CONCINA Daniel. — I. Biografia. II. Obras. III. Julgamento.
I. BIOGRAFIA. — Concina nasceu em 2 de outubro de 1687, em Clauzetto, na província de Forli, na diocese de Udine. Seu pai chamava-se Pierre Concina, sua mãe, Pasqua Cecconia. Recebeu no batismo o nome de Daniel. Era o segundo de seis rapazes; um de seus irmãos, Léonard, seguiria seus passos no claustro, sob o nome de Frei Nicolas (+ 1763). Daniel fez seus primeiros estudos em sua terra natal, sendo depois confiado aos Padres da Companhia de Jesus, no colégio de Goritz, no Friuli. Lá, Daniel Concina quase não teve outros mestres senão religiosos de origem alemã, de modo que, do ponto de vista literário, seus primeiros estudos permaneceram incompletos. Em compensação, sempre teve apenas elogios a dirigir aos seus primeiros mestres, pelo cuidado que dedicaram à sua cultura moral. Cf. Christiana theologia, c. xii, § 4, præf., t. 1, p. 124; Defensionis decretorum concilii Tridentini, etc.
Chegado o momento de decidir uma escolha de vida, Daniel Concina sentia-se sobretudo atraído por uma ordem onde encontraria, ao mesmo tempo, a satisfação de seu gosto pelo estudo e sua inclinação para a prática da pobreza. É por isso que decidiu entregar-se à Ordem dos Pregadores, na congregação reformada do B. Jacques Salomon, instituída sob o generalato do P. J.-B. de Marinis, em 4 de agosto de 1662. Foi no mês de março do ano de 1707 que Concina revestiu o hábito dominicano, no convento dos Santos Martinho e Rosa, em Conegliano. Foi admitido à profissão, após um ano de noviciado, em 25 de março de 1708.
Após ter estudado filosofia durante três anos, foi enviado ao convento do Santíssimo Rosário, em Veneza, para ali realizar seus estudos teológicos. Passou oito anos sob a direção dos PP. Andriusso e Jean-Albert Zanchio. Em 1717, foi escolhido para ensinar filosofia no convento de Forli. Experimentou uma grande dor ao deixar Veneza, onde a abundância de livros lhe tornava o trabalho mais fácil. Em Forli, aproveitou os lazeres forçados que lhe dava a grande escassez de livros em que se encontrava para preparar-se para o ministério da pregação. Sua primeira educação literária apresentava lacunas, que ele quis preencher dedicando-se ao estudo da língua italiana nos melhores autores toscanos. Começou também a compor sermões. Durante seus três anos de estadia em Forli, compôs mais de trinta. Ao mesmo tempo, o conhecimento dos Padres, de São Crisóstomo e de Santo Agostinho, em particular, tornava-se-lhe familiar.
Contudo, só começou a pregar aos 32 anos, primeiro em Forli e depois em Pordenone. Seus sucessos fizeram com que fosse chamado para a cátedra de Santa Maria Novella, em Florença. Em 1727, o P. Guglielmo Molo, procurador-geral da Ordem, fê-lo pregar a quaresma em Bolonha. Durante essa estação, travou amizade com o legado Thomas Ruffi. No ano seguinte, o cardeal Vincenzo Lodovico Gotti proporcionou-lhe a ocasião de fazer-se ouvir em Santa Maria sopra Minerva. Desde seus inícios na cátedra, Concina adquiriu grande renome como orador. A partir de 1730, data de sua primeira polêmica, não cessou de pregar e de escrever. Sua vida passou-se em lutas contínuas; por isso, fora dessas controvérsias, o historiador não encontra nada a narrar de um homem que desempenhou, no entanto, um papel tão grande sem ter sido elevado jamais a qualquer dignidade nem em sua ordem, nem na Igreja. Durante mais de 25 anos, não cessou de lutar contra os partidários de uma moral pretensamente relaxada.
Mas sua saúde não podia resistir por muito tempo a uma vida tão intensa. Em 1754, sentiu em Roma os primeiros ataques do mal que o levaria; seu desejo era ir morrer entre os seus, no convento de Veneza. Pôs-se a caminho; em Florença, onde parou para tentar um tratamento, foi alvo de todas as atenções dos Padres do convento de San Marco, assim como da ilustre família Corsini. Por conselho dos médicos, tomou as águas de Bagni di Lucca, mas sem grande sucesso. Após um ano de tentativas vãs para recuperar a saúde, deixou definitivamente Florença rumo a Veneza, onde chegou em 4 de outubro de 1755. Em 20 de fevereiro de 1756, ocorreu uma crise mais violenta, e ele morreu no dia seguinte, 21 de fevereiro, na plenitude de sua consciência, aos 69 anos de idade. Foi sepultado na igreja do convento do Santíssimo Rosário. O capítulo geral da Ordem, reunido em Roma no mesmo ano, sob a presidência de Bento XIV, fez inserir em suas atas um elogio a Concina. Cf. Acta capit. gener., Roma, 1756, p. 166. O convento de Veneza enviou uma carta circular relativa à morte de Concina. O autor era o P. Pierre Fantini. Foi editada várias vezes em Veneza, depois em Roma, em Lucca, em Florença, em Paris, etc. Cf. Sandelli [Fassini], De Danielis Concina vita et scriptis commentarius, in-4°, Brescia, 1767, p. 89.
II. OBRAS. — A atividade literária de Concina exerceu-se em quase todos os domínios da moral. O relato das numerosas controvérsias que teve de sustentar é um dos capítulos mais interessantes da história da teologia na segunda metade do século XVIII.
1. CONTROVÉRSIA SOBRE A POBREZA RELIGIOSA. — Como pregador renomado, Concina só foi levado à controvérsia por uma ocasião inteiramente fortuita. Durante uma estadia em Roma, conversando sobre a pobreza com o mestre-geral da Ordem, Thomas Ripoll, este lhe mostrou um opúsculo do P. Raphaël de Pornasio, De communi et proprio religiosorum, aparecido com a aprovação do cardeal Orsini, arcebispo de Benevento, mais tarde Bento XIII. O opúsculo fora dedicado ao P. Thomas Pipia, mestre-geral da Ordem e, posteriormente, cardeal. Concina, tendo tomado conhecimento deste escrito, meditou imediatamente uma refutação.
Começou por recolher, nas principais bibliotecas da Ordem, os materiais que estimava necessários ao trabalho projetado. Em 1731, consulta os manuscritos de Ambrogio Taegi sobre a reforma do convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão; encontra também algumas informações na biblioteca de Pavia, mas foi a biblioteca do convento de São Domingos de Nápoles que lhe forneceu a colheita mais abundante de documentos preciosos. Assim munido, Concina fez publicar em 1736, sob o pseudônimo de Carolus Antonius Plantamura, sua refutação do opúsculo do P. Raphaël de Pornasio: Commentarius historico-apologeticus in duas dissertationes ibitus; quarum altera anticriticis animadversionibus refellit ea, quæ adversus paupertatis disciplinam, a D.
patriarcha Dominico constitutam, intemperantiore criticæ scriptis prodiderunt continuatores Bollandi ; altera eamdem disciplinam a laxioribus P. Raphaelis de Pornasio interpretamentis vindicat. Accedit dissertatio historicade origine disciplinæ regularis, primum in ordinem prædicatorum per B. Raymundun de Vineis, xxi magistrum generalem ejusdem ordinis instauratæ, et questiuncula moralis de regularibus personatis, in-4°, Veneza, 1736, 1745.
Na primeira dissertação, Concina refutava a fábula acreditada pelos bolandistas e da qual o Pe. Cuper, S. J., se fizera o paladino, Acta sanctorum, t. 1 augusti, in comment. præviis ad acta S. Dominici, § 33, 34, a saber, que São Domingos teria estado presente no capítulo das Esteiras e teria tomado emprestado de São Francisco os seus pontos de vista sobre a pobreza. Na segunda dissertação, Concina combate a opinião do Pe. de Pornasio que pretendia que, no tempo de São Domingos, a prática da pobreza era o que ela foi no século XVIII. Ele mostra, pelo contrário, que, no tempo de São Domingos, praticava-se a vida comum. Na dissertação histórica sobre Raimundo de Cápua, ele mostra que esforços este Geral empreendeu para restabelecer a antiga disciplina tocante à pobreza. Finalmente, na pequena questão, em apêndice, Concina combatia a opinião dos teólogos que pretendiam que os regulares podem, sem incorrer em excomunhão nem pecar mortalmente, frequentar teatros ou espetáculos. Contra o Comentário surgiu uma carta do Pe. Gonçalo Carattini, O. P., professor no ginásio Santa Anastásia, em Verona. Esta carta, repleta de insolências dirigidas a Concina, não estava assinada. Por seu lado, os bolandistas, para defender Cuper, delegaram Jean Limpenius. Segundo ele, Cuper não tinha feito mais do que invocar a autoridade do Speculum dos menores, onde se encontra relatado o episódio do capítulo das Esteiras.
2º Após uma estação pregada na basílica de São Lourenço ad Damasum, em Roma, Concina recebeu de vários personagens, em particular da parte do cardeal Ottoboni, o mais premente convite para fazer aparecer o quanto antes a obra aguardada sobre a pobreza religiosa. De regresso a Veneza, Concina publicou o seu livro, que dedicou ao cardeal Aníbal Albano, do título de Santa Sabina: Disciplina apostolico-monastica dissertationibus theologicis illustrata et in duas partes tributa, in quarum una de voto paupertatis vitæ communi circumscripto, in altera de cæteris ejusdem disciplinæ capitibus præcipuis disseritur. Accedunt selecta quædam veterum theologorum monumenta, in-4°, Veneza, 1739, 1740. Ele ali expunha a teoria do voto de pobreza como contrato bilateral entre a religião e o religioso, de tal sorte que, se um dos contratantes falta ao seu compromisso, o outro encontra-se igualmente desobrigado das suas obrigações, Dist. II, c. 1, p. 84.
Dois outros dominicanos, os PP. Carattini e Millante, protestaram. Millante, professor de teologia no Ateneu de Nápoles, mais tarde bispo de Stabia, compôs contra Concina uma obra intitulada: Fr. Pii Thomæ Millante ex-vicarii generalis sanctæ Mariæ Sanitatis ord. præd... vindiciæ regularium in causa monasticæ paupertatis, in-4°, Nápoles, 1740. Millante sustentava que era equitativo deixar aos doutores, cæterisque in studiis litterarum impallescentibus, um pecúlio para poderem procurar-se algumas doçuras. Para não tornar públicas as discussões no seio de uma mesma ordem, Concina tinha tomado a resolução de não responder. Millante, pelo contrário, fez recomendar a sua obra pelo Journal de Trévoux. Assim, ele fez entre os religiosos de todas as cores calorosos partidários. Havia também que se vingar da dissertação contra os bolandistas. Queriam arrancar ao Index a condenação da Disciplina apostolico-monastica, mas o cardeal An. Albano, a quem o livro tinha sido dedicado, salvou-o da censura.
Três anos mais tarde, o Pe. Carattini publicou contra a mesma obra: Vita claustralis a Christo servatore exemplo, atque hortatu inducta, ab apostolis more comprobata, et a SS. patriarchis toto orbe propagata, ac diffusa, variis dissertationibus illustrata. Opus critico-historico-theologicum in tres partes tributum, in quarum altera agitur de voto paupertatis adversus auctorem commentarii duplicis et disciplinæ apostolico-monasticæ, in-4°, Verona, 1743. A obra era dedicada ao Pe. Aloysio-Maria Lucini, comissário geral do Santo Ofício, em Roma. Carattini empenhava-se em provar a legitimidade do pecúlio e tentava demonstrar que os papas, os concílios e mesmo os fundadores de ordens o tinham previsto.
Concina respondeu com Defensio decretorum concilii Tridentini et apostolicarum constitutionum Ecclesiæ Romanæ in causa paupertatis monasticæ adversus duos libros inscriptos: Vita claustralis et Vindiciæ regularium. Tendo extraído nove proposições da Vita claustralis, que julgava dignas de serem censuradas, enviou-as com a sua obra ao cardeal Passionei. Este, após ter conferido com Bento XIV, remeteu o livro de Carattini à S. C. do Index. O primeiro censor delegado era um agostiniano, prefeito do palácio apostólico e partidário do pecúlio; Passionei obteve que se nomeasse um outro censor: o Pe. Aloysio Maria a Turre, procurador geral dos monges do Monte Cassino. O seu relatório concluía pela condenação do livro. O cardeal Lucini afastou a sentença. Nomeou-se então um terceiro censor, o cardeal Besuzzi, que, após vários meses de exame, concluiu pela correção de certas proposições de Carattini. Muito feliz por ter escapado a uma condenação completa, este não deixou, contudo, de publicar uma carta intitulada: Epistola EXHTHTIKH quarumdam operis Vita claustralis propositionum, ab auctore ejusdem operis ad amicum scripta et per modum appendicis operi adnexa, Verona, 1744. Ele emendava algumas das suas proposições, mas não continuava menos os seus ataques contra Concina. O cardeal Passionei teria querido fazer condenar este escrito, mas, de propósito, omitiram prevenir-lhe no dia da sessão da Congregação, Cf. Sandelli, Epist., xvi, op. cit., p. 27 sq. Para não envenenar a querela, o geral da ordem impôs silêncio a Concina.
8º Em 1745, pregando em Roma na basílica dos Santos Apóstolos, Concina pediu e obteve do papa a autorização para responder a Carattini. Fê-lo pela publicação da sua Defensio decretorum... Accedunt Censura in censuram Disciplinæ apostolico-monasticæ et Animadversiones in Epistolam exegeticam P. G. C., in-4°, Bolonha (Veneza), 1745; in-8°, 1758. No mesmo ano, publicava contra Carattini: Epistola ad Polycarpum virum cl., in qua B.
Nicolai Justiniani Veneti monachatus a fabulis, vanisque commentis asseritur, in-4°, Veneza, 1745; Trento, 1746; 1755. Nicolau Justiniani, monge do Monte Cassino, mais tarde bispo de Verona, tinha publicado em Veneza, em 1743, uma carta ad Amicum, contra Carattini.
II. CONTROVÉRSIA SOBRE O JEJUM.
1º Em 1739, Copelloti, padre de Placência, publicou com o concurso de um outro padre, o abade Cazali: Dissertazione teologico-morale critica intorno all' incompatibilità del digiuno col mangiar delle carni... in risposta all’ apologia della dissertazione del dottor Alessandro Mantegazzi, in-8°, Veneza, 1738 [1739]. O objetivo desta dissertação era combater a doutrina estabelecida por Mantegazzi, outro padre de Placência, num escrito intitulado: De jejunio cum esu carnium conjungendo, Placência, 1737. Ensinava ele que aqueles que são legitimamente dispensados da abstinência não estão em todos os casos dispensados do jejum. O bispo de Borgo-San-Donnino já havia sustentado essa doutrina em uma portaria para a sua diocese. Em sua dissertação, Copelloti e Cazali sustentavam que o jejum é um todo indivisível que consiste em guardar a abstinência e em fazer apenas uma única refeição por dia. Assim, quem quer que seja dispensado da abstinência encontra-se, por esse simples fato, subtraído à lei do jejum. E concluíam que tanto os particulares quanto as comunidades, a quem se permite por razões legítimas não guardar a abstinência durante a quaresma, estão completamente dispensados da lei do jejum. Concina, tendo tomado conhecimento do autógrafo dessa dissertação, tentou, mas em vão, impedir a sua publicação. Obteve, contudo, a permissão de copiar os testemunhos dos mais graves teólogos nos quais Copelloti e Cazali se haviam apoiado. No espaço de vinte e cinco dias, compôs um livro intitulado: La quaresima appellante dal foro contenzioso di alcuni recenti casisti al tribunale del buon senso, e della buona fede del popolo cristiano sopra quel suo precetto del digiuno da accopiarsi coll’uso delle carni, permesso pel solo nocumento del cibo quaresimale, in-4°, Veneza, 1739, 1744, 1756. Nele, refutava a doutrina da dissertação apoiando-se na autoridade dos papas, dos canonistas e dos teólogos. Fortemente atacado, fez publicar, no mesmo ano de 1739, uma segunda edição de sua obra com uma Apologetica prefatione.
