CERDÃO

CERDÃO

CERDON. Herege da primeira metade do século II; nascido na Síria, onde deve ter conhecido as doutrinas de Simão, o Mago, e de seus discípulos; veio a Roma sob o pontificado de Higino, para o fim do reinado de Adriano ou o início do de Antonino. S. Irénée, Cont. her., I, 27, 1; III, 4, 3, P. G., t. VII, col. 687, 856; S. Épiphane, Her., XLI, 1, P. G., t. XLI, col. 692.

Roma era então o centro para onde acorriam de toda parte os inovadores. Que ensinamento trazia Cerdon para lá? Que papel preciso ele ali desempenhou? Fundou ele uma seita a exemplo de tantas outras? Estamos reduzidos a conjeturas. Santo Ireneu descreve-o como um espírito versátil, inquieto, hesitante, passando da fé ao erro e do erro à fé, ora solicitando por meio da penitência o seu reingresso na Igreja, ora fazendo-se excluir da comunidade cristã por suas opiniões heterodoxas, depois reiterando sua penitência, recaindo na heresia e finalmente excomungado para sempre. Cont. her., III, 4, 3, P. G., t. VII, col. 857.

Mas nem Ireneu, nem o autor dos Philosophoumena, nem o pseudo-Tertuliano afirmam que ele tenha fundado uma seita e lhe tenha dado o seu nome. Só se fala dos cerdonianos em santo Epifânio, Her., XLI, P. G., t. XLI, col. 692, no Predestinatus, 23, P. L., t. LIII, col. 594, e em santo Agostinho, Her., 21, P. L., t. XLII, col. 29.

O que se pode certificar é que Cerdon foi o mestre de Marcião. O autor dos Philosophoumena chama-o de seu διδάσκαλος, X, XI, 19, édit. Cruice, Paris, 1860, p. 501; Tertuliano, seu informator scandali, Adv. Marc., I, 2, P. L., t. II, col. 249; Eusébio, autor da heresia marcionita, H. E., IV, 10, P. G., t. XX, col. 328.

Mas é tudo. Em parte alguma é dito que ele tenha composto qualquer obra e nada prova que aqueles que relataram certos pontos de sua doutrina tenham extraído suas informações de fontes diferentes daquelas que lhes fornecia o marcionismo; do ensino do discípulo inferiu-se simplesmente o do mestre, pois o verdadeiro organizador do sistema foi Marcião, espírito muito mais poderoso e mais original.

Vislumbra-se, contudo, que, sofrendo influências diversas, Cerdon aliou o dualismo, o docetismo e o antinomismo para chegar, ao fim das contas, à imoralidade prática. Segundo Ireneu, ele recusava reconhecer o Pai de Jesus Cristo no Deus da Lei e dos Profetas; a este, ele chamava o Deus justo em oposição ao Deus bom, que lhe era superior. Cont. her., I, 27, n. 1, P. G., t. VII, col. 687.

Segundo os Philosophoumena, que falam da doutrina de Cerdon e de Marcião em geral sem especificar as diferenças que podiam distingui-los, trata-se de uma primeira vez de dois princípios, cujo segundo porta o nome de Deus mau, VII, XI, 29, p. 370, e de outra vez de três, o bom, o justo e a matéria, X, XI, 19, p. 501. O Deus mau e o Deus justo formam um só e mesmo personagem, que é o demiurgo. Com a matéria, esse demiurgo criou seres à sua imagem, de uma maneira imperfeita e irracional, οὐ καλῶς ἀλλ’ ἀλόγως. Ibid., p. 501. O Deus bom teve de intervir; é por isso que ele enviou Cristo à terra para salvar as almas. Mas este Cristo não teve do homem senão uma vã aparência; não nasceu de uma virgem e não sofreu: isto recorda o docetismo. Somente as almas devem ressuscitar, não a carne. O matrimônio é condenado como uma fonte de corrupção. O sistema desemboca em um cinismo afrontoso, κυνικωτέρῳ βίῳ, ibid., p. 502, e isso em ódio ao criador, o que é o antinomismo.

A estes traços gerais, o autor da heresiologia, que faz seguimento ao tratado das Prescrições de Tertuliano, acrescenta as particularidades seguintes: Cerdon rejeitava todo o Antigo Testamento; no Novo Testamento, repelia os Atos, o Apocalipse, os Evangelhos, à exceção do de são Lucas, do qual não admitia senão uma parte cuidadosamente expurgada. Dentre as Epístolas, não se fala nem da de são Judas ou de são Tiago, nem das de são Pedro ou de são João, mas apenas das de são Paulo, das quais aceitava umas em certas partes, das quais rejeitava outras. Prescript., 51, P. L., t. II, col. 70.

Todos esses detalhes, verdadeiros para Marcião, podem, segundo toda a verossimilhança, igualmente convir a Cerdon. O Predestinatus, testemunha algo suspeita, assinala como adversário de Cerdon um santo Apolônio, bispo de Corinto, que o teria condenado com todo um sínodo do Oriente, Her., 23, P. L., t. LIII, col. 594; a história canônica da Igreja não conhece nem esse concílio, nem essa condenação.

S. Irénée, Cont. her., I, 27; III, 4, P. G., t. VII, col. 687, 856; Philosophoumena, VII, XI, 29; X, XI, 19, édit. Cruice, Paris, 1860, pp. 367, 501; P. G., t. XVI, col. 3323, 3435; Tertullien, Adv. Marc., P. L., t. II, col. 249; pseudo-Tertullien, Prescript., 51, P. L., t. II, col. 70; S. Épiphane, Her., XLI, P. G., t. XLI, col. 692-696; S. Philastrius, Her., 44, P. L., t. XII, col. 1160; S. Augustin, Her., 21, P. L., t. XLII, col. 29; Predestinatus, 23, P. L., t. LIII, col. 594; Théodoret, Heret. fabul., I, 24, P. G., t. LXXXIII, col. 373; Massuet, Dissertationes, diss. I, a. 3, P. G., t. VII, col. 151; Tillemont, Mémoires, Paris, 1701-1709, t. II, p. 274; Duchesne, Les origines chrétiennes (lith.), p. 167-168; Smith et Wace, Dictionary of christian Biography; Kirchenlexikon, biographies, Paris, 1885; U. Chevalier, Répertoire des sources historiques. Bio-bibliographie, 2e édit., col. 838.

Autor original: G. Bareille

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