DEMÔNIO (NA BÍBLIA E NA TEOLOGIA JUDAICA)


1. DEMÔNIO NA BÍBLIA E NA TEOLOGIA JUDAICA. — I. No Antigo Testamento. II. No mundo judaico posterior. III. No Novo Testamento. I. NO ANTIGO TESTAMENTO. — Como se pretendeu que a doutrina judaica sobre os demônios tivesse sofrido, após o fim do cativeiro da Babilônia, a influência persa, importa distinguir o que os israelitas pensavam dos espíritos maus até o exílio e a partir do exílio. 1° Antes do exílio. — Nos mais antigos livros bíblicos, não se trata explicitamente de anjos decaídos. Contudo, nele é feita menção a potências maléficas e a espíritos maus. No relato da queda dos nossos primeiros pais, intervém uma serpente. Gen., III, 1-11. Certamente, não se trata de um simples animal, mas sim de um espírito mau e malévolo que, sob a forma ou a aparência de uma serpente, tenta Eva, sugere-lhe a ideia de desobedecer ao preceito de Deus e leva-a, a ela e a Adão, a comer do fruto proibido. A maneira de agir desse animal astuto trai um ser superior, espiritual e invisível, que impele ao mal, e a sentença divina contra o tentador atinge esse ser pérfido e dissimulador mais do que o animal de cuja forma ele se apoderou. Gen., III, 13-15. Em todo esse relato, a serpente é um testa-de-ferro e um porta-voz daquele que será chamado mais tarde de diabo. P. Lagrange, L’innocence et le péché, na Revue biblique, 1897, t. VI, p. 390, 365-366. Cf. F. de Hummelauer, Comment. in Genesim, Paris, 1895, p. 150-151, 158-159; G. Hoberg, Die Genesis, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1908, p. 44-51.

Essa intervenção da serpente para explicar a decadência da humanidade é exclusivamente própria do Gênesis; ela não tem seu equivalente em nenhum mito antigo relativo ao destino da humanidade primitiva. Não há qualquer traço dela no mito babilônico de Adapa, no qual alguns mitógrafos pretenderam descobrir a origem do relato jeovista da criação. A serpente cumpre apenas um papel secundário no mito de Etana, e, se ela se vinga, é contra a águia que havia concebido o projeto de comer seus filhotes; ela não faz nada relativamente ao homem. P. Dhorme, Choix de textes religieux assyro-babyloniens, Paris, 1907, p. 148-181. Se a serpente intervém, nos mitos de diferentes povos, para representar uma potência má, nunca a encontramos misturada à perda da felicidade primeira da humanidade. Os exemplos, citados por F. Lenormant, Les origines de l’histoire, 2ª ed., Paris, 1880, t. I, p. 98-106; Histoire ancienne de l’Orient, 9ª ed., Paris, 1881, t. I, p. 39-41, não têm nenhuma analogia com o relato bíblico da queda, e, se a serpente dos iranianos, Agra Mainjou, encarna de certa forma o mal, se ela tem alguma relação com a serpente do Éden, é muito provavelmente porque dela deriva por imitação. Os documentos persas não são tão antigos quanto acreditava Lenormant, e a dependência entre a Bíblia e o Avestá é inversa do que se pretendia outrora. P. Lagrange, loc. cit., p. 350, 373, 377. A serpente tentadora permanece, portanto, exclusivamente própria à tradição israelita.

Moisés, que havia falado da serpente de modo a fazer reconhecer mais tarde nela o espírito tentador ou o diabo, não a menciona mais no restante do Pentateuco. Pensou-se que esse silêncio era intencional, que Moisés, para manter mais facilmente no espírito de seu povo a ideia monoteísta, calou-se sobre a existência de seres espirituais decaídos, com medo de que os israelitas, arrastados pelas concepções dos povos vizinhos sobre deuses maléficos, tivessem imaginado, ao lado do Deus todo-poderoso e bom, seres espirituais e invisíveis, que desejassem o mal e fossem capazes de contrariar as vontades divinas e de trabalhar no mundo contra os desígnios de Deus. Entre os babilônios, em particular, os demônios estavam sempre prontos a fazer o mal e não pensavam senão no mal. Por isso, uma parte da religião consistia em torná-los favoráveis ou em afastar seus ataques por meio de encantamentos e práticas mágicas. Lenormant-Babelon, Histoire ancienne de l’Orient, 9ª ed., Paris, 1887, t. IV, p. 194-214; Maspero, Histoire ancienne des peuples de l’Orient classique, Paris, 1895, t. I, p. 630-636; Chantepie de la Saussaye, op. cit., p. 133, 184; P. Lagrange, Études sur les religions sémitiques, 2ª ed., Paris, 1905, p. 223. É por isso que o legislador hebreu proíbe tão severamente todas as formas de magia. Exod., XXII, 18; Lev., XX, 6; Deut., XVIII, 9-11.

Os mais antigos livros da Bíblia hebraica, pela mesma razão sem dúvida, raramente falam dos espíritos maus ou demônios. Deve-se ver, contudo, um deles no espírito mau que atormentava Saul, quando o espírito do Senhor o havia deixado. I Sam., XVI, 14, 15. Mas esse espírito não parece independente de Deus; ele é apresentado como enviado pelo próprio Deus para agitar o rei culpado; chama-se, inclusive, "o espírito mau de Javé". I Sam., XVI, 16, 23; XVIII, 10; XIX, 9. É Deus, ainda, quem, rodeado por todo o exército dos céus, permite a um espírito de mentira enganar os falsos profetas de Acabe, e coloca Ele mesmo em seus lábios esse espírito de mentira que os faz falar. I (III) Reg., XXII, 19-23; II Par., XVIII, 18-22. Esses espíritos, portanto, não agem senão pela vontade divina.

Não são seres malfazejos por sua natureza e vontade própria; eles são agentes, subordinados a Deus e só executam o mal porque Ele lhes ordena ou lhes deixa a liberdade para tal. Pode-se aproximar desta concepção o papel atribuído a Satanás no livro de Jó. Este escrito, que é provavelmente anterior ao cativeiro, reflete as ideias antigas dos israelitas sobre o demônio. Satanás, nomeado pela primeira vez na Bíblia, é um ser sobre-humano, como os anjos no meio dos quais ele aparece, agente do mal, mas em uma absoluta subordinação a Jeová. Embora ele seja invejoso do justo Jó e queira provar a sua virtude por meio da desgraça, ele não pode agir senão com a autorização divina. Ele necessita de uma permissão, senão mesmo de uma delegação do Senhor. Sua ação é estritamente limitada à vontade de Deus, que permite primeiro atacar seu servo exclusivamente em seus bens, e não em sua pessoa, Job, I, 6-12, depois em sua pessoa, salvaguardando todavia a sua vida, II, 1-7. Se Satanás não aparece aqui como um espírito mau por essência, ele se mostra malfazejo e tentador. Este papel de tentador em relação ao homem virtuoso, com o objetivo de desviá-lo de Deus, liga-o manifestamente à serpente do Gênesis. Aliás, seu nome, Saṭān, empregado aqui com o artigo, haśśāṭān, deriva do verbo śāṭan, "armar emboscadas, perseguir, ser adversário". Este não é talvez ainda um nome próprio, mas antes um nome de qualidade, designando um ser malévolo, astuto, que arma ciladas e é adversário dos homens justos. Só mais tarde é que ele teria se tornado o nome próprio do demônio. Ele foi traduzido em grego por δίαβολος, significando etimologicamente "aquele que se coloca no caminho", mas tendo ordinariamente o sentido de inimigo, de adversário, e especialmente de acusador e de caluniador. Se o Satanás de Jó não designa expressamente o príncipe dos demônios, ele também não convém a um adversário indeterminado; é um anjo mau, inimigo do homem, dependente de Deus, e não sendo, por conseguinte, uma potência do mal, essencialmente oposta a Deus e representando no mundo o princípio mau. A doutrina monoteísta de Israel afastava toda ideia dualista e considerava os espíritos maus como inferiores a Deus e submissos à sua vontade, mesmo no exercício de sua malícia e no cumprimento de seus desígnios malévolos. Bem compreendida, a ideia destes espíritos não fazia correr nenhum perigo ao monoteísmo israelita e não levava os hebreus a deificar Satanás e a fazer dele, em face de Deus, princípio do bem, o princípio do mal. Estes fatos mostram a falsidade do sentimento de alguns críticos, que pretenderam erroneamente que os hebreus só teriam tido a noção distinta do demônio após o cativeiro, na sequência de suas relações com os persas, de quem teriam emprestado a ideia do príncipe dos demônios e o nome de Satanás. O conhecimento de espíritos maus é, entre eles, bem anterior ao cativeiro. Nós vamos ver se ela se desenvolveu a partir do cativeiro sob a influência das doutrinas estrangeiras, e nomeadamente dos persas e dos gregos.