2° A luta, não obstante, continuou. O Pe. Fr. Berlendi, teatino, para vingar Antonin Diana, teatino ele também, fortemente atacado por Concina, compôs uma carta cuja impressão em Veneza lhe foi recusada. Apareceu em Lucca sob este título: Lettera responsiva ad un amico intorno al libro intitolato Quaresima appellante, e sua prefazione apologetica, Lucca, 1739. O Pe. Valsecchi, O. P., de Verona e professor de teologia no Atheneum de Pádua, respondeu a Berlendi por um escrito, aparecido em Veneza, sem nome de autor: Riflessioni sopra la lettera responsiva ad un amico intorno alla quaresima appellante, in-8°, Veneza, 1740. Uma réplica de Berlendi permaneceu manuscrita, mas um autor anônimo conservou-nos o esboço em uma carta muito breve, publicada em Bréscia, em 1750, sob este título: Lettera istorico-critica di un sacerdote sopra tre punti concernenti la questione del probabilismo e probabiliorismo. Ver o julgamento de Zeni sobre os opúsculos de Berlendi e de Valsecchi em Cl. Apostolo Zeno, t. II, p. 209, 279.
3° Em 1740, a luta continua contra a Quaresima appellante. O Pe. Hércules Monti, S. J., de Módena, começa; depois, com o Pe. Cocconati, S.J., publica em Lucca: Difesa della dissertazione teologico-morale critica de’ Signori Abb. Pietro Copelloti e Bartolommeo Casali, esposta in alcune riflessioni sopra il libello intitolato: la Quaresima appellante. Nessa diatribe, Monti tratava Concina de discípulo de Arnauld e de Pascal, p. 4; de homem pior que Lutero e que Melâncton, p. 112; de violador da fé pública, de caluniador e de jansenista. Dizia ainda que, para poder responder melhor, havia retido durante vários meses o autógrafo da Dissertazione teologico-morale, p. 1, 87. Contudo, a intenção de Concina era a de não responder, Storia del probabilismo, t. 1, A chi legge, p. xxv, mas Monti, tendo-o desafiado a fazê-lo, pois teria medo, dizia ele, de ver levantar-se contra si todo um exército de escritores, p. 9, não hesitou mais e compôs uma Apologeticam dissertationem (1740), que apareceu em apêndice ao t. I da História do probabilismo. Ela foi também acrescentada à terceira edição da Quaresima appellante, Veneza, 1744. Monti não replicou.
4° Tendo a querela chegado até Bento XIV, ele fez examinar atentamente a questão e aprovou a sentença de Concina, e em 30 de maio de 1741, lançava a encíclica Non ambigimus, onde declarava servandam scilicet esse unicam comestionem sicut alias hic Rome ac nos ipsi hoc anno urgentibus caussis dispensantes expresse prescripsimus, conscientiam uniuscujusque vestrum onerandam esse duximus. Numerosas discussões se engajaram sobre o valor cominatório desse documento pontifício. Uns pretendiam que se tratava apenas de um conselho e não de um preceito; outros, que essa sentença se dirigia apenas aos monges; certos, que ela visava apenas aqueles que haviam obtido dispensa da alimentação quaresmal; enfim, houve quem dissesse que Bento XIV havia falado apenas como doutor privado e que seu julgamento era reportável. Foi então que, em 22 de agosto do mesmo ano de 1744, o papa publicou uma segunda encíclica, In suprema, para explicar a primeira. A conclusão era: Nemine excepto unicam comestionem servandam declaramus et edicimus, quemadmodum unicuique expresse prescripsimus, atque praecipimus. Concina compôs um breve comentário das duas encíclicas. Intitulou-o: La disciplina antica e moderna della Romana Chiesa intorno al sacro quaresimale digiuno, espressa ne’ due brevi: Non ambigimus, et In suprema del regnante sommo pontefice Benedetto XIV, illustrata con osservazioni storiche, critiche e teologiche, in-4°, Veneza, 1742, 1756. O comentário era dedicado ao cardeal Passionei. Sandelli, op. cit., Lettera 13, 17 de fevereiro de 1742.
5° Tendo essas duas decisões pontifícias dado lugar na Espanha, e em particular na diocese de Compostela, a muitas discussões, para pôr fim a toda falsa interpretação, Bento XIV endereçou, sobre essas matérias, um rescrito ao arcebispo de Compostela (8 de julho de 1744). Sobre o conselho do cardeal Passionei, cf. Epist., XI, XIV, p. 21 sq., 24, Concina fez um comentário desse rescrito.
Apareceu sob este título: In rescriptum Benedicti XIV, ad postulata septem archiepiscopi Compostellae, jejunii legem spectantia, commentarius theologicus, in-4, Veneza, 1745, 1755. Ele se apegava sobretudo a mostrar que o rescrito pontifício não era a promulgação de uma lei nova na Igreja, mas que não era senão o lembrete da antiga disciplina. Esse comentário, assim como aqueles que acompanharam as duas encíclicas de 1741, receberam a alta aprovação de Bento XIV, em uma Carta circular endereçada aos patriarcas, aos primazes e metropolitanos da Igreja católica. Cf. encíclica Libentissime.
III. HISTÓRIA DO PROBABILISMO.
1° Obra. — 1. Disse-se que Concina havia empreendido a História do probabilismo e do rigorismo diretamente contra os jesuítas. Vários autores, Patuzzi em particular, refutaram essa opinião. O próprio Concina explica a gênese dessa obra. Storia del probabilismo, A chi legge, p. xxvi. Na Dissertazione teologico-morale critica, publicada por Cazali e Copelloti, a respeito do jejum, esses autores haviam longamente falado da probabilidade reflexa e direta. Concina havia respondido na Quaresima appellante expondo brevemente a teoria da probabilidade. O P. Monti, S. J., em termos muito vivos, combateu a noção de probabilidade segundo Concina. Remetia-o, dizia ele, Difesa della dissertazione, p. 13 sq., a Copelloti, a Cazali, a Segneri, a Camargo. Infelizmente, para a tese de Monti, Concina mostrou-se dócil aos seus conselhos e pôs-se a estudar os autores em questão. Ao fim de sete meses, ele saiu desse exame com um livro intitulado: La morale evangelica contenente i punti fondamentali. Tendo o manuscrito sido entregue ao vigário-geral da congregação, este delegou primeiro o P. Jean Bernard de Rubeis, que se desculpou; vários outros declinaram depois dele o ofício de revisor do livro, timebant plerique rebus suis, et PP. Societatis plus aequo verebantur, diz Sandelli, op. cit., p. 36. Não sabendo o que fazer, Concina falou de suas dificuldades ao P. Joseph-Augustin Orsi, mestre do Sacro Palácio e que foi, posteriormente, cardeal; depois, auxiliado pelo cardeal Nereo Corsini, protetor da ordem, obteve que fosse delegado o P. Fortunato Tamburini. Este último declarou-se favorável à pronta publicação do livro. Mas, refletindo mais sobre o assunto, Corsini e Orsi julgaram pouco prudente afastar-se da forma habitual de agir. O manuscrito foi, então, reenviado ao geral da ordem, com o pedido de que fosse examinado e recebesse o imprimatur o mais cedo possível. Os examinadores nomeados foram os PP. Ricchini, socius do geral e, posteriormente, mestre do Sacro Palácio, e Schiara, bibliotecário da Casanate. Eles retiveram o manuscrito por mais de um ano e fizeram numerosas mudanças e cortes. Concina, impaciente, fez saber aos examinadores que, se tardassem ainda mais, entregaria seu manuscrito a uma pessoa estranha à ordem que poderia publicá-lo em seu próprio nome. O imprimatur e a aprovação do geral foram imediatamente enviados; mas, ao mesmo tempo, o manuscrito era entregue diretamente ao inquisidor em Veneza, com o pedido de que o entregasse ao impressor tal como estava, sem que Concina pudesse revê-lo. Contudo, tendo obtido, não sem dificuldade, a permissão do impressor para percorrer seu manuscrito, qual não foi sua estupefação ao ver quanto o haviam mutilado. O título, ele próprio, não fora respeitado: La morale evangelica contenente i punti fondamentali tornara-se: La giustificazione di Fr. Daniele Concina. Ele reclamou, mas em vão; respondiam-lhe sempre que a obra não seria recebida com favor se o título desagradasse. Vendo isso, sem se desencorajar, Concina voltou ao trabalho e, refazendo tudo o que seus censores haviam julgado dever mudar, compôs uma obra muito mais considerável ainda que a primeira, a qual dedicou ao cardeal Nereo Corsini, sob este título: Della storia del probabilismo e rigorismo, dissertazioni teologiche, morali, critiche, nelle quali si spiegano, e dalle sottigliezze de’ moderni probabilisti si defendono i principi fondamentali della teologia cristiana. Si aggiugne sulla fine una confutazione di certo libretto intitolato: Difesa della dissertazione ec., de’ signori Copelloti, e Casali contro il altro libro, che ha per titolo : la Quaresima appellante, in-4°, Veneza, 1743, 1748.
2. A Storia del probabilismo e rigorismo compõe-se de cinco dissertações repartidas em dois tomos. O 1º compreende duas dissertações: na primeira, Concina faz o histórico do probabilismo; na segunda, ele examina três cartas do P. Paul Segneri sobre o probabilismo. A terceira dissertação é consagrada ao exame dos princípios fundamentais do probabilismo expostos na terceira carta sobre o probabilismo, atribuída a Segneri. Na quarta dissertação, o autor expõe a verdadeira doutrina da Igreja em moral, por oposição à moral relaxada de certos casuístas modernos. Na quinta, ele examina um certo número de proposições censuradas, como maculadas, umas por rigorismo, outras por laxismo. Enfim, na forma de apêndice ao t. II, encontra-se a Dissertazione apologetica contro il libro intitolato: Difesa della dissertazione teologico-morale critica, de Copelloti e de Cazali.
3. Logo após o aparecimento do livro, vieram a Concina aprovações de toda parte. Cf. Epistole clarorum virorum ad P. Danielem Concinam, em apêndice à vida por Sandelli, Epist., ut, p. 5; IV, p. 9; V, p. 11; VI, p. 13; XV, p. 25. Bento XIV fez saber ao geral todo o apreço que tinha pela sua ordem por ter fornecido tal defensor da moral cristã. Ao mesmo tempo, por intermédio do cardeal Passionei, o papa pedia a Concina para redigir uma lista das proposições extraídas dos livros de casuístas que lhe parecessem merecer uma condenação. Cf. Lettere, IV, p. 6 sq., do cardeal Passionei a Concina, 22 de dezembro de 1742. Concina pôs-se ao trabalho e enviou ao cardeal Passionei uma lista de 126 proposições (216, segundo Reusch, Index, t. 1, p. 82). Essas proposições permaneceram por muito tempo sem ser examinadas. Cf. In commentario precipue encyclice ejusd. pontificis adversus usuram, p. vii, Epistola nuncupatoria.
2° Polêmicas. — 1ª fase. — a) Os moralistas da Companhia de Jesus, sentindo-se atingidos na obra de Concina, haviam afetado, de início, um soberbo desdém, lastimando o editor; mas, tendo chegado o sucesso, mudaram de tática e começaram a denegrir Concina.
Após terem impedido a tradução da História do probabilismo, empreendida por um padre de Feltre, de nome Ridolfi, para os países de língua alemã, como ressalta de uma carta escrita por um outro padre de Feltre, em 26 de junho de 1744, ao impressor Occhi, Sandelli, op. cit., p. 49, entraram eles mesmos em campanha. O primeiro que atacou a obra de Concina foi o P. Jacopo Sanvitale. Fê-lo em uma brochura que seus confrades o proibiram de publicar em Veneza. Ela apareceu em Lucca; era intitulada: Giustificazione dei piu personaggi, e di altri soggetti ragguardevoli contro le accuse disseminate a loro pregiudizio, Lucca, 1744. Foi o P. Vincent-Marie Dinelli, O. P., quem se encarregou da resposta; fê-lo em versos elegíacos: De querelis probabilistarum ad Danielem Concinam, in-4°, Verona [Lucca], 1744. Sanvitale replicou: Quevele della giustificazione; ali retomava todas as acusações feitas contra Concina por Millante e Carattini. Dinelli compôs então um secundum sermonem; enfim, Concina fez aparecer uma apologia de sua História do probabilismo, sob este título: Osservazioni critiche-morali in difesa della storia del probabilismo, e del rigorismo, contro il libro intitolato: Giustificazione di piu personaggi ed altri soggetti ragguardevoli, etc., Pesaro, 1744.
b) A Companhia, achando insuficiente o P. Sanvitale, encarregou do ataque o P. Nicolas Ghezzi, já conhecido por numerosas publicações. Preparou, então, um Specimen supplementorum, do qual a História do probabilismo, segundo ele, tinha grande necessidade. Já havia obtido o imprimatur da Companhia; além disso, apresentado ao inquisidor da fé, em Milão, onde deveria ser publicado, o livro havia sido aprovado pelo examinador delegado. Mas eis que, de uma maneira muito inesperada, o título do livro inicialmente, depois o parecer do examinador, e em seguida o próprio manuscrito foram requisitados em Roma. Ghezzi, para não perder tempo e despistar a Inquisição romana, apressou-se em retirar seu livro e enviou-o a Jean-Dominique Mansi, o mais célebre probabilista da época, com o pedido de publicar a obra em Lucca, onde ele se encontrava. Mal começada, a edição teve de ser interrompida. O autor desse atraso foi um padre florentino, Jean Lami. Muito conhecido por suas obras, ele mesmo escreveu ao geral dos jesuítas para se queixar dos ataques que membros de sua Companhia não cessavam de dirigir contra as personalidades mais recomendáveis por seu saber e suas virtudes. Representava-lhe, ao mesmo tempo, que, se não impusesse ordem, toda a Companhia poderia ter de sofrer com isso. O geral dos jesuítas fez saber muito oficiosamente a Lami que nada de desagradável lhe sucederia; ao mesmo tempo, dava ordem para suprimir uma sátira que deveria aparecer contra Lami, mas o libelo dirigido contra Concina não deixava de existir por isso. Cf. Reusch, Der Index, t. II, p. 822. Graças às proteções que Ghezzi soubera conquistar, a edição do Specimen foi retomada, mas sob a condição de que, à medida que fossem sendo produzidas, as páginas fossem enviadas a Roma, para ali serem corrigidas. Finalmente, o livro apareceu sob este título: Saggio di supplementi teologici morali critici, di cui si abbisogna la storia del probabilismo e rigorismo, in-4°, Lucca, 1744. Esta obra continha sete diálogos entre dois cavaleiros: Filandro e Eudoxo. Eles ficaram um pouco assustados com o aparecimento da Histoire du probabilisme; mas Ghezzi os consola e recomenda-lhes que se mantenham em paz. Depois, faz a crítica da obra, sem entrar no cerne da questão. Concina, que por esse tempo se dirigia a Roma, passou por Lucca e conseguiu obter um exemplar dos Dialogues de Ghezzi. Levou-o para Florença e, tendo se detido no convento de San Marco, em quinze dias preparou uma resposta. Os partidários de Ghezzi tentaram, de fato, colocar obstáculos à sua publicação, mas os editores, tendo descoberto a manobra, seguiram em frente. Cf. Novelle fiorentine, an. 1744, p. 367. A obra apareceu sob este título: Esame teologico del libro intitolato: Saggio di supplementi..., in-4°, Pesaro [Veneza], 1745.
c) Entretanto, o Pe. Sanvitale não se considerava vencido, retornou à cena com uma brochura intitulada: Spiegazione breve e sincera di alcune proposizioni inscritte nella giustificazione di più personaggi, e risposta alle osservazioni critiche e morali, Lucca, 1745. Este escrito, pela própria admissão dos Padres da Companhia, não tinha valor algum. Dois outros jesuítas vieram ao resgate: os PP. Zaccharia e Ghezzi. Zaccharia não pôde examinar senão os cinco primeiros capítulos do escrito de Concina e publicou, sem nome de autor, suas Osservazioni sopra i primi capitoli dell’ Esame, etc., Bastia [Lucca], 1745. Por sua vez, Ghezzi retomou alguns pontos omitidos ou levemente tocados por Concina. Deu ao seu escrito este título: Riflessioni sull’ Esame teologico ecc. proposte al M. R. P. F. Dan. Concina da Niccolo Ghezzi della C. di G., Lucca, 1745.
d) Os jesuítas declararam-se vitoriosos e espalharam por toda parte o boato de que Concina não podia mais responder. Ao mesmo tempo, manobravam habilmente para conquistar os membros da S. C. da Inquisição e circundar o próprio papa. Foi decidido que se proibiria a Concina escrever sobre essas matérias, no futuro. Concina, que pregava então em Nápoles, veio a Roma e soube de tudo o que ali se tramava. Tendo-se feito acompanhar pelo Pe. Orlandi, procurador-geral dos celestinos, dirigiu-se ao assessor do Santo Ofício, Guglielmo; lá, soube, de fato, que a S. C. queria que ele não escrevesse mais contra Sanvitale e Ghezzi. Certos membros eram até de opinião de estender essa proibição a toda a ordem dominicana e a Concina em particular sobre todas as questões do probabilismo. A decisão da S. C. fora notificada ao mesmo tempo ao geral dos dominicanos, o Pe. Thomas Ripoll, e ao geral dos jesuítas, de Retz, por uma carta de 22 de fevereiro. Nela dizia-se: Sibi (Ripoll) a suprema S. Officii Congregatione in mandatis datum, ut expresse inhiberet suis, et nominate ipsi Concine, ne quid amplius de probabilismo adversus Ghezziunr aliosque Societatis Jesu scriptores vulgaretur. Por sua parte, de Retz notificava aos provinciais da Companhia a decisão da S. C. por uma carta de 19 de março de 1746. Cf. Collection mss. des ordinations S. J., Munique, 1, 61 (33). Concina, contudo, não se deixou desconcertar pela proibição do geral. Querendo esclarecer o assunto, conferenciou com o Pe.
