DANIEL

DANIEL

1. DANIEL, profeta hebreu. Estudar-se-á sucessivamente: 1° as questões críticas relativas ao livro deste profeta; 2° especialmente a profecia das setenta semanas. 1. DANIEL (LIVRO DE). Bíblia hebraica: Daniel, o 9° dos Ketuvim "escritos" ou "hagiógrafos". Grega: ΔΑΝΙΗΛ, o 4° e último dos grandes profetas (Melitão de Sardes e Orígenes colocavam-no antes de Ezequiel). Latina: Prophetia Danielis. São Jerônimo, Prologus galeatus, e as bíblias latinas do tipo espanhol e teodulfiano separavam-no dos profetas e intercalavam-no entre os escritos salomônicos e as Crônicas. Em quase todos os outros mss. latinos, ele retoma o seu lugar na ordo prophetarum. S. Berger, Histoire de la Vulgate, Paris, 1893, p. 330-339. — I. Texto e versões. II. Canonicidade. III. Modo de composição. IV. Interpretação. V. Caráter literário. VI. Caráter histórico. VII. Autor. VIII. Ensinamentos doutrinais. IX. Comentaristas. I. TEXTO E VERSÕES. — I. TEXTO. — Na Bíblia hebraica, o livro de Daniel encontra-se escrito em parte, I-II, 4a, e VIII-XII, em hebraico, e em outra parte, II, 4b-VII, em aramaico (caldeu bíblico), esta última introduzida pela glosa provável ’arâmît, "em aramaico." Para explicar esta dualidade dialetal, várias hipóteses foram apresentadas, mas nenhuma pode passar por inteiramente satisfatória; vê-las expostas e criticadas em Preiswerk, Der Sprachenwechsel im Buche Daniel, Berna, 1903, p. 6-41, 117-120. — O hebraico de Daniel é o dos tempos posteriores a Neemias. Ao mesmo tempo em que se vincula por alguns traços ao hebraico de Ezequiel, aproxima-se muito mais do das Crônicas (séculos IV-III). Pela sua facilidade em incorporar palavras estrangeiras, persas e aramaicas, em dar aos seus vocábulos uma forma aramaizante, em mudar-lhes a acepção; pelo uso corrente que faz de certas locuções e construções extremamente raras antes ou imediatamente após o exílio, mas comuns nos escritos judaicos de época muito tardia; pela sua sintaxe pesada e desprovida de graça; pelo seu estilo laborioso e inelegante, ele marca uma etapa bem caracterizada do idioma israelita evoluindo para a língua da Mishna e do Talmud. Quanto ao aramaico, é um dialeto ocidental palestinense que não era certamente falado em Babilônia no século VI antes de Jesus Cristo. É aparentado estreitamente ao aramaico das inscrições palmirenas e nabateias do século I antes de Jesus Cristo, bem como ao das partes mais antigas dos targuns de Onkelos e de Jônatas. Ele também contém palavras estrangeiras, persas e gregas. — P. Riessler, Die Ursprache des Buches Daniel, em Biblische Zeitschrift, 1905, t. III, p. 140-145, acreditou encontrar no livro de Daniel indícios de um escrito fundamental babilônico cuneiforme. Sob o mesmo título e na mesma revista, 1906, t. IV, p. 247-254, M. Streck mostrou que, se o livro de Daniel não derivava de uma fonte babilônica, o seu autor tinha ao menos sofrido a influência da língua e da sintaxe babilônicas. Bevan, A short commentary on the Book of Daniel, Cambridge, 1892, p. 26-42; Behrmann, Das Buch Daniel, Gotinga, 1894, p. I-X; Preiswerk, Der Sprachenwechsel im Buche Daniel, Berna, 1903, p. 44-68, 77-88, 91-113; teses curiosas de G. Jahn, Das Buch Daniel, Leipzig, 1904, p. IV-VII (tese II, III, VII, VIII); Driver, Introduction to the literature of the Old Testament, Edimburgo, 1897, p. 502-508. O texto original do livro de Daniel é um pouco flutuante nos mss., sobretudo para a parte aramaica. Tentaram-se, no fim do último século, várias edições críticas e explicativas. 1° Edições do livro na sua totalidade: S. Baer, Libri Danielis, Ezræ et Nehemiæ, Leipzig, 1882, p. 1-24 (præfatio de Franz Delitzsch; explicação dos nomes próprios por Friedrich Delitzsch); notas da Massorá, p. 62-99; A. Kamphausen, The Book of Daniel in Hebrew, Leipzig, 1896 (na edição policrômica de P. Haupt, The sacred Books of the Old Testament), hebraico em preto; aramaico em vermelho; notas críticas detalhadas; M. Löhr, Libri Danielis, Ezræ et Nehemiæ, Leipzig, 1906, à parte, e em Biblia hebraica, edit. R. Kittel, Leipzig, 1905-1906, p. 1160-1184, aparato crítico ao pé das páginas. 2° Edições especiais da parte aramaica: H. L. Strack, Abriss des Biblischen Aramäisch, Leipzig, 1896, p. 9*-29*, (edit., 1897, 1901, 1905, sob o título de Grammatik...); K. Marti, Grammatik der Biblisch-Aramäischen Sprache, Leipzig, 1896, p. 17*-40*. M. Gaster descobriu na Crônica manuscrita de Jerahmeel, autor do século XII aproximadamente, o texto aramaico do cântico dos três jovens na fornalha e da história de Bel, que lhe parece ser o original traduzido por Teodócio. Este texto foi editado nos Proceedings of the Society of Biblical archæology, 1894, t. XVI, p. 312-317 (cf. p. 280-290); 1895, t. XVII, p. 75-94. Cf. Gaster, The Chronicles of Jerahméel, Londres, 1899, p. CIV. II. VERSÕES. — 1° Versões imediatas. — 1. Versão dos Setenta. — O texto hebraico aramaico do livro de Daniel, ou, segundo G. Jahn, Das Buch Daniel nach der Septuaginta hergestellt, Leipzig, 1904, p. V, tese IV, e P. Riessler, Das Buch Daniel, Viena, 1902, p. VII, um texto todo hebraico deste livro, já glosado, foi traduzido para o grego por volta do ano 100 antes de Jesus Cristo. É a versão dita dos LXX ou alexandrina.

Esta versão continha as três perícopes deuterocanônicas: oração de Azarias e cântico dos três jovens, III, 24-90; história de Suzana, prólogo do livro (Vulg., XIII); Bel, o dragão, conclusão (Vulg., XIV), que o tradutor teria, segundo Bludau, Die alexandrinische Uebersetzung des Buches Daniel, Friburgo em Brisgóvia, 1897, p. 218, emprestado de uma versão grega anterior das partes II-VI e XII-XIV, oriunda ela mesma de um original semítico reduzido a estes seis capítulos. Numerosos críticos, protestantes e católicos, haviam negado a existência de um texto hebraico ou aramaico para estas partes deuterocanônicas e concluído por um original grego. Bludau, op. cit., p. 157 sq., 182 sq., 201 sq. Depois de ter sido de uso corrente nas leituras das Igrejas até por volta do século II, Bludau, De alexandrinæ interpretationis libri Danielis indole critica et hermeneutica, Munster, 1891, p. 12-20, a versão alexandrina de Daniel foi ali pouco a pouco suplantada pela de Teodócio, da qual se falará mais adiante. São Jerônimo atribuía este ostracismo de que ela foi atingida a uma infidelidade excessiva face ao texto original. Prol. in Dan.; Comment. in Dan., XXV, col. 491-494. É muito mais provável que o novo texto de Teodócio tenha sido preferido ao dos LXX porque comportava uma interpretação mais nitidamente messiânica da profecia das semanas em IX, 24-27. Bludau, De alexandrinæ interpretat., p. 33 sq.; Die alex. Ubersetzung, p. 24. A versão alexandrina desapareceu dos mss. dos LXX e só foi reencontrada no século XVIII, em um ms. cursivo do século IX, o codex Chisianus, da biblioteca do cardeal Chigi, em Roma, por J. Bianchini. Leão Allatius († 1669) já a havia assinalado um século antes. Edições: Simon de Magistris, Roma, 1772, segundo uma cópia de Vincent de Regibus; J. D. Michaelis, Gotinga, 1773-1774; C. Segaar, Utrecht, 1775; Holmes-Parsons, em Vetus Test. græce, Oxford, 1818, t. IV; 2ª ed., 1848; A. Mai (Vercellone), em Vet. et Nov. Test. ex antiq. cod. Vaticano, Roma, 1858 (1857), t. IV; H. A. Hahn, Leipzig, 1845; Tischendorf, em Vet. Test. græce juxta LXX Interpretes, 2ª ed., Leipzig, 1854, t. VI; em 1860, 1869, 1875, 1880, 1887, t. VII; Drach, 1863, P.G., t. XVI, col. 2773 sq.; O. F. Fritzsche (partes deuterocanônicas), em Libri apocryphi Vet. Test., Leipzig, 1871, p. 79-91; Jos. Cozza (a melhor), em Sacror. Biblior. vetustissima fragmenta græc. et lat., Roma, 1877, part. II; segundo esta última, H. B. Swete, The Old Testament in Greek, 1887-1894, t. III, p. 498 sq.

2. Versão de Teodócio. — Por volta do ano 150 de nossa era, Teodócio reviu, sobre o texto hebraico-aramaico do século II, a própria versão alexandrina do livro de Daniel, ou, segundo Bludau, Die alex. Ubersetzung, p. 21-23; e Tübinger theologische Quartalschrift, 1897, p. 1-26; cf. contudo Julius, Die griechischen Danielzusätze, Friburgo em Brisgóvia, 1901, p. 27, nota 2, uma outra versão grega um pouco menos antiga que aquela. Seu texto é ainda o texto grego de Daniel oficialmente recebido. Todas as edições dos LXX desde a Poliglota de Alcalá (1514-1517) até a edição de Field, Oxford, 1859, e a de Swete, que reproduz o Daniel de Teodócio paralelamente ao da versão alexandrina.

3. Outras versões. — Áquila e Símaco traduziram também o Daniel hebraico-aramaico, mas aparentemente sem as partes deuterocanônicas. Não nos resta de sua versão senão alguns fragmentos. Field, Origenis Hexapla quæ supersunt, Oxford, 1875, t. II, p. 208-236. — Nem mais do que os de Esdras e de Neemias, o livro de Daniel não teve muito provavelmente nenhum targum. Ver contudo Loisy, Histoire critique du texte et des versions de l’A. T., Paris, 1892, 1893, p. 202. — No século II, as Igrejas sírias leram Daniel na Peschito, mas sem as três perícopes. Kaulen, Einleitung in die heiligen Schriften, Friburgo em Brisgóvia, 1898, § 189. — Finalmente, "vários anos" antes de 407, são Jerônimo "traduziu Daniel" para o latim sobre o hebraico e o aramaico para a parte protocanônica; sobre Teodócio, para o restante. Comment. in Dan., prolog., P. L., t. XXV, col. 492-493. Para o caráter e o valor destas versões imediatas em sua relação com o texto original, ver, para a versão alexandrina, Knabenbauer, Commentarius in Danielem prophetam, Paris, 1891, p. 45 sq.; Bevan, A short comm. on the Book of Dan., Cambridge, 1892, p. 43 sq.; P. Riessler, Das Buch Daniel, textkritische Untersuchung, Viena, 1899; G. Jahn, Das Buch Daniel, Leipzig, 1904, p. VII sq. Para o conjunto: G. Behrmann, Das Buch Daniel, Gotinga, 1894, p. XXIX-XXXVII; K. Marti, Das Buch Daniel, Tubinga e Leipzig, 1901, p. XVII-XIX; Preiswerk, Der Sprachenwechsel im Buche Daniel, Berna, 1903, p. 68-77, 88-91, 143-145.

