CONFIRMAÇÃO ENTRE OS PROTESTANTES

CONFIRMAÇÃO ENTRE OS PROTESTANTES

IX. A CONFIRMAÇÃO ENTRE OS PROTESTANTES. — I. Os precursores. II. Igrejas luteranas. III. Igrejas reformadas.

I. OS PRECURSORES. — O calvinista Jean Daillé, De duobus latinorum ex unctione sacramentis, c. XVII, Genebra, 1659, p. 415, faz remontar aos valdenses a primeira oposição doutrinária levantada sobre o sacramento da confirmação contra os "dogmas novos" da Igreja Católica. O protestantismo tenta, além disso, vincular suas doutrinas às de Wiclef e de Jean Hus, com o objetivo de criar assim uma tradição que possa se afirmar vitoriosamente contra a tradição romana. Mas nada legitima esses esforços e é preciso reconhecer, se exceptuarmos, todavia, algumas declarações heterodoxas, isoladamente formuladas pelos albigenses, que os protestantes foram os primeiros a rejeitar sistematicamente o antigo ensinamento da Igreja.

Se os valdenses rejeitavam o uso do santo crisma, não reprovavam, contudo, o sacramento em si mesmo, cf. Pierre de Pilichdorf, Contra heresim Waldensium, em Max. bibliotheca Patrum vet., Lyon, t. XXV, p. 277, e os albigenses ou cátaros conservavam zelosamente o rito da imposição das mãos que conferia aos seus adeptos o espírito de consolação e de verdade. Manus impositio vocatur ab eis consolamentum et spirituale baptisma, sive baptisma Spiritus Sancti, sine quo secundum eos nec peccatum mortale dimittitur nec Spiritus Sanctus alicui datur; sed per eam solummodo ab eis factam utrumque confertur. Reynier, Contra Waldenses, ibid., p. 268. Ver Alain de Lille, Contra heret., l. I, c. XXVI, P. L., t. CCX, col. 369.

Quanto a Wicleff e aos hussitas, o concílio de Constança, que condenou suas doutrinas, não assinala sobre este ponto, como formulada por eles ou ao menos pelos wicleffitas, senão um erro concernente à administração do sacramento na Igreja romana. Confirmatio juvenum, clericorum ordinatio, locorum consecratio reservantur papæ et episcopis propter cupiditatem lucri temporalis et honoris. Decreta Martini V et concilii Constantiensis; Articuli 45 Joannis Wicleff damnati, a. 28, Denzinger, n. 507.

Quis-se igualmente fazer remontar aos novacianos a doutrina protestante. Mas Novaciano nada inovou sobre este ponto: tendo recebido o batismo durante uma grave doença, negligenciou apenas apresentar-se depois ao bispo para receber a confirmação, Eusébio, H. E., l. VI, c. XLIII, P. G., t. XX, col. 623, e seus sectários fizeram para si uma lei de imitar este exemplo. Teodoreto, Hæretic. fabul., l. III, c. V, P. G., t. LXXXIII, col. 407. Esta é a razão pela qual vários concílios prescreveram aos bispos impor as mãos seguindo o rito da confirmação aos novacianos convertidos, como era, de resto, o costume de fazer para os outros heréticos. Cf. Liberii et Siricii decreta de baptismo hæreticorum, Denzinger, n. 21.

II. IGREJAS LUTERANAS. — Logicamente, em virtude de suas teorias sobre a justificação pela fé e o sacerdócio universal, Lutero deveria ser levado a rejeitar os sacramentos da Igreja e, em particular, a confirmação, que nada pode mais justificar neste bouleversamento radical das doutrinas. Seu pensamento, a princípio impreciso, não tarda, sob o impulso dos acontecimentos, a se afirmar com audácia. Mas nota-se com que cuidado, no início, Lutero se esforça por velar sua marcha e, sacrificando a coisa, a salvaguardar, diante do povo, as aparências.

Em 1520, no sermão sobre o Novo Testamento, isto é, sobre a santa missa, ele explica aos seus ouvintes que é preciso manter no número dos sacramentos o sacrifício da missa, no mesmo título que o batismo, a confirmação, a penitência e a extrema-unção, als die ander sacrament, tauf, fermel, puss, ölung. Ein sermon von dem neuen Testament, Opera, edição de Weimar, t. VI, p. 867. No mesmo ano, no Prelúdio ao cativeiro da Babilônia, ele começa por reduzir "presentemente" a três o número dos sacramentos e adivinha-se bem, com efeito, que isso não é mais que um prelúdio. Principio neganda mihi sunt septem sacramenta et tantum tria pro tempore ponenda, baptismus, pænitentia, panis. De captiv. babyl., Weimar, t. VI, p. 501.

