com um ato de confiança absoluta em Deus, seu salvador, i, 17-19. Antes de morrer, Simão Macabeu deseja a seus irmãos o socorro do céu. I Mach., xvi, 3. O livro do Eclesiastes, que, por simples recurso literário, faz falar Salomão, é atribuído pelos críticos ao século III antes de Jesus Cristo. O autor, um desiludido das coisas humanas, manteve inabalável a fé no Deus pessoal de seus pais. Segundo ele, Deus fez e ainda faz toda coisa bela a seu tempo, no tempo que ele fixou; pôs no coração do homem o pensamento da eternidade; mas sem que o homem possa compreender perfeitamente o que Deus fez, iii, 11. O bem-estar da vida é um dom de Deus; o homem pode gozar dele, 13; vii, 14; ix, 9. Tudo o que Deus faz, ele o faz sempre da mesma maneira, para que o temam, iii, 14, 15. Deus julgará um dia o justo e o mau, 17, e adia seu julgamento para experimentar os homens e fazer-lhes compreender seu valor, 18. O julgamento de Deus incidirá sobre todas as ações do homem, xi, 9. Deus está no céu, e a prece que o homem lhe dirige desde a terra não precisa ser multiplicada, v, 1, 2. Devem-se cumprir prontamente os votos que se lhe fizeram, 3, 4. Não se deve falar ou agir de modo a irritar a Deus e a anular os próprios atos, mas temer a Deus, 5, 6. Deus dá a cada um a duração de sua vida, 17, e a uns as riquezas, 18, 19, sem lhes permitir gozá-las constantemente, vi, 2. Ele fez o dia da felicidade e o dia da desgraça, e ninguém poderá mudar sua obra; é preciso, pois, gozar do bem e resignar-se à desgraça, 13, 14. Quem teme a Deus evita os excessos, 18. Quem é agradável a Deus escapa da mulher má, que enlaça o pecador, 26. Deus fez o homem reto, capaz de fazer o bem; mas o homem busca muitas sutilezas para desviar-se do caminho reto, 28. A felicidade é para os que temem a Deus e que caminham no temor em sua presença; não é para o mau, que não tem o temor de Deus, vii, 12, 13. Os justos e os sábios estão na mão de Deus e dependem absolutamente dele, ix, 4. É Deus quem faz tudo, e o homem não conhece seus desígnios, xi, 5. É preciso lembrar-se de seu criador desde a juventude e não esperar, para fazê-lo, os dias maus, xii, 1, antes que o espírito retorne a Deus, que o deu, 7. O resumo de todo o discurso é este: « Teme a Deus e observa seus mandamentos; eis o todo do homem, pois Deus julgará toda ação, boa ou má, » 13, 14. O Eclesiástico é do início, e sua tradução grega é do fim do século II. O filho de Sirac declara, desde a primeira palavra, que toda sabedoria vem do Senhor e que ela é eterna, criada que foi antes de todas as coisas pelo Senhor, assentado em seu trono, ele mesmo o único sábio, grandemente temível. Ele a comunicou liberalmente aos que o amam, i, 1-11, em particular a Israel. Cf. xxiv, 8, 12. Essa sabedoria consiste no temor e no amor do Senhor, do qual ela é o começo e a raiz, a plenitude e a coroa, 13, 14, 16, 18, 20. Os que a servem, servem ao Santo, iv, 14; todos os bens vêm dela, x, 19, 21, 23; xv, 4-6; xxii, 27; xxv, 11; xxx, 14-16; xxxiv, 14-17; xl, 26, 27. É preciso praticá-la, observando os mandamentos, 26, 27; xix, 18. Apesar da provação, é preciso ter confiança em Deus e em sua misericórdia, ii, 3-10, pois o Senhor é compassivo e misericordioso; ele perdoa os pecados e livra da aflição, 11. Os que temem o Senhor devem obedecer-lhe e não o temer com medo servil; pois ele tem tanta misericórdia quanto poder, 15-18. O Senhor quer que o pai seja honrado por seus filhos, iii, 2, 7, 15; é maldito de Deus aquele que irrita sua mãe, 16. O humilde encontra graça diante de Deus, cujo poder é grande, 18, 19. Deus, que fez o pobre, ouve sua prece, iv, 6. O Senhor combaterá por aquele que combate até a morte pela verdade, 28. Ele punirá quem satisfizer sua cobiça. O pecador não deve tranquilizar-se com a paciência de Deus; dele vêm a piedade e a cólera, e seu furor cai sobre os pecadores, v, 2-7. Deus não tem por agradáveis os sacrifícios e as ofertas do pecador, vii, 9; xxxiv, 19; mas sim as do homem justo, xxxv, 3-11. O culto é em honra do Altíssimo, do todo-poderoso, do grande rei, do misericordioso, i, 14, 15, 17, 19. É preciso temer o Senhor de toda a alma e amar seu criador com todas as forças, honrar os sacerdotes e dar-lhes a parte da vítima que lhes cabe, vii, 29-31. O êxito de um homem está na mão do Senhor, que dá aos chefes a autoridade de que gozam, x, 5, assim como lha tira, e ele regula a sorte das nações, 14-16. O orgulho é odioso a Deus; afasta de Deus e é punido por Deus, 7, 12, 13. A sorte dos grandes depende de Deus, cujas ações são espantosas, xi, 4-6. Os bens e os males, a vida e a morte, a pobreza e a riqueza vêm do Senhor, seus dons são para os justos, 14, 15. Não se deve escandalizar com a prosperidade do pecador, pois Deus pode facilmente enriquecer o pobre, e sua bênção é a recompensa do homem piedoso, 19, 20. Será fácil ao Senhor, no dia da morte, retribuir ao homem segundo suas obras, 24. Ele recompensa o bem feito ao homem piedoso, xii, 2. O Altíssimo odeia o pecador e tirará vingança dos ímpios, 6. O Senhor não poupou o pecador, odeia tudo o que é criminoso. Ele criou o homem livre, 11-17. Sua sabedoria é grande, ele é forte e poderoso, e vê todas as coisas; conhece todas as obras do homem, e não deu a ninguém a permissão de pecar, 18-20. Na história, ele puniu os grandes culpados, xvi, 6-10. Nem um só ficará impune, pois do Senhor vêm a misericórdia e a cólera; poderoso em perdão, ele também desencadeia sua cólera; tão grande quanto sua misericórdia, tão rigorosos são seus castigos; ele julgará o homem segundo suas obras, 11-14; xxvi, 19. Ele pune as faltas contra o próximo, xxv, 1; o autor chama o Senhor de « pai e soberano senhor de sua vida », xxx, 1, 4. Ninguém poderá escapar ao seu olhar em nenhum lugar que seja, pois o céu, o mar e a terra tremem, quando ele os visita, xvi, 15-21. O filho de Sirac pede a Deus que o preserve dos pecados. Deus criou todas as coisas, que subsistem tais como ele as fez, na bela ordem que constatamos, xvi, 22-28. Todas as obras do Senhor são muito boas, e todas as suas ordens se cumprem a seu tempo, xxxix, 16-18, 25-35; xli, 15-xlii, 23. Ele fez o homem e assinalou um termo à sua vida. Fez-o moral e religioso, deu-lhe uma lei e proibiu-lhe a iniquidade; vigia sobre todos os seus caminhos, xvii, 1-13, 15-19; xlii, 3, 4.

