CORDEMOY (LOUIS GÉRAUD DE)

CORDEMOY (LOUIS GÉRAUD DE)

CORGNE Pierre, teólogo francês do século XVIII, nascido em Corlay, na diocese de Quimper.

Doutor em teologia, cônego de Soissons, é autor das seguintes obras: Dissertation théologique sur la dispute entre le pape saint Étienne et saint Cyprien, in-12, Paris, 1725; Dissertation sur le pape Libère dans laquelle on fait voir qu'il n'est jamais tombé, in-12, Paris, 1726, 1736; Mémoire touchant les juges de la foy, où l’on prouve que les évêques seuls sont juges de la foy, in-12, Paris, 1738; Dissertation critique et théologique sur le monothélisme et sur le VIe concile général, in-12, Paris, 1741; Les droits de l’épiscopat sur le second ordre pour toutes les fonctions du ministère ecclésiastique, in-12, Paris, 1760; Défense des droits des évêques dans l’Église contre le livre intitulé : Des pouvoirs légitimes du premier et du second ordre, 2 in-4°, Paris, 1762.

Quérard, La France littéraire, in-8°, Paris, 1828, t. II, p. 287; Picot, Mémoires pour servir à l’histoire ecclésiastique pendant le XVIIIe siècle, 3e édit., Paris, 1855, t. V, p. 450. B. HEURTEBIZE.

CORÍNTIOS (PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS). O título desta Epístola varia segundo os manuscritos e as edições críticas; ABCD têm: πρὸς κορινθίους α΄; FG trazem: πρὸς κορινθίους ἄρχεται α΄, omitindo contudo G o α΄; R. Estienne (1580) traz: ἡ πρὸς τοὺς κορινθίους ἐπιστολὴ πρώτη; os Elzevir (1624): παύλου τοῦ ἀποστόλου ἡ πρὸς κορινθίους ἐπιστολὴ πρώτη; Griesbach e Scholz: πρὸς κορινθίους ἐπιστολὴ πρώτη. — I. Exegese. II. Teologia.

I. EXEGESE. — I. OCASIÃO E PROPÓSITO DA EPÍSTOLA.

— Tumultos agitavam a comunidade de Corinto; a paz e a tranquilidade tinham deixado de reinar ali; estes fermentos de discórdia provinham de causas interiores e exteriores: 1° O elemento grego da comunidade entregou-se aos seus defeitos naturais; a impureza, vício familiar aos gregos, não tardou a deslizar para dentro da comunidade de Corinto; a celebração da ceia do Senhor tornou-se pouco a pouco um sumptuoso banquete; as mulheres viram na liberdade cristã um meio de sacudir toda dependência em relação aos seus maridos; as assembleias cristãs não tardaram, sob a influência da eloquência grega, a transformar-se em verdadeiros clubes de discussões.

— 2° Influências exteriores somaram-se a estas desordens interiores: Apolo, judeu alexandrino, convertido em Éfeso por Áquila e Priscila, Act., XVIII, 26, tinha chegado a Corinto após a partida de Paulo; homem dotado de brilhantes qualidades, ensinava, com todo o ardor de um neófito, a fé que acabara de abraçar, refutava os judeus em público e provava pelas próprias Escrituras a divindade de Jesus Cristo; adquiriu assim um grande prestígio junto aos fiéis de Corinto, e esta influência ofuscou, pela força das coisas, em certa medida, a própria autoridade de São Paulo.

Cristãos judaizantes tinham também regressado a Antioquia, os quais contribuíram para aumentar a divisão dos espíritos; estes cristãos parecem ter atacado a autoridade de São Paulo e ter contestado o seu título de apóstolo, I Cor., IX, 1; XV, 9; formaram-se assim diversos partidos na comunidade de Corinto. Ibid., I, 11-12. Informado destas disputas pelas pessoas de Cloé, ibid., I, 11, São Paulo quis remediar a situação; propôs-se, ao mesmo tempo, resolver certos casos de moral, tais como a fornicação, a virgindade, VII, as carnes sacrificadas aos ídolos, VIII, sobre os quais o tinham consultado.