Joseph-Augustin Orsi, mestre do Sagrado Palácio. Este, por sua vez, tratou do assunto com o cardeal Nereo Corsini, protetor da ordem, que se dirigiu ao papa e lhe pediu verbalmente alguns esclarecimentos. Em uma carta ao geral dos dominicanos, explicou então, em nome do papa, o sentido da primeira proibição. O soberano pontífice proibia qualquer novo ataque ou réplica entre Concina, Sanvitale e Ghezzi, mas declarava que jamais pensara em proibir aos dominicanos em geral ensinar, escrever e defender a doutrina do probabiliorismo, que é a mais plausível e a mais segura. Ao mesmo tempo, o papa pedia ao geral que fizesse chegar essas explicações a todos aqueles que teriam recebido a primeira proibição. Orsi enviou uma cópia desta carta do cardeal Corsini a Concina. Mas os jesuítas fingiram ignorar essas explicações novas e continuaram seus ataques contra ele.
2ª fase. — O sucesso de Sanvitale e de Ghezzi tinha sido bastante duvidoso, por isso fizeram sair das fileiras da Companhia outros defensores do probabilismo. Escolheu-se o Pe. Lecchi, célebre professor de matemática, e o Pe. Bovio, professor de teologia, no colégio da Companhia, em Milão. Para não verem logo seus livros proibidos, caso aparecessem na Itália, os dois Padres partiram para a Suíça e fixaram-se na abadia beneditina de Einsiedeln, então totalmente devotada à Companhia. Foi lá que fizeram publicar suas obras. A do Pe. Lecchi tinha por título: *Avvertenze contrapposte alla storia del probabilismo scritta dal P. Concina e indirizzate ad un erudito cavaliere*, in-4°, Einsiedeln, 1744. Bovio intitulou sua dissertação: *Dell’ uso delle opinioni in materie morali, dissertazione teologica, in cui si espongono semplicemente l’origine e lo stato della questione colle sentenze diverse dei dottori catolici*, in-4°, Einsiedeln, 1744. Como os outros, Lecchi não se deteve senão em pontos de detalhe, sem tocar nos princípios mesmos da *Histoire du probabilisme*. O seu livro, aliás, não tinha o tom violento dos precedentes. Bovio, por sua vez, fingiu ignorar completamente Concina e nunca o citou.
Primeiramente, Concina tivera a intenção de não responder, mas, temendo que seu silêncio fosse tomado por uma derrota, compôs uma obra que intitulou: *Esplicazione di quattro paradossi, che sono in voga nel nostro secolo. Riflessioni sopra i due libri de’ RR. PP. Lecchi e Bovio intitolati : Avvertenze, ecc. Dissertazione, ecc. Si premette un succinto ragguaglio de’ libri stampati in difesa e del probabilismo e di altri punti morali*, in-4°, Lucca, 1746; Veneza, 1750. A obra era dedicada ao cardeal Angelo-Maria Quirini. Após ter enumerado os livros publicados por certos teólogos que ele chama de *mammullaristes*, defensores da opinião de Benzi, Concina inicia a exposição dos quatro paradoxos: 1° sobre o rigorismo e o tutiorismo; 2° sobre a prudência e o pretenso zelo segundo a ciência, tão recomendado pelos autores da moral relaxada; 3° sobre a pretensa caridade da qual se deve usar com relação aos autores que escrevem em favor da moral relaxada e que sustentam opiniões perniciosas; 4° sobre a paz que deve reinar entre os teólogos católicos.
A estes quatro paradoxos, Concina acrescentava um quinto, especialmente dirigido contra Mansi, sacerdote da congregação da Mãe de Deus e probabilista muito conhecido. Ele era autor do prefácio aos diálogos de Ghezzi. Já Concina, em seu *Esame teologico, etc.*, havia combatido as opiniões de Mansi sobre os toques que ele dizia legitimados, em certos casos, pelo costume dos países ou pela amizade. Esta opinião fora exposta por Mansi em seu tratado *De casibus et excommunicationibus reservatis*, Lucca, 1725. Ele replicou a Concina por uma carta *A. R. P. Danieli Concina ord. pred. theologo absolutissimo, S. Luce e Collegio S. Marie Curtis Orlandingorum, die 6 julii 1744*. No 5° paradoxo, Concina declarava que, em particular, a doutrina de Mansi sobre os toques era digna de ser remetida ao Index. Sarteschi apoderou-se desta palavra e escreveu, *cf. De scriptoribus congregationis clericorum regularium Matris Dei*, p. 354, que Concina tinha ele mesmo remetido Mansi à S. C. do Index e espalhado o rumor de sua condenação.
Após ter exposto a doutrina de Mansi em seu 5° paradoxo, Concina reproduzia uma carta em latim, a ele endereçada por Mansi, e nela fazia algumas observações. Finalmente, acrescentava suas observações sobre os livros dos Padres Lecchi e Bovio, dirigidas aos redatores do *Journal de Trévoux*. É contra eles também que era dirigido o escrito intitulado: *Addizione di alcune brevi osservazioni sull’Estratto, che i RR. PP. Trivolziani hanno fatto del libro del P. Millante intitolato: Vindiciae regularium, etc.*
Contudo, a *Esplicazione di quattro paradossi, etc.*, teve o maior sucesso. Sanvitale, octogenário, meio cego, não pôde conter-se e publicou em Lucca uma miserável brochura intitulada: *Paradossi veri contrapposti al libro intitolato ; Explicazione di quattro paradossi, che sono in voga nel nostro secolo. Esame pur anche di certo libro intitolato : Riflessioni sopra le avvertenze e dissertazione contrapposte alla storia del probabilismo*, Aquileia, 1746.
Na França, o livro de Concina foi particularmente bem acolhido. O Pe. François du Four, O. P., professor de teologia na Academia de Toulouse, deu-lhe uma tradução francesa, sob este título: *Explication de quatre paradoxes qui sont en vogue dans notre siècle, avec une préface dans laquelle on rend compte de ce qui s’est passé en Italie à l’occasion de l’Histoire du probabilisme et de la condamnation des nouveaux mammulla- rires... Ouvrage traduit de l’italien et augmenté d'une relation exacte des disputes sur la morale qui se sont élevées par delà les monts, depuis 1739. Et un recueil des décrets portés par N. S. P. le pape Benoit XIV, contre plusieurs opinions relâchées. Par M. le chevalier Philalethi*, em Avinhão, 1752.
Em uma carta, de 13 de outubro de 1752, Du Four diz a Concina todo o bem que seu livro poderá fazer na França, onde «certas pessoas (em particular em Paris) não cessam de espalhar que o papa, o geral dos dominicanos e o Pe. Richelmi são jansenistas decididos». Em outra carta de 2 de abril de 1753, Du Four anuncia a Concina que as quatro edições de seu livro foram esgotadas imediatamente. Ele contava também empreender uma tradução da *Histoire du probabilisme*.
a) Não tendo tido sucesso nem Lecchi nem Bovio, dois outros jesuítas entraram em cena: os PP. Jean-François Richelmi e Gaspar-Joseph Gagna. Richelmi publicou Saggio di avvertimenti sopra l’opera del P. Concina intitolata : Della storia del probabilismo, etc., in-4°, Veneza, 1745. A obra era dedicada ao cardeal Quirini. Usava-se a mesma tática: servir-se do ridículo para não ter que discutir os princípios.
A obra de Gagna era intitulada: Lettere d’Eugenio Apologista delle dissertazioni della storia del probabilismo e del rigorismo ad un collega del P. Daniello Concina, in-8°, Veneza, 1745. Esta obra singular era também dedicada ao cardeal Quirini. Compunha-se de 14 cartas ou diálogos; a encenação devia assegurar à obra, junto ao grande público, um acolhimento favorável. As personagens ali eram numerosas e Gagna, de propósito, as tinha escolhido em todos os estratos. Nada ali faltava, de tempos em tempos, inclusive, os diálogos eram interrompidos por audições musicais. Cf. Sandelli, op. cit., p. 115.
Concina respondeu ao mesmo tempo a Richelmi e a Gagna por quatro cartas das quais se conservam cópias manuscritas em algumas bibliotecas. Elas eram intituladas: Lettere ai RR. PP. Richelmi e Gagna autori delle due opere intitolate Saggio d'avvertimenti, ecc. et Lettere di Eugenio apologista, ecc., contro la storia del probabilismo e del rigorismo. Patuzzi deu um exemplar destas cartas na Lettera ad un amico XCIX.
b) Em 1748, Sanvitale faz publicar um escrito intitulado: Raccolta di molte proposizioni estratte dalla storia del probabilismo e rigorismo impugnate come opposte al vero, in-4, Aquileia [Verona], 1748; Trento [Veneza], 1751. Foi o Pe. Patuzzi, O. P., quem respondeu por Concina; fê-lo em dezesseis cartas que intitulou: Lettere teologico-morali di Eusebio Eraniste all’ autore della Raccolta delle molte proposizioni, ecc., in difesa dell’ Istoria del probabilismo del P. Daniello Concina. Si aggiugne un distinto ragguaglio delle controversie letterarie passate tra il detto P. D. Concina ed i suoi avversari e de’ libri stampati da una parte e dall’ altra, 2 in-8°, Trento, 1751. Para a história da controvérsia, ver t. II, p. 835, 502; registros dos dois primeiros volumes, t. I, p. 476.
Nessas cartas, Patuzzi refutava Sanvitale, Ghezzi e Gagna. Desde as Provinciais de Pascal, dizia-se, nada havia aparecido de mais perfeito neste gênero. Patuzzi prestou grandes serviços com essas cartas, que lançaram uma luz mais viva sobre essas questões do probabilismo, assim como havia feito Thomas Lemos para as questões da graça. Mas, na Companhia, as cartas receberam uma acolhida bem diferente. Empenhou-se, primeiramente, em fazê-las passar por uma obra abominável, saída do inferno. Cf. Epistolarum theologico-mor. Eusebii Eranistis, édit. 1753, t. III, préf., p. xxx. Invocou-se, mas sem grande proveito, o apoio do braço secular; como o sucesso não correspondia à expectativa, voltou-se para outro lado.
c) O Pe. Sanvitale publicou contra Patuzzi: Lettere teologico-morali a difesa dell’ Istoria del probabilismo esaminate e dimostrate infette di falsità, Trento [Veneza], 1752; muitas páginas haviam sido suprimidas pela censura, por isso Sanvitale fez aparecer uma segunda edição em Luca, 1752. As cartas apareceram depois em volume, Trento [Veneza], 1753; delas foi dada também uma tradução latina sob este título: Epistolæ theologicæ morales ad defensionem Historiæ de probabilismo examinatæ, et falsi convictæ, in-8°, Ingolstadt, 1753.
Por volta do mesmo tempo, outro jesuíta de Turim, o Pe. Balla, atacava Concina em um escrito intitulado: Risposta alle lettere teologico-morali del P. N.N., sotto il nome di Eusebio Eraniste, Modena, 1753, 1754. Às quatro cartas que compunham o escrito primitivo, duas outras foram acrescentadas e o todo apareceu novamente, em Veneza, 3 in-8°, 1755-1756. O Pe. Balla dedicava-se sobretudo a arruinar a crítica que Patuzzi havia feito de Gagna.
Fez-se tanto barulho em torno das cartas do Pe. Balla que se começava a duvidar da eficácia da resposta de Patuzzi. Foi então que ele retomou a pena e publicou dezesseis novas cartas, sob este título: Lettere teologico-morali in continuazione della difesa della storia del probabilismo e rigorismo, ecc., del P. Daniello Concina, ovvero confutazione della risposta pubblicata dal M. R. P. B. della C. di J. contro i due primi tomi delle lettere di Eusebio Eraniste, 2 tomos (V e VI), Trento, 1754.
d) Mas os adversários de Concina não davam nenhum descanso a Patuzzi, que se havia constituído seu defensor. O Pe. Zaccharia não cessava de atacar, em sua Storia letteraria, Concina e seus partidários. Patuzzi quis, de uma vez por todas, tirar de Zaccharia o desejo de continuar seus ataques. Ele compôs, então, por volta de 1755, uma obra em dois volumes. Já o segundo volume estava impresso quando um incêndio, tendo deflagrado na gráfica, destruiu todos os exemplares do I e não poupou senão muito poucos do II.
Zaccharia havia conseguido obter alguns fragmentos da obra; imediatamente, compôs três cartas: Lettere a preservativo contro due tomi d’Eusebio Eraniste, sgraziatamente incendiati in Venezia, quando l’autore ne procurasse una novella ristampa. Ele pensava ter a causa ganha; contara sem a sábia previdência de Patuzzi, que havia conservado o autógrafo de seu escrito. Como, aliás, Balla acabara de publicar uma quinta carta contra Concina e as cartas teológicas e morais, Patuzzi decidiu retomar a edição tão infelizmente interrompida.
A obra apareceu sob este título: Osservazioni sopra vari punti d’istoria letteraria, esposte in alcune lettere da Eusebio Eraniste, dirette al M. R. P. Franc. Ant. Zaccaria, con due appendici, altra in risposta alla quinta lettera del M. R. P. Filiberto Balla, altra di documenti, etc., Opera dedicata a sua Eccellenza Marco Foscarini, cavaliere e procuratore di San-Marco, etc., 2 in-8°, Veneza, 1756.
Contra esta obra, Zaccharia fez aparecer: Difesa della storia litteraria d’Italia e del suo autore contro lettere teologico-morali di certo P. Eusebio Eraniste ed altre lettere d'un mascherato Rambaldo Norimene. Continuazione del tomo VIII della stessa storia, in-8°, Modena, 1755. A obra era dedicada ao cardeal Quirini. Cf. Sandelli, op. cit., p. 213; Döllinger-Reusch, Geschichte der Moralstreitigkeiten, etc., t. I, p. 312, nota 1. As réplicas não tardaram: outro dominicano, o Pe.
Camillo Miglioli, da congregação de Santa Sabina, fez aparecer contra a quinta carta de Balla: Lettere di Agenore a Filarco suo amico intorno la quinta lettera del P. Fil. Balla e le censure di Fr. A. Zaccaria nel tomo VII, della storia letter. in difesa del P. Concina e di Eusebio Eraniste, 2 in-8°, Veneza, 1756. Cf. Sandelli, op. cit., p. 215.
