CERIMÔNIAS. — I. Definição e utilidade em geral. II. Razão de ser e fim especial. III. Origem, desenvolvimentos e mudanças. IV. Legitimidade. V. Eficácia ex opere operato. VI. Simbolismo. VII. Influência sobre: 1º a arquitetura; 2º a vida de oração; 3º os hábitos religiosos; 4º a civilização.
I. DEFINIÇÃO E UTILIDADE EM GERAL. — No sentido amplo, todas as cerimônias religiosas são a expressão do culto divino. Elas traduzem em sinais sensíveis os atos de inteligência e de vontade pelos quais o homem protesta a sua fé em Deus. A adoração e a oração mental não bastam; o homem não é somente espírito, mas espírito destinado a não formar senão um «todo natural» com o corpo e a viver em sociedade. A este título, ele deve a Deus um culto sensível e social. De fato, nenhuma religião se contentou com um culto puramente interior; as mais opostas às cerimônias admitiram, ao menos, a oração vocal e os gestos; isso é admitir, em princípio, a legitimidade das cerimônias mais solenes, uma vez que todas se reduzem a palavras acompanhadas de atos exteriores. É o que reconhecem os 39 artigos da Igreja anglicana. Após terem afirmado que «cada Igreja particular tem autoridade para ordenar, mudar e abolir as cerimônias», eles acrescentam: «Se o serviço que devemos a Deus implica razoavelmente atos exteriores de culto, estes atos exteriores devem ser cumpridos de uma maneira determinada, isto é, deve haver certas formas exteriores, certas cerimônias no culto que devemos a Deus, e as seitas dos quakers que pretenderam negá-lo provaram, pelas bizarras cerimônias que lhes são particulares, que algo disso é necessário mesmo para essa sorte de cristianismo. Mas assim como isso é necessário, do mesmo modo é vantajoso observar cerimônias religiosas dignas e ordenadas.» O Cyclopedia of biblical, etc., de Mc Clintock, art. Ceremony, New-York, 1891, faz também notar que, sem as cerimônias, a religião poderia conservar-se em um pequeno número de inteligências de elite de grande poder de reflexão, mas que, na massa do gênero humano, toda a sua marca seria logo perdida. No sentido estrito, cerimônia significa tudo o que foi acrescentado ao rito essencial do sacrifício e dos sacramentos; é neste último sentido que a entendemos.
II. RAZÃO DE SER E FIM ESPECIAL. — A Igreja, ao instituir as cerimônias, continuou a obra divina da encarnação e dos sacramentos; ela revestiu de uma forma sensível as realidades inacessíveis aos sentidos, ut dum visibiliter Deum cognoscimus, per hunc in invisibilium amorem rapiamur. Prefácio de Natal. O fim das cerimônias da Igreja em geral é o mesmo que aquele que foi atribuído por São Tomás às cerimônias do batismo: «1º Excitar a devoção dos fiéis e o seu respeito pelo sacramento. Se, de fato, se contentasse com uma simples ablução sem qualquer solenidade, alguns chegariam facilmente a pensar que não passa de uma ablução ordinária; 2º Instruir os fiéis. Os simples, que não se instruem com livros, precisam sê-lo por sinais sensíveis como as pinturas e outras coisas deste gênero e, assim, o que se pratica na administração dos sacramentos, os instrui ou os excita a instruírem-se ao inquirirem sobre o sentido dos sinais. É por isso que, como lhes importa conhecer, além do efeito principal do sacramento, outras doutrinas relativas ao batismo, convinha que elas fossem representadas por sinais sensíveis; 3º Entravar, por orações e bênçãos, a potência do demônio para remover os obstáculos ao efeito do sacramento.» Sum. theol., IIIa, q. lxvi, a. 10. Após o concílio de Trento, sess. VII, can. 13; sess. XXII, c. V, VII, VIII, o catecismo deste concílio expõe a mesma doutrina. Part. II, De sacramentis, XVI.
III. ORIGEM, DESENVOLVIMENTOS E MUDANÇAS. — Desde a origem, a Igreja instituiu cerimônias; ela as completou pouco a pouco ao longo dos séculos, ora aprovando costumes locais, diocesanos, nacionais, ora tomando ela mesma a iniciativa; ela as precisou de século em século e as consignou em seus livros litúrgicos cada vez mais explícitos e cada vez mais desenvolvidos. As decisões das Congregações romanas, e em particular da S. C. dos Ritos, as interpretam e as modificam segundo as circunstâncias. No estado atual da disciplina, a Igreja romana reservou para si, quase exclusivamente, o direito de estabelecê-las, completá-las, modificá-las e precisá-las. Quaisquer que tenham sido as formas diferentes segundo as quais a Igreja estabeleceu cerimônias, ela o fez constantemente em virtude do poder que lhe fora conferido por seu divino fundador. Jesus Cristo, de fato, após ter instituído a Igreja como sociedade religiosa, deixou-lhe o direito e o cuidado de organizar o culto em espírito e em verdade que ele queria fazer render ao seu Pai pela humanidade regenerada. Os teólogos discutem para saber em que medida Nosso Senhor determinou ele mesmo os ritos essenciais dos sacramentos e a parte que ele deixou à sua Igreja nesta determinação. Ver SACRAMENTOS. Todos concordam em reconhecer que a Igreja determinou ela mesma os ritos acessórios e as cerimônias que acompanham os ritos essenciais. Não temos a intenção de expor aqui a história das cerimônias eclesiásticas. Lembremos apenas que, por respeito à instituição divina da Sinagoga, por condescendência para com seus últimos fiéis, a transição entre as cerimônias da antiga lei e as da nova operou-se com precauções. «Santo Agostinho, Epist., LXXXII, n. 15, P. L., t. XXXIII, col. 281-282, distingue três tempos: um antes da paixão, durante o qual as cerimônias legais não eram nem mortais, nem mortas; outro após a divulgação do Evangelho, no qual elas estavam mortas e eram mortais; um terceiro tempo mantém-se no meio entre os dois outros: desde a paixão até a divulgação do Evangelho. Durante este último tempo, as cerimônias legais estavam mortas, não tendo nenhuma força e, não sendo mais obrigatórias para ninguém, não eram, contudo, mortais, porque os judeus convertidos podiam ainda licitamente praticá-las, com a condição, todavia, de que nela não pusessem a sua esperança, acreditando-as necessárias à salvação, como se, sem elas, a fé em Cristo tivesse sido insuficiente para a justificação. Quanto aos convertidos da gentilidade, eles não tinham ponto de razão para praticá-las.
