CONSTITUIÇÕES APOSTÓLICAS

CONSTITUIÇÕES APOSTÓLICAS

CONSTITUIÇÕES APOSTÓLICAS. Elas são intituladas: Διαταγαὶ τῶν ἁγίων ἀποστόλων διὰ Κλήμεντος τοῦ Ρωμαίων ἐπισκόπου τε καὶ πολίτου, ἡ καθολικὴ διδασκαλία. Elas são divididas em oito livros e contêm as matérias de um curso completo de direito canônico ou, como santo Epifânio dizia de uma de suas partes, «elas contêm toda a disciplina canônica.» Hær., LXXX, 10, citado P. G., t. 1, col. 544. Todas as referências deste artigo são feitas à edição da P. G., t. 1, col. 556-1156, pela simples indicação da coluna. Quando o texto apresentar dificuldades, remeteremos também à magistral edição de F. X.

Funk, Didascalia et constitutiones apostolorum, 2 in-8°, Paderborn, 1906. Citaremos frequentemente ainda a obra fundamental do mesmo autor, Die apostolischen Konstitutionen, eine litterar-historische Untersuchung, Rottenbourg, 1891, apenas pelo nome do autor, seguido da página. As Constituições apostólicas não formam um todo homogêneo. Os seis primeiros livros são uma reformulação da Didascalia; o l. VII começa por uma reformulação da Didaqué e termina com numerosas fórmulas de orações; o l. VIII contém uma liturgia, os ritos das diversas ordenações e cânones eclesiásticos. Trataremos, portanto, sucessivamente: I. da história do texto; II.

dos seis primeiros livros; III. do l. VII; IV. do l. VIII. V. Tiraremos a conclusão. VI. Indicaremos enfim outras constituições apostólicas já conhecidas ou pouco importantes.

I. História do Texto. — O texto grego das Constituições apostólicas foi publicado pela primeira vez por Fr. Torrés, em 1563, e traduzido para o latim no mesmo ano por G. C. Bovio (Bovius). Em 1578, Torrés também deu uma tradução latina dele. Esta obra havia permanecido desconhecida até então para a Igreja do Ocidente.

No Oriente, pelo contrário, encontram-se longos extratos nas Questões e respostas de Anastácio Sinaíta (por volta de 700), e o concílio in Trullo (692), após ter reconhecido a autenticidade dos 85 cânones dos apóstolos, condenou as Constituições: «Embora estes cânones nos ordenem receber as Constituições (διατάξεις) dos santos apóstolos por Clemente (can.

84 dos apóstolos), às quais certas falsificações e coisas estranhas à Igreja foram adicionadas outrora por alguns dos heterodoxos em detrimento da Igreja, de modo a obscurecer para nós a harmoniosa beleza dos dogmas divinos, cremos útil, para a edificação e segurança do povo cristão, rejeitar estas Constituições, a fim de não misturar as produções da falsidade herética ao ensino (διδαχή) autêntico e adequado dos apóstolos.» P. G., t. 1, col. 547. Esta condenação deve ter retirado das Constituições toda autoridade oficial na Igreja grega, mas elas não deixaram de ser lidas, pois numerosos escritores as citam, ibid., col. 547-554; edit.

Funk, t. II, p. 1-139, e restam numerosos manuscritos delas, edit. Funk, t. I, p. XXIV-XXXV. Apesar do 2º cânone do concílio in Trullo, F. Torrés e C. Bovio, o editor e o tradutor da obra, acreditaram na sua autenticidade. Esta fé os sustentou durante seus trabalhos, e é preciso confessar que eles não careciam, para sua época, de razões especiosas: aos argumentos intrínsecos baseados no testemunho do autor, eles adicionavam numerosos argumentos de tradição tirados dos escritos de santo Epifânio, de Eusébio, de santo Atanásio e de santo Inácio.

Não se podia demonstrar então com rigor que os três primeiros visavam não as Constituições apostólicas, mas sim a Didascalia e a Didaqué, e que o texto, impresso nessa época sob o nome de santo Inácio, era um texto interpolado; Bovio respondia à condenação do VI concílio citando o testemunho de santo Epifânio; ele reconhecia que certas passagens relativas ao Verbo e ao Espírito Santo eram difíceis de interpretar e ele concluía com alguma razão que, se os arianos e os macedonianos tivessem introduzido alguns erros nesta obra, não se seguia por isso que se devesse perder todo o trabalho de Clemente: sed tamen vel concedamus paulianos arianosque, sive etiam macedonianos, aliquas voculas his libris injecisse, quibus opinionis suae pravitatem possint defendere, eritne obsecro verum ut ideo integrum amittamus Clementem, Veneza, 1563, prefácio não paginado.

Pelo contrário, todos os sábios, católicos e protestantes, à exceção de alguns eruditos ingleses, recusaram-se a admitir a origem apostólica das Constituições. Eles objetavam: 1º Certas absurdidades ou heresias, por exemplo, II, xxvi, col. 668, onde o bispo, o sacerdote e a diaconisa são comparados ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; VI, xx, col. 965-968, onde os sacrifícios, as purificações, em uma palavra toda a lei mosaica, teriam sido impostos aos judeus unicamente por causa da ereção do bezerro de ouro; VI, xv, col. 948, sobre o rebatismo; V, xx, col. 890; II, xliv, col. 704, onde se pode encontrar um sentido ariano; VIII, v, col. 1073; VII, xxxi, col. 936, onde se pode encontrar um sentido macedoniano. 2º Certas palavras recentes que era impossível fazer remontar aos apóstolos como νεοφώτιστος, ou batizado há pouco, II, x, col. 609; VIII, viii; βαπτίζειν, batizar, VIII, vi-viii, col. 1077, 1081; ἱερατικὸς κατάλογος, II, xxv, col. 709; μύησις, iniciação, VII, xlv, col. 1044; ἐνσωμάτωσις, III, v, col. 768; μυσταγωγία, VII, xlix, col. 1110.

3° A hierarquia que é mais completa do que nos tempos apostólicos e compreende subdiáconos, ostiários, exorcistas e leitores, II, xxviii, col. 674; VIII, xvi, xvii, xx, xxi, col. 1118-1126. 4° Certos anacronismos e algumas inexatidões, VII, xlvi, col. 1148-1156; III, vi, col. 769. 5° Certos costumes relativamente modernos como os dízimos, II, XXXIV, XXXV, col. 681-685; VIII, xxx, col. 1125; o celibato, VI, xvii, col. 957; certas festas, V, xx, col. 896; VIII, xxxiii, col. 1135-1136; a construção e a orientação das igrejas, II, lvii, col. 724-727; a forma da administração do batismo e da eucaristia, VII, xxi-xxvi, col. 1012-1020.

Essas razões não eram peremptórias, pois certas dificuldades podiam ser eludidas por uma interpretação benevolente dos textos, e as outras podiam ser atribuídas aos falsários já denunciados pelo concílio in Trullo e aos quais se podia responsabilizar pelos erros e pelos anacronismos. A descoberta das principais fontes das Constituições, isto é, da Didascalia e da Didaché, podia sozinha trazer uma solução definitiva.

A atenção voltou-se logo para as versões orientais, mas ela se desviou primeiro para as versões árabes que são mais reformulações do que traduções. Torrés escreve já, fol. 17 v, ter tido do cardeal Sirlet que uma tradução árabe das Διαταγαὶ se encontra na biblioteca Vaticana. Whiston assinala dois manuscritos árabes em Oxford e J. E. Grabe mostra que esses dois manuscritos compreendem apenas um extrato dos seis primeiros livros das Constituições apostólicas. Funk, p. 9. Contudo, a versão siríaca da Didascalia começava a ser conhecida.

Abraham Ecchellensis havia citado alguns extratos dela e Grabe preocupava-se em obter a transcrição de toda a obra, quando morreu. Funk, ibid. Renaudot analisou a Didascalia e concluiu: « Não se pode dizer se a versão (siríaca da Didascalia) foi feita sobre um texto grego (das Constituições apostólicas) diferente daquele que está impresso, ou se é um resumo dele; pois um e outro são igualmente possíveis, já que há uma muito grande variedade nos manuscritos, sem que se possa determinar qual é o mais autêntico, e ela é ainda maior nas versões árabes. » Perpétuité de la foi, l. IX, c. 1, édit. Migne, Paris, 1841, t. III, col. 1160.

Essa conclusão encontra-se desenvolvida no ms. 16 da coleção Renaudot, conservado na Bibliothèque nationale de Paris, manuscrito que contém uma longa análise da Didascalia, fol. 352-354, 370-372. Essa análise é seguida destas palavras: Huc usque Didascalia, qualis exhibetur a vetusto interprete syro...

