CONCOREZIENS, hereges cátaros do Ocidente. Entre os cátaros do Ocidente, como entre os do Oriente, uns admitem o dualismo absoluto, outros o dualismo mitigado. No Ocidente, estes últimos dividiram-se em dois grupos: os bagnolenses e os concorrezianos, Concorrezenses, Concorrozenses, Concorrenses, Concorricii, ii de Concorrezio, de Concorezio, de Concorrezo, Carracenses, Garratenses (cf. todavia, para esta última denominação, J.H. Sbaralea, Bullarium franciscanum, Roma, 1759, t. 1, p. 734-735, nota), assim chamados, ao que parece, pelo nome de Concorrezo, na Lombardia. Ver t. 11, col. 1993-1994.
Em sua Summa de catharis, escrita por volta de 1258, o inquisidor dominicano Rainier Sacconi, antigo cátaro, diz, cf. Martene et Durand, Thesaurus novus anecdotorum, Paris, 1717, t. v, col. 1767, que os concorrezianos de seu tempo estavam espalhados por quase toda a Lombardia, e que eram cerca de mil e quinhentos de ambos os sexos. Ele avalia em menos de quatro mil, col. 1768, o número de cátaros do mundo inteiro, o que deve ser entendido como os perfeitos, não os crentes, muito mais numerosos.
Eis as doutrinas que ele lhes atribui, col. 1773-1774: Deus criou do nada os anjos e os quatro elementos; o demônio, com a permissão de Deus, formou este mundo; ele formou o corpo do primeiro homem e nele inseriu um anjo pecador; desse anjo pecador, por via de traducianismo, procedem todas as almas; o Antigo Testamento, obra do diabo, é rejeitado, exceção feita às partes citadas por Cristo e pelos apóstolos; Moisés é condenado, e muitos têm dúvidas sobre a salvação dos patriarcas e dos profetas; João Batista, outrora condenado por todos, é agora estimado por muitos concorrezianos; Cristo não tomou uma alma humana, mas quase todos acreditam que ele recebeu um corpo verdadeiro da Virgem Maria; este corpo não foi glorificado e não o será, mas Cristo, no dia de sua ascensão, depositou-o no céu aéreo, aguardando para retomá-lo no dia do julgamento, após o que será dissolvido como um cadáver. As almas da Virgem e dos santos não estarão na glória antes do julgamento; elas estão no céu aéreo com o corpo de Cristo.
Rainier ouvira dizer antigamente a Nazário, seu bispo, o qual sustentava essa teoria, o que ele declarava, do bispo da Bulgária, ver BOGOMILES, t. 11, col. 928, que a Virgem Maria foi um anjo, e que Cristo não tomou uma alma humana, mas uma alma angélica e um corpo celeste; esta última opinião era adotada pelos bagnolenses, e a principal diferença entre os bagnolenses e os concorrezianos consistia em que, afastando-se do traducianismo, os bagnolenses afirmavam que as almas foram criadas por Deus e pecaram antes da criação do mundo. O pseudo-Rainier ou anônimo de Passau não faz senão reproduzir essas informações.
Salve Burce de Placência, que escreveu, por volta de 1235, seu tratado Supra stella, não tem a mesma autoridade que Rainier Sacconi; ele concorda, aliás, com ele nas linhas gerais. Sobre a criação e o pecado original ele é mais completo. Segundo ele, os concorrezianos dizem que Deus criou os anjos e os elementos; Lúcifer pecou no céu e seduziu anjos; com dois desses anjos, ele formou o mundo e o corpo de Adão, no qual inseriu à força um anjo menos perfeito; de Adão ele tirou Eva; o fruto proibido por Lúcifer era o comércio carnal do homem com a mulher; Eva teve comércio com a serpente, depois com Adão, e toda a raça humana descende de Adão quanto ao corpo, e, quanto à alma, do anjo que Lúcifer pôs no corpo de Adão. Cf. I. von Döllinger, Beitrage zur Sektengeschichte des Mittelalters, Munique, 1890, t. 11, p. 60.
Notemos que Salve Burce não expõe a opinião que Rainier apresenta como muito difundida, e segundo a qual Cristo teria tido um corpo verdadeiro, mas, p. 66-67, aquela que Rainier coloca na conta do bispo Nazário e segundo a qual Cristo teria tido uma carne espiritual e Maria teria sido um anjo: angelus Gabriel fecit communicationem Marie, tunc iste angelus Gabriel junxit se cum illo angelo, qui vocabatur Maria, spiritualiter et genuerunt filium Dei secundum carnem.