Ele designa um chefe a cada povo, mas Israel é sua porção predileta, 14, 2. O criador de tudo vive eternamente; só ele é justo; o homem jamais compreenderá perfeitamente nem suas perfeições nem suas obras, xv, 4-5. Porque o homem não vive muito tempo, o Senhor é paciente para com ele; é misericordioso para com todos; repreende, corrige, instrui, reconduz ao redil e tem piedade de todos, 8-13. No último dia, no tempo da cólera e da vingança, Deus desviará seu rosto daquele que não tiver cumprido exatamente os seus votos, 21-23. Os olhos do Altíssimo são mil vezes mais brilhantes que o sol. Deus conhece o adultério secreto, que proíbe, assim como conhecia o universo antes de tê-lo criado, xx, 18-20, 23. É preciso bendizer o Senhor, o criador e autor de todo bem, xxxii, 148. Ninguém pode ocultar-se a seus olhos, e seu olhar alcança de eternidade em eternidade, xxxix, 19, 20. Quem confia no Senhor não sofrerá dano algum, 23; a desgraça não lhe sobrevirá, e se for provado, Deus o livrará, xxx, 1. Deus é o autor da desigualdade das condições, 10-13; suas obras são diversas e opostas umas às outras, 15. O Senhor é um Juiz, que não faz acepção de pessoas; ouve a prece do oprimido, da viúva e do órfão; julga segundo a equidade e faz justiça. Punirá os opressores, indivíduos ou povos, e tomará a seu cargo a causa de Israel oprimido, xxxv, 14-19. O filho de Sirac roga, pela libertação de seu povo, ao soberano Senhor, Deus do universo, que manifestará às nações seu poder e sua grandeza, como manifestou sua santidade punindo Israel culpado, e lhes ensinará que não há outro Deus além dele, xxxvi, 1-5. Apela para a aliança, 8, para que Deus tenha piedade de seu povo primogênito, 12. Que todos os habitantes da terra reconheçam que Jahvé é o Deus dos séculos! 17. Ele agradece ao Senhor, rei, seu salvador, que o fez escapar ele mesmo a um perigo mortal, li, 4-12.

3° Sob a influência da filosofia grega. — O filho de Sirac era um judeu da Palestina, todo impregnado do espírito de sua raça; o autor da Sabedoria é um judeu alexandrino, que sofreu a influência do helenismo. Como o Eclesiastes, fala em nome de Salomão, mas sua língua é o grego vulgar da época. A sabedoria que ele recomenda consiste na justiça e na retidão moral, conforme à vontade de Deus e à sua lei. Ao contrário, os pensamentos perversos separam de Deus, e a sabedoria não se associa à iniquidade. O espírito santo e sábio de Deus ama os homens; contudo, pune o ímpio, cujo coração Deus salva, pois seu espírito enche o universo e ele, que contém tudo, ouve tudo o que se diz. Deus punirá, pois, todos os discursos e todos os pensamentos dos ímpios, 1-10. Deus não fez a morte, e não sente alegria com a perda dos viventes, 13, 14; a justiça é imortal, 15; o pecado e a impiedade fazem morrer, 15, 14b. Os ímpios oprimem o justo, que pretende possuir a ciência divina e se diz filho de Deus, gabando-se de ter Deus por pai e de ser finalmente feliz, ii, 12-16. Se o justo é filho de Deus, Deus tomará sua defesa e o livrará das mãos de seus adversários, 18. Mas, se, segundo os desígnios secretos de Deus, o justo é provado aqui embaixo, Deus o remunerará mais tarde, pois criou o homem para a imortalidade, 22, 23. Ele o recompensará, depois de o ter provado, iii, 4-9. Os ímpios, que se afastaram de Deus, serão castigados, 10. O justo é agradável a Deus, iv, 10, 14, que quebrará os ímpios, 18-20. Os justos vivem eternamente, e sua recompensa está junto ao Senhor, cf. vi, 18; o todo-poderoso cuida deles e os protegerá contra os insensatos, v, 15-23. Os reis devem buscar a sabedoria. A força lhes foi dada pelo Senhor e o poder pelo Altíssimo, que examinará seus atos e sondará seu pensamento. Ministros da realeza de Deus, devem praticar a lei e fazer a vontade divina; do contrário, serão julgados severamente, vi, 1-6. O soberano de todos não recuará diante de ninguém, pois é o criador dos grandes e dos pequenos, e cuida tanto de uns quanto de outros, 7. A sabedoria, aliás, é de origem e natureza divinas; é o sopro do poder de Deus, pura emanação da glória do todo-poderoso; é o resplendor da luz eterna, o espelho sem mancha da atividade de Deus e a imagem de sua bondade, vii, 25, 26. Por isso Deus só ama quem habita com a sabedoria, 28. Ela mesma habita com Deus, de quem deriva, e o Senhor de todas as coisas a ama, viii, 3. O autor a pede ao Deus de seus pais, ao Deus de misericórdia que fez o universo por sua palavra e que, por sua sabedoria, constituiu o homem para reger o mundo na santidade e na retidão e exercer o domínio sobre as outras criaturas na retidão de seu coração, ix, 1-3. Deus, criador do homem, x, 4, puniu os sodomitas culpados, 8; combateu pelos israelitas, 20, fazendo perecer os egípcios, como um rei severo, e provando os sobreviventes como um pai que adverte, xi, 10; estes reconheceram na derrota a mão do Senhor, 13. Essa mão todo-poderosa, que fez o mundo de uma matéria informe, poderia ter ferido o Egito com outras pragas, 17-19; mas Deus tudo regulou com medida, número e peso, pois o soberano poder está sempre à sua disposição, e ninguém pode resistir à força de seu braço. O mundo está diante dele como um átomo, como uma gota de orvalho; mas, porque é poderoso, tem piedade de todos, e fecha os olhos aos pecados dos homens para conduzi-los à penitência. Ele ama todas as criaturas, que fez por amor. Elas só subsistem porque ele o quer; ele as conserva, porque as chamou à existência, 20-25. Ele só castiga