A confirmação é renegada antes de tudo. É verdade que os apóstolos impunham as mãos aos fiéis para lhes conferir os dons do Espírito; mas as graças que estavam ligadas a este rito eram carismas, graças extraordinárias, cuja lembrança a Igreja há muito tempo perdeu. Se os bispos conservaram preciosamente o direito de cumprir uma função análoga, é para elevar assim, pelo brilho de uma cerimônia puramente exterior, o prestígio de seu ministério e dar-se uma aparência de ocupação útil e séria. Atque utinam esset in Ecclesia talis manuum impositio qualis erat apostolorum... At nunc nihil ejus relictum, nisi quantum ipsi excogitavimus pro ornandis officiis episcoporum, ne penitus sint sine opere in Ecclesia. De confirmatione, ibid., p. 549.

Todavia, na véspera da dieta de Worms, inquieto com as consequências que poderiam resultar para ele destas declarações notadas como heréticas pelos teólogos do Santo Ofício ou das universidades de Colônia e de Lovaina, Lutero, em um memorial justificativo, volta sobre estas asserções para atenuar o alcance. Ele se queixa de que os inquisidores tenham desnaturado seu pensamento e o acusem de apagar do número dos sacramentos a confirmação, o matrimônio, a ordem e a extrema-unção, enquanto se limitava a eliminar, como controvertidas ou ineficazes, as provas escriturísticas habitualmente invocadas para estabelecer o caráter sacramental destes ritos, e especialmente da confirmação. Longe dele a intenção de culpar a prática destes sacramentos e a maneira pela qual são administrados atualmente na Igreja. Hec dixi non simpliciter negando, sed addidi quod secundum Scripturas sanctas sic res haberet, licet non damnem usum et morem in sacramentis Ecclesiae celebratum, Ibid., p. 608.

Mas nada obriga a ver na confirmação outra coisa que um rito eclesiástico, uma cerimônia sacramental análoga à consagração da água benta. Quare satis est pro ritu quodam ecclesiastico seu cerimonia sacramentali confirmationem habere ceteris cerimoniis consecrandæ aquæ aliarumque rerum. Ibid. Cf. de Wette, Luthers Briefe, t. 1, p. 574, 580. Ver sobre a doutrina de Osiander concernente à inhabitação do Espírito Santo. Christ. Koch, Disputatio inauguralis de interno Spiritus Sancti testimonio, Kiel, 1701, p. 85: Melanchthon, como a maioria dos teólogos ortodoxos, inspirou-se neste pensamento.

Assim, a Confissão de Augsburgo, embora negando todo caráter sacramental a este rito, abandona às diversas Igrejas o cuidado de proceder, seguindo as exigências ou o desejo das paróquias, à cerimônia da imposição das mãos. Th. Kolde, Die Augsburgische Konfession, part. I, c. xv, Gotha, 1896, p. 40.

A descida do Espírito Santo na alma é operada pela palavra evangélica, pelo sacramento do batismo e pela ceia. Ibid., c. v, p. 28. Cf. Die Marburger Artikel, ibid., p. 50. Quanto à cerimônia propriamente dita da confirmação, Mélanchthon reconhece que ela estava em uso na Igreja primitiva, mas consistia então essencialmente em um exame da doutrina cristã seguido de uma oração comum e da imposição das mãos. Confirmatio olim fuit exploratio doctrine in qua singuli recitabant summam doctrine, et ostendebant se dissentire ab ethnicis et hæreticis... Postea fiebat publica precatio, et apostoli imponebant eis manus. Loci communes, p. 48.

Esta opinião singular e de pura fantasia encontrou crédito no círculo dos primeiros reformadores, que tentaram conservar nas Igrejas, sob esta forma que parecia estar de acordo com seus princípios, o rito antigo do sacramento. Chemnitz fez-se o ardente apóstolo desta ideia. «Muitas vezes, diz ele, nossos mestres demonstraram que se podia, com piedade e para a edificação da Igreja, manter entre nós o rito da confirmação, desembaraçando-o das tradições inúteis, supersticiosas ou contrárias à Escritura.» Examen concilii Tridentini, Frankfurt am Main, 1578, p. 69.