Neque si ab hereticis, quod antiquorum Patrum nonnulli testati sunt, corrupte sunt Constitutiones apostolice, multaque, Clementinorum nomine supposita, sunt absurda plane et frivola, negari tamen cum ulla idonea ratione potest extitisse antiquissimam discipline ecclesiastice ex traditione descriptionem, que collectionis hujus fons et origo fuit, ut alibi probatum est. Hanc porro syriacam qualiscumque sit antiquiorem fortasse greca qualis edita est suspicari quisquam posset, nam magna est in ipsis grecis codicibus diversitas; non minor quam inter diversas versiones orientales esse possit, qua de re jam alibi multa dicta sunt.

Meliorem autem syriacam plerisque aliis suadet non brevitas modo, sed presertim simplicitas ex qua, ut et certis aliis notis, intelligitur factam esse versionem vel epitomen ex grecis exemplaribus, quod de arabicis, ethiopicis aut, si que sunt alie, Constitutionum apostolicarum versionibus conjicere non licet. Um século e meio mais tarde (1848), J. W. Bickell estudou as versões siríaca, árabe e etíope da Didascalia, e acreditou poder concluir que a versão siríaca não era senão um resumo de uma obra grega anterior às Constituições apostólicas e correspondente aos seus seis primeiros livros. Funk, p. 15.

Paul de Lagarde enunciou a verdadeira solução. Ele editou a Didascalia siríaca, 1854, e assinalou que ela correspondia ao texto citado por santo Epifânio, ao passo que os seis primeiros livros das Constituições apostólicas não eram senão uma reformulação dele. Os fragmentos latinos da Didascalia, publicados por M. Hauler em 1900, vieram enfim mostrar que a versão siríaca reproduz fielmente o texto grego, pois ela concorda muito suficientemente com a versão latina. A origem dos seis primeiros livros das Constituições apostólicas era desde então conhecida com certeza.

Em 1888, Monsenhor Philotheos Bryennios publicou o texto até então desconhecido da Διδαχὴ τῶν δώδεκα ἀποστόλων, no qual se concordou em ver a obra visada por Eusébio e por santo Atanásio. Ora, essa Διδαχὴ corresponde à primeira parte do livro VII das Constituições apostólicas e vem, portanto, revelar-nos a fonte dele. Enfim, Paul de Lagarde havia publicado em 1856 uma edição do l. VII das Constituições apostólicas tal como figura em um manuscrito de Munique. Esse texto compreende, após uma peça preliminar, Const.

apost., VIII, I, 11, algumas « constituições dos apóstolos sobre as ordenações, redigidas por santo Hipólito » e algumas « constituições de Pedro » ou « de Pedro e Paulo » ou « dos santos apóstolos », isto é, o maior número dos capítulos do l. VIII, com exclusão das passagens litúrgicas. Os cânones dos apóstolos encontram-se em uma parte dos cânones coptas árabes, ver CANONS DES APÔTRES, t. I, col. 1615, nos cânones de Hipólito, cuja versão árabe foi editada por Haneberg em 1870, e no Testamentum D. N. J. C., editado por Mons. Rahmani em 1899. Estes textos orientais permitiram aos eruditos abandonar o terreno das hipóteses ao qual tinham sido obrigados a confinar-se desde Turrianus, e afirmar que as Constituições apostólicas são uma compilação, acompanhada de algumas reelaborações, de escritos mais antigos considerados como apostólicos. Estes escritos mais antigos são a Didascalia, cuja reelaboração constitui os seis primeiros livros das Constituições; a Didaché e um formulário de orações que serviram para constituir o l.

VII; enfim, as constituições de Hipólito e os cânones eclesiásticos dos apóstolos (talvez os cânones de Hipólito) que serviram, com uma liturgia, para constituir o l. VIII. Não temos que tratar dos escritos anteriores, utilizados pelo compilador das Constituições apostólicas; eles serão estudados em outro lugar. Sobre a Didaché, ver t. I, col. 1680-1687. Limitamo-nos aqui a caracterizar a obra própria do compilador das Constituições: o que ele acrescentou ou suprimiu, sua época, suas tendências, seu objetivo. II. OS SEIS PRIMEIROS LIVROS. — 1° Comparação com a Didascalia.

— O interpolador modificou muito pouco os dois primeiros livros, pois havia pouco a mudar nos preceitos morais que neles são dados, e parece aliás aumentar progressivamente seu trabalho pessoal: ele acrescenta, no l. III, os c. x, xi, xvi, xviii, xx, e reelabora os c. viii e ix; no l. IV, ele acrescenta os c. xii-xiv, e alonga os c. vi e x (o c. xii figura mais adiante na Didascalia e foi, portanto, transposto); no l. V, ele acrescenta os c. viii e ix e reelabora completamente os c. vii, xii-xx; enfim, no l. VI, os c. ii, vi, xi, xv-xvii, xxii-xxviii pertencem-lhe quase completamente, assim como a maior parte do c. xvii. Na edição de M.

Funk, os textos próprios do interpolador estão sublinhados. Assim, a diferença das Constituições e da Didascalia salta aos olhos do leitor. Estas modificações, sobretudo nos dois primeiros livros, são frequentemente acidentais; o autor encurta um texto da Escritura, ou então acrescenta novos que a sua memória lhe fornece. Na maioria das vezes, ele acomoda à sua época o texto da Didascalia: ele proíbe os banhos mistos, abrevia ou reelabora as passagens antijudaizantes, aumenta os poderes do bispo, completa a hierarquia mencionando leitores e cantores.

Quanto às passagens arianas e macedonianas, elas são tão pouco numerosas e tão pouco decisivas que o autor realmente não parece ter querido contribuir para disseminar essas heresias. 2° Época e pátria do interpolador. — M. Funk faz notar, p. 78, que ele utiliza fórmulas correntes somente no século IV, e que as ordens inferiores do clero nomeadas por ele, sua liturgia, o batismo das crianças, as festas que ele conhece e os jejuns que ele impõe nos reportam ainda à mesma época. Ele seria, aliás, posterior ao concílio de Niceia por causa da sua determinação da Páscoa e da igual importância que atribui ao sábado e ao domingo. Funk, p. 82-84. M.

Funk atém-se em particular à festa de Natal que as Constituições apostólicas, V, xiii, col. 858, colocam em 25 de dezembro. Ora, durante muito tempo no Oriente celebrava-se o nascimento de Nosso Senhor em 6 de janeiro, dia da Epifania. Foi sem dúvida no ano 388 que a festa do nascimento foi transladada em Antioquia pela primeira vez para 25 de dezembro. Caso se devesse retroceder dez anos, o interpolador, como testemunha desta festa, não deveria ainda ser colocado antes de 380.

É até mais razoável dizer que ele deve ter vivido no momento em que esta festa já estava estabelecida há muito tempo, caso contrário ele não teria ousado apresentá-la como apostólica. O verdadeiro terminus a quo, diz M. Funk, p. 93, seria, portanto, o começo do século V. Aliás, não se pode colocá-lo muito mais tarde, pois não se encontra na sua obra nenhum eco das controvérsias cristológicas que iriam apaixonar toda a cristandade em torno dos nomes de Nestório e de Eutiques. O interpolador nos ensinou incidentalmente a que país pertencia, quando deu aos meses os nomes siro-macedônios, por exemplo, V, xiv, col. 872, «o primeiro mês que é Ξανδικός;» V, xvii, col. 888, «o décimo segundo mês, que é chamado Αὐδυναῖος;» V, xx, col. 896, «o décimo dia do mês Περίτιος.» Estes nomes foram levados à Síria pelos macedônios e, como se sabe que foram de uso em Éfeso, Paul de Lagarde supôs que uma parte das Constituições apostólicas provinha desta diocese. M. Funk mostra com razão, p. 96, que não é nada disso, pois o calendário dos efésios fazia começar o mês Αὐδυναῖος no dia 24 de janeiro, enquanto as Constituições apostólicas, V, xvii, col. 888, fazem corresponder o 22 deste mês ao equinócio da primavera, o que exige que o mês de Αὐδυναῖος das Constituições coincida com o nosso mês de março. Ora, é isso o que ocorria na Síria. Não se pode, aliás, colocar o autor na Palestina, pois a festa de Natal não foi introduzida em Jerusalém senão por Juvenal, bispo de 425 a 458, e como o nosso autor a menciona explicitamente como apostólica e não pode ter escrito depois de 425, porque não faz nenhuma alusão a Nestório ou a Eutiques, resta-nos, portanto, situá-lo na Síria, com exclusão da Palestina. Funk, p. 97. 3° Sua escola teológica e suas fontes.