2° A partir do cativeiro. — 1. Nos livros canônicos. — O livro de Tobias nomeia o demônio Asmodeu, que tinha matado os sete primeiros maridos de Sara, filha de Raguel, III, 8; VI, 14; VI, 11; VII, 12. O jovem Tobias, ao desposar Sara, escapou ao mesmo destino, graças aos meios de preservação que lhe tinha sugerido o anjo Rafael, seu guia, VI, 5, 8, 16-19; VIII, 2; XII, 3, 14. Rafael agarrou o demônio e o relegou ao deserto do Egito superior, VIII, 3. Vários críticos pretenderam que Asmodeu tinha sido emprestado pelos judeus ao masdeísmo, que seu nome e seu papel vinham da Pérsia. Asmodeu, Ašmadai, Ἀσμοδαῖος, não seria senão a transcrição de Aéshma-daéva, o demônio da concupiscência, uma espécie de Cupido, nomeado várias vezes no Avesta como o mais perigoso de todos os demônios. F. Lenormant, Les origines de l’histoire, 2e édit., Paris, 1880, p. 325-327. Em realidade, o Avesta só conhece Aéshma e não tem uma única vez a forma completa Aéshma daéva. O Bundehesh tem, de fato, o nome pehlvi Aéshnishédd, que supõe uma forma avéstica Aéshma-daéva. Mas a história de Tobias é anterior em vários séculos a todos os livros pehlvis, e os especialistas concordam que o iraniano daéva não poderia ter se tornado dai em hebraico. Aliás, Aéshma avéstico não é o demônio da concupiscência; ele é em toda parte o demônio da cólera e da violência. Seu atributo principal é uma lança sangrenta. Enfim, nenhum deva iraniano teria amado uma mulher. O demônio Asmodeu do livro de Tobias não é, portanto, um empréstimo iraniano. É um espírito mau e malfazejo, cujos malefícios foram frustrados por um procedimento mágico, indicado a Tobias pelo anjo Rafael. Para a maioria dos comentadores, a relegação deste demônio no deserto do Egito superior significa apenas que o anjo o afastou e o colocou na impossibilidade de prejudicar Tobias. Ver Dictionnaire de la Bible de M. Vigouroux, t. 3, col. 1103-1104. Nós veremos mais adiante que, para os judeus, os demônios habitavam especialmente nos desertos. A menção de Asmodeu na história de Tobias não reflete talvez senão uma tradição popular, da qual não há outro vestígio na Bíblia, mas que foi singularmente desenvolvida pelos judeus talmudistas e cabalistas, enquanto a tradição cristã não lhe deu quase nenhuma importância.

Satan é nomeado quatro vezes nos livros posteriores ao cativeiro. Enquanto o relato de II Sam., XXIV, 1, atribui à ira divina contra Israel o projeto que Davi concebeu de recensear seu povo, o relato paralelo de I Par., XXI, 1, reporta-o expressamente a Satanás, que aparece como o instigador dessa falta do rei e como a causa da peste, infligida por Deus a Israel em punição. A prova que Deus permitira em sua ira foi, portanto, considerada mais tarde como tendo sido provocada por Satanás, o inimigo de Deus e de seu povo Israel. F. de Hummelauer, Commentarius in Paralipomenon, Paris, 1905, t. I, p. 307-308.

Em uma visão, o profeta Zacarias, III, 1, 2, viu o sumo sacerdote Josué ou Jesus de pé diante do anjo de Jeová. Satanás estava à sua direita para se opor a ele; mas Jeová ou seu anjo disse a Satanás: «Que Jeová te reprima, Satanás; sim, que ele te reprima, ele que fixou sua escolha sobre Jerusalém.» Segundo a melhor interpretação desta visão, Satanás acompanha o sumo sacerdote diante do tribunal do anjo do Senhor; ele o acusa, não de uma falta pessoal, mas das queixas que os antigos profetas haviam reprovado ao sacerdócio israelita. Por suas prevaricações próprias, os sacerdotes haviam atraído sobre Judá os castigos divinos e, em particular, o cativeiro na Babilônia. Satanás, o adversário de Judá, renovava no tribunal divino essa antiga acusação e queria, por isso, opor-se à restauração do sumo sacerdócio. Ele preenche, portanto, o papel de acusador diante do juiz. Longe de escutar sua acusação, Deus reprimiu o acusador. Satanás busca, portanto, em vão provocar o ressentimento de Jeová contra o sumo sacerdote. Deus perdoou a Judá e salvou Jerusalém do incêndio, e Satanás é rejeitado em sua queixa. J. Knabenbauer, Commentarius in prophetas minores, Paris, 1886, t. II, p. 248-249.

Marti pretendeu que Satanás (segundo ele, seria uma criação de Zacarias) seria a personificação ideal da voz acusadora da consciência que se levanta contra o retorno dos favores divinos. Dodekapropheton, Tubinga, 1904, p. 408. Nowak tomou dele esta ideia, Die kleinen Propheten, 2ª ed., Goettingen, 1903, p. 352-353. Zacarias não criou a personagem de Satanás, pois ele lhe teria dado um nome significando diretamente acusador. Ele encontrou este nome, já empregado antes dele; ele o adotou e o apresentou com o artigo haśśāṭān, para fazer desempenhar, na cena atual, à personagem assim nomeada, o papel de acusador de Jesus. Ele o vê ao lado do anjo de Jeová, verossimilmente o anjo protetor de Judá, não como uma simples personificação da consciência acusadora, mas bem mais como um anjo mau, subordinado a Deus, limitando-se a acusar, e rejeitado pelo juiz, a quem ele recorre. A. Van Hoonacker, Les douze petits prophètes, Paris, 1908, p. 605-607.

No Eclesiástico, XXI, 30, lê-se: «Quando o ímpio amaldiçoa o diabo, τὸν σατανᾶν (o texto original deste versículo não foi reencontrado), ele amaldiçoa a si mesmo.» Trata-se do diabo mais do que de um adversário comum, e o sentido parece ser que o ímpio, ao amaldiçoar aquele que o tentou e o empurrou para sua impiedade, amaldiçoa a si mesmo, uma vez que é por sua própria vontade que ele se deixou seduzir e enganar e que caiu na impiedade. J. Knabenbauer, Ecclesiasticus, Paris, 1902, p. 243-244.

Finalmente, Sab., II, 24, o diabo é aquele que, por inveja, introduziu a morte no mundo. Satanás é assim nitidamente identificado com a serpente, que seduziu nossos primeiros pais e atraiu sobre eles o castigo da morte corporal. Gen., III, 19. Cf. Smend, Lehrbuch der alttestamentlichen Religionsgeschichte, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1899, p. 402-403, 454; B. Stade, Biblische Theologie des Alten Testaments, Tubinga, 1905, t. I, p. 327-328.

2. Na versão dos Setenta. — Os primeiros tradutores gregos, que sempre verteram o nome próprio Satanás por δίαβολος, viram, sob a influência das ideias gregas, anjos maus em passagens onde o texto original não falava deles, e traduziram pela palavra δαίμων diferentes nomes hebraicos cujo sentido é menos claramente determinado.

A tradução deles é o índice das ideias correntes de seu tempo no meio judaico onde viviam. Mas essas ideias, por terem sido adotadas por judeus helenistas, não entraram pelo próprio fato no domínio da revelação divina, ainda que tenham a pretensão de explicar os livros inspirados. Esses tradutores haviam vertido bené ha-élohim, Gen., VI, 2, υἱοὶ τοῦ θεοῦ. Mas alguns manuscritos apresentavam a variante: ἄγγελοι τοῦ θεοῦ, e esta lição parece ter sido, ao menos em uma certa época, a mais difundida. Cf. Holmes, Vetus Testamentum cum variis lectionibus, Oxford, 1798, t. I. Disso resultava que anjos, seduzidos pela beleza das filhas dos homens, teriam se unido a elas e teriam procriado gigantes. Como os anjos são nomeados filhos de Deus, Jó, I, 6; II, 1; Sl. XXVIII, 1; LXXXIX, 7; Dan., III, 9, muitos críticos concluíram que a tradução «os anjos de Deus» era literal, e que os bené ha-élohim eram realmente, no Gênesis, anjos decaídos. Mas a incorporeidade dos anjos não autorizando a possibilidade de tal comércio, eles pensaram que o relato bíblico havia conservado o vestígio de um mito pagão, recebido nos meios populares do judaísmo. F. Lenormant, Les origines de l'histoire, t. I, p. 291-330.