os culpados por graus, adverte e repreende os pecadores, para que renunciem à sua malícia e creiam nele, xii, 2. O autor cita como exemplo a conduta de Deus para com as tribos cananeias, 3-11. Se Deus foi indulgente para com elas, não foi por temor de ninguém, pois ninguém pode pedir contas a Deus. Não há outro Deus além dele, que cuida de todas as coisas a fim de mostrar sua justiça, regra de sua conduta, e é porque é o Senhor de todos que ele usa de indulgência para com todos. Senhor de sua força, julga com brandura, pois terá sempre o poder à sua disposição para castigar quando o quiser, 11-18. Essa conduta de Deus ensinou a seu povo que o justo deve ser humano e que, se pecar, terá tempo de se arrepender, 19-22. Os egípcios, que tinham por deuses os mais vis animais, foram punidos, e vendo nas pragas que os feriam a mão de Deus, o reconheceram como o Deus verdadeiro, 23-27. O autor do livro parte daí para provar a loucura da idolatria e a possibilidade de o homem conhecer, pelo espetáculo do mundo, o Deus criador, xiii, 1-9. É a primeira vez que encontramos na Bíblia uma prova racional da existência de Deus; foi preciso que os judeus estivessem em contato com os gregos céticos para sentir a necessidade de demonstrar Deus por suas obras materiais. Antes, o espetáculo da natureza manifestava apenas aos olhos dos puros semitas os atributos divinos, o poder, a bondade, a sabedoria, a providência. O escritor sagrado também ridiculariza os ídolos e seus adoradores. Não procede da mesma maneira que Isaías e Jeremias ou os salmistas. Disserta sobre a maneira como se fabricam os ídolos e sobre a inutilidade do culto que se lhes presta, xiii, 10-xiv, 21. É o próprio Deus que, por sua providência (προνοίᾳ), governa o idólatra, que invocou seu deus, xiv, 3-5. Ele odeia igualmente o ímpio e sua impiedade, 9. A idolatria foi introduzida no mundo pela loucura dos homens, para honrar seus mortos, deificando homens, 14-22. Não bastou errar sobre a noção de Deus, prestou-se aos ídolos um culto imoral e cruel, 22-29. Os idólatras serão punidos por essa dupla prevaricação, 29-31. Deus agiu de outro modo para com os israelitas, ele que é bom, fiel e paciente, que governa tudo com misericórdia, xv, 1. Os israelitas, mesmo quando pecam, sabem que pertencem a Deus e reconhecem seu poder, pois conhecer Deus é a justiça perfeita, e reconhecer seu poder é a raiz da imortalidade, 2, 3. Eles não se extraviaram, portanto, como os idólatras, que adoram as obras de suas mãos e afeiçoam-se ao mal, 4-6. O operário, que fabrica um ídolo, desconhece seu criador, 11; o amor do lucro o leva a cometer esse crime, 12. Insensatos e criminosos são também os que tomam por deuses ídolos insensíveis, moldados por mãos humanas, 14-17, ou prestam culto a animais, 18, 19. Estes últimos são os egípcios, punidos por Deus com pragas provenientes dos animais, xvi, 1-9, ou por males produzidos pelas forças da natureza, 15-19. Os israelitas eram apenas castigados pelos mesmos instrumentos para conduzi-los ao arrependimento, 10-14, ou socorridos por meio das mesmas forças da natureza que feriam seus inimigos, 20-23. Pois a criatura, submetida a seu criador, emprega toda a sua energia para atormentar os maus e se abranda em benefício dos servos de Deus, 24. Essa doutrina é ilustrada por três exemplos, os da praga das trevas, xvii, 1 - xviii, 4, da morte dos primogênitos dos egípcios, xviii, 5-25, e da perseguição aos hebreus fugitivos, xix, 1-22. Cf. P. Heinisch, Die griechische Philosophie im Buche der Weisheit, Munster, 1908, p. 47-51, 122-126. O monoteísmo de Israel, sem imagem da divindade, sempre foi de uma superioridade marcante sobre todos os politeísmos idolátricos da antiguidade. Apesar dos progressos sucessivos que a ideia de Deus fez na revelação do Antigo Testamento, ela permaneceu, contudo, sempre mais ou menos presa a duas ideias caducas, a do nacionalismo, que fazia do Deus único, universal por direito, o Deus especial de Israel, e a das bênçãos temporais, pelas quais Jahvé se ligara a um povo sensual, ávido pelos bens da terra. A revelação do Novo Testamento foi necessária para fazer cair definitivamente essas duas concepções inferiores, e apresentar Deus como o Pai de todos os homens, como o Pai que está no céu, cuja bondade infinita já não precisa, para ser reconhecida por todos, das recompensas da terra. Encontrar-se-ão os elementos dessa teologia, tomada no sentido estrito da palavra, dispersos nas obras sobre a religião judaica e a teologia bíblica do Antigo Testamento. 4° Vatke, Religion des Alten Testaments, 1835, t. I; B. Bauer, Religion des Alten Testaments in der geschichtlichen Entwickelung ihrer Principien, 2 vol., 1838, 1839; A. Kuenen, De godsdienst van Israël tot den ondergang van den joodschen staat, 2 partes, 1869, 1870; Tiele, Geschiedenis van den Godsdienst in de oudheid tot op Alexander den Groote, 1893, t. I, p. 272-384; R. Smend, Lehrbuch der alttestamentlichen Religionsgeschichte, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1899, p. 32-45, 96-127, 151-461, etc.; J. P. P. Valeton, Les Israélites, no Manuel de l’histoire des religions de Chantepie de la Saussaye, trad. franc., Paris, 1904, p. 186-251; A. Loisy, La religion d’Israël, Paris, 1901; Marti, Die Religion des Alten Testaments unter den Religionen des vorderen Orients, Tubinga, 1906; Hunnius, Natur und Charakter Jahwehs nach der vordeuteromischen Quellen der Bücher Genesis-Könige, Estrasburgo, 1902; P. Volz, Mose, ein Beitrag zur Untersuchung über die Ursprünge der israelitischen Religion, Tubinga, 1907. Ver também Davidson, God in O. T., no Dictionary of the Bible, de Hastings, t. II, p. 196-205. 