— Tendo o concílio in Trullo decretado que falsificações e coisas alheias à Igreja (as heresias) tinham sido acrescentadas às Constituições apostólicas por alguns heterodoxos, preocupou-se desde então em reencontrar as passagens que tinham motivado a decisão do concílio. Fócio, cod. 112-113, citado P. G., t. 1, col.

548-549, assinalava ali ficções (κακοπλαστία) e o desprezo da deutérosis (segunda lei ou lei judaica), mas confessava ao mesmo tempo que essas reprovações não lhe pareciam dignas de atenção; acrescentava enfim que se poderia acusar as Constituições de arianismo, mas que era possível, ainda que não sem dificuldade, lavá-las dessa acusação. Tal foi também o parecer de Bovio e de Cotelier. Admitiu-se, contudo, em geral, que se encontravam nas Constituições passagens arianas, mas M. Funk, que cita e estuda essas passagens, p.

98-103, 104-106, pôde mostrar que umas já se encontravam na Didascalia e não podem, portanto, ser imputadas ao interpolador, ao passo que as outras são conformes à maneira de escrever de muitos ortodoxos e devem, além disso, ser explicadas levando em conta outras passagens que são evidentemente antiarianas. Em particular, a comparação do Espírito Santo com a diaconisa, Const. apost., II, xxvi, encontra-se já na Didascalia e parece ter uma origem siríaca, pois apenas em siríaco o nome do Espírito Santo é feminino e levava, portanto, os sírios a comparar o Espírito Santo a uma mulher (o que já fez Bardesanes), e, no caso presente, à diaconisa.

Não se pode, pois, concluir da passagem precedente que o autor das Constituições era macedoniano, visto que a tomou emprestada da Didascalia. As outras passagens, alegadas nesse sentido, também não resistem ao exame. Funk, p. 103-104. Por outro lado, pode-se ter o autor das Constituições por um apolinarista, embora os seis primeiros livros sozinhos não permitam demonstrá-lo rigorosamente. Esta hipótese explicaria, ao menos, por que o autor parece fazer alternar passagens de aspecto ariano com passagens nicenas.

O interpolador empresta sobretudo as suas adições à Escritura, introduz perto de setenta citações novas extraídas do Pentateuco; conheceu também um catálogo de heresias, VI, vi-ix, talvez o de Hegésipo, e uma redação das Clementinas. Funk, p. 107-111. É talvez a redação das Clementinas que lhe sugeriu a ideia de atribuir as Constituições a Clemente de Roma, VI, xvi. Funk, p. 112. 4° Houve vários interpoladores sucessivos? — Os seis primeiros livros das Constituições encontram-se numa tradução árabe dividida em 39 capítulos e traduzida, por sua vez, para o etíope.

Estas traduções não provêm do siríaco ou do texto grego, fonte do siríaco, mas de um texto grego já interpolado. É-se, portanto, tentado a imaginar um primeiro interpolador que teria remendado a Didascalia conservada em siríaco, ao mesmo tempo que acrescentava uma divisão em capítulos; depois, um segundo interpolador teria introduzido a divisão em seis livros e teria acrescentado dois livros. M. Funk prefere ver na Didascalia árabe um extrato dos seis primeiros livros das Constituições, pois o autor do remendo cita a Apostolische Kirchenordnung, ver CANONS DES APOTRES, t. II, col. 1613, e os cânones de Clemente. Estes cânones, segundo M.

Funk, não seriam senão um extrato do I, VIII das Constituições; estaria assim provado que o autor da Didascalia conservada em árabe conhecia o I-VIII das Constituições e trabalhava após a formação desse recolho. É, contudo, difícil compreender por que o autor da Didascalia conservada em árabe teria substituído a divisão em livros por uma divisão em capítulos; além disso, a sua citação dos cânones de Clemente e da Apostolische Kirchenordnung pode provar simplesmente que ele conhecia o Octateuco de Clemente, ver t. II, col. 1616, recolho citado por Severo de Antioquia, por volta de 520, que tem a chance de ser mais antigo que as Constituições.

Ver t. II, col. 1617. Além disso, os textos das Constituições citados por São Epifânio não concordam completamente com o texto da Didascalia siríaca. Este fato, somado ao de ele não conhecer mais o título: «Didascalia», mas o título διατάξεις, que é frequentemente o das Constituições, conduz-nos a admitir que ele conheceu um remendo diferente da Didascalia e das Constituições. Enfim, um texto, pelo menos, extraído dos διατάγματα ou dos διατάξεις e citado por Cotelier, P. G., t. 1, col. 518, ver col. 1536, não se encontra nas nossas edições das Constituições.

Não parece, pois, impossível que tenha havido, além dos seis primeiros livros atuais, uma revisão, fonte da Didascalia árabe, e uma segunda revisão citada por São Epifânio. III. O VIIº livro. — 1° Comparação da primeira parte com a Didaché. — Desde o início, o autor acrescenta um prólogo, depois, em partes, parafraseia, cita textos e exemplos e suprime por vezes, mas muito raramente, algumas palavras. Eis alguns exemplos desses remendos: DIDACHÉ, I, 1. CONST. APOST., L. VII, c. 1.

Há dois caminhos: um da Nós dizemos que há dois vida e outro da morte; mas entre esses dois caminhos, caminhos, um da vida e o outro da morte, mas eles não a diferença é grande.

nenhum relacionamento entre eles, pois sua diferença é grande; mais ainda, eles são completamente distintos; o caminho da vida é natural, e o da morte é adventício; ele não provém da vontade de Deus, mas das emboscadas do adversário. I, 2. VII, 2. Eis, pois, o caminho da O primeiro é o caminho da vida: antes de tudo, amarás a Deus vida e é aquele que a lei que te criou; depois, teu próximo recomenda: amar o Senhor como a ti mesmo, e tudo aquilo Deus de todo o pensamento e que não gostarias que te fizessem, de toda a alma, único e o não o faças a outrem. I, 3.

O ensino contido nestas Abençoai aqueles que vos maldi- palavras é o seguinte: Abençoai zem, orai por aqueles que vos aqueles que vos maldizem e caluniam, amai vossos inimigos. orai por vossos inimigos; jejuai Que mérito tereis se amardes por aqueles que vos perseguem. aqueles que vos amam? Pois os Porque, que mérito teríeis ao gentios também o fazem; quanto amar aqueles que vos amam? a vós, amai aqueles que vos Acaso os gentios não o fazem? odeiam e não tereis inimigos, Quanto a vós, amai aqueles pois tu não odiarás homem que vos odeiam e não tereis algum, é dito, nem egípcio, nem mais inimigos. idumeu, pois todos são obra de Deus.

Fugi, aliás, não das naturezas, mas das vontades dos maus. O mesmo ocorre para toda a via da vida, Didaché, 1-iv; Const. apost., VII, 1-xvii, depois a via da morte é transcrita sem grandes mudanças, Didaché, v; Const. apost., xviii; mas as diferenças na parte litúrgica são novamente numerosas: após ter omitido o parágrafo sobre o jugo do Senhor e ter citado numerosos textos relativos ao alimento, Didaché, vi; Const. apost., XIV-XXI, o interpolador descreve a administração do batismo, sem dúvida tal como ocorria em seu tempo. Untam-se os batizados com óleo antes do batismo e com μύρον depois.

Os sírios que batizavam assim viam nesta segunda unção o sacramento da confirmação. Cf. can. 30 de João de Tella, em Ancienne littérature canonique syriaque, fasc. 2, Paris, 1906, p. 15. Aquele que administra o batismo não está mais sujeito ao jejum que a Didaché lhe impunha, assim como aos assistentes. Por outro lado, deverá jejuar cinco dias por semana ou, ao menos, às quartas e sextas-feiras (a Didascalia, c. XXI, não impunha isto senão durante a semana santa); deverá celebrar os sábados e os domingos, com exceção do sábado santo.

A liturgia eucarística é modificada; as duas partes «para o cálice» e «para a fração do pão» não são mais separadas, a passagem que concerne aos profetas, Didaché, XI, 7, é suprimida, pois eles não existiam mais no tempo do interpolador; uma oração sobre o μύρον é acrescentada. Const. apost., 1. VII, c. XXVI. Enfim, após algumas outras omissões de circunstância, a parte final da Didaché, fortemente interpolada, encontra-se no c. XXXII das Constituições. Em sua edição, M. Funk ressalta as passagens do 1. VII que são tomadas da Didaché.

2° Análise da segunda parte do l. VII, c. XXXIII-XLIX. — Esta segunda parte contém: 1. Uma longa oração dividida em seis capítulos, XXXIII-XXXVIII, col. 1024-1037, e destinada aos iniciados: «Nosso Salvador eterno, o rei dos Deuses, que és o único todo-poderoso e Senhor, o Deus de todos os seres», etc. O autor recorda a criação e a providência divina com relação aos patriarcas, depois ao povo judeu e ao povo cristão; ele termina assim: «Para todas as coisas, a ti a glória e a veneração, por Jesus Cristo agora e sempre e nos séculos, Amém.» — 2. O autor anuncia-nos em seguida (fim do c. XXXVIII) que vai completar o que precede.