Por isso, Paulo circuncida Timóteo, cuja mãe era judia, mas não Tito, que pertencia à raça dos gentios.» O Espírito Santo não quis defender imediatamente as cerimônias legais aos judeus convertidos, como foram defendidos aos convertidos entre os gentios os ritos do paganismo, para mostrar que diferença existe entre esses dois ritos. Os ritos pagãos, com efeito, eram sempre reprovados como absolutamente ilícitos e sempre proibidos por Deus; enquanto os ritos da antiga lei cessavam, preenchidos que eram pela paixão de Cristo, tendo sido instituídos precisamente para figurar o Cristo. » S. Thomas, Sum. theol., Ia IIe, q. ciii, a. 4 Voir t. 1, col. 129-133.
IV. LÉCIRIMITS. — Do fato de que Cristo não instituiu as cerimônias acrescentadas aos ritos essenciais dos sacramentos, não se segue que ele as tenha abandonado à livre determinação dos fiéis e dos particulares. Isso seria verdade, se ele tivesse fundado apenas a religião, isto é, se ele se tivesse limitado a prescrever mandamentos, a revelar os dogmas, a instituir os ritos essenciais dos sacramentos sem fundar uma sociedade visível, hierárquica, onde fosse obrigatório entrar para praticar a religião. Nessa hipótese, a escolha das cerimônias poderia ter sido deixada a cada fiel, ou pelo menos às Igrejas particulares formadas e governadas independentemente umas das outras, sem promessa nem garantia de indefectibilidade e de infalibilidade.
Mas, o que os protestantes têm razão de considerar como teoricamente possível é praticamente tornado já muito improvável pelo fato da instituição divina do culto hebraico e demonstrado absolutamente falso pelo testemunho irrecusável das Escrituras e da tradição, Jesus Cristo não fundou senão uma única Igreja, e ele lhe deu um chefe supremo na pessoa de São Pedro e de seus sucessores. Em consequência, é exclusivamente a ela que pertence o direito soberano (do qual dependem os direitos das Igrejas particulares) de administrar os sacramentos e de velar para que os ritos essenciais sejam não somente conservados intactos, mas ainda cercados de cerimônias e de preces que instruam os fiéis e lhes inspirem o respeito e a piedade, que imponham aos ministros sagrados o recolhimento e uma atitude conforme à sua dignidade.
Ela o fez de diversas maneiras, assim como o prova a diversidade das liturgias. Mas parece que ela faltaria ao seu dever se permitisse a Igrejas particulares abandonar todos os ritos antigos e contentar-se, por exemplo, apenas com as palavras da consagração para celebrar o santo sacrifício, com a imposição das mãos, com um ou dois outros ritos e algumas palavras para comunicar o poder sacerdotal e episcopal, se ela não constrangesse seus sacerdotes a essa vida de prece que ela chama tão justamente de ofício divino, se a casa do sacrifício, a igreja, a mesa do sacrifício, o altar, o instrumento do sacrifício, o cálice, não fossem objeto de solenes consagrações.
A determinação das cerimônias santas é, aliás, conforme ao desejo da natureza. A sociedade civil cerca de imponentes formalidades as decisões judiciais e os principais contratos; com quanta mais forte razão, a Igreja deve cercar de solenes cerimônias os santos mistérios que têm por objeto Deus e as relações mais íntimas do homem com Deus. Abandonadas sem cerimonial preciso a ministros que por vezes carecessem de inteligência e de piedade, as funções sagradas poderiam ter-se cumprido demasiado à pressa, sem preparação e sem atenção, ou arrastado em longas inoportunas e repugnantes.
Em virtude do poder que ela detém de seu fundador, a Igreja tem o direito de instituir cerimônias especiais de bênção e de consagração, de compor, de aprovar, de impor fórmulas de prece, de ofícios em honra aos santos. Assim se explica a história dos seis livros litúrgicos: missal, breviário, pontifical, ritual, cerimonial dos bispos e martirológio. Assim se justificam as mais antigas bênçãos, tais como as da água até às mais recentes, tais como as das ferrovias e dos telégrafos. Voir BENEDICTIONS, col. 638, 639; Bapréme, col. 181, 182.
Desde que se reconhece a Igreja como legada de Cristo, tudo o que ela decide em matéria de cerimônias aparece como o exercício de um direito sagrado e soberano. É em virtude desse mesmo direito que ela protesta contra os abusos e as interpretações supersticiosas, que ela retira concessões feitas e que ela opera na liturgia modificações e supressões. Entre as formas do culto tais como as descreve dom Cabrol, Le livre de la priére antique, e as de hoje, que diferença e, ao mesmo tempo, que semelhança! É pelo uso legítimo de sua autoridade que a Igreja vigiou, regulou e conduziu tudo.
A Igreja romana admite como legítimas cerimônias outras que não as de sua liturgia própria; ela autoriza as liturgias orientais, a liturgia moçárabe, ambrosiana. Ela autoriza também adições à liturgia romana. Certas ordens religiosas, certas dioceses praticam algumas cerimônias que lhes são particulares. Essas práticas são legítimas, porque o vigário de Cristo as aprova; elas deixariam de o ser, apesar de sua santidade intrínseca, se ele julgasse útil proibi-las. Essas variedades dos diferentes ritos, essas variedades no mesmo rito, embora tenham sido por vezes a ocasião de sérias dificuldades, a Igreja as autoriza não somente para não remover de antigas cristandades tradições que lhes são caras, mas ainda para conservar os antigos monumentos da fé.