2° H. Ewald, Die Lehre der Bibel von Gott, 4 vol., 1871-1876; Oehler, Theologie des Alten Testaments, 3ª ed., Stuttgart, 1891; H. Schultz, Alttestamentliche Theologie, 5ª ed., 2 in-8, Gotinga, 1896; A. Kayser, Die Theologie des Alten Testaments in ihrer geschichtlichen Entwickelung, 2ª ed., 1894; I. Hitzig, Vorlesungen über biblische Theologie und messianische Weissagungen des Alten Testaments, Berlim, 1880; A. Dillmann, Handbuch der alttestamentlichen Theologie, Leipzig, 1895; B. Stade, Biblische Theologie des Alten Testaments, Tubinga, 1905, t. I (único publicado), p. 72-121, 194-496, e passim; B. Baentsch, Altorientalischer und israelitischer Monotheismus, Tubinga, 1906. Esses escritos são compostos mais ou menos segundo os princípios racionalistas do evolucionismo religioso. F. Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, 6ª ed., Paris, 1896, t. IV, p. 423-496; M. Hetzenauer, Theologia biblica, Friburgo em Brisgóvia, 1908, t. I, p. 372-488 (trata dos nomes divinos, da essência, dos atributos, das pessoas e da cognoscibilidade de Deus); F. Prat, art. Jéhovah, no Dictionnaire de la Bible de M. Vigouroux, t. III, col. 1220-1244. Sobre os profetas, ver B. Duhm, Die Theologie der Propheten als Grundlage für die innere Entwicklungsgeschichte der israelitischen Religion, Bona, 1875; H. Zschokke, Theologie der Propheten des Alten Testaments, Friburgo em Brisgóvia, 1877, p. 4-168 (segue a ordem lógica do tratado De Deo); Kirkpatrick, The Doctrine of the Prophets, 1892; 3ª ed., 1901. Sobre os Salmos, J. König, Die Theologie der Psalmen, Friburgo em Brisgóvia, 1857; F. Delitzsch, Die Psalmen, 5ª ed., Leipzig, 1894, t. I, p. 48 e segs.; E. Philippe, Introduction au livre des Psaumes, Paris, 1892, p. 48-54. Sobre a doutrina de Deus entre os judeus, fora da Bíblia, ver E. Stapfer, Les idées religieuses en Palestine à l’époque de Jésus-Christ, 2ª ed., Paris, 1878, p. 27-37, e especialmente nas Apocalipses judaicas, ver P. Lagrange, Le messianisme chez les Juifs, 1909, p. 52-53, e entre os rabinos, p. 146; para Henoc, ver F. Martin, Le livre d’Hénoch, Paris, 1906, p. XX-XXII. Ver também Hackspill, na Revue biblique, 1900, t. IX, p. 569-577.

II. NO NOVO TESTAMENTO. — I. SEGUNDO O ENSINAMENTO PESSOAL DE JESUS CRISTO. — 1° Nos Evangelhos sinóticos. — O Filho de Deus desceu do céu para trazer aos homens uma revelação nova, mais perfeita que a da antiga aliança. Sobre Deus, seu Pai, sua revelação consistiu em fazer ressaltar sua paternidade em relação à humanidade inteira. A ideia de paternidade divina não era estranha às religiões semíticas, ver J. Lagrange, Etudes sur les religions sémitiques, 2ª ed., Paris, 1905, p. 110-118, nem ao monoteísmo hebraico. V. Rose, Etudes sur les Evangiles, 2ª ed., Paris, 1902, p. 132-137; J. Lagrange, La paternité de Dieu dans l’Ancien Testament, na Revue biblique, 1908, p. 481-491. Mas nunca, nem entre os semitas em geral, nem sequer entre os hebreus, bastou dizer « o Pai » sem mais para designar Deus.

Esse sentimento de ternura, que procede de um conhecimento tão perfeito da bondade infinita de Deus, foi trazido aos homens pelo « Filho de Deus », que veio revelar-lhes « seu Pai ». Se Jesus não criou o nome de Pai celestial, deu-lhe uma significação que ele não tinha antes dele, e pode-se dizer que ele é o revelador da paternidade de Deus. Todavia, esse Deus pai não é um Deus novo, distinto daquele dos patriarcas e dos judeus, que Jesus prega. É o Deus, criador do mundo, Marc., xiii, 19, e do homem, Marc., x, 6; o Deus que adoravam Abraão, Isaac e Jacó, o Deus, não dos mortos, mas dos vivos, pois esses patriarcas vivem, Matth., xxii, 32; Marc., xii, 26-27; Luc., xx, 37-38, e o Deus de Israel, único Deus, que se deve amar de todo o coração, Marc., xii, 29, 30; o único que se deve adorar e servir, Matth., iv, 10; Luc., iv, 8; o Deus justo, que faz justiça, e sem demora, aos que o imploram dia e noite, Luc., xviii, 7; que só ele é bom, Matth., xix, 17; Marc., x, 18; Luc., xviii, 19; que estende sua providência sobre a natureza, a erva dos campos, Matth., vi, 30; Luc., xii, 28, sobre as aves, os pardais, os corvos, Matth., vi, 26; x, 29, 32, 33; Luc., xii, 24. Mas esse Deus da antiga aliança, o Senhor do céu e da terra, cujo trono é o céu, Matth., v, 34, torna-se, nos lábios de Jesus, o Pai, não apenas seu pai a ele num sentido real e não metafórico, que o faz ser seu filho segundo a natureza divina, Matth., vii, 21; xi, 25-27; xii, 50; xv, 13; xvi, 17, 27; xvii, 10, 19, 35, o pai de seus discípulos, o pai deles que está nos céus, Matth., v, 16; vi, 4, 8, 9, 26; x, 20, o único pai deles, xxiii, 9, que faz nascer seu sol sobre os bons e sobre os maus e chover sobre os justos e os injustos, Matth., v, 45, que dá a cada um o pão quotidiano, vi, 11, 31, 32, que vê no segredo dos corações, Matth., vi, 4, 6, 18, que perdoa os pecados, 14, 15; Marc., xi, 25, que concede os bens que se lhe pedem, Matth., vii, 11; Luc., xi, 13, que dá o reino celeste aos que fazem sua vontade, 21, que expulsa para longe de si os operários da iniquidade, 28, e que quer a salvação de todos, xviii, 14. Os justos brilharão como o sol no reino desse Pai, xiii, 43. Essa paternidade divina impõe aos filhos do reino a prática das boas obras, Matth., v, 16, o amor