2° Versões derivadas. — 1. Antigas latinas. — Desde o início do século III de nossa era, teriam estado em curso duas versões latinas do livro de Daniel, executadas, uma sobre o grego da alexandrina, a outra sobre o de Teodócio, Bludau, Die alex. Ubersetzung, p. 17-20; ou, ao menos, utilizava-se, na África, por volta de meados deste mesmo século, de uma antiga versão latina com o texto mesclado de lições que se referiam a uma ou a outra das duas versões gregas. Julius, Die griechischen Danielzusätze, p. 45 sq.; Bludau, De alex. interpret., p. 380 sq.; Die alex. Ubersetzung, p. 20.

Essa «africana» teria diferido muito, para Daniel, da «itálica» propriamente dita — esta última «milanesa» e derivada de Teodocião. Julius, op. cit., p. 46. Textos em Sabatier, Bibliorum sacrorum latinæ versiones antiquæ, Paris, 1751, t. II, p. 860-887; Ranke, Fragmenta versionis sacr. Script. latinæ ante-hieronymianæ, Viena, 1868, t. I, p. 113-115; Paar Palimpsest, Wurzbourg e Viena, 1874, p. 126-143, 374-401, etc.

2. Siro-hexaplar. — No ano 617, Paulo, bispo monofisita de Tella, traduziu para a língua siríaca (escrita estrangelo) o Daniel alexandrino das Tetraplas de Orígenes. A versão é literal, escrava do texto grego do qual traduz até mesmo as partículas. A esse título, é de uma importância capital para a crítica do texto alexandrino. C. Bugati descobriu-a em um ms. do século VIII da biblioteca ambrosiana, em Milão, e publicou-a com uma tradução latina. C. Bugati, Daniel secundum editionem LXX interpretum ex Tetraplis desumptam, Milão, 1788; reedição em fotolitografia por A. M. Ceriani, Codex syro-hexaplaris Ambrosianus, Milão, 1874, em Monumenta sacra et profana bibliothecæ ambrosianæ, part. VII.

3. Outras versões. — Árabe, Walton, Polyglotte, Londres, 1657, t. VI (afinidades com a versão alexandrina, século X); armênia, por S. Mesrob, século V, sobre Teodocião: ed. Oscan de Erivan, Amsterdã, 1666, e J. Zohrab, Veneza, 1789 e 1805, t. III; coptas: a saídica (tebana), século III, sobre Teodocião; fragmentos em A. Ciasca, Sacrorum Bibliorum fragmenta copto-sahidica Musei Borgiani, Roma, t. II, 1889, e em Maspero, Mémoires de la mission archéologique française au Caire, Paris, t. VI, 1892; a memfítica (boairica), século III, sobre Teodocião, ed. J. Bardelli, Daniel copte-memphitice, Pisa, 1849; H. Tattam, em Prophetæ majores in dialec. ling. ægyp. memphitica seu coptica, Oxford, 1852, t. I; etíope, século IV-V, sobre Teodocião, não publicada; georgiana, século VI, ed. Moscou, 1743; eslavônica, século IX, ed. Kiev, 1788, t. IV.

II. CANONICIDADE. — I. PROTOCANÔNICO (hebraico-aramaico). — No começo do século II antes de nossa era, o autor do Eclesiástico muito provavelmente não conhecia ainda o livro de Daniel, pois não cita de forma alguma este nome entre aqueles dos profetas, grandes e pequenos, cujo elogio faz, XLVII-XLIX. O neto de Jesus, filho de Siraque, contou-o talvez no número dos «outros livros», Eccli., prólogo, que, o mais cedo por volta da época de Judas Macabeu (160 antes de Jesus Cristo), formaram a terceira coleção de livros sagrados conhecida na Bíblia hebraica sob o nome de Ketuvim, «hagiógrafos.» Desde sua entrada neste recueil, o Daniel hebraico-aramaico não foi, nas duas tradições judaica e cristã, objeto de qualquer dúvida relativamente à sua canonicidade. Independentemente, as versões gregas dos LXX e de Teodocião, executadas para serem lidas oficialmente na Sinagoga ou na assembleia dos fiéis, atestam a voga e o caráter sagrado do livro.

1° Desde antes de nossa era: I Mac., I, 54 (Dan., IX, 27; XI, 31; XII, 11); II, 59 (Dan., II, 46; III, 17), 60 (Dan., VI, 22); os apócrifos, Henoc, XLVI, 1 bis (Dan., VII, 13); XL, 1; LXI, 2 (Dan., VII, 10), etc., ver Behrmann, op. cit., p. XXXV-XXXVII; Livros Sibilinos, III, 397 (Dan., VII, 7, 20); Assunção de Moisés, VI, 1 (Dan., XI, 21).

2° Nos tempos apostólicos: os Evangelhos, Mat., XXIV, 15; Marc., XIII, 14 (Dan., IX, 27, ou XI, 31; XII, 11), etc.; Joa., III, 14 (Dan., VII, 13); os Atos, VII, 56 (Dan., VII, 13); as Epístolas, I Cor., VI, 2 (Dan., VII, 22); II Tes., II, 3 sq. (Dan., XI, 36); Heb., XI, 33 (Dan., VI, 22); Apocalipse, I, 13-15 (Dan., VII, 13; X, 5-9), etc. Ver Bludau, Die alex. Ubersetzung, p. 13-15. Josefo, Ant. jud., X, XI, 7: Daniel é um dos grandes (profetas); Cont. Apion., X, 4; ecos do livro nos escritos de Josefo, ver Bludau, op. cit., p. 12; De alex. interpret., p. 15 sq.; os apócrifos, Test. dos doze patriarcas, Ruben, 1 (Dan., x, 2, 3); Levi, 5 (Dan., xi, 1), 45 (Dan., 127); V Esd., ii, 2 (Dan., iv, 2); xi, 2-4 (Dan., vii, 13); xi, 1-12, 51 (Dan., vii); Apocalipse de Baruc, xxviii, 1; xxxii, 3 sq. (Dan., ix, 25-27).

3° Na tradição eclesiástica, os Padres apostólicos, Barnabé, iv, 5 (Dan., vii, 7, 8); iv, 4 (Dan., vii, 24); xvi, 6 (Dan., ix, 25, 26), Funk, Patres apostolici, 2ª ed., Tubinga, 1901, t. I, p. 46, 86; S. Clemente Romano, Ad Cor., xiv, 6 (Dan., vi, 16), 7 (Dan., iii, 24), Funk, ibid., p. 158; Hermas, Vis., IV, 1, 3 (Dan., ix, 20); IV, ii, 4 (Dan., vi, 22), Funk, ibid., p. 416, 462. Os apologistas do século II, S. Justino, Dial. cum Tryph., 31 (Dan., vii); I Apol., 51 (Dan., vii, 13), P. G., t. VI, col. 540, 404; S. Irineu, Cont. hær., v, 25, 4 (Dan., ix, 24-27), P. G., t. VII, col. 1491. Padres e outros escritores gregos e latinos do século I ao VII; as listas, de caráter privado ou oficial, dos livros recebidos no cânone judaico ou cristão mencionam todas, até a do concílio de Trento, o Daniel hebraico-aramaico.

II. DEUTEROCANÔNICOS (Perícopes). — 1° Canonicidade entre os judeus e os cristãos até o século IV. — Embora exemplares isolados do Daniel hebraico-aramaico tenham podido conter em um ou outro dialeto as perícopes de Azarias e do cântico, de Susana, de Bel e do dragão, parece bem que estas partes não fizeram, originalmente, parte integrante do Daniel palestinense oficial e canônico.

Julius, Die griechischen Danielzusätze, p. 4-15, e bibliografia. Contudo, os judeus helenistas de Alexandria os tiveram por sagrados, testemunha a versão alexandrina que os continha, e III Mach., vi, 6 (Dan., ii, 46-50); e ao passo que Josefo, grego de língua e cultura, mas fariseu de coração, Áquila e Símaco excluíam essas perícope, o primeiro do cânone propriamente dito, Cont. Apion., I, 8, os outros de sua versão, a primeira antiguidade cristã os acolhia, ao contrário, seja na alexandrina, seja no texto de Teodocião, com o mesmo favor, e os punha no mesmo nível que o restante do livro. 4. No Ocidente, S. Clemente Romano, Ad Cor., LIX, 3 (Dan., iii, 54), Funk, ibid., p. 176; S. Irineu, Cont. hær., IV, 5, 2, Daniel propheta (xiv, 8, 24); xxv, 5, a Daniele propheta voces (xii, 20, 52, 56), P. G., t. VII, col. 984, 1192. São Hipólito, em seu comentário sobre Daniel, ed. Bonwetsch, Leipzig, 1897, p. 94, 102, 41, 42, 43, tem as três perícope por «Escritura», «santa», «divina»: I, 28, 1, ἡ γραφή (Dan., iii, 24); I, 31, 4, ὡς ἡ γραφή λέγει (Dan., iii, 49); II, 29, 1, ἡ γραφὴ (Dan., xiii, 52); I, 30, 1, τὸ σεμνόν τῶν ἁγίων γραφῶν, τὸ στόμα τῶν προφητῶν se reconhecem em Dan., xiii, 38; I, 31, 38, ἡ θεία γραφὴ (Dan., xiii, 54, 58). Tertuliano, De orat., XXXIX (oração de Azarias); Adv. Hermog., XLIV (cântico); De coron. milit., iv (Susana); De idolol., xvii; De jejun., vii, ix (Bel, o dragão), P. L., t. I, col. 1195; t. II, col. 286, 81; t. I, col. 688; t. II, col. 963, 964. São Cipriano, Ad Quirin., III, 20, cita como parte integrante do livro canônico, in Daniele, Dan., iii, 37-42; xi, 1-3; De lapsis, xxxi, Scriptura divina (Dan., ii, 25 sq.); De dom. oratione, viii, declarat Scripturæ divinæ fides (Dan., iii, 51 sq.); Epist., LVI, 5 (Dan., iii, 16-18); Ad Fortun., xi, Daniel Sancto Spiritu plenus (Dan., xiv, 4), P. L., t. IV, col. 748-749, 490, 524, 353, 667.

2. No Oriente. — a) Egito. — Clemente de Alexandria, Strom., I, xxi (Dan., xiv, 22, 33, 40); Eclog., 1, αἱ γραφαὶ (Dan., iii, 58-60), ἐπάγει Δανιὴλ (Dan., iii, 61, 90 sq.); 11, 6 Δανιὴλ λέγει (Dan., iii, 54), P. G., t. VIII, col. 852; t. IX, col. 697, 700. Orígenes, Epist. ad African., P. G., t. XI, col. 48 sq., defende contra as objeções de seu amigo palestino, Júlio Africano, o caráter profético (ἐκ τῆς προφητείας τοῦ Δανιὴλ) e escriturístico () das histórias de Susana, de Bel, do dragão; In Joa., tom. XII, 59 (Dan., xi, 42), xx, 5, ὡς ὁ Δανιήλ φησι (Dan., xi, 56), P. G., t. XIV, col. 517, 584; De orat., xiv, ἐν τῷ Δανιήλ (Dan., iii, 25), P. G., t. XI, col. 461; Exhort. ad martyr., xxxi (Bel, dragão), ibid., col. 604-605. Amônio de Alexandria comentou as três perícope com o restante do livro. P. G., t. LXXXV, col. 1363-1370 (Susana), 1372 sq. (oração de Azarias e cântico). As versões saídica e memfítica os continham. Fragmentos da primeira em Maspero, Mémoires, p. 266, 267, 269, e Ciasca, Sacror. Biblior. fragm., p. 360. A tradução copta do Apocalipse de Elias, ix, faz alusão às histórias de Susana, dos três jovens. G. Steindorff, Die Apokalypse des Elias, em Texte und Unters., t. XVII, fasc. 3 a, Leipzig, 1899, p. 48-49. — b) Ásia. — Doutores e mártires evocam voluntariamente o exemplo de Susana: Didascalia, em Bunsen, Analecta antenicena, Londres, 1874, t. I, p. 274. Martírio de São Pionius, em Ruinart, Acta martyrum, Ratisbona, 1859, p. 193. Pseudo-Clemente, De virginitate, I, xi (Susana), Funk, t. I, p. 23. Metódio de Olimpo (ou de Tiro), Symposium, logos xi, 2 (Dan., xi, 23), P. G., t. XVIII, col. 212.