Essas Igrejas têm ritos que remontam aos tempos apostólicos; elas são assim testemunhas da antiga fé e nomeadamente da instituição divina dos sacramentos, testemunho tanto mais irrecusável quanto se perpetuou desde os primeiros séculos apesar de violentas antipatias de raça, de preconceitos e de dissensões cismáticas. Mas haveria perigo para a integridade dos ritos mais sagrados em deixar as cerimônias sem controle e à livre determinação das Igrejas particulares. Assim, os ritos essenciais do sacramento da ordem não foram conservados nas cerimônias tais como as tinham ordenado, mudado e mutilado os inovadores ingleses do século XVI, enquanto os cismáticos do Oriente, ao respeitar suas cerimônias tradicionais, conservaram a validade de suas ordenações.
V. EFFICACITE EX OPERE OPERATO. — 1° À exceção dos anglicanos puseístas da High Church, os protestantes escandalizam-se de que certos ritos da lei nova, diferentemente daqueles da antiga, produzam por si mesmos, ex opere operato, a vida divina da graça. Isso seria, segundo eles, superstição.
A doutrina da Igreja não escandaliza senão aqueles que a desconhecem. Ela distingue, com efeito, o rito essencial das cerimônias que a ele foram acrescentadas: Quae (cæremoniæ) laudari prætermitti sine peccato non possunt, nisi aliud facere ipsa necessitas cogat : tamen si quando omittantur, quoniam rei naturam non attingunt, nihil de vera Sacramentorum ratione imminui credendum est. Catech. conc. Trident., part. ll, De sacramentis, xv.
As cerimônias da Igreja, bênçãos, consagrações, têm sem dúvida uma eficácia real, ver col. 637, mas, por mais santas que sejam, elas não contêm nem produzem por si mesmas a vida divina, a graça habitual ou santificante; somente as cerimônias que constituem o rito essencial a contêm e a produzem por si mesmas, porque são o instrumento de que Deus se serve para agir sobre a alma e santificá-la. Ademais, esta santificação nunca é operada independentemente das disposições interiores do sujeito. É necessário, com efeito, que o sujeito não coloque obstáculo à recepção da graça contida no sacramento.
A expressão ex opere operato e non ex opere operantis não se aplica, portanto, senão à produção da graça pelos ritos essenciais dos sacramentos, e ela significa apenas que estes ritos, se foram integralmente cumpridos por um ministro que tenha a intenção de fazer o que a Igreja faz, quaisquer que sejam as suas disposições interiores, produzem infalivelmente a vida divina nas almas que não lhes opõem obstáculo. Jamais os teólogos católicos ensinaram que os sacramentos materialmente recebidos sem fé, sem oração, sem arrependimento, possam ser um meio infalível de salvação. É sempre um pecado grave, um sacrilégio, recebê-los em estado de pecado mortal não retratado. Ver SACREMENTOS.
Com maior razão a Igreja condena aqueles que pretenderiam que ela pode instituir cerimônias que produziriam por si mesmas ex opere operato nas almas a graça santificante, a vida divina. Quanto a esperar uma favor temporal como efeito infalível de uma cerimônia qualquer, fosse o santo sacrifício ou um sacramento, porque os ritos teriam sido cumpridos a tal hora, em tal lugar, determinado número de vezes, trata-se da superstição dita de culto supérfluo; ela foi sempre reprovada por todos os teólogos católicos sem exceção.
2° Deixamos de lado a questão de saber se as cerimônias da Igreja obtêm a graça atual ex opere operato. Ver col. 637. Mas afirmamos que elas são por si mesmas eficazes para paralisar e, em certos casos, impedir completamente a ação do demônio. O criador pode agir diretamente sobre as faculdades espirituais, inteligência e vontade, apenas ele, mas os bons e os maus anjos exercem sobre o homem, por meio das operações sensitivas, sobretudo da imaginação, uma grande influência, bem descrita nos Exercícios espirituais de santo Inácio (regras do discernimento dos espíritos para a 1ª e a 2ª semana).
A potência do demônio é entravada pelas cerimônias de duas maneiras:
1. Quando elas são um exorcismo propriamente dito sob forma imperativa, como aquelas do batismo, instituídas pela Igreja para preparar a criança a receber imediatamente e em todo o curso de sua vida a plenitude dos efeitos do sacramento, elas operam no catecúmeno ex opere operato o que elas significam: elas o subtraem ao poder do demônio um pouco como as formalidades da emancipação cumpridas por aquele que detinha todo o poder suprimiam os efeitos da escravidão; assim, elas não devem ser feitas senão uma vez e, salvo o caso de necessidade, imediatamente antes do batismo. A Igreja quer que se as supra o mais cedo possível caso tenham sido omitidas. S. Thomas, Summ. theol., IIIa, q. xxi, a. 3. Ver EXORCISMOS.
2. As orações, bênçãos e consagrações produzem também um efeito ex opere operato (quamvis, diz Suarez, ministri sanctitas et meritum conferre aliquid possit), ver col. 2057, seja diminuindo a potência do demônio em um lugar (igrejas bentas e consagradas, casas bentas), ou sobre uma pessoa, e comunicando a certos objetos o poder de afastá-lo e de paralisar sua potência (água benta, círios bentos), seja chamando os bons anjos para lutar contra ele. São exatamente estes os efeitos que exprimem as fórmulas da bênção da água, a oração da aspersão solene antes da missa de domingo, a da bênção dos apartamentos antes da administração dos sacramentos da eucaristia e da extrema-unção, as duas primeiras orações do ritual da extrema-unção, as orações da bênção dos Ramos, etc. Assim se explicam os efeitos maravilhosos frequentemente obtidos pelos objetos bentos e sobretudo pela água benta contra todas as manifestações diabólicas. Embora esta ação não seja infalível, ela não é menos real, e produzida ex opere operato. Cf. Suarez, De sacramentis, q. LXV, a. 4, disp. XV, sect. IV, n. 10-14.
