VIII. CONFIRMAÇÃO NA IGREJA ANGLICANA. — I. É ela um sacramento? II. Matéria e forma. III. Efeitos. IV. Ministro e sujeito. V. Ofício da confirmação.
I. É ELA UM SACRAMENTO? — 1° A confirmação não é um sacramento no sentido estrito da palavra. A Igreja anglicana não admite senão dois sacramentos: o batismo e a comunhão; e seus teólogos, embora reconhecendo que Nosso Senhor instituiu «um sinal exterior e visível de bênção», ao impor ele mesmo as mãos sobre as crianças que lhe apresentavam e sobre seus apóstolos, recusam-se a ver neste fato uma prova evidente da confirmação. Este rito, todavia, como um sacramento, confere a graça por intermédio de um sinal exterior. Assim, o bispo Cosin, Works, Oxford, 1855, t. v, p. 142, não recusa dar-lhe o título de sacramento, no sentido de sinal exterior e visível de uma graça interior e espiritual.
Mas, como falta à confirmação a certeza da instituição por Cristo e como ela não é necessária para a salvação, é mantida fora do número dos sacramentos. Contudo, o Rev. Kidd, The Thirty-nine Articles, Londres, 1899, p. 209-244, observa que as razões dadas no art. 25, § 8, para excluir a confirmação, a penitência, a extrema-unção, a ordem e o matrimônio da lista dos sacramentos não procedem no que diz respeito à confirmação. Ela não decorre, com efeito, de uma má imitação dos apóstolos, já que a Igreja da Inglaterra a conserva segundo o exemplo mesmo dos santos «apóstolos»; é muito menos ainda «um estado de vida» como a ordem e o matrimônio. Há aí algo de novo, e o Rev. Kidd não é o único testemunho de uma transformação tão importante. O Rev. Wordsworth, bispo de Salisbury, publicava em 1901 uma brochura, onde, considerando a confirmação como o complemento natural do batismo, chamava-a de um rito sacramental. Teaching of the Church of England, 2ª ed., Londres, p. 18, 29. O tempo talvez não esteja longe em que a confirmação retome na Inglaterra o lugar que lhe é devido entre os sacramentos.
II. MATÉRIA E FORMA. — O sinal exterior e visível pelo qual é conferida a graça da confirmação é atualmente a imposição das mãos do bispo. Nos antigos manuais e pontificais da Igreja da Inglaterra, antes da Reforma, era a unção. A unção constituía então, por si só, a matéria do sacramento, e não havia imposição das mãos distinta. Segundo o Pontifical de Egbert, arcebispo de York (cerca de 700), o bispo, ungindo com bálsamo a fronte do candidato, pronunciava estas palavras: «Recebe o sinal da santa cruz pelo crisma da salvação em Jesus Cristo, para a vida eterna.» A fórmula do rito de Salisbury era idêntica à do Pontifical romano: «N., eu te sinalizo com o sinal da cruz, e te confirmo com o crisma da salvação, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Assim seja.»
A reforma inglesa pretendeu fazer reviver a prática primitiva e escriturística: em 1549, no primeiro Prayer Book inglês, a unção e o sopro sobre a face foram suprimidos, e não restou dessa prática, até 1552, senão o sinal da cruz sobre a fronte, e a oração que segue a crismação. Estes últimos vestígios da unção caíram por sua vez em 1552. Contudo, uma regra adotada pela Igreja da Escócia, em 1890, sanciona o uso do sinal da cruz. A imposição das mãos substituiu a unção suprimida: o bispo, colocando a mão sobre a cabeça de cada criança separadamente, deve recitar esta oração: «Protege (defende), ó Senhor, por tua graça celeste, esta criança (ou este servo) que te pertence, a fim de que continue a te pertencer para sempre, e que cada dia cresça em teu Espírito Santo, até que chegue ao teu reino eterno.»