Ele disse anteriormente como devem viver aqueles que já são iniciados e quais ações de graças devem render a Deus, ele vai ocupar-se em seguida dos não iniciados, c. XXXIX-XLV, col. 1037-1047: «Aquele que deve aprender a palavra piedosa será instruído antes de seu batismo na ciência do não gerado, no conhecimento do Filho único, na certeza do Espírito Santo. Que aprenda a ordenança da criação variada, o modo da providência, etc.», até: «Julgamos bom estabelecer isto a respeito dos catecúmenos.» Esta parte é a mais importante, pois contém a descrição detalhada do rito do batismo resumido anteriormente, c.

XXI, segundo a Didaché e já modificado. Encontra-se aqui a bênção do óleo, c. XLII, com a da água e do μύρον, c. XLII, XLIV, depois a oração dos novos iniciados, c. XLV. — 3. O livro termina com a lista daqueles que os apóstolos ordenaram, c. XLVI, e com a fórmula das orações da manhã, da noite e no momento das refeições, c. XLVII-XLIX. A lista dos bispos ordenados pelos apóstolos é muito importante, pois contém numerosos anacronismos e serviu para mostrar, desde o aparecimento das Constituições, que a redação atual não podia ser de origem apostólica. Pitra editou, p. 366 sq., em caracteres pequenos, os c.

XXXIII-XXXVIII, XLI, XLIII, XLIV, XLVI, XLVIII, do 1. VII.

3° Época e pátria do interpolador. — O 1. VII não contém muitos indícios característicos. Contudo, M. Funk, p.

116-118, baseando-se em algumas locuções relativamente modernas, fixa a composição no século IV; depois, fazendo notar que o autor, c. XXI, col. 1012, diz já ter falado do batismo, o que só lhe pode ter acontecido no l. III, cc. XVI, XVII, ele toma como terminus a quo a redação dos seis primeiros livros, isto é, o começo do século V. Ver col. 1524. Aliás, uma comparação minuciosa do l. VII com os l. I-VI levou o Sr. Funk, como diremos na col. 1528, a atribuir os sete livros ao mesmo autor. O começo do século V seria, portanto, também a época da redação do l. VII. A questão da pátria do interpolador é decidida pelo mesmo: ele é da Síria.

4° Sua escola teológica e suas fontes. — As poucas locuções do autor empregadas pelos arianos e pelos semi-arianos não provam que ele tenha partilhado seus erros, pois essas locuções também foram empregadas por autores ortodoxos, e um autor ariano teria deixado traços mais aparentes de seu erro. O autor deve, portanto, ser considerado como um partidário do concílio de Niceia, mas não se pode dizer nada mais. Funk, p. 123. Além da Didaché, é de se presumir que o autor tenha utilizado na segunda parte do livro um antigo ritual ou formulário, pois não é verossímil, segundo seus hábitos, que ele tenha criado ele mesmo essas orações, c.

XXXIII-XLIX, para depois as apresentar como apostólicas. É muito provável, por outro lado, que ele as tenha modificado para acomodá-las ao seu tempo e que tenha alongado, se não acrescentado, alguns capítulos. O c. XLVI sobre os bispos ordenados pelos apóstolos tem alguma chance de lhe pertencer propriamente e de ter sido extraído de Eusébio, H. E., II, 4, 14, 22; IV, 5, nas Clementinas, Hom., I, 68; XI, 384; Recogn., III, 65; VI, 15, e no Novo Testamento. Deve-se notar, contudo, que a questão da apostolicidade das Igrejas esteve desde cedo na ordem do dia; uma lista desse gênero nos é conservada sob o nome de Hipólito, P. G., t. X, col.

951-958, e outra, mais curta, sob o nome do apóstolo Addai, publicada e traduzida em grego por Paul de Lagarde, Reliquiae juris ecclesiastici ant., Leipzig, 1856, syriace, p. 40-44, e graece, p. 94-95, depois publicada e traduzida em latim pelo Monsenhor Rahmani, Studia syriaca, fasc. 4, Paris, 1904. Não é impossível que o autor do l. VII tenha apenas transcrito uma lista anterior, pretensamente apostólica. Encontram-se também numerosos pontos de contato entre o l. VII das Constituições e as cartas interpoladas de Santo Inácio que são assinalados entre as variantes da edição Migne, col. 1005, 1011, 1013, 1032, 1033, 1034, etc., e da edição Funk, t. I, p. 387, 389, 397, 399, 401, etc. Por isso, atribuem-se os dois reexames ao mesmo autor.

5° Houve vários interpoladores sucessivos? — Anastácio Sinaíta, q. XV, cita um longo extrato do l. VI, c. I-XVIII, P. G., t. LXXXIX, col. 472-476; edit. Funk, t. II, p. 63-67. Seu texto apresenta diferenças bastante numerosas com as Constituições e poderia ser considerado como um texto intermediário, a menos que se admita que Atanásio não reproduziu muito fielmente seu manuscrito. Mesmo no caso em que se admitissem dois interpoladores, o trabalho do segundo seria relativamente mínimo e o único que realmente tem importância seria o primeiro. Pode-se perguntar se ele é o mesmo que o interpolador dos seis primeiros livros ou se é diferente dele.

6° Comparação do l. VII com os seis primeiros. — O Sr. Funk estudou longamente essa questão, p. 123-132, e mostrou que havia todo motivo para atribuir ao mesmo autor a interpolação dos l. I-VI e do l. VII. Pois o autor do l. VII remete ao que ele já disse a respeito do batismo, cf. l. VII, c. XX, e l. III, cc. XVII, XVIII; parece, portanto, muito bem se apresentar também como o autor da primeira parte. Esse fato já nos serviu para determinar a época do interpolador. Além disso, a Didascalia traz quase no fim, após Const. apost., l. VI, c.

XXX: «Poderíamos, por muitas outras demonstrações análogas, fazer-vos conhecer com evidência a Didascalia, mas para não aumentar e alongar o livro terminaremos já e deteremos o discurso, de medo que, pela severidade da verdade, o ensino de nossa palavra vos reste por pouco tempo.» O autor das Constituições suprimiu essa frase, assim como toda a sequência, o que ele não teria feito se tivesse terminado seu reexame no l. VI.

Além disso, um estudo minucioso do texto dos l. I-VI e do l. VII revela numerosíssimas analogias entre os primeiros e o último; é, portanto, natural atribuí-los a um mesmo interpolador. As duas partes têm locuções comuns relativas às pessoas da santíssima Trindade, assim como um grande número de textos bíblicos comuns (32 sobre 70) com as mesmas particularidades, e fontes comuns: as Clementinas e Eusébio. Enfim, a tradição os conhece pelo mesmo título: Anastácio Sinaíta cita o l. VII tão bem quanto os seis primeiros. O mesmo ocorre com o pseudo-Inácio. Parece, portanto, bem que os sete primeiros livros foram interpolados por um mesmo indivíduo na Síria, no começo do século V.

IV. O Livro VIII. — 1° Sua divisão. — O título nos indica já uma tripla divisão: περὶ χαρισμάτων, καὶ χειροτονιῶν, καὶ κανόνων ἐκκλησιαστικῶν. 1. Dos carismas, c. 1, 2.

— Aqueles que receberam o dom dos milagres, por exemplo para converter os infiéis, não devem orgulhar-se disso e desprezar aqueles que não o receberam; os superiores não devem tampouco desprezar seus inferiores; aliás, muitos profetas, taumaturgos, reis, bispos e sacerdotes foram pecadores, enquanto até mulheres puderam profetizar; não se deve, portanto, desprezar uns aos outros, que cada um seja humilde para que Deus se compraza nele. — 2. Das ordenações, c. III-XXVI. — Esta segunda parte não é homogênea. O c. III serve tanto de conclusão à primeira parte quanto de introdução à segunda; pode, portanto, ser ligado tanto a uma quanto à outra.

É verdade que se encontra em seguida a ordenação do bispo, c. IV, V, do sacerdote, c. XVI, do diácono, c. XVII, XVIII, da diaconisa, c. XIX, XX, do subdiácono, c. XXI, do leitor, c. XXII, com ordenanças sobre os confessores, c. XXIII, as virgens, c. XXIV, as viúvas, c. XXV, o exorcista, c. XXVI, pois estes últimos «não têm ordenação», mas encontra-se além disso uma longa passagem, c. V-XV, que nada tem a ver com as ordenações e não passa de um missal contendo as orações a recitar sobre os catecúmenos, os energúmenos, os batizados, os penitentes e os fiéis, seguidas, c.