VI. Simbolismo. — Para conceber uma ideia completa e prática das cerimônias, é preciso conhecer não apenas o que elas são, mas ainda o que elas significam. A Igreja ordena ao padre explicá-las para instruir os fiéis. O simbolismo das cerimônias, como o da arte cristã primitiva, ver t. I, col. 1999, foi a ocasião de exageros e erros. O célebre bispo de Mende, Guilherme Durand, Rationale des divins offices, sobrecarrega de tal modo o espírito com múltiplos sentidos místicos que o fatiga e faz perder de vista as grandes linhas da liturgia.
Dom de Vert, tesoureiro de Cluny no século XVIII, mantém-se no extremo oposto. Ele quer bem permitir que se fale do sentido espiritual e místico das cerimônias, mas esforça-se para provar que elas foram instituídas com um objetivo bem diferente. Citamos alguns exemplos: «A imersão do batismo tem sua origem no costume de lavar as crianças no momento do seu nascimento...; há alguma aparência de que o pano com o qual se envolvia para se enxugar tornou-se logo em vestimenta branca.» Explication simple, littérale et historique des cérémonies de l’Église, 1706, 1707. Dom de Vert foi refutado por Longuet, que se tornou mais tarde bispo de Langres, Du véritable esprit de l’Église dans l’usage des cérémonies ou réfutation du traité de dom de Vert, e também pelo P. Pierre Lebrun, do Oratório, Explication de la messe.
Os Padres conferiram uma grande importância ao simbolismo. O discurso pronunciado na consagração da basílica de Tiro, reproduzido por Eusébio de Cesareia, H.E., X, 4, P. G., t. XX, col. 848-880, é uma prova manifesta disso. Cf. dom Guéranger, Institutions liturgiques, Paris, 1878, t. I, c. IV.
Santo Agostinho protesta mesmo contra aqueles que não gostariam de ver senão fatos nos milagres de Nosso Senhor sem elevar-se às doutrinas que eles simbolizam: «É assemelhar-se a ignorantes que, não sabendo ler, admiram apenas a beleza das letras de um manuscrito.» Serm., XCVII, n. 3, De Scripturis, P. L., t. XXXVIII, col. 592.
Sabe-se que lugar ocupa o simbolismo nas obras de São Gregório Magno, um dos papas que mais se ocuparam da liturgia. Ora, foi na época dos Padres que as cerimónias da missa romana tomaram pouco a pouco a sua forma definitiva. Como acreditar que tenham sido ordenadas por pontífices que se teriam desinteressado de lhes dar ou de lhes conservar uma significação mística? Como não admitir, senão em todos os detalhes, pelo menos no seu conjunto, o simbolismo que nela reconhecem os principais liturgistas da Idade Média? Amalaire, De ecclesiasticis officiis, P. L., t. CV, col. 985 sq.; Rabano Mauro, bispo de Fulda, citado por Honório de Autun, Gemma animae, l. I, c. LXXXV, P. L., t. CLXXII, col. 571-572; Hildeberto de Tours, Liber de expositione missae ; Versus de mysterio missae, P. L., t. CLXXI, col. 1153-1196; Honório de Autun já citado, P. L., t. CLXXII, col. 544-736; Inocêncio III, o mais profundo de todos, De sacro altaris mysterio, P. L., t. CCXVI, col. 763-916.
Testemunha de tradições às quais gosta de se referir, ele escreve: « Não podemos sempre dar a razão de tudo o que os antigos introduziram nos ritos sagrados; creio, todavia, que nesses ritos estão escondidos profundos mistérios. » L. VI, c. IX. O Concílio de Trento não se limita a tornar sua a ideia do grande papa da Idade Média, ele exige que o sentido místico das cerimónias seja explicado aos fiéis pelos pastores. Após ter declarado que elas contêm magnam populi fidelis eruditionem, acrescenta: Mandat sancta synodus pastoribus et singulis curam animarum gerentibus ut frequenter inter missarum celebrationem vel per se vel per alios ex iis que in missa leguntur aliquid exponant atque inter cetera sanctissimi hujus sacrificii mysterium aliquod declarent, diebus presertim dominicis et festis. Sess. XXII, c. VIII.
Para negar o simbolismo das cerimónias, não basta pretender e mostrar que esta ou aquela tem precedentes e origens nas liturgias pagãs. Por essa conta, as mãos juntas e a genuflexão já não seriam sinais de oração porque estavam incontestavelmente nos ritos pagãos. Mas, por terem sido misturadas ao paganismo, certas cerimónias não expressam necessariamente por isso erros pagãos, sendo ou o símbolo natural de verdades religiosas ou restos da tradição primitiva. A Igreja reconhece e toma, onde a encontra, a verdade da qual ela é a infalível guardiã, e julgou, com efeito, vantajoso para o maior bem dos fiéis consagrar, purificando-as de todo erro, certas tradições.
Sendo os ritos essenciais dos sacramentos, sobretudo os da Eucaristia, simbólicos, convinha, para entrar no espírito do seu divino fundador, que as cerimónias eclesiásticas o fossem também. A Igreja continua, assim, o mesmo método de ensino, que é, de resto, o das parábolas: o exemplo precedendo a lição, um facto concreto e sensível despertando a atenção para melhor dispor o espírito a conhecer e a recordar alguma realidade invisível ou uma verdade doutrinal. Método de ensino essencialmente popular e apostólico, tanto mais eficaz quanto mais excita a curiosidade pelo atrativo do mistério, inclina o iniciado a fazer mostra de ciência revelando-a a outros. Tais ouvintes que não prestariam atenção à exposição de uma doutrina religiosa, gostarão de ouvir explicar longamente como um antigo rito ou a misteriosa disposição de uma igreja da Idade Média a simbolizam, não perderão mais a lembrança disso e, na ocasião, encontrarão prazer em ser, eles também, sob esta forma, professores de religião.
