I. CLEMENTE I. VIDA E CARTA AUTÊNTICA. — I. Vida. II. Obra autêntica. III. Doutrina.
I. Vida. — A lembrança tradicional do Papa São Clemente é, depois da dos apóstolos, a mais imponente de toda a antiguidade cristã. Menos de cem anos após sua morte, a figura de Clemente já está rodeada por uma auréola maravilhosa; e não há dúvida de que suas qualidades pessoais, mas ainda mais suas funções de chefe da Igreja Romana, lhe valeram em seu tempo uma influência de primeira ordem. De sua vida, contudo, do amanhecer e do entardecer de sua vida em particular, não sabemos quase nada; pois nossas informações derivam mais, em última análise, da lenda do que da história. Santo Irineu, Cont. hær., III, 3, n. 3, P.G., t. VII, col. 849, nos ensina que Clemente de Roma «tinha conhecido São Pedro e São Paulo e tinha conversado com eles»; fora isso, não há sobre a juventude de Clemente senão trevas e incertezas.
Orígenes foi o primeiro, In Joa., VI, 36, P. G., t. XIV, col. 293, a confundir, sem dúvida por causa da semelhança dos nomes, Clemente de Roma com o Clemente que São Paulo, Phil., IV, 3, aprouve nomear entre seus auxiliares; desde então, chegou-se ao ponto de fazer da cidade de Filipos a pátria do futuro Papa. Este último, segundo as Pseudo-Clementinas, teria sido de estirpe senatorial e aparentado à dinastia dos Flavianos. Alguns críticos modernos chegaram a aventurar a identificação de Clemente de Roma com o cônsul Titus Flavius Clemens, esse primo de Domiciano que o imperador mandou executar por causa de ateísmo, isto é, muito provavelmente, de cristianismo. Mas como explicar, nesse caso, o silêncio que os Padres guardaram sobre a elevação de um membro da família imperial à chefia da Igreja Romana? Ver Lightfoot, The Apostolic Fathers, Londres, 1890, part. I, t. I, p. 16-61; Funk, Kirchengesch. Abhandl. und Unters., Paderborn, 1897, t. I, p. 309-329.
É mais crível que São Clemente fosse um liberto ou o filho de um liberto da casa do cônsul. Era um judeu-cristão ou um pagão convertido? Não se sabe. Parece, contudo, que a carta aos Coríntios, no fundo e na forma, revela um judeu de origem. Ver Tillemont, Mémoires, t. I; De Rossi, Bullett. di arch. crist., 1863, p. 27, 39; 1865, p. 20; Lightfoot, op. cit., t. I, p. 58-61; Nestle, em Zeitschrift für die neutest. Wissenschaft und die Kunde des Urchristentums, t. I (1900), p. 178-180.
Em São Clemente saudou-se por vezes, segundo Orígenes, Eusébio, H. E., VI, 25, P. G., t. XX, col. 580, o principal redator da Epístola aos Hebreus, por vezes também, segundo Eusébio, op. cit., III, 38, col. 293, o tradutor do texto aramaico desta Epístola de São Paulo. O que é certo é que Clemente foi bispo de Roma. Mas, quanto à ordem de sucessão dos primeiros pontífices romanos, a antiguidade cristã não é unânime. Enquanto Tertuliano, De præscript., 32, P. L., t. II, col. 45, e uma boa parte dos latinos consideram Clemente como o sucessor imediato de São Pedro em Roma, Santo Irineu, loc. cit., Eusébio, H. E., V, 6, n. 34, P. G., t. XX, col. 249, 285; São Jerônimo, De vir., 15, P. L., t. XXIII, col. 631; Santo Epifânio, Hær., XXVII, 6, P. G., t. XLI, col. 373, colocam antes dele Lino e Anacleto ou Cleto; e, afastando-se igualmente uns dos outros, Santo Agostinho, Epist., LIII, ad Generos., n. 2, P. L., t. XXXIII, col. 196; Optato de Milevi, De schism. donat., II, 3, P. L., t. XI, col. 948; as Constituições apostólicas, VII, 46, P. G., t. I, col. 1053, etc., atribuem a Clemente a terceira posição, de modo que Lino teria sucedido a São Pedro, Clemente a Lino e Anacleto a Clemente.