O abade Robert, pelas mesmas razões, supôs que o relato primitivo, que falava apenas da aliança dos setitas com as filhas dos cainitas, havia sido alterado, sob a influência do mito popular, por meio da inserção dos filhos de Deus unindo-se às filhas dos homens. Les fils de Dieu et les filles des hommes, na Revue biblique, 1895, t. iv, p. 341-348, 528-535. Estas conclusões não se impõem. Embora a expressão «filhos de Elohim» no livro de Jó e nos Salmos citados designe certamente os anjos, não se segue que ela tenha este sentido no relato do Gênesis. O contexto, com efeito, convém apenas a homens e de modo algum aos anjos, dos quais o livro bíblico ainda não havia falado. Trata-se apenas do crescimento da humanidade sobre a terra. Esta humanidade, acrescida pela união dos filhos de Deus com as filhas dos homens, não é senão carne, só tem sentimentos carnais. Portanto, como punição, Deus, que não quer deixar desprezar sobre a terra o sopro de vida com o qual animou os humanos, retirá-lo-á destas gerações carnais e abreviará sua vida, que será reduzida a 120 anos. O castigo não atinge, portanto, senão homens, únicos visados em todo o relato. Os anjos só aparecem ali na hipótese de que a expressão «filhos de Elohim» não pode absolutamente designar senão eles. Ora, todos os tradutores judeus do Gênesis descartaram os anjos. Áquila traduziu: οἱ υἱοὶ τῶν θεῶν; Símaco, υἱοὶ τῶν δυναστευόντων; e Teodocião: υἱοὶ τοῦ θεοῦ. Dom de Montfaucon, Hexapla, P. G., t. xv, col. 188-190; Field, Origenis Hexaplorum quae supersunt, Oxford, 1875, t. 1, p. 22. O targum de Onkelos traduz a expressão hebraica por «filhos dos poderosos» ou dos grandes. Ademais, segundo o texto hebraico, os gigantes, que são homens de renome, não provêm todos da união dos filhos de Deus com as filhas dos homens; eles existiram na mesma época, existiram ainda depois, e alguns nasceram talvez das uniões anteriormente narradas. Em tudo isto, trata-se apenas de humanos, e pode-se pensar muito legitimamente que os filhos de Deus eram descendentes de Set que desposaram as filhas dos cainitas. M. Hoberg, Die Genesis, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1908, p. 75, interpreta esta expressão no sentido de «homens piedosos». Seja como for, o relato original não menciona os anjos nem seu comércio carnal com mulheres. Ver F. de Hummelauer, Commentarius in Genesim, Paris, 1895, p. 211-219; Dictionnaire de la Bible de M. Vigouroux, t. 1, col. 2255-2257. Os judeus, em seu contato com os gregos, conheceram as uniões dos deuses pagãos com mulheres, e porque os leitores gregos do Gênesis sabiam que os bené ha-élohim designavam alhures os anjos de Deus, deram este sentido a esta expressão do relato genesíaco e introduziram entre seus correligionários a ideia do casamento dos anjos com mulheres e da origem dos gigantes, ideia que deveria receber, como veremos, novos desenvolvimentos. Mas ela era estranha ao pensamento dos antigos hebreus. Contudo, os primeiros tradutores gregos viram demônios em muitos outros trechos da Escritura, nos quais se fala de seres completamente distintos. Assim, eles fizeram demônios: 1. dos se’irim, que designam ou bodes, isto é, aqueles animais honrados como deuses na realidade ou em imagens, Lev., xvii, 7; II Par., xi, 15; ou sátiros, semelhantes a bodes selvagens, vivendo no deserto, Is., xiii, 21; xxxiv, 14; 2. dos Sédim, ou «poderosos», ídolos, semelhantes aos be‘alim, senhores ou deuses, Deut., xxxii, 17; Ps. cvi (cv), 37, nos quais muitos críticos modernos reconhecem os sedim ou gênios babilônios; 3. dos ‘élilim, coisas vãs, isto é, ainda ídolos, Ps. xcvi (xcv), 37; 4. dos syyim, animais selvagens, Is., xxxiv, 14; 5. de qeteb, o que devasta, Ps. xc (xci), 6. O texto grego de Baruc, iv, 7, 35, fala de demônios em um contexto onde se trata de ídolos ou de animais selvagens habitando em meio às ruínas. Ignoramos quais eram as palavras hebraicas assim traduzidas. Cf. J. Knabenbauer, Commentarius in Danielem prophetam, Lamentationes et Baruch, Paris, 1891, p. 491, 497. Os tradutores gregos viram ainda anjos maus, Ps. lxxviii (lxxvii), 49, em um trecho onde o texto original fala apenas de anjos de desgraça, que são provavelmente anjos bons encarregados por Deus de castigar os culpados.

II. NO MUNDO JUDEU POSTERIOR. — 1° Nos livros apócrifos. — A demonologia, que já estava em vias de se desenvolver quando a Bíblia hebraica foi traduzida para o grego, tomou acréscimos muito consideráveis na literatura apócrifa do judaísmo. Como ela foi conhecida e parcialmente aceita pelos Padres da Igreja, e como, por outro lado, pretende-se que ela influiu até mesmo sobre certos escritores do Novo Testamento, importa expô-la sumariamente. O livro etíope de Enoque, que compreende elementos de natureza diversa, escalonados do segundo terço do século II até o ano 64 antes de Jesus Cristo, reproduz também tradições diferentes sobre os demônios ou os anjos caídos. Embora os anjos, espíritos imortais, não tenham tido necessidade de se unir às mulheres na terra para se perpetuarem, xv, 4-7, F. Martin, Le livre d’Hénoch, Paris, 1906, p. 40-41, contudo, duzentos vigilantes, sob as ordens de Semyaza, segundo uma tradição, vi, 3, p. 11, ou de Azazel, segundo outra, x, 4; xl, 1, 2, p. 22, 31, foram seduzidos pela beleza das mulheres. Descidos sobre o cume do Hermon, com seus chefes de dezenas, dos quais 18 são nomeados, vi, 7, p. 12 (outra lista de 21, lxix, 2, p. 149-150), eles tomaram mulheres e delas tiveram gigantes, que oprimiram os homens e se devoraram entre si, vi-viii, p. 10-15. Eles revelaram às suas mulheres os segredos eternos, descobriram aos homens as artes e lhes ensinaram toda impiedade, vii, 1; viii; ix, 6-8; xvi, 3, p. 14, 15-17, 21, 45. As almas daqueles que tinham sido oprimidos pelos gigantes os acusaram, ix, 3, 10, etc., p. 18, 21, e apesar da intervenção de Enoque, xii; xiv, p. 31-33, 34-35, Deus condenou os anjos decaídos, primeiramente a castigos temporais, a perda de seus filhos, x, 9-12, 15; xiv, 6, p. 24-25, 26, 35, e a um estreito cativeiro longe do céu, x, 5, 12; xiv, 5; xxi, 10, p. 23, 25-26, 35, 37, depois, a partir do juízo final, ao suplício eterno, no abismo de fogo, x, 6, 13, p. 23, 26. Contudo, uma outra tradição supõe que, do lugar onde estão reunidos, esses espíritos podem assumir toda espécie de formas e enganar os homens até o juízo final, xix, 1, p. 33. Alhures, lxvii, 4-13, p. 143-146, eles são condenados ao suplício das águas ardentes, que comunicam seu calor às fontes termais. No Livro dos sonhos, os anjos decaídos são comparados a estrelas descidas dos céus, que se transformam em touros e têm relações culpáveis com as novilhas, isto é, as filhas dos homens, lxxxvi, p. 200-201. Um arcanjo fiel os captura, os acorrenta e os joga em um abismo sob a terra, lxxxviii, 202-203. No juízo final, eles serão precipitados em um abismo de fogo, xc, 24, 25, p. 230-231. Esta tradição conhece outros anjos culpáveis: os 70 anjos ou pastores a quem Deus havia confiado o cuidado de velar sobre Israel a partir da invasão assíria, e que, tendo sido infiéis à sua missão, serão condenados, no juízo final, a compartilhar o suplício eterno das estrelas caídas, xc, 22, 25, p. 231. Quanto aos gigantes, os espíritos saídos de sua carne, à sua morte, permaneceram na terra; são espíritos maus, que atacarão os homens até o juízo, xv, 8-12; xvi, 4, p. 44-45. Os homens os adoram sob imagem de ídolos, como adoram os demônios, xcix, p. 261, por instigação dos anjos decaídos, xix, 1, p. 53; cf. p. 46, nota. As tradições do Livro das parábolas, xli, 7, p. 87, e de uma apocalipse de Noé, lxv, 6, p. 139, falam dos satãs. São espíritos malignos, que arrastaram os homens ao mal, liv, 6, p. 110, e os acusam diante de Deus. Eles são encarregados de castigar os culpáveis e são chamados os anjos do castigo, liii, 3, p. 108; preparam os instrumentos de Satanás, chicotes e correntes de ferro para os reis e os poderosos da terra, lvi, 1; lx, 11; lx, 1; lxvi, 1, p. 112, 133, 134, 144. Esses satãs diferem dos anjos decaídos e dos gigantes, pois não estão fadados aos tormentos do inferno e podem se apresentar no céu diante do Senhor. Eles existiam antes da queda dos anjos que provocaram. Seu chefe é Satanás; os vigias preferiram seu serviço ao de Deus. Ele representa, portanto, um poder hostil ao Senhor, embora dependa dele, uma vez que seus subordinados executam as sentenças divinas. F. Martin, op. cit., p. xxv-xxxi. Cf. Robert, na Revue biblique, 1895, t. iv, p. 366-373, 539-545. Ver também, t. 1, col. 1480-1481.

