IGREJA (I. ETIMOLOGIA E ACEPÇÕES NA ESCRITURA E NA TRADIÇÃO)

IGREJA (I. ETIMOLOGIA E ACEPÇÕES NA ESCRITURA E NA TRADIÇÃO)

EGLISE. — I. Etimologia e diversas acepções na Escritura e na tradição. II. Definição. III. Sistemas religiosos que se apresentam como cristãos e rejeitam ao menos parcialmente a divina constituição da Igreja. IV. Demonstração apologética da verdade da Igreja católica. V. Principais verdades dogmáticas concernentes à instituição e à constituição divina da Igreja. VI. Deveres dos fiéis para com a Igreja. VII. Conclusões teológicas concernentes às relações entre a Igreja e o Estado.

I. ETIMOLOGIA E ACEPÇÕES DIVERSAS NA ESCRITURA E NA TRADIÇÃO. — 1° A palavra igreja, ἐκκλησία (de ἐκκαλεῖν), em seu sentido profano, significava primitivamente uma assembleia, particularmente uma assembleia de cidadãos convocados por um arauto público.

— 2° Na linguagem escriturística do Antigo Testamento, seja no grego dos Setenta seja no grego original, ἐκκλησία ocorre várias vezes no sentido geral de assembleia profana. Ps. XXV, 5; Eccli., XX, 34. Na maioria das vezes essa palavra, sobretudo quando acompanhada dos determinativos Κυρίου, ἁγίων ou πιστῶν, designa o povo israelita enquanto povo escolhido de Deus, chamado por ele a uma vocação especial e particularmente dirigido ou governado por ele. É nesse sentido que a lei determina quais são aqueles que não devem ser admitidos no povo de Deus, οὐκ εἰσελεύσεται εἰς Ἐκκλησίαν Κυρίου. Deut., XXIII, 1-3, 8; II Esd., XIII, 1; Lament., I, 10. É também nesse mesmo sentido que esse povo é chamado ἐκκλησία ἁγίων, Ps. LXXXVIII, 6; CXLIX, 1, ἐκκλησία πιστῶν, I Mach., III, 13. Por consequência, ἐκκλησία é empregado com bastante frequência para designar toda reunião do povo de Deus, particularmente aquela que tem por finalidade louvar a Deus, quer essa reunião se realize ou não no templo divino. Ps. XXI, 23, 26; XXIX, 1; CVII, 32; Joël, I, 16; Eccli., XV, 5; XLIV, 15.

— 3° No Novo Testamento, a palavra ἐκκλησία ainda se encontra, mas muito raramente, em seu sentido primitivo de reunião ou assembleia profana, notadamente em Act., XIX, 32, 39, 40, onde designa a assembleia do povo de Éfeso. Com bastante frequência, essa palavra designa de maneira mais restrita a assembleia dos fiéis aderentes à fé cristã, I Cor., IV, 17; XI, 18, 22; XIV, 4, 19, 23, 34, 35; por vezes a assembleia dos fiéis que costumam realizar suas reuniões numa casa particular, Rom., XVI, 5; Col., IV, 15; ou ainda o conjunto dos fiéis de uma mesma cidade ou de uma mesma região, como a Igreja de Jerusalém, Act., VIII, 1; XI, 22; XV, 4; a Igreja de Antioquia, Act., XIII, 1; XIV, 26; XV, 3; a Igreja de Éfeso, Act., XX, 17; as Igrejas da Galácia, Gal., I, 2; as Igrejas da Judeia que estão em Cristo, Gal., I, 22; a Igreja de Cencreia, Rom., XVI, 1; as Igrejas da Ásia, I Cor., XVI, 19; as Igrejas da Macedônia, II Cor., VIII, 1. Mas o mais das vezes ἐκκλησία designa sem qualquer restrição a sociedade universal dos fiéis, que têm fé em Cristo e são regidos por uma autoridade estabelecida por ele e exercida em seu nome. É notadamente esse o sentido de Matth., XVI, 18, et super hanc petram ædificabo ecclesiam meam. Esse sentido se encontra frequentemente nos Atos, V, 11; VIII, 1, 3; IX, 31; XII, 1, 5; XX, 28; nas Epístolas de são Paulo, I Cor., X, 32; XI, 16; XIV, 4; XV, 9; Gal., I, 13; Eph., I, 23; V, 23, 30; Col., I, 18; I Tim., III, 15; e na Epístola de são Tiago, V, 14. Enfim, tendo a Igreja da terra no céu sua perfeita consumação pela perpétua glorificação daqueles que já gozam da recompensa eterna, o nome de igreja é também aplicado à sociedade dos eleitos, que é chamada ἐκκλησία πρωτοτόκων. Heb., XII, 23.