Encontra-se, mas muito mais completa ainda, essa explicação da criação e da queda em um apócrifo intitulado: Joannis apostoli et evangeliste interrogatio in cena sancta regni celorum de ordinatione mundi et de principe et de Adam. Cf. Döllinger, op. cit., p. 85. Um manuscrito desse apócrifo termina com esta nota: Hoc est secretum hereticorum de Concorezio portatum de Bulgaria Nazario suo episcopo plenum erroribus. Cf. C. Schmidt, Histoire et doctrine de la secte des cathares ou albigeois, Paris, 1849, t. 1, p. 275. Sobre a sepultura desse bispo Nazário, que parece ter desempenhado um papel importante na história da seita, cf. a vida de São Pedro de Verona, em Acta sanctorum, 3ª ed., Paris, 1866, t. 11 aprilis, p. 703, 705.
Ver uma outra exposição análoga em dois textos sem data publicados por Döllinger, op. cit., t. 11, p. 320, 612-613, e, mais brevemente, na tabela de concordância das opiniões dos diversos grupos cátaros, inserida, no século XV, por Peregrinus Priscianus, em uma crônica de Ferrara, mas remontando aproximadamente a meados do século XII. C. U. Hahn, Geschichte der Ketzer im Mittelalter, Stuttgart, 1845, t. 1, p. 530. O fundo do sistema parece, portanto, uniforme nos diversos documentos.
Schmidt, op. cit., t. 1, p. 738, pensou que os concorrezianos acreditavam no livre-arbítrio; segundo P. Alphandéry, Les idées morales chez les hétérodoxes latins au début du XIIIe siècle, Paris, 1902, p. 96, essa crença no livre-arbítrio é «formalmente negada» em dois textos publicados por Döllinger, op. cit., t. 11, p. 826, 612. Isso é verdade para o primeiro desses textos, mas ele trata dos cátaros em geral, não dos concorrezianos em particular; outro diz respeito aos dualistas mitigados e atribui a alguns deles a crença de que, entre os anjos, uns pecaram por constrangimento, outros livremente.
I. FONTES. — Salve Burce, Liber qui supra stella dicitur, em I. von Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, Munique, 1890, t. II, p. 52-84; Rainier Sacconi, Summa de catharis et leonistis seu pauperibus de Lugduno, em Martène et Durand, Thesaurus novus anecdotorum, Paris, 1717, t. V, col. 1761, 1767-1768, 1773-1774; Pseudo-Rainier ou anônimo de Passau, Liber contra waldenses hæreticos (título falso), em M. de la Bigne, Biblioth. Patrum, 4ª ed., t. IV b, col. 755, 759, 763.
O apócrifo intitulado: Joannis et apostoli et evangelistæ interrogatio in cena sancta regni celorum de ordinatione mundi et de principe et de Adam, foi publicado por J. Benoist, Histoire des albigeois et des vaudois, Paris, 1691, t. I, p. 283, 296; J. C. Thilo, Codex apocryphus Novi Testamenti, Leipzig, 1832, t. I, p. 884 sq.; C. U. Hahn, Geschichte der Ketzer im Mittelalter, Stuttgart, 1847, t. II, p. 815-820; Döllinger, op. cit., t. II, p. 92-97. Ver três textos sem data em Döllinger, op. cit., t. II, p. 320, 326-327, 612.
A tabela de concordância das opiniões das diversas seitas cátaras, conservada por Peregrinus Priscianus, foi publicada por L. A. Muratori, Antiquitates italicæ medii ævi, Milão, 1744, t. V, col. 93-96; Richini em suas notas do Adversus catharos et waldenses de Moneta de Cremona, Roma, 1743, p. XXI-XXII; C. U. Hahn, op. cit., 1845, t. I, p. 528-532.
II. TRABALHOS. — Não existe um bom trabalho de conjunto. O que temos de mais completo ainda é C. Schmidt, Histoire et doctrine de la secte des cathares ou albigeois, Paris, 1847, t. I, p. 165-166; t. II, p. 63-78, 285. Ver também Döllinger, op. cit., t. I, p. 448, 120, 157-174; Alphandéry, op. cit., p. 96.
Autor original: F. Vernet
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