CECCO (Stabili Francesco dito) d’Ascoli, astrólogo, queimado como herege em Florença, em 1327. Os erros abundam nas notas que lhe dedicam a maioria dos historiadores. Fazem-no nascer por volta de 1257; ora, parece que é preciso rejuvenescê-lo consideravelmente. Cf. F. Bariola, Cecco d’Ascoli e l’Acerba, Florença, 1879, p. 5-6, 34-37.
Pretendeu-se que ele foi, em Avinhão, o médico do papa João XXII. Já este fato havia sido posto em dúvida por Marini, Archiatri pontifici, Roma, 1784, t. I, p. 56; cf. V. Le Clerc em Histoire littéraire de la France, Paris, 1862, t. XXIV, p. 560. F. Bariola, op. cit., p. 10, 15-16, demonstrou que provavelmente Cecco nunca foi à corte de João XXII e não foi médico. Sem mencionar as outras inexatidões de seus biógrafos, digamos ainda que, após sua morte, a lenda deu livre curso ao seu nome e que lhe conferiu, em particular, uma reputação de mágico muito habilidoso.
Eis os principais eventos incontestáveis de sua vida. Cecco professou a astrologia em Bolonha, de 1322 a 1324. Acusado perante o inquisidor desta cidade, foi condenado a não mais ensinar astrologia em Bolonha nem alhures. Em 1327, encontramo-lo em Florença, na qualidade de astrólogo, junto ao duque Carlos da Calábria. Ele comparece perante o inquisidor da Toscana, o franciscano Accursio, e, condenado como relapso, é entregue ao braço secular, que o faz perecer pelo fogo, no dia 15, ou 16, ou 20 de setembro. Cf. F. Bariola, op. cit., p. 22, nota 1.
Cecco havia escrito um comentário latino sobre o tratado da Esfera de John Holywood (Joannes de Sacrobosco), e um poema italiano, L’Acerba, ensaio de enciclopédia destituído de qualquer valor literário e, salvo alguns detalhes interessantes, cf. F. Bariola, op. cit., p. 118-119, de importância científica, apesar das afirmações do demasiado famoso Libri, Histoire des sciences mathématiques en Italie, Paris, 1838, t. II, p. 191-200, 525-526. Sobre os outros escritos de Cecco, cf. Bariola, op. cit., p. 56-60.
Sobre as doutrinas que valeram a Cecco d’Ascoli ser incluído entre os hereges, a sentença do inquisidor de Bolonha, o dominicano Lamberto del Cordoglio (de Cingulo), não é explícita; ela apenas declara que Cecco falou mal a respeito da fé católica, e que será privado de seus livros de astrologia, de seu grau de mestre e do direito de ensinar. A sentença inquisitorial de 1327 é, ao contrário, bem precisa. Como observa H. C. Lea, A history of the Inquisition of the middle ages, Nova York, 1888, t. III, p. 439; trad. S. Reinach, Paris, 1902, t. III, p. 529, a astrologia levava à negação do livre-arbítrio: «O princípio mesmo dessa pretendida ciência era a influência que exercia sobre a sorte e o caráter dos homens a posição dos signos zodiacais e dos astros na hora do nascimento; ora, não havia dialética suficientemente engenhosa para provar que isso não fosse, na prática, recusar a Deus a onipotência e ao homem a responsabilidade.» É precisamente a negação da liberdade humana que é reprovada a Cecco, como uma consequência inelutável de suas doutrinas.
Sobretudo é incriminada a aplicação que ele fez de suas teorias a Jesus Cristo e ao Anticristo. O horóscopo de Jesus teria estabelecido a necessidade de seu nascimento em uma manjedoura, de sua pobreza, de sua profunda sabedoria, de sua paixão e de sua morte na cruz. Quanto ao Anticristo, a observação dos astros demonstrava que ele nasceria de uma virgem, 2000 anos após Cristo, e que ele viria, ele, «como um valente soldado acompanhado de nobres guerreiros e não como um covarde acompanhado de covardes.»
Um compatriota de Cecco, o jesuíta Appiani, em Bernini, Storia di tutte le eresie, Roma, 1707, t. II, p. 450 sq.; cf. Niceron, Mémoires pour servir à l’histoire des hommes illustres, Paris, 1784, t. XXX, p. 166-185; Mazzuchelli, Gli scrittori d’Italia, Brescia, 1753, t. II, p. 1151-1156, e outros, na sua esteira, defenderam a ortodoxia do infeliz astrólogo; seus escritos, dizem eles, não encerram de modo algum os erros que lhe imputaram, ele acreditou na astrologia como todos os homens de seu tempo, e sua morte deve ser atribuída ao ódio e ao ciúme que lhe haviam atraído sua ciência e o ímpeto de seu caráter. É verdade que Cecco teve inimigos poderosos, que todos os seus contemporâneos acreditavam na astrologia, cf. Bariola, op. cit., p. 32-34, e que os erros que lhe são atribuídos, na sentença de frate Accursio, não se reencontram facilmente em suas obras (essas obras foram frequentemente impressas sem protesto da Igreja); em particular, não se encontram nelas as afirmações, graves entre todas, sobre Jesus Cristo. Mas importa observar que Cecco foi julgado não apenas por seus escritos, mas também por suas palavras, e que, segundo a sentença, ele confessou ter proferido os propósitos que se diziam seus. Cf. G. Boffito, Perché fu condannato al fuoco l’astrologo Cecco d’Ascoli? em Studi e documenti di storia e diritto, Roma, 1899, t. XX.
I. Fontes. — O comentário de Cecco sobre o tratado de John Holywood está inserido na edição da Sphæra mundi, Veneza, 1499. Sobre as antigas edições de L’Acerba, cf. Hain, Repertorium bibliographicum, Stuttgart, 1827, t. II, n. 4824-4832, e Coppinger, Supplement to Hain’s, Repertorium, Londres, 1895, t. I, n. 4825-4834; t. II, n. 1552-1553. A sentença inquisitorial de Bolonha está em Tiraboschi, Storia della letteratura italiana, Florença, 1804, t. V, p. 204, e em Bariola, op. cit., p. 10, nota; a de Florença lê-se, por fragmentos, em Cantu, Les hérétiques d’Italie, t. I, Les précurseurs de la Réforme, trad. Digard e Marlin, Paris, 1869, p. 292-295, e em Lea, op. cit., t. III, p. 655-657 (não reproduzida na tradução francesa), e, na íntegra, segundo um outro manuscrito, em I. von Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, Munique, 1890, t. I, p. 585-597.
II. Trabalhos. — F. Palermo, Manoscritti palatini di Firenze, Florença, 1854, t. 1, p. 4-271; P. Fanfani, Cecco d’Ascoli, racconto storico del secolo XIV, 2ª ed., Florença, 1870; Lea, op. cit., t. 1, p. 441-444; trad. S. Reinach, t. II, p. 532-536. Ver, além disso, os trabalhos indicados no curso deste artigo, sobretudo o artigo de Boffito e o opúsculo de Bariola, e Ul. Chevalier, Répertoire des sources historiques du moyen âge. Bio-bibliographie, 2ª ed., col. 825.
Autor original: F. Vernet
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