Sendo o simbolismo apenas um fim secundário, subordinado ao fim principal da instituição do sacrifício e dos sacramentos, as cerimónias não têm todas necessariamente um objetivo simbólico. O fim principal a atingir pôde e teve várias vezes de excluir uma intenção simbólica; assim, a grande elevação da hóstia e do cálice imediatamente após a consagração introduziu-se na Igreja um pouco antes do século XI, não como símbolo de uma das circunstâncias da Paixão, mas provavelmente como ato de fé na presença real e na transubstanciação, para protestar contra os erros de Berengário de Tours. Ver col. 740.
Embora nem todas as cerimónias tenham sido instituídas com um objetivo simbólico, não há dúvida de que muitas delas têm uma significação particular; para outras, há maior ou menor probabilidade segundo a tradição ser mais ou menos constante, a explicação mais ou menos plausível. Mas, da mesma forma que as grandes linhas e detalhes de arquitetura, necessidades inevitáveis de construção, tais como bases sobrepostas, portas, janelas, colunas, foram interpretados como símbolos pelos Padres e doutores e pela própria Igreja na sua liturgia, nomeadamente no ofício da Dedicação, do mesmo modo cerimónias que não se pode provar terem sido instituídas por uma razão de simbolismo, receberam posteriormente à sua instituição significações místicas.
Este género de interpretação pode ser muito útil, mas sob as condições seguintes, tão essenciais quanto frequentemente esquecidas. Os sentidos místicos das cerimónias devem harmonizar-se entre si e com o simbolismo tradicional para formar um todo seguido, sem sobrecargas fatigantes nem subtilezas refinadas. Devem, além disso, ser apropriados às circunstâncias. Não basta reproduzir a doutrina dos principais liturgistas da Idade Média, é preciso torná-la acessível e proveitosa às almas, trabalho considerável e delicado que eles fizeram para o seu tempo e que os pastores devem empreender para o nosso, como prescreve o Concílio de Trento.
As cerimónias são, no pensamento da Igreja, uma suma ilustrada cujo texto o sacerdote deve comentar e explicar as imagens, como se comenta a Suma de São Tomás nos cursos de teologia. Pelo próprio facto de um comentário convir perfeitamente a uma época, não é absolutamente tudo o que é necessário para outra. Os antigos comentadores ajudam muito a compreender o pensamento do mestre, mas deixam para os sucessores todo o trabalho de assimilação pessoal e de apropriação.
A harmoniosa unidade das explicações místicas não é o que preocupa, antes de tudo, os grandes liturgistas da Idade Média; ela é, por vezes, até quebrada e obscurecida por múltiplas e longas considerações históricas, teológicas e morais. Assim, Inocêncio III, não querendo perder nenhuma ocasião de instruir, não teme interromper a explicação das cerimónias para consagrar 12 capítulos à oração dominical. A forma do ensino era sempre subordinada às necessidades espirituais e ao gosto dos contemporâneos.
Acrescentamos duas observações muito importantes para os espíritos modernos, facilmente prevenidos contra as ideias dos autores da Idade Média e tornados, dia após dia, mais exigentes pelo rigor dos métodos científicos.
1° Não há refinamento, nem contradição em atribuir a uma mesma cerimônia vários significados místicos, se ela for verdadeiramente o seu tipo ou se uma das coisas significadas for o tipo e o complemento da outra. Assim, a comunhão do sacerdote e dos ministros sagrados simboliza, ao mesmo tempo, a ceia, da qual termina de completar a representação, e a refeição dos discípulos de Emaús com Cristo, a quem reconheceram no partir do pão.
2° A necessidade de seguir a ordem histórica faz com que, frequentemente, nas cerimônias da missa, particularmente no cânone, «as palavras significam uma coisa e os sinais representam outra, referindo-se as palavras antes de tudo à consagração da eucaristia e os sinais (especialmente os sinais da cruz e seus números místicos) à história das diversas circunstâncias da paixão.» Innocent III, l. V, c. ii, xiv. Com efeito, se o cânone tivesse como único objetivo representar a paixão, deveria terminar com a imolação mística, pela consagração que recorda, ao renová-la sob uma forma não sangrenta, a imolação do Calvário. Mas, tendo a ceia precedido esta imolação, a Igreja, conservando a ordem histórica, representa apenas no fim do cânone o crucificamento e a morte de Cristo pela pequena elevação, imediatamente seguida pelo Pater e pela mistura da partícula da hóstia ao precioso sangue, símbolo da ressurreição.
Geralmente, não é pelas palavras que o simbolismo é marcado, mas pelos gestos, pela atitude e pelos movimentos dos ministros sagrados, pelo lugar que ocupam no altar e no santuário, pelo seu silêncio ou pela elevação da voz; em uma palavra, por tudo o que fere os sentidos. Innocent III, l. V, c. xv. Isso se explica facilmente. As palavras do cânone são essencialmente destinadas à celebração do santo sacrifício; o simbolismo, portanto, só se harmoniza com elas acidentalmente e por intervalos. Assim, mesmo sem ouvir as palavras, o povo que compreende o sentido das cerimônias pode seguir nelas as principais circunstâncias da história da redenção. É esta história que simboliza também, ao narrá-la, o próprio do tempo do ano litúrgico, desde o Advento, figura do Antigo Testamento, até o último domingo após Pentecostes, cujo evangelho anuncia o supremo advento de Cristo.
Ela é ainda simbolista, em substância, pelo rito essencial do sacrifício e do sacramento da eucaristia. «A forma visível do pão exprime os dois corpos de Cristo, o corpo real que ela exprime e que ela contém, o corpo místico que ela exprime sem o conter. Assim como um só pão é formado de vários grãos de trigo e um só vinho é produzido por vários grãos de uva, assim o corpo místico de Cristo compõe-se de vários membros.» Innocent III, l. IV, c. xxx.