O livro eslavo dos Segredos de Enoque, que é do final do século I ou do início do século II de nossa era, fala também de dois tipos de anjos culpáveis. No segundo céu, c. vii, há trevas mais sombrias que as da terra, e nessas trevas prisioneiros que são guardados para o juízo final. São os anjos que não obedeceram aos preceitos de Deus, que tomaram conselho de sua vontade própria e que, tendo pecado com seu príncipe Satanail, foram relegados do 5º céu, onde deveriam estar, para as trevas do 2º céu. Eles estão mergulhados na dor e não param de chorar. Pedem a Enoque para interceder por eles junto a Deus; mas Enoque se recusa. Seus irmãos, que permaneceram fiéis, permanecem, desde a falta dos culpáveis, tristes e desolados, cessaram de louvar a Deus. Três desses anjos, relegados ao segundo céu, desceram sobre o Hermon, uniram-se a mulheres e deram nascimento aos gigantes. Em punição a essa falta, foram condenados a habitar sob a terra até o fim do mundo. Enoque os viu em sua prisão e intercedeu vãmente junto a Deus em seu favor, c. xv. O chefe dos anjos desobedientes quis colocar seu trono acima das nuvens e igualar a Deus em poder, c. xxix. Tornado Satanás e o espírito mau das regiões inferiores após ter deixado os céus, quis desarranjar a ordem estabelecida por Deus, porque via que tudo na terra estava submetido ao homem. Embora tivesse mudado de natureza, conservava a inteligência do bem e do mal. Satanás enganou Eva, e Deus o amaldiçoou por causa de sua ignorância, c. xxxii. Ver t. 1, col. 1482-1484. O Livro dos Jubileus, composto por volta da metade do século II de nossa era, ii, 17 sq., conta a tentação de Eva pela serpente, e a situa no 17º dia do 2º mês do 8º ano após a criação. Na 3ª semana do 6º ano do 10º jubileu, os anjos guardiões desceram à terra para ensinar aos homens o direito e a justiça, iv, 15.

No 25º jubileu, no tempo de Noé, quando os homens se tinham multiplicado e tiveram filhas, os anjos de Deus viram que elas eram belas, escolheram para si mulheres entre elas e geraram os gigantes. Os homens tornaram-se maus e Deus resolveu destruí-los, à exceção de Noé. Irritado contra os anjos que tinha enviado à terra, decidiu retirar-lhes todo o seu poder e fê-los acorrentar nas profundezas da terra. Quanto aos gigantes, mandou matá-los. Seus pais, acorrentados, foram testemunhas de sua exterminação e permaneceram ligados até o dia do juízo, v, 1-10. Mais adiante, este livro relata que, na 3ª semana do 29º jubileu, após o dilúvio, os demônios impuros começaram a enganar os filhos de Noé, a torná-los insensatos e a fazê-los perecer. Os filhos de Noé foram encontrar seu pai e falaram-lhe dos demônios que tinham enganado, cegado e matado seus netos. Noé orou ao Senhor, pedindo-lhe que os maus espíritos não pudessem dominar seus netos nem fazê-los perecer na terra. Lembrou a Deus que os guardiões, pais desses espíritos, tinham vivido no seu tempo, e pediu que esses espíritos, que ainda estavam vivos, fossem encarcerados por Deus e retidos no lugar da danação, para que não pudessem mais fazer perecer seus descendentes. Eles são criados para a perdição dos homens. Que Deus não os deixe dominar sobre os espíritos dos vivos e não lhes dê nenhum poder sobre os filhos dos justos para sempre. Deus ordenou ligá-los a todos. Mastema, seu chefe, pediu que uma parte fosse deixada livre para cumprir suas próprias vontades, pois a malícia dos homens é grande. Deus permitiu que a décima parte desses espíritos não fosse encarcerada no lugar da danação. Suas ordens foram executadas, e nove décimos dos demônios foram aprisionados, x, 1-11. Kautzsch, Die Apokryphen und Pseudepigraphen des Alten Testaments, Tubingue, 1900, t. ii, p. 45, 47, 48-49, 57-58. Mais tarde, Abraão, em suas últimas recomendações a Jacó, disse ao seu neto para não agir como os pagãos, que oferecem sacrifícios aos mortos e adoram os demônios, xxii, 16, 17. Ibid., p. 78. No prefácio dos Oráculos sibilíneos, citado por santo Teófilo de Antioquia, Ad Autol., ii, 36, P. G., t. vi, col. 1109 sq., a Sibila judaica censura os pagãos por oferecerem sacrifícios aos demônios que habitam sob a terra. Cf. Kautzsch, t. ii, p. 184. No Martírio de Isaías, conta-se que Samael entrou em Manassés e que este rei serviu a Satanás, seus anjos e potências. O príncipe da injustiça, que reina sobre o mundo, é ali também chamado Belial. Kautzsch, t. ii, p. 124-126.

No Testamento dos Doze Patriarcas, Beliar é o nome do diabo ou de Satanás, Rúben, 2, 4; Levi, 18; Dã, 4, 5; Kautzsch, t. II, p. 460, 462, 471, 483, 485. Este espírito habita no ar. Benjamim, 3, p. 503. Satanás mesmo é nomeado ali, Gade, 4, p. 493, com seus anjos. Aser, 6, p. 496. Os anjos foram seduzidos pelas mulheres. Rúben, 5; Naftali, 3, p. 462, 487. Estes escritos são do século I e do século II de nossa era. A Vida de Adão e Eva conta uma segunda tentação que Satanás fez Eva sofrer após sua penitência, Kautzsch, t. II, p. 513, e faz Eva contar ela mesma sua primeira tentação pela serpente, que era o diabo. Ibid., p. 520 sq. O relato é totalmente lendário. 2º Na doutrina do judaísmo posterior. — No século I de nossa era, temos ainda os testemunhos de Josefo e de Filo; Josefo, enquanto segue os Livros santos de sua nação, é fiel à doutrina comum de seu tempo. Relata exatamente o papel da serpente tentadora na provação de nossos primeiros pais. Ant. jud., I, 1, 4, Opera, Amsterdã, 1726, t. I, p. 7. Mas adota também as ideias dos judeus helenistas. Atribui a origem dos gigantes ao comércio carnal dos anjos de Deus com as filhas dos homens. Ant. jud., I, 1, 1, p. 12. Fala dos demônios que provocavam em Saul sufocações e estrangulamentos, dos quais os médicos não podiam curá-lo, e acrescenta que a calma era restituída ao enfermo pelo som da harpa de Davi. Ant. jud., VI, VIII, 2; XI, 2, p. 332-333, 338. Notou-se que não nomeou uma única vez Satanás. Além disso, sob a influência sem dúvida de ideias gregas, chama de demônios as almas dos homens maus, e diz que essas almas matam os vivos que entram sem precaução nas águas de Maqueronte. Bell. jud., VII, VI, 3, t. I, p. 417. Filo, mais profundamente imbuído de filosofia grega, misturou, em sua teoria das potências intermediárias entre Deus e as criaturas, a doutrina judaica sobre os anjos e as ideias dos gregos sobre os demônios. Para ele, os anjos e os demônios são almas puras, que voam no ar e descem aos corpos. Assim, alegoriza o relato bíblico da origem dos gigantes, embora reproduza a lição: ἄγγελοι θεοῦ. De gigantibus, em Opera, Paris, 1640, p. 284-285. Sua doutrina não tem mais nada de especificamente judaico; conserva apenas o nome de anjos. Schürer, Geschichte des jüdischen Volkes im Zeitalter Jesu Christi, 3ª ed., Leipzig, 1898, t. III, p. 553. Declara também que os pagãos tomaram por erro os anjos por deuses. De profugis, 48, p. 481. Mais tarde, a demonologia tomou, no mundo judaico, uma extensão muito grande. Importa pouco ao nosso assunto prosseguir seu estudo, seja nos targuns, seja nos Talmudes, seja nos comentários da Bíblia.

