DEUS (SUA NATUREZA SEGUNDO AS DECISÕES DA IGREJA)

DEUS (SUA NATUREZA SEGUNDO AS DECISÕES DA IGREJA)

DEUS. SUA NATUREZA SEGUNDO AS DECISÕES DA IGREJA. — A Igreja não teve com frequência ocasião de afirmar solenemente sua doutrina sobre a natureza de Deus, porque raros foram, em seu seio, os erros a esse respeito. 1° Nos antigos símbolos de fé. — Esperar-se-ia encontrar nos primeiros séculos da Igreja, diante do politeísmo a destruir, senão uma declaração solene da unicidade de Deus pela autoridade eclesiástica, ao menos uma profissão formal de fé monoteísta. A pregação tão clara de Jesus e dos apóstolos, o ensinamento expresso dos Padres bastaram para atestar a fé dos cristãos. Fazer profissão de cristianismo era um ato bastante explícito de crença monoteísta. Se o símbolo dito dos apóstolos, em sua forma recebida em Roma no século III e no século IV, testemunha a fé da Igreja em Deus Pai todo-poderoso, ver t. I, col. 1661, 1666, pensa-se, todavia, geralmente que a fórmula, restituída segundo as citações que dela faz Tertuliano, dizia: Credo in unicum Deum omnipotentem, mundi conditorem. Ver t. I, col. 1667. Sobre a mudança que teria sofrido a fórmula romana no século II por oposição ao monarquianismo, ver ibid., col. 1670-1671. Daí resulta que, em Roma, antes de 200, impunha-se aos catecúmenos, antes de lhes conferir o batismo, uma profissão de fé estritamente monoteísta. Se se admite que a fórmula primitiva era: in Deum Patrem omnipotentem, ver t. I, col. 1671; t. II, col. 214, resta, ao menos, que esse Deus Pai é o Deus único e todo-poderoso da antiga aliança. Ver t. I, col. 1672; t. III, col. 2076-2078. Tal era também o teor do símbolo gaulês primitivo. Ver t. I, col. 1662. O símbolo de Aquileia, a omnipotentem acrescentava invisibilem e impassibilem; o de África, universorum creatorem, regem seculorum immortalem et invisibilem; o antifonário de Bangor, invisibilem omnium creaturarum visibilium et invisibilium conditorem. Ibid., col. 1666; Denzinger, Enchiridion, 10ª edição, Fribourg-en-Brisgau, 1908, n. 3. Os símbolos orientais reduzem-se a uma forma comum, cujo primeiro artigo exprimia um ato de fé: εἰς ἕνα θεὸν παντοκράτορα, τὸν τῶν ἀπάντων ὁρατῶν τε καὶ ἀοράτων ποιητήν. Ver t. I, col. 1668-1669; Denzinger, n. 9, 10, 13. Tal é a fórmula do símbolo de Niceia-Constantinopla, que hoje se crê provir de santo Epifânio. Ver t. II, col. 1229-1230, 2078-2079. Cf. Hefele, Histoire des conciles, trad. Leclercq, Paris, 1908, t. II, p. 443-446; Denzinger, n. 54, 86. Este artigo fazia do Deus todo-poderoso o criador de todas as coisas. Ele ia diretamente de encontro às heresias gnósticas e maniqueístas. 2° Nas fórmulas de fé antipriscilianistas. — Prisciliano havia renovado na Espanha, no século IV, os erros dos gnósticos e dos maniqueístas. Ver t. I, col. 1382-1384, 1393-1399. Acrescentava-lhes o erro especial da união do Pai, do Filho e do Espírito Santo na única pessoa de Cristo. Cf. Künstle, Antipriscilliana, Fribourg-en-Brisgau, 1905, p. 18-21. Assim, as fórmulas de fé que lhe foram opostas no século IV e no V e sobre as quais o senhor Künstle projetou novas luzes professam ao mesmo tempo a unidade da natureza divina e a trindade das pessoas. A Fides Damasi, que talvez seja do fim do século IV, insiste sobretudo na distinção das pessoas na unidade de natureza, Künstle, op. cit., p. 47; Denzinger, n. 15, assim como a fórmula, um pouco posterior, Clemens