II. CLEMENT [II (Homilia ou pretensa segunda Epístola de São). — I. Inautenticidade e verdadeiro caráter. II. Lugar de origem e autor. III. Doutrina.
I, INAUTENTICIDADE E VERDADEIRO CARÁTER. — Na sequência da carta autêntica de São Clemente de Roma, encontram-se, nos manuscritos gregos e siríacos, bem como nas edições, uma antiga homilia, que é chamada em geral, desde o século VI, de segunda carta de São Clemente aos Coríntios, IIa Clementis. Excetuando-se a antiga versão latina, a transmissão das duas "cartas" é a mesma; o abade Paulin Martin publicou, além disso, com uma tradução latina, um fragmento siríaco da IIa Clementis, proveniente de outra fonte que não o manuscrito de Cambridge. J. B. Pitra, Analecta sacra, Paris, 1883, t. IV, p. 1-2, 276.
Embora o texto do Alexandrinus, editado por Junius em 1633, terminasse no c. XII, 5, P. G., t. I, col. 329-348, críticos perspicazes, nomeadamente Dodwell e Grabe, não deixaram de reconhecer ali, não obstante o título, um fragmento de homilia. A descoberta do Codex Hierosolymitanus (1875), ao nos restituir o texto completo desta peça, colocou fora de dúvida o verdadeiro caráter da IIa Clementis, instrução moral, νουθεσία, c. XVII, 3, 5, sob a forma de um discurso escrito para ser lido na igreja, após a leitura da Escritura sagrada. Por aí explica-se sua presença nos manuscritos da Bíblia, tais como o Alexandrinus, e o uso de lê-la nas igrejas.
Os críticos modernos, excetuando, contudo, Monsenhor Bryennios e o Sr. Nirschl, * Patrologie, Mayence, 1881, t. I, p. 70, rejeitam unanimemente a sua autenticidade. O fato de que os antigos, para falar com Eusébio, H. E., III, 38, P. G., t. XX, col. 293, não conheceram a II Clementis, o contraste gritante do estilo pesado e embaraçado do opúsculo com o estilo do papa São Clemente, as citações tomadas emprestadas pelo autor do Evangelho dos Egípcios, e a alusão, c. IX, P. G., t. I, col. 341 sq., às teorias gnósticas que negavam a ressurreição da carne, tudo concorre para desaprovar a paternidade literária de Clemente de Roma e para remeter a data da homilia para meados do século II, ou até um pouco mais tarde.
II. LUGAR DE ORIGEM E AUTOR. — Mas, sobre o lugar de origem e autor da homilia, o acordo cessa e não parece perto de ser restabelecido. O estudo das expressões características do texto, das fontes do autor e da história do cânone do Novo Testamento decidiu o Sr. Hilgenfeld, desde a descoberta e a publicação do Hierosolymitanus, Novum Testamentum extra canonem receptum, 2ª ed., Leipzig, 1876, p. XLIX, a considerar a IIa Clementis como uma obra da juventude de Clemente de Alexandria.
E. Renan, L’Eglise chrétienne, Paris, 1879, p. 399, e o Sr. Batiffol, La littérature grecque, Paris, 1897, p. 65, impressionados com a conformidade de pensamento e de linguagem que notam entre a IIa Clementis e o Pastor de Hermas, inclinam-se a ver no opúsculo uma obra, se não da mesma mão que o Pastor, pelo menos do mesmo meio e do mesmo tempo. Segundo o Sr. Stahl, Patristische Untersuchungen, Leipzig, 1901, p. 280-290, Hermas em pessoa teria composto a IIa Clementis.
O Sr. Harnack, apoiando-se, por um lado, na carta de São Dionísio de Corinto à Igreja de Roma, Eusébio, H. E., IV, 23, 11, P. G., t. XX, col. 388 sq., e, por outro, na sinonímia corrente dos termos Epistula e Tractatus, identifica o opúsculo com a carta que o papa Sotero escreveu a Corinto e que, ao que parece, causou ali uma impressão profunda. Die Chronologie, t. I, p. 438 sq.; Zum Ursprung des sog. II Clemensbrief, na Zeitschrift für die neutestamentl. Wissenschaft, 1905, t. I, p. 67-72. Sotero, após ter pronunciado sua homilia em Roma, tê-la-ia enviado, não provavelmente sem alguns retoques, a Corinto por volta do ano 166, no início de seu pontificado.