Buscou-se, desde o século IV, conciliar essas três opiniões. Segundo Rufino, prefácio das Reconhecimentos, P. G., t. I, col. 1207-1208, Lino e Anacleto teriam sido sagrados bispos durante a própria vida de São Pedro, que, absorvido pelos trabalhos do apostolado, teria se desincumbido neles do cuidado de administrar a Igreja de Roma; de sorte que seria verdade dizer ao mesmo tempo que Lino e Anacleto foram os predecessores de Clemente e que este último foi o sucessor imediato do príncipe dos apóstolos. Santo Epifânio, por seu lado, loc. cit., apoiando-se em I Clem., XLIV, 2, Funk, Patres apostolici, Tubingue, 1901, t. I, p. 168, sustenta que São Pedro tinha ordenado Clemente para sucedê-lo, mas que Clemente, por amor à paz, tinha abandonado sua cátedra a Lino e que só teria voltado a ela após a morte do sucessor de Lino, Anacleto.
No mais, e sem insistir sobre essas tentativas de conciliação, que se prolongaram inutilmente até a Idade Média, o testemunho de Santo Irineu parece, sob todos os aspectos, o mais aceitável. A opinião contrária é evidentemente extraída das Pseudo-Clementinas, o que a torna muito suspeita. Além de sua antiguidade, o bispo de Lyon merece aqui tanto mais crédito quanto ele se empenhou, em sua luta contra os gnósticos, em elaborar um catálogo perfeitamente exato dos primeiros papas. Ver L. Duchesne, Le Liber pontificalis, Paris, 1886, t. I, p. LXXI-LXXIII.
Sobre a data e a duração do pontificado de São Clemente, o bispo de Lyon não nos diz nada. Eusébio, loc. cit., coloca o pontificado de Clemente na última década do século I, de 92 a 101. O Sr. Harnack, todavia, Die Chronologie der altchristl. Litter., Leipzig, 1897, t. I, p. 146 sq., 266, revoga em dúvida a autenticidade desses números. Os últimos anos de Clemente de Roma afundam-se na noite. Os Atos gregos do santo Papa, uma obra talvez do século IV e que floresce em milagres, Funk, Patres apostolici, Tubingue, 1901, t. II, p. 28-45, contam-nos que Clemente foi relegado, sob Trajano, para além do Ponto Euxino, em uma cidade da Quersoneso Táurica, e mais tarde, em punição pelo sucesso de seu apostolado entre os condenados às minas, precipitado no mar, com uma âncora ao pescoço. As escavações consideráveis feitas na Crimeia não espalharam ainda sobre esses Atos a luz que o Sr. De Rossi esperava deles. Ver P. Allard, Histoire des persécutions pendant les deux premiers siècles, Paris, 1885, p. 169-176.
Seja o que for que se deva pensar do silêncio dos antigos autores, Santo Irineu, Eusébio, São Jerônimo, é inegável que a tradição do martírio de São Clemente estava estabelecida em Roma desde o fim do século I, e que Clemente sofreu o martírio em Roma. A Igreja Latina, que inscreveu seu nome no Cânone da Missa, celebra sua festa em 23 de novembro.
II. OBRA AUTÊNTICA. — O único escrito de uma autenticidade irrecusável é a longa e bela carta aos Coríntios, ordinariamente e impropriamente chamada Iª Clementis, P.
G., t. I, col. 201-328. O texto grego, publicado por Junius, em 1633, com uma grave lacuna, foi integralmente restaurado por Ph. Bryennios, em sua edição de 1875. Uma boa versão siríaca, conservada em um manuscrito da biblioteca da Universidade de Cambridge, foi editada em Cambridge em 1899. Finalmente, Dom Germain Morin reencontrou, no seminário de Namur, uma tradução desta carta em latim popular, no latim da *Itala*, que data do século II ou talvez do século III, e que nos apresenta palavra por palavra um excelente texto grego. Ver *Anecdota Maredsolana*, Maredsous, 1894, t. I, fasc. 1.