Digamos apenas que, segundo o targum do pseudo-Jonathan sobre Num., XI, 26, é Samael quem tentou Eva. Para algumas ideias populares, veja o Talmud de Babilônia, tratado Berakhoth, I, 1-4; VII, 6; IX, 9, trad. Schwab, Paris, 1871, p. 227, 239, 240, 433, 495, 496, 497; Talmud de Jerusalém, tratado Teroumoth, I, 4, trad. Schwab, Paris, 1879, t. III, p. 4; tratado Sanhédrin, X, 2, Paris, 1889, p. 51; Weber, Jüdische Theologie auf Grund des Talmud und verwandter Schriften, 2e édit., Leipzig, 1897, § 54. Mais tarde ainda, sob a influência da superstição popular e graças às especulações da cabala, o número dos anjos e dos demônios tendo um nome determinado, e a variedade dos meios inventados para afastar sua ação nefasta formaram toda uma teologia nova, sem relação com a revelação do Antigo Testamento. Veja M. Schwab, Vocabulaire de l’angélologie d’après les manuscrits hébreux de la Bibliothèque nationale, in-4°, Paris, 1897; Id., Le ms. 1380 du fonds hébreu à la Bibliothèque nationale, Supplément au vocabulaire de l’angélologie, in-4°, Paris, 1899; S. Karppe, Étude sur les origines et la nature du Zohar, Paris, 1901, p. 56, 445, 447-448.

III. No Novo Testamento.

1° Nos Evangelhos. — A doutrina de Nosso Senhor e dos evangelistas sobre os demônios sobressairá primeiro do estudo das relações do Salvador com Satanás e os espíritos maus, depois da própria doutrina de Jesus sobre o diabo e o mundo infernal.

1. Relações de Jesus com os demônios. — Logo no início de sua vida pública, Jesus, retirado ao deserto, foi tentado por Satanás. Marc., I, 13. O Espírito o havia conduzido até lá para esse fim. Matth., IV, 1. Satanás ali cumpre seu papel de tentador. Ele prova Jesus e o interroga sobre sua natureza e sua missão messiânica, a fim de desviá-lo, se pudesse, dessa missão que ele pressente contrária aos seus maus desígnios sobre o mundo. O relato da tríplice tentação, Matth., IV, 3, 11; Luc., IV, 3-13, mostra a habilidade do tentador, que recorre ao atrativo da concupiscência para desviar Jesus de sua missão e induzi-lo ao erro. Satanás aparece ali capaz de agir, não somente sobre a inteligência dos homens ao sugerir pensamentos, mas ainda sobre seus corpos, uma vez que ele transporta Jesus a Jerusalém, sobre o cume do templo, depois sobre uma alta montanha. Em uma das três tentações, ele se apresenta como o senhor do mundo, e quer ser adorado. Por outro lado, Jesus resiste às suas sugestões e prova pelo seu exemplo que Satanás não tem império absoluto sobre os homens e que ele influi somente sobre aqueles que cedem voluntariamente às suas sugestões. Vencido em sua primeira tentativa, ele não se retira senão por um tempo, Luc., IV, 13, com a intenção de retornar ao assalto e de retomar a luta. Os encontros não faltarão, e eles ocorrerão por intermédio dos demoníacos. Tratar-se-á no artigo Demoníacos da realidade e da natureza das possessões diabólicas; não diremos aqui senão o que elas nos ensinam sobre Satanás e os demônios. Durante sua primeira estada em Cafarnaum, Jesus foi abordado na sinagoga por um possuído do espírito imundo, que o interrogou sobre sua natureza e sua missão, que ele adivinhava hostil e dirigida contra ele para sua perda. Jesus o expulsa do possuído e a primeira manifestação desse poder divino sobre os espíritos imundos fez grande ruído em toda a Galileia. Marc., I, 23-28; Luc., IV, 33-37. Outros possuídos aclamavam Jesus como Filho de Deus ou Messias. Jesus lhes impunha silêncio e os expulsava. Marc., I, 34, 39; Matth., VIII, 16; Luc., IV, 41. Esses fatos se reproduziam frequentemente e em diversos lugares. Marc., III, 11, 12; V, 1-20; VII, 24-30; Matth., VIII, 28-34; IX, 32-33; XV, 21-28; Luc., VIII, 18; IX, 37-43. Escribas, vindos de Jerusalém, tomaram ocasião disso para caluniar Jesus e dizê-lo possuído ele mesmo; eles pretendiam que ele expulsava os demônios em nome de Belzebu, seu príncipe. Esse nome, emprestado da mitologia dos filisteus, que honravam Baal como deus das moscas, designava, na linguagem popular dos contemporâneos de Jesus, o chefe das habitações infernais. Veja Dictionnaire de la Bible de M. Vigouroux, t. I, col. 1547. Jesus refutou essa calúnia com esse raciocínio sem réplica de que Satanás não pode agir contra si mesmo, nem destruir seu próprio império. Marc., III, 22-26; Matth., IX, 34; XII, 22-27; Luc., XI, 14-19. Declarar que Jesus é possuído do espírito imundo é um blasfêmia contra o Espírito Santo e um pecado irremissível. Marc., III, 29, 30. Veja t. II, col. 910-916. É pelo espírito de Deus, é pelo seu dedo, isto é, pela sua potência, que Jesus expulsa os demônios, e o exercício desse poder é um sinal de que o reino de Deus veio à terra. Matth., XII, 28; Luc., XI, 20. Havia, portanto, oposição entre o reino de Deus e o reino do diabo, e Jesus havia vindo para destruir este último. Assim, ao escolher seus apóstolos, conferiu-lhes o poder de expulsar os demônios. Marc., III, 15; Matth., X, 1, 8. Ele renovou esse poder, ao enviá-los em missão, durante a qual eles expulsaram muitos demônios. Marc., VI, 7, 13. Os setenta e dois discípulos, encarregados mais tarde de uma missão especial para preparar a de seu Mestre, relataram com alegria, ao seu retorno, que os demônios lhes eram submissos pela virtude do nome de Jesus, e Jesus lhes declarou que ele tinha visto Satanás cair do céu como o relâmpago. Luc., X, 17, 18.

Ele acrescentou que o poder sobre os demônios não era, para aqueles que o possuíam, uma marca de salvação; ele lhes era dado para o bem dos outros, e eles não serão recompensados por isso. Luc., X, 20. Cf. Matth., VII, 22. Todavia, os apóstolos não podiam expulsar toda sorte de demônios e Jesus explicou-lhes que alguns desses espíritos não podiam ser expulsos senão pelo recurso à oração e ao jejum. Marc., IX, 13, 28; Matth., XVII, 14-20; Luc., IX, 40. Jesus reconhecia, portanto, diversas classes de demônios, das quais algumas tinham um poder mais malfazejo que as outras. Os judeus, assim como os galileus, trataram Jesus de possuído pelo demônio. Joa., VII, 48, 52. No momento da paixão, a potência das trevas, que Jesus tinha comprimido durante sua vida pública, teve um instante de poder contra ele, e os judeus, seus sequazes, puderam apoderar-se de Jesus e levá-lo à morte. Luc., XXII, 53. Judas, que o tinha traído, tinha agido sob a influência de Satanás. Luc., XXII, 3. Cf. Joa., VI, 71, 72; XIII, 2, 27. Mas Jesus, vencedor da morte pela ressurreição, deu novamente aos seus apóstolos o direito de expulsar os demônios em seu nome. Marc., XVI, 17.