fraterno aos homens, mesmo aos inimigos, v, 44, e a perfeição moral, v, 48. O sr. Harnack quis reduzir toda a pregação de Jesus à paternidade de Deus e ao valor infinito da alma humana, que dela decorre; é nisso que consiste, segundo ele, não somente a essência do cristianismo, mas a própria religião. O homem, filho de Deus, deve ter em seu pai dos céus uma confiança filial, que lhe dá a certeza de que todas as suas preces serão atendidas. É chamando-o de « nosso pai », nosso pai comum, nosso pai de todos, que se deve orar a ele, e segundo o conteúdo da oração dominical, que começa com esse nome de ternura, « a paternidade de Deus... estende-se sobre toda a vida, como a união interior com a vontade de Deus e o reino de Deus, e como a certeza jubilosa de possuir os tesouros eternos e de estar protegido contra todo mal. » L’essence du christianisme, trad. franc., Paris, 1902, p. 72. Dar a Deus o nome de pai é fazer um ato de fé em sua bondade infinita; pedir-lhe o pão quotidiano e o alimento ordinário é crer em sua providência paternal, em sua solicitude por cada um de seus filhos. Discutiu-se se a fé no Deus misericordioso era o núcleo do Evangelho e o elemento original do ensinamento de Jesus. Em consequência de sua opinião sobre o reino puramente escatológico, pregado por Jesus, o sr. Loisy pôde bem provar contra o sr. Harnack que o reino não era exclusivamente um bem interior, a união atual de cada alma com o Deus vivo, com o Pai celestial; ele errou ao pretender que « a paternidade de Deus, a adesão interior à sua vontade, a certeza de estar na posse de bens eternos e de estar protegido contra o mal não excluem a concepção escatológica do reino e não têm mesmo sua plena significação senão em relação a essa ideia ». L’Évangile et l’Église, 2ª ed., Bellevue, 1903, p. 51. Para Jesus, o reino de Deus não era nem puramente interior, nem reservado para o fim dos tempos, e em simples preparação no Evangelho; já estava presente, atual e exterior, e Deus, o pai que está no céu, o pai comum de todos os homens, era o seu rei. Disso resulta que a providência paternal de Deus para com os homens e a confiança filial destes na bondade infinita do pai celestial, se não constituem, por si sós, a própria essência do cristianismo, pertencem contudo a essa essência e caracterizam especificamente a pregação de Jesus e o reino de Deus na terra. Cf. B. Weiss, Lehrbuch der Biblischen Theologie des Neuen Testaments, 6ª ed., Stuttgart e Berlim, 1903, p. 69-72. Jesus trouxe ao mundo a certeza de que Deus era verdadeiramente pai para os homens, e que os homens podiam tornar-se realmente seus filhos. Por conseguinte, assim como, na ordem da natureza, as palavras pai e filho significam o amor mais forte e mais íntimo com reciprocidade de deveres e obrigações, assim também no reino de Deus que Jesus vinha fundar na terra, devia existir entre Deus e a humanidade relações de amor paternal e filial, e os membros desse reino tinham o poder de se tornar filhos de Deus. V. Rose, op. cit., p. 138-143; A. Gay, L’enseignement de Jésus, 2ª ed., Paris, s. d. (1905), p. 83-105. Ver t. III, col. 2054.

IV. No quarto Evangelho. — Em seus discursos, que o quarto Evangelho relata, como nos dos Sinóticos, Jesus liga a ideia de paternidade à de divindade: Deus é o Pai por excelência, o Pai de Jesus Cristo e o pai dos homens. Se já nos Sinóticos Jesus se distingue de seus discípulos em suas relações com o Pai, essa atitude é ainda muito mais acentuada no quarto Evangelho. Deus é o Pai de Jesus a título especial, o que faz de Jesus o Filho de Deus por natureza, de tal sorte que, em sua boca, «o pai» e «meu pai» são expressões sinônimas. Ver, por exemplo, xiv, 6, 9, 10-13, 16, 20, 26, 28, 31, e xv, 2; xvii, 20. Ora, esse pai de Jesus é o Deus dos judeus, viii, 54; o único Deus verdadeiro, xvii, 3; o pai e o Deus de Jesus como o de seus discípulos, xx, 17. É um pai verdadeiro, xvii, 41, um pai justo, 25. Ele é invisível, v, 38; vi, 46. Ele é o Pai vivo, vi, 58, que tem a vida em si mesmo, v, 26, e que a dá, 21. Ele está sempre em ação, 17. Virá um dia em que esse Pai não será adorado nem no monte Garizim nem em Jerusalém; e já chegou mesmo essa hora, em que os verdadeiros adoradores, aqueles que o Pai procura, o adorarão em espírito e em verdade. Deus, com efeito, é espírito, e é preciso que aqueles que o adoram o adorem em espírito e em verdade, iv, 24, 23, 24. O particularismo judaico está, pois, destruído, e o culto espiritual que Deus quer doravante já não está ligado aos santuários de Garizim e de Jerusalém. Deus, que é espírito, está sempre agindo no universo, v, 17. Ele é maior que todos, x, 29. Em suas relações com os homens, ele é pai; assim como ama seu Filho único, v, 20, ele ama os homens, e foi porque amou o mundo que deu seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna, iii, 16. Esse amor pelos homens é, da parte de Deus, mais pessoal e mais apaixonado do que na antiga aliança, em que Deus só enviava seus profetas. Por isso, se os judeus tivessem Deus por pai, amariam o Filho, viii, 42, como se conhecessem o Filho, conheceriam o Pai, 19, 27. Aqueles que amam o Filho são amados pelo Pai, xiv, 21, 23; xvi, 27, que concederá tudo o que lhe pedirem em nome de seu Filho, xv, 16. Deus, portanto, é pai dos homens, e tem para com eles uma bondade e um amor infinitos. Cf. A. Loisy, Le quatrième Évangile, Paris, 1903, p. 98-99; Th. Calmes, L'Évangile selon saint Jean, Paris, 1904, passim.