3. Monumentos das Catacumbas romanas. — Cemitério de Priscila, capela grega: afrescos de Susana tentada (Dan., xiii, 19), acusada e vingada (Dan., xiii, 34, 63); dos três jovens (Dan., iii, 26, 93). Cemitério de Calisto, sobre um arcosólio, julgamento dos anciãos (Dan., xiii, 52 sq.). Ver t. I, col. 2005. As únicas dúvidas sérias levantadas durante esse primeiro período sobre a inspiração e a canonicidade das partes deuterocanônicas do Daniel da Bíblia grega ou latina foram as de Júlio Africano, em Epist. ad African., dúvidas isoladas e que permaneceram sem eco no consenso unânime da tradição. Se Melitão de Sardes, em sua «lista dos livros do Antigo Testamento» (carta a Onésimo), em Eusébio, H. E., iv, 26, P. G., t. XX, col. 397, omitiu todos os deuterocanônicos, é porque tomou essa lista dos judeus da Palestina, os quais lhe forneceram a do Talmude, Baba bathra, 15a. Se, da origem ao fim do século IV, a Peshitta não continha Dan., iii, 51-90 (Policrônio, em Mai, Scriptorum veterum nova collectio, Roma, 1825-1831, t. IX, p. 4) e provavelmente tampouco os outros fragmentos, é porque o Antigo Testamento não veio primeiro às Igrejas sírias senão por intermédio da Sinagoga apegada, na Ásia, ao único cânone hebraico. Se Orígenes e, após ele, «Eusébio, Apolinário, outros autores eclesiásticos e doutores da Grécia» são alegados por São Jerônimo, In Dan., prolog., P. L., t. XXVIII, col. 1293, como inimigos da não canonicidade destes fragmentos, é preciso observar que o grande doutor não compreendeu bem nem Eusébio, nem Apolinário, nem os "autores e doutores", que, todos, aceitaram na realidade, seus escritos são prova disso, as partes deuterocanônicas dos livros tais como a Bíblia grega as oferecia, e que ele atribuiu ao autor dos Stromata, obra agora perdida, algumas de suas ideias totalmente pessoais sobre a questão. Julius, op. cit., p. 36, 52 sq., 73 sq.

2° Canonicidade nos séculos IV e V. — Nessa época, todos os Padres gregos recebem como canônicos os fragmentos de Daniel; eles os citam correntemente em seus escritos; as listas que eles elaboram dos livros sagrados os mencionam implicitamente sob a rubrica Δανιήλ, título da versão grega que os continha desde a origem: S. Atanásio, Epist. fest., xxxix, 5, P. G., t. XXVI, col. 1176, 1436; S. Cirilo de Jerusalém, Cat., iv, 33, 35, 36, P. G., t. XXXIII, col. 496 sq.; S. Epifânio, De pond. et mens., xx, xxii, P. G., t. XLIII, col. 277; e Hær., viii, 6, P. G., t. XLI, col. 418; S. Gregório de Nazianzo, Carmen de gen. libror. inspir. Scripture, I, 12, P. G., t. XXXVII, col. 472 sq. : listas que devem ser julgadas segundo a prática das obras desses Padres. Ver Julius, p. 66-93. Os autores sírios, Afraates, santo Efrém, Cirilonas, conhecem essas perícopes e as utilizam com o mesmo título que qualquer passagem da Peschito oficialmente canônica. Ver Julius, p. 94-98. Na Igreja armênia que, no século V, possui em sua Bíblia as três perícopes daniélicas, o literato Mesrop, o bispo de Bagrevand Eznik, o católico João Mantaguni atestam também seu caráter sagrado. Ver Julius, p. 100-105. Por seus escritores, pelos decretos de seus concílios, por algumas relíquias da arte que inspirou sua doutrina, a Igreja latina da Itália, da Gália, da Espanha e da África concede a esses trechos o crédito de Escritura inspirada. Ver Julius, p. 105-145. Durante esses dois séculos, as únicas vozes discordantes foram as de Policrônio, bispo de Apameia e irmão de Teodoro de Mopsuéstia, e de são Jerônimo; e ainda assim, as dúvidas do primeiro tiveram como objeto apenas Dan., iii, 24-90, ver Julius, p. 84, e o segundo só começou a colocar-se como adversário das três perícopes por volta do ano 390, após ter sofrido, relativamente à canonicidade dos livros, a influência dos rabinos, seus mestres em hebraico. No Prologus galeatus e no Prologus au Comment. in Dan., são Jerônimo coloca implicitamente esses fragmentos "entre os apócrifos", e após tê-los "marcado com um obelisco" como "não estando no hebraico", afirma que eles não apresentam de modo algum a autoridade de Escritura santa. Mas, independentemente do que ele possa escrever assim sobre esses trechos, o solitário de Belém não pode evitar citá-los, em suas obras contemporâneas ao Prologus galeatus, quase no mesmo nível que as passagens da Escritura, tão poderosa é ao redor dele a tradição que ele confirma dessa maneira indiretamente. Ver Julius, p. 112, e t. II, col. 1578.

3° Canonicidade a partir do século VI até nossos dias. — A partir do século VI, a canonicidade das partes deuterocanônicas do livro de Daniel, claramente e firmemente afirmada no decorrer dos séculos precedentes, continua a ser admitida e aplicada até o concílio de Trento e até nossos dias na Igreja cristã e católica. Não se ignora, porém, durante esse longo período, as objeções de são Jerônimo; mas os autores que as reproduziram, o monge bretão do De mirabilibus Scripturæ sacræ, P. L., t. XXXV, col. 2191, 2192; Ruperto de Deutz, De div. officiis, iv, 16; v, 5, P. L., t. CLXX, col. 110 sq., 126; Hugo de São Vítor, Erud. didasc., iv, 8, P. L., t. CLXXVI, col. 783; Pedro Comestor, Hist. scholastica, P. L., t. CXCVIII, col. 1447, 1450, 1466; Alberto Magno, Opera, Lyon, 1651, t. VII, p. 69; Nicolau de Lira, Postillæ perpetuæ, Roma, 1471, 1472; Dionísio Cartuxo, Enarratio in Dan., a. I, Montreuil, 1900, t. X, p. 165; J. L. Vives de Valência, edição do De civitate Dei de santo Agostinho, 1522, xvi, 31; J. Driedoens, De ecclesiast. Scripturis, Lovaina 1550, l. I, 4; Caetano (Tomás de Vio), Commentarii, prefácio, Ester, x, ou não captaram seu alcance, ou buscaram explicá-las em um sentido favorável, seguindo na prática a corrente à qual obedece o próprio santo doutor; ou enfim, se alguns deles, como o monge bretão, Nicolau de Lira, Vives de Valência e Caetano, as adotam de uma maneira mais ou menos categórica, não exerceram ao seu redor nenhuma influência marcada ou decisiva. Ver Julius, p. 149, 160-163, 166, 168, 172-174.

III. MODO DE COMPOSIÇÃO. — A antiguidade não levantou a menor dúvida sobre a unidade de composição do Daniel hebraico-aramaico. Spinoza, o primeiro, distinguiu neste livro duas mãos diferentes, uma nos c. I-VII, outra em VIII-XII. Tractatus theologico-politicus, x, 19, edição Haag, 1882, t. I, p. 508. Newton considerou o livro inteiro como "uma coleção de escritos de épocas diversas" (I, II-III, IV, V-VI, VII-XI). Observations upon the prophecies of Dan. and the Apok. of St. John, Londres, 1782, p. 10. Segundo Beausobre, Remarques sur le Nouveau Testament, Haia, 1742, p. 70, os c. I-VI são "histórias que os judeus posteriores juntaram às profecias" de VII-XII. Bertholdt, Daniel, 1806, t. I, p.

49-84, reporta tudo a nove fontes diferentes (I, II, III, 1-30; III, 31-IV, 34; V-VI, VII, VIII, IX, X-XII). Eichhorn, Einl. in das A. T., 1824, t. IV, p. 515; Meinhold, Die Komposit. des Buches Daniel, 1884; Beiträge zur Erklärung des Buches Daniel, 1885, I; Das Buch Daniel, 1889; Strack, Handbuch der theolog. Wissenschaft, 1885, I, p. 173, fazem compor primeiro I-VI, depois VII-XII; I juntou-se, em seguida, à reunião destas duas partes como uma introdução. As razões alegadas são estas: a dualidade de língua (Spinoza, Newton); a mudança de pessoa na narrativa (Beausobre, 3ª pessoa em I-VI; 1ª pessoa em VII-XII); as antinomias entre I, 21, e X, 1; I, 4, e III, 1; V e I, além de divergências de elocução e de estilo (Bertholdt). Contudo, a crítica, independente ou católica, enfrenta estas dificuldades e mantém ainda a unidade de composição do livro; ela diz ser este uma obra de um só fôlego, «apressada» mesmo, e de um só autor: tanto é que o aramaico da primeira parte transborda para a segunda (VII); a mudança de pessoa não poderia provar absolutamente nada; as antinomias recebem uma solução nos comentários; numerosas e impressionantes semelhanças de elocução e de estilo equilibram as divergências. Ademais, a unidade da composição transparece por si mesma. Cada uma das partes principais, I-VI e VII-XII, forma bem à parte um todo lógico: sequência histórica, sequência profética; mas elas completam também uma à outra, pois todo o livro se desenvolve segundo um plano muito aparente e um só: anunciar, preparar o reino messiânico, computar a hora da sua vinda. Este anúncio é feito aos pagãos (II) como aos filhos de Abraão (VII-XII); para acolhê-lo bem, os primeiros devem reconhecer por provas sensíveis a todo-poder do verdadeiro Deus, do Deus do reino, que salva os seus e dispõe a seu bel-prazer dos reis e dos impérios (I, III-VI). Então, o reino messiânico anunciado, o todo-poderoso reconhecido por todos, Deus revela após qual sequência de eventos religiosos e políticos se realizará o dito reino (II e VII-XII). De resto, cada uma das visões ou profecias progride sobre a precedente em maior clareza. Dificilmente a crítica assinala como peças acrescentadas as passagens: I, 20-21 (glosa de reforço); IX, 5-19 (interpolação que 5 e 20 traem); XII, 11-12 (glosas sucessivas querendo explicar 7 e 9). Sobre a unidade de composição ver Hebbelynck, De auctoritate historica libri Danielis, Louvain, 1887, p. 8-23; Knabenbauer, Comment. in Danielem prophetam, Paris, 1891, p. 17-20; A. F. Gall, Die Einheitlichkeit des Buches Daniel, Giessen, 1895. Contudo, a unidade de espírito, de plano, de composição, mesmo de estilo, não exclui necessariamente a pluralidade das fontes, a existência de documentos anteriores utilizados ou incorporados na trama geral da sua narrativa pelo definitivo e verdadeiro autor do livro.