A *Iª Clementis* não traz o nome do seu autor. Seguindo o costume daqueles tempos primitivos, ela é escrita em nome da Igreja de Roma inteira, clérigos e fiéis, e endereçada à Igreja de Corinto, considerada da mesma forma coletiva. Mas há apenas uma voz na antiguidade cristã para reconhecer nela a pena e o espírito do Papa São Clemente e, entre os críticos modernos, reina sobre isso, não obstante as objeções levantadas por preconceitos confessionais, uma rara unanimidade.
Sobre a data precisa da carta, a unanimidade cessa. Da própria carta, c. I, depreende-se que ela foi escrita logo após uma perseguição da Igreja de Roma. Mas de que perseguição se trata? Da perseguição de Domiciano ou da de Nero? O mais antigo historiador da Igreja, Hegésipo, por volta da metade do século II, situava esta carta perto do fim do reinado de Domiciano. Eusébio, ... o que sabemos da época do pontificado de São Clemente, e o cuidado particular que Clemente toma de fazer sobressair a longa duração das duas Igrejas de Roma e de Corinto, c. XLI-XLIV, XLVII, LXIII, tudo concorda com o dado de Hegésipo e transfere a composição desta carta para o último ano do reinado de Domiciano, senão para o início do reinado de Nerva, 96-98. Ver Harnack, *Die Chronologie*, t. I, p. 251-255; Bardenhewer, *Geschichte*, t. I, p. 102.
Distúrbios haviam eclodido — em suma, não se sabe ao certo por que — na Igreja de Corinto; membros do colégio presbiteral haviam sido depostos. A Igreja de Roma, instruída sobre esses distúrbios, julgou ser seu dever intervir. Ela fez partir para Corinto dois de seus membros, Claudius Ephebus e Valerius Vito, com um certo Fortunatus, talvez um coríntio, portadores da carta que nos ocupa e que é, de ponta a ponta, uma exortação à concórdia.
Independentemente do exórdio e da conclusão da carta, distinguem-se nela duas partes, a primeira com o caráter homilético mais pronunciado. Após ter descrito no exórdio, c. I-VI, a antiga prosperidade da Igreja de Corinto e o estado deplorável a que as suas dissensões a reduziram, São Clemente, na Iª parte, c. VII-XXXVI, previne contra a inveja e o ciúme, recorda a obrigação da penitência, recomenda energicamente a humildade, a submissão e, de uma forma geral, a prática de todas as virtudes cristãs; por toda parte, ele toma emprestado do Antigo Testamento exemplos ou figuras dessas virtudes.
Com a IIª parte, c. XXXVII-LXI, o autor estreita mais o seu assunto. Ele coloca em relevo a instituição divina da hierarquia eclesiástica e o preceito da obediência à autoridade legítima na Igreja; ele conjura todos os fiéis a amarem-se mutuamente, os autores das desordens a arrependerem-se e a submeterem-se. Nos últimos capítulos, enfim, LXII-LXV, ele resume os traços essenciais da sua carta, recomenda os seus enviados à benevolência dos coríntios, exprime a esperança de ver em breve a paz reflorecer na Igreja de Corinto. A esperança de São Clemente não foi frustrada. Eusébio, ... de um estilo claro, simples e grave, totalmente em conformidade com o assunto, marcada ao mesmo tempo por unção e firmeza, por uma bondade paternal e por esse senso de poder que era o caráter distintivo da antiga Roma, a carta aos Coríntios é um modelo de eloquência pastoral. Por isso, mal ela apareceu, vê-la-ia envolvida na Ásia Menor e no Egito por um brilhante prestígio.