Trinitas, una divinitas. Künstle, p. 65; Denzinger, n. 17. Em seu Libellus in modum symboli, que se tinha por uma decisão do I concílio de Toledo (447), o bispo da Galiza, Pastor, é mais preciso: Credimus in unum Deum verum, Patrem et Filium et Spiritum Sanctum, visibilium et invisibilium factorem, per quem creata sunt omnia in celo et in terra, unum Deum et unam esse divine substantie Trinitatem. Künstle, p. 43; Denzinger, n. 19. O cânon 1, que a ele se acrescenta, fulmina de anátema quem quer que diga ou creia que este mundo não foi criado pelo Deus todo-poderoso. Künstle, p. 44; Denzinger, n. 21. O símbolo Quicumque, dito de santo Atanásio, é também antipriscilianista e define as mesmas verdades. Künstle, p. 232; Denzinger, n. 39. Ver t. I, col. 2179. Ver ainda as profissões de fé atribuídas ao VI concílio de Toledo (638), e ao XI (675). Künstle, p. 71, 74. Ver PRISCILIANISMO. 3° Cânon contra o origenismo. — O concílio local realizado em Constantinopla em 543, sob o patriarca Menas, aprovou a condenação de Orígenes, proposta pelo imperador Justiniano. Ora, o cânon 8 fulmina anátema contra quem diga ou pense seja que o poder de Deus é finito, seja que Deus produziu tudo o que podia fazer. Denzinger, n. 210. Esta decisão é importante, pois os quatro patriarcas orientais e o papa Vigílio, que haviam recebido comunicação da carta de Justiniano, subscreveram os anátemas. Cf. F. Prat, Origène, Paris, 1907, p. 210-211. 4° O III concílio de Valença (855) condena a doutrina de Escoto Erígena sobre a presciência e a predestinação divinas. Denzinger, n. 320-323. Cf. Schwane, Histoire des dogmes, trad. Degert, Paris, 1903, t. V, p. 165-169. Ver PREDESTINAÇÃO. O panteísmo emanatista de Escoto é condenado, quando Amalrico de Bène (ver t. I, col. 936-940) e David de Dinant (ver col. 157-160) renovam seus erros. Ver t. III, col. 2080. 5° Abelardo havia ensinado que Deus não podia fazer ou omitir senão o que fez ou omitiu, do modo e apenas no tempo em que agiu, e não de outra forma, e que não devia nem podia impedir o mal. Denzinger, n. 374, 375. Estes erros foram reprovados no concílio de Sens (1140). Substituíam a liberdade e a onipotência de Deus pelo otimismo, não podendo Deus fazer melhor do que fez. Ver t. I, col. 44, 46. 6° Gilberto de la Porrée, bispo de Poitiers (1142-1154), estabelecia uma distinção real entre a essência e o ser de Deus, entre a essência e os atributos. A primeira proposição, extraída de seus escritos, estava concebida nestes termos: Quod divina essentia, substantia et natura, que dicitur divinitas, bonitas, sapientia, magnitudo Dei, et queque similia, non sit Deus sed forma qua Deus est. Geoffroy, Libellus contra capitula Gilberti, n. 4, sob outro título, P. L., t. CLXXXV, col. 589-590. Era a destruição da simplicidade de Deus. O concílio de Reims, presidido por Eugênio III em 1148, definiu a simplicidade da natureza divina e afastou de Deus toda composição de essência e atributos. Denzinger, n. 389. Definiu também que só Deus é eterno. Denzinger, n. 391. Cf. Schwane, Histoire des dogmes, trad. Degert, t. IV, p. 191-193. Ver t. I, col. 2232-2233; t. IV, col. 1166-1167, 1173-1174. 7° Do século XII ao XIII, os bogomilos, albigenses, cátaros, valdenses, etc., renovaram os erros maniqueístas, a saber, a distinção dos dois princípios, do Deus do Antigo Testamento e do Deus do Novo, e a criação do mundo pelo princípio do mal.