XII-XV, do ordinário da missa com o prefácio, as comemorações, a consagração, col. 1104, o ofertório, ibid., e várias orações após a comunhão, c. XIII-XV. Estes capítulos parecem, portanto, formar um todo e constituir uma liturgia que indica, após a leitura da santa Escritura, quais orações se deve recitar para os assistentes e como se deve celebrar o santo sacrifício. As orações são atribuídas a santo André, col. 1076, e o cânon da missa a são Tiago, col. 1092. — 3. Dos cânones eclesiásticos, c. XXVII-XLVII. — Esta parte não é mais homogênea que a segunda.

Após dois capítulos XXVII, XXVIII, sobre a ordenação do bispo e dos outros clérigos, que poderiam tão bem concluir a segunda parte quanto começar a terceira, encontram-se «cânones» portados pelos diversos apóstolos sobre os bens eclesiásticos, c. XXX, XXXI, sobre aqueles que se deve admitir ou não admitir ao batismo, c. XXXII; sobre os dias de festa, c. XXXIII; as horas de oração, c. XXXIV; os ofícios dos mortos, c. XLII-XLIV; a admissão dos perseguidos, c. XLV; mas encontra-se uma espécie de ritual com fórmulas de bênção, c. XXXIX, XL, ou de oração da manhã e da noite, c. XXXVI-XL, e de oração para os mortos, c. XLI.

Estes últimos capítulos são, aliás, apresentados pelo autor como um complemento à liturgia da parte precedente. Cf. c. XXXV. Finalmente, o c. XLVII termina o livro recomendando a cada clérigo que permaneça em seu lugar e não usurpe as funções que não são as suas. Acrescentemos que em certos manuscritos se encontra ao final do l. VIII os 84 (ou 85) cânones apostólicos; por isso Turrianus e M. Funk os reproduziram ao final de sua edição das Constituições. Estes cânones não estão bem indicados no título, a menos que se lhes atribua, a eles sozinhos, o título de «cânones eclesiásticos» que se reportaria assim somente ao c. XLVII.

Chamam-nos antes de «cânones apostólicos», e eles não entram no plano da obra, contudo já dissemos, ver CANONS DES APÔTRES, t. I, col. 1610, que para M. Funk e M. Bardenhewer, o autor ou o compilador dos cânones e o compilador das Constituições apostólicas são a mesma pessoa. Não nos ocuparemos mais disso aqui.

2º As fontes do l. VIII. — Todo o mundo está de acordo em reconhecer no l. VIII, além da primeira peça consagrada aos carismas, c. I, II, uma compilação de uma liturgia e de cânones eclesiásticos sobre as ordenações, as festas, etc., atribuída aos apóstolos; mas o acordo cessa completamente quando se trata de precisar as fontes, de fixar seus autores e de classificar respectivamente o l. VIII das Constituições e os numerosos textos paralelos que estão conservados.

1. Textos paralelos ao l. VIII. — Já assinalamos no artigo CANONS DES APÔTRES o final dos Canones ecclesiastici, can. 21-71 (ou 31-78), sobre as ordenações e cerimônias, ver t. II, col. 1615, e o Octateuco de Clemente, que encerra quase as mesmas matérias. Ver t. I, col. 1616. Basta acrescentar que M. Funk deu uma tradução latina dos Canones ecclesiastici paralelos ao l. VIII das Constituições apostólicas, t. II, p. 97-119, e de fazer conhecer um Epitome grec do l. VIII, e os cânones de Hipólito.

a. Epitome grec. — Grabe já havia assinalado, Spicil. Patrum, t. I, p. 283, que um manuscrito de Oxford, Barocc., XXVI, portava o título: Didascalie dos santos apóstolos sobre os carismas, seguido dos c. I e II; após o que, sob o novo título: ordenanças dos santos apóstolos sobre as ordenações (redigidas) por Hipólito, vinham os c. IV, V, XVI-XXVIII, XXX e XXXI. Outros manuscritos encerram ainda os cânones dos c. XXXII-XXXIV, XLII-XLVI. Numerosos manuscritos, por outro lado, encerram apenas estes últimos cânones. Em P. de Lagarde, Reliquiae juris eccl. ant. graece, Leipzig, 1856, p. 1-18, e F. X. Funk, t. I, p. 72-96, encontram-se primeiro os dois fragmentos já mencionados por Grabe, edit. Funk, t. I, p. 72-84, depois as ordenanças do santo apóstolo Paulo sobre os cânones eclesiásticos, edit. Funk, t. I, p. 85-87, que correspondem a Const. apost., l. VIII, c.

XXXI ; em seguida as ordenações dos santos apóstolos Pedro e Paulo, ed. Funk, t. I, p. 87-91, que correspondem a Const. apost., l. VIII, XXXII, XXXIV, XLI-XLV; finalmente a Didascalia de todos os santos apóstolos sobre a boa ordem, ed. Funk, t. II, p. 92-96, que corresponde a Const. apost., l. VIII, c. XLVI, XLVII. Este Epítome figura ainda no manuscrito Coislin 241, fol. 262, na sequência de uma coleção de cânones e de textos canônicos. O texto do Coislin 241 interrompe-se no c. XLVI, linha 6, ἀποστείλαντα με, col.

1414 b, mas acrescenta καὶ τὰ ἐξῆς, o que mostra que ele supõe talvez também o fim do capítulo; depois, termina com: Αἱ περὶ τῶν χειροτονιῶν τάξεις τῶν ἁγίων ἀποστόλων ἐγράφησαν διὰ Ἱππολύτου, καὶ τὰ ἐκ τῆς βιβλιοθήκης τοῦ Ὠριγένους διὰ Παμφίλου τοῦ ἱερομάρτυρος ἐκ τῆς ἐν Ἀντιοχείᾳ συνόδου τῶν ἀποστόλων, τουτέστιν ἐκ τῶν συνοδικῶν αὐτῶν κανόνων, ἃ ἐστι δὲ ἐκεῖνα λέγονται· τὰ πρὸς τοὺς ἀρχιερεῖς μυστικὰ Κλήμεντος νοθευθέντα παρὰ τῶν αἱρετικῶν, ἃ οὐδὲ γράφονται εἰς νομοκανόνα.

« As ordenações dos santos apóstolos relativas às ordenações foram escritas por Hipólito e as coisas tiradas da biblioteca de Orígenes (foram escritas) por Pânfilo segundo o concílio dos apóstolos em Antioquia, isto é, segundo seus cânones sinodais; tudo isso é chamado: não recebido. Quanto às coisas místicas escritas por Clemente aos bispos, elas foram falsificadas pelos hereges e não estão sequer escritas no Nomocanon. » Nessas linhas, o Epítome do l. VIII é atribuído novamente a Hipólito, ao menos em parte, os cânones de Antioquia a Pânfilo. Ver t. II, col. 1619.

Eles figuram, aliás, um pouco mais adiante, no fol. 278 v, neste manuscrito 214. Finalmente, « as coisas místicas » de Clemente aos bispos, que dificilmente podem ser aqui senão as Constituições apostólicas, teriam sido falsificadas pelos hereges.

b. Cânones de Hipólito. — Esses cânones só estão conservados em árabe. Vansleb deu seus títulos, Histoire de l’Église d’Alexandrie, Paris, 1677, e Haneberg editou-os com tradução latina e anotações em 1870. H. Achelis reproduziu a tradução latina revisada e comentou-a longamente nos Texte und Untersuchungen, Leipzig, 1891, t. VI, fasc. 4. As matérias são conexas ao l. VIII das Constituições apostólicas.

2. Sua classificação. — Em suma, é preciso classificar o fim dos Canones ecclesiastici ou o Octateuco, mas mais particularmente os can. 21-47 (ou 31-62), que constituem a Aegyptische Kirchenordnung, com o Epítome do l. VIII e os cânones de Hipólito em relação ao l. VIII. Segundo o Sr. H. Achelis, Realencyclopädie für prot. Theologie, 3ª ed., t. I, os cânones de Hipólito são o primeiro escrito do ciclo; eles representam um retrabalho dos cânones de Hipólito e, finalmente, o l. VII não é, na maior parte dos capítulos a partir do c. IV, senão um novo retrabalho da Aegyptische Kirchenordnung. A opinião do Sr.