Mas, desde o século IV, esse prestígio desvanece-se, ao menos no Ocidente. Os escritores latinos, salvo São Ambrósio e São Jerônimo, não são, quando falam dela, senão os ecos de Eusébio traduzido por Rufino. João, diácono da Igreja romana, na segunda metade do século VI, havia citado uma passagem, *Expositum in Heptateuchum*, 43, 44, em Pitra, *Spicilegium Solesmense*, t. I, p. 293. A Idade Média ignorou-a completamente. Ela só foi reencontrada no século XVII no célebre *Codex Alexandrinus*, com lacunas que o *Codex Hierosolymitanus* preencheu em 1875. A edição de uma versão siríaca, contida em um ms. de Cambridge, *addit*. 1700, do século XII, foi preparada por Bensly e publicada por Robert Kennett, *The Epistles of S. Clement to the Corinthians in syriac*, Cambridge, 1899. Sobre a versão latina muito antiga, descoberta por Dom Morin em um ms. do século XI, de Namur, ver col. 50.
III. DOUTRINA. — A carta aos Coríntios, que reflete o conhecimento dos homens, a habilidade em manejar os espíritos e os corações, a arte da composição e uma rara cultura intelectual, não tem, contudo, nada de um corpo de doutrina, de uma síntese teológica. Não espere dela uma exposição da fé; o primeiro escrito cristão não inspirado não é, no fundo, senão um escrito de circunstância. O autor quer fazer nela uma obra prática, uma obra de utilidade atual e imediata. Portanto, das verdades da fé ele alegará apenas as que entram no seu quadro e concorrem para o seu objetivo.
Em contrapartida, ele apoiará nas verdades da fé as suas lições e as suas exortações, que todas visam a levar os coríntios de volta à obediência aos seus pastores legítimos e, em última análise, à submissão aos desígnios divinos. Ele apelará alternadamente, conforme o curso do seu pensamento e as necessidades da sua causa, aos dogmas da unidade e da infinitude de Deus, àqueles da criação, da trindade, da encarnação, da redenção, da graça e da Igreja. De modo que, avaliando tudo, ela nos oferece um quadro das crenças cristãs por volta do fim do século I. Quadro abreviado, mas quadro fiel. Nenhuma preocupação, de fato, no escritor, seja em dizer algo novo, seja em impor aos coríntios as suas ideias pessoais. Ora, a simples aparência de uma divergência doutrinal entre o bispo de Roma e a Igreja de Corinto teria infalivelmente retirado da palavra de Clemente todo crédito, e da sua tentativa toda chance de sucesso. Mas São Clemente não é um homem de partido, tampouco um inovador.
Ele haure apenas nas duas fontes autênticas e sobrenaturais da Escritura e da tradição; todavia, por um contraste marcante com Santo Inácio e São Policarpo, penetrados ambos pelos pensamentos, pelas figuras, pelas expressões do Novo Testamento, é no Antigo, de preferência, que Clemente haure com as duas mãos. De resto, a *Ia Clementis*, em todos os dogmas que enuncia, insinua ou pressupõe, não é senão o espelho e o eco do ensino dos apóstolos.
São Clemente, ao falar de Deus, faz sobressair os seus principais atributos, a sua bondade, a sua misericórdia, a sua potência criadora; é um Deus pródigo do seu amor e dos seus benefícios, c. XX, um pai, c. XXII, XXIX, XXXV, ao mesmo tempo que um mestre, παντοκράτωρ δεσπότης. Não contente em cumular o homem com os seus dons, prepara para os justos uma recompensa que será um florescimento dos bens da graça, c. xxxv, 2. Com São Pedro e São Paulo, os justos irão logo após a morte para o lugar santo, c. v, 7, e os seus méritos serão manifestados no dia do juízo, c. L, 8.
Os próprios corpos ressuscitarão no último dia. São Clemente faz ver nos fenômenos da natureza mais de um símbolo da ressurreição da carne, no exemplo de Jesus Cristo, nosso chefe, um claro presságio, na palavra de Deus um seguro garante, c. XXIV-XXVI. Notemos que, ao parecer acreditar no fim próximo do mundo, São Clemente guardou-se de cair nas ilusões do milenarismo.
Um em sua natureza, o Deus da carta aos Coríntios não é o Deus solitário e abstrato do monoteísmo popular judaico. Ele pode portar e porta a Trindade cristã. Deste mistério da Trindade, a carta fala em termos tão simples quanto claros, como de um dogma conhecido por todos os fiéis, c. XLVI, LV. São Basílio de Cesareia, De Spirit Sancto, c. xxix, P. G., t. XXXII, col. 201, oporá precisamente aos pneumatômacos um texto do c. LVIII da Ia Clementis: «Deus vive e o Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo também.»
