CERINTO

CERINTO

CERINTO. —

I. Vida.

II. Doutrina.

III. Discípulos.

I. Vida. — Na falta da história, que é sóbria em detalhes e nos deixa ignorar a data do nascimento e da morte de Cerinto, a tradição, da qual São Epifânio se fez eco, abunda em informações sobre este herege. Cerinto nasceu no Egito, provavelmente de pais judeus: ele era circuncidado. Teria recebido em Alexandria uma instrução bastante desenvolvida, recolhendo os dados da filosofia grega e oriental, assim como as tentativas de conciliação ensaiadas por Fílon entre a sabedoria pagã e o ensinamento mosaico. S. Epiphane, Her., XXVIII, 2; 6: 2, 6: ele teria deixado o Egito, percorrendo a Palestina na época da pregação apostólica, permanecendo sucessivamente em Jerusalém, em Cesareia, em Antioquia da Síria, e teria se fixado na Ásia, onde manteve escola e fundou uma seita. S. Irénée, Cont. her., I, 26, 1, P. G., t. vii, col. 684; S. Epiphane, Her., xxviii, 1, P. G., t. xli, col. 377.

Deixou por toda parte vestígios de sua passagem, criou embaraços ao cristianismo nascente ao buscar paralisar a propagação evangélica. Partidário resoluto da fidelidade à lei e da circuncisão, estimava que estas eram absolutamente necessárias para a salvação e pretendia impô-las a quem quer que desejasse abandonar o paganismo para abraçar a fé cristã. Cristão ele mesmo, não compreendeu nada das tendências católicas do cristianismo, conservou suas visões estreitas e não aceitou a admissão dos gentios, tal como a entendia e a praticava São Paulo. Segundo ele, como segundo os judaizantes, o muro de separação devia ser mantido e não derrubado. É dar a entender que ele teria sido a alma da oposição judaica, o chefe oculto, mas muito escutado, dos judeus intransigentes e sectários, criticando o batismo dado por São Pedro ao gentil Cornélio, censurando como uma apostasia a direção que São Paulo imprimia à Igreja em favor dos não judeus, tendo por não avenidas as decisões tomadas na reunião de Jerusalém, exigindo a circuncisão de Tito e organizando, nos passos de São Paulo, uma espécie de contrapregação que teria resultado, em caso de êxito, na manutenção do cristianismo sob a dependência estreita do judaísmo. S. Epiphane, Her., XXVIII, 2-4, P. G., t. xli, col. 380-381.

Passando da Palestina para a Síria, da Síria para a Galácia e para a Ásia, não fez senão desenvolver suas visões, ἀντιθέσεις, Her., XXVIII, 2, ἀντιθέσεις καὶ ἐναντίων διδάσκαλος. Ibid., 6, P. G., t. xli, col. 380, 381. De tal modo que, ao final do século I, era olhado como uma peste; donde a palavra de São João, nas termas de Éfeso, quando soube que Cerinto estava lá: «Fujamos, com receio de que a presença de tal inimigo da verdade não faça desmoronar as paredes.» Esta palavra, recolhida por Santo Ireneu dos lábios de São Policarpo, foi consignada por Eusébio, H. E., III, 28, P. G., t. xx, col. 276.

Estas diversas informações parecem verossímeis em seu conjunto. É preciso constatar, todavia, que São Paulo, muito a par das manobras judaizantes que ele desvela e fustiga energicamente, tratando de falsos apóstolos e de falsos irmãos aqueles que semeiam o erro e lançam a divisão nas comunidades que fundou, ψευδαπόστολοι, II Cor., xi, 13, παρεσάκτοι ψευδάδελφοι, Gal., ii, 4, nunca nomeia Cerinto entre os líderes. Quanto a São João, que conhece Cerinto e sua doutrina, sabe-se simplesmente pela tradição que, ao compor seu Evangelho para afirmar e demonstrar a divindade de Jesus Cristo, ele visava em particular Cerinto. S. Irénée, Cont. her., III, 11, 1, P. G., t. vii, col. 880.