O propósito da Epístola foi, pois, duplo: restabelecer a paz na comunidade de Corinto e resolver certas questões de moral prática.

II. DATA E LOCAL DE COMPOSIÇÃO DA EPÍSTOLA. — Esta Epístola foi escrita em Éfeso, por volta do fim da primeira permanência do apóstolo naquela cidade, como ele próprio deixa entender. I Cor., XVI, 8. Os Atos ensinam-nos, XIX, 22, que Paulo enviou naquela época para a Macedónia dois dos seus cooperadores, Timóteo e Erasto; a sedição, provocada por Demétrio, ibid., 23 sq., teve lugar algum tempo depois. A carta deve, portanto, ter sido escrita no ano 57 ou 58, pouco antes do Pentecostes; certos indícios, I Cor., V, 7-8; XVI, 15, permitem concluir que o foi no tempo da Páscoa. Não se conhece o portador da carta; pode-se supor que foram Estéfanas, Fortunato e Acaico, dos quais se trata, I Cor., XVI, 17, ou, mais provavelmente, Tito. I Cor., VIII, 16-24; XII, 18.

III. AUTENTICIDADE. — Demonstra-se por duas espécies de provas: 1° Provas extrínsecas. — Os Padres apostólicos citam por vezes a I Epístola aos Coríntios. Cf. I Clementis, XLVII, 1-3, e I Cor., I, 11-12; I Clementis, XLIX, 5, e I Cor., XIII, 4-7, Funk, Patres apostolici, 2e édit., Tubingue, 1901, t. I, p. 160, 162; Inácio de Antioquia, Ad Ephes., XVIII, 1, e I Cor., I, 18, 23, 24; Ad Rom., V, 4, e I Cor., IV, 4, Funk, op. cit., t. I, p. 226, 258; Policarpo, Ad Philip., XI, 2, e I Cor., VI, 2, Funk, op. cit., t. I, p. 308; Epist. ad Diognet., XI, 5, e I Cor., VII, 1, Funk, op. cit., t. I, p. 412; Didaqué, XVI, 6, e I Cor., XV, 22, Funk, op.

cit., t. I, p. 24. Os Padres ou escritores eclesiásticos, que vêm imediatamente a seguir, conhecem também esta Epístola. Cf. S. Justino, Apol., I, n. 49, P. G., t. VI, col. 357, e I Cor., XV, 53; Atenágoras, De resurect., n. 18, 19, P. G., t. VI, col. 1012, e I Cor., XV, 53, 52; S. Ireneu, Cont. hær., III, 11, 4, P. G., t. VII, col. 846, e I Cor., II, 6; ibid., III, XXI, 8, col. 965, e I Cor., XV, 22; ibid., IV, XXVII, 3, col.

1059-1060, e I Cor., X, 1-12; Tertuliano, De resurrect. carnis, c. XLIX, P. L., t. II, col. 88, e I Cor., II, 22; Clemente de Alexandria, Pæd., c. VI, P. G., t. VIII, col. 304, e I Cor., III, 2. Os hereges do século II recorrem também à I Epístola aos Coríntios; Marcião admitia-a em seu Apostolicon; segundo o autor dos Philosophoumena, V, 12, P. G., t. XVI, col. 3162, os peratas apoiavam-se nesta Epístola; os partidários de Ptolomeu, segundo santo Ireneu, Cont. hær., I, 11, 5, P. G., t. VII, col. 477, e Heracleão, segundo Orígenes, In Joa., tom. XI, 59, P. G., t. XIV, col. 516, agiam da mesma forma.