Assim, na unidade numérica da natureza divina, Clemente reconhece muito nitidamente três pessoas. Ao lado de Deus, ele coloca Jesus Cristo e o Espírito Santo. É por este espírito que falaram os escritores sagrados, c. VIII, 1; XLV, 2; é por este espírito que o próprio Clemente escreve, c. LXIII, 2. Nós não temos, diz ele, c. XLVI, 6, «senão um Deus, um Cristo, um só Espírito de graça derramado sobre nós.» Em uma fórmula de juramento, ele invoca como garantes da sua palavra ὁ θεὸς ὁ κύριος, Ἰησοῦς Χριστὸς καὶ τὸ πνεῦμα τὸ ἅγιον, c. LVIII, 2. Sem insistir nas relações íntimas das três pessoas, São Clemente não deixa de enunciar, c. XXXVI, 2, 5, ao citar a Epístola aos Hebreus, I, 3-13, o dogma da geração do Filho, e pode-se dizer que, ao colocar sempre o Espírito Santo depois do Pai e do Filho, não abaixo deles, e ao saudar o Espírito Santo como o órgão de Jesus Cristo na Escritura, c. XXII, LII, ele insinua a PROCESSÃO do Espírito Santo ex utroque.
Toda impregnada da doutrina e por vezes até da linguagem de São Paulo, a carta aos Coríntios proclama implicitamente como explicitamente a divindade de Jesus Cristo, c. II, XXXVI, XL, XLII, XLIV. Assim, em Jesus Cristo duas naturezas, uma divina, uma vez que ele é o Filho de Deus, c. XXXVI, 4, outra humana, que ele tomou, corpo e alma, no tempo, uma vez que ele vem de Abraão κατά σάρκα, c. XXXII, 2, e que ele se uniu inseparavelmente, c. XVI, XXXI, XLIX. Com a integridade das duas naturezas, São Clemente visivelmente pressupõe a unidade da pessoa, c. XLVI.
Jesus Cristo, isento de pecado, foi-nos sobre a terra um modelo acabado de todas as virtudes, c. I, XVI, XVII, et passim, e, pela sua morte sangrenta, resgatou todos os homens, c. VII. A morte de Jesus Cristo não foi somente um modelo de humildade, de paciência, etc., foi o grande sacrifício de reconciliação entre o céu e a terra, c. XLIX, um sacrifício que o moribundo ofereceu livremente a Deus e no qual ele era ao mesmo tempo sacerdote e vítima, c. VII, XLIX. Pelo seu sangue Jesus resgatou todos os homens, c. XII, 7. Ele é, pois, a nossa salvação, o pontífice das nossas oferendas, o advogado das nossas fraquezas, c. XXXVI, 1, o nosso sumo sacerdote, c. LXIV. É por ele que rendemos glória a Deus e que o rezamos, c. LVIII, 2; LXIV, 8. Devemos também honrá-lo a ele mesmo, c. XXI, 6.
A ressurreição do Salvador, c. XXIV, é a pedra angular do cristianismo, c. XLII; por aí Jesus é glorificado, c. XXXVI, e, no fim dos tempos, julgará soberanamente o mundo, c. XLVI, XLIX, L. O sangue de Jesus Cristo, resgate do gênero humano, merece a todos aqueles e somente àqueles que não o rejeitam, o perdão dos pecados, a santidade, a amizade de Deus. O homem pode sempre fazer penitência e arrepender-se, c. VII, 5-7; VIII, 2, 5.
A justificação é o fruto da fé e das obras ao mesmo tempo. Com São Paulo, Clemente ensina que os eleitos não obtiveram a glória pelas suas obras, mas pela vontade de Deus. Eles foram justificados pela fé, c. XXXII, 8, 4. A fé, tal como o santo a entende, é em primeiro lugar um ato de obediência, que implica a esperança e, ao menos em certo grau, a caridade. A fé é a base da nossa justificação, c. XXXII, mas ela não basta por si, c. IX-XX, XXX. Sem a fé, não há salvação para o homem. Mas a fé requer e inspira as obras, c. XXXII, XXXV, 2; XLIX. As obras são a prova exterior da fé, o atestado da sua vitalidade. Se Abraão foi abençoado, é porque ele cumpriu, pela fé, a justiça e a verdade, c. XXXI. São Clemente coloca-se assim do ponto de vista de São Tiago e encara como ineficaz a fé sem as obras.