Cerinto limitou-se a um ensinamento puramente oral? Não consignou em alguma obra os pontos principais de seu sistema? Não temos nenhuma informação a esse respeito. Na sequência dos Alogos, Caio de Roma acusa-o de ter composto um Apocalipse sob o nome de um grande apóstolo, no qual tinha inserido muitos prodígios, τερατολογίας. Eusébio, H. E., III, 28, P. G., t. xx, col. 273. Ver t. I, col. 1469. Contudo, alguns críticos pensaram que Caio, a par do ensinamento tradicional e sabendo que a Igreja de Roma olhava o Apocalipse como um livro canônico devido a São João, não atribuiu este livro a Cerinto. Segundo eles, ele falaria antes de um apócrifo, do qual esta é a única menção; e é a hipótese que sugere Teodoreto quando nos representa Cerinto, a propósito das revelações, ὡς αὐτὸς τεθεαμένος. Heret. fab., II, 3, P. G., t. LXXXIII, col. 389.

II. Doutrina. — Levando em conta as informações que são fornecidas, primeiro por Santo Ireneu, pelos Philosophoumena e pelo pseudo-Tertuliano, depois por Eusébio, São Epifânio, São Filástrio e Santo Agostinho, constata-se que Cerinto não é senão um eco das ideias que se agitavam em seu tempo nos meios cultos. Sonhava-se, com efeito, seja em acomodar o judaísmo com o helenismo platônico, seja em combinar um sistema religioso com os antigos dados da filosofia e o ensinamento novo do Evangelho, reservando um lugar especial à gnose ao lado ou acima da fé. Ora, o sistema de Cerinto assemelha-se a um sincretismo judeu-gnóstico de mosaísmo desfigurado, de filosofia oriental e de cristianismo travestido; não é nem completamente gnóstico, menos ainda cristão; porta a marca dessas influências diversas e aparece em um momento em que o judaísmo parcial é ἄνω ῥέων S. Epiphane, Her., XXVIII, 1, P. G., t. xli, col. 377.

Por outro lado, a teoria gnóstica, que vê na matéria uma fonte de pecado, ou pelo menos uma degradação do espírito, um rebaixamento da ideia, com a qual Deus não saberia entrar em contato imediato, choca-se com uma pedra de tropeço: a encarnação do Verbo segundo a doutrina cristã. Portanto, para salvaguardar este princípio da impossibilidade da união de Deus com um corpo material e para conciliá-lo ao mesmo tempo com os relatos evangélicos que falam do nascimento e da morte de Jesus Cristo, a gnose inventou o docetismo. E, sobre este ponto, Cerinto é tributário da gnose. Eis seu sistema.

1° Criação. — Cerinto toma por ponto de partida a existência de dois princípios. Ele não os chama, como se fará pouco depois dele, o princípio do bem e o princípio do mal, mas, sob a influência de Fílon, ele os designa sob o nome de princípio ativo e de princípio passivo, sendo Deus o primeiro e a matéria o segundo.

Ele atribui a existência do mundo a um ser superior ao mundo e distinto dele, mas que não saberia ser Deus ele mesmo, tão afastado quanto possível do primeiro princípio, ao mesmo tempo que participa de sua natureza, e tão aproximado quanto possível da matéria, ao mesmo tempo que dela se distingue; factum esse mundum a virtute quadam valde separata et distante ab ea principaliter que est super universa. S. Irénée, Cont. her., loc. cit.; Philosophoumena, VII, v, 33, édit. Cruice, Paris, 1860, p. 388.

Quem é esse demiurgo? Mais tarde, ele será chamado de Deus da Bíblia, o Jeová dos judeus. Cerinto não vai tão longe: ele não admite a identificação de Jeová e do demiurgo, como nos ensinam Santo Irineu, Cont. her., I, 26, 1, P. G., t. vii, col. 684; o pseudo-Tertuliano, Prescript., 48, P. L., t. II, col. 67; Santo Agostinho, Her., 8, P. L., t. XLII, col. 27; e o autor do Predestinatus, 8, P. L., t. LIII, col. 590. Não é Jeová, são os anjos que formaram o mundo, que deram a Lei e inspiraram os profetas. S. Epifânio, Her., xxviii, 1, P. G. t. XLI, col. 377.

Se o Deus da Bíblia é qualificado de anjo pelo pseudo-Tertuliano, loc. cit., é sem dúvida a título de chefe dos dunameis e dos aggelon, dos quais Teodoreto diz que organizaram o mundo em seus detalhes. Heret. fab., II, 3, P. G., t. LXXXIII, col. 389. As fontes não nos fazem conhecer a maneira pela qual Cerinto explicava a origem e a existência desses anjos demiurgos; elas não dizem tampouco o motivo da ignorância em que eles estavam quanto à existência do Deus supremo, Philosophoumena, VII, v, 33, p. 388, se essa ignorância era o resultado de uma falta ou a simples consequência do distanciamento em que eles se encontravam do primeiro princípio, dupla explicação que encontrará seu lugar nos sistemas gnósticos ulteriores.