Enfim, esta Epístola encontra-se nas versões siríacas, nas velhas versões latinas e no cânone de Muratori, o que prova simultaneamente a sua autenticidade e a sua canonicidade. — 2º Provas intrínsecas. — 1. A lexicologia. — Embora esta Epístola contenha 4110 ἅπαξ λεγόμενα, ela possui, contudo, palavras que caracterizam a língua de Paulo: ἀδιάκριτος, ἀνέγκλητος, ἄμεμπτος, ἀνέχομαι, etc., assim como outras palavras que ele foi o primeiro a empregar: ἀπρόσκοπος, ἀρσενοκοίτης, εἰδωλολατρεία, ὀφειλή, συγκοινωνός, φανέρωσις, χάρισμα, etc. — 2. O estilo.

— Nela se percebem as mesmas figuras de estilo que nas outras Epístolas de são Paulo: a antítese, I, 18, 21; III, 2; IV, 10; VII, 4; a paronomásia, III, 13; III, 17; VII, 31; o assíndeto, III, 15, 18; XI, 4-8; o anacoluto, IV, 2, 6, 8; XII, 28; a ironia, IV, 8; VIII, 1; o eufemismo, V, 1; o paralelismo, VII, 16; X, 23; XI, 4-5; a litotes, XI, 17, 22. — 3. O acordo com os Atos. — Os Atos dos Apóstolos narram a maior parte dos fatos históricos aos quais são Paulo faz alusão em sua carta; ele visitou os coríntios, III, 1, e é o pai deles na fé, IV, 15; cf. Act., XVIII; ele propõe-se a retornar a Corinto, IV, 19; cf. Act., XX, 2; Apolo pregou naquela cidade, III, 6; cf. Act., XVIII, 27, 28; Paulo trabalha com as próprias mãos, IV, 12; cf. Act., XVIII, 3; XX, 34; ele batizou Crispo, I, 14; cf. Act., XVIII, 8; ele foi judeu com os judeus, IX, 20; cf. Act., XVI, 3; XXI, 23-26; ele irá a Corinto passando pela Macedônia, XVI, 5; cf. também XIX, 21.

IV. ANÁLISE DA EPÍSTOLA. — Divide-se comumente em três partes: 1º Prólogo, I, 1-9; saudação à Igreja de Corinto, I, 1-3, e ação de graças pelos dons concedidos aos coríntios, 4-9. — 2º Corpo da Epístola, I, 10-XVI, 58. — 1.

Correção dos abusos, I, 10-VI, 20: a) Exortação à unidade, I, 10; deve-se evitar as divisões, porque Jesus Cristo é o único redentor, I, 13-16, porque o sucesso da palavra de Deus não repousa sobre a sabedoria humana, I, 17-31, e porque sua pregação consiste em uma demonstração de espírito e de poder, II, 1-5; ele prega uma sabedoria, desconhecida aos príncipes deste mundo, que foi revelada pelo Espírito Santo e que é comunicada àqueles que são espirituais, II, 6-16; todos os pregadores do Evangelho são os ministros de Deus, III, 5-8; não se deve, portanto, glorificar-se nos homens, III, 18-23; não se deve julgar ninguém antes da vinda do Senhor, IV, 1-5, nem orgulhar-se do que se recebeu, 7-8; b) O apóstolo repreende os coríntios por terem tolerado em seu meio o incestuoso que tem a mulher de seu pai, V, 1-2; quanto a ele, excomunga-o, 3-5, para suprimir o velho fermento, 6-8; que não vivam com os pecadores públicos, mas que não julguem aqueles que não pertencem à comunidade, 9-13; c) eles erram ao levar seus processos perante os tribunais pagãos, VI, 4-8; d) ele repreende vivamente os viciosos e os impudicos, VI, 9-20.