Mas durante muito tempo, enquanto as cerimônias eram cumpridas apressadamente, o ministro se contentava em colocar uma mão sobre a cabeça de cada candidato, depois, sobre todos juntos, com as mãos estendidas, ele recitava a oração: Protege (defende), ó Senhor... Não é mais assim atualmente. Há uns trinta anos já, o bispo de Londres fazia alinhar os candidatos em longa fila, diante dele, como para a recepção da santa comunhão. Ele passava então diante deles, impondo-lhes uma mão a cada um, e recitando a oração: Protege, ó Senhor... Esta prática tornou-se quase universal, e talvez seja esta uma das razões que contribuíram para a criação ou o aumento dos bispos coadjutores em quase todas as dioceses. Há, contudo, algumas exceções, em Cantuária, por exemplo, onde o coadjutor do arcebispo confirmava ainda, há alguns anos, dois candidatos de cada vez; ele impunha primeiro as duas mãos sobre cada um deles, sem dizer nada, depois uma mão sobre a cabeça de cada candidato, ao recitar a oração.
III. EFEITOS. — Nenhuma definição formal dos efeitos da confirmação foi dada seja no catecismo, seja nos artigos da Igreja anglicana. E isso é feliz. «Devemos, escreve o cônego Mason, bendizer a providência divina por isso. Com efeito, na época em que a confirmação era tratada por reformadores todo-poderosos como uma ratificação voluntária dos compromissos tomados na infância, e quando muitos, mesmo na Inglaterra, esforçavam-se por empregar uma linguagem semelhante, ela nos conservou inteira a oração que precede a imposição das mãos, guardando-nos assim de qualquer outra expressão que estivesse em desarmonia com esta oração.» The relations of confirmation to baptism, 2ª ed., Londres, 1893, p. 425-426.
São as orações e as cerimônias da confirmação que nos permitirão determinar de maneira precisa quais são seus efeitos. A imposição das mãos, sinal exterior da graça, na confirmação, é-o também na ordem, e esta analogia entre os dois ritos prossegue em seus efeitos. A confirmação é uma espécie de ordenação inferior, pela qual o batizado recebe o dom do Espírito Santo para a obra da vida cristã; ela dá a graça que confere esse sacerdócio leigo de que fala são Pedro. I Pet., II, 9. Um dom especial do Espírito Santo é assim concedido ao confirmado que se torna participante do Espírito de Deus. No catecismo de Seabury (1791), os efeitos da confirmação, considerada como complemento do batismo, são assim marcados: «No batismo, o Espírito Santo nos purifica e nos dispõe para sermos um templo; na confirmação, ele entra em seu templo e toma posse dele.» A mesma ideia é expressa pelo bispo Wilson, em seu Sacra privata, Oxford, 1854, p. 109: «A confirmação é a perfeição do batismo: o Espírito Santo desce invisivelmente sobre aqueles que estão bem preparados para receber tal bênção...
» Finalmente, durante a administração do sacramento, o ministro, antes de impor as mãos sobre cada confirmando, reza ao Deus todo-poderoso e eterno que se dignou a regenerar os seus servos pela água e pelo Espírito Santo, e lhes concedeu o perdão de todos os seus pecados, para «os fortalecer pelo Espírito Santo consolador (conforter), para aumentar neles a cada dia os dons múltiplos da sua graça: o espírito de sabedoria e de inteligência, de conselho e de força espiritual, de ciência e de verdadeira piedade, para enfim revesti-los do espírito do seu santo temor, agora e para sempre.»
IV. MINISTRO E SUJEITO. — O ministro da confirmação é o bispo. O 60º cânone exige que este rito seja administrado a cada três anos, durante a visita episcopal; mas há poucas dioceses onde os bispos não vejam a necessidade de administrá-lo mais frequentemente.
Para ser confirmado, é preciso ter sido batizado e ter chegado à idade da discrição. A Igreja da Inglaterra não determinou explicitamente a idade na qual as crianças poderiam ser admitidas a receber este sacramento. De acordo com o 61º cânone, o bispo deve impor as mãos sobre as crianças que atingiram a idade em que podem prestar contas da sua fé segundo o catecismo contido no Book of common prayer. Por outro lado, o cânone 112º exige que toda pessoa tenha comungado antes da idade de 16 anos; e, na Igreja anglicana, para aproximar-se da santa mesa, é preciso ter sido previamente confirmado. Isso eleva, portanto, a idade requerida para a confirmação entre 13 e 16 anos.