O altar simboliza Cristo. S. Thomas d’Aquin, Sum. theol., III, q. lxxxiii, a. 3, ad 2um; a. 5, ad 9um; dedicação da basílica do Santíssimo Salvador, 9 de novembro, 4ª lição. Sobre a cruz, com efeito, Cristo não é apenas vítima e sacerdote, mas também altar. Por aí se explicam as cerimônias excepcionalmente longas da consagração do altar, os ornamentos do altar, o respeito de que deve estar cercado e os beijos que lhe dá o celebrante. Estes exemplos permitirão fazer alguma ideia do simbolismo das cerimônias.
VI. INFLUÊNCIA DAS CERIMÔNIAS. — As cerimônias exerceram e podem ainda exercer uma grande influência sobre: 1° a arquitetura; 2° a vida de oração; 3° os hábitos religiosos dos povos; 4° a civilização.
Da influência sobre a arquitetura. — Desde o renascimento do paganismo nas letras e nas artes, os arquitetos esqueceram, com muita frequência, que os edifícios não têm como primeiro fim alegrar os olhos daqueles que os contemplam, mas responder às necessidades daqueles que neles habitam. A arquitetura civil, tal como a arquitetura religiosa, deslizou por esta inclinação fatal que resulta em sacrificar o principal ao acessório. Taine o faz notar justamente. Origines de la France contemporaine. As constituições revolucionárias, assim como as constituições civis e religiosas dos tempos modernos, foram concebidas a priori, segundo princípios abstratos de simetria e de igualdade, sem levar em conta a natureza e as necessidades dos homens; fachadas mais ou menos ricas, sempre absolutamente regulares, mas que são uma perpétua causa de incômodo para aqueles cuja vida deveriam proteger e facilitar.
Por isso, quando está bem colocado como deve estar, a arte cristã é um problema cujos principais dados a teologia litúrgica deve fornecer. Ela não fornece, contudo, todos os dados do problema, e isso por duas razões: a primeira, é que a arquitetura em geral e cada estilo em particular têm leis que são como a sua gramática e que é preciso respeitar, sob pena de produzir fealdades e monstruosidades; a segunda, é que a arte é uma linguagem que se recusa a expressar certas verdades muito abstratas ou de ordem demasiado espiritual.
Seria preciso, portanto, criticar o arquiteto que não pede ao teólogo liturgista nem para quais cerimônias e que tipo de fiéis uma igreja se destina, nem o que é desejável que ela simbolize; e também o teólogo que, sob pretexto de simbolismos, impusesse ao arquiteto formas estranhas — como um templo em forma de coração, proporções prejudiciais à solidez ou ao aspecto de solidez — ou a expressão refinada de dogmas demasiado espirituais para serem representados por elementos materiais.
O teólogo tem grandes facilidades para compreender, melhor que qualquer outro, a língua da arte cristã, mas, para ser bem falada, ela exige longos anos de estudos teóricos e práticos que ele deve ter consagrado às ciências sagradas. Ele deve, pois, desconfiar muito de si mesmo, não acreditar facilmente que se tornou artista. Compreender uma língua não basta para falá-la bem, com muito mais razão para escrevê-la e compor belas obras.
Quando a paz foi dada à Igreja, foi preciso construir, para conter toda a multidão dos fiéis, templos que não fossem demasiado indignos das augustas cerimônias da liturgia, que delas inspirassem o respeito e facilitassem a inteligência, assim como as próprias cerimônias inspiram o respeito e facilitam a inteligência dos ritos essenciais do sacrifício e dos sacramentos. Portanto, qualquer que seja a solução dada ao problema da origem dos templos católicos, não se pode negar que eles se assemelharam mais às basílicas profanas, construídas para reunir muito frequentemente multidões, do que aos templos pagãos, destinados apenas de longe em longe aos iniciados. H. Marucchi, Les basiliques et églises de Rome, Paris, Rome, 1902, p. 14-32.
A. Baumstark constatou como o desenvolvimento litúrgico da missa, preparação e modo de apresentação das oferendas, havia levado à modificação arquitetônica da basílica primitiva. Esta, que tinha apenas um altar em uma única abside, transformou-se em igreja de tripla abside para satisfazer às necessidades litúrgicas, Oriens christianus, Roma, 1903, t. 17, p. 229-233.
Os esforços da arte cristã, tentados primeiramente de modo tímido nas catacumbas, cobriram a terra de admiráveis monumentos: basílicas latinas, bizantinas (Santa Sofia de Constantinopla), lombardas (Santo Ambrósio de Milão), romano-bizantinas (Saint-Front de Périgueux, catedral de Angoulême, Saint-Hilaire de Poitiers), românicas (Notre-Dame de Poitiers, Saint-Benoît-sur-Loire, Saint-Etienne de Caen, catedral de Cantuária, igrejas de Saint-Géréon, dos Santos Apóstolos em Colônia), góticas de todo estilo, desde o estilo Plantageneta com abóbadas domicais (Saint-Serge d’Angers, nave de Sainte-Radegonde e catedral de Poitiers), o estilo da Ilha de França (Sainte-Chapelle, catedrais de Paris, Chartres, Amiens, Le Mans), até o estilo Tudor (capela de São Jorge de Windsor).
Bastava ser um hábil arquiteto para construir bem um templo pagão; mas, para ser verdadeiramente mestre na arte de construir, mobiliar e decorar igrejas, é preciso conhecer, além das regras da arquitetura, o missal, o ritual, o pontifical, o cerimonial dos bispos e o que eles pressupõem de teologia. Os edifícios sagrados estão para as cerimônias assim como o vestuário está para o corpo; as cerimônias, portanto, não devem ter de se adaptar a eles; eles devem, ao contrário, ser construídos para convir a elas. Cabe ao arquiteto prevê-las todas, e em todas as circunstâncias de tempo e de pessoas onde devam realizar-se.