Achelis é apoiada no longo estudo publicado por ele nos Texte und Unters., já mencionado. Nesse estudo, ele cita em colunas paralelas as traduções dos 38 cânones de Hipólito e dos cânones 31-62 que constituem a Aegyptische Kirchenordnung, com o texto do l. VIII, ou melhor, com fragmentos escolhidos nos c. IV, V, XII, XV, XXIII, XXIV, XXV, XXVI, XXVII, XXVIII, XXIX, XXX, XXXI deste livro. É preciso também fazer algumas inversões nos cânones de Hipólito para fazê-los concordar com a ordem da Aegyptische Kirchenordnung. O Sr.

Achelis dispõe-nos na seguinte ordem: 1-20 a, 32, 33 a, 20 b, 33 b, 34-36, 22, 24, 27, 28, 29 a, 21, 24 b, 25 a, 26, 27 a, 25 b, 27 c, 27 b, 27 d, 29 b, 23, 38. Os can. 30, 31, 37 d de Hipólito faltam nesta reconstrução. Este quadro, por si só, mostra as dificuldades de estabelecer uma simples concordância entre os textos que se trata de classificar.

A discussão textual é ainda mais difícil, pois as traduções árabes não brilham em geral por sua fidelidade e esta não faz exceção à lei geral. É, portanto, difícil distinguir as partes antigas, sobre as quais apenas se pode fundar um raciocínio, das adições devidas aos tradutores árabes. Em muitos lugares reconhecem-se más paráfrases do l. VIII, por exemplo, Texte und Unters., t. VI, fasc. 4, p. 80-85, encontra-se parafraseado o c. XXX do l. VIII. O texto tão simples: Miles accedens, doceatur nemini injuriam inferre, non calumniari, contentus esse sibi datis stipendiis : obtemperans his, admittatur; repugnans, rejiciatur, col. 1180, torna-se nos cânones de Hipólito, p. 81: Homo qui accepit potestatem occidendi vel miles nunquam recipiatur omnino, etc. Christianus ne fiat propria voluntate miles. Da mesma forma, os longos desenvolvimentos dos cânones de Hipólito relativos às mulheres, p. 85-90, têm um tom muito mais oriental do que romano. Certos conselhos lembram o c. III da Didascalia; outros, os costumes muçulmanos: juniores feminae virgines, quando tempus adest, quo ad gradum mulierum evehuutur, capita velent sicut mulieres grandiores majores, neque tamen tenui panno utantur, p. 89.

Finalmente, a proibição de participar nos mistérios nos 20 dias ou nos 40 dias que seguem o parto segundo se o filho é um menino ou uma menina, p. 88, e ainda de entrar no lugar santo nos 40 ou nos 80 dias que seguem o parto segundo se o filho é um menino ou uma menina, p. 90, recorda apenas um costume sírio que não passava de um mau costume já estigmatizado por Jacques de Edessa desde o final do século VII: « Existem sacerdotes insensatos e não instruídos que, segundo a antiga lei de Moisés, proíbem a entrada na igreja durante 40 dias àquela que deu à luz um menino e durante 80 dias àquela que deu à luz uma menina. » Can. 79 de Jacques de Edessa, Les canons et résolutions canoniques de Jean de Tella, Jacques d’Édesse, etc., Paris, 1906, p. 67. Para escapar a algumas destas dificuldades, J. Wordsworth, bispo anglicano de Salisbury, trouxe alguns complementos à teoria de H.

Achelis, The ministry of grace, 2ª ed., 1903, resumida por F. X. Funk, Theologische Quartalschrift, 1906, n. 1.

Os cânones de Hipólito são ainda o mais antigo dos escritos que temos de classificar, mas já não provêm de Hipólito; são apenas um retrabalho de um escrito mais antigo, de uma constituição eclesiástica perdida que continha: a) regras para a escolha e a consagração do bispo bem como para a ordenação de outros clérigos: do sacerdote, do diácono e, verosimilmente, do leitor; b) preceitos para a recepção dos prosélitos e instrução dos catecúmenos com a descrição do batismo, da confirmação e da comunhão; c) o cânone sobre os jejuns e as esmolas, etc.

Esta antiga constituição proviria da Síria ou da Palestina e teria sido, em seguida, adotada e ampliada em Roma. É esta redação romana, subtraídas algumas novas interpolações, que estaria conservada nos cânones de Hipólito e também no Epitome, ambos colocados sob o nome de Hipólito. Estas redações romanas seriam anteriores ao ano 216, provavelmente do final do século II; depois teriam passado novamente ao Oriente onde teriam sido conservadas. Como escreve M. Funk, estas teorias, para saírem do campo das hipóteses, exigiriam uma demonstração rigorosa.

Mencionemos ainda a teoria de Mons. Rahmani, patriarca dos sírios católicos, que coloca em primeiro lugar o Testamentum D. N. J. C. (ou o Octateuco). Nos prolegómenos da sua edição, Mogúncia, 1899, ele compara a Aegyptische Kirchenordnung ao Testamento: os cânones 31-39 são extraídos dos c. XX, XXI, XXIX-XXXI, XXXIII-XL, XLVI, XLV do l. I; os cânones 40-62 são extraídos do l. II do Testamento, p. XXI-XXXI. Por outro lado, a Aegyptische Kirchenordnung deu origem aos c. V, X-XXV, XXVII-XXIX, XXXII, XXXIV-XL do l. VIII das Constituições, p. XXXI-XXXIV. Finalmente, os cânones de Hipólito são também uma ampliação da Aegyptische Kirchenordnung, p.

XXXV-XLI. Eis, p. XXXV, a opinião de Mons. Rahmani sobre a origem dos cânones de Hipólito: Qui canones Hippolyti attente inspiciet, facile deprehendet auctorem seu compilatorem ipsorum hominem fuisse vulgarem, parum sollicitum de ordine canonum logico, quem contra turbavit, alios ipsis inserendo extra rem vagantes. Ex collatione autem eorumdem canonum cum canonibus ecclesiasticis (Aegyptische Kirchenordnung) evidenter apparet illos ex his originem ducere atque pseudo-Hippolytum minus apte quaedam contraxisse, alia praetermisisse, nonnulla depravasse, plura etiam immutasse atque accommodasse recentiori usui sero tempore vigenti.

Terminemos com o juízo do mesmo prelado sobre a dissertação de M. Achelis: Ad suas assertiones probandas modo gratis asserit quamplures inter hippolytanos canones esse adscititios, quos uncinis includit, modo ambiguas et obscuras quasdam sententias non ex contextu aut locis respondentibus canonum ecclesiasticorum explicat, bene vero pro falsa quam sibi confinxit opinatione de constitutione pristinae Ecclesiae ipsiusque ritibus et disciplina; tandem haud raro ipsa menda, quae incuria amanuensis vel negligentia interpretis fudit, tanquam argumenta assumit atque urget, p. XXXV.

M. A. Baumstark estudou os textos orientais paralelos ao l. VIII das Constituições no Oriens christianus, Roma, 1901, p. 98-137, e resulta, pelo menos segundo o seu parecer, que o Testamentum D. N. J. C. não é a fonte da Aegyptische Kirchenordnung e que os cânones de Hipólito não podem, eles também, ser a fonte desta ordenança. Cf. Funk, Zu achten Buch der Apostolischen Konstitutionen und den verwandten Schriften, na Theol. Quartalschrift, 1902, n. 2, p. 234. Finalmente, M. Funk nunca variou na sua opinião. Quaisquer que sejam as fontes empregadas pelo redator do l.

VIII das Constituições, ele sustenta que todos os textos paralelos conservados, e produzidos atualmente, provêm deste l. VIII. Ele faz notar que o Epitome, que concorda quase sempre com o l. VIII, abandona-o contudo por ocasião do leitor, e concorda com a Aegyptische Kirchenordnung; é, portanto, um texto intermediário. Por conseguinte, a primeira obra é o l. VIII das Constituições, um extrato desta obra constitui o Epitome, o qual, retrabalhado, produziu a Aegyptische Kirchenordnung e os cânones de Hipólito. Quanto ao Testamentum, é o último escrito do ciclo. Funk, Das Testament unseres Herrn und die verwandten Schriften, Mogúncia, 1901.

Estas contradições entre os diversos autores mostram, pelo menos, como escrevia M. H. Achelis, Realencyclopädie, 3ª ed., t. 1, p. 737, que « a questão das fontes não está terminada em todos os pontos ». Todo espírito unitário será seduzido pela teoria muito coerente de M. Funk, que reconduz todos os textos à unidade no l. VIII das Constituições.

Não desagrada crer que o redator deste livro (idêntico ao redator dos sete primeiros) ter-se-ia limitado, após um exórdio, c. I-III, a fundir e a atribuir aos diversos apóstolos o ordinal, a liturgia e o ritual de sua Igreja (provavelmente da Igreja de Antioquia); sua obra teria sido, em seguida, recortada em pedaços. Citemos, como exemplo inédito, a compilação do l. VIII que está contida no manuscrito grego n. 364 de Paris, fol. 81-86. Esta compilação é dividida em 45 cânones: can. 1-48, c. xxxiii, do l. VIII, 19-29; c. xxxiii-xxxiv; 30 a 33, c. XLII-XLVI, linha 7, ἀποστόλων ..., col. 1149; 34, c. IV; 35, c.