IV. OS CASOS RESERVADOS.
1º Ocasião. — Em 1743, no tempo das disputas entre Concina e os jesuítas a propósito da Quaresma apelante e da História do probabilismo, um jesuíta de Veneza, o Pe. Bernardino Benzi (1688-1768), publicou uma dissertação intitulada: Dissertatio in casus reservatos Venetæ diœceseos, in-4° et in-8°, Veneza, 1743. O 8º caso reservado estava assim formulado: Quælibet impudicitia cum monialibus facta, vel quocumque modo attentata. O casuista perguntava-se: An reservatione afficiatur, qui cum moniali peragat, vel attentet actus subimpudicos de se veniales, v. g. vellicare genas, mamnillas tangere, et solum ex pravo affectu vel ex prava intentione mortales? Ele respondia: Negative, non, juxta nostram regulam octavam nonnisi peccata per externam malitiam mortalia reservantur. Durante quase um ano, Concina ignorou a existência desta dissertação; ela lhe foi revelada pelos PP. Jerônimo de Castro Franco e Félix de Veneza, ambos capuchinhos, que lhe pediam para responder. Mas Concina, então sobrecarregado, não pôde fazê-lo. Foi o Pe. Fulgêncio Cuniliati, O. P., quem se encarregou. Por sua instigação, o cônego Oker dirigiu uma carta a Benzi onde o exortava ou bem a voltar atrás na doutrina exposta no 8º caso de consciência, ou mais simplesmente a suprimir na dissertação a página onde se encontrava a passagem incriminada. Mas Benzi não quis ouvir nada, e em uma carta de 4 de janeiro de 1744, dirigida a Oker, defendia sua opinião. Embora Benzi fosse ele mesmo o autor desta carta, ela era dada como de uma outra pessoa que fazia sua apologia. Nela se trazia, como prova da verdade da doutrina contida na dissertação, a acolhida que lhe tinham feito tantos confessores e pregadores, e também o valor pessoal do autor que, havia quinze anos, era confessor e tinha ensinado a teologia moral, durante oito anos, no colégio da Companhia, em Veneza. Ver BENZI, t. II, col. 719.
2º Polêmicas. — 1. Concina interveio no debate por duas cartas em latim: Epistolæ theologico-morales ad illustrissimum et reverendissimum NN, [cardeal Quirini, bispo de Bréscia] adversus librum inscriptum: Dissertatio, etc., in-4°, Veneza, 1744; Luca, Roma. Era a resposta a um pedido de explicações do cardeal. Cf. Explications des quatre paradoxes, etc., trad. franç., in-8°, Avignon, 1751, préface, p. 51. Ao mesmo tempo, Orsi, consultor do Index, era avisado. A questão foi submetida a Bento XIV, que pediu um exemplar da dissertação e, após ter tomado conhecimento, ordenou que ela fosse imediatamente remetida ao Santo Ofício para ser ali condenada. Em Veneza, os jesuítas puseram-se em movimento. O Padre Villari ganha para a sua causa Marco Foscareno, um dos triúnviros da Academia de Pádua, representando-lhe que Benzi compôs esta dissertação apenas por ordem do patriarca de Veneza; que este a aprovou, recomendando-a a todos os seus párocos. Tendo Foscareno se deixado convencer, Villari incita-o então contra Concina, cujas cartas devem ser condenadas a todo o custo. Foscareno consente. Infelizmente, um outro membro da censura, Pasqualigo, foi mantido a par de tudo. Por conselho seu, Concina conta a Foscareno o que se passou e, pelo duplo testemunho de Concina e de Pasqualigo, Foscareno reconhece que foi enganado por Villari. Os jesuítas voltaram-se então para o lado de Roma. Pretendeu-se defender Benzi, mostrando que a doutrina da dissertação era também a dos dominicanos. Por fim, remeteram à S. C. do Index as cartas de Concina. O melhor meio de acabar com isto, diziam, seria impor silêncio a ambas as partes. Mas eis que um decreto solene da Santa Inquisição, datado de 16 de abril de 1744, condenava a dissertação de Benzi, tanquam continentem propositiones respective falsas, male sonantes, scandalosas, et piarum aurium offensivas ; eademque prohibitione damnat et vetat quascumque scripturas, seu libros editos, ejusdem libri defensionem continentes. Sobre esta condenação, cf. Concina, Apparatus ad theol. christ., t. II, p. 835; Reusch, Der Index, t. II, p. 818, 820; Döllinger, Beiträge, etc., t. II, p. 11 (reproduz uma memória de Cordara, S. J., que explica a condenação de Benzi pela parcialidade dos membros da comissão); Faure, Commentarium, p. 210. Bento XIV tinha exigido que Benzi se retratasse, o que ele fez. Cf. a fórmula da retratação em Sandelli, op. cit., p. 66, nota. Segundo as Nouvelles ecclésiastiques, 1745, p. 167, a Inquisição teria recusado a primeira retratação de Benzi e só a teria aceitado por uma ordem formal do papa. Benzi vira serem-lhe retirados todos os seus poderes em Veneza; ele foi a Pádua, onde o cardeal Rezzonico (mais tarde Clemente XIII) os devolveu. Foi em seguida a Belluno, depois voltou a Veneza, onde, a requerimento do núncio, os seus poderes lhe foram também devolvidos. Cf. Nouvelles ecclésiastiques, 1752, p. 188. Um pouco mais tarde, a 22 de maio de 1745, Benzi teve ainda um outro livro no Index, Praxis tribunalis conscientiæ seu tractatus theologicus moralis de sacramento pœnitentiæ, Bolonha, 1742. Cf. Reusch, Der Index, t. I, p. 818. Em Veneza, fizeram-se todos os esforços necessários para impedir a publicação das cartas de Concina, mas foi sem sucesso.
2. Os jesuítas, todavia, não se deram por vencidos. O P. J.-B. Faure, em Roma mesmo, publica um libelo intitulado: All’ autore delle due epistole contro la Dissertazione dei casi riservati in Venezia Avviso salutevole, acciò conosca se stesso, in-4°, Nápoles, 1744. Este libelo tinha aparecido pouco antes da condenação de Benzi; deram-lhe imediatamente os maiores louvores. Cf. Novelle della Republica delle lettere, ano 1744, p. 357. Após este primeiro monitum, apareceu um segundo, mas posteriormente à condenação, tal como observa o próprio autor, p. v. Embora o livro não trouxesse indicação nem de local, nem de autor, o P. Faure foi rapidamente reconhecido como sendo o seu autor. Para não ir contra o decreto de 16 de abril de 1744, ele tivera o cuidado de protestar que não pretendia empreender uma defesa de Benzi, mas queria apenas mostrar que os livros de Concina não tinham qualquer valor.
Os Monita chegaram ao conhecimento do mestre do Sacro Palácio, que mandou apreender 500 exemplares junto ao livreiro Settari. Atirado para a prisão, confessou que os dois Monita tinham sido impressos na tipografia Mainardi e que tinham como autores os PP. Faure e Castellini. Cf. de Backer e Sommervogel, Bibliothèque de la Cie de Jésus, t. I, col. 1798. Junto a Faure, Yon apreende o autógrafo dos Monita, mas ele pretendeu tê-los copiado ele mesmo sobre um outro manuscrito. Seja como for, foi condenado aos «exercícios espirituais», a jejuns e a disciplinas. Cf. Nouvelles ecclésiastiques, 1744, p. 167. Settari viu os seus bens confiscados e Mainardi teve de pagar uma forte multa, em conformidade com as leis.
3. Mas o episódio mais notável desta polêmica foi a retratação ou palinódia aparecida sob o disfarce do anonimato, com este título: Ritratlazione solenne di tutte le ingiurie, bugie, falsificazioni, calunnie, contumelie, imposture, ribalderie stampate in vari libri di Fra Daniello Concina, Domenicano gavotto contro la venerabile Compagnia di Gesu, da aggiuggersi per modo di Appendice alle due infami lettere teologico-morali contro il R. P. Benzi della medesima Compagnia, Veneza, 1774. Era a confissão de Concina, supostamente feita por ele mesmo, de todos os erros infligidos à Companhia. Cf. Sandelli, op. cit., p. 77; Patuzzi, t. II, p. 413.
Quem era o autor deste falso? Mazzuchelli, Scrittori d’Italia, art. Benzi, diz que se atribuiu primeiramente ao P. Cordara, depois ao P. Torniello, e enfim ao P. François-Ant. Zaccharia. Segundo Reusch, Der Index, t. II, p. 819, dever-se-ia, ao testemunho de Caballero, atribuí-la a Faure, mas é mais provavelmente do P. Lelius Ignace Cocconati, que vivia em Veneza por volta de 1744. Cf. o estudo de Cioranescu sobre os livros anônimos e pseudônimos publicados por religiosos da Companhia de Jesus, Paris, 1884, col. 855. A edição que indica é de Nápoles, 1744; outros manuscritos trazem Veneza, 1744; pareceria que houve duas edições, a menos que a mesma edição traga dois nomes de locais diferentes. Deram-se um trabalho incrível para difundir este escrito em Roma, em Veneza, e sobretudo em Luca.
Apesar do desgosto sentido por vários membros da Companhia diante de semelhante manobra, nada fizeram, todavia, com vista a deter a propagação deste escrito. Foi necessário um decreto solene da Santa Inquisição, datado de 17 de junho de 1744, emitido a pedido expresso de Bento XIV, para pôr termo a estas manobras. Cf. Sandelli, op. cit., p. 82, nota. Aqueles que não conheciam Concina podiam esperar que ele respondesse; mesmo uma pequena nota, impressa em Roma e publicada em Veneza, sob este título: Ritratlazione, etc., Operetta curiosa che puo servire di supplemento alla morale pratica de’Gesuiti, parecia indicar que a resposta não se faria esperar muito. Mas, de Roma, pediram a Concina, por intermédio de Carraciolo, núncio em Veneza, que não respondesse a nada, sendo o decreto do papa suficiente para o vingar. Numa carta ao soberano pontífice, Concina declarou que jamais teve a intenção de responder, o que lhe valeu da parte de Bento XIV uma carta muito elogiosa, datada de 4 de julho de 1744. Cf. Sandelli, op. cit., lett. XII, p. 24, nota.
4. Fortalecidos doravante pelo silêncio de Concina, seus adversários podiam dar livre curso às suas ações. Em 1745, o Pe. Dominique Turani, S. J., publicou clandestinamente, em Veneza, um opúsculo intitulado: Judicium cujusdam viri theologie prof. ad amicum confessorem monialium. Alegou-se que a obra havia sido lançada ao público contra a vontade de seu autor. Cf. Reusch, Der Index, t. II, p. 819. Turani teria se queixado ao próprio papa sobre a publicação de sua obra, e o papa, por uma carta de 22 de fevereiro de 1745, teria aceitado a desculpa. Storia letteraria, t. XIII, p. 380.
Pouco depois do Judicium, apareceram três opúsculos, sob este título: R. P. Danieli Concine duarum epistolarum theologico-moralium auctori opuscula hec quatuor vere aurea Eusebius Philalethus D. D. D. Patuzzi publicou alguns espécimes desses opúsculos em Epistola ad amicum, Epistolarum thelogico-moralium, t. I. O primeiro opúsculo era a relação feita a um bispo dos distúrbios ocasionados pelas cartas de Concina; o segundo continha observações sobre os atos do venerável servo de Deus, Simão de Rozas, que, para curar os enfermos, por vezes praticava toques da natureza daqueles incriminados na dissertação de Benzi; o terceiro, enfim, sob a forma de questão, investigava o que poderia haver de repreensível na dissertação de Benzi e não encontrava nada a censurar, a não ser algumas impropriedades de linguagem. Cf. Sandelli, op. cit., p. 85sq.
Mas o auge foi que um jesuíta de Bérgamo, o Pe. Joseph Poli, pretendeu que a doutrina de Benzi era a de santo Tomás, e isso em um pequeno escrito editado clandestinamente sob este título: Dottrina di san Tommaso proposta alle considerazione dei saggi, e sinceri amatori della verita, accioché possano formare un retto giudizio sopra la prima lettera scritta dal P. Daniele Concina contro il P. Bernadino Benzi, autore della Diss. sopra i casi reservati nel veneto patriarcato, s. l. A única diferença que Poli encontrava entre a doutrina de Benzi e a de santo Tomás é que Benzi é rigorista quando diz que vellicare genas e monialium tangere mammillas são faltas veniais, enquanto santo Tomás, ele, pretende que são atos indiferentes, p. 28.
Ardent defensor da doutrina de santo Tomás, o Pe. Patuzzi compôs em 1745: Difesa della dottrina dell’angelico dottor S. Tommaso sopra l’articolo quarto della questione cLIII, IIa IIe. Este escrito não foi, contudo, publicado senão em 1756, em Lucca. Por volta do mesmo tempo, Charles Antoine Donadonis, O. M., bispo de Sebenico, escrevia contra Benzi um livro que intitulava: Il parlatorio delle monache chiuso in faccia alla insolente, e scandolosa nuova dottrina di sua reverenza Bernardino Benzi gesuita, et vendicato dalle imposture tentate contro il P. Daniello Concina dell’ordine de’ predicatori. Mas tendo o autor morrido no mês de janeiro de 1756, o livro não apareceu. O testamento de Donadonis, na data de 15 de janeiro de 1751, ordenava ao legatário que entregasse o manuscrito seja a Concina, seja a seu irmão, Nicolas Concina. Zaccharia, no elogio de Donadonis, julgou por bem não mencionar esta obra contra Benzi. Cf. Annali letterari d’Italia, t. III, c. 1, § 1, p. 216 sq.
Um dos episódios mais interessantes desta polêmica foi o tumulto levantado contra os dominicanos de Veneza, nas seguintes circunstâncias: Benzi havia, portanto, visto ser-lhe proibido, em Veneza, o ministério da confissão. Quando ele retornou de Pádua, trabalharam para fazê-lo reintegrar neste ministério. Por cartas secretas, os jesuítas intimaram os PP. J. Bernard-Marie de Rubeis e Concina a intervirem junto ao patriarca de Veneza. Diante da recusa deles, espalharam, em 1745, o boato de que os dominicanos de Veneza haviam emprestado a juros, em Gênova, mais de 150.000 escudos de ouro, para poderem se defender contra os Imperiais. E para dar mais credibilidade a estes boatos, fizeram espalhar no público uma carta apócrifa, escrita de Gênova, onde a coisa era garantida. O que deu ainda mais crédito a esta denúncia foi o testemunho de um alto personagem da Companhia, vindo de Gênova a Veneza expressamente, e que de lá se dirigiu a Viena para ali colportar as mesmas insinuações; mas em Viena, foi repelido. Enquanto isso, em todo o país vêneto, houve um levante de indignação contra os traidores. Falava-se já em proibi-los de todo o território de Veneza. Contudo, no Senado, não se quis precipitar nada; tomaram-se informações mais amplas pelos agentes da República nos outros países e descobriu-se toda a intriga. Sobre este caso, cf. Patuzzi, Epistolarum theologico-moralium, t. II, VI; Osservazioni sopra la storia letteraria, Epist., x; Lettera xxxiv in difesa della storia del probabilismo, etc., § 47; P. Bonaventura a Coccaleo, Lettere di Ragguaglio, etc., sob o pseudônimo de Rambaldi Norimenis, Epist., xi, §44sq. Zaccharia reeditou esta calúnia em sua Histoire littéraire, t. VI, p. 397. Além disso, em sua Difesa della Storia letteraria e del suo autore, lett. vii, Zaccharia, embora tratando este relato como historiola, insinua, não obstante, que os testemunhos de Patuzzi não são absolutamente decisivos.