II. Nos Atos dos Apóstolos. — Os primeiros apóstolos e discípulos, quando falavam de Deus aos judeus, seus antigos correligionários, chamavam-no o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, iii, 13; xxii, 14, o Deus do povo de Israel, xiii, 17, o Deus da glória que apareceu a Abraão, vii, 2. Reconheciam, contudo, a paternidade divina, que Jesus lhes recordara antes da ascensão, i, 4, 7, pois chamavam Deus de «o Pai», ii, 33; xxiv, 14-16. A comunidade de Jerusalém invoca publicamente o criador do céu e da terra, iv, 24. Os apóstolos não tinham necessidade de pregar a unidade de Deus aos judeus, que eram fervorosos monoteístas; mas são Paulo, em sua pregação oral, teve em três circunstâncias, relatadas nos Atos, ocasião de anunciá-la aos pagãos. Em Listra, diante de uma explosão inesperada de fé idólatra, recusou com Barnabé as honras divinas que, após um milagre, a multidão queria lhes prestar, e proclamou abertamente a unidade do Deus vivo, criador do céu, da terra, do mar e de tudo o que eles contêm, providência benfazeja, que atesta sua existência e sua bondade por seus benefícios, embora tenha deixado os gentios seguir seus caminhos. Act., xiv, 15-17. Ver V. Rose, Les Actes des apôtres, Paris, 1905, p. 140-141. Em Atenas, cidade entregue à idolatria, xvii, 16, alguns creem que ele prega novos demônios, 18; mas, no Areópago, por ocasião de um altar dedicado ao Deus desconhecido, ele declara que esse Deus, desconhecido dos atenienses, é o Deus único, criador de todas as coisas, soberano do universo; imaterial, pois não habita em templos e não se assemelha de modo algum às imagens esculpidas; espiritual, pois não precisa de sacrifícios; providente, que rege os destinos de todos os povos da terra, saídos do primeiro casal que ele criou, que age em cada um de nós, em quem vivemos, somos e nos movemos; desconhecido, mas pronto a perdoar esses tempos de ignorância, contanto que se volte desse erro; juiz do mundo segundo a justiça por Jesus, ressuscitado dos mortos, 22-32. Ver V. Rose, op. cit., p. 177-182. Em Éfeso, enfim, sua pregação provoca um motim, fomentado pelo ourives Demétrio. Em toda a Ásia, Paulo convencia muitas pessoas de que não havia deuses fabricados por mão de homem. A indústria dos fabricantes de ídolos caía em descrédito. O templo da grande Diana de Éfeso era tido por nada e a majestade da deusa reduzida ao nada. A cidade entra em revolta, e a multidão, aglomerada no teatro, grita durante duas horas: «Grande é a Diana dos Efésios», xix, 23-29. Essa cena prova ao mesmo tempo a voga popular da idolatria no mundo pagão ao qual são Paulo levava o Evangelho e o caráter antiidolátrico da pregação do apóstolo do Deus verdadeiro. Cf. Rackham, The Acts of the Apostles, Londres, 1901, p. lxx; F. Prat, La théologie de saint Paul, Paris, 1908, p. 86-92. Ver t. III, col. 2054-2055.

III. Nas Epístolas de são Paulo. — Mais tarde, o apóstolo recordou aos tessalonicenses qual fora sua conversão: como se haviam desviado dos ídolos e como haviam servido ao Deus verdadeiro e vivo. I Thes., i, 9. Ele lhes havia pregado a verdade, não para lisonjeá-los, mas para agradar a Deus, que sonda os corações, ii, 4, a fim de que caminhassem de maneira digna de Deus, que os chamou a seu reino glorioso, 12, e à santidade. II Thes., i, 12. Caminharão de modo a agradar a Deus, praticando os mandamentos, I Thes., iv, 1, 2, evitando em particular a fornicação, para não satisfazer suas paixões como os pagãos que ignoram Deus, 3-5, pois Deus não os chamou à impureza, mas à santidade, e lhes deu seu Espírito Santo, 7, 8. Esse Deus é pai, i, 1, nosso pai, iii, 11, 13; II Thes., i, 1, 2, que nos amou, ii, 15, o Deus da paz e o Deus santificador. I Thes., v, 23. Ele é fiel; fortalecerá os tessalonicenses e os afastará do mal. II Thes., iii, 3. Esse Deus fiel, I Cor., i, 9, porque o mundo não o conheceu pela sabedoria, quis salvar os crentes pela loucura da pregação da cruz, 21, e segundo sua tática ordinária, escolheu na Igreja de Corinto o que é insensato aos olhos do mundo, o que é fraco, o que é vil, o que não conta para nada, o que não existe, para confundir os sábios e os poderosos. Assim nenhuma carne poderá se gloriar diante dele, 26-31; iii, 19-21. Ele predestinou antes de todos os séculos a verdadeira sabedoria, que permaneceu escondida nas profundezas de sua vontade. Ela tem por objeto a bem-aventurança que Deus preparou para os que o amam, e ele a revelou por seu Espírito, ii, 7-11. A propósito das vítimas imoladas aos ídolos, são Paulo declara aos coríntios que o ídolo não é nada no mundo; é uma quimera, uma entidade de razão, um nada. Os cristãos sabem que não há outro Deus além do Deus único. Chamam-se muitos deuses e senhores no céu ou na terra; não há senão um único Deus, o Pai, autor de todas as coisas, viii, 4-6. As vítimas que os pagãos imolam são oferecidas aos demônios e não a Deus, x, 19, 20. Os cristãos podem comer de todas as carnes, pois a terra e tudo o que ela contém pertencem ao Senhor, 25, 26. Todas as coisas vêm do Senhor, xi, 11; II Cor., iv, 18, que é o pai dos homens, I Cor., i, 3; xv, 23; II Cor., i, 2, pai misericordioso e consolador, 3, 4, e o Deus vivo, iii, 3; vi, 16-18. Ele tirou a luz das trevas, iv, 6, e é o Deus de paz e de caridade, xiii, 14. São Paulo recorda aos gálatas que ignoravam Deus e que serviam a deuses que, por natureza, não são deuses. Desde sua conversão, conhecem Deus; mais ainda, são conhecidos de Deus. Podem, pois, retornar aos rudimentos do mundo aos quais estavam outrora submetidos, a seu conhecimento elementar de Deus, agora que, na plenitude dos tempos, Deus lhes enviou seu Filho para fazer deles seus filhos de adoção, e o Espírito de seu Filho, que em seus corações clama: Abba, Pai? iv, 3-6. São filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, iii, 26; Deus os adotou, fazendo-os participar da filiação transcendente de Cristo, e eles receberam o Espírito de Cristo, que criou neles a verdadeira mentalidade de filhos e os faz clamar a Deus com sentimento filial, dizendo-lhe: Pai. Tal é, para o apóstolo, o significado profundo da paternidade divina para com os homens libertados da escravidão da lei judaica. Ele pode, pois, repetir que Deus é pai, i, 1, 3, 4. Esse pai é o Deus único, iii, 20, que não faz acepção de pessoas, ii, 6, e que não se deixa escarnecer, vi, 7.