Eis o ritual da cerimônia, tal como é exposto por Chemnitz:

1° Quando as crianças possuem os primeiros rudimentos da doutrina cristã, são apresentadas ao bispo, que lhes dirige, diante da assembleia dos fiéis, uma curta exortação sobre as obrigações e a profissão de fé de seu batismo.

2° Cada criança recita então publicamente, e em seu nome próprio, sua profissão de fé.

3° Segue-se uma série de interrogações sobre os pontos principais da doutrina, com as explicações necessárias.

4° O bispo adverte o confirmando que, por este testemunho público de sua fé, ele separa para sempre a sua causa daquela dos pagãos e dos heréticos, dos fanáticos e dos profanos.

5° Então, uma nova exortação é dirigida aos confirmandos, tão séria quanto possível e baseada na Escritura, gravis et seria exhortatio ex verbo Dei, sobre a necessidade de perseverar nesta doutrina e nesta fé e de afirmar-se pelo progresso realizado.

6° O povo pronuncia uma oração pelas crianças, a fim de que Deus, pelo seu Espírito Santo, digne-se governá-las, conservá-las e confirmá-las nesta profissão de sua fé.

7° A cerimônia poderia terminar com a imposição das mãos, mas fora de qualquer rito supersticioso. Tal prática não ofereceria senão vantagens para a edificação da juventude e de toda a Igreja; ela faria reviver, com o espírito das Escrituras, o antigo uso da Igreja. Ad quam precationem sine superstitione adhiberi posset impositio manuum... Talis ritus confirmationis valde multum utilitatis ad edificationem juventutis et totius Ecclesie conferret; esset etiam consentaneus et Scripture et puriori antiquitati. Examen concilii Tridentini, p. 69.

Era transformar em um rito religioso o ensino catequético, a exploratio doctrine adotada em certas Igrejas como uma restauração da confirmação primitiva. Cf. Confessio Saxonica, c. xix, e Confessio Wurtembergica, De confirmatione, em Corpus et syntagma Confessionum fidei, Genebra, 1654, p. 116, 152.

O empreendimento era árduo. A esses esforços renovados por vários chefes da Reforma para perpetuar um rito que guardasse da confirmação antigamente recebida o nome e a aparência, a maioria das comunidades opôs uma indiferença que nada foi capaz de vencer. É preciso excetuar, contudo, as Igrejas da Pomerânia e de Brandemburgo que, desde a origem, adotaram este uso. Aliás, os teólogos continuavam a tornar odioso ao povo este sacramento dos papistas, onde não viam senão magia, encantamentos e exorcismos, cf. Balthasar Meisner, Doctrina orthodoxa de sacramentis Veteris et Novi Testamenti, disp. VIII, Frankfurt e Wittenberg, 1708, p. 76 sq., e a maioria dos catecismos em uso nas Igrejas rejeitava pura e simplesmente a confirmação. Cf. Wurtembergische Katechismen, nomeadamente o catecismo de Brenz, 1551, em Reu, Quellen zur Geschichte des kirchlichen Unterrichts in den evangelischen Kirchen Deutschlands zwischen 1530 und 1600, Gütersloh, 1904, t. 1, p. 840; Bayerische Katechismen, Nurembergue, 1533, ibid., p. 547.

O povo cingia-se naturalmente aos termos destas instruções e considerava com desconfiança uma instituição que guardava toda a aparência das velhas superstições católicas. O movimento de renovação religiosa inaugurado por Spener nos primeiros anos do século XVIII, sob o nome de pietismo, modificou profundamente estas disposições. Por toda parte onde a cerimônia da confirmação havia conseguido introduzir-se, os resultados mostraram-se favoráveis; as famílias acolhiam com prazer uma festa que interessava ao mais alto ponto as crianças, e os pastores encontravam aí um meio proveitoso de prover mais de perto à instrução cristã da juventude.

Na Alsácia, onde a confirmação tinha sido admitida desde 1534, o catecismo de Butzer acrescentava, na edição de 1543, um longo capítulo para explicar e recomendar esta prática. O rito da imposição das mãos, reservado apenas aos ministros das igrejas, é dado como o começo da profissão de fé: ela significa que as crianças são diretamente colocadas sob a mão benfazeja do Altíssimo, que as conduzirá, as protegerá, as abençoará. Elsässische Katechismen, Erklärung der Bestätigung in dem christlichen Glauben, em Reu, op. cit., p. 98.