Uma catedral deve reconhecer-se pelas vastas dimensões do coro, para ali permitir as prostrações dos ordenandos, pela largura e pela profundidade dos transeptos (Chartres, Reims), para que as sagrações possam ser vistas por um maior número de fiéis. As grandes igrejas paroquiais são tanto mais apropriadas à sua destinação quanto, da grande nave muito espaçosa, menos se pode ver o que se passa nas naves laterais e nas capelas radiantes, pois as funções mais opostas do santo ministério devem poder ali realizar-se simultaneamente: batismos, enterros, casamentos, catecismos, confissões.
As igrejas que foram edificadas nos séculos de fé são tão bem adaptadas às cerimônias litúrgicas, sua razão de ser, que W. Pugin, o ilustre restaurador da arte medieval na Inglaterra no século XIX, fazia questão de provar pela sua própria arquitetura que as antigas catedrais só puderam ser construídas por católicos para as cerimônias da Igreja. O cumprimento perfeito dessas cerimônias era o primeiro ideal do arquiteto. Na arquitetura, na decoração e no mobiliário das igrejas, tudo o que esconde, mutila, suprime uma cerimônia simbólica, ou uma marca de respeito, mutila ou suprime uma explicação ilustrada do Credo, diminui o respeito e a inteligência de uma coisa sagrada. A arte cristã pertence, pois, à teologia pelo vínculo estreito que a torna tributária das cerimônias litúrgicas e do culto divino. Convém tanto menos esquecê-lo quanto elas atraíram e ainda atraem para a unidade da Igreja nobres almas, a elite do povo inglês. Cf. Thureau-Dangin, Le mouvement d’Oxford.
2° Sobre a vida de oração. — A oração mental, mais perfeita que a oração vocal, é necessária à perfeição cristã. Ora, a liturgia e as cerimônias religiosas são, segundo o julgamento de dom Guéranger, um dos melhores meios de se preparar para a oração mental. «Para o homem de contemplação, a oração litúrgica é ora o princípio, ora o resultado das visitas do Senhor.» Année liturgique, prefácio geral, p. XIV.
Esta preparação é necessária, e até a única possível para as crianças, para os alunos nas casas de educação e, em geral, para todos os cristãos que não têm nem a idade, nem o tempo de serem formados na oração mental por um ensino didático no recolhimento e na solidão de sérios retiros. Mas, mesmo para as almas mais favorecidas, a importância das cerimônias e das orações litúrgicas é tão grande que o ilustre autor místico, Alvarez de Paz, dedica-lhes mais de 10 capítulos na sua grande obra, De inquisitione pacis sive studio orationis, por exemplo os c. IV-VI sobre as horas canônicas.
Não somente santo Inácio as recomenda expressamente àquele que acaba de terminar os Exercícios espirituais, regulae aliquot ut cum orthodoxa ecclesia sentiamus, mas durante o próprio retiro, aconselha-o a habitar nas proximidades de uma igreja onde possa ir facilmente a cada dia à missa, às vésperas e até às matinas, como acrescentou ao texto primitivo, ainda durante a vida de santo Inácio, o texto dos Exercícios espirituais usado há mais de três séculos. Dá como razão para não cantar os ofícios nas capelas do seu Instituto não a sua pouca utilidade para a vida espiritual, mas, além dos trabalhos e dos frequentes deslocamentos necessários pelos ministérios apostólicos, a facilidade de ir ouvi-los alhures, quandoquidem illis quos ad ea audienda devotio moverit aliunde suppetet ut sibi ipsis satisfaciant. Constit., part. VI, c. III, § 848. Vellia com o maior cuidado tudo o que toca ao culto divino e impôs aos seus sacerdotes a observação exata, sem lentidão e sem pressa, de todas as cerimônias da missa romana.
É preciso ler o memorial do bem-aventurado Pedro Lefèvre, que santo Inácio recomendava entre todos como um mestre na arte de formar as almas para a vida interior, para compreender até que ponto a vida litúrgica da Igreja o ajudava a unir-se a Deus, o quanto fazia questão de inspirar-se nela, testemunha o seu vivo desejo de obter o espírito das orações solenes do dia do Senhor: Venit mihi in mentem speciale desiderium, quod Dominus noster faceret me sentire illud Gloriain excelsis Deo dominicale et Kyrieeleison, dando mihi spiritum convenientem diei dominicali, id est ipsius Domini. Memoriale B. Petri Fabri, Paris, 1873, p. 87.
Uma das mais belas obras de são Francisco de Borja, suas meditações, tem por objeto os domingos e festas do ano litúrgico, especialmente cada evangelho; a oração para obter a graça particular de cada meditação é a oração do dia. Esta influência das cerimônias religiosas sobre a vida espiritual é fácil de compreender. A alma, não formando aqui embaixo senão um único ser com o corpo, deve expressar seus atos interiores de religião por cerimônias exteriores e, ao mesmo tempo, encontrar nelas um meio de elevar-se à vida interior. Nossa atividade espiritual no estado de união da alma e do corpo, não podendo deixar de ser precedida pelo exercício da vida sensitiva e acompanhada de imagens, deve ressentir sempre profundamente a sua influência.
Se a inteligência e a vontade pudessem aqui na terra bastar a si mesmas, sua separação absoluta da imaginação e dos sentidos seria o meio perfeito de se recolher para viver em Deus; sendo essa independência impossível, é necessário fazer da vida dos sentidos um meio para que ela não se torne um obstáculo. Ora, as cerimônias litúrgicas, particularmente aquelas que são celebradas com cantos, podem precisamente definir-se: a atividade de todo homem, espírito e sentidos, em Deus. Elas são, portanto, de todos os meios exteriores, o mais poderoso para ajudar a alma a elevar-se até as realidades invisíveis sobrenaturais, sendo um mundo novo que recorda e simboliza as misericórdias e as promessas do redentor, assim como a terra e o céu narram a glória do criador.