Certamente, uma dissecação do livro de Daniel como a de Bertholdt retira alguma significação a cada um dos trechos, sobretudo a cada visão isolada; mas uma classificação das fontes que partisse das conclusões de Bludau e de Julius, as quais colocam em um relevo acentuado os c. VII-VIII e os deuterocanônicos XIII-XIV, permanece possível. A questão do modo de composição do livro de Daniel está, portanto, aberta ainda. Às obras citadas de Bludau e de Julius, juntar os ensaios de Barton, The composition of the Book of Daniel, 1898, no Journal of biblical literature, p. 62-86, que distingue II e IV; V-VIII, IX, X-XII, 4; VII e IX; II e XII, 5-13; P. Riessler, Das Buch Daniel, 1902, p. XIII-XIV (divisão: VII-XII, I-V, VII e XII-XIV); G. Jahn, Das Buch Daniel, Leipzig, 1904, p. VI, tese V e comentário, une somente X-XII.

IV. INTERPRETAÇÃO. — O sentido geral do livro ressalta primeiramente e principalmente da identificação dos quatro impérios terrestres e pagãos figurados seja pelas quatro partes da estátua vista em sonho por Nabucodonosor (c. II), seja pelos quatro animais saídos do mar vistos em sonho igualmente por Daniel (c. VII). Esta identificação lança, de fato, uma grande luz sobre as visões, claras somente em parte, dos c. VIII, IX e XI, relativamente a um personagem de importância capital, perseguidor dos «santos» e precursor do «tempo do fim», que figurou já na visão do c. VII. Cf. VII, 21, 25; VIII, 23-26; IX, 26-27; XI, 30, 31, 36 sq. É admitido por todos que o quinto reino de que é questão em II, 44, e VII, 18, 22, ou que é descrito ao menos no seu começo em IX, 24, e XII, 2-3, é o reino messiânico, o reino de Deus de que fala ainda o Evangelho. O quarto império é então o de Roma, o quarto rei é o César romano: o reino ou o povo dos santos principia ou se forma com a pregação de Cristo, e as passagens II, 44; VII, 12 e 25; VII, 24; IX, 24; XII, 1-3, consideram-no em todo o seu desenvolvimento até ao fim do mundo; o perseguidor do «tempo do fim» é o Anticristo; todo o livro é messiânico, duplamente messiânico mesmo, pois visa o Messias no seu primeiro advento e no seu último.

Seria este quarto império, pelo contrário, o império grego ou o conjunto dos reinos dele derivados, seria o quarto rei Alexandre, o Grande, ou a sua realeza dividida entre os seus generais: o reino messiânico anunciado identifica-se primeiramente com o grupo judaico que permaneceu fiel a Deus e à sua religião sob os sucessores sírios do conquistador macedônio; o perseguidor é Antíoco Epifânio; o «tempo do fim» é, portanto, projetado para a frente e visto numa perspectiva muito próxima da época grega; o livro coloca no mesmo plano aparente o primeiro e o último advento do Messias e, por um simples efeito de ótica familiar aos profetas, apresenta-o como relativamente iminente aos judeus contemporâneos de Antíoco IV.

1° Interpretação tradicional. — Até o século XIX, a identificação do quarto império daniélico com o império romano foi a mais universalmente recebida na Igreja cristã, inclusive entre os judeus e no seio das Igrejas protestantes. Basta citar Josefo, Ant. jud., X, X, 4; XI, 8, 5 (ver sobretudo Gerlach, Die Weissagungen des A. T. in den Schriften des Flav. Josephus, Berlim, 1863, p. 43 sq.); S. Irineu, Cont. hær., V, 25, P. G., t. VII, col. 1190; S. Hipólito, Bardenhewer, em Des heiligen Hippolytus von Rom Commentar zum Buche Daniel, Friburgo em Brisgóvia, 1877, p. 83-84; Eusébio de Cesareia, em Mai, Scriptor. vet. nova collectio, Roma, 1825, 1831, t. IX, p. 33; S. Cirilo de Jerusalém, Cat., XV, 6, P. G., t. XXXIII, col. 877; S. Jerônimo, P. L., t. XXV, col. 531; Teodoreto, In Dan., P. G., Comment. in Dan., t. LXXXI, col. 1472; Walafrid Strabo, Glossa ordinaria, In Dan. (século IX: durante 700 anos o único comentário usual, ou quase, dos teólogos da Idade Média); os rabinos e os autores protestantes do século XVI ao XVIII, cf. Reinke, Die messianischen Weissagungen, Giessen, 1862, t. IV, p. 171 sq.; os teólogos comentadores do século XVII e do século XVIII (ver a lista dos comentadores); os comentadores críticos protestantes e católicos do século XIX enumerados em Düsterwald, Die Weltreiche und das Gottesreich, Friburgo em Brisgóvia, 1890, p. 31 sq. Nos nossos dias, esta interpretação permanece em favor no ensino católico. O primeiro reino seria o dos caldeus (Nabucodonosor); o segundo, o dos medo-persas (Ciro); o terceiro, o dos greco-macedônios (Alexandre); o quarto, o império romano que, «forte como o ferro», «besta com unhas e dentes de ferro», esmaga primeiramente a resistência de todos os reinos do mundo antigo e os submete ao seu jugo (II, 40; VII, 19), mas que se divide finalmente em dois, império do Oriente, império do Ocidente, e depois se esfarela ainda mais como o «ferro misturado com barro», II, 43, partilhando-se entre dez reis como a cabeça do monstro entre dez chifres, VII, 24. «No tempo destes reis», II, 44, desenvolve-se um novo reino, o de Deus, dos santos, inaugurado por Cristo (a pedra, 34, 35) e continuado pela Igreja, II, 44; VII, 27. A respeito do «tempo» que deve decorrer desde o anúncio já feito antes de Daniel do retorno do cativeiro e da reconstrução de Jerusalém, até à época em que deve nascer e constituir-se este novo reino, é feita ao profeta uma revelação especial, IX, 1-3, 20-27. Ver DANIEL (As setenta semanas do profeta). Finalmente, nas proximidades do fim do mundo, surge um «rei orgulhoso, ímpio, perseguidor», VII, 24, 25; XI, 21 sq., o Anticristo, figurado apenas em VII, 23, 25, por Antíoco Epifânio. Ele oprime, devasta a Igreja por um certo tempo, três anos e meio, VII, 21 (VII, 24 sq.); IX, 27; XI, 36 sq.; XII, 7. A sua potência é, contudo, quebrada por Deus que vem julgar todos os reinos da terra, e um reino eterno é concedido a Cristo «Filho do homem», bem como ao seu povo fiel de eleitos, VII, 18, 26-27; XII, 2-3. Alguns Padres e escritores eclesiásticos aproximaram os «dez reis» do fim do mundo, que pensavam então que deveria chegar desde a queda do império romano, iminente segundo o seu sentir. Ver Knabenbauer, Comment. in Daniel. proph., p. 202, 203. Segundo Belarmino, De Romano pontifice, l. III, c. V, em Controv., Paris, 1608, t. I, p. 717, o quarto império continuou no Sacro Império Romano-Germânico e, tal como este, terminou no ano de 1806. Rohling, Das Buch des Propheten Daniel, Mogúncia, 1876, p. 219, 224, faz-nos viver presentemente no tempo dos dez reis, muito próximo do tempo do Anticristo.

2° Interpretação crítica. — Para Santo Efrém, In Daniel, Opera syriaca, Roma, 1740, t. II, p. 205-206, «alguns autores» antigos (Teodoreto, In Dan., I, 43, P. G., t. LXXXI, col. 1306), Policrônio, bispo de Apameia, em A. Mai, Scriptorum veter. nov. collectio, t. I c, p. 1-27, e Cosme Indicopleustes, Christiana topographia, l. II, em B. de Montfaucon, Collectio nova Patrum, Paris, 1707, t. I, p. 144 sq., os quatro «reinos» são os impérios caldeu (Nabucodonosor), medo (Dário), persa (Ciro) e greco-macedônio (Alexandre), e os «dez reis» são os sucessores de Alexandre, os selêucidas e os lagidas. Antíoco Epifânio substitui o Anticristo. Segundo Porfírio, em São Jerônimo, Comment. in Dan., VII, 7, P. L., t. XXV, col. 530, estes impérios teriam sido os dos caldeus, dos medo-persas, de Alexandre, dos sucessores de Alexandre (Διάδοχοι); o rei perseguidor é também o Epifânio. Bossuet, Discours sur l’hist. univ., part. II, c. IX; Grotius, Critici sacri, Lyon, 1660, t.

V, In Dan.; Houbigant, Biblia hebraica, Paris, 1753-1754, t. IV, p. 549; Calmet, Commentaire littéral, 2e édit., Paris, 1726, t. VI, p. 619, seguiram essa opinião em suas linhas gerais. A maioria dos críticos modernos dividiu-se entre esse duplo sistema de Santo Efrém e de Porfírio. Para separar os impérios medo e persa, os primeiros apoiam-se nas passagens Dan., V, 30; VI, 1, 8; IX, 1, e sobretudo VI, 29, onde o texto faz “suceder” Ciro, o Persa, a Dario, o Medo. Os dois mesmos impérios se distinguiriam também, um vindo “depois” do outro, em Dan., VI, 3, 20, e em V, 31; VI, 28, onde a “lei dos Medos” precede a dos Persas. O quarto império seria assim necessariamente o império grego e porque, nos c. II e VII, este império corresponde exatamente ao de VIII, 21, o qual é de Alexandre: império dividido, II, 41, e VII, 22; império terminando com um rei ímpio, VII, 8, 24, e VIII, 9, 28, Antíoco IV; o último império inimigo, II, VII, e VIII, 17, também X-XI, onde o nascimento e o desenvolvimento do império grego são relatados em detalhe, sem que se fale de outro império subsequente antes do “tempo do fim”. Os dez reis, VII, 24, representados pelos dez chifres são: ou Seleuco Nicátor, Antíoco Sóter, Antíoco Teos, Seleuco Calínico, Seleuco Cerauno, Antíoco, o Grande, Seleuco Filopátor, Heliodoro, Ptolomeu Filométor, Demétrio Sóter; ou Alexandre mesmo e os seguintes, menos Ptolomeu Filométor. Autores, em Düsterwald, op. cit., p. 34.

Unindo em um só império os Medo-Persas segundo V, 28, e obrigados então a ver o império greco-macedônio de Alexandre no bronze da estátua ou na terceira besta da visão, os outros críticos identificam o quarto império com o reino sírio, cujos dez reis, Alexandre incluso ou não, bem como Ptolomeu Filométor, são os dez predecessores de Antíoco Epifânio. Este, em uma e outra opinião, é figurado pelo chifre pequeno de VII, 8, 20 sq., e de VIII, 9; é o rei astucioso de VIII, 23 sq., rei de um dos quatro reinos: macedônio, trácio, sírio, egípcio, oriundos do império de Alexandre, VII, 8, 9, 22; XI, 21 sq. Ele persegue Israel ou “os santos” até que o domínio sobre todos os reinos do mundo seja concedido às suas vítimas logo após seu julgamento e sua ruína. Autores, em Düsterwald, p. 35.