Aliás, o homem necessita da graça de Deus, c. VIII, XXV. Esta graça é a ação sobrenatural de Deus dentro de nós; ela ilumina a inteligência, reconforta a vontade, transforma a alma, c. XXXVI, XXXVIII, et passim. Impossível, sem esta graça, salvar-nos, c. XVI, XVII, XVIII, L, et passim. Esta graça precede-nos e escolta-nos em todas as etapas da nossa justificação, c. XXXII, XXXV. Ela não nos é devida. Necessária, ela é inteiramente gratuita, c. VII, VIII, XLIX, L. Deus, todavia, nunca a recusou, mesmo fora de Israel, c. XXIX, LXIII, nem a recusa a quem a pede e não abusa dela. Ninguém, desde a origem do mundo, que não tenha podido salvar-se pela fé, c. XXXII.
Além da indicação dos caracteres gerais da Igreja — unidade fundamental, c. XLVI, visibilidade, c. XLVII-XLVIII, indestructibilidade, c. XLVI, necessidade para a salvação, c. LVII — a carta aos Coríntios põe em plena luz a instituição divina da hierarquia eclesiástica e a primazia da Santa Sé.
Há na Igreja dois elementos distintos, o clero e os leigos, c. XL. Os apóstolos, depositários da autoridade de Jesus Cristo, deram a si mesmos sucessores, a fim de assegurar na Igreja a perpetuidade dos seus poderes, c. XLII. Embora São Clemente, no c. XL, fale apenas dos bispos e dos diáconos, e que alhures ele se sirva indiferentemente dos termos de bispo e de sacerdote, não deixa de distinguir três ordens na hierarquia sagrada: a dos bispos, c. XLIV, cujo ofício principal é apresentar "a oferenda dos dons"; a dos sacerdotes, πρεσβύτεροι, que substituíram os sacerdotes, ἱερεῖς, dos judeus, c. XL; a dos diáconos, que são prepostos ao cuidado das coisas exteriores e que são também os ministros do sacrifício. Ver de Smedt, S. J., Congrès scient. internat. des cathol., Paris, 1888, t. II, p. 303 sq.
É preciso ser submisso aos sacerdotes; eles são os chefes, c. I, 3; os guias das almas, c. LXIII, 1. É preciso honrá-los em vez de privá-los, sem razão, do exercício de seu cargo, como fizeram os coríntios, c. XLIV, 3, 4, 6; XLVII, 6. É a inveja que produziu neles as dissidências, c. III, 4-VI. Nenhuma divisão no corpo de Cristo, c. XLVI, 6. A obediência e a caridade, c. XLIX, impõem-se a todo cristão. Cf. A. Michiels, L’origine de l’épiscopat, Louvain, 1900, p. 157-161, 266-270.
A intervenção da comunidade romana nas perturbações de Corinto atesta, enfim, a supremacia da Igreja de Roma. Testemunho tanto mais brilhante e decisivo quanto a intervenção, segundo toda aparência, era espontânea. No primeiro século, durante a vida do apóstolo são João, o sucessor de são Pedro, c. IV, reconhece para si o direito e o dever de restabelecer a ordem em todas as igrejas particulares onde a ordem está perturbada. O tom de sua carta respira, de ponta a ponta, essa íntima convicção. Quando, por exemplo, são Clemente expressa o pesar de não ter podido ocupar-se mais cedo da Igreja de Corinto, c. I, XLVII, quando declara que, no caso de a revolta continuar, ele terá, ele próprio, a consciência de ter cumprido sua missão, c. LIX; não é essa a atitude de um juiz que ocupa o lugar de Deus? Não é essa a linguagem de um superior aos seus subordinados? Cf. Schwane, Dogmengeschichte, 2e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1892, t. I, p. 441-442; Harnack, Lehrbuch der Dogmengeschichte, 3e édit., Fribourg-en-Brisgau et Leipzig, 1894, t. I, p. 444.