A questão da idade requerida para ser admitido à confirmação é ainda um dos pontos onde se faz sentir vivamente o retorno à prática primitiva da Igreja. É o que reclama o Rev. Holloway, The confirmation and communion of infants, Londres, 1901. E, no prefácio que escreveu para esta obra, lorde Halifax atrai a atenção sobre este ponto: «O autor, diz ele, pede que, até que a antiga disciplina da Igreja possa ser restabelecida, o que é muito desejável, faça-se um retorno franco e honesto à instrução evidente dos reformadores, tais como o bispo Thomas Bentham (em 1565) e o bispo Jeremy Taylor (em 1664): eles desejavam que as crianças fossem confirmadas enquanto ainda estavam em estado de inocência, isto é, entre 5 e 7 anos.» P. xx-xxi, cf. p. 45, 114.
V. OFÍCIO DA CONFIRMAÇÃO. — O ofício da confirmação no Book of common prayer compreende duas partes: um catecismo, ou «instrução a ser aprendida por toda pessoa antes de ser apresentada à confirmação»; e a ordem da confirmação, ou «imposição das mãos sobre aqueles que são batizados e chegaram à idade da discrição». O catecismo é uma preparação e deve, naturalmente, ser aprendido durante o período que precede a administração deste rito. Mas, antes de impor as mãos, o ministro deve certificar-se de que todos os candidatos podem dar uma resposta suficiente a todas as questões nele contidas. É uma espécie de renovação das promessas feitas no batismo pelos padrinhos e madrinhas do confirmando, e que ele próprio deve confessar e ratificar solenemente.
A explicação do Credo, do Pai-Nosso e dos 10 mandamentos constitui o fundamento deste catecismo; a ele foi acrescentada uma primeira parte sobre a natureza e a aliança cristãs, e uma quinta sobre os sacramentos. Daí estas cinco partes: relações entre Deus e o cristão, fé, oração, deveres e graça. Este catecismo já se encontrava no Book of common prayer de 1549; foi atribuído a diferentes autores: Alexandre Nowel, segundo mestre da Westminster School, quando o Book of common prayer estava em preparação; Poynet, bispo de Rochester em 1550; Goodrich, bispo de Ely. Este último é o autor dos «deveres para com Deus e deveres para com o próximo», gravados na parede de uma galeria que ele mandou construir. É provável que se deva a ele o resto da obra. A última parte, acrescentada por ordem do rei Jaime I após a «Hampton court Conference», foi escrita pelo bispo Overall (então deão de Saint-Paul) e aprovada pelos bispos por volta de 1620. Cosin, Notes, p. 491.
A administração da confirmação começa por um prefácio, no qual um clergyman recorda a obrigação imposta pela Igreja ao confirmando de saber o Credo, a oração dominical e os 10 mandamentos. Este prefácio é seguido da renovação das promessas e compromissos do batismo. Numa primeira oração, o bispo reza a Deus para derramar o seu Espírito consolador sobre os candidatos: o espírito de sabedoria e de inteligência, de ciência e de piedade, de conselho e de força, de temor de Deus. É uma oração muito antiga: encontra-se nos Sacramentários gregoriano e gelasiano, no tratado de Santo Ambrósio sobre os sacramentos. Egbert, arcebispo de York, tinha-a inserido no seu Pontifical, e ela é empregada no rito romano.
Após esta oração, ocorre a imposição das mãos sobre a cabeça de cada um dos candidatos ajoelhados diante do bispo. O ministro recita então a oração: «Défends, O Lord...,» seguida do Pai-Nosso e de duas curtas orações. A cerimônia termina com a bênção episcopal. J. H. Blunt, The annotated Book of common prayer, Londres, 1890; A. J. Mason, The relations of confirmation to baptism, 2ª ed., Londres, 1893, p. 425-432; H. Holloway, The confirmation and communion of infants, Londres, 1901; T. Field, A manual for confirmation, Londres, 1901; A. C. A. Hall, Confirmation, Londres, 1902.
Autor original: L. Marchat
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