4° Na linguagem patrística, os principais sentidos da palavra igreja são: 1. A reunião dos fiéis congregados para o culto litúrgico, Doctrina duodecim apostolorum, IV, 12, Patres apostolici de Funk, 2ª edição, Tubinga, 1901, t. I, p. 14; Orígenes, De oratione, n. 31, P. G., t. XI, col. 553; In Exod., homil. XIII, t. XII, col. 388. — 2. Um agrupamento local ou regional dos fiéis, como a Igreja de Corinto mencionada na Iª Epístola de são Clemente papa aos Coríntios, na inscrição e em XLVII, 6, Patres apostolici, t. I, p. 98, 160. Denominações semelhantes se encontram com muita frequência nas cartas de santo Inácio de Antioquia, no Contra hæreses de santo Ireneu, nos escritos de Tertuliano e de são Cipriano e nos autores subsequentes. — 3. Na maioria das vezes, a palavra igreja designa a sociedade universal dos fiéis que creem em Jesus Cristo e estão submetidos à autoridade por ele estabelecida. Teremos em breve ocasião, ao citar os testemunhos da tradição cristã em favor da verdade da Igreja católica e em favor dos dogmas católicos concernentes à sua autoridade e às suas divinas prerrogativas, de citar numerosos textos patrísticos em que esse sentido é empregado já desde os primeiros séculos, particularmente nos escritos de são Clemente papa, de santo Inácio, de santo Ireneu, de Tertuliano e de são Cipriano. — 4. Por vezes, a palavra igreja significa, em sentido muito geral, a coletividade dos fiéis do Novo e do Antigo Testamento, que estão unidos na mesma fé substancial em Deus providente na ordem sobrenatural e em Jesus Cristo por vir ou já vindo, e que participam da mesma vida sobrenatural proveniente dos méritos da redenção já operada ou por se cumprir em breve. É nesse sentido que santo Agostinho compreende na Igreja universal todos os justos que, desde Abel até o fim do mundo, pertencem ao corpo místico de Jesus Cristo. Serm., CCCXLI, c. IX, n. 11, P. L., t. XXXIX, col. 1499 sq. São Tomás diz igualmente que a Igreja secundum statum viæ, durante todo o tempo da prova, é congregatio fidelium. Sum. theol., IIIa, q. VIII, a. 4, ad 2um. Ele explica como a fé dos fiéis de todos os tempos é substancialmente una, em razão da fé explícita nestas duas verdades que contêm todas as demais, Deus providente e Jesus Cristo redentor, I-IIæ, q. I, a. 7; e como a mesma vida sobrenatural, tanto antes como depois da redenção, provém dos méritos de Jesus Cristo e se manifesta, em um e outro período, pela mesma fé e pelo mesmo amor a Jesus Cristo esperado e que havia de nos remir, ou já vindo e imolado por nós. IIa IIæ, q. I, a. 7; IIIa, q. VIII, a. 3, ad 3um; q. LXVIII, a. 1, ad 1um. Essas expressões são comumente adotadas pelos autores subsequentes. — 5. Por vezes, enfim, a palavra igreja designa a sociedade eterna dos eleitos, sociedade da qual a Igreja da terra é ao mesmo tempo a preparação e a imperfeita imagem. Clemente de Alexandria, Pæd., l. I, c. IX, P. G., t. VIII, col. 352; Orígenes, In Luc., homil. VII, P. G., t. XIII, col. 1819; S. Hilário, In ps. CXXIV, n. 4; CXXXII, n. 6; CXXXIV, n. 27, P. L., t. IX, col. 682, 748, 767; S. Agostinho, Enarr. in ps. CXXXVIII, 4, P. L., t. XXXVIII, col. 1776; Enchiridion de fide, spe et caritate, c. LXI, t. XL, col. 260 sq.; S. Tomás, Sum. theol., IIIa, q. VIII, a. 4, ad 2um.

Autor original: E. Dublanchy

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