XVI até a linha 5, διακόνων, col. 1143; 36 e 37, c. XXX-XXXI; 38-45, c. XXXVII-XXXVIII. Após estes 45 cânones vêm "cânones dos santos apóstolos para que os bispos não transgridam as ordens do Senhor"; trata-se do c. XLVI desde as primeiras linhas já encontradas mais acima até à linha 27 da col. 1153, καὶ ἀναγνῶσται; depois 28 cânones περὶ ἐπισκόπων ἐκ τῶν διατάξεων. Estes últimos provêm de toda parte. O início é inspirado nas Constituições apostólicas, l. II, c. LVII. É feliz que esta compilação não tenha sido parafraseada em árabe, pois teria aumentado ainda mais o imbróglio. Muitos preferirão ver no l.

VIII das Constituições uma justaposição do Epítome grego que farão remontar ao próprio santo Hipólito, de dois capítulos sobre os carismas do mesmo autor e de uma liturgia cuja fonte procurarão em Roma e em Antioquia. Outros, enfim, procurarão os escritos originais nas traduções orientais e serão levados, dada a pouca segurança que oferecem essas traduções, a decompô-los em camadas sucessivas das quais a mais antiga será atribuída a santo Hipólito. É o que acaba de fazer o Sr. E. von der Goltz com o auxílio da versão etíope dos cânones eclesiásticos (cânones coptas-árabes 1-71 (ou 1-78), ver CANONS DES APOTRES, t. II, col. 1612-1615).

Esta versão etíope foi publicada e traduzida por G. Horner, The statutes of the apostles or Canones ecclesiastici, Londres, 1904, ao mesmo tempo que o texto e a tradução das versões copta e árabe. Dom de Bruynes expõe na Revue bénédictine, 1906, p. 422-429, as hipóteses do Sr. von der Goltz sobre os pretensos escritos de Hipólito e as considera, com razão, prematuras. Recomendamos a estes últimos espíritos a edição do cardeal Pitra, Juris eccles. greci hist. et monumenta, Roma, 1864, t. 1, que desmembra o l. VIII em três ou quatro partes. Encontra-se primeiramente, p. 48-75: Constitutiones de mystico ministerio.

É a peça περὶ χειροτονιῶν que muitos manuscritos e versões atribuem explicitamente a santo Hipólito; é, ao mesmo tempo, o Epítome grego, cujo conteúdo indicamos mais acima. Quando os textos do l. VIII e do Epítome apresentam notáveis diferenças, o cardeal Pitra publica ambos em colunas paralelas. Muito mais adiante, p. 386, encontramos, ao final da edição das Constituições apostólicas, o que resta do l. VIII quando se retirou a peça precedente. Este resto ainda é dividido em duas ou três partes. Encontra-se primeiramente, p. 386: Pars prior. De donis spiritualibus. São os c.

I-III ou a peça dos carismas que não é atribuída a santo Hipólito em nenhum manuscrito, mas que lhe atribuem, todavia, porque parece ter composto uma obra com este título. Enfim, encontra-se, p. 393: Pars posterior; esta parte é impressa em caracteres pequenos e compreende primeiramente Sancti Andreae apostoli liturgia catechumenorum, fim do c. V desde καὶ μετὰ, col. 1076, depois os c. VI-XI. Vem em seguida (sempre em caracteres pequenos) Anaphora sancti Jacobi apostoli, depois os c. XL-XLV, XXXVII-XLII. Pitra adverte, aliás, em nota que esta anáfora não é de são Tiago e difere daquela que é conservada em outra parte sob seu nome. Enfim, o c.

XLVI por inteiro, impresso em caracteres ordinários, encerra a publicação. O cardeal Pitra dele dera apenas as sete primeiras linhas até ἀποστόλων (como muitos manuscritos, em particular o Coislin 211), em sua edição do περὶ χειροτονιῶν, p. 40-70.

3º Época e pátria do compilador. — O Sr. Funk funda suas pesquisas nas festas mencionadas ou não no l. VIII das Constituições. De acordo com a data de sua introdução conhecida por outra via, ele é levado a situar a redação deste l. VIII no início do século V. Aliás, a liturgia aproxima-se muito da de Antioquia. Além disso, o autor associa Evódio com Clemente e Tiago; pode-se, portanto, crer que ele quis mencionar o primeiro bispo de seu país, isto é, de Antioquia. Funk, p. 164. A compilação teria, portanto, sido feita na Síria e não em Jerusalém, p. 165.

4º Sua escola teológica. — O Sr. Funk aponta, p. 165-167, algumas expressões que lembram a terminologia ariana e mostra que elas não podem, contudo, provir de um ariano. Não há, portanto, nenhuma oposição entre este livro e os sete precedentes: encontra-se, inclusive, a mesma pátria, a mesma época e as mesmas tendências teológicas. O Sr. Funk aprofundou, aliás, a comparação.

5º Comparação do l. VIII com os sete primeiros. — O aspecto do l. VIII, parcelado muito frequentemente em cânones pronunciados pelos diversos apóstolos, é bem diferente daquele que apresentavam as longas tiradas — na maioria das vezes anônimas — dos primeiros livros, mas esta diferença deve-se às fontes empregadas e não pode, portanto, ser imputada ao último redator.

É por falta de ter feito esta distinção que Drey e Krabbe consideravam o compilador do l. VIII como diferente do compilador dos sete primeiros. Funk, p. 168-169. As poucas contradições que se quis estabelecer entre estas duas partes são fáceis de explicar, Funk, p. 169-173; aliás, numerosos pontos de contato, Funk, p. 174-178, mostram que o l. VIII foi compilado pelo mesmo autor que os sete primeiros. É este mesmo autor que interpolou também as cartas de santo Inácio. Tal é também a opinião do Sr. Harnack, Altchrist. Literatur, Leipzig, 1893, p. 542, 777, e do Sr. Batiffol, La littérature grecque, Paris, 1898, p. 200-201. V. CONCLUSÃO. — Após ter decomposto ou desmembrado as Constituições apostólicas em suas diversas partes, terminamos, portanto, por concluir que elas formam um só todo, uma vez que é o mesmo interpolador que reuniu e completou os oito livros.

Ele não tinha por objetivo defender uma doutrina ou uma escola teológica, mas apenas, ao que parece, fundir os diversos documentos conhecidos por ele que supostamente remontavam aos apóstolos. Ele não se limitou a transcrevê-los, mas deu deles o que chamamos agora de uma nova edição, adaptando-os um pouco, por supressões e adições, ao estado da Igreja em sua época. Por vezes também, ele se servia de seu conhecimento da Escritura sagrada e de sua erudição para completar as considerações de seus predecessores.

Sua fidelidade relativa nos permite vislumbrar, através de sua edição, o estado da Igreja no século III e no século IV, assim como seu cuidado com a atualização nos apresenta, graças às suas adições e supressões, o estado da Igreja no início do século V. As fontes dos seis primeiros livros e da primeira metade do VII são conhecidas; o fim do l. VII e o VIII prestar-se-ão ainda por muito tempo como objeto de controvérsias. I. EDIÇÕES. — As antigas edições e traduções estão indicadas em Fabricius, Bibliotheca græca, edit. Harles, t. VI, p. 24-26, assim como os principais manuscritos, p. 26-28.

As edições mais recentes são citadas em Batiffol, La littérature grecque, Paris, 1898, p. 200. A edição princeps tem por título: Διαταγαὶ τῶν ἁγίων ἀποστόλων διὰ Κλήμεντος τοῦ Ῥωμαίων ἐπισκόπου τε καὶ πολίτου καθολικὴ διδασκαλία διὰ πρώτου ὄντω [Constitutiones sanctorum apostolorum doctrina catholica a Clemente romano episcopo et cive scripta libris octo], Francisci Turriani prolegomena et explanationes apologeticæ in easdem constitutiones, Veneza, 1563. Após os prolegômenos em grego que compreendem sobretudo os testemunhos antigos e a indicação dos três manuscritos utilizados, 1-48, encontra-se, grosso modo, o texto conhecido, fol.

4-464, os dois primeiros capítulos do l. VII são divididos de outra forma que em Migne. Encontram-se também alguns erros de impressão na numeração dos capítulos, depois, ao fim do c. xvi, o editor acrescenta Κανόνες ἐκκλησιαστικοὶ τῶν αὐτῶν ἁγίων ἀποστόλων, com os cânones dos apóstolos em número de 75. Os escólios em grego ocupam em seguida os fol. 165-195. A primeira tradução por Bovio era intitulada: De Constitutionibus apostolicis, B. Clemente romano auctore, libri octo, nunc primum e tenebris eruti et ad orthodoxam fidem astruendam apprime utiles, in-4°, Veneza, 1568.