O “filho do homem” que, em VII, 13-14, recebe também o reino eterno, seria, segundo a maioria dos críticos modernos, Israel mesmo: paralelo perfeito de VII, 13-14, com VII, 18, 22, 27; se as potências terrestres e inimigas de Deus são bem simbolizadas, neste c. VII, por animais, a forma humana não pode senão simbolizar o reino espiritual dos santos de Israel, símbolo a símbolo; semelhantemente, opõe-se ao que sai do mar, VII, 3, 17, o que vem sobre as nuvens dos céus, 13, um reino a reinos; nem II, 44, nem XII, 3, que tratam contudo do reino espiritual, falam de um rei futuro, de um Messias pessoal. Esta interpretação do “filho do homem” foi conhecida de Santo Efrém e aceita por Aben-Ezra. Alguns críticos protestantes, tais como von Lengerke, Bleek, Ewald, e outros mais recentes, Boehmer, Reich Gottes und Menschensohn im Buche Daniel, Leipzig, 1899; Grill, Untersuchungen über die Entstehung des vierten Evangeliums, Tubingue, 1902, Baldensperger, Bousset, Volz, voltam contudo ao rei Messias da quase unânime tradição judaica e católica. A tese da interpretação crítica do livro de Daniel foi aceita por alguns escritores católicos contemporâneos. Turmel, Étude sur le livre de Daniel (extrait des Annales de philosophie chrétienne), Paris, 1902; Lagrange, Revue biblique, 1904, p. 498 sq., depois de outros pertencentes à primeira metade do século XIX. Ver Düsterwald, op. cit., p. 34.

3° Outras interpretações (para memória). — O quarto império seria o império maometano, os impérios grego e romano sendo reunidos em um só, o terceiro. Rabinos da Idade Média. Ver Bevan, op. cit., p. 63. — Hitzig, Heidelberger Jahrbücher, 1832, II, e Redepenning, Studien und Kritiken, 1833, p. 863 sq., identificam assim os quatro impérios: 1. Nabucodonosor; 2. os sucessores babilônios desse rei; 3. os Medo-Persas; 4. os Greco-Macedônios. — Para alguns protestantes do século XVIII, não se trataria de quatro impérios, mas apenas dos reinados dos reis babilônios. Ver Düsterwald, p. 36. — Segundo Ewald e Bunsen, não tendo Daniel habitado Babilônia, mas Nínive, os impérios seriam: 1. assírio; 2. babilônio; 3. medo-persa; 4. grego. Ver Düsterwald, p. 36. — Para Boehmer, Reich Gottes und Menschensohn, p. 82 sq., os quatro impérios seriam menos quatro impérios distintos que quatro fases do reinado dos homens, após as quais deve chegar o reinado de Deus.

V. CARÁTER LITERÁRIO. — O livro de Daniel é um apocalipse judaico. Se ele não é inteiramente o primeiro apocalipse (há pequenos em Isaías, XI; XXIV-XXVII; Zac., XII-XIV; Joel, Malaquias, IV), é pelo menos o primeiro livro apocalíptico conhecido da literatura hebraica. Sendo o primeiro, ele deu o tom aos outros; e pôde-se extrair de todos eles, com maior ou menor felicidade, a característica e como que a definição do gênero. Cf. W. Bousset, Die Offenbarung Johannis, Goettingue, 1896, Introduction, I, p. 1 sq.; Apocalyptik (jüdische), em Realencyclopädie für protest.

Theologie, Leipzig, 1896, t. I, p. 612 sq.; Die jüdische Apokalyptik, Berlin, 1903; Baldensperger, Die messianisch-apokalyptischen Hoffnungen des Judenthums, Strasbourg, 1903; P. Volz, Jüdische Eschatologie von Daniel bis Akiba, Leipzig, 1903, part. I, § 1, p. 4 sq. Deste ponto de vista, pode-se considerar o livro de Daniel em relação às outras apocalipses e em relação às obras dos profetas dentre as quais ele é classificado hoje.

1° Daniel e as apocalipses. — O que o livro de Daniel encerra de propriamente apocalíptico paralelamente às outras apocalipses, onde nem tudo, tampouco, é necessariamente apocalíptico, é: 1. uma cosmologia, uma visão determinista ou providencial da história da humanidade, apresentada sob a forma de profecia, e partindo de uma certa época escolhida pelo autor até um ponto de chegada considerado como o fim de um mundo antigo. Esta visão incide sobre um certo número de períodos sucessivos, aqui, concretizados em quatro impérios a partir do tempo do exílio: Dan., II, VII sq.; Apocalipse de Baruc, XXXVI-XL; IV Esd., XI-XII, ali, figurados de maneiras diferentes para o mesmo ciclo restrito: Henoc, LXXXV-XC, ou para toda a história do mundo e da humanidade: Jubileus, Oráculos Sibilinos, l. IV, 47 sq.; Apocalipse de Abraão, XXIX; Apocalipse de Baruc, L sq.; Henoc, XC e XCI, 12-17. Ela se resolve frequentemente em IV.

— 3 uma computação numérica do período abrangido pelo olhar profético real ou fingido: computação precisa de intenção em Dan., ix, 24 sq.; vii, 25; viii, 13; xi, 7 (11, 12), vaga, flutuante e circunspecta nas apocalipses apócrifas, Vita Adæ, 42; Segredos de Henoc, xxxi, 1; Assunção de Moisés, x, 12; Henoc, x, 12; Apocalipse de Abraão, xxix (? Henoc, xviii, 16; xxi, 6; IV Esd., viii, 31). — É: 2. uma escatologia, espécie de drama final servindo de transição, com suas diversas peripécias, entre o reino do mundo e o «reino de Deus», unindo o fim daquele ao começo deste. Ela compreende: a) um período de tormentos, de provações, de tribulações suportadas pelo povo de Deus, Dan., vii, 21, 25; viii, 24-25; ix, 26-27; xi, 30 sq., 40 sq.; cf. IV Esd., xi-xii; Jubileus, xxiii, 16 sq.; Apocalipse de Baruc, lxvi, 2, ou mesmo pela terra inteira, Dan. xii, 1-13; cf. IV Esd., v, 1-13; xv, 16 sq.; Apocalipse de Baruc, xxv-xxix, 2; xlviii, 80-88; lxx; Apocalipse de Abraão, 30; Henoc, xcix, 4-10; c, 1-6; b) um juízo exercido e rendido sobre os povos e sobre o mundo, na maioria das vezes pelo próprio Deus, Dan., vii, 9 sq., 26; cf. Henoc, I-xxxvi; Jubileus, ix, 15; x, 17; xx, 11, et passim; Testamento dos Doze Patriarcas, Levi, 1; Segredos de Henoc, xxix, 1; xliv, 3, 5, et passim; IV Esd., xi, 46; Apocalipse de Baruc, xix, 4; lxxxiii, 2 sq.; lxxxv; Apocalipse de Abraão, 24-25; Vita Adæ, 49; Sibilinos, l. III, 53-62; l. IV, 152 sq.; l. V, 106-110; aniquilamento do império do mundo e de seus mestres, inimigos de Deus, Dan., vii, 11; ii, 44; cf. IV Esd., xi, xii, passim; Apocalipse de Baruc, xxxvi, 10; xxxix, 7 sq.; lxviii, 3, 7; Sibilinos, l. III, 303 sq.; l. V, 375 sq.; Assunção de Moisés, x, 7; danação dos ímpios e dos criminosos, Dan., xi, 2, cf. IV Esd., vii, 80 sq.; Henoc, xc, 26; Apocalipse de Baruc, li; fim, abolição do mal moral, do pecado, Dan., ix, 24; cf. IV Esd., xi, 25; vi, 27 sq.; vii, 113 sq.; Apocalipse de Baruc, lxxiii, 4 sq.; Sibilinos, l. II, 33; l. III, 376 sq.; l. V, 429 sq.; sobretudo Henoc, x, 16, 20; l, 4; c, 5, etc.; c) a manifestação do reino de Deus, dos santos, Dan., ii, 44; vii, 27; cf. Sibilinos, l. III, 47 sq.; Assunção de Moisés, x, 1; IV Esd., x, 46; Jubileus, 1, 28; Apocalipse de Baruc, xxi, 23, 25; Henoc, xxv, 3, 7, etc.; manifestação onde intervêm principalmente a título de testemunhas, diversos personagens tais como o «profeta», Henoc, Moisés, Elias — aqui o «anjo», Dan., viii, 14 (LXX); xii, 4 (Miguel); cf. Assunção de Moisés, x, 2; Henoc, xc, 20; o Messias-Rei, chamado «Filho do homem», Dan., vii, 13 (?); cf. IV Esd., xiii; Henoc, xlvi, de natureza mais celeste, preexistente, Dan., vii, 13 (?); cf. IV Esd., xi, 26, 52; Henoc, xlviii, 3, 6; xii, 7, dominador, Dan., vii, 14(?), cf. Apocalipse de Baruc, xxxix, 7; xl, 3; Testamento, Levi, 8, 18; Sibilinos, l. III, 49; l. V, 444; Henoc, xix, 1, 2, etc.; recebendo de Deus mesmo sua potência cuja duração deve ser eterna, Dan., vii, 13, 14; cf. IV Esd., xi, 32; xiii, 26; Henoc, lx, 7, 14; xix, 1 sq.; Apocalipse de Abraão, 31; Sibilinos, l. II, 49 sq., 652; l. V, 108; Testamento, Levi, 18; José, 19; autor do livro retornado ou ressuscitado, Dan., xii, 13; cf. Henoc, xc, 31; IV Esd., xv, 9, 49; Apocalipse de Baruc, xli, 3 sq.; os justos ressuscitados para a vida eterna, os outros para o opróbrio eterno, Dan., xii, 2, 3; cf. Henoc, xci sq.; xx; ii, 4; IV Esd., iv, 35; vii, 28, 32; Apocalipse de Baruc, xxi, 24; xxx, 1 sq.; xxxvi, 10; Testamento, Judá, 24, 25; Zabulon, 10; Benjamin, 10; Sibilinos, l. IV, 180. — É: 3. uma forma particular sob a qual são apresentadas estas duas visões gerais cosmológica e escatológica, forma que termina de caracterizar o gênero dito apocalíptico pela obscuridade voluntária com a qual ela envolve os dados tradicionais ou proféticos do livro, com, todavia, a intenção declarada de não fazer destes dados mais que um segredo relativo e penetrável, em alguma época, à inteligência do leitor advertido. Dan., xii, 4; vii, 26; cf.

Henoch, i, 2; Assunção de Moisés, i, 16 sq.; x, 11 sq.; IV Esd., xiv, 46 sq. Esta obscuridade é obtida principalmente por meio de visões, de êxtases alegóricos, de profecias pseudônimas atribuídas aos antigos personagens da história israelita cujo nome figura no título do livro. Sob este ponto de vista, os apocalipses apócrifos muito tomaram emprestado daquele de Daniel.