A opinião vivamente sustentada por Funk, na Theol. Quartalschrift, 1902, p. 349 sq., e pelo Sr. Bardenhewer, Geschichte der altkirchl. Litt., Friburgo em Brisgóvia, 1902, t. I, p. 188 sq., e comumente admitida hoje, vale-se de uma alusão muito provável aos jogos ístmicos, c. VII, P. G., t. I, col. 337, para fazer de Corinto o berço da homilia: foi em Corinto que a Ia e a IIa Clementis foram acopladas, foi de Corinto que elas se espalharam juntas pelo mundo cristão. Esta opinião de base estreita não deixa de levantar objeções e despertar desconfianças. Ver Ehrhard, Die altchristl. Litt., parte I, Friburgo em Brisgóvia, 1900, p. 80; Turmel, L’homélie clémentine, nos Annales de philosophie chrétienne, fevereiro de 1905, p. 470.
III. Doutrina. — 1° Moral. — O autor da homilia, quem quer que seja e de onde quer que seja, de Alexandria, de Roma ou de Corinto, fala sobretudo de moral. Sem um plano claramente traçado, ele exorta, em última análise, os seus ouvintes, a quem chama de seus "irmãos e irmãs", ao reconhecimento para com Deus e à virtude. Com a necessidade das boas obras que nos servem para retribuir os benefícios de Deus, ἀντιμισθία, c. I, VI, VII, VIII, XI, P. G., t. I, col. 331, 333, 335, 336, 342, 345, c. XVII, XIX, ele prega a necessidade e a eficácia para os pecadores da confissão, ἐξομολόγησις, e da penitência, c. VIII, IX, col. 341, 344, c. XIII, XIV; mas, da confissão ele diz apenas uma palavra, enquanto insiste na penitência, ela também uma ἀντιμισθία, que o homem pode sempre fazer na terra, nunca além dela, c. VIII, col. 341, e da qual a esmola é a obra capital, acima do jejum e da oração, c. XVI; em parte alguma aqui se trata de absolvição sacramental.
2° Dogma. — Na homilia, a teologia dogmática encontra, todavia, o que colher. A IIa Clementis, de fato, abre-se com uma afirmação enérgica da divindade de Jesus Cristo, c. I, P. G., t. I, col. 329, e indica de passagem a sua dupla natureza, c. IX, col. 341. Jesus Cristo, enviado aos homens pelo "único Deus invisível", é o Salvador do mundo, c. XX; ele sofreu muito por nós, c. I, col. 332, o que parece bem implicar no autor a ideia de expiação; ele nos fez conhecer "o Pai da verdade", c. XX, col. 333, e nos proporcionou a imortalidade, c. XX.
Encontra-se também duas vezes o nome do Espírito Santo, c. XIV; mas talvez o autor, após Hermas, confunda o Espírito Santo e Cristo. Sub judice lis est. O modalismo, aliás, marcou com sua marca a linguagem da IIa Clementis. Ao lado de Jesus Cristo percebemos a Igreja, que é a Eva, a esposa, a carne de Cristo, pré-existente com ele na criação do universo e, com ele, encerra a razão última da criação, c. XIV.
Igreja una, tornada visível, de espiritual e invisível que era primeiramente. Ao representar Cristo e a Igreja como dois éons celestes, e suas relações como relações de sexo, o homiliasta falou talvez a língua da escola de Valentim, para prestar o seu tributo à moda do tempo. Ele nomeia o batismo com um nome bastante raro, um selo, c. vii, viii, que se deve conservar puro e imaculado a fim de obter a vida eterna e evitar o inferno, c. vi, vii. Guarda-se ao observar os mandamentos de Deus.
Não é feita menção senão dos presbíteros, c. xvii; nem uma palavra sobre os ἐπίσκοποι. Enfim, a escatologia da IIa Clementis pode ser resumida na crença milenarista na iminência da epifania de Deus, conquanto o dia nos permaneça incerto, c. xii, col. 345 sq.; na proclamação do dogma da ressurreição da carne, c. ix, col. 341; na fé na eternidade do inferno, c. vi, col. 337, c. xv, xvii, assim como na eternidade da beatitude celeste, c. v, col. 335; c. xix, col. 8.
A IIe Clementis é reproduzida em todas as edições dos Padres apostólicos. Cf. Funk, Patres apostolici, 2e édit., Tubinga, 1904, t. I, p. iii-v. É a edição princeps de Cotelier (1672), que se encontra em P. G., t. I.
Para as questões críticas, além dos autores citados no artigo, ver Funk, loc. cit., p. l-liv; Bardenhewer, Geschichte der altkirchl. Litteratur, Friburgo em Brisgóvia, 1902, p. 107 sq.; Les Pères de l’Eglise, édit. franc., Paris, 1904, t. I, p. 58. Sobre a doutrina, Turmel, loc. cit., p. 472-480; J. Tixeront, Histoire des dogmes, Paris, 1905, t. I, p. 132-134.
Autor original: P. Godet
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