A cólera de Deus revela-se do alto do céu, onde Deus habita, pelo castigo infligido já neste mundo aos pagãos ímpios que, em sua maldade, comprimiram e retiveram a verdade que possuíam sobre Deus, sobre sua existência e sua natureza. Com efeito, desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, seu poder eterno e sua divindade, isto é, os demais atributos, percebidos intelectualmente, eram vistos distintamente nas obras da criação. Os pagãos que, tendo assim conhecido Deus, não o haviam glorificado como Deus, mas por uma inteligência culpada haviam mudado a glória do Deus incorruptível em imagens de homens ou de animais, haviam disfarçado sua verdade em mentira, eram indesculpáveis, e Deus, em punição de sua loucura voluntária, entregou-os aos desejos de seus corações, às paixões desonrosas, e encheu-os de toda sorte de malícia e de vícios. Rom., I, 18-32. O julgamento de Deus contra os que assim agem é conforme à verdade, II, 2, para todos, para o judeu, 3, como para o gentio. Deus tem tesouros de bondade, de paciência e de longanimidade, que não se pode desprezar sempre; sua benignidade só serve para deixar aos culpados o tempo de fazer penitência. Os que dela abusam tesourizam a cólera para o dia do justo julgamento, no qual Deus retribuirá a cada um, judeu ou pagão, segundo suas obras, sem acepção de pessoas, 4-11. A infidelidade dos judeus não anula a fidelidade de Deus, que é verídico, III, 3, 4. Ainda que nossa injustiça faça ressaltar a justiça de Deus, Deus, ao desencadear sua cólera, não é injusto, pois, do contrário, como julgaria ele o mundo? 5, 6. Do fato de que a veracidade de Deus ressalta com esplendor, para sua glória, da mentira do homem, não se segue que se deva fazer o mal para que o bem venha; o pecador será, no entanto, julgado e punido como merece, 7, 8. Todos os homens, igualmente culpados, são justificados por Deus pela fé, 22-28, pois Deus não é o Deus somente dos judeus, ele o é também e sobretudo dos pagãos; não há senão um único Deus que justifica judeus e pagãos pela fé, 29, 30. Um dos efeitos da justificação é comunicar o Espírito de Deus, que faz subir a nossos lábios o nome de Pai, para atestar que somos realmente por adoção os filhos de Deus, VIII, 14-16. O próprio Pai concorre em tudo para o bem dos que o amam e que ele predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho, para que este seja o primogênito entre muitos irmãos, 28, 29. Deus não foi injusto para com Israel, não convertido ao cristianismo, pois concede suas graças quando quer e como quer; usa de misericórdia com quem quer e endurece a quem quer, IX, 14-18. O homem não tem o direito de pedir contas a Deus de seus atos e de seus desígnios; a criatura nada tem a censurar ao criador, tanto quanto a obra ao artesão, que faz a seu bel-prazer vasos de honra e vasos de ignomínia, 19-21. Deus não rejeitou seu povo, XI, 1, que foi quebrado por causa de sua incredulidade, 20. Deus foi, pois, bom e severo ao mesmo tempo, severo para com os judeus incrédulos, bom para com os que se tornaram cristãos, 22. Mais tarde, os judeus serão objeto da misericórdia divina, 32. «Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Quão impenetráveis são seus desígnios, e insondáveis os seus caminhos! Pois quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?... É dele e por ele e para ele que são todas as coisas», 33-36. No início da Epístola aos Efésios, são Paulo bendiz a Deus por todos os benefícios espirituais que, do alto do céu, dispensou aos homens por Jesus Cristo, I, 3-14, e roga ao pai glorioso que faça os efésios compreender e saborear esses grandes bens, 15-23. Deus, que é rico em misericórdia, pelo amor extremo que tem pelos homens, tirou-os do pecado e deu-lhes a vida sobrenatural em Jesus Cristo, II, 4-10. Ele criou tudo para manifestar às potestades celestes, por meio da Igreja, sua sabedoria multiforme, III, 9, 10. Por isso o apóstolo roga de joelhos ao Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, de quem provém toda paternidade no céu e na terra, que fortaleça os efésios segundo as riquezas de sua glória, 14, 15. Entre os motivos para guardar a unidade, cita a unidade de Deus, pai de todos, que está acima de todos, por todos e em todos, IV, 6, esse pai a quem rende graças sem cessar por eles, V, 20. Enfim, deseja a seus leitores a paz, a caridade e a fé, provenientes do Deus pai, VI, 24, como no início a graça e a paz, I, 1, 2. O mesmo desejo é dirigido aos colossenses, I, 3, com as mesmas ações de graças, 12. O apóstolo prega aos colossenses o mistério de Cristo ou da redenção por Cristo, desígnio secreto de Deus, formado desde toda a eternidade, cuja revelação manifestou as riquezas da glória divina, Col., I, 26, 27, e quer fazê-los compreender perfeitamente esse mistério de Deus pai, que encerra todos os tesouros de sua sabedoria e de sua ciência, II, 3. Os cristãos devem evitar os vícios que atraem a cólera de Deus sobre os incrédulos, III, 5, 6, e render graças a Deus pai por Jesus Cristo, 17. Na Primeira Epístola a Timóteo, são Paulo afirma a unidade de Deus, do Deus a quem dá o título de salvador da humanidade, pois quer a salvação de todos, I, 3-5. A esse único Deus, rei imortal e invisível dos séculos, ele havia rendido glória e honra para sempre, I, 17. Ele é o único Deus vivo, III, 15; IV, 10; VI, 17; criador de todos os alimentos, dos quais todas as criaturas são boas, IV, 4, e que pôs abundantemente todas as coisas ao nosso uso, VI, 17. Deus, que prometeu a vida eterna, não mente, Tit., I, 2; ele é o autor da salvação, 3; III, 10; por benignidade