20. Daniel e os profetas. — O livro de Daniel, apesar de sua cor apocalíptica tão pronunciada, não difere essencialmente dos outros escritos proféticos do Antigo Testamento. Ele os continua por um certo número de noções tradicionais que lhes deve, e não faz mais do que desenvolver, em uma escala maior, a simbologia da qual eles já usavam ocasionalmente. Assim, as provações cruéis que deverá sofrer Israel por parte do quarto império pagão referem-se a Ezequiel, xxxviii, 16, 18, e a Joel, iv, 2, 9-14; a ideia do juízo de Deus contra as nações inimigas é comum aos profetas, cf. Amós, i-iii; Isaías, x; Sofonias, i-ii; Jeremias, xii, 14; xxv, 15 sq.; Ezequiel, xxv-xxxii; Joel, iv, 9 sq.; bem como aquela do reino final, cf. Naum, ii, 1-3; Sofonias, iii, 9 sq.; Isaías, lii, 7; o «Filho do homem» vindo sobre as nuvens, se é bem aqui uma personalidade distinta, não simbólica, herda a idealidade do «Rei» de Isaías, ix, 5; xi, 1-5; Miqueias, v, 1 sq.; Ageu, ii, 21 sq.; Zac., vi, 11 sq., com, em relação a Miqueias, v, 1, o conceito da pré-existência. Ezequiel, xxxvii, 11-14, e Isaías, xxvi, 19, tinham vislumbrado a ressurreição dos mortos. Antes de Dan., vii, 4, 6; viii, 5, os profetas Oseias, xiii, 3; Isaías, xiv, 9; Jeremias, v, 6; xlix, 19; l, 17; Zacarias, x, 3, simbolizaram sob a figura de animais ferozes, leões, leopardos, ou simplesmente robustos, carneiros, bodes, as potências brutais do mundo pagão; após Ezequiel, xvii, 22 sq.; xix, 10 sq.; xxxi, 3 sq., a árvore vigorosa, de ramos magníficos, abrigando as bestas da terra e as aves dos céus, significa a plena e tranquila dominação sobre todos os reinos. Dan., iv, 7. Isaías, vi; Jeremias, i; Ezequiel, i, x, xi, xxxvi, xl; Zacarias, i, tinham tido também visões alegóricas seguidas de sua explicação, e estas visões tiraram seus componentes do meio particular onde viviam esses profetas, como Daniel emprestou talvez do mito indo-persa das quatro idades do mundo, os quatro metais simbólicos, ouro, prata, bronze e ferro, pelos quais ele figurou seus quatro impérios. A «rocha» de onde se desprende a pedra que quebra a estátua, Dan., ii, 44, 45, não é outra que aquela de Isaías, xvii, 10; xxvi, 4; xxx, 2, após Deut., xxxii, 4, 15, a qual representa Javé ele mesmo; e a «montanha» que se torna esta pedra, enchendo toda a terra, Dan., ii, 35, parece bem depender da «santa montanha de Deus», morada divina no Horebe ou no Sinai, Exod., iii, 1; iv, 27; xvi, 5; xxiv, 13; Num., x, 33; I Reg., xix, 8, no polo, Ezeq., i, 4, em Sião, Is., ii, 2; lxvi, 7; Jer., xxxi, 23; Joel, iv, 17; Abdias, 16; Salmos. O mar, de onde saem os quatro animais fantásticos, figuras dos impérios, Dan., vii, 3, simboliza, após Isaías, xvii, 12, 13, o conjunto das nações conjuradas contra Israel. O «chifre», símbolo da potência, Dan., vii, 7; viii, 6, imagem bem oriental, e os «livros» produzidos no juízo, Dan., vii, 10, parecem, todavia, pertencer em próprio ao autor do livro de Daniel.

Se se quer, portanto, notar em algum ponto uma diferença real entre os livros dos profetas e o primeiro dos livros apocalípticos, e, consequentemente, apertar de mais perto a definição do gênero novo, senão propriamente inaugurado, ao menos delimitado por Daniel em suas grandes linhas, encontrar-se-á nisto: que o autor de apocalipse — Daniel — tem uma visão mais compreensiva da história do mundo que o profeta. Este último não vê senão uma parte desta história, a futura, e, tão longe quanto se porte seu olhar, ele a descreve e a idealiza sempre sobre o esquema que lhe fornecem as circunstâncias sociais, políticas, religiosas de sua época; assim Isaías, xi, 1-5, para a monarquia messiânica, Ezequiel, xl-xlviii, para a futura comunidade litúrgica, Isaías, xlii, 1-4; xlix, 1-6; l, 4-9; lii, 13-liii, 12, para o servo sofredor de Javé, ou ainda, xli, 17-20; xliii, 1-7, para o repatriamento e a glorificação de Israel, idealizam o presente, aceitável ou não, da realeza davídica de Acaz ou de Ezequias, dos pequenos grupos fiéis das margens do rio Quebar, dos males do cativeiro, do retorno dos cativos. Daniel, ao contrário, e seus epígonos: Henoch, IV Esdras, etc., querem abraçar esta história inteira, e eles não deixam de acrescentar ao quadro do futuro que concebem, de resto, da mesma maneira que os profetas seus predecessores, aquele do passado, mostrando que os dois fazem, com suas sucessões múltiplas de reis, de impérios, de acontecimentos notáveis, partes integrantes de um todo ordenado por Deus e resolvendo sempre sua complexidade da maneira predeterminada por ele. Não é mais somente uma predição do futuro; é, além disso, uma filosofia religiosa da história universal.

Assim, Daniel vê na realidade ou em figura, em visão ou estritamente ou ficticiamente profética, segundo as diversas interpretações, a história de Israel e do mundo antigo desde a época de Ciro até aos tempos messiânicos primeiros e últimos; e ele vê estes brilharem através da feliz libertação, seja do jugo romano, seja das perseguições sírias, continuação do jugo e das perseguições babilónicas; mas o olhar do profeta voltou-se primeiramente para o império babilónico em si mesmo e aqueles que o seguiram, impérios já desaparecidos ou em vias de desaparecer, e por meio de alguns exemplos bem escolhidos, a sua pena marcou, para o passado, a opressão que eles exerceram sempre sobre o povo fiel (jovens na fornalha, iii; Daniel na cova dos leões, vi), como também o desfecho sempre favorável que teve esta opressão, graças à providência de Deus que velava: assim, na angústia seja presente ou futura, a história do passado é ou será o penhor precioso da infalível libertação; estes impérios não deixaram, aliás, de outrora reconhecer a existência e o poder do verdadeiro Deus (educação dos jovens judeus, i; sonho da estátua, ii; sonho de Nabucodonosor, iv; banquete de Baltasar, v), e este reconhecimento forçado, levado por uma manifestação do poder divino, assegura para o futuro a glorificação universal de Javé e do seu povo, vii, 12-14, 22, 27; xi, 3; enfim, remonta-se, na realidade, mais alto do que o século caldeu: os animais fantásticos, figuras dos impérios, são os sucedâneos dos monstros originais, imagens das potências, seja naturais, seja humanas, sempre insurgidas contra o criador e o regente do mundo, Job, xxxviii, 31-32; xxv, 2; etc.; mas Deus, que os venceu sempre, saberá por isso mesmo reduzi-los até ao fim. Dan., vii, 9 sq.

VI. CARÁCTER HISTÓRICO. — Se o livro de Daniel pode, tomado no seu conjunto, passar por uma apocalipse, não é menos verdade que ele tem, além disso, em boa parte, o aspeto de uma obra que pede e provoca mesmo o controlo histórico. Os c. i, ii-vi, xi e xiv contêm relatos que não têm por si mesmos nada de alegórico. Estes capítulos, o sonho do c. ii e as visões dos c. vii-xii estão enquadrados por dados cronológicos e dinásticos tendo relação, seja com o reino hebreu de Judá, i, 1-2, seja com o último império caldeu, ii, 1; v, 1-2, 30; vi, 28; vii, 1; viii, 1, seja com os impérios medo, ix, 1, persa, x, 1; xi, 1-2, e grego, xi, 3 sq.; e a explicação das visões tem por objeto, pelo menos parcial, como cada um admite, acontecimentos que se referem à história de algum destes mais recentes impérios. Mas será a história daniélica, em substância, uma verídica história? A profecia apocalíptica do livro — se é que houve todavia profecia propriamente dita e não antes uma interpretação filosófico-religiosa de acontecimentos passados — tem o seu objeto no seio de uma real e verdadeira história? Não se pode asseguradamente relevar, sob este duplo aspeto, erros formais em todo o livro; os acontecimentos históricos anunciados no curso dos últimos capítulos e que concernem ao desenvolvimento dos impérios persa e greco-macedónio estão mesmo aí revestidos de uma exatidão surpreendente; mas é preciso dizer também que certas asserções dão lugar, na primeira metade do livro, a gravíssimas dificuldades: assim a cronologia de Dan., i, 1-2, a loucura de Nabucodonosor, iv, 28 sq., a filiação de Baltasar no c. v, a personagem de Dario, o Medo, a sua ascensão ao trono babilónico e o seu reinado anterior ao de Ciro, v, 30; vi, 29; ix, 4. A exegese tradicional suspeitou ou experienciou de todos os tempos alguma destas dificuldades, tentando ao mesmo tempo resolvê-las. Ver, na antiguidade judaica e cristã, Josefo, Ant. jud., x, xi, 2, 4; Cont. Apion., i, 20; Orígenes, em S. Jerónimo, In Dan., P. L., t. xxv, col. 513 sq., 519, 523; S. João Crisóstomo, In Dan., P. G., t. lvi, col. 219; Teodoreto, In Dan., P. G., t. lxxxi, col. 1362 sq., 1387 sq.; S. Efrém, Opera syriaca, Roma, 1740, t. ii, p. 208, 209; no século XVIII, os comentários de J. Maldonat, Paris, 1610, de B. Pererius, Roma, 1587, de J. Tirin, Antuérpia, 1632, de Cornélio a Lapide, Antuérpia, 1681. Paralelamente, fora do cristianismo ou da fé romana, alguns autores contestavam a historicidade do livro. Celso (século II), o primeiro, no Discurso Verdadeiro (Λόγος ἀληthής), tratou como «fábula» o relato de Daniel na cova dos leões (Dan., vi, ou xiv, 27 sq.), cf. Orígenes, Cont. Cels., vii, 53, P. G., t. xi, col. 1497; Porfírio (232-305), no l. XII dos Discursos contra os cristãos (Κατὰ χριστιανῶν λόγοι), considerou inverosímil o detalhe de Dan., ii, 46 — Nabucodonosor «adorando» Daniel — e como fictício todo o livro. Cf. S. Jerónimo, In Dan., P. L., t. xxv, col. 492, 504. Estas objeções, ou melhor, estas alegações foram e permaneceram sem alcance. Ao início do século XVIII, A. Collins em particular retomou-as em The scheme of literal Prophecy, Londres, 1726, p. 143. Enfim, no século passado, os críticos, estudando de perto o livro de Daniel a exemplo de todos os livros bíblicos, relevaram aí muitos detalhes de aparência inconciliável com a história da época caldeu-persa suficientemente conhecida pelos monumentos. Ver autores e obras enumerados em Hebbelynck, De auctoritate historica libri Danielis, Lovaina, 1887, p. 35, nota 2.

As respostas não faltaram de nenhum lado, católico ou protestante. Cf. Hebbelynck, ibid.; Vigouroux, Les Livres saints et la critique rationaliste, Paris, 1890, t. iv, p. 310 sq.; Pilloud, Daniel et le rationalisme biblique, Chambéry, 1890.

Desde uns quinze anos, os críticos reforçaram as suas objeções nos seus comentários e outras obras, e a tendência hoje é encontrar a explicação dos anacronismos daniélicos numa confusão feita pelo autor do livro entre as tradições antigas e verídicas das quais pôde ter conhecimento. Meinhold, 1889; Bevan, 1892; Behrmann, 1894; Driver, Introduction, 1897; The Book of Daniel, 1900; Winckler, Altorientalische Forschungen, 2e série, II, 1, p. 210 sq.; III, 2, p. 483 sq. (1899, 1901); Marti, 1904, fundam principalmente os seus argumentos numa interpretação mais estrita dos textos lapidares caldeu-persas. O Dictionnaire de la Bible, Paris, 1897, t. I, col. 1260 sq., respondeu a estes argumentos tais como os tinha agrupado Driver, Introduction, ed. de 1891; mas intérpretes católicos, tais como Riessler, Das Buch Daniel, Viena, 1902, e o P. Lagrange, Les prophéties messianiques de Daniel, na Revue biblique, 1904, p. 494 sq., preferem agora encontrar a solução das antinomias históricas do livro de Daniel, em última instância e como em desespero de causa, no mau estado relativo do texto hebraico-aramaico retocado por editores ou copistas mal informados da história antiga do Oriente babilónico.