Querendo ou não, a imaginação conserva viva, muitas vezes de modo demasiado imperioso, a representação do mundo onde vivemos, tanto mais viva quanto mais frequentemente vimos o mesmo espetáculo, ouvimos as mesmas palavras e os mesmos cantos. É por isso que a assistência regular à missa cantada nos domingos e festas prepara tão bem os alunos nas casas de educação, os fiéis nas paróquias, para acompanhar cada dia com piedade as cerimônias da missa rezada. Durante os retiros, é um fato de experiência, a salmodia, seja do grande ofício, seja do pequeno ofício da santa Virgem, é um dos bons meios de favorecer o recolhimento. Os religiosos mesmos, no silêncio de suas celas, são tanto menos impedidos de se recolher quanto sua imaginação foi, desde a infância, mais profundamente impregnada de religião pelas cerimônias litúrgicas, e pode mais facilmente, nas horas de lassidão e de tristeza, reviver as consolações do passado pela lembrança dos cantos e dos ritos sagrados, dos quais elas são como notas harmônicas de ordem moral.
3° Sobre os hábitos religiosos. — Observou-se que há coincidência entre a decadência da piedade e a da parte tomada pelos fiéis nas cerimônias religiosas. Quando os fiéis não se associam ao culto, nomeadamente durante a celebração solene do santo sacrifício, falta algo à homenagem social, e essa homenagem torna-se tanto mais incompleta quanto, a menos de circunstâncias e graças excepcionais, os povos que, no domingo, não tomam uma parte ativa nos ofícios litúrgicos, estão mais expostos ao tédio, à dissipação e, consequentemente, à tentação de não mais voltar à igreja. Essa assistência ativa aos ofícios públicos contribuiu maravilhosamente para conservar intactas a fé, a língua, a nacionalidade dos canadenses franceses emigrados para os Estados Unidos aos milhares, e isso em meio a uma sociedade onde milhões de homens que chegaram católicos terminaram por perder todo culto e toda crença. Para eles, a igreja e, na igreja, as cerimônias são o grande vínculo social. Cf. Hamon, Le Canadien français dans la Nouvelle-Angleterre, em Études religieuses, t. II, p. 101-104.
Os ofícios públicos e as cerimônias religiosas na igreja paroquial são um dos meios mais eficazes para conservar o espírito cristão e as práticas piedosas nas paróquias antigas e para estabelecê-las nas paróquias novas. Nos patronatos e nos colégios, as cerimônias litúrgicas são um dos principais meios de educação cristã. É tanto mais necessário utilizá-las quanto se prevê que, mais tarde, a fé estará mais exposta, a frequência da igreja mais difícil e mais rara.
4° Sobre a civilização. — As cerimônias eclesiásticas exercem também sobre a multidão uma grande atração. Elas são, nos domingos e festas, um atrativo para as reuniões piedosas; tornam mais fácil a prática de uma religião que fala aos sentidos; inspiram, com o respeito a Deus, o respeito às autoridades religiosas e civis, aos lugares consagrados e às coisas santas, aos fiéis e a todos os homens uns para os outros. Incensamentos, reverências, saudações, beijos no altar, no livro dos Evangelhos, na cruz, nas relíquias, são outras tantas lições de respeito.
Basta ler no pontifical as cerimônias do batismo dos catecúmenos, da reconciliação dos penitentes, da bênção do cavaleiro, da sagração dos imperadores e dos reis, para compreender que lições se desprendiam outrora para os povos: humildade diante de Deus e diante dos homens, preço da salvação da alma e do corpo consagrado membro do corpo místico de Cristo, horror da injustiça e necessidade da expiação, amor desinteressado pelos pequenos e pelos fracos até o sacrifício da própria vida para defendê-los, sentimento profundo de que toda autoridade, mesmo a mais alta, vem de Deus, será julgada por Ele, é um serviço e uma dependência, e não somente uma superioridade e uma honra.
Os principais liturgistas da Idade Média, do século IX ao século XIII: Amalaire, De ecclesiasticis officiis, P. L., t. CV, col. 985-1252; Hildebert de Tours, Versus de mysterio missæ, P. L., t. CLXXI, col. 1177-1196; Honorius d’Autun, Gemma animæ, de antiquo ritu missarum, P. L., t. CLXXII, col. 541-738; Rupert de Tuy, De divinis officiis per anni circulum, P. L., t. CLXX, col. 1-332; Innocent III, De sacro altaris mysterio, P. L., t. CCXVII, col. 763-916.
Esta obra, a mais preciosa, a mais piedosa e a mais profunda de todas, foi muito bem traduzida pelo abade Couren, in-12, Paris, 1875. Ver também S. Thomas, Sum. theol., IIIa, q. LXXXIII, a. 1-5; Suarez, De sacramentis, disp. XV, De ceremoniis sacramentorum in genere.
Les Institutions liturgiques de dom Guéranger, 3 in-8°, Paris, 1840-1841; 2e édit., 4 in-8°, Paris, 1878-1885, iniciam no conhecimento das cerimônias litúrgicas, de sua história e dos liturgistas de todos os séculos. L’Année liturgique, do mesmo autor, 1841-1904, é uma das obras melhores para fazer compreender e amar as cerimônias da Igreja. Dom Cabrol a completou e dela, de certa forma, deu a introdução ao escrever: Le livre de la prière antique, Paris, 1900.
Mgr Duchesne, Origines du culte chrétien, Paris, 1889; diversos artigos liturgia, em curso de publicação. As obras de arqueologia são fontes de informação preciosa.
Le livre du chrétien, Tours, contém a explicação substancial da liturgia e muitas cerimônias: batismo, crisma, extrema-unção, ofício dos funerais, todas as orações do ritual romano para a recomendação da alma. R. Compaine.
Autor original: R. Compaing
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