2° Cristologia. — Cerinto, não ignorando nem a repugnância dos gnósticos em colocar Deus em contato com a matéria, nem o horror do judaísmo popular em conceber que o Messias pudesse sofrer e morrer, possui uma cristologia doceta. Mas seu docetismo não é aquele que combate Santo Inácio em suas Cartas, segundo o qual os fenômenos relativos ao nascimento, à vida e à morte de Jesus Cristo não eram senão aparências sem realidade; não é tampouco o docetismo de Basilides, que substitui Jesus por Simão de Cirene no momento da crucificação, nem o de Valentim, que empresta a Jesus um corpo visível e capaz de sofrer, mas de essência imaterial, que não fez senão passar pelo corpo da Virgem sem dele nada tomar.

Cerinto distingue no Salvador duas personagens, Jesus e o Cristo; ele concede que Jesus, nascido de José e de Maria como o restante dos homens, Philosophoumena, VII, v, 33, p. 388; Pseudo-Tertuliano, Prescript., 48, P. L., t. II, col. 67, sofreu, que ele morreu e que ressuscitou, S. Irineu, Cont. her., I, 26, 1, P. G., t. VII, col. 684; Philosophoumena, VII, v, 33, p. 389, ou, como dizem Santo Agostinho, Her., 8, P. L., t. XLII, col. 27, e o autor do Predestinatus, 8, P. L., t. LIII, col. 590, que ele deve ressuscitar; mas Jesus não é Deus. É um homem notável por sua justiça e sua sabedoria, Philosophoumena, loc. cit., p. 388, que, no momento de seu batismo, recebeu, sob a forma de pomba, o Cristo enviado pela Potência suprema e aprendeu dele a revelação do Deus desconhecido. S. Irineu, Cont. her., I, 26, 1, P.G., t. VII, col. 684; Philosophoumena, VII, 33, p. 389.

Mas esse hóspede estrangeiro, que é impassível e não pode nem sofrer nem morrer, ele não o conserva até sua morte; no momento da paixão, com efeito, o Cristo abandona Jesus e remonta ao céu; Jesus é o único a sofrer e a morrer. Philosophoumena, loc. cit., p. 389. Santo Epifânio falta aqui com a clareza; a distinção característica, tão bem marcada pelo autor dos Philosophoumena, escapa-lhe. Primeiramente ele chama o Cristo pneuma hagion; depois, ora diz que é o Cristo que nasceu de José e de Maria, Her., xxviii, 1, P. G., t. XLI, col. 377; ora que é Jesus, ibid., col. 380; ora afirma que é Jesus quem morre e ressuscita, sendo o Cristo espiritual e impassível, ibid., col. 380; ora que é o Cristo quem morre e ressuscitará na ressurreição geral. Ibid., 6, col. 384.

É assim que Cerinto tentou a conciliação impossível do dogma cristão da redenção com suas visões judaicas e gnósticas. Outros além dele tentarão essa mesma conciliação com igual insucesso; no fundo, é o cristianismo que é sacrificado.

3° Escatologia. — Cerinto admitia o fim do mundo; ignora-se como ele o explicava. Mas entre o fim do mundo e a inauguração do reino de Deus com os eleitos no céu, ele colocava um reino de mil anos que os homens deviam passar nas delícias nupciais e nos sacrifícios mais alegres. Esse quiliasmo, ele o haurira de fontes judaicas, talvez mesmo do livro de Enoque; sabe-se que foi um erro compartilhado por certos Padres da Igreja e que o milenarismo não desapareceu senão pouco a pouco. E explica-se por que nem Santo Irineu nem o autor dos Philosophoumena pensam em reprová-lo a Cerinto. Talvez tenha sido Cerinto quem aclimatará o erro milenar nessa parte da Ásia, onde haveriam de aparecer Papias de Hierápolis e os iluminados frígios; em todo caso, ele aí ensinou, como lhe reprovam Caio, Eusébio, H. E., 1, 28, P. G., t. xx, col. 273, e como notam Santo Agostinho, Her., 8, P. L., t. xLi, col. 27, e Teodoreto, Hæret. fab., 1, 3, P. G., t. LXXXIII, col. 389.

Por outro lado, Cerinto, ao ensinar a ressurreição de Jesus e a ressurreição futura dos homens, que os gnósticos haveriam de descartar, parece ter querido manter o dogma cristão do símbolo, a σὰρξ ἀνάστασις; mas não se vê que papel ele reservava ao corpo após a ressurreição, nem a que título ele o convocava a desfrutar dos benefícios do quiliasmo.

