IV. DEMÔNIO SEGUNDO AS DECISÕES OFICIAIS DA IGREJA. — A Igreja dificilmente interveio, pelo órgão de seu magistério supremo, na determinação da doutrina revelada sobre os demônios. Ela deixou a seus doutores o cuidado de expô-la, assim como a liberdade de estudar as questões que a revelação divina não nos deu a conhecer. Levantaram-se poucos erros sobre o diabo e os anjos, e a Igreja teve raramente a ocasião de condenar ensinamentos falsos ou heréticos. Os pontos que ela fixou oficialmente e que impõe à nossa fé sobre este assunto são, portanto, pouco numerosos.
1° A criação dos demônios foi definida por diversos concílios e imposta à fé de todos os fiéis, nos numerosos símbolos, afirmando contra as doutrinas dualistas, que se renovavam quase em cada século, que Deus era o criador dos seres visíveis e invisíveis, entre os quais eram classificados os anjos decaídos assim como os anjos que permaneceram fiéis a Deus. Ver t. I, col. 1264-1265; t. I, col. 2078-2079.
2° Em reuniões realizadas em Constantinopla antes do V concílio ecumênico de 553, condenaram-se em 15 anátemas diversos erros dos origenistas do século VI. A segunda parte do 2º anátema condena a opinião deles sobre a queda dos espíritos. As almas preexistentes, totalmente idênticas umas às outras, cansadas de contemplar a Deus, voltam-se para o mal, cada uma seguindo sua propensão própria. Por conseguinte, tomam corpos mais ou menos sutis e grosseiros e levam nomes diferentes; são finalmente repartidas no que se chamou de ordens celestes. Os demônios são aquelas destas almas que atingiram o supremo grau de malícia e foram ligadas a corpos frios e tenebrosos (4º anátema). O 5º repele a teoria da metempsicose ou da mudança de um animal ou de um homem em anjo ou em demônio. O início do 6º repele a distinção de duas categorias de demônios, uma formada das almas humanas decaídas e dos anjos mais elevados, arrastados mais baixo pelo peso de suas faltas. O 12º rejeita a união dos anjos, dos homens, do diabo, dos maus espíritos e da própria alma de Cristo ao Logos no futuro reino de Deus. Denzinger, Enchiridion, n. 188, 190-192, 198. Ver t. I, col. 1265-1266, e ORIGÉNISME AU VIe SIÈCLE.
3° No concílio de Braga, realizado em 561, os bispos espanhóis levaram estes quatro anátemas contra os maniqueus e os priscilianistas: 7. Si quis dicit diabolum non fuisse prius bonum angelum a Deo factum nec Dei opificium fuisse naturam ejus, sed dicit eum ex tenebris emersisse nec aliquem sui habere auctorem, sed ipsum esse principium atque substantiam mali, sicut Manichæus et Priscillianus dixerunt, anathema sit. 8. Si quis credit, quia aliquantas in mundo creaturas diabolus fecerit et tonitura et fulgura et tempestates et siccitates ipse diabolus sua auctoritate faciat, sicut Priscillianus dixit, anathema sit. 11. Si quis plasmationem humani corporis diaboli dicit esse figmentum et conceptiones in uteris matrum operibus dicit dæmonum figurari, ... sicut Manichæus et Priscillianus dixerunt, anathema sit. 13. Si quis dicit creationem universæ carnis non opificium Dei, sed malignorum esse angelorum, sicut Priscillianus dicit, anathema sit. Cf. Denzinger, Enchiridion, 10e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1908, n. 237, 238, 241, 242.
4° O IV concílio de Latrão, XIII ecumênico, promulgou, em 1215, uma profissão de fé contra os erros dos albigenses, que tinham renovado a doutrina maniqueísta dos dois princípios. Ele definia aí que Deus é o criador de todas as coisas, já que fez do nada, simul ab initio temporis, as criaturas espirituais e corporais, os anjos e o mundo. Ele acrescentava: Diabolus enim et alii dæmones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali. Homo vero diaboli suggestione peccavit. Denzinger, n. 355 (428 da 10ª edição). Desta definição resulta claramente que todos os anjos, mesmo aqueles que se tornaram maus, foram criados por Deus e que foram criados bons, mas que se tornaram maus por si mesmos, por sua própria depravação; resulta também que o diabo fez cair o homem no pecado. A espiritualidade dos anjos e dos demônios, embora afirmada pelo concílio, não foi, contudo, o objeto de sua definição, assim como a data precisa de sua criação. Ver t. I, col. 1268-1270; t. II, col. 2080-2081.
5° Entre os 45 artigos de Wicleff, condenados pelo concílio de Constança e pelo papa Martinho V em 1418, o 6º está assim redigido: Deus debet obedire diabolo. Denzinger, n. 482 (586 da 10ª edição).
6° O concílio de Trento, sess. V, can. 1, declarou que, por sua transgressão do preceito divino, Adão incorreu em captivitatem sub ejus potestate qui mortis deinde habuit imperium, hoc est diaboli. Denzinger, 10e édit., n. 788.
7° O concílio do Vaticano, const. Dei Filius, c. 1, renovou o decreto Firmiter do IV concílio de Latrão e definiu que todas as coisas do mundo, as espirituais e as materiais, foram produzidas do nada por Deus na totalidade de sua substância. Denzinger, 10e édit., n. 1783. Como ele reproduziu textualmente sobre o ponto que nos ocupa o decreto de Latrão, ele não quis definir, como aquele, senão a criação por Deus de todos os anjos e não impôs à fé católica nem a espiritualidade dos demônios, nem a data precisa de sua criação. Ver A.
Vacant, Études théologiques sur les constitutions du concile du Vatican, Paris, 1895, t. I, p. 219-227.
Em resumo, a autoridade da Igreja nos impõe admitir como de fé católica que os demônios foram criados por Deus assim como todas as coisas, que eles foram criados bons, que, se decaíram, foi por sua própria culpa, e que eles não criaram a matéria nem os corpos. É de fé divina que existem anjos decaídos, que o diabo, seu chefe, tentou o homem e o fez cair no pecado, que Satanás e seus anjos tentam e perseguem os homens e que, em punição de sua falta, eles foram condenados ao inferno eterno, que foi preparado para eles. É certo, além disso, que os demônios, como os anjos, são espíritos e não possuem corpos, que foram criados antes dos homens e no início do tempo, com os seres corpóreos. Mas não há nada de definitivo sobre a natureza e o objeto do pecado dos anjos, sobre a data de sua queda, senão que ela é anterior à criação do homem; sobre a sua condição após a queda, senão que eles são inimigos do homem, que incitam ao mal e que estão obstinados em sua malícia, sobre a natureza de sua pena, senão que eles estão destinados ao inferno eterno. Os pareceres dos teólogos, que expusemos acima, sobre os pontos não contidos na revelação, são mais ou menos prováveis e nunca foram sancionados pela autoridade da Igreja. Os doutores não se consideraram ligados pelas opiniões de seus predecessores; eles as criticaram copiosamente, buscando precisar ainda mais os pontos deixados à sua livre discussão. Hagen, Der Teufel im Licht der Glaubensquellen, 1899; Kirchliches Handlexikon, Munique, 1907, t. I, col. 1035.
E. MANGENOT.
Autor original: T. ORTOLAN
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