Assim, em Dan., I, 1-2, onde os «anos» do reinado de Joaquim parecem confundidos, cf. IV Reg., xxiv, 7; Jer., xlvi, 2, Riessler propõe ler «o terceiro mês de Jeconias». Cf. IV Reg., xxiv, 8-16. Em Dan., IV, 28 sq., onde a doença setenária de Nabucodonosor não parece poder, apesar da alusão hipotética de Beroso, em Josefo, Cont. Apion., I, 20, e a relação de Abideno, em Eusébio, Prep. evang., IX, 4, 6, P.G., t. XXI, col. 761, intercalar-se em nenhum dos períodos da vida deste rei bem conhecida por outro lado. Riessler, p. 42-44, 125-126, e Lagrange, loc. cit., p. 500, leriam voluntariamente, em vez de Nabucodonosor, Nabonido, Annales de Nabonide, col. 2, lig. 5-23, em Schrader, Keilinschriftliche Bibliothek, t. III, 2, p. 130-133, onde o último rei da Babilónia parece despojado momentaneamente do poder, encerrado «em Tema».

O mesmo ocorreria em Dan., V, onde Baltasar é afirmado em várias ocasiões «filho» e sucessor de Nabucodonosor, ao contrário de IV Reg., xxv, 27; Jer., lii, 31; Beroso, Fragment 14 (Miller-Didot, Fragmenta historic. grecorum, t. I, p. 507 sq.), onde o sucessor de Nabucodonosor é Amel-Marduk (Evilmerodaque), e à pequena inscrição de Ur, col. II, lig. 144 sq., em Schrader, ibid., p. 97, onde Belsharuzur (Baltasar) é filho de Nabonido. Cf. Riessler, p. 51 sq.; Lagrange, loc. cit., p. 500.

Em Dan., V, 30; VI, 29; IX, 1, onde um império medo, tendo por chefe Dario o Medo, sucede ao império caldeu, o que se encontraria em contradição com o Cilindro de Ciro, lig. 25-36, e os Annales de Nabonide, col. 3, lig. 18-28, cf. Schrader, op. cit., t. III, p. 124-127, onde Ciro sucede imediatamente, Riessler, p. 53, combinando um dado dos LXX (V, 30) com a cronologia dos contratos babilónicos datados do começo do reinado de Ciro (Schrader, Keil. Bibl., t. IV, p. 261 sq.) identifica Dario a Cambises associado pelo seu pai ao governo, enquanto que o P. Lagrange opina por Dario, filho de Histaspes, introduzido no texto hebraico por uma «série de alterações». Loc. cit., p. 501-502.

VII. AUTOR. — O autor do livro de Daniel seria, ou bem o profeta deste nome que teria vivido na Babilónia desde o início do reinado de Nabucodonosor II (605-562), sob Evilmerodaque (562-560), Neriglissar (560-556), Laborosoarcod (556), Nabonido (556-539), até ao terceiro ano pelo menos da tomada desta cidade por Ciro em 539, Dan., X, 1; ou bem um judeu do partido macabeu, escrevendo por volta do ano 168, sob o reinado de Antíoco IV Epifânio.

1o A primeira destas duas opiniões alega a seu favor, e como as mais capazes de convencer, as seguintes razões: 1. o testemunho do livro ele mesmo: a) as suas afirmações tocando a colocação por escrito das visões pelo profeta que delas foi favorecido, VII, 1, e mesmo de todo o livro, XII, 4; o emprego contínuo da primeira pessoa nos c. VII-XII, muito frequentemente pela fórmula «eu, Daniel», e, para a primeira parte, I-VI, a maneira minuciosa com que os acontecimentos são nela relatados, assim como os discursos: preocupação com o detalhe que trai, diz-se, a testemunha contemporânea, ver Hebbelynck, De auctoritate, p. 40 sq.; Dictionnaire de la Bible, t. I, col. 1257; — b) «a coincidência maravilhosamente exata que existe entre os dados do livro, dados históricos, arqueológicos, orientais, e o que sabemos seguramente de outra forma,» Dictionnaire de la Bible, t. I, col. 1257-1259, e os autores citados; — 2. os testemunhos da tradição judaica e cristã: a) alusão de Zacarias (em 520-518), I, 18; VI, 1-7, aos quatro impérios descritos em Dan., II e VII; — b) empréstimos feitos a Dan., IX, 5-20, por Neemias (por volta de 444-432) e os levitas seus contemporâneos nas orações, Neh., I, 5-11; IX, 6-37; Hebbelynck, p. 44-46; cf. contudo Dictionnaire de la Bible, t. I, col. 1259; — c) presença do livro no cânon judaico palestinense das Escrituras que se diz, pela fé no IV livro de Esdras, XIV, e no Talmud, Baba bathra, 14a, 15b, fechado por Esdras (por volta de 400), Hebbelynck, p. 55 sq.; — d) empréstimo feito a este livro pelos oráculos Sibilinos, l. III, 397, 400 (Dan., VII, 7, 8, 14, 20), por volta do ano 170; — e) alusão de Matatias, em seu discurso, I Mac., II, 59, 60, aos fatos concernentes a Daniel e seus companheiros (Dan., III, VI), como a exemplos «antigos», Hebbelynck, p. 43 sq.; — f) convicção de Josefo, Ant. jud., X, XI, 7; Bell. jud., l. IV, c. VI, 3; l. VI, c. II, 4, Hebbelynck, p. 50 sq.; dos evangelistas, Matth., xxiv, 15; Marc., XIII, 14, Hebbelynck, p. 61 sq.; dos refutadores de Porfírio: Metódio, Apolinário, Eusébio, cf. S. Jerônimo, In Dan., P. L., t. XXV, col. 491 sq., 580; de Teodoreto, In Dan., VII, P. G., t. LXXXI, col. 1411; da tradição cristã até nossos dias. Dictionnaire de la Bible, t. I, col. 1260.

2o A outra opinião, que se liga a Porfírio, critica primeiramente esses testemunhos, depois traz suas razões. — 1. Crítica. — a) A redação das visões ou revelações, o emprego da primeira pessoa na narrativa, o relato circunstanciado dos eventos são coisas comuns nas apocalipses e não as impedem de serem pseudônimas, pseudepígrafes, apócrifas. — b) A coincidência dos dados do livro com nossos conhecimentos arqueológicos e históricos da época caldeu-persa é precisamente sujeita a cautela. Bevan, p. 15-22; Driver, Introduction, p. 498 sq. — c) Os esforços dos apologistas em encontrar na literatura judaica pré-macabeia «traços do livro de Daniel» são julgados «desesperados», e os resultados, pela admissão desses apologistas, não são de forma alguma concludentes. Bevan, p. 13. Cf. Hengstenberg, Die Authentie des Daniel, 1831, p. 277; Dictionnaire de la Bible, t. I, col. 1259. — d) Não tendo o cânon dos escritos proféticos podido ser fechado senão após o exílio, é inexplicável que o livro de Daniel, se existisse então e devesse ser conhecido pelos judeus, não tenha encontrado lugar senão entre os hagiógrafos e não tenha sido mencionado por Eclo., XLIV-L, entre os escritos dos profetas. Bevan, p. 11 sq.; Driver, p. 497 sq. — e) O testemunho dos oráculos sibilinos, l. III, deve ser descido até por volta do ano 140; a referência de I Mac., II, não prova que o livro de Daniel tenha existido como tal antes do ano 168, Matatias invocava antes lembranças tradicionais. Bevan, p. 14. — f) A tradição judaica pós-macabeia e a tradição cristã não fizeram mais dificuldades em crer ser o livro obra do profeta Daniel do que fizeram em crer nas apocalipses apócrifas: obras de Enoque, de Adão, de Moisés, de Abraão, etc.

2. A essa crítica somam-se as seguintes razões: — a) Seria surpreendente que Daniel, antes da conquista de Ciro, tivesse, para descrever as instituições caldeias, feito uso de palavras persas tais como se encontram nos livros de Esdras e Neemias, de Ester, das Crônicas, e de palavras gregas. Driver, loc. cit., p. 501 sq. — b) O aramaico e o hebraico do livro são de época muito mais recente que o século VI. Driver, p. 502 sq. — c) «As doutrinas do livro sobre o Messias, os anjos, a ressurreição, o julgamento do mundo,» aparecem pelo «tom geral» e sobretudo pela maneira mais clara com que são tratadas — o que acusa, em relação ao tempo do exílio e à época imediatamente anterior, um período necessário de desenvolvimento — contemporâneas do livro de Enoque (por volta de 100). — d) Sendo a época macabeia, o reinado de Antíoco Epifânio, o próprio Antíoco e suas empresas ímpias e tirânicas visados nas principais passagens do livro, VII, 8 sq., 20 sq.; VIII, 9-14, 23-25; IX, 27; XI, 21-45; XII, 1, 7, 11-12, e descritos com uma precisão notável desconhecida até então entre os profetas; sendo que todo o livro, com as consolações e os encorajamentos que trazia aos judeus infelizes dessa época de perturbação e de provações, vinha então ao seu encontro com uma pertinência admirável, surpreende que ele tenha sido escrito na Babilônia, quatrocentos anos antes do ano em que poderia apenas ser lido e compreendido utilmente, e que tenha sido «escondido» esse tempo durante o povo judeu, para não ser publicado senão no século II. Dan., XII, 4. Não é melhor admitir que um escritor, contemporâneo dos Macabeus, tenha se colocado, «por uma ficção literária» própria aos autores de apocalipses, «no lugar de um personagem célebre» na antiguidade judaica, de Daniel (Ez., XIV, 14, 20; XXVIII, 3), e, agrupando em um livro antigas lembranças tradicionais próprias a inspirar confiança na divina providência de Javé em relação aos seus (Dan., I-VI), tenha querido, para elevar a coragem de seus compatriotas, juntar essas lembranças consoladoras a um quadro — traçado no estilo e na maneira proféticos — de seu tempo tão provado? O procedimento seria idêntico àquele a que devemos, sob o nome de Salomão, a Sabedoria e o Eclesiastes. Driver, op. cit., p. 508 sq.; Turmel, Etude sur le livre de Daniel, Paris, 1902, p. 27 sq.

VIII. ENSINAMENTOS DOUTRINÁRIOS. — I. DEUS.

— A maioria dos atributos divinos é afirmada ou ensinada no livro de Daniel, e Deus ali recebe nomes variados e apropriados aos seus atributos: Ele é o Deus eterno e imutável, IV, 3, 31; VI, 26; o «Deus vivo», o «ancião de dias», VII, 9, 13, 22, que «subsiste para sempre»; o Deus providente que sustenta e governa a seu bel-prazer o mundo, que tem tudo «em sua mão», IV, 17, 35; V, 23; VI, 27, e que por isso é chamado de Altíssimo, o Deus supremo, o Senhor dos céus, V, 18, 23; o Deus sábio e omnisciente que «conhece o que está nas trevas, profundo e escondido», II, 20 ss.; o Deus forte, omnipotente, que «livra e salva», VI, 27; III, 17, 29, que faz «sinais e prodígios», IV, 2, 3; VI, 27; o Deus santo e justo, IV, 37; IX, 7, 14, bom e misericordioso, IX, 5, 9, fiel à sua palavra, IX, 12. A sua transcendência é ali sobretudo marcada: Deus está acima do mundo criado e não contido nele, uma vez que é o «Deus do céu» e o «Deus dos deuses», II, 19, 28, 37, 44, 45, 47, o «príncipe do exército» (dos céus e da terra, Gen., II, 1), o «príncipe dos príncipes», VIII, 11, 25, e uma vez que, deixando de governar imediatamente o mundo e de operar diretamente por si mesmo a salvação do seu povo, ele delega estes cuidados a agentes: anjos, IV, 13 ss., 31; VI, 22; X, 13, 21; XII, 1; filho do homem, VII, 13-14; VIII, 15-16; X, 16, 18-21; XII, 6 ss.