O mesmo rito, interpretado no mesmo sentido, tinha sido adotado para Hesse em 1539 e, cada vez mais, como na Pomerânia e em Brandemburgo, tinha se implantado nos costumes. Cf. Hessische Agende, c. IX, an. 1678; W. Diehl, Zur Geschichte der Konfirmation, Giessen, 1897.

Vividamente impressionado com as vantagens múltiplas que esta instituição apresentava para a vida religiosa das comunidades, o espírito ao mesmo tempo místico e prático de Spener resolveu promover por toda parte e por todos os meios uma prática tão salutar, primeiro nos campos vizinhos de Frankfurt, depois, por lenta infiltração, graças às «casas de educação» pietistas, em toda a Alemanha. A Prússia, em 1718, o Wurtemberg em 1722, a Saxônia em 1773 adotaram sucessivamente a cerimônia da confirmação. R. Kübel, Katechetik, Berlim, 1897, p.

44sq.: Mas não foi sem uma resistência bastante viva, por vezes obstinada, da parte do povo. Em muitos lugares, esta instituição foi imposta à força, pela autoridade civil. A ordenança publicada em 11 de dezembro de 1722 pelo duque de Württemberg, Eberhard-Louis, é das mais significativas: ela torna obrigatória «a confirmação solene», cuidando de especificar, para tranquilizar as consciências temerosas, que o rito prescrito constitui «a verdadeira confirmação, aquela do culto evangélico, fundada sobre a Escritura e sobre os testemunhos da antiguidade». Karl Pfaff, Geschichte des Fürstenhauses und Landes Württemberg, Stuttgart, 1839, t. IV, p. 194.

O príncipe esperava remediar assim, em parte, o «estado de desmoralização do país». Cf. L. Coulon, Etude historique sur l’introduction de la confirmation dans les Eglises du pays de Montbéliard, Paris, 1894, p. 27. Mas os seus súditos não estavam de modo algum dispostos a sacudir em um dia os seus preconceitos confessionais, mesmo para obedecer a uma lei elaborada pelos teólogos e imposta pelo chefe supremo da sua Igreja; «vários, pela fuga e pelo exílio, esquivaram-se da confirmação, e foi preciso resolver-se, para aclimatar esta cerimônia, não apenas a publicar severas admoestações, mas ainda a ditar processos contra os delinquentes.» K. Pfaff, loc. cit.

O mesmo desfavor acolheu em outros países esta inovação, cujas vantagens o povo acabou, contudo, por apreciar. Cf. L. Coulon, op. cit., p. 58. Convém notar que os velhos luteranos dirigiram eles mesmos uma viva oposição contra o ritual estabelecido por Spener, pois este trazia ao antigo uso modificações profundas, como uma transformação essencial. Enquanto a confirmação guardara fielmente até então o caráter, que lhe fora atribuído por Lutero e por Melanchthon, de uma confissão da fé eclesiástica, de uma adesão pública à doutrina da Igreja, Spener, arrastado por seus discípulos, não tardara a fazê-la uma simples confissão de fé pessoal, um ato independente, sem vínculo com o batismo, e reduzido a uma pura declaração da conversão do coração. Os pietistas julgavam mais conforme ao espírito da Reforma e mais útil aos interesses da sociedade acentuar o caráter subjetivo e moral desta solenidade religiosa; os luteranos mostravam-se preocupados sobretudo em assegurar por este meio a coesão, sempre tão frágil, das suas comunidades. O antagonismo estava nas tendências e nos princípios; a luta que se engajou entre os dois partidos a respeito do formulário da confirmação não foi senão a expressão, por vezes muito viva, desta oposição sistemática e radical. Cf. Heefling, Das Sakrament der Taufe, Erlangen, 1846, t. I, p. 401; J. Mehler, Symbolik, Mayence, 1832, p. 428; G. von Schéele, Theologische Symbolik, Gotha, 1881, t. II, p. 203 sq.