Em 1564, fizeram-se desta tradução duas edições in-4° em Lyon e em Antuérpia, e uma edição in-8° em Paris. Torres publicou ele mesmo uma tradução latina com escólios e observações em Antuérpia, em 1578. O texto e a tradução de Torres foram reproduzidos por Mansi, Concil., Florença, 1759, t. I, col. 257-596; o editor adverte que estas Constituições não são dos apóstolos, mas de um escritor que florescia pelo menos no século IV, col. 258. A edição de W. Whiston com tradução inglesa ocupa o t. I de Primitive Christianity Reviv’d, Londres, 1711.

Encontrar-se-ão mencionadas em Fabricius as edições de Fronton-le-Duc, Labbe, Gallandi e a excelente edição de Cotelier, Paris, 1672, com suas reimpressões. É esta que é reproduzida em Migne. O Sr. Batiffol menciona a de P. de Lagarde (Boetticher) e nós demos a conhecer mais acima a de Pitra. Acrescentemos que o Sr. Funk, para sua edição, pôde utilizar os três manuscritos de Torres que são Vatic., 838, 2088 e 1056 ou 2089; ele levou em conta, aliás, todos os manuscritos assinalados e deu no t. I as Constituições seguidas dos cânones dos apóstolos e no t. II os textos paralelos ao l. VIII e as pequenas ordenações atribuídas aos apóstolos. II.

TRABALHOS. — Seguimos sobretudo F. X. Funk, Die Apostolischen Konstitutionen, Rottenbourg, 1894. Esta obra contém uma curta bibliografia, p. VI-VII, e uma história completa do texto e das controvérsias, p. 1-27. Lembremos Jean Daillé, De pseudepigraphis apostolicis seu libris octo Constitutionum apostolicarum apocryphis libri III, Harderwick (Guéldria), 1653; J. S. Drey, Neue Untersuchungen über die Konstitutionen und Kanones der Apostel, Tubinga, 1832; O. Krabbe, Ueber den Ursprung und den Inhalt der Apostolischen Konstitutionen des Clemens Romanus, Hamburgo, 1829; H.

Achelis, Die Canones Hippolyti, Leipzig, 1891, em Texte und Untersuchungen de von Gebhardt e Harnack, t. VI, fasc. 4. Ver também a maioria dos autores citados em CÂNONES DOS APÓSTOLOS, t. II. Acrescentemos F. X. Funk, Das Testament unseres Herrn, Mogúncia, 1901; Zum achten Buch der Apostolischen Konstitutionen und den verwandten Schriften, em Theolog. Quartalschrift, 1902, p.

223-236; Das achte Buch der Apostolischen Konstitutionen in der koptischen Ueberlieferung, ibid., 1904, p. 429-442; Die Aegyptische Kirchenordnung, ibid., 1906, p. 1-27; Bardenhewer, Les Pères de l'Eglise, Paris, 1898, t. I, p. 47-51; J. Leipoldt, Sahidische Auszüge aus dem VIII Buche der Apost. Konstit., Leipzig, 1904, dans Texte und Untersuch., t. XXVI, fasc. 1b, tradução alemã dos cânones eclesiásticos 63 a 78 segundo a edição de Lagarde, ver t. II, col. 1615, com complementos tirados de um manuscrito copta de Paris; E. von der Goltz, Unbekannte Fragmente altchristlicher Gemeinde Ordnungen, dans Sitzungsberichte der kön.-Preuss.

Akademie der Wissenschaften, 1906, p. 141-157; Die Taufgebete Hippolyts und andere Taufgebete der alten Kirche, dans Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1906, p. 1-27; P. Drews, Untersuchungen über die sogen. Clementinische Liturgie im VIII Buch der apostolischen Konstitutionen. 1. Die Clementinische Liturgie in Rom, Tubingue, 1906. Ver também os artigos de Realencyclop. für prot. Theologie, 3ª ed., t. I (por H. Achelis); A religious encyclopaedia, de Ph. Schaff, Edimburgo, 1883, p. 116; Kirchenlexikon, Friburgo em Brisgóvia, 1884, t. II (por Funk). VI. OUTROS ESCRITOS DE MESMO NOME.

— 1° A Constituição apostólica ou Apostolische Kirchenordnung, ver t. I, col. 1613. 2° A Constituição eclesiástica egípcia ou Aegyptische Kirchenordnung, ver t. II, col. 1615. 3° A Constituição dos santos apóstolos: διατάξεις τῶν ἁγίων ἀποστόλων. Este texto recente e sem grande importância é analisado por Pitra, Juris eccl. Græcorum historia et monum., Roma, 1864, t. I, p. 421, segundo o manuscrito 2072 do Vaticano. Encontra-se também no Parisinus 929, fol. 480-502. Reproduzimos e completamos, com a ajuda deste manuscrito 929, a análise que o cardeal Pitra forneceu dele.

Após a ascensão do Salvador, os apóstolos jejuam durante quarenta dias no vale de Josafá. Depois, Pedro pergunta ao Senhor qual será a recompensa daquele que observa a quaresma. Paulo pergunta qual será a pena dos fornicadores e dos sodomitas. André pergunta qual é «o valor» dos sete dias. O anjo responde-lhe que não se deve trabalhar no domingo e que se deve jejuar e rezar na quarta-feira e na sexta-feira. Tiago pergunta qual é a recompensa daquele que observa a quarta-feira e a sexta-feira. Quando a alma entra no céu com os anjos, a quarta-feira e a sexta-feira vêm ao seu encontro e dizem-lhe: Salve, nossa amiga.

Bartolomeu pergunta qual será a recompensa daqueles que renunciam aos bens e os dão aos pobres. Tomé interroga sobre o clérigo que abandona a Igreja, os padres bígamos, etc. Ai daquele que não guarda a noite do santo domingo (desde o sábado à noite). Bartolomeu pede para conhecer os mistérios do Pai. Expõe-se-lhe a criação dos anjos, a ordem dos sete céus e a criação do homem. Miguel, Gabriel e todos os seus anjos adoraram o homem, obra de Deus; mas Satanael recusou-se a inclinar-se diante do homem saído do lodo e foi precipitado no abismo com os seus.

Filipe pergunta por que os homens serão julgados e o Salvador faz-lhe um quadro dos crimes que são cometidos.

Lucas, Mateus, Marcos e Tadeu querem conhecer a punição dos pecadores; uma nuvem leva-os para junto dos supliciados; Mateus vê um diácono que tem as mãos e os olhos queimados e o fogo sai da sua boca: é um diácono que abandonou a sua mulher, tomou outra e não cessou de ler o Evangelho.

Depois, «o demiurgo» impõe as mãos aos apóstolos e diz-lhes: «Regozijai-vos, meus irmãos queridos, recebei o Espírito Santo e ide ensinar todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, agora e sempre.» Como escreve Pitra: Sic, multis locis ad Constitutiones respicientibus, clauditur satis insulsa et omnium fortasse quæ supersunt maxime inconcinnata Didascalia. 4° Περὶ τῆς ἐπιφανείας τοῦ κυρίου ἐκ τῶν ἀποστολικῶν διαταγμάτων (ou ), sobre o nascimento do Senhor segundo as Constituições apostólicas. Nesta pequena peça, publicada por Cotelier, P. G., col. 517, Nosso Senhor teria nascido no dia 29 de chihac (dezembro) à sétima hora do dia; teria morrido no dia 23 de phamenoth (o 29 no ms. 7555 A, fol. 484), na sexta-feira à mesma hora, no décimo quarto dia da lua. M. Funk escreve, Ein Fragment zu den Apostolischen Konst., dans Theol. Quartalschrift, 1908, p. 195-202, que se quis erradamente fazer remontar este fragmento à Didascalia. É sem dúvida um desenvolvimento das Constituições apostólicas, l. V, c. XVIII-XIX, e l. VIII, c. XXXIII, para estabelecer a data de certas festas e não um fragmento de uma obra importante.

Não pode ter sido composto, no mais cedo, senão na segunda metade do século V no Egito, pois utiliza os nomes egípcios dos meses. Com efeito, encontram-se ideias análogas perto do fim da Refutação de Eutychius (livro dos concílios) por Severo, bispo de Aschmounain, Patrologia orientalis, t. III, fasc. 2, p. 222-295. As datas fornecidas pelos diversos manuscritos não estão sequer de acordo entre si.

Autor original: F. Nav

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