V. THEOLOGIE CHRETIENNE.
1° L'ouvrage. — Desde o ano de 1740, Concina meditava fazer um trabalho de conjunto sobre a teologia moral, mas o ministério, as pregações, as polêmicas vinham sem cessar adiar a realização de seus projetos. Finalmente a edição, começada em 1749, foi terminada em 1751. A obra compreendia 12 tomos in-4° e trazia este título: Theologia christiana dogmatico-moralis, in-4°, Roma [Veneza], 1749-1751, 1755. Bento XIV havia aceitado a dedicatória da obra. À frente do 1º volume encontra-se um prefácio em 14 capítulos. Os 12 primeiros tratam da dignidade da moral cristã e do modo de falar dela; o XIII é um elogio da Companhia de Jesus; o XIV contém uma elevação ad Christum Jesum. Os quatro primeiros tomos são consagrados ao decálogo; o V aos mandamentos da Igreja; o VI trata do direito natural e do direito das gentes; o VII de certas outras questões de justiça e de direito; o IX defende o sacramento da penitência contra certas opiniões de casuístas; o X trata dos sacramentos da extrema-unção, da ordem e do matrimônio. A simonia, as censuras, os vícios, os pecados, as virtudes e as bem-aventuranças, a ciência necessária aos diretores de almas são passados um a um em revista. Os XI e XII tomos são dos mais importantes. Eles são intitulados: Ad theologiam christianam... Apparatus. No XI, encontra-se uma coleção de constituições, decretos e breves contra erros dogmáticos ou morais; o XII contém o tratado da consciência: sua noção, suas divisões; toca-se ali também na Histoire du probabilisme. À frente de cada volume, o autor colocou a coleção de todas as proposições condenadas. Ele havia extraído dos casuístas 528, das quais 248, tiradas dos autores da Companhia. No XI tomo, Concina apresentava o seu método ao tratar dos lugares teológicos. Desde o seu aparecimento, a Teologia cristã conquistou todos os sufrágios. Cf. Busenbaum, S. J., Theologia morum, Veneza, 1760, pref., p. xi. Esta edição dirigida por Angelo Franzoja desagradou fortemente à Companhia, devido aos louvores conferidos a Concina; assim, em uma edição posterior, sob o pseudônimo de Ireneus, Venet., um membro da Companhia de Jesus entregou-se a uma violenta sátira, sob o título de Expostulatio ad Franzojam, contra Concina e Patuzzi, a quem chama: Scriptores per totam late litterariam rempublicam ignominia notatos, pessimos dialecticos, calumniatores teterrimos, etc. Mas esta edição (1767) foi condenada pelo parlamento de Toulouse, depois pelo de Bordeaux, a ser queimada pela mão do carrasco, e a pena das galés pronunciada contra os impressores que ousassem publicá-la. O parlamento de Paris tomou as mesmas medidas. A Teologia cristã recebeu um acolhimento particularmente favorável na França e na Espanha; E. Enriquez tornou-se o seu ardente propagador. Carta do cardeal Enriquez a Concina, de Madrid, 1752; Escurial, 1752; Madrid, 26 de dezembro de 1752; Aranjuez, 12 de junho de 1753; Sandelli, op. cit., p. 134, nota. Contudo, mesmo na Espanha, encontraram-se logo detratores da Teologia cristã. É assim que Sandelli, op. cit., p. 133, relata, mas sem dar crédito, que o P. Rabago, S. J., confessor do rei da Espanha, lhe teria aconselhado a reservar para si a colação de todos os benefícios na Espanha, a fim de que os jesuítas, tendo uma grande influência na distribuição destes benefícios, pudessem assegurar-se uma clientela contra Concina. Sobre a política do P. Rabago, ver M. F. Miguélez, Jansenismo y Regalismo en España, Valladolid, 1905. Tartarotti e Scipion Maffei tentaram, entre os primeiros, lançar sobre a obra de Concina o descrédito e a desconfiança, mas foi sem sucesso.
2° Polêmicas. — O primeiro que se colocou abertamente como detrator da Teologia cristã foi o P. François-Antoine Zaccharia, que, na sua Histoire littéraire, t. II, p. 49 sq., assim como nos outros tomos da mesma obra, esforçava-se por prejudicar o autor. O P. Patuzzi respondeu a Zaccharia em várias obras. Epist. ad amicum, p. 115 sq.; Epistolæ theologico-morales, e nomeadamente Observationes litterariæ. Mas foi sobretudo com o aparecimento do t. IX da Teologia cristã que os adversários de Concina se declararam. Não tinha ele, efetivamente, mostrado que Suarez não era de modo algum partidário do probabilismo? Imediatamente puseram-se em campanha. Tomou-se pretexto de tudo para condenar a obra; as falhas de impressão mesmas foram julgadas delitos gravíssimos. Após a eleição do P. Inácio Visconti como geral da Companhia (4 de julho de 1751), foi decidido que se pediria a Bento XIV a condenação da Teologia cristã.
Compôs-se um enorme memorial onde se tinham reunido mais de 300 chefes de acusação contra Concina e foi decidido que o geral da Sociedade iria ele mesmo com os seus assistentes apresentar este memorial ao papa. O geral da Companhia pedia ao papa para nomear uma comissão de teólogos que apontassem todos os erros contidos na Teologia cristã, e ver-se-ia se não haveria motivo para condená-la, o que todos eram unânimes em reclamar. O papa respondeu que era coisa difícil comparar cada um dos pontos incriminados no memorial com as passagens da Teologia cristã; aconselhou então, para este fim, publicar o conjunto das proposições pretensamente falsas, e ele se dispunha a impor silêncio às duas partes. Mas o geral não pareceu muito encantado com esta solução.
Querendo, contudo, dar-lhe satisfação num ponto, o papa delegou três teólogos, os PP. Thomas Sergi, das Escolas Pias, Mancini, dos Mínimos, e Vezzosi, dos Clérigos Regulares. Na presença do geral e de um dos seus assistentes, encarregou estes delegados de fazer um resumo dos pontos mais importantes contidos no memorial. Mas estes teólogos furtaram-se, dizendo que, afinal, era muito mais negócio dos jesuítas resumir o que eles próprios tinham composto; aliás, diziam eles, melhor do que ninguém eles conheciam a Teologia cristã. O geral aproveitou logo esta desculpa para nomear o P. Charles Noceti. Ele tinha terminado em breve o resumo, que foi apresentado ao papa logo no mês de junho. Sandelli, Comment. de vit. et script., p. 148, nota, deu uma cópia do autógrafo. Este segundo memorial era intitulado: Libellus PP. JJ. adversus Danielem Concinam. Cf. Vindiciæ Societ. Jesu, etc., edição latina, in-4°, Veneza, 1769, p. 143.
No início do livro, os jesuítas tinham relatado, escritas em itálico, estas sete razões que lhes pareciam mais do que suficientes para fazer condenar a obra: 1° Concina atribui aos autores da Companhia opiniões demasiado relaxadas e que, contudo, nunca foram ensinadas por esses escritores; 2° ele previne o juízo da Igreja ao censurar muitas proposições de moralistas; 3° ele lança o descrédito sobre a Companhia ao fazer figurar nos Índices os autores jesuítas que sustentaram opiniões monstruosas; 4° ele faz preceder cada dissertação de um conjunto de proposições que declara condenáveis, sem aguardar o juízo da Igreja; 5° ele se obstina em fazer passar os jesuítas como autores da moral corrompida; 6° ele não poupa ninguém, nem as regras de Santo Inácio, nem os papas, nem as Congregações; 7° enfim, ele retirou de livros contra os jesuítas tudo o que continham contra a sua moral.
O libelo terminava com esta súplica: Cum igitur, beatissime Pater, nullus hactenus liber ne ab hereticis quidem prodierit Societati nostre infensior, ac perniciosior ; nullus qui pluribus imposturis, conviciis, censuris, et injuriosis debacchationibus scateat : nullus qui venenum, contra Societatem in aliis dispersum, plenius in unum colligat; predictus prepositus generalis tum suo, tum universe Societatis in comitiis generalibus congregate nomine, danni hujus reparationem, atque operis proscriptionem a Sanctitate vestra suppliciter ac demississime petit. Quod si concesserit, immortalia sua erga ordinem nostrum merita novi hujus beneficii accessione munificentissime cumulabit.
O papa remeteu o libelo aos três teólogos que já tinha delegado para o primeiro memorial. Eles deviam certificar-se se realmente as queixas articuladas contra Concina se encontravam justificadas pelas passagens incriminadas da Teologia cristã. O papa tinha-lhes feito jurar ao mesmo tempo que não comunicariam com ninguém sobre esta matéria. Mas eles não levaram em conta esta proibição; com efeito, frequentemente Sergi e Vezzosi dirigiam-se ao convento da Trinità dei Monti, onde habitava Mancini, e ali se entendiam com os Padres da Companhia sobre o que convinha fazer. Por fim, estes teólogos entregaram ao papa um memorial que concluía pela condenação pura e simples da Teologia cristã.
Mas Bento XIV, tendo se informado do que havia ocorrido, no dia 29 de agosto, entregou ao P. Antonin Brémond, geral dos dominicanos, o memorial em questão, que foi imediatamente transmitido a Concina para que este fizesse uma resposta. Imediatamente, Concina mandou copiar o memorial pelo P. V. M. Dinelli e por outro religioso designado pelo geral. Compôs, em seguida, duas respostas, redigidas uma em latim, a outra em italiano. No dia 21 de setembro, o P. Brémond apresentou-as ao papa. Após ter tomado conhecimento das respostas de Concina, Bento XIV declarou de proscription Theologiæ christianæ ne verbum quidem audire se velle, sed unice de eo esse sollicitum, an revera illo in opere sententiæ moribus perniciose reperirentur, falso per injuriam et calumniam adscriptæ scriptoribus Societatis.
O papa proibiu Concina de publicar sua resposta latina, por achá-la um pouco áspera demais. Apesar de todo o cuidado que empregou em pesquisar este escrito, Sandelli, op. cit., p. 160, declara não ter conseguido obtê-lo; ele fornece apenas um esboço muito breve. A resposta italiana, traduzida para o latim por Sandelli, op. cit., p. 161, tem por título na tradução: Libellus supplex Fr. Danielis Concinæ oblatus Benedicto XIV, die XXI septembris a. MDCCLI adversus libellum supplicem a P. Vicecomite generali jesuitarum porrectum eidem pontifici nomine totius Societatis, congregatæ in congregatione generali, in qua idem P. Vicecomes generalis inauguratus est. Cf. Vindiciæ Societatis Jesu, etc., in-4°, Veneza, 1769, p. 451. Concina ali rebatia ponto por ponto as acusações feitas contra ele no libelo dos jesuítas. Solicitava um exame mais atento da questão e declarava submeter-se de antemão a todas as penas que se reconhecesse ter incorrido.
Contudo, os jesuítas não recuaram e iniciaram uma campanha obstinada entre os grandes e os cardeais a fim de formar a opinião contra Concina e sua obra. Por sua vez, Concina, em um escrito muito breve, declarava que estava pronto para defender suas opiniões perante o soberano pontífice e todo o sacro colégio, e que, se o considerassem fraco em suas provas, ele se submeteria de antemão às penas mais severas. Cf. Sandelli, op. cit., p. 168, nota a. O papa pediu então aos três teólogos anteriormente nomeados que arrolassem todas as faltas, as citações inexatas, etc., da Teologia cristã. Eles puseram-se ao trabalho e compuseram um relatório avassalador para Concina.
Mas Bento XIV conhecia o espírito que os animara; por isso, diante de uma numerosa assembleia, tendo tomado conhecimento deste libelo odioso, disse: Non vogliamo che quel galantuomo del Concina sia aggravato. Desde então, dispôs-se a falar ele mesmo. Mandou chamar o protonotário Giampe e ditou-lhe em italiano uma Declaração mais ou menos copiada sobre a resposta de Concina ao libelo dos jesuítas. Entregou, em seguida, esta Declaração ao P. Brémond para que Concina a publicasse no próximo volume da Teologia cristã. A seu pedido, esta Declaração deveria ser traduzida para o latim. A tradução foi intitulada: Declaratio et sincera protestatio F. Danielis Concinæ super aliquibus oppositionibus factis contra tomos suæ Theologiæ christianæ dogmatico-moralis recens typis editos. Cf. Vindiciæ Societatis Jesu, etc., ed. latina, p. 154.
Ela havia sido feita pelo P. V. M. Dinelli, pois Concina temia que o acusassem ainda de ter falseado o sentido das palavras do papa. O P. Brémond teria querido que a Declaração aparecesse ao mesmo tempo em italiano e em latim, mas Concina opôs-se para não fazer descer ao público uma discussão para a qual não estava bem preparado. A tradução foi entregue ao papa no dia 30 de novembro de 1751; ao mesmo tempo, a Declaração era enviada ao impressor em Veneza para aparecer no 1º volume do Apparatus ad theologiam christianam. O papa pedia alguns exemplares com a maior brevidade possível.
Julga-se facilmente o estado de espírito dos contraditores de Concina. Tratava-se de fazer virar contra ele o efeito da Declaração. Tendo Jean Lami publicado nas Novelle letterarie, dezembro de 1751, col. 811, que, das 280 proposições falsas atribuídas por Concina a autores jesuítas, todas haviam sido reconhecidas autênticas, exceto uma que, por erro, fora atribuída ao P. Moja e não ao seu verdadeiro autor, Lami foi atacado pelo geral dos jesuítas e, no número de janeiro de 1752, p. 21, teve de se retratar, ao menos em parte; ademais, sob a coação do poder civil, teve de inserir uma parte da retratação. Cf. Novelle di Firenze, 1752, col. 1747.
Contudo, o papa não cessava de assediar o P. Brémond pelos exemplares da tradução latina da Declaração; ela apareceu finalmente no dia 30 de dezembro e foi imediatamente enviada ao papa pelo correio oficial. Mas os adversários de Concina souberam, com uma habilidade incrível, desviar o golpe prestes a atingi-los. Fizeram passar essa declaração do papa por uma retratação imposta a Concina e puseram-se a espalhá-la por toda parte em profusão; mas, tiveram o cuidado, anteriormente, de substituir o título de declaração pelo de retratação ou palinódia. Apareceu, com grande tiragem, na Rubeis, em Roma, e puseram-se a distribuí-la por toda parte de graça. Era aos pacotes que a espalhavam à porta das residências da Companhia; por isso, ninguém compreendia mais nada naquele imbróglio. De todas as partes, dirigiam-se a Concina para aprender dele mesmo a verdade sobre essa comédia. Cf. Sandelli, op. cit., lett. XLV, p. 75.
O P. Zaccharia apressou-se em fazer passar essa declaração por uma retratação solene. Cf. Hist. lett., t. IV. Pretendeu mesmo descobrir nela até as fórmulas da palinódia. Cf. op. cit., t. IV, part. I, l. I, c. III, n. 6, p. 44. Contudo, mesmo na Companhia, Concina não cessava de encontrar ardentes defensores. Cf. Sandelli, op. cit., lett. XIX, p. 30; XXII, p. 35. O P. Domaneschi, O. P., de Cremona, fez aparecer dois hinos satíricos contra essa pretensa vitória dos jesuítas: Ignatianorum hymnus pro victoria adversus P. Concinam reportata; Recta sapientium responsio. Cf. Sandelli, op. cit., p. 178, nota a.
O velho adversário de Concina, o P. Sanvitale, devia também entrar em linha contra a Teologia cristã; publicou contra ela dois opúsculos: Raccolta seconda di molte proposizioni estratte da’ tomi di certa teologia intitolata « Cristiana dogmatico-morale » ed impugnate come opposte al vero, in-8°, Lucca, 1752; Osservazioni rimarcabili sui due ultimi tomi undecimo e duodecimo di certa teologia intitolata, etc., Lucca, 1753. Estes dois escritos apareceram sem nome de autor. O primeiro continha 140 proposições extraídas dos 10 primeiros volumes da Teologia cristã; o segundo continha 156 tiradas dos volumes XI e XII. O ano anterior (1752) vira a luz em Roma: Supplementi di alcune proposizioni estratte dalla teologia cristiana del famosissimo P. Concina e da aggiugnersi alla Ritrattazione pubblicata dal medesimo in Roma, etc., 1752. Cf. Patuzzi, Oss., t. II, p. 375.
Contudo, estes ataques não ficaram sem resposta. Contra o primeiro escrito de Sanvitale apareceu: Note anticritiche di Eudosso Tilenio sulla risposta del M. R. P. Giacomo Sanvitale alle Lettere teologico-morali di Eusebio Eraniste, in-4°, Trento [Lugano], 1752. Apareceram então três cartas: Lettere di Adelfo Cariteo e Filarmindo Arenio sul libretto pubblicato in risposta alle lettere teologico-morali di Eusebio Eraniste, Trento, 1753. A primeira dessas cartas teve como autor o P. Paul Patuzzi, irmão do P. Vincent Patuzzi. Sandelli ignorava o nome do autor da segunda carta. Sanvitale dispunha-se a responder quando faleceu, em 4 de agosto de 1753. A resposta apareceu, contudo, após a sua morte, mas os nomes estavam deformados: Lettere de’ signori Arideo e Filarmondo Arenio esaminate e dimostrate infette di falsita, Lucca, 1753. Jean-André Barotti, bibliotecário de Ferrara, escreveu a vida do P. Sanvitale, mas em seu enorme volume, não encontrou espaço para mencionar as obras do P. Sanvitale contra Concina. Receou, talvez, pela glória do seu herói.