Hoje, nas Igrejas luteranas, apesar dos ataques muito vivos que suscitou no partido liberal, a confirmação está sempre em uso. O povo a estima, como a uma tradição que se legitima por si mesma e que é para as famílias uma causa sempre bem-vinda de regozijo. Seu caráter religioso tem sido, aliás, sempre claramente afirmado. O pastor R. Cuvier a define de forma bastante exata: «Uma cerimônia religiosa na qual aquele que foi batizado em sua infância renova e confirma, na presença da Igreja reunida, a profissão de fé que foi feita e os compromissos que foram assumidos em seu nome por seus pais, por seus padrinhos e madrinhas.» La confirmation, Paris, 1842, p. 6.

Esta solenidade é precedida de um exame sobre a doutrina cristã, perante um júri composto pelos pastores e, ao menos ordinariamente, pelos membros do consistório. A idade exigida para a confirmação é fixada geralmente em quatorze anos cumpridos. Apenas «os pastores regularmente ordenados e instituídos» podem «dar a confirmação». É difícil justificar esta última expressão, a menos que se explique pelo fato de que «os pastores confirmam os catecúmenos em sua vocação de cristão e pronunciam sua admissão solene e definitiva no número dos membros da Igreja». R. Cuvier, op. cit., p. 7. Mas a expressão não trairia o pensamento? Cf. M. Heimbucher, Die heilige Firmung, Augsbourg, 1889, p. 48-51.

III. IGREJAS REFORMADAS. — O pensamento de Calvino não conheceu nem as hesitações nem as flutuações do pensamento de Lutero. É com um desencadeamento de paixão acerba que o reformador de Genebra se insurgiu desde o início, para arruiná-la para sempre nos espíritos, contra a doutrina católica da confirmação. Puro charlatanismo a imposição das mãos pelos bispos: «Em que parte, portanto, esses charlatães seguem os apóstolos. Convinha fazer, pela imposição das mãos, que a virtude evidente do Espírito Santo se mostrasse incontinenti. Eles não fazem nada disso.» Institution chrestienne, l. VI, c. xix, § 6, Genève, 1559, p. 980.

Para ele, como para Lutero, os efeitos sacramentais da confirmação são idênticos aos do batismo, e é um sacrilégio querer praticamente desuni-los. «Contudo, olhemos ainda mais de perto quantos monstros nutre este óleo. Esses engordadores dizem que o Espírito Santo é dado no batismo para inocência e na confirmação para aumento de graças, que no batismo somos regenerados à vida e na confirmação somos armados para batalhar. E de tal modo não têm vergonha, que negam o batismo ser bem perfeito sem a confirmação. Ó perversidade!» Ibid., § 8, p. 980. Cf. Articuli a facultate sacre theologie Parisiensi determinati super materiis fidei nostre hodie controversis cum antidoto, a. 1, em Tractatus theologici, Genève, 1612, p. 225.

Quando o Concílio de Trento pronunciou o anátema contra os hereges que tinham a confirmação por uma vã cerimônia, Calvino, com um amargo sarcasmo, protestou que essa condenação não o atingia, visto que ele não tinha a confirmação por uma cerimônia vã, mas sim pelo mais funesto dos malefícios de Satanás, utpote qua eam inter maxime exitiales Satane prestigias numerem. Acta synodi Tridentine cum antidoto, ibid., p. 299. Para legitimar seus ataques, Calvino não hesita em impor à interpretação dos textos um tom irônico e ligeiro que desfigura estranhamente o seu aspecto, e chega assim a esta conclusão, já formulada por Melanchthon, de que a imposição das mãos não era, na origem, senão uma simples bênção pronunciada sobre as crianças, quando, alcançada a idade da discrição, eram convocadas a uma cerimônia especial para confirmar a fé do seu batismo. Ibid., § 4, p. 978.

Veja o Catéchisme de Monsieur Calvin, no Recueil des principaux catéchismes des Eglises réformées, Genève, 1673, fol. E 2. Esta cerimônia, aliás, não deixa de oferecer preciosas vantagens e seria um ganho mantê-la na Igreja reformada. «Quanto a mim, estimo bem tal imposição das mãos, que se faria simplesmente sob a forma de orações.» E ficaria muito contente que se usasse hoje, contanto que fosse puramente e sem superstição.» Ibid., § 4, p. 978.

