CASSIANO (JULES)

CASSIANO (JULES)

2. CASSIEN Jules, Iulius Cassianus, herege do século II, desconhecido no Ocidente, pois nem Santo Irineu, em Lyon, nem Santo Hipólito ou o autor dos Philosophumena, em Roma, nem Tertuliano, em Cartago, o mencionam entre os hereges de seu tempo; mas assinalado no Oriente, não apenas como o chefe dos docetas, τῆς δοκήσεως εἰσηγητής, por Clemente de Alexandria, Strom., III, 13, P. G., t. VIII, col. 1192, mas ainda como o mais violento doutrinário do encratismo pelo mesmo Clemente e por São Jerônimo, que o chama encratitarum vel acerrimus heresiarches. In Gal., l. III, c. vi, 8, P. L., t. XXVI, col. 431.

Viveu verossimilmente em Alexandria ou nas redondezas; mas ignora-se a data exata de sua morte, assim como a de seu nascimento. Compartilhou o erro doceta do judeu alexandrino Cerinto a ponto de passar, em sua época, pelo chefe do docetismo. Considerava o corpo de Jesus como um puro fantasma, contrariamente ao ensinamento tão formal de Santo Inácio de Antioquia e de São Policarpo de Esmirna.

Além disso, entregou-se ao encratismo e compôs, para sustentar suas tendências de ascetismo absoluto, os Ἐξηγητικά, tratado em vários livros, Clemente de Alexandria, Strom., I, 21, P. G., t. VIII, col. 820, dos quais a Χρονογραφία, utilizada por Clemente, segundo Eusébio, H. E., VI, 13, P. G., t. XX, col. 548, poderia muito bem ser apenas uma parte, S. Jerônimo, De vir. ill., 38, P. L., t. XXIII, col. 653; compôs igualmente um Περὶ ἐγκρατείας ou Περὶ εὐνουχίας, do qual Clemente de Alexandria cita curtas passagens. Strom., III, 13, P. G., t. VIII, col. 1192.

Sendo essas obras perdidas, é difícil formar uma ideia de sua exegese assim como do fundo de seu sistema; só se pode vislumbrá-lo. Certas passagens de São Paulo sobre a excelência da virgindade e outras sobre a εὐνουχία espiritual devem ter-lhe fornecido argumentos; mas ele as interpretava mal ou as exagerava em um sentido oposto ao do ensinamento tradicional. É assim que o texto: «Aquele que semeia na sua carne não colherá da sua carne senão a corrupção», Gal., VI, 8, servia-lhe para condenar todo comércio carnal, incluindo o do matrimônio, como uma fonte de corrupção reprovada pelo apóstolo. S. Jerônimo, In Gal., l. III, c. vi, 8, P. L., t. XXVI, col. 481.

Seu evangelho era o Evangelho κατ’ Αἰγυπτίους, verdadeiro código de ascetismo. Clemente, Strom., III, 13, P. G., t. VIII, col. 1193. Nesse evangelho, com efeito, atribuía-se a Jesus esta linguagem: «Vim para suprimir as obras da mulher.» Encontravam-se ali proposições do gênero destas: «O tempo virá em que a veste da vergonha, o corpo, será calcado aos pés» e onde «não haverá mais macho nem fêmea». Cf. Nestle, N. T. supplementum, Leipzig, 1896, p. 72 sq.

É que, por um lado, ele situava, com certos gnósticos, o mal na matéria, e que, por outro lado, acreditava na pré-existência das almas, pensamento por demais platônico, como o qualifica Clemente de Alexandria, πλατωνικώτερον, Strom., III, 13, P. G., t. VIII, col. 1198, e que Orígenes deveria abraçar. A seus olhos, a alma é divina em seu princípio; mas, efeminada pelo ardor de seus desejos, ela só vem à terra para fazer obra de geração e de corrupção. Ibid. Assim, em conformidade com essa visão, pretendia que as túnicas de pele com as quais se vestiram Adão e Eva após a queda não eram outra coisa senão o corpo; interpretação rejeitada por Clemente de Alexandria. Strom., III, 14, P. G., t. VIII, col. 1196.

Reprovar assim toda relação sexual como um crime, tratar o matrimônio e a procriação dos filhos como invenção diabólica, impor a continência absoluta como o dever por excelência e a única fonte da salvação era ultrapassar de muito o Evangelho e o ensinamento da Igreja; era colocar os conselhos evangélicos no mesmo nível que os preceitos e fazer do heroísmo a regra ordinária. Tais excessos de rigorismo não eram sem perigo e, com demasiada frequência, só serviam para dissimular a imoralidade daqueles que os defendiam. : Clemente de Alexandria, Strom., III, 13, P. G., t. VIII, col. 1193; S. Jerônimo, De vir. ill., 38, P. L., t. XXIII, col. 653; Harnack, Geschichte der altchristlichen Litteratur, Leipzig, 1893, t. I, p. 201; Leipzig, 1897, t. II, p. 535; Zahn, Geschichte des Neutestamentlichen Kanons, Leipzig, 1888-1892, t. I, p. 632; Smith et Wace, Dictionary of christian Biography, Londres, 1877-1887, art. Cassianus; Kirchenlexikon, t. III, col. 2025-2026; P. Batiffol, La littérature grecque, Paris, 1897, p. 82-83; U. Chevalier, Répertoire des sources historiques. Bio-bibliographie, col. 400.

Autor original: G. Bareille

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