e amor pelos homens, III, 4. Esse grande Deus virá um dia na glória, II, 13. Deus criou tudo, Heb., I, 4, e descansou no sétimo dia, IV, 4, 10. É pela fé que sabemos que os séculos foram formados pela palavra de Deus, XI, 3. Aliás, não se pode ir a Deus e agradar-lhe sem crer em sua existência e em sua providência, XI, 6. Ele é, com efeito, o arquiteto e o construtor da cidade futura, 10, 16, e teve em vista para nós algo melhor que os bens da terra, prometidos sob a antiga aliança, 40; sua providência é, pois, tão sobrenatural quanto natural, VII, 7. Deus não é injusto e não esquece as obras feitas por ele e a caridade que lhe testemunharam, 10. Deus, enfim, é o Deus vivo, III, 12; IX, 14; X, 31; XII, 22, o pai dos espíritos, que corrige seus filhos espirituais como um pai da terra corrige seus filhos, XII, 9-11. Ele é o juiz de todos, XII, 23, e julgará os fornicadores e os adúlteros, XIII, 4. Ele se compraz na beneficência e na assistência mútua; são esses os sacrifícios que lhe agradam, 16. Ver t. III, col. 2055-2056. IV. Nas Epístolas Católicas. — Para são Tiago, é bom crer que há um só Deus; os demônios também creem e tremem; mas a fé sem as obras está morta. Jac., II, 19, 20. A religião pura e sem mácula diante de Deus Pai consiste em visitar os órfãos e as viúvas em sua aflição, em preservar-se das manchas do mundo, I, 27. Deus está a salvo das tentações más e ele mesmo não tenta ninguém, 13. Toda liberalidade, todo dom perfeito desce do Pai das luzes, em quem não há mudança de brilho nem sombra de obscurecimento, 17. Deus escolheu os pobres para lhes dar em herança o reino que prometeu aos que o amam, II, 5. O homem paciente nas provações receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que o amam, I, 12. O Senhor é pai, III, 9; ele é misericordioso e compassivo, V, 11; os clamores dos ceifeiros defraudados de seu salário chegam aos ouvidos do Senhor dos exércitos, V, 4. Aquele que quer ser amigo do mundo é inimigo de Deus. Deus é um amigo ciumento; dá graça superior aos humildes, mas resiste aos soberbos, IV, 4, 6. Ele é o único legislador e juiz, 12. Ele pôs fim aos males de Jó, porque é compassivo, V, 11. Para são Pedro, Deus criou o céu e a terra. II Pet., III, 5. Ele tudo previu, I Pet., I, 2; ele é poderoso, I, 5; V, 8, 11; ele é santo e quer que os homens sejam santos como ele, I, 15, 16; ele é pai e julga sem fazer acepção de pessoas, 17. Ele punirá os culpados e recompensará os bons, II, 8-12; II Pet., II, 9. Ele é vivo e permanente, I Pet., I, 3. Mil anos são como um dia diante dele, II Pet., III, 8; por isso ele é paciente e longânime; ele adia o castigo dos pecadores para lhes deixar tempo de fazer penitência. I Pet., III, 20; II Pet., III, 9. Para são Judas, Deus pune os culpados, 5-7. Ele pode conservar os cristãos na inocência. A ele só a glória, a majestade, a força e o poder para sempre, 24, 25. Em suas Epístolas, são João deu duas definições de Deus. Deus é, primeiro, luz, em quem não há trevas alguma. I Joa., I, 5. Não somente ele é o ser absolutamente puro, inteiramente luminoso, que nenhuma escuridão vela e que nenhuma imperfeição limita, mas ele é também para os homens uma fonte de luz, o princípio de toda pureza, de toda santidade e de toda vida, pois as trevas são o mal. Por conseguinte, quem quer que ande nas trevas ou no pecado não está em comunhão com Deus, pois se subtrai voluntariamente à luz e não procura agir conforme a vontade de Deus, 6, 7. Por outro lado, Deus é amor, IV, 8, 16, e seu amor por nós manifestou-se sobretudo em ter enviado ao mundo seu Filho único, para que nele tivéssemos a vida, 9, 10. Deus é, pois, pai não somente de Jesus Cristo, I, 3, 7; II, 22-24, etc., mas também dos homens, III, 1, 14; II Joa., 1, 4. Seu amor por eles consistiu em fazer deles seus filhos, I Joa., III, 1, que não pecam, porque nasceram de Deus e o germe divino permanece neles, 9; V, 18, 19, que praticam a justiça e amam seus irmãos, para que o amor de Deus permaneça neles, II, 10, 17; IV, 7, 8, 12, 20, 21, que observam os mandamentos divinos e creem em Jesus Cristo, V, 4-5. Aquele que faz o bem é de Deus, III Joa., 11, e a tríplice concupiscência não vem do Pai, mas do mundo. I Joa., II, 16. Enfim, Deus é desde o princípio. I Joa., II, 14. Ele está acima de nossos corações e conhece todas as coisas, III, 20. Ele é o verdadeiro Deus, que seu Filho nos deu a conhecer; por isso devemos guardar-nos dos ídolos, que são falsas divindades, V, 21. V. No Apocalipse. — Deus aí não é quase considerado como pai; é antes considerado em seus atributos de majestade e de onipotência. Ver t. I, col. 1476-1477. Contudo, ele será o Deus do vencedor, que será seu filho, XXI, 7. Cf. B. Weiss, Lehrbuch der Biblischen Theologie, p. 590-591; E. Jacquier, Histoire des livres du Nouveau Testament, Paris, 1908, t. IV, p. 410-411. As Teologias do Novo Testamento contêm pouca coisa sobre a teodiceia. Seus autores limitam-se, a propósito do ensinamento de Jesus, a assinalar que o nome de «pai» é o nome especial de Deus no Novo Testamento, e negligenciam quase completamente destacar os outros traços que caracterizam a natureza de Deus e suas perfeições. Não há, pois, bibliografia a citar. Pode-se ver, por exemplo, J. Tixeront, Histoire des dogmes, Paris, 1905, t. I, p. 66-67, 78, 83-84, 107, 441; J. Bovon, Théologie du Nouveau Testament, 2ª ed., Lausanne e Paris, 1902, t. I, p. 392-395, 495-497; Brassac, Manuel biblique, 12ª ed., Paris, 1909, t. IV, p. 26, 549-550, 565-569, 692.

Autor original: E. Mangenot

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