2. Ensinamento de Jesus sobre os demônios. — Jesus não se contentou em lutar contra Satanás, que o tentava, e contra os demônios, dos quais Satanás é o príncipe e que faziam os homens sentirem sua potência malfazeja, ele ainda caracterizou, em suas parábolas e seus discursos, a natureza dessa potência má. Nos Sinópticos, ao descrever sob forma parabólica o futuro do reino messiânico, ele indicou em alguns traços a oposição que lhe fará Satanás nas almas e no mundo. Se a palavra de Deus é uma semente, lançada sobre diversos terrenos, Satanás ou o maligno vem prontamente, semelhante às aves do céu, arrebatar o grão caído à beira do caminho e a boa palavra semeada nos corações para que ela não germine e não dê fruto, Marc., IV, 15; Matth., XIII, 19, por medo de que os ouvintes, se fossem atentos à palavra lançada nos corações, sejam salvos. Luc., VIII, 12. Satanás é ainda o homem inimigo que, depois que o pai de família semeou em seu campo a boa semente, vem à noite espalhar o joio com o bom trigo. Este joio é o símbolo dos maus, semente do diabo, que, no reino de Deus, se encontrarão com os bons e ali serão conservados até o tempo da colheita, o fim dos tempos, para serem então separados e lançados ao fogo. Matth., XIII, 24-30, 36-42. Quando se fizer essa separação, exposta alhures como aquela das ovelhas e dos cabritos do rebanho, Matth., XXV, 32, 33, os cabritos, ou os maus, colocados à esquerda, serão malditos e enviados ao fogo eterno, que está preparado para o diabo e para seus anjos. Matth., XXV, 41. Os homens maus partilharão, portanto, o sorte reservado aos demônios. Ao seguir as inspirações de Satanás, eles pertencem ao seu reino, e ao se colocar em sua esteira, eles merecem o mesmo castigo que ele. Satanás tinha pedido para joeirar os discípulos de Jesus como o ceifeiro joeira o trigo. Mas, ao mesmo tempo que lhe deixava o direito de atacá-los, Jesus rezou para que a fé de Pedro não falhasse e para que ele confirmasse seus irmãos. Luc., XXII, 31-32. Contudo é preciso temer este adversário, que é capaz de perder o corpo e a alma no inferno. Matth., X, 28. Quando o espírito imundo sai de um homem, ele vagueia pelos lugares áridos e ali busca o repouso sem encontrá-lo. Então busca ele voltar para a casa que deixou, e encontrando-a purificada e ornada, ele toma consigo sete outros espíritos mais maus que ele; eles penetram juntos nesse homem libertado, e tornam seu estado pior que o primeiro. Matth., XII, 43-45. Maria Madalena tinha sido libertada de sete demônios, Luc., VIII, 2; Marc., XVI, 9. Por vezes, mesmo os demônios, que habitavam em um só homem, chamavam-se legião, tão numerosos eles eram. Marc., V, 9; Luc., VIII, 30, 36. Eles pediram para entrar em um rebanho de porcos, para não deixar a região. Marc., V, 10-16. Nos seus discursos que relata o quarto Evangelho, Jesus é mais preciso ainda sobre a origem e a natureza do diabo. Ele chama os judeus, que recusavam acreditar em sua palavra, os filhos do diabo, seus partidários, decididos a realizar os desejos de seu pai. Este foi homicida desde o princípio (alusão à queda de nossos primeiros pais e à introdução da morte como punição de sua falta). Ele não permaneceu na verdade, que ele tinha possuído; por isso a verdade não está mais nele, e ele mesmo não é senão um mentiroso. Joa., VIII, 44. Pela vinda de Jesus à terra, o julgamento do mundo é iniciado, e o príncipe deste mundo será lançado fora. Joa., XII, 31. O Salvador entrou em luta com ele. Na véspera da paixão, o príncipe do mundo armou suas baterias contra ele; mas ele não tem poder sobre ele, Joa., XIV, 30, e ele já está julgado. Ver XIV, 31.

Conclusão. — Nosso Senhor reconheceu, portanto, a existência dos demônios. Seus atos e suas palavras provam que ele os tinha por seres reais, espíritos decaídos, impuros, poderosos, inimigos dos homens e seus próprios adversários. A seus olhos, eles fazem parte de um reino, do qual Satanás é o chefe e os maus são os membros. Sua potência é limitada, subordinada que ela está à vontade divina e incapaz de forçar a vontade humana que lhe resiste. Ela é aplicada ao mal.

Satanás, a antiga serpente tentadora, é o príncipe deste mundo, porque o mundo é mau e pratica as obras do pecado. Mas Jesus veio para destruir o seu poder; Satanás já está julgado e condenado ao inferno. Se os seus sequazes ainda guardam algum direito de solicitar os discípulos de Jesus ao mal, como ele próprio tentou Jesus, eles não prevalecerão contra eles, e apenas os ímpios, que praticarem as suas obras, compartilharão após o juízo final a sua sorte e serão condenados com eles ao fogo eterno, que lhes está preparado. Nosso Senhor afirmou verdadeiramente a existência desses espíritos maus, e é impossível pretender, com alguns teólogos protestantes, ou que ele compartilhou sobre os demônios as ideias errôneas do seu tempo, ou que ele se acomodou, no seu ensino, às ideias reinantes para expressar apenas, sob essa forma popular, a luta do bem e do mal no mundo. Voir A. Polz, Das Verhältnis Christi zu den Dämonen, Innsbruck, 1907.

2° Nos Atos dos Apóstolos. — A doutrina de Jesus sobre os demônios é realizada nos acontecimentos da história da Igreja. Em aplicação do poder que lhes tinha dado o seu Mestre, os apóstolos em Jerusalém expulsam os espíritos imundos. Act., V, 16. Filipe fazia o mesmo em Samaria. Act., VIII, 7.

São Paulo cura em Filipos uma jovem que tinha um espírito de pitonisa, Act., xvi, 16-19, e em Éfeso, ele expulsou espíritos maus, Act., xix, 12. Um desses espíritos atingiu os sete filhos de Ceva, exorcistas judeus, cujo poder ele não reconhecia, embora reconhecesse o de Jesus e de Paulo, Act., xix, 13-16. São Paulo declara a Agripa que Jesus ressuscitado, tendo-lhe aparecido, o encarregou de retirar os gentios da potência de Satanás e de os reconduzir a Deus, Act., xxvi, 18. Satanás tinha tentado Ananias e o fizera mentir ao Espírito Santo, Act., v, 3. Barjesus era um filho do diabo e o inimigo da justiça, Act., xiii, 10. Os atenienses, ouvindo São Paulo pregar-lhes uma doutrina religiosa que lhes era desconhecida, dizem que ele lhes anuncia novos δαιμόνια, isto é, novos deuses. É a ideia grega de que os deuses pagãos eram demônios ou espíritos; ela é expressa pelos gregos, e São Lucas não a assume como sua, ao relatá-la.

3° Nas Epístolas de São Paulo. — Sobre Satanás e os demônios, o apóstolo expressou as ideias judaicas e cristãs. — 1. Ele fez-se eco do Gênesis, ao recordar que a serpente tinha seduzido Eva, II Cor., xi, 3; I Tim., ii, 14. Esta primeira falta tinha-nos colocado sob o poder das trevas, e Deus Pai, pela redenção do seu Filho, resgatou-nos dela e fez-nos passar para o reino do seu Filho bem-amado, Col., i, 13, 14. Jesus destruiu o decreto que estava contra nós, cravando-o na sua cruz, e despojou as principados e potestades do direito que eles tinham sobre nós, Col., ii, 14, 15. Pela sua morte, ele destruiu aquele que tinha o império da morte, o diabo, e libertou aqueles que, pelo medo da morte, estavam por toda a sua vida sujeitos à sua escravidão, Heb., ii, 14, 15. Os efésios, antes da sua conversão, viviam no pecado, caminhavam segundo o curso do mundo, segundo as inspirações do príncipe das potestades do ar, desse espírito que agia ainda nessa época sobre os homens rebeldes à nova fé, Eph., ii, 1, 2. O diabo era, pois, o príncipe deste mundo. Ele queria manter o seu império, destruído pela morte de Jesus, e armava laços mesmo aos cristãos, que devem revestir a armadura de Deus para resistir às emboscadas do diabo. Eles têm, com efeito, que lutar, não somente contra a carne e o sangue, mas ainda contra os príncipes e as potestades, contra os governadores deste mundo de trevas, contra os espíritos de malícia, Eph., vi, 11, 12. Não se deve, pois, nesta luta, dar brecha ao diabo, Eph., iv, 27. Os esposos só devem guardar a continência entre si por um tempo, com medo de serem tentados à incontinência por Satanás, I Cor., vii, 5. São Paulo perdoou a um coríntio que o tinha ofendido por causa dos outros cristãos, «para que não sejamos enganados por Satanás, pois os seus desígnios, nós os conhecemos.» II Cor., ii, 10, 11. Ele enganá-los-ia, levando-os a não perdoar, pois a ausência de caridade fraternal é a sua obra. Ele mantém cativos nos seus laços e submissos a todas as suas vontades aqueles que resistem à verdade e que é preciso tirar do erro, corrigindo-os com modéstia, II Tim., ii, 25, 26. É necessário que o bispo não seja neófito, e que seja um homem a quem se renda bom testemunho, com medo de que, de outra forma, ele caia nas ciladas do diabo, I Tim., iii, 6, 7. Aqueles que querem ser ricos são tentados pelo diabo e caem nas suas ciladas, I Tim., vi, 9. Algumas viúvas voltaram atrás e regressaram a Satanás, I Tim., v, 15. Satanás, que é espírito de trevas, transforma-se em anjo de luz para melhor enganar, II Cor., xi, 14. São Paulo deseja que o Deus da paz esmague rapidamente Satanás sob os pés dos romanos, Rom., xvi, 20. Jesus triunfará finalmente de todo principado, poder e virtude, e porá todos os seus inimigos sob os seus pés, I Cor., xv, 24, 25. Os cristãos serão os juízes dos anjos maus, I Cor., vi, 3. Entretanto, Satanás cria obstáculos à obra do apostolado, e impediu o apóstolo de ir a Tessalônica, I Thes., ii, 18.