— 2. Respostas às questões colocadas: a) o matrimônio e o celibato, VII, 1-40; b) os idolotitos, VIII, 4-XI, 1; c) a decência nas assembleias litúrgicas, XI, 2-34; d) o exercício dos dons espirituais, XII, 1-XIV, 40; e) a ressurreição dos mortos, XV, 1-58. — 3. Epílogo, XVI, 1-24; conselhos e saudações. J. Belser, Einleitung in das N. T., Friburgo em Brisgóvia, 1901, p. 472-489; Mgr Le Camus, L’œuvre des apôtres, Paris, 1905, t. II, p. 41-241; Cornely, Introductio specialis in singulos N. T. libros, Paris, 1886, p. 432-447; Seidenpfennig, Der erste Brief an die Korinther, Munique, 1893; A. Sabatier, L’apôtre Paul, 3ª ed., Paris, 1896, p.

152-464; Heinrici, Der erste Korintherbrief, Gotinga, 1896; Lias, First Epistle to the Corinthians, Londres; J. Rohr, Paulus und die Gemeinde von Korinth auf Grund der beiden Korintherbriefe, Friburgo em Brisgóvia, 1899; Jacquier, Histoire des livres du Nouveau Testament, Paris, 1903, t. I, p. 103 seg.; A. Jülicher, Einleitung in das Neue Testament, 3ª ed., Leipzig, 1901, p. 60-67; P. Godet, Introduction au Nouveau Testament, Neuchâtel, 1893, t. I, p. 289-363; T. Zahn, Einleitung in das N. T., 2ª ed., Leipzig, 1900, t. I, p. 196-219; Blass, Textkritisches zu den Korintherbriefen, Gütersloh, 1906.

II. TEOLOGIA. — A I Epístola aos Coríntios é certamente uma das mais ricas em ensinamentos dogmáticos e morais. Vamos examinar as principais doutrinas seguindo a própria ordem do documento.

I. O BATISMO, I, 13-17. — São Paulo declara, I, 13, 15, que não batizou em seu nome, εἰς τὸ ἐμὸν ὄνομα. Esta declaração deixa entender, por via de contraste, que o batismo é conferido em nome de Jesus Cristo ou das três pessoas da santíssima Trindade.

« Não se pergunta, observa São João Crisóstomo, quem batiza, mas quem é invocado no batismo, pois é este último quem perdoa os pecados. » Οὐ γὰρ ὁ βαπτίζων ἀλλ᾽ ὁ καλούμενος εἰς τὸ βάπτισμα ζητεῖται, οὗτος γάρ ἐστιν ὁ ἀφιὰς τὰ ἁμαρτήματα. In Iam ad Cor., homil. I, n. 2, P. G., t. LXI, col. 25. São Tomás faz esta reflexão: Sic ergo, si solius Christi passio, si solius Christi nomen virtutem confert baptismo ad salvandum, verum est proprium esse Christo ut ex eo baptismus habeat sanctificandi virtutem. Unde qui hoc aliis attribuit, dividit Christum in plures. In Ia ad Cor., lect. I, CIII.

II. OS MINISTROS, IV, 1. — São Paulo afirma que se deve considerá-lo como o servo de Cristo e o despenseiro dos mistérios de Deus. A propósito do título de servo, ὑπηρέτης, São João Crisóstomo diz: « Não afastes o Mestre, para receber a denominação de ministros e de servos. » Μὴ τοίνυν τὸν δεσπότην κρῇς, ἀπὸ τῶν ὑπηρετῶν ἀλλὰ τῶν διακονουμένων. E a propósito do título « despenseiro », οἰκονόμος, ele faz esta reflexão: « Ele disse: despenseiros, mostrando que não se deve confiar estas coisas a qualquer pessoa, mas àqueles a quem este papel convém, e que são dignos de as dispensar. » Οἰκονόμους δὲ εἶπε, δεικνὺς ὅτι οὐκ ἄλλῳ τινὶ χρὴ τοῦτο δοῦναι, ἀλλ᾽ οἷς δεῖ, καὶ οἷς πέφυκεν οἰκονομεῖν. Ibid., homil. X, n. 2, col. 84. Escutemos São Tomás: Quilibet vestrum debet cognoscere auctoritatem officii nostri, ad quos pertinet quod sumus me-

Autor original: B. Heurtebize

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