A Teologia cristã encontrara um novo adversário no P. Charles Nocetti, S. J., Veritas vindicata sive permulte sententiw auctorum S. J. in theologia christiana dogm.-morali minus sincere relate suæque integritati restitutæ a Carolo Nocetico, in-4°, Lucca, 1753; Roma, 1753. Esta edição contém uma resposta à primeira carta do P. Dinelli (1ª edição italiana, Veneza, 1757). Nocetti pretendia que todos os erros contidos na Theologia christiana não tinham sido transcritos no Libellum supplex, apresentado ao papa; que Concina se fazia eco dos Pascal e dos Wendrochius nas suas declamações contra a Companhia. O P. V. M. Patuzzi estava ocupado na publicação das suas cartas para a defesa da História do probabilismo, quando apareceu a obra de Nocetti. Imediatamente compôs contra Nocetti um Appendice que apareceu sob este título: Lettere teologico-morali in continuazione della difesa della Storia del probabilismo...
Si aggvungono alcune osservazioni sul nuovo libro pubblicato col titolo di Veritas vindicata, in-8°, Trento [Veneza], 1753.
Do seu lado, para abater os louvores prodigalizados a Nocetti pela Companhia, o P. Dinelli, teólogo da Casanate, em Roma, começou a fazer aparecer em Roma, em 1753, cartas intituladas: De Danielis Concine in indicandis describendisque casuistarum locis summa fide ac diligentia epistole. A 1ª apareceu em 1753; a 2ª em 1754; as seguintes, em 1756. Estas cartas tiveram um grande sucesso na Alemanha, na França, na Espanha. Em vão Nocetti trabalhava para lançar, na própria Roma, uma segunda edição do seu livro enquanto os seus partidários se aplicavam a persuadir Dinelli a não continuar a apologia de Concina. Na Espanha, particularmente, o P. Rabago, S. J., confessor do rei, para combater a influência das cartas de Dinelli, mandou reeditar às suas expensas a Veritas vindicata. Mas, ao mesmo tempo, os PP. Hernandez, Puga e Llobet faziam publicar, em Madri, as cartas de Dinelli precedidas da aprovação de numerosos teólogos. Cf. Sandelli, op. cit., p. 495, nota a.
Do seu lado, Concina respondia a Nocetti em oito cartas, sob este título: Ad R. P. Carolum Nocetiwni epistole octo de singularibus argumentis in ejusdeni libro Veritas vindicata contentis. Accedunt opiniones lauxe quamplurime ex variis casuistis collecte : iten censura R. P. Eusebii Amort canonici Lateranensis in theologiam moralem R. P. C. L[a] C[roix]. Item Epistola nona ad eumdem P. C. Nocetium de nonnullis ejusdem antithetis in epistolam secundan P. M. Dinelli, in-4°, Veneza, 1755. Esta última réplica pôs fim às polêmicas sobre a Teologia cristã.
VI. CONTROVÉRSIA SOBRE A ABSOLVIÇÃO. — O sacramento da penitência e a forma como se administra tinham sido sempre para Concina o objeto de graves meditações. Em 1753, publicava: Istruzione de’ confessori, e de’ penitenti per amministrare, e frequentare degnamente i SS. sagramento della penitenza, in-4°, Veneza, 1753, 1755. Os partidários da moral relaxada ficaram um pouco comovidos e o escrito foi qualificado de declamação. Cf. Novelle della republica delle lettere, 1754, p. 91.
No ano seguinte, Concina teve a ocasião de voltar ao mesmo assunto. Com efeito, em 1754, apareceu um livro intitulado: Libri primi Decretalium selectas theses congregatio sacerdotum in dom. profess. Rom. Soc. Jesu DDD. prenrittitur dissertatio theologica a sacerdote ejusdenr Congregationis habita labente hoc anno 1754, Roma. Este livro, escrito, tal como nota Concina no prefácio à resposta, trad. frang., p. 5, não por um autor particular, mas em nome de toda uma sociedade de padres, ensinava que o sacramento da penitência pode ser administrado toties quoties aos recidivistas e habituais, desde que deem exteriormente os sinais de um verdadeiro arrependimento, ainda que não mudem de vida e não façam qualquer esforço nesse sentido.
A esta doutrina que podia propagar-se, Concina opôs-se pela dissertação seguinte: De sacramentis absolutione impertienda, aut differenda recidivis consuetudinariis dissertatio theologica ad Emm. Nerium card. Corsi-nium, ejusdem ordinis patronum vigilantissimum, in-4°, Roma, 1755; trad. franç., Paris, 1756. Nesta dissertação, Concina ensinava que não se deve dar a absolvição aos habituais senão na medida em que testemunhem efetivamente a sua intenção de mudar de vida e que trabalhem praticamente nisso. O livro de Concina recebeu a aprovação de homens muito sábios. Cf. Lettres d’approbation, trad. franç., p. 9 sq.; Nouvelles ecclésiastiques, 1756, p. 120.
VII. CONTROVÉRSIA SOBRE O EMPRÉSTIMO A JUROS. — Em 1743, Nicolas Breedersen, cônego de Utrecht, publicou um livro De usuris licitis et illicitis. Cf. Reusch, Der Index, t. II, p. 849; Hurter, Nomenclator, t. II, col. 1464. Entre outras coisas, ensinava que uma taxa moderada, quando exigida dos pobres, é contrária à caridade, mas de modo algum quando é pedida aos ricos. Esta doutrina já encontrara contraditores entre os jansenistas. Cf. Picot, Mémoires pour servir à l’histoire du XVIIIe siècle, t. IV, p. 252, 371.
Em 1744, Scipio Maffei publicava, por sua vez, um livro intitulado: Dell’ impiego del danaro, in-4, Verona. Mostrava-se nele partidário de Breedersen. Esta doutrina foi atacada e a Inquisição de Verona teria pedido a Maffei que não voltasse a escrever sobre estas matérias. Cf. Nouvelles ecclésiastiques, 1752, p. 206.
Em 1745, Bento XIV quis fazer examinar a questão por uma comissão reunida para este fim. Concina, que se encontrava doente por essa época em Gandolfi, residência do papa, via muito frequentemente Bento XIV; por isso, foi escolhido para integrar a comissão e, por seu conselho, o Pe. Giuli, S.J., ao qual se adjuntou o Pe. Turrani, foi igualmente chamado a dar o seu parecer. A comissão, composta por 14 membros, examinou a questão e o resultado deste exame foi a carta encíclica de Bento XIV Vix pervenit, datada de 1º de novembro de 1745 e endereçada aos bispos da Itália. Cf. Denzinger, Enchiridion, n. 1318 sq. O papa recordava o princípio da doutrina: Omne propterea hujusmodi lucrum, quod sortem superet, illicitum et usurarium est. Não se pretendia, contudo, excluir certos casos nos quais o mutuante podia justamente reivindicar um juro, mas em virtude de outras considerações. Cf. Denzinger, n. 1320.
Bento XIV tinha pedido a Concina que fizesse um comentário de sua encíclica, mas, quando este ficou pronto, adiou-se a sua publicação para não ferir certas personalidades, grandes admiradores de Maffei, cuja doutrina se encontrava assim tida como suspeita. Maffei, aliás, não se considerava atingido; no mesmo ano de 1746, ele fez publicar, na própria Roma, uma 2ª edição de seu livro, accresciuta d’una lettera enciclica di sua Santità e d’altra lettera dell’ autore alla medesima Santità sua, in-4°, Bassano, 3 de agosto de 1756. Em uma carta datada de Verona, 12 de novembro de 1745, Maffei declarava que a doutrina da encíclica já se encontrava em seu livro. Cf. Reusch, Der Index, t. III, p. 850.
Concina encontrava-se então em Nápoles; tendo-se dado conta, pelo seu ministério, de todo o mal que fazia uma semelhante doutrina sobre o empréstimo, decidiu escrever sobre este assunto. Publicou, pois: Esposizione del dogma che la Chiesa propone a credersi intorno all’ usura, colla confutazione del libro intitolato : DELL’ IMPIEGO DEL DENARO, in-4, Nápoles, 1746, 1756.
Depois, de regresso a Roma, obteve a faculdade de publicar o seu comentário sobre a encíclica, sob este título: In epistolam encyclicam Benedicti XIV, adversus usuram commentarius quo illustrata doctrina catholica, Nicolai Broedersen et aliorum errores refelluntur, in-4°, Roma, 1745, 1748. Este comentário compreendia três dissertações: na 1ª, Concina recorda os pontos principais da doutrina católica e o que, no documento pontifício, visa o erro dogmático; na 2ª, expõe o estado da controvérsia casuística e repreende aqueles que, sob pretexto de provar ou de defender o dogma católico, enfraquecem a doutrina; finalmente, na 3ª, interpreta a encíclica. Este escrito recebeu a aprovação de um grande número de autores que dele tomaram emprestada fielmente a doutrina. Cf. Sandelli, op. cit., p. 121, nota a.
Concina publicou ainda sobre o Contractus trinus uma obra intitulada: Usura contractus trini dissertationibus historico-theologicis demonstrata adversus mollioris ethices casuistas et Nicolaum Breedersen... Accedunt appendices duæ ad commentarium auctoris adversus usuram, in-4°, Roma, 1746. Esta obra, dedicada ao cardeal Quirini, compunha-se de cinco dissertações. Na 5ª, Concina atacava o Pe. Pichler, S.J., outrora professor na academia de Ingolstadt e que tinha pretendido que a usura, ainda que seja proibida pelo direito tanto natural quanto divino, pudesse ter se tornado lícita em decorrência do costume e do poder soberano dos príncipes.
O Pe. François Zech, sucessor de Pichler, quis vingá-lo e publicou sob este título uma dissertação inaugural: Rigor moderatus doctrinæ pontificiæ circa usuras a SS. D. N. Benedicto XIV, per epistolam encyclicam episcopis Italiæ traditus, ab Ingolstadiensi academia constanter assertus. Dissertatio I, inauguralis, sancti rigoris specimina exhibens, quam cum annexis corollariis, Deo auspice, annuente inclyto collegio juridico in eadem alma et catholica Bavariæ universitate Ingolstadiensi præside P. Francisco Zech, S. J. S. theologiæ, et SS. canonum doctore, horumque professore publico, et juris primario, post consueta rigorosa examina, pro licentia summos in utroque jure honores consequendi, publice concertationi subjecit Franciscus Joseph Barth, insignis Ecclesiæ collegiatæ ad S. Cyriacum Wisenstaigez canon. capit. I. V. Cand., mense decembri 1747. Esta dissertação foi enviada da Baviera a Concina. Cf. Christ. theol., pref., c. XI. Em 1749, o Pe. Zech publicou uma 2ª dissertação inaugural contra Concina. Cf. Apparatus ad Christ. theol., t. 1. Finalmente, uma 3ª dissertação do mesmo autor não chegou a Concina. Cf. Lib. de spectaculis theatralibus, diss. I, c. xix, § 13, p. 158.
VIII. CONCINA E O TEATRO. — Concina quase não podia calar-se sobre os abusos dos espetáculos, e em particular sobre a frequência ao teatro. Publicou três dissertações, que intitulou: De spectaculis theatralibus christiano cuique tum laico tum clerico vetitis dissertationes duæ. Accedit dissertatio tertia de presbyteris personatis, in-4°, Roma, 1752, 1754. Na 1ª dissertação, combate a opinião de Louis-Antoine Muratori, De publica felicitate, e a de Scipion Maffei, Theatro italico, que pretendem que a prática do teatro é lícita em si, conquanto admitam que, hoje, esta prática necessita de uma moderação. Cf. c. xli. Combatia também, c. xxix, um certo Blanco ou Planco que, em um discurso em italiano, fazia a apologia da cena e dos comediantes.
No mesmo ano (1753), para se justificar, Maffei fez publicar: De’ teatri antichi e moderni trattato, Verona. Repreendia Concina por ignorar a antiguidade pagã, ao que Concina teria podido responder, remetendo-o a Mamachi, Orig. et antiquit. christian., l. III, p. 148, que ele próprio não conhecia melhor a antiguidade cristã. Contudo, as ideias mais severas de Concina encontravam muitos partidários. Cf. Sandelli, Epist., xxxiv, p. 51; mas em Verona, onde Maffei tinha partidários interessados, as ideias de Concina sobre o teatro tiveram adversários apaixonados. Foi, em particular, maltratado por Philippe Rosa Morando. Cf. Épître dédiée à la tragédie de Teonx, Verona, 1755. Durante certo tempo, apareceu também uma série de escritos com o título: Imposture, villanie, e strapazzi sparsi nelle opere del P. Concina, etc. Mas a coleção foi quase imediatamente suprimida. Maffei mostrava-se mais moderado que seus partidários nas suas respostas a Concina. Cf. La magia annichilata, l. III.
Concina, querendo defender-se mais longamente, publicou, dedicando-o a Bento XIV, um escrito intitulado: De’ teatri antichi e moderni contrari alla professione cristiana libri due del P. Daniello Concina in conferma delle sue dissertationi De spectaculis theatralibus, alla Santità di N. S. Benedetto XIV, in-4°, Roma, 1755. Ali retomava, desenvolvendo-as, as razões que há para um cristão não frequentar o teatro. Antes de ocupar-se do teatro, Concina já tinha combatido aqueles que eram chamados no século XVIII de ateus. Desde 1752, a pedido de Bento XIV, ele havia composto contra eles um livro que só apareceu dois anos depois: Della religione rivelata contro gli ateisti, deisti, materialisti, ed indifferentisti, libri cinque, 2 tom. in-4°, Veneza, 1754. Ele dedicara este livro ao rei da Sardenha, Carlos Emanuel. O ministro do rei, após ter recebido a epístola dedicatória, enviou-a ao Pe. Julio Cordara, S. J., que a reteve durante 14 meses, na esperança de que Concina renunciasse ao seu projeto de publicar um livro que deveria desagradar fortemente aos probabilistas.
IX. O COMPENDIUM THEOLOGIAE CHRISTIANAE. — Concina deixava ao morrer um certo número de obras inéditas ou inacabadas, entre outras um compendium da sua Teologia cristã. Esta obra havia sido composta desde 1753, com o objetivo de vulgarização do estudo da teologia moral. Em Roma, todavia, o revisor havia se mostrado muito severo, pois estava-se no auge das disputas; ele fez muitas correções, adições e, sobretudo, supressões. Concina morreu sem ter revisto o seu manuscrito. A obra apareceu, contudo, sob este título: Theologiae christianae dogmatico-moralis P. Danielis Concinae O. P. compendium, 2 tom. in-4°, Veneza, 1760.
No mesmo ano de 1760, uma edição do Compendium foi iniciada em Bolonha sob os auspícios dos irmãos Taruffi, mas o cardeal Vincenzo Malvezzi, arcebispo de Bolonha, fez suspender a edição após o 1º volume. Ele autorizou a sua retomada, sob a condição de que se imprimisse na cabeça do 1º volume a declaração de Concina em favor dos jesuítas.
Esta edição de Bolonha compreendia 5 tom. in-8°; os 4 primeiros contêm o Compendium da Teologia cristã, conforme a edição de Veneza; o 5º tomo, além dos Monita ad confessarios de São Carlos Borromeu, os Canones penitentiales e algumas constituições apostólicas, continha ainda um Commentarium de vita et studiis auctoris. Após a edição de Bolonha, apareceram duas outras em Veneza, uma na casa de Simone Occhi, outra na de Zatta, o impressor oficial da Companhia. Na edição Occhi, encontra-se um Commentarius de vita et studiis Concinae, por Laurent Rubeo, sacerdote de Forli. Em 1765, nova edição em Lugano. O Pe. Gasparini, O. P., reduziu ainda mais o compendium, que ele fez aparecer sob este título: Manuale Concinae seu Theologia christiana dogmatico-moralis a P. Daniele Concina O. P. elucubrata priore contractior, 2 tom. in-8°, Mântua, 1763.
X. A APOLOGIA DA SOCIEDADE DE JESUS. — É, sem contestação, uma das obras mais curiosas que saíram da pena de Concina. Esta apologia deveu a sua origem às polêmicas que se travaram sobre a Histoire du probabilisme entre Concina, de um lado, e os PP. Ghezzi, Lecchi, Richelmi e Gagna, S. J., de outro. Estes últimos haviam denunciado a obra de Concina como carente de base documental; resposta havia sido feita, em seu tempo, a cada uma destas acusações. Ao Saggio di supplementi teologici, etc., de Ghezzi, Concina havia respondido pelo Esame teologico, etc.; contra as Avvertenze, etc., do Pe. Lecchi, havia aparecido a Esplicazione di quattro paradossi, etc.; enfim, o Saggio di avvertimenti, etc., de Richelmi e as Lettere d’Eugenio Apologista, etc., de Gagna, haviam tido uma resposta nas Lettere ai RR. PP. Richelmi e Gagna, etc..