Nos c. LIX-LXI, são Clemente formula uma longa oração, que nos fornece um exemplo notável da oração litúrgica ao fim do I século.
I. EDIÇÕES. — A edição princeps da carta aos Coríntios é a de P. Junius (Young), Oxford, 1633; 2e édit., 1637. Numerosas edições foram feitas desde então até a de Hilgenfeld, Novum Testamentum extra canonem receptum, in-8°, Leipzig, 1866. Edições modernas e mais completas, por C. Tischendorf, in-4°, Leipzig, 1873, por Mons. Bryennios, in-8°, Constantinopla, 1875, por von Gebhardt e Harnack, em Patrum apostolicorum opera, fasc. I, 2e édit., Leipzig, 1876; por Lightfoot, em The Apostolic Fathers, part. I, Londres, 1890, t. I, p. 129-146, 421-474; texto siríaco, por Bensly-Kennett, in-8°, Cambridge, 1899; por R. Knopf, Leipzig, 1899, em Texte und Unters. zur Geschichte der altchristl. Litteratur, nova série, t. IV, fasc. 1; por Funk, em Patres apostolici, in-8°, Tubinga, 1901, p. 98-184; por J. Vizzini, Roma, 1901; por H. Hemmer, Paris, 1909.
II. TRABALHOS. — Lipsius, De Clementis Romani epistola ad Cor. priore disquisitio, 1856; Duchesne, Liber pontificalis, Paris, 1886, t. I, p. 123-124; A. Lightfoot, The Apostolic Fathers, part. I, S. Clement of Rome, Londres, 1890; Prolegomena des Patres apostolici, de Funk, t. I, p. Xxxu-L; Brüll, Der erste Brief des Klemens von Rom an die Corinther und seine geschichtl. Bedeutung, in-8°, Fribourg, 1883; Wrede, Untersuchungen über den ersten Klemensbrief, in-8°, Göttingen, 1891; Lemme, Das Judenchristentum der Urkirche und der Brief des Klemens Romanus, em Neue Jahrbücher für deutsche Theologie, 1892, t. 1, p. 385-488; Krüger, Geschichte der altchrist. Literatur, Fribourg-en-Brisgau, 1895, § 7; Harnack, em Texte und Unters..., nova série, 1900, t. V, p. 70-80; Courtois, L’Épitre de Clément de Rome, in-8°, Montauban, 1894; Bang, Studien über den Clemensbrief, em Theol. Studien und Kritiken, 1898, t. LXXI, p. 431-486; J. Gregg, The epistle of saint Clement, Londres, 1899; Heurtier, Le dogme de la Trinité dans l’Épitre de saint Clément de Rome et le Pasteur d’Hermas, in-8°, Lyon, 1900; A. Ehrhard, Die altchristl. Literatur und ihre Erforschung von 1884-1900, Fribourg-en-Brisgau, 1900, p. 68-80; A. Stahl, Patristische Untersuchungen, Leipzig, 1901; Scherer, Der erste Klemensbrief an die Corinther, Ratisbonne, 1902; Bruders, Die Verfassung der Kirche, Mayence, 1901; D. Völter, Die apostolischen Väter neu untersucht, Leyde, 1904, t. 1; Bardenhewer, Geschichte der altkirchlicher Litteratur, Fribourg-en-Brisgau, 1902, t. 1, p. 98-413; Les Pères de l’Église, 2e édit. franc., Paris, 1904, t. 1, § 8; Hurter, Nomenclator, 3e édit., Innsbruck, 1903, t. 1, col. 4-7; J. Tixeront, Histoire des dogmes, Paris, 1905, t. 1, p. 118-122; P. Montagne, La doctrine de saint Clément de Rome sur la personne et l’œuvre du Christ, na Revue thomiste, julho-agosto de 1905. Para uma bibliografia mais completa, ver Ul. Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, 2e édit., Paris, 1904, t. 1, col. 948-951.
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