Aos que dentre eles queriam voltar à fé católica, a Igreja impunha uma fórmula que exprimia as verdades opostas a seus erros, ver t. I, col. 1384-1385, e o IV concílio de Latrão, em 1215, definiu contra eles a fé no único Deus verdadeiro, eterno, imenso, imutável, incompreensível, todo-poderoso e inefável. Denzinger, n. 428. Ver t. I, col. 2080-2081; t. IV, col. 1171-1172. A mesma doutrina é exprimida na profissão de fé, proposta em 1267 por Clemente IV a Miguel Paleólogo, Denzinger, n. 461, 463, e no decreto aos Jacobitas, promulgado em 1441 por Eugênio IV. Ibid., n. 703, 706, 707. Não há senão um único e verdadeiro Deus, todo-poderoso, imutável e eterno, uno em essência, criador de todas as coisas, único princípio das coisas visíveis e invisíveis, o mesmo Deus do Antigo e do Novo Testamento. A unidade de Deus Pai todo- poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis, é ainda enunciada na profissão de fé que Pio IV redigiu a pedido do concílio de Trento. Denzinger, n. 994. 8° Mestre Eckhart não ensinava apenas que o mundo foi criado ab eterno, desde que Deus existiu, Denzinger, n. 501-503; ele afirmava ainda que Deus era um de todas as maneiras, tanto segundo a natureza quanto nas pessoas. Ibid., n. 523, 524. Enfim, declarava que Deus não era bom, nem melhor, nem muito bom, e que, chamando-o bom, se exprimiria tão mal quanto se dissesse que o branco é preto, n. 528. Ver t. III, col. 2092. Cf. H. Denifle, Archiv für Literatur und Kirchengeschichte des Mittelalters, Fribourg-en-Brisgau, 1886, t. II, p. 688 sq. 9° O panteísmo, ensinado por Espinosa, ver t. III, col. 2098, por Fichte, Schelling e Hegel, col. 2095, tinha sido adotado na França por Cousin, Vacherot e Renan, col. 2097. Foi condenado por Pio IX no Syllabus de 1864. Denzinger, n. 1701. Günther havia pretendido que a criação não tinha sido livre, mas necessária, uma vez que Deus, conhecendo os seres finitos pela negação do infinito, que está nele, sua bondade exige que sua onipotência lhes dê a existência. Em seu breve de 15 de junho de 1857 ao arcebispo de Colônia, Pio IX havia censurado e reprovado este erro: Denzinger, n. 1655. O concílio do Vaticano, reunido em 1869 para condenar os erros modernos, não se limitou a definir a possibilidade do conhecimento natural de Deus e a afirmar solenemente a existência de Deus; enunciou também os atributos divinos e a distinção entre Deus e o mundo. Denzinger, n. 1782. Ver t. II, col. 2182. Mas, segundo o testemunho de Mons. Gasser, relator da deputação da fé, ele quis apenas definir como dogma de fé católica a existência de Deus. Ao enunciar primeiro os nomes pelos quais a Sagrada Escritura designa ordinariamente o verdadeiro Deus, por oposição às falsas divindades dos pagãos, depois os atributos que os teólogos afirmam de Deus, enfim a distinção essencial e infinita entre Deus e o mundo, ver t. III, col. 2185, ele não definiu, portanto, como dogma católico os atributos divinos enumerados no c. 1 de sua constituição, nem tampouco a distinção essencial e infinita entre Deus e o mundo, ao menos em virtude desta profissão de fé. Ver t. III, col. 2186. Cf. A. Vacant, Études théologiques sur les constitutions du concile du Vatican, Paris, 1895, t. I, p. 159, 166-168. Mas quatro cânones respondem a esta profissão de fé: o primeiro condena o ateísmo, o segundo o materialismo, o terceiro e o quarto o panteísmo. Denzinger, n. 1801-1804. Ver t. I, col. 2209-2210; t. III, col. 2183, 2185, 2186. Cf. Vacant, op. cit., t. I, p. 207-208, 210-211. O terceiro cânon rejeita o princípio do panteísmo, fulminando de anátema quem quer que afirme a unidade e a identidade de substância ou de essência entre Deus e as coisas do mundo. Ver t. II, col. 2186-2187. O quarto reprova expressamente três formas particulares do panteísmo: o panteísmo substancial, emanatista, notadamente o de Fichte, ver col. 1265 sq.; o panteísmo essencial de Schelling, ver col. 1266 sq.; o panteísmo do ser universal, professado por Hegel. Ver col. 1269 sq. Cf. t. III, col. 2187-2188; Vacant, op. cit., t. I, p. 207-214. Ver PANTEÍSMO. 10° No decorrer do século XIX, o ontologismo reaparecera. Seus partidários não tinham apenas uma concepção especial acerca de nosso conhecimento de Deus, que diziam imediato; identificavam ainda nossas ideias gerais com Deus, uma vez que essas ideias eram, para eles, realidades eternas, independentes e necessárias em Deus; atenuavam assim a diferença entre Deus e o finito, e assimilavam o ser universal, uma abstração do espírito, ao ser absoluto, aproximando-se com isso dos panteístas que tinham o mundo por uma especificação do ser universal. Por isso, em 18 de setembro de 1861, o Santo Ofício censurou sete proposições, extraídas de suas obras. Denzinger, n. 1659-1665. O concílio do Vaticano tivera a intenção de condenar o ontologismo, mas não pôde executar esse desígnio. O ontologismo não foi diretamente visado pela constituição Dei Filius. Todavia, segundo a observação de Mons. Simor, é indiretamente atingido em seus princípios e suas consequências pela condenação do panteísmo, e a segunda e a terceira proposições não estão conformes aos ensinamentos do concílio do Vaticano. Ver t. III, col. 2188. Cf. Vacant, op. cit., p. 134-138, 214-215. Ver ONTOLOGISMO. A publicação das Opera posthuma de Rosmini, em 1879, reavivou na Itália o ontologismo abandonado na França e na Bélgica por seus adeptos. Leão XIII fez examinar os escritos do ilustre sacerdote, e em 14 de dezembro de 1887, o Santo Ofício condenou 40 proposições, das quais as dezessete primeiras dizem respeito à visão direta de Deus e à confusão do ser divino com o ser em geral. Denzinger, n. 1891-1907. Ver ROSMINI. Cf. Schwane, Histoire des dogmes, trad. Degert, Paris, 1904, t. VI, p. 132-137. 11° Enfim, em 7 de setembro de 1907, na encíclica Pascendi, Pio X assinalou dois pontos da doutrina dos modernistas, que conduzem ao panteísmo: seu simbolismo, em virtude do qual as ideias são símbolos de Deus, e sua doutrina da imanência divina, derivada de todos os fenômenos da consciência humana. Se a realidade divina, apreendida no ato imanente da vida, não é distinta de nós e forma um só com nós, essa doutrina conduz ao panteísmo. Denzinger, n. 2108.

Autor original: E. Mangenot

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