Foi para responder à acusação de pobreza documental que Concina havia composto esta nova obra, assim advertia ele no início, c. 1, questi RR. PP. avranno ora il piacere di leggere i veri supplementi, che eglino bramavano. Mas ele se propunha a outros fins, ao publicar estes documentos: 1° afirmar a vitória da Companhia contra o partido dos jesuítas probabilistas, cf. Difesa, p. 9 [xxi]; 2° ilustrar a história do probabilismo com documentos decisivos, Difesa, p. 9. Assim, ele dava, muito habilmente, um último golpe nos seus adversários, demonstrando-lhes peremptoriamente e com provas em mãos que a doutrina do probabilismo era repudiada mesmo no seio da Companhia. De resto, ao dedicar esta apologia aos representantes da autoridade, geral e assistentes, era uma lição ainda mais do que uma apologia que Concina pretendia dar. Ao tornar públicas as dissensões que haviam surgido na Companhia sobre a questão do probabilismo, Concina tornava ainda mais decisivas as razões que militavam contra o que ele chamava de partido dos probabilistas na Sociedade. Vingar a Companhia da acusação de ser probabilista, ao mesmo tempo que combatia o probabilismo por documentos irrecusáveis, era matar dois coelhos com uma cajadada só.
Os motivos que fizeram diferir a publicação deste escrito não são conhecidos, mas podem ser buscados no temor em que se estava, seja no entorno de Concina, seja nas altas esferas eclesiásticas, de dar, por esta publicação, um alimento novo a disputas já longas. Cf. édit. italienne, 1767, Lo stampatore a chi legge. Os diversos manuscritos da Apologia permaneceram sem uso até 1767; por volta deste tempo, julgou-se que a publicação poderia ser de alguma utilidade à Companhia, então muito provada. Desses manuscritos, um em latim era conservado na biblioteca do convento de San-Marco, em Florença; outro havia sido depositado na Casanate; alguns outros, enfim, conservavam-se em Veneza. Sobre o manuscrito de San-Marco, uma edição foi preparada pelos cuidados de Zatta, de Veneza. Tratava-se de uma tradução em língua vulgar. Cf. Lo stampatore a chi legge. Ela apareceu sob este título: Difesa della Compagnia di Gesù per le presenti circostanze, e giustificazione delle sue dottrine, appoggiata a XXII monumenti inediti del P. lettore F. Daniello Concina dell’ ordine dei predicatori. Opera utilissima a parrochi, e confessori, in-4°, Veneza, 6 de julho de 1767.
Dois anos mais tarde, uma edição latina foi dada, em Veneza, pelos cuidados de Simone Occhi; sete novos documentos eram ali publicados. Esta nova edição era intitulada: Vindiciæ Societatis Jesu hisce temporibus, ejusque doctrinarum purgatio, duobus supra viginti monumentis ineditis nixæ opera P. lectoris Fr. Danielis Concina O. P. Accedunt alia septem documenta eodem spectantia, etc., in-4°, Veneza, 1769. Eis, conforme esta edição, o catálogo dos documentos publicados por Concina:
1° Libellus supplex, a P. Gonzalez Societatis generali, paulo antequam moreretur, magno pontifici Clementi XI oblatus; cf. Vindiciæ, etc., part. 1, p. 26;
2° Insignis cardinalis de Aguirre epistola, in qua Carolo II Hispaniarum regi Pater Gonzalez, Societatis generalis, commendatur, op. cit., p. 32;
3° Regis Hispaniarum responsio, in qua oratorem suum Patri generali Gonzalez, jubet esse subsidio adversus jesuitarum probabilistarum partes, op. cit., p. 34;
4° Augustissimi Imperatoris Leopoldi epistola ad PP. adsistentes Societatis, quibus mutuam cum Patre generali concordiam commendat, op. cit., p. 35;
5° Ad Patrem generalem Gonzalez Imperatoris Leopoldi epistola, op. cit., p. 36;
6° Epistola Patris generalis Gonzalez Augustissimo Imperatori Leopoldo rescribentis, op. cit. cit., p. 38;
7° Quinque Societatis adsistentium ad papam Innocentium XII supplex libellus, op. cit., p. 39;
8° Alius quinque Societatis Jesu adsistentium libellus supplex ad Innocentium papam XII contra eorumdem generalem Gonzalez, op. cit., p. 43;
9° Presens celebris negotii status, op. cit., p. 43;
10° Patris Thyrsi Gonzalez Societatis generalis libellus supplex ad D. Fabroni a supplicibus libellis, op. cit., p. 46;
11° Libellus supplex quinque adsistentium ad D. Fabroni a supplicibus libellis, op. cit., p. 46;
12° Patris Thyrsi Gonzalez Societatis generalis libellus supplex ad D. Fabroni a supplicibus libellis, op. cit., p. 47;
13° Wolfangi Prienzonii epistola ad P. generalem Societatis, op. cit., p. 48;
14° Patrum adsistentium libellus supplex ad P. Ferrari, sacri palatii magistrum, adversus librum Patris generalis Gonzalez, op. cit., p.
15° Epistola Patris Eusebii Truchses, adsistentis teutonici Patris generalis Gonzalez, op. cit., p. 56; 16° Scriptum procuratorum provincialium Congregationem spectans, op. cit., p. 57; 17° Scriptum de procuratorum provincialium decreti validitate, op. cit, p. 59; 18° Supplex P. procuratoris generalis jesuitarum libellus pape Innocentio XII oblatus, ut causse judicium comperendinaret, op. cit., p. 62; 19° Censura quinque adsistentium in librum P. Gonzalez : itemque censura censuræ quinque adsistentium, authore P. Alpharo, op. cit., p. 74; 20° Historiæ libri Patris Gonzalez epitome, op. cit., p. 78; 21° Censura P. Zingnis pro-adsistentis Germaniæ adversus Patris Gonzalez librum, op. cit., p. 96; 22° P. Ignatii de Camargo supplex libellus, papæ Clementi XI porrectus, ut probabilismum exterminet a Societate, op. cit., p. 100.
A III parte continha em apêndice os seguintes documentos que ainda se referem às dificuldades de Tirso Gonzalez: 1° Succincta narratio eorum, quæ P. Thyrsus Gonzalez gessit in Hispania apud superiores suos, et apud summum pontificem Innocentium XI, ad cohibendum opinionum probabilium abusum, cum brevi explicatione rationum ob quas anno 1691 edidit tractatum succinctum de hoc argumento, et difficultatum, quæ circa ejus publicationem supervenerunt, op. cit., p. 110; 2° Dissertatio continens gravissimas rationes, ob quas expediens fuit, ut Societas Jesu anno 1687 in ultima congregatione generali declararet, suum non esse, nec ad se attinere probabilismum, seu sententiam benignam de usu licito opinionis minus probabilis, et minus tutae in concursu probabilioris, et tutioris, op. cit., p. 120; 3° Vis rationum pro R. P. Thyrso Gonzalez S. J. preposito generali, in presenti controversia edendi tractatus de recto usu opinionum probabilium, op. cit., p. 133; 4° Epistola R. P. Thyrsi Gonzalez ad P. Ferrari magistrum sacri palatii, op. cit., p. 143; 5° Libellus supplex a R. P. Ignatio Vicecomite S. J., electo, die 4 julii 1751, preposito generali, nomine totius Societatis, et aliorum, summo pontifici Benedicto XIV mense augusti insequentis porrectus adversus P. Danielem Concinam, quo ad reparanda damna illata Societati, et scriptoribus ejusdem ob theologiam quamdam moralem ab ipso typis editam, pro justa aliqua hujus damni reparatione demississime supplicat, et rationes, ob quas hujus operis cursus inhibendus esse videtur, subnectit. Quem ipse sanctissimus D. R. P. Antonino Bremondio totius ordinis predicatorum generali magistro dedit, ab eoque traditus esteidem P. Concine die 29 ejusdem mensis, et anni, op. cit., p. 143; 6° Libellus supplex P. Danielis Concinae oblatus Benedicto XIV, die 21 septembris an. 1751 adversus Libellum supplicem a P. Vicecomite, S. J., porrectum eidem pontifici nomine totius Societatis, congregate in congregatione generali, in qua idem P. Vicecomes generalis inauguratus est, op. cit., p. 151; 7° Declaratio et sincera protestatio P. Danielis Concinae super aliquibus oppositionibus factis contra tomos suae Theologiae christianae dogmatico-moralis recens typis editos. Quam Benedictus XIV pontifex sapientissimus volens per se finem concertationi, exemplo memorabili, imponere, vocato ad se presule Giampetrucci italica dictavit, tradiditque P. Antonino Bremondio magistro generali, ut eam Concina latinam faceret, et Theologiae christianae altero prodituro volumini adjungeret. Quod quidem executus est P. Vincentius Maria Dinellius; verebatur enim P. Concina, ac si id ipse fecisset, aliwm ac preseferebant, pontificis verbis sensum tribuisse diceretur. Op. cit., p. 154.
De onde Concina havia tirado todos os documentos que queria publicar? Ele adverte, Difesa, c. 1, § 5, p. 3, que todas as peças que ele transcreve se encontram nos arquivos da Companhia, mas foi sobretudo nas bibliotecas particulares dos dois cardeais Fabroni e Ferrari que ele bebeu. Fabroni deixara sua biblioteca aos oratorianos de Pistoia. Em 1744, o prefeito da biblioteca era o Pe. Liborio, a quem sucedeu o Pe. Giuseppe Ippoliti Nobile. O cardeal dominicano Ferrari, de quem Concina escreveu a vida, estivera na mais estreita intimidade com Tirso Gonzalez e também com os assistentes do geral. Muito zeloso pela disciplina religiosa, Ferrari deixou, ao morrer, sua biblioteca ao convento reformado de Santa Sabina, em Roma. É lá que Concina extraiu a maior parte dos documentos que queria publicar. Na época em que se acenderam as disputas entre Gonzalez e o partido probabilista jesuíta, sob Inocêncio XII, Ferrari era mestre do Sacro Palácio. Foi mediador entre os dois campos, o que explica por que nos manuscritos de Santa Sabina se encontram cartas originais do geral dos jesuítas, bem como memoriais endereçados pelos assistentes ao mestre do Sacro Palácio contra Gonzalez.
III. JULGAMENTO SOBRE CONCINA. — 1° Concina e a Santa Sé. — 1. Em todas as lutas que sustentou durante mais de 20 anos, Concina foi o homem da Santa Sé. É dela que recebe a palavra de ordem. Nas polêmicas sobre a pobreza religiosa, o cardeal Passionei é encarregado por Bento XIV de remeter ao Index a obra de Carattini, que combate a doutrina de Concina. Na controvérsia sobre o jejum, a doutrina de Concina é confirmada pelas duas encíclicas de Bento XIV: Non ambigimus, de 30 de maio de 1741, e In suprema, de 22 de agosto do mesmo ano. Ao pedir-lhe que comentasse o rescrito pontifício de 8 de julho de 1744, ao arcebispo de Compostela, o cardeal Passionei assegura a Concina que Bento XIV lhe será muito grato. «Posso assegurar-lhe, escreve-lhe ele, que Sua Santidade o tem em justa e vantajosa estima.» Cf. Sandelli, op. cit., Epist., xm, p. 23 [25 de julho de 1744].
Ao mesmo tempo em que fazia censurar as obras opostas às de Concina, na polêmica sobre os casos reservados, Bento XIV defendia a própria pessoa de Concina contra os ataques e calúnias de seus adversários. Em um decreto solene emitido a pedido expresso do papa, a pretensa retratação de Concina é condenada pela Santa Inquisição, em 14 de junho de 1744. Ao mesmo tempo, a atitude de Concina, durante toda esta campanha conduzida contra ele, valeu-lhe uma carta muito elogiosa da mão de Bento XIV, datada de 24 de julho de 1744. Cf. Sandelli, op. cit., Epist., xn, p. 21. Por ocasião do aparecimento da Histoire du probabilisme, Bento XIV fez saber ao geral dos dominicanos todo o reconhecimento que tinha por esta ordem por ter fornecido tal defensor da moral cristã.
«Posso assegurar-vos, escrevia por sua vez em nome do papa a Concina o cardeal Passionei, que não há elogio do qual não se tenha servido nosso senhor (Bento XIV) ao falar da Histoire du probabilisme.» E, sempre por intermédio de Passionei, o papa pedia a Concina para lhe fazer uma lista das proposições extraídas dos diferentes autores de moral e que lhe pareceriam merecer condenação. Cf. Sandelli, op. cit., Lett. iv, p. 6 sq. (22 de dezembro de 1742).
Quando, no curso da polêmica travada entre Sanvilale, Ghezzi e Concina, tentou-se até mesmo na ordem impor silêncio a Concina, o cardeal Corsini escreveu ao geral Thomas Ripoll para lhe explicar que o pensamento de Bento XIV não era o de proibir aos dominicanos, em geral, «ensinar, escrever e defender a doutrina do probabiliorismo, como a mais plausível e a mais segura.» Cf. Sandelli, op. cit., p. 58.
Nas controvérsias sobre o empréstimo a juros, é ainda para Concina que se volta Bento XIV para o comentário da encíclica Vix pervenit de 1º de novembro de 1745. Cf. Sandelli, op. cit., Epist., xxi, p. 34. É a pedido do mesmo pontífice que ele compõe, desde 1752, a sua obra De la religion révélée. Por fim, uma das obras que faz mais honra a Concina e que lhe atraiu também o maior número de adversários, a Théologie chrétienne, foi dedicada a Bento XIV. Já em uma carta, endereçada a Concina na data de 2 de março de 1748, o papa se regozijava com o empreendimento. Il nostro buon Padre Concina è instancabile. Iddio lo conservi, e noi abbracciandolo gli diamo l'apostolica benedizione. Cf. Sandelli, op. cit., Epist., xxii, p. 34.
Em outra carta, de 16 de agosto de 1749, endereçada ainda ao próprio Concina, o papa se regozija com a publicação próxima da Théologie chrétienne, e crê voluntariamente que ela não será de pouco socorro para o público. Cf. Sandelli, op. cit., Epist., xxv, p. 39. Por fim, em uma terceira carta, de 29 de novembro de 1749, Bento XIV agradece a Concina pela dedicatória que lhe foi feita da obra, da qual acaba de receber os cinco primeiros tomos, e pede ao autor que lhe conserve toda a sua afeição. Cf. Sandelli, op. cit., Epist., xxvi, p. 39.
Contudo, o papa não se contentava em aceitar que a Théologie chrétienne fosse colocada sob a proteção de seu nome; ele tomou a sua defesa e a de seu autor contra as tentativas numerosas dos adversários para obter sua condenação. Esta atitude decidida de Bento XIV frente aos adversários de Concina testemunha suficientemente em que estima ele tinha o homem e sua doutrina. Quando, de regresso a Veneza, Concina lá lutava contra o mal que deveria levá-lo pouco depois, o papa dignou-se a enviar-lhe ele mesmo a garantia de sua simpatia e os votos que formava para seu restabelecimento. Cf. Sandelli, op. cit., Epist., LI, p. 88 (29 de novembro de 1755).
Assim, é com razão que, na carta encíclica endereçada à ordem, em nome da congregação do B. Jacques Salomon, à qual pertencia Concina, recorda-se nestes termos o favor de que gozava o falecido junto ao pontífice: Quinimmo supremus ipse Ecclesiae pastor Benedictus XIV P.M. (qui pro summa sua humanitate hic se nominari patietur) quanti faceret consodalem nostrum non obscuris argumentis testatum voluit, dum illum ad sacros pedes accedentem benigne humaniterque excipiebat diutius cum illo versabatur, in arduis difficultatibus congregationi cardinalium theologum et consultorem adjunxit, privatis benignissimis epistolis et in publico diplomate commendavit ; et quod maximum tantoque pontifice dignum nullaque unquam oblivione delendum, in summo discrimine constitutum, viri honorificentissimi nomen summa sapientia et suprema sua auctoritate in tuto collocavit.