II. ANJOS. — A angelologia do livro de Daniel não se deve de forma alguma à influência persa; pois, além de que uma influência deste tipo sobre o Antigo Testamento não é provada, cada um dos pontos da doutrina do livro sobre os anjos tem o seu precursor em algum escrito bíblico mais antigo. Aqui, os anjos têm a sua personalidade afirmada por nomes próprios, VIII, 16; IX, 21; X, 13, 21; XII, 1; a sua residência habitual é o «céu», onde formam assembleia em torno do Altíssimo (cf. I Reg., XXII, 19; Job, I, 6; Ps. LXXXIX, 8); são hierarquizados, têm «chefes», X, 13; XII, 1 (cf. Jos., V, 13-15; Zach., I, 8 ss.; III, 1 ss.); as suas funções consistem em governar o mundo sob a direção divina e em executar as ordens de Deus como mensageiros fiéis, IX, 21-23, ou como servos obedientes, VII, 16 ss.; muitos deles são anjos guardiões dos povos pagãos, X, 13, 20, e de Israel, X, 21; XII, 1, combatendo por eles e defendendo-os. Cf. Jud., V, 20; Is., XXIV, 21; Exod., XIV, 19; Num., XX, 16.

III. MESSIAS. — Segundo a interpretação tradicional, a sua natureza divina e a sua preexistência são marcadas pela sua «vinda sobre as nuvens do céu», VII, 13; cf. Exod., XL, 34; Is., XXIV, 1, 4, etc., e a sua missão divina pelo seu caráter de «ungido», a exemplo dos reis, dos sacerdotes e dos profetas, IX, 26. O objeto desta missão define-se pela remissão dos pecados, a justificação, a fundação da Igreja (unção do santo dos santos), IX, 24, e a maneira como ela será realizada é indicada na morte de Cristo ou ungido, IX, 26. A época da realização é fixada, IX, 24-27. O Messias é o chefe do reino de Deus, VII, 14.

IV. ESCATOLOGIA. — Interpretação tradicional. — 1o Anticristo. — A sua pessoa: um rei, VII, 20, 24; XI, 21; o seu caráter: orgulhoso, ímpio, VII, 20, 25; XI, 28, 30, 32, 36, porém idólatra, XI, 38; a sua obra: perseguição dos santos, dos justos, VII, 21, 25; XI, 33; sedução dos fracos, dos apóstatas, XI, 30, 32; destruição do culto sagrado, profanação do santuário, XI, 31; a sua ruína final, no juízo, VII, 26; XI, 45. — 2o Juízo. — Presidido por Deus mesmo, VII, 9; instruído por «juízes» (?), VII, 10; rendido sobre todas as nações, VII, 11-12. — 3o Segundo advento de Cristo «sobre as nuvens do céu», VII, 13-14. — 4o Ressurreição dos mortos, bons e maus, XII, 2, e separação dos uns e dos outros. — 5o Vida eterna e recompensa dos fiéis e dos «doutores em justiça» pela luz celestial, XII, 2-3; danação e castigo dos perversos pela vergonha e o opróbrio eternos, XII, 2.

IX. COMENTADORES. — 1o Antigos. — 1. Na antiguidade cristã (séculos II-VII). — Gregos: S. Hipólito (Roma cerca de 202-204), fragmentos, Hippolytus Werke, t. I, Exegetische Schriften, ed. Bonwetsch e Achelis, Leipzig, 1897; cf. P. G., t. X, col. 638-700; S. João Crisóstomo (?), P. G., t. LVI, col. 193 ss.; Policrônio de Apameia (século V), fragmentos em A. Mai, Scriptor. vet. nova collectio, Roma, 1825, t. Ib, p. 137 ss.; Teodoreto de Ciro (século V), Commentarius (ὑπόμνημα) in visiones Daniel, P. G., t. LXXXI, col. 1256-1549; Amónio de Alexandria (século III), fragmentos em A. Mai, op. cit., t. Ib, p. 212 ss.; cf. P. G., t. LXXXV, col. 1364-1381. — Sírio: S. Efrém, Expositio in Daniel, em Opera omnia syriaca, Roma, 1740, t. II, p. 203-233. — Latino: S. Jerónimo, Commentariorum in Danielem liber unus, P. L., t. XXV, col. 513-610. — 2. Na Idade Média (séculos IX-XV), Walafrid Strabo (século IX) empresta do comentário de São Jerónimo a sua Glossa ordinaria sobre Daniel; Alberto Magno (século XIII), Expositio in Dan., em Opera, Lyon, 1658, t. VII; Nicolau de Lyra (século XIV), Postille perpetue sive previa commentaria in universa Biblia, Roma, 1471-1472; Tomás Vallensis (século XV), Expositio aurea in Danielem prophetam, em S. Thome Aquinatis opera, Paris, 1660, t. XIX, p. 5-57; Paulo de Santa Maria de Burgos (século XV), Additiones às Postille de Nicolau de Lyra, em Biblia sacra cum Glossa ordinaria, Veneza, 1603.

— Comentaristas judeus: Saadia (século X), cópia fragmentária na Bodleiana; Y. Ibn Ali (por volta de 1000), árabe, edição e tradução de Margoliouth, Oxford; Rashi (século XI); Aben-Ezra (século XII); Abarbanel (século XV).

2° Modernos. — A partir do século XVI: J. Maldonat, Comm. in Jer., Bar., Ezech., Danielem, Paris, 1610; H. Pinto, In divinum vatem Danielem commentarii, Coimbra, 1582; B. Pererius, Commentaria in Danielem, Roma, 1587; G. Sanctius, Comm. in Dan. prophetam, Lyon, 1612; Corneille de la Pierre, Comm. in IV prophetas majores, Antuérpia, 1664; J. Tirin, Comm. in sacram Script., Lyon, 1678, t. III; Didacus de Celada, Commentarius litteralis et moralis in Susannam Danielicam, Lyon, 1656. — Protestantes, nos séculos XVI e XVII: Lutero (1530), Ecolampádio (1530), Melâncton (1543), Calvino (1563), Draconites (1544), Strigel (1565), Wigand (1571), Policarpo Leyser (1609), Martin Geier (1667), Hugo Grotius (1664), Balthasar Bekker (1688). — Aug. Calmet, Commentaire littéral, 2ª ed., Paris, 1726, t. VI, p. 689-691; L. de Carriéres, Traduction française de la Bible avec un commentaire littéral, Paris, 1701-1716, em Sainte Bible et les commentaires de Jean Ménochius (século XVII, Paris, 1847, t. IV).

3° Contemporâneos. — 1. Católicos. — Dereser, Die Propheten Ezechiel und Daniel übersetzt und erklärt, Frankfurt am Main, 1810; 2ª ed., Scholz, 1835; Allioli, Die heilige Schrift, Nuremberg, 1834, t. IV; G. Palmer, Commentatio in librum Danielis prophetae, Roma, 1874; Rohling, Das Buch des Propheten Daniel, Mainz, 1876; Trochon, Daniel, Paris, 1882; J. Fabre d’Envieu, Le livre du prophète Daniel, 2 in-8°, Paris, 1889-1891; Knabenbauer, Commentarius in Danielem prophetam, Paris, 1891; Fr. S. Tiefenthal, Daniel explicatus, Paderborn, 1895; Riessler, Das Buch Daniel erklärt, Viena, 1902.

2. Protestantes. — Harenberg, Aufklärung des Buches Daniel, Quedlinburg, 1773; Zeise, Übersetzung und Erklärung des Buches Daniel, Dresden, 1777; Bertholdt, Daniel übersetzt und erklärt, Erlangen, 1806, 1808; Hävernick, Commentar über das Buch Daniel, Hamburgo, 1832; Rosenmüller, Scholia in Vet. Test., part. X, Leipzig, 1832; Von Lengerke, Das Buch Daniel, Königsberg, 1835; Hitzig, Das Buch Daniel, Leipzig, 1850; M. Stuart, Commentary on the book of Daniel, Boston, 1850; Pusey, Daniel the Prophet, Oxford, 1865; Desprez, Daniel or the Apocalypse of the Old Testament, Londres, 1865; Fuller, Der Prophet Daniel, Basileia, 1868; Ewald, Die Propheten des Alten Bundes, Stuttgart, 1841-1868, t. III; Kliefoth, Das Buch Daniels übersetzt und erklärt, Schwerin, 1868; Kranichfeld, Das Buch Daniel erklärt, Berlim, 1868; Keil, Biblischer Commentary über den Proph. Daniel, Leipzig, 1869; Zöckler, Der Prophet Daniel, Leipzig, 1870; Fuller, Daniel, em Holy Bible, Londres, 1882, t. VI; Meinhold, Daniel, em Commentar de Strack et Zöckler, Munique, 1889, t. VII; Bevan, A short commentary on the Book of Daniel, Cambridge, 1892; Behrmann, Das Buch Daniel, Göttingen, 1894; Farrar, The book of Daniel, 1895; Prince, A critical commentary on the Book of Daniel, Leipzig, 1899; Driver, The Book of Daniel, Cambridge, 1900; Marti, Das Buch Daniel erklärt, Tubinga, 1901; G. Jahn, Das Buch Daniel nach der LXX hergestellt, übersetzt und kritisch erklärt, Leipzig, 1904; C. H. H. Wright, Daniel and its critics, critical and grammatical commentary, Londres, 1906.

F. Vigouroux, Manuel biblique, 12ª ed., Paris, 1906, t. I, p. 758-782; E. Philippe, em Dictionnaire de la Bible, t. I, col. 1247-1283; R. Cornely, Introductio specialis, Paris, 1887, t. I, 2, p. 466-517; J. Fabre d’Envieu, Le livre du prophète Daniel, Paris, 1888, t. I, Introduction critique; E. B. Pusey, Daniel, the prophet, nine Lectures, Londres, 1869; S. R. Driver, Einleitung in die Literatur des alten Testaments, trad. Rothstein, Berlim, 1896, p. 525-552; G. Wildeboer, Die Literatur des A. T., 2ª ed., Göttingen, 1905, p. 435-444; C. H. Cornill, Einleitung in das A. T., 3ª e 4ª ed., Friburgo em Brisgóvia e Leipzig, 1896, p. 210-216; H. L. Strack, Einleitung in das A. T., 6ª ed., Munique, 1906, p. 158-161; C. H. H. Wright, Daniel and his prophecies, Londres, 1906; L. Gautier, Introduction à l'A. T., Lausanne, 1906, t. II, p. 260-305; Kirchenlexikon, t. III, col. 1366-1375; Realencyclopädie, t. IV, p. 445-457; Encyclopedia biblica de Cheyne, Londres, 1899, t. I, col. 1002-1015; A Dictionary of the Bible de Hastings, Edimburgo, 1898, t. I, p. 554-567.

Autor original: L. Bigot

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