O aguilhão que o apóstolo sente em sua carne é um anjo de Satanás, II Cor., XII, 7. Mas as potências e as virtudes adversas não poderão nada contra ele e não o separarão da caridade de Jesus Cristo, Rom., VIII, 38, 39. No decorrer dos séculos, vários abandonarão a fé, acreditarão em espíritos enganadores e aderirão às doutrinas dos demônios, I Tim., IV, 1. O advento do Anticristo, no fim dos tempos, será a obra de Satanás, II Tes., II, 9. O apóstolo entregava a Satanás os cristãos culpados, deixava seus corpos submetidos ao seu poder, para salvar suas almas, I Cor., V, 5; I Tim., I, 20. Assim, a serpente tentadora, Satanás, era o chefe do mundo perverso, o príncipe das potências tenebrosas e dos espíritos que habitam no ar. Ele mantinha os homens cativos no pecado, e lutava contra os cristãos, tentando-os e armando-lhes ciladas. Vencido por Jesus, ele não tem império senão sobre aqueles que se entregam a ele, e, finalmente, sua potência será esmagada sob os pés do seu vencedor.

2. São Paulo reconheceu no culto dos pagãos um culto rendido aos demônios. Seus sacrifícios são oferecidos aos demônios e não a Deus. Os cristãos não devem comer das vítimas imoladas aos ídolos, para não se associarem aos demônios. Eles não podem beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios, I Cor., X, 19-21. Os cristãos não devem sequer ter relações, a não ser as que são absolutamente necessárias, com os pagãos. A justiça não se alia à iniquidade; a luz não acompanha as trevas; o Cristo não se associa a Belial, II Cor., VI, 14, 15. São Paulo toma como um nome próprio a expressão de Belial que, no Antigo Testamento, caracteriza os maus. Ao opô-lo ao Cristo, ele designa o mau por excelência, Satanás, que ele tem, não certamente pelo princípio do mal oposto ao princípio do bem, mas como o chefe dos maus, o príncipe dos pagãos, o adversário irreconciliável do Cristo que o venceu. Pode-se concluir disso que ele o considerava como o deus que adoravam os pagãos. Cf. Dictionnaire de la Bible de M. Vigouroux, t. I, col. 1551-1562. Voir Simar, Die Theologie des heiligen Paulus, 2e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1883, p. 67-71; Everling, Die paulinische Angelologie und Dämonologie, Göttingen, 1888.

4° Nas Epístolas dos outros apóstolos. — São Tiago nos ensina que os demônios creem em um só Deus, mas sua fé, porque está unida neles aos atos maus, não lhes aproveita; eles creem, mas irritam-se contra o Deus único, ao qual creem, II, 19. Ele aconselha resistir ao diabo, advertindo que essa resistência o fará fugir, IV, 7. São Pedro, em sua I Epístola, V, 8, 9, recomenda a sobriedade e a vigilância, virtudes necessárias para resistir ao diabo, adversário dos cristãos, que circula como um leão rugindo, buscando a quem devorar; a principal força de resistência é permanecer firme na fé. Em sua II Epístola, II, 4, ele fala dos anjos pecadores, a quem Deus não perdoou, e que ele precipitou no abismo, carregados das correntes do inferno para serem atormentados e reservados para o julgamento. A mesma menção aos anjos prevaricadores encontra-se na Epístola de Judas, 6, que apresenta, aliás, uma tão grande semelhança com a II de Pedro. Esses anjos não conservaram sua dignidade primeira, mas abandonaram sua morada. Deus os reservou para o julgamento do grande dia em correntes eternas e densas trevas. Ora, são Judas, 14, 15, cita quase textualmente Enoque, I, 9. Voir F. Martin, op. cit., p. 4. Também muitos críticos pensam que o versículo 6 é emprestado do mesmo livro, X, 4-6, assim como a passagem correspondente de II Ped., II, 4. F. Martin, op. cit., p. CXVII, 22-23. Se se admite essa dependência, resulta daí que os apóstolos, Pedro e Judas, falariam, como o Livro de Enoque, dos anjos prevaricadores e maculados com as mulheres e tendo sofrido uma dupla condenação: uma primeira, o acorrentamento prévio em uma prisão tenebrosa, e uma segunda, a pena do fogo no inferno após o juízo final. Essa conclusão não deriva apenas, diz-se, da semelhança e do empréstimo ao Livro de Enoque, mas ainda do contexto das duas Epístolas. São Judas, com efeito, pretende-se, atribui aos anjos o pecado de luxúria, uma vez que aproxima sua falta daquela dos habitantes de Sodoma e de Gomorra, 7, e ameaça com os mesmos castigos aqueles que mancham sua carne, 8. Do mesmo modo, são Pedro vincula ao pecado dos anjos o dilúvio produzido para punir os ímpios, e o pecado dos sodomitas, II Ped., II, 5. Em sua conclusão, 10, ele encerra também os homens dados à impureza. F. Lenormant, Les origines de l’histoire, t. I, p. 297. Mas essa interpretação não se impõe, pelo menos quanto à natureza da falta dos anjos e do castigo. As passagens citadas das duas Epístolas se assemelham, é verdade. Os dois apóstolos têm o mesmo objetivo: querem preservar os fiéis contra os falsos doutores e os ímpios da época, e citam exemplos históricos em apoio à lição que extraem. São Judas, 5-7, relata três fatos: os espiões enviados por Moisés à terra de Canaã, os anjos prevaricadores e os crimes cometidos na Pentápole. Ele não segue, portanto, a ordem cronológica. São Pedro tem também três exemplos, que se seguem cronologicamente: a falta dos anjos, a punição dos crimes do mundo primitivo pelo dilúvio e os atos dos sodomitas.

Seja qual for a ordem, os exemplos são escolhidos em vista do castigo e sem relação direta com a natureza das faltas. Por conseguinte, não se pode concluir nada a partir da aproximação dos pecados que provocaram o dilúvio e a ruína das cidades da Pentápole. Esta falta não tem, no texto, relação necessária com os pecados de luxúria. Por outro lado, em suas conclusões morais, os dois apóstolos não ameaçam de castigos análogos apenas os luxuriosos; eles visam outros culpados: aqueles que desprezam a autoridade e blasfemam contra a majestade. Da variedade dos culpados visados, pode-se inferir a das faltas históricas citadas como exemplo. Por conseguinte, ainda, o pecado dos anjos não é necessariamente a luxúria. Resta a dependência com o Livro de Enoque, que relata, ele próprio, o castigo dos anjos que se contaminaram com as mulheres. Mas basta lembrar que as citações não são textuais, e que, se há empréstimo, ele só existe para certos traços, concernentes ao castigo mais do que à própria falta. Aliás, para São Judas, o pecado dos anjos que não conservaram sua dignidade primeira e abandonaram sua morada, corresponde ao desprezo da dominação do Senhor, segundo pecado nomeado no versículo 8. Este pecado é, portanto, antes a revolta contra Deus. Quanto ao castigo, ele não é duplo nas duas Epístolas como o é no Livro de Enoque; os dois apóstolos descreveram, em traços emprestados a este livro ou à tradição que ele reproduz, a única pena dos anjos culpados: seu encadeamento no abismo infernal até o julgamento. Eles falam, portanto, apenas de anjos decaídos e rebeldes, sem alusão a uma falta carnal, e encadeados nas trevas do inferno. Desta forma, mesmo admitindo a dependência literária destas duas Epístolas relativamente ao Livro de Enoque, tem-se o direito de negar a identidade de doutrina sobre a natureza da falta e do castigo dos anjos culpados. Voir Robert, dans la Revue biblique, 1895, t. iv, p. 524-527, 546-550.

São Judas, 9, cita uma passagem que se crê ser da Assunção de Moisés, embora não tenha sido reencontrada nos fragmentos conservados deste escrito do século I de nossa era. O arcanjo Miguel, ao discutir com Satanás sobre a sepultura de Moisés, não ousou proferir contra seu adversário um juízo de maldição; limitou-se a dizer: «Que Deus te ordene!» O empréstimo não é certo, e ignora-se a origem desta informação. Lueken, Michael, Göttingen, 1898, p. 44. O apóstolo São João declara que o homem pecador é filho do diabo, «pois o diabo peca desde o princípio. Mas o Filho de Deus manifestou-se precisamente para destruir as obras do diabo.» Quem quer que tenha nascido de Deus não peca e não pode pecar. Os filhos de Deus distinguem-se, portanto, dos filhos do diabo, I Joa., iii, 8-10. Caim, que degolou seu irmão Abel, era filho do maligno, iii, 12. Há, portanto, duas categorias de homens, os pecadores e os justos. Se estes são filhos de Deus, aqueles são filhos do diabo, porque operam as suas obras. O diabo foi o primeiro pecador, e todos aqueles que pecam pertencem à sua raça. Precedentemente, o apóstolo tinha dito aos jovens que eles tinham vencido o Maligno, ii, 13, 14, isto é, o diabo ou Satanás, contra quem eles tinham tido de sustentar lutas para professar a fé cristã.

5° No Apocalipse. — Ao descrever o estado das sete Igrejas da Ásia e os destinos futuros de toda a Igreja cristã, São João forneceu-nos vários detalhes sobre a luta empreendida por Satanás contra esta Igreja.