Eis, em seu teor exato, o plano elaborado pelo próprio Calvino para a cerimônia da confirmação: «Ora, seria uma muito boa maneira de instrução se se tivesse um formulário propriamente destinado a este assunto, contendo e declarando familiarmente todos os pontos de nossa religião, nos quais a Igreja universal deve sem diferença consentir, e que a criança de dez anos ou aproximadamente se apresentasse à Igreja para declarar a confissão de sua fé, que fosse interrogada sobre cada ponto e tivesse que responder; se ignorasse alguma coisa ou não entendesse bem, que fosse ensinada de tal maneira que confessasse, presente e testemunha da Igreja, a verdadeira fé pura e única, na qual todo o povo fiel de um só acordo honra a Deus. Certamente, se esta disciplina tivesse lugar, a preguiça de alguns pais e mães seria corrigida: pois não poderiam então, sem grande vergonha, omitir a instrução de seus filhos, da qual eles não se preocupam muito agora. Haveria melhor acordo de fé entre o povo cristão e não haveria tanta ignorância e rudeza em muitos. Alguns não seriam tão facilmente transportados pelas novas doutrinas: em suma, cada um teria uma direção da doutrina cristã.» Instit. chrest., loc. cit., § 13, p. 983-984. Cf. Confessio Helvetica, de 1536, c. xx, em Corpus et syntagma Conf. fidei, p. 90.

Teodoro de Beza empregou toda a flexibilidade e o ardor de seu talento para propagar nas comunidades reformadas esta prática confundida por ele com o rito da confirmação tal como estava em uso na Igreja primitiva. «Antes que as crianças fossem recebidas à ceia, ou os adultos ao batismo, os bispos faziam com que uns e outros fizessem confissão de sua fé publicamente... Quanto àqueles que encontravam ter tão bem progredido que pudessem ser recebidos aos sacramentos com o resto da Igreja, confirmavam-nos na fé e, impondo-lhes as mãos sobre a cabeça, faziam oração pública a Deus por eles e os recomendavam às orações da Igreja.» Confession de foy chrestienne, Genebra, 1563, p. 333.

Reduzida a esta forma essencialmente catequética, a confirmação pôde ser introduzida em algumas comunidades mais diretamente submetidas à influência pessoal dos chefes da Reforma. Este simples exame da doutrina, Teodoro de Beza opôs com orgulho às cerimônias católicas «que não são outra coisa senão truques de saltimbancos e contos de velhas caducas», e congratulou-se por ter generalizado sua prática nas Igrejas da confissão reformada. «Ora, quanto a nós, pela graça de Deus, nós restabelecemos em nossas Igrejas este uso do catecismo, como de todo necessário; mas, ao contrário, estes asnos aqui, mais próprios para o arado do que para governar a Igreja, nem sequer ouviram jamais falar de catecismo.» Ibid. Cf. Petit catéchisme, por Teodoro de Beza, Genebra, 1678, p. 10; Drelincourt, Catéchisme ou instructions familières sur les principales parties de la religion chrétienne, Genebra, 1673, p. 107.

Este insolente triunfo justificava-se, todavia, dificilmente, pois a Igreja reformada mostrou-se ainda mais refratária, no geral, que a Igreja luterana à introdução desta prática, que teve muitas vezes de ser imposta pela força e após dura luta. Vários cantões suíços exigiram para certos atos legais, como o casamento, o aprendizado, a entrada em serviço, um atestado de admissão à santa ceia ou certificado de confirmação. Este uso persistiu até 1875. Cf. L. Ruffet, art. Confirmation, em Encyclopédie des sciences religieuses de F. Lichtenberger, t. III, p. 356.

Hoje, nas duas confissões, esta cerimônia tende cada vez mais a não ser senão uma pura formalidade sem caráter religioso, e produziu-se, no decorrer do século passado, um movimento poderoso para pedir sua ab-rogação. Os individualistas fazem sobressair, bastante justamente, que uma manifestação coletiva e obrigatória da fé não poderia ter valor aos olhos de quem quer que se inspire nos puros princípios da Reforma e que esta conscrição eclesiástica não tem mais nenhum título que possa legitimá-la de fato. «Não se sabe senão demais, com efeito, que a admissão à santa ceia é para a grande maioria dos catecúmenos não um ato de renúncia a si mesmos e de consagração a Deus, mas o título de entrada no mundo, uma espécie de maioridade religiosa que lhes confere o direito de gozar de prazeres até então proibidos e de profanar legalmente as coisas santas.» L. Ruffet, loc. cit. Cf. L. Coulon, op. cit., p. 7.

Autor original: P. Bernard

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