Não se deveria crer, contudo, que o favor da autoridade de que gozava Concina junto a Bento XIV fosse o efeito único, por parte do papa, de uma maior inclinação para a ordem dos pregadores, pois o papa admitia também em sua intimidade muitos jesuítas. Cf. Döllinger, Beiträge zur politischen, kirchlichen und Kultur-Geschichte der sechs letzten Jahrhunderte, in-8°, Viena, 1882, t. II, p. 3, 5, 12. A pureza da moral defendida por Concina explica suficientemente o crédito de que ele gozou sempre junto à Santa Sé. Assim, «enquanto os escritos de Concina eram louvados pelas primeiras autoridades eclesiásticas e, apesar de seu número e da vivacidade de sua polêmica, nem um só foi objeto de uma censura por parte da Igreja, os livros de seus adversários foram povoar o catálogo do Index, quando não foram objeto de condenações mais especiais.» P. Mandonnet, O. P., Le décret d’Innocent XI contre le probabilisme (extrato da Revue thomiste, setembro de 1901-janeiro de 1903), in-8°, Paris, p. 16, nota 4.
2. Sustentado e encorajado pelo papa, Concina encontrou também na alta aprovação dada aos seus trabalhos pelos personagens mais ilustres de seu tempo um apoio moral considerável. Em primeira linha, encontramos o cardeal Passionei, com quem Concina permaneceu sempre nos termos da amizade mais estreita. O cardeal gosta de ser, frente a Concina, o intérprete dos sentimentos de Bento XIV. Ele aceita com reconhecimento a dedicatória das obras do polemista. Cf. Sandelli, op. cit., Epist., I, p. 3 (17 de fevereiro de 1742).
Ele se regozija altamente do sucesso da Histoire du probabilisme, Epist., IV, p. 6 sq. (22 de dezembro de 1742); ele encoraja Concina a lutar contra a moral relaxada; cf. Epist., IX, p. 17 (7 de março de 1744); xi, p. 24 (25 de julho de 1744); xiv, p. 24 (3 de outubro de 1744); xvi, p. 27 (5 de dezembro de 1744); ao aparecimento da Théologie chrétienne, Passionei não pode conter sua alegria e sua admiração. O che opera grande! O che opera insigne! escreve ele a Concina na data de 6 de dezembro de 1749. Cf. Epist., XXVII, p. 40.
Quando, ao final de sua vida, Concina, vencido pela doença, tinha dado um adeus definitivo a Roma, o cardeal Passionei, em 27 de setembro de 1755, escreve-lhe uma carta tocante para suplicá-lo a voltar atrás em sua decisão. Ele deixa-lhe entender que seus adversários contam com sua partida e se aproveitarão disso contra ele. Cf. Epist., L, p. 87. O cardeal Henri Enriquez, arcebispo de Nazianze in partibus, núncio apostólico em Madri, foi também um dos mais devotados a Concina e às suas ideias. Ele se esforça para propagar, na Espanha, suas obras, mantém-no a par do sucesso que elas encontram, coloca-o em guarda contra os projetos de seus adversários. Cf.
Sandelli, op. cit., p. 131, nota a; Epist., xxxviii, p. 48; xxxiv, p. 49; xxxvii, p. 58; xl, p. 65; xliii, p. 70; XLIV, p. 72. Um grande número de cardeais demonstrou sempre a maior benevolência em relação a Concina, por exemplo os cardeais Monti, Corsini, a Lanceis, Cavalchini Gonzaga, Portocarriere, Rezzonico, que foi mais tarde Clemente XIII, Prospero Colonna, Quirini, Besuzzi, Spinelli, etc.
3. Concina contava também entre os seus amigos L. A. Muratori, J. Lami, Cam. Almichi, Pierre Galland, Passeri, etc. O geral da sua ordem, Thomas de Boxadors, testemunhou-lhe sempre a maior confiança. Enfim, Concina foi unido por laços muito íntimos a personagens em quem o amor da verdade soube sempre superar o espírito de corpo. É assim que, nas circunstâncias mais difíceis, a coragem de Concina foi sustentada pelo célebre P. Eg. Giuli, S. J., secretário da Congregação para o exame dos bispos, morto em 1749. Cf. Theologia christiana, t. 1, pref., p. 18; Sandelli, op. cit., Epist. XVII, p. 29; XIX, p. 51; xx; p. 52; xxi, p. 53; XXII, p. 56.
2° Concina moralista. — Concina foi o personagem principal no terceiro ato da luta entre jesuítas e dominicanos sobre as questões do probabilismo, luta que preencheu todo o século XVIII. Döllinger-Reusch, Geschichte der Moralstr., t. 1, p. 305. Sozinho, ele fez frente a todos e deixou teólogos formados na sua escola como Patuzzi. Eis o juízo feito sobre Concina pelo P. Ben. Oliveri, O. P., Storia ecclesiastica del secolo xviii, in-8°, Roma, 1808, p. 228-229: « Pelas suas numerosas obras, Concina e Patuzzi atraíram a atenção da Itália inteira e mesmo da Alemanha, da França e da Espanha, onde os editores venezianos enviavam, com grandes benefícios, carregamentos inteiros dos seus livros. Não sei, contudo, se foram sempre avisados, e, no entanto, jamais os seus adversários, entre os quais se encontrava um homem tão santo como Liguori, obtiveram a condenação de nenhuma das suas obras. » Citado por Döllinger-Reusch, op. cit., t. 1, p. 313.
O epíteto de imprudência convirá talvez ao caráter frequentemente mordaz das polêmicas que sustentaram, mas, pelo menos no que diz respeito a Concina, esse qualificativo não poderia visar a sua doutrina. De ordinário, quando se faz um juízo sobre Concina, é menos por comparação com os adversários que teve de combater e que dificilmente se podem defender de laxismo, que por comparação com santo Afonso de Ligório, na doutrina do qual se pretende reencontrar como que uma condenação da de Concina e da sua escola. Face aos uns e aos outros, Concina passa por rigorista. É verdade que ele é nomeado num documento oficial probabilistarum flagellum, Approbatio illustris. et reverendis. D. D. Silvestri episcopi Porphiriensis et sacrarii apostolici prefecti. In rescriptum Benedicti XIV ad postulata septem archiep. Conpostelle, commentarius theologicus, in-4°, Veneza, 1745; aliás, os epítetos de rigorista, jansenista, pascalista eram então aplicados a qualquer um que não adotasse em moral os princípios em voga. Cf. Histoire du probabilisme, t. 1, diss. I, p. 9-11; Explication de quatre paradoxes, paradoxe Ie du rigorisme attribué a notre siècle, p. 87.
Concina protesta nestes termos contra uma severidade excessiva em matéria de moral: « Nada é mais estranho ao meu sentimento do que essa severidade demasiado grande nas decisões das controvérsias morais e na direção das consciências. A única lei que Jesus Cristo nos deu é a verdadeira e a única regra da nossa conduta. Aquele que torna demasiado estrita a obrigação desta lei peca tanto quanto aquele que a torna demasiado fácil. » Histoire du probabilisme, diss. I, Introduction, t. 1, § A, p. 7; cf. t. 1, diss. IV, p. 223, 374, 471, 472; Explication des quatre paradoxes, paradoxe Ie, p. 87. Mas é natural que Concina, lutando contra as opiniões relaxadas que se deslizavam sob o disfarce do probabilismo, devesse parecer rigorista.
Quanto ao juízo feito sobre Concina e a sua escola por santo Afonso de Ligório, basta estabelecer a sua cronologia para constatar que a evolução do pensamento do santo doutor fornece uma justificação e uma aprovação da doutrina de Concina, ao mesmo tempo que uma condenação dos princípios que se pretende opor-lhe. Cf. Mandonnet, Le décret d’Innocent XI contre le probabilisme, p. 16; Döllinger-Reusch, op. cit., t. 1, p. 412 sq. A carreira doutrinária de santo Afonso compreende duas fases: na primeira, ele é um ardente probabilista, tanto quanto se mostra na segunda um probabiliorista decidido. Em primeiro lugar, ele tinha estudado e defendido o probabiliorismo com Fr. Genet, bispo de Vaison (+1702). Cf. Summ., p. 426; Vind. Alphons., t. 1, p. 12, 58. Depois, sob a influência de preocupações em que o ponto de vista intelectual não era dominante, Vindic., t. 1, p. 456, ele volta-se para o probabilismo, ainda que conserve sobre a legitimidade dessa opinião dolorosos escrúpulos. Cf. Dilgskron, t. 1, p. 473.
Enfim, em 13 de julho de 1748, ele leva a devoção à opinião provável até ao ponto de fazer o voto de a seguir sempre sem escrúpulo. A partir desse momento, ele abandona Genet por Busenbaum, S. J., cuja Medulla theologiae moralis, Nápoles, 1748, ele edita anotando-a. É desta fase da vida de santo Afonso que datam os seus juízos severos sobre Concina e a sua escola. Em 15 de fevereiro de 1756, ele escreve ao seu editor de Veneza, Remondini, enviando-lhe o t. 1 da sua Teologia moral: « De novo recomendo-lhe que não faça rever o livro por um teólogo de opinião rígida (como são a maior parte dos dominicanos hoje), pois não sou dessa opinião, mas atenho-me ao meio-termo. Seria melhor que isto fosse feito por algum Padre jesuíta, porque esses são verdadeiramente mestres em moral. » Cf. Lettere di S. Alfonso Maria di Liguori, in-8°, Roma, s. d. (1890), part. II, p. 20.
De novo, em 30 de março de 1756, noutra carta a Remondini: « Tenho a consolação de ouvir que fará rever o meu livro por um Padre jesuíta, pois se fosse um dos dominicanos que seguem hoje Concina, ele reprovaria como largas muitas opiniões que emiti. De ordinário, mantenho-me nas opiniões dos PP. jesuítas (e não nas dos dominicanos), não sendo as opiniões dos primeiros nem largas, nem rígidas, mas justas... Mantenho o sistema do probabilismo, não mais do probabiliorismo ou rigorismo. » Cf. Lettere, p. 23, 24. Ele retorna sem cessar a essa recomendação ao editor de tomar como revisor um Padre jesuíta, pois, repete ele, eles são mestres em moral. Cf. Lettere, p. 26, 28.
Mais adiante, Liguori confessa que o seu livro é diretamente oposto a Concina, p. 32. Enfim, em toda a sua polêmica com Patuzzi, são os princípios de Concina que ele combate. Cf. Lettre à Eusebius Amort, p. 246; Dollinger-Reusch, op. cit., t. 1, p. 424. Estas diversas atestações de Santo Afonso de Liguori mostram-nos bem um homem fiel à sua promessa de 13 de julho de 1748.
Nesse ínterim, uma polêmica ativa estabeleceu-se entre Santo Afonso e Patuzzi. Cf. Dollinger-Reusch, Gesch. der Moralstr., t. 1, p. 425 sq.; Lettere di Alfonso di Liguori, passim, sobre o valor da teoria probabilista. Ora, pouco a pouco, o ardente defensor do probabilismo perde o pé. No mês de novembro de 1768, ele escreve: «Quando a opinião a favor da lei é certamente mais provável, digo que não se pode seguir a menos provável, pelo que sou o verdadeiro probabiliorista, não tutiorista; mas quando sei que a opinião rígida é mais provável, digo que é preciso segui-la e aí sou oposto ao sistema dos jesuítas.» Lettere, p. 344, n. 217.
E ainda: «Meu sistema da probabilidade não é o dos jesuítas, pois reprovo que se possa seguir a opinião menos provável uma vez conhecida, como pretendem Busenbaum, La Croix e quase todos os jesuítas.» Lettere, II, p. 334 (30 de junho de 1768); cf. p. 335, 370. Ele desculpa-se por ter outrora seguido os jesuítas: «É verdade que fiz as notas a Busenbaum — escreve ele em janeiro de 1772 —, mas todo o mundo vê em quantas opiniões sou oposto a Busenbaum e aos outros jesuítas.» Lettere, p. 396, 404, 406. Chegou mesmo a suprimir o nome de Busenbaum, que figurava no frontispício da Teologia Moral, até a 5ª edição. Cf. Lettere de 30 de julho de 1772, p. 420. Finalmente, para se libertar di questa taccia de sustentar a moral dos jesuítas, ele faz imprimir um manifesto, Monitum pertinens ad questionem, an usus probabilium opinionum sit vel ne licitus aliquando [1776]. Cf. Lettere, p. 477, 487.
A evolução não poderia ser mais completa: também, nesta segunda fase da carreira doutrinária de Santo Afonso, não encontramos mais julgamentos desfavoráveis a Concina e a Patuzzi. Ao contrário, ele falará da boa memória de Patuzzi, abraçando a sua opinião, p. 353.
Finalmente, numa declaração de março de 1777, à Câmara Real de Santa Chiara, ele caracteriza nitidamente a sua posição. Declara-se claramente oposto à doutrina dos jesuítas: «Em boa consciência — escreve ele —, não se pode seguir a opinião provável pela única razão de que ela é provável, uma vez que a mera probabilidade das opiniões em favor da liberdade não funda suficientemente a licitude da ação, pois, para agir de um modo lícito, é necessária a certeza moral da honestidade da ação, a qual certeza não se pode tomar da mera probabilidade da opinião.» Lettere, p. 492. Confessa, ao mesmo tempo, ter escrito outrora que, quando duas opiniões são igualmente prováveis, a lei não obriga. Mas, por muitas vezes, ele retornou sobre essa solução para a reprovar, tal como fez na 7ª edição da sua Teologia Moral, Veneza. Se a lei é promulgada, a liberdade é desapossada e deve-se seguir a opinião em favor da lei. Cf. Lettere, p. 494.
Mas é claro que este princípio reflexo externo da posse pela lei constitui uma das duas opiniões mais prováveis e, portanto, que a doutrina de Santo Afonso se resolve na do probabiliorismo. O nome de equiprobabilismo, dado ao sistema de Santo Afonso, é impróprio e visa apenas um caso secundário que se resolve, ele mesmo, pelos princípios do probabiliorismo. Assim, ao termo da sua evolução, ele encontrava-se com Concina. Ver t. 1, col. 911-914.
Não se quer dizer, todavia, que Concina não tenha professado por vezes, e sobre alguns pontos particulares, como sobre o empréstimo a juros, os espetáculos, opiniões algo rigoristas, mas era bem mais diante de abusos a combater que o polemista se colocava então, do que diante de uma doutrina que se examina do simples ponto de vista especulativo, Denys Sandelli de Pádua [Vincent Dominique Fassini, O. P.], De Danielis Concine vita et scriptis commentarius, in-4°, Brescia, 1767, seguido de: Epistola clarorum virorum ad Danielem Concinam; G. de Concina, Cenni storici sulla nobilissima famiglia degli signori Conti de Concina di S. Daniello nel Friuli, in-8°, Roma, s. d. (1838); Vita del Padre Daniello Concina dell’ordine de’ predicatori, che serve di compimento alle celebri Lettere teologico-morali di Eusebio Eraniste, in-8°, Brescia, 1768; esta biografia foi posta no Index, em 1777, verossimilmente por causa de uma passagem referente ao jansenismo, cf. Nouvelles ecclésiastiques, 1777, p. 56; Vita Danielis Concine a Laurentio Rubeo conscripta in Theologia christiana..., in duos tomos contracta, Bolonha, 1769; J.-B. de Rubeis, De congregatione beati Salomonii, in-4°, Veneza, 1751, p. 485; Dollinger-Reusch, Geschichte der Moralstreitigkeiten in der romisch-katholischen Kirche seitdem sechzehnten Jahr., in-8°, Nördlingen, 1889, t. Döllinger, Beiträge zur politischen, kirchlichen und Cultur-Geschichte der sechs letzten Jahrhunderte, in-8°, Viena, 1882 (Denkwürdigkeiten des Jesuiten Julius Cordara zur Gesch. von 1740-1778); Reusch, Der Index der verbotenen Bücher, 2 in-8°, Bonn, 1885; Lettere di S. Alfonso Maria de’ Liguori, part. II, in-8°, Roma, s. d. [1890]; P. Mandonnet, Le décret d’Innocent XI contre le probabilisme, in-8°, Paris, 1903; Franz Ter Haar, Das Decret des Papstes Innocent XI über den Probabilismus. Beitrag zur Geschichte des Probabilismus und zur Rechtfertigung der katholischen Moral gegen Döllinger-Reusch, Harnack, Herrmann und Heensbrech, in-8°, Paderborn, 1904; trad. latine, in-8°, Tournai, Paris, 1904; Le Veff, Saint Alphonse est-il probabilioriste? dans la Revue thomiste, 1904; Koch, Dan. Concina und die sogenannte reinen Ponalgesetze, dans Theologische Quartalschrift, 1904, p. 400-424,
Autor original: R. Coulon
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