1. Em Esmirna, judeus que formam uma sinagoga de Satanás perseguem os cristãos, e o diabo, que é seu inspirador, fará lançar vários fiéis na prisão; mas isto será apenas uma prova passageira, que será preciso suportar com coragem, ii, 9, 10. Pérgamo é o trono de Satanás, porque esta cidade é a sede da idolatria e porque ali se levavam os cristãos a comer carnes imoladas aos ídolos, ii, 13, 14. Cristãos de Tiatira tinham conhecido «as profundezas de Satanás», ii, 24; eram aqueles que tinham partilhado a doutrina idolátrica, professada pela suposta profetisa Jezabel, 20-22. Filadélfia possui, ela também, uma sinagoga de Satanás, composta de judeus mentirosos e inimigos da comunidade cristã desta cidade, iii, 9. Os inimigos e os perseguidores dos cristãos pertencem a Satanás, porque eles são malvados.

2. Na quinta trombeta, o poço do abismo foi aberto. Este poço é o império de Satanás, de onde saem o fumo e gafanhotos. Estes eram encarregados de atormentar os homens que não tinham o selo de Deus. Eles tinham por chefe o anjo do abismo, nomeado em hebraico Abaddon (Abaddon) e em grego Apollyon (Apollyon), ix, 1-11. Estes dois nomes significam «perdição». Abaddon é provavelmente um dos nomes de Satanás e designa seu papel de exterminador na cena desta visão. Depois que a sexta trombeta soou, o anjo recebeu a ordem de desatar quatro anjos encadeados sobre o Eufrates e reservados para matar um terço dos homens, ix, 13-15. São quatro gênios maléficos, ligados para que não possam cumprir sua obra de destruição senão na hora querida por Deus.

3. O grande dragão, a antiga serpente, que é nomeado diabo e Satanás e que seduziu o mundo, levantou-se contra a mulher que estava pronta para dar à luz e que representava a Igreja. Ele vem combatê-la com um terço das estrelas do céu.

Mas Miguel e os seus anjos combatem no céu o dragão e o seu exército, que são lançados sobre a terra e não têm mais lugar no céu, XII, 1-9. Esta cena é descrita segundo as ideias do tempo sobre o dragão. Há uma simples alusão à queda da antiga serpente, arrastando talvez a terça parte dos anjos. Mas o combate entre os bons e os maus anjos diz respeito à Igreja. Ele ocorre no céu, porque a visão é celeste; mas a visão visa o futuro terreno da Igreja e as lutas dos bons anjos contra os maus na terra a seu respeito. O sentido é dado pela voz celeste, 10; o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava dia e noite diante de Deus, foi rejeitado do céu. É o diabo que desceu à terra e ao mar e que está animado de grande ira, porque tem pouco tempo para perseguir os cristãos antes do juízo, 12. Segue a descrição da luta do dragão ou serpente contra a mulher ou a Igreja, 13-17. Este dragão deu o seu poder, o seu trono e uma grande autoridade à besta que subia do mar, isto é, ao Anticristo, XIII, 2, e os homens adoravam o dragão e a besta, 4. Espíritos impuros saem da boca do dragão, da besta e do falso profeta, e estes demônios operam prodígios e reúnem os reis da terra para o combate do grande dia do Senhor, XVI, 13, 14. Após a vitória do Cordeiro, um anjo desce do céu com a chave do abismo e uma grande corrente na mão. Ele agarra o dragão, a antiga serpente, que não é outro senão o diabo e Satanás, e o prende por mil anos. Ele o lança no abismo, que fecha e sela sobre ele, a fim de que não seduza mais as nações. Após mil anos, ele será solto por algum tempo, XX, 1-3. Saído de sua prisão, irá seduzir as nações que estão nos quatro cantos da terra e as reunirá para a guerra contra os santos. O fogo do céu devorará o seu exército, e o diabo sedutor será lançado no abismo de fogo e enxofre com a besta e o falso profeta, e ali serão atormentados dia e noite por todos os séculos, 7-10.

Dos traços destas descrições proféticas resta extrair a doutrina de São João sobre Satanás e os seus anjos, e também determinar a sua origem. É claro que o dragão, o inimigo da Igreja, é Satanás, a antiga serpente, o chefe dos anjos decaídos que ele lança na luta contra os cristãos. Os judeus, inimigos da Igreja, e os maus cristãos pertencem-lhe, seguem as suas inspirações e cumprem as suas obras. Os idólatras adoram-no nos seus ídolos. Na sua luta contra a Igreja, ele é combatido pelo arcanjo Miguel e pelos bons anjos. Eles contêm a sua fúria e, finalmente, ele será vencido por eles. Acorrentado no abismo, reaparecerá na terra no fim dos tempos, recomeçará as suas seduções, renovará a luta contra os santos, mas será enfim encerrado definitivamente no inferno para ali ser atormentado eternamente.

Diversos críticos modernos pretenderam que a origem dos símbolos do Apocalipse era babilônica, e que, em particular, o dragão, adversário da Igreja, era Tiamat, o caos primordial personificado, em luta contra Marduk, o deus criador. Mas o monstro da epopeia cosmológica transformou-se em potência nefasta da ordem moral, que desempenha o papel do adversário de Deus no drama escatológico. A luta entre o bem e o mal passou, portanto, da ordem física para a ordem moral e da organização do mundo cósmico para o fim dos tempos. É, nos dois extremos dos tempos e em duas ordens diferentes, o mesmo gênio do mal em luta contra Deus. Cf. Gunkel, Schöpfung und Chaos in Urzeit und Endzeit, Gettingue, 1895, p. 242-244, 320-323, 385-397; Calmes, L’Apocalypse devant la tradition et devant la critique, Paris, 1905, p. 57-63. Esta opinião faz parte de um sistema de explicação dos símbolos do Apocalipse, cuja refutação não estaria no seu lugar aqui. Digamos apenas que entre o Apocalipse e o mito cosmológico babilônico, "não há quase nada em comum senão a ideia do combate. Não são deuses que São João nos mostra em guerra uns contra os outros, mas anjos e puras criaturas, e ele não entra em nenhum dos detalhes que descreve longamente o poeta caldeu." F. Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, 6e édit., Paris, 1896, t. I, p. 227. A origem babilônica do dragão não está demonstrada e os símbolos do Apocalipse, nomeadamente os do c. XII, são antes de origem judaica. Os Setenta tinham traduzido por dragão vários passagens do Antigo Testamento, onde se trata da serpente. Exod., VII, 12; Deut., XXXII, 33; II Esd., I, 13; Ps. XCI (XC) 13; Job, VII, 12; Dan., XIV, 23-27. Bousset, Die Offenbarung Johannis, 2e édit., Goettingue, 1896, p. 408-413; Swete, The Apocalypse of St. John, Londres, 1906, p. 147-155. A demonologia do Apocalipse não difere, quanto ao fundo, daquela do Antigo Testamento; ela é aplicada apenas aos destinos futuros da Igreja, tais como os prevê e os prediz o vidente de Patmos. Cf. Swete, op. cit., p. CLXV-CLXVI. E. Haag, Théologie biblique, Paris, 1870, p. 346-347, 356, 415-417, 460-462, 502-506; Ed. Stapfer, Les idées religieuses en Palestine à l’époque de Jésus-Christ, 2e édit., Paris, 1878, p. 67-80; Smith, Dictionary of the Bible, 2e édit., Londres, 1898, art. Demon, Devil, t. I, p. 750-751, 779; art. Satan, t. III, p. 1143-1149; Schenkel, Bibellexikon, art. Satan und Dämonen, t. V, p.

185-191; Lindsay, Cyclopedia of biblical literature, art. Demon, Satan, t. I, p. 659-661; t. III, p. 773-777; Kirchenlexikon, art. Teufel, 2ª ed., t. XI, col. 1439-1445; Hauck, Realencyclopädie für protestantische Theologie und Kirche, art. Dämonen, Teufel, t. IV, p. 408-410; t. XIX, p. 564-574; Hastings, Dictionary of the Bible, art. Devil, Satan, t. I, p. 590-594; t. IV, p. 407-412; Cheyne, Encyclopedia biblica, art. Demon, Satan, t. I, col. 1069-1074; t. IV, col. 4296-4300; J. Schwane, Histoire des dogmes, trad. Degert, Paris, 1908, t. I, p. XVIII-XXI; H. Duhm, Die bösen Geister im A. T., Tubinga, 1904; Hastings, Dictionary of the Christ and the Gospels, Edimburgo, 1906, t. I, p. 438-443; Oesterley, The Demonology in the Old Testament, em Expositor, abril e junho de 1907, p. 316-332, 527-544; agosto de 1907, p. 138-151; M. Hagen, Lexicon biblicum, art. Daemones, Draco, Paris, 1907, t. II, p. 3-10, 114-115; M. Hetzenauer, Theologia biblica, Friburgo em Brisgóvia, 1908, t. I, p. 560-574.

Autor original: E. MANGENOT

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