III. Discípulos. — Ao mesmo tempo que distinguia Deus do Jeová da Bíblia e do legislador dos Hebreus, Cerinto não deixava de reter como uma obrigação a fidelidade à lei e a prática da circuncisão e do sábado; ele se vinculava ao judaísmo legal. S. Epifânio, Her., xxviii, 2, P. G., t. xli, col. 380; S. Agostinho, Her., 8, P. L., t. xlii, col. 27; Predestinatus, 8, P. L., t. Liii, col. 590; S. Jerônimo, Epist., cxii, 13, P. L., t. xxii, col. 924. Filástrio pretende que ele foi condenado pelos apóstolos e expulso da Igreja, Her., 60, P. L., t. xii, col. 1152; o autor do Predestinatus especifica que ele foi anatemizado por São Paulo na Galácia, que é dele e de seus discípulos que se trata na Epístola aos Gálatas, 8, P. L., t. Liii, col.

mas isso não passa de uma interpretação, motivada sem dúvida pela linguagem de Santo Epifânio. Cerinto teve discípulos entre os judaizantes e os judeu-cristãos; chamavam-nos de cerintianos ou merintianos. S. Irineu, Cont. hær., i, 11, 8, P. G., t. vii, col. 885; S. Epifânio, Hær., xxviii, 8, P. G., t. xli, col. 388.

Com o partido dos nazarenos e dos ebionitas, os cerintianos consentiram bem em tornar-se cristãos, mas sob a condição de não abandonar nada das prescrições da lei e de impô-las aos gentios. Consequentemente, consideravam São Paulo como um apóstata, porque ele declarava que a circuncisão não era mais necessária para a salvação e que a lei da graça ou da liberdade havia substituído definitivamente as prescrições legais; rejeitavam suas Epístolas e utilizavam apenas um Evangelho, o Evangelho segundo os Hebreus, εὐαγγέλιον καθ’ Ἑβραίους, Philastrius, Her., 36, P. L., t. xii, col. 1152, cujas tendências judaico-cristãs eram nitidamente marcadas, seja na redação grega própria aos ebionitas, seja na redação aramaica em uso entre os nazarenos.

As ideias correntes neste meio cerintiano, ebionita e nazareno não foram estranhas à redação dos apócrifos pseudo-clementinos que, no final do século II ou no início do III, formaram toda uma literatura, Reconhecimentos, Homilias e Epitomés, obra de propaganda e não de história, verdadeiro romance teológico servindo de veículo às pretensões ebionitas, ao sincretismo judaico-cristão, cujos dados a escola de Tubinga buscou explorar, emprestando-lhes um papel importante nas origens do cristianismo, papel incompletamente justificado.

Na realidade, os partidários de Cerinto, assim como o partido ebionita ou nazareno, foram sem influência marcada. Atonados em alguns centros fechados, lutaram inutilmente contra a direção decisiva impressa à Igreja por São Paulo; seus protestos permaneceram sem eco e seu rastro perde-se em meio a tantas outras seitas gnósticas que proliferaram no século II.

Ao final do século VI, Genádio assinala os cerintianos entre aqueles que devem receber o batismo católico antes de serem admitidos na Igreja, De eccles. dogm., 52, P. L., t. Lviii, col. 994.

Além das obras citadas no corpo do artigo, Tillemont, Mémoires, Paris, 1701-1709, t. ii, p. 54-60, 486-487; Kebritz, De platonismo in cerinthianismo redivivo, Halle, 1736; Paulus, philosophiques, Paris, 1835; Duchesne, Les origines chrétiennes (lith.), p.52-54; artigos da Realencyklopadie, Leipzig, 1896, do Kirchenlexikon, Fribourg-en-Brisgau, 1880, t. ii, col. 19-23, do Dictionary of christian biography, Londres 1877-1887; U. Chevalier, Répertoire des sciences historiques. Bio-bibliographie, col. 420, 2508; A. Harnack, Lehrbuch der Dogmengeschichte, 3 e édit., t. i, p. 284 sq.; Zahn, Geschichte des neutestamentlichen Kanons, t. i, p. 220-262; t. ii, p. 973-991, 1021-1022; J. Kunze, De historie gnosticismi fontibus nove questiones critice, Leipzig, 1894; J. Tixeront, Histoire des dogmes, t. i, La théologie anténicéenne, Paris, 1905, p. 173-175.

Autor original: G. Bareille

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor