CASSIEN Jean. — I. Vida. II. Obras. III. Doutrina.
I. Vida. — João Cassiano, o legislador e o pintor da vida monástica no sul da Gália, nasceu, provavelmente por volta do ano 360, de uma família piedosa e rica; sua pátria é incerta e controversa; fazem-no nascer ordinariamente, seja na Cítia, Gennade, De scriptoribus eccl., c. Lxi, P. L., t. xlix, col. 1094-1095; Tillemont, Mém. pour servir à l’hist. eccl. des six premiers siècles, Paris, 1709, t. xiv, p. 740; seja na Gália meridional, Noris, Historia pelagiana, l. iii, c. 1, Florença, 1673, p. 81; Wiggers, Augustinismus und Pelagianismus, Hamburgo, 1833, t. i, p. 10; Paucker, Die Latinität des Joh. Cass., em Romanische Forschungen, Erlangen, 1886, t. ii, p. 891; Petschenig, Corpus script. eccl. Lat., Viena, 1888, t. xvii, prolegomena, p. ii sq.; Bardenhewer, Les Pères de l’Eglise, trad. franc., Paris, 1899, t. ii, p. 465; Grützmacher, em Realencyclopädie, 3e édit., Leipzig, 1897, t. x, p. 746; e, de uma forma mais precisa, na Provença, nas costas do Mediterrâneo. Luc. Holstenius, Pref. ad regulas monachorum, c. iii; Ampère, Hist. littéraire de la France, 2e édit., Paris, 1867, t. i, p. 422. Em nossos dias, A. Hoch, Theol. Quartalschrift, 1900, p. 43-69, e S. Merkle, ibid., 1900, p. 419-441, localizaram o berço de João Cassiano, aquele na Síria, este na Bulgária, nas planícies da Dobruja. Bardenhewer, op. cit., 2e édit. franç., Paris, 1904, t. i, p. 465, adere a esta última hipótese.
Não se sabe ao certo onde Cassiano havia estudado. O que é certo é que sua educação foi muito cuidada e que ele se familiarizou desde a infância com a antiguidade clássica; ele se queixará mais tarde, Coll., xiv, 12, P. L., t. xlix, col. 976-979, de que, em meio às vigílias sagradas, entre as melodias dos Salmos, quando deseja elevar sua alma a Deus na oração, as histórias dos antigos heróis e os relatos dos poetas lhe retornam à memória e assombram sua imaginação.
Consagrou-se, ainda jovem, ao estado monástico em um claustro de Belém, com um certo Germano, seu amigo e seu mais velho por alguns anos. Por volta de 385, o desejo de avançar na ciência da perfeição e na virtude levou a ambos, como a São Basílio antes deles, aos desertos do Egito, verdadeira pátria do cenobitismo cristão. No momento da partida, seus irmãos de Belém, temendo pelos dois peregrinos as seduções da Tebaida, fizeram-nos jurar solenemente que retornariam à Palestina o mais rápido possível. Coll., xvii, 2, P. L., t. xlix, col. 1047. Cassiano e Germano não deixaram de embrenhar-se, por sete anos, de desertos em desertos, sempre acolhidos com cordialidade pelos solitários, sempre atraídos mais adiante pela fama de algum santo personagem, de algum convento célebre. Depois, após terem ido a Belém solicitar a prorrogação de sua licença, apressaram-se em retornar ao Egito, e lá passaram cerca de três anos. Talvez tenham sido expulsos pela explosão da querela do patriarca de Alexandria, Teófilo, e dos monges antropomorfistas do deserto de Scete. Coll., x, 2, P. L., t. xlix, col. 821-823.
No início do século V, em 401, encontram-se os dois amigos em Constantinopla, onde Cassiano torna-se aluno e impregna-se do espírito de São Crisóstomo, que o ordena diácono. Em 405, após o segundo banimento de seu mestre, Cassiano irá, em nome do clero fiel de Constantinopla, a Roma, para solicitar a proteção do papa São Inocêncio I sobre o arcebispo proscrito. É em Roma, ao que parece, que ele foi ordenado sacerdote. Cassiano, sua missão cumprida, continuou a residir lá, ou quis ver novamente o Oriente? Impossível saber. Quais razões, de ordem política ou de ordem pessoal, decidiram-no depois a fixar-se na Provença? Outro mistério. O certo é que, por volta de 415, o nome de Germano desaparece e que Cassiano chega a Marselha, para nunca mais sair.
Lá abriu dois mosteiros, um de homens, outro de mulheres, que foram ambos, em meio às devastações dos Bárbaros, refúgios de paz e centros de vida intelectual. Por essas duas fundações, que contudo não foram as primeiras no Ocidente, assim como pelas obras das quais vou falar, Cassiano contribuiu poderosamente para a difusão do instituto monástico na Gália e na Espanha. Morreu por volta de 435.
São Gregório Magno, em sua carta à abadessa Respecta de Marselha, P. L., t. lxxvii, col. 866, e, no século XIV, o papa Urbano V, em uma bula, Gallia christ., t. i, p. 118, dão a Cassiano o título de santo. Segundo o cardeal Noris, Hist. pelag., t. ii, p. 42, Urbano V mandou também gravar no vaso de prata que continha a cabeça do piedoso e douto monge: São Cassiano. Desde tempos imemoriais, inúmeras Igrejas honram Cassiano com um culto. Em Marselha, notadamente, celebra-se sua festa no dia 23 de julho, com oitava. A Igreja grega, por sua vez, faz memória de Cassiano no dia 28 ou 29 de fevereiro.
II. Obras. — As duas principais obras de Cassiano, compostas ambas a pedido de São Castor, bispo de Apt, Apta Julia, para a instrução e a edificação do mosteiro que este prelado acabara de fundar, ligam-se estreitamente uma à outra; ao retraçar, alternadamente, as regras da vida exterior do monge e as de sua vida interior, da vida contemplativa que é a mais sublime de todas, formam o que se pode chamar de um código completo do monaquismo primitivo.
Destas duas obras a primeira, escrita entre 419 e 420, tem por título: De institutis coenobiorum et de octo principalibus vitiorum remediis libri XII, P. L., t. xlix, col. 53-476. As Instituições compõem-se de duas partes: uma, em quatro livros, contém os preceitos da vida monástica, apoiados, em geral, por exemplos que Cassiano toma emprestados das lembranças de suas viagens e dos anais dos conventos da Palestina e do Egito; a outra, inteiramente moral, em oito livros, trata dos oito pecados capitais dos quais os monges devem se guardar, a saber, l. V, a gula, l. VI, a impureza, l. VII, a avareza, l. VIII, a ira, l. IX, a tristeza, l. X, o tédio, acedia, l. XI, a vã-glória, cénodoxie, l. XII, o orgulho. Ver Capéran (Péché), col. 1689-1690.
A segunda obra, Collationes xxiv, P. L., t. XLIX, col. 477-1328, é uma continuação e um suplemento da primeira; passando do exterior da vida monástica para o íntimo do interior, narra-nos as conversas do autor e de seu amigo Germano com os solitários do Egito. Foi escrita e publicada em três entregas sucessivas, tendo cada uma seu prefácio particular, e que apareceram, a primeira, Coll., i-x, após a morte de São Castor, ocorrida em 2 de setembro de 420, Acta sanct., t. vi septembris, p.
a segunda, Coll., xi-xvii, em 426 ou pouco depois; a terceira, Coll., xviii-xxiv, provavelmente após 429. Contudo, na primeira entrega, o autor consignou as Collationes ou Conferências mais recentes, isto é, as suas impressões mais frescas. De sorte que, segundo a ordem cronológica, as conversas relatadas nas Conferências i-x são posteriores às das Conferências xi-xxiv. Grande foi, desde muito cedo, a autoridade destes escritos de Cassiano.
Para as Institutiones, o autor tivera precursores: São Basílio, São Jerônimo, etc. Instit., praef., P. L., t. xlix, col. 56-57. Mas as Conferências, que permanecem a sua obra-prima, não tinham modelo na literatura cristã. Mais ainda do que as Institutiones, excitaram a admiração dos contemporâneos e exerceram uma poderosa influência. São Bento, Regula monastica, c. lxxiii, P. L., t. lxvi, col. 930, prescreve nos mosteiros a leitura das Conferências, e Cassiodoro, por mais apegado que esteja à doutrina de Santo Agostinho no que tange à matéria da graça, recomenda aos seus monges que consultem as Institutiones, De instit. divin. litt., c. xxix, P. L., t. lxx, col. 1144, salvo, é verdade, o que concerne ao livre-arbítrio. Santo Euquério, um amigo de Cassiano, fez das Institutiones um resumo que nos restou. P. L., t. l, col. 867 sq. Um trabalho análogo de Vítor Matarino, bispo da África no século v, desapareceu. Fócio, que não tinha sob os olhos senão uma má tradução das Institutiones e de uma pequena parte das Conferências, não deixa de nelas encontrar algo de divino, bibl. Cod., 197, P. G., t. ci, col. 661-664. São Tomás de Aquino, no século xiii, e o hipercrítico Scaliger, no século xvii, descansarão dos seus trabalhos na leitura das Conferências. Os numerosos manuscritos destas duas obras de Cassiano e as vinte e nove edições sucessivas que tiveram de 1485 a 1667 testemunham suficientemente a estima que se lhes tinha. Ver Schoenemann, Bibliotheca historico-litteraria Patr. Lat., t. i, p. 676-693, P. L., t. xlix, col. 11-26. A literatura e a arte na Idade Média guardaram delas uma forte marca. Ampère, op. cit., t. i, p. 433 sq. Todavia, o livro das Conferências, por causa dos erros que contém, foi declarado "apócrifo", isto é, suspeito do ponto de vista da fé, no decreto De recipiendis et non recipiendis libris, atribuído a São Gelásio e composto em Roma na primeira metade do século vi.
Cassiano tomou pela terceira vez a pena em 430 ou 431, a pedido do arquidiácono romano Leão, o futuro São Leão Magno, para combater a heresia nestoriana. Daí os sete livros De incarnatione Domini contra Nestorium, P. L., t. l, col. 9-272. O autor denuncia neles o pelagianismo como a fonte da heresia de Nestório, apoia na Escritura o título da santíssima Virgem com o nome de Mãe de Deus, θεοτόκος, e mostra que o nestorianismo conduz diretamente ao derrubamento do dogma da Trindade, ou antes, de toda a religião. Numa peroração calorosa, onde Cassiano derrama o seu reconhecimento e a sua veneração por São Crisóstomo, adjura os habitantes de Constantinopla a não traírem a sua fé. Os bolandistas inclinam-se a crer que estes sete livros foram escritos primeiramente em grego. A Epistola S. Castoris ad Cassianum, P. L., t. xlix, col. 53-54, é considerada hoje como apócrifa. M. Petschenig, op. cit., p. cxi sq.
III. DOUTRINA. — Cassiano, o piedoso asceta, o grande teórico da vida monástica no sul da Gália, o adversário decidido tanto de Pelágio quanto de Nestório, não deixou, a despeito do que tenham dito os seus apologistas, antigos ou modernos, de tocar no escolho do semipelagianismo; este nome, contudo, data apenas da Idade Média. Cassiano depositou os germes do seu erro nas suas Institutiones e nas suas Conferências, nomeadamente na ii, na vi, e mais ainda na xiii; é aí que São Próspero, no seu opúsculo Adversus collatorem, P. L., t. li, col. 213-276, os denunciou e combateu. Tem-se, inclusive, geralmente Cassiano como o pai da heresia semipelagiana. A retidão das intenções do presbítero de Marselha e o seu renome de santidade estão aqui fora de causa. A Igreja nada tinha estatuído, e Santo Agostinho, que ele próprio tinha dado nesse escolho antes da sua elevação ao episcopado, trata os semipelagianos como irmãos iludidos, não como inimigos. O estado da teologia no início do século v sobre as questões da graça, a falta de ideias claras e precisas acerca da distinção da ordem natural e da ordem sobrenatural, o caráter próprio e o papel providencial da graça divina, a predestinação, etc., a efervescência dos espíritos que, dos últimos escritos do bispo de Hipona, evocavam, por falta talvez de esclarecimentos, o espectro do dualismo e do fatalismo maniqueísta, tudo explica a queda de Cassiano no erro. A têmpera de espírito e de caráter do presbítero de Marselha, a sua educação teológica e as suas prevenções pessoais não o predispunham, aliás, senão demasiado para isso. O gênio metafísico e, com o encadeamento rigoroso das ideias, a exatidão severa da linguagem não são de modo algum o forte de Cassiano; é à prática das virtudes que ele atribui o maior preço; o que o preocupa é o interesse moral. Dificilmente o pintor entusiasta da vida religiosa poderia deixar de correr o risco de exagerar a potência da vontade humana. Como os autores místicos e ascéticos dos mosteiros do Egito, os Macário o Grande, os Nilos, os Isidoro de Pelúsio, Cassiano não se defenderá de exaltar o livre-arbítrio e de reconhecer, ao menos por vezes, a sua iniciativa no caso da salvação. São Crisóstomo, face aos gnósticos e aos maniqueístas, antes que Santo Agostinho, o doutor da graça, tivesse aprofundado esta difícil matéria, comprazia-se, com todos os Padres gregos, em pôr em relevo o papel da liberdade. Ora, enquanto Cassiano se impregna apaixonadamente dos pensamentos de São Crisóstomo, a tal ponto que os seus apologistas, sem levar suficientemente em conta as diferenças de visões e de datas, fazem do mestre o garante da ortodoxia do aluno, nem por um instante ele se sente atraído e fascinado pelo gênio de Santo Agostinho. Quando, na sua polêmica contra Nestório, apelar aos doutores mais eminentes da Igreja, citará Santo Agostinho apenas em última linha e sem nenhum outro título de honra senão o de Hippone Regiensis oppidi sacerdos, Contra Nestorium, l. VII, c. xxvii, P. L., t.
dir-se-ia que o cita um pouco a contragosto, e apenas por causa do prestígio do nome de Agostinho no Ocidente. A potência irresistível da graça e a predestinação absoluta que Santo Agostinho enunciou no seu escrito De correptione et gratia, P. L., t. xliv, col. 915-946, chocaram e alarmaram Cassiano. Na teoria agostiniana, o presbítero de Marselha acreditou ver uma desmentida à antiga doutrina dos Padres, ao mesmo tempo que um encaminhamento ao fatalismo e um perigo para toda virtude. Ansioso por não restringir a ação da graça e por não interferir na liberdade, por não sacrificar, em suma, um ou outro dos dois termos do problema, ele quis encontrar um justo meio-termo entre as duas opiniões contrárias, entre Pelágio e santo Agostinho. Em suma, por falta de lógica e de síntese, ele fracassou.
Cassiano, primeiramente, afasta o naturalismo de Pelágio. Ele não nega, de modo algum, o pecado original, exceto, contudo, a exemplo de santo Crisóstomo, In Rom., v, 19, homil. x, 2,3, P.G., t. LX, col. 476-478, ao considerá-lo como uma simples pena, não como um pecado nem mesmo uma dívida hereditária. Além do auxílio exterior do alto, além dos dons divinos da inteligência e do livre-arbítrio, do Evangelho e da lei positiva, do batismo no sentido particular de Pelágio, etc., ele admite uma ação imediata, ainda que talvez não sobrenatural, de Deus, para nos reconfortar e operar em nós a mudança de nossos costumes, Inst., XII, 18; Coll., XIII, 47; ele admite uma graça interior, que se apodera do homem, penetra sua vontade assim como seu entendimento, o ilumina e o sustenta.
Com a existência desta graça, Cassiano reconhece também a sua necessidade; pois, visivelmente, nossa vontade não basta para a obra da salvação; impossível, sem a cooperação da graça, resistir às revoltas dos sentidos, obter o perdão de nossos pecados, atingir a santidade e a beatitude. Coll., 11, 2, 12, 16; XIII, 6. A graça, aliás, não nos é concedida necessariamente em razão de nossos méritos, o que seria acorrentar a potência e a liberalidade de Deus. Cassiano, contudo, não vai até o fim de suas ideias. O partido tomado de salvar a liberdade humana supostamente ameaçada e o espírito de reação contra a teoria de santo Agostinho o cegam e o desviam.
Por ter desconhecido o verdadeiro caráter das prerrogativas de Adão inocente e confundido entre si seus dois estados, um natural, outro sobrenatural, com os dois fins correspondentes de sua atividade, Cassiano se persuade de que, após a queda, o livre-arbítrio não é incapaz de todo bem na ordem da salvação, e que a alma conserva sempre, embora ferida, as "sementes de virtude" que Deus, ao criá-la, nelas depositou. Coll., XIII, 12. O livre-arbítrio, com relação à graça, não é, portanto, uma potentia obedientiae passiva, mas uma potentia activa. Do ponto de vista sobrenatural, disse-se com justiça: para santo Agostinho o homem neste mundo está morto, para Pelágio ele está são, para Cassiano ele está doente.
Por via de consequência, Cassiano professa que a graça, que nos é indispensável para chegar à santidade, não nos é indispensável para desejar a santidade; que ela nos acompanha e nos escolta em todas as fases de nosso aperfeiçoamento moral, mas que ela não inflama senão a centelha preexistente, que ela não fecunda senão o trabalho iniciado. Assim, enquanto nossas boas obras são o fruto parcial da graça, nossas aspirações, nossos suspiros para o bem emanam apenas de nós; enquanto a graça fortalece nossa fé, ela nada tem a ver com o initium fidei, com o pius credulitatis affectus, que é exclusivamente nossa responsabilidade. Coll., XIII, 7-9.
Pode ser, portanto, que os bons sentimentos que nascem em nossa natureza, que nossos piedosos desejos sejam para Deus um motivo para conceder livremente sua graça; de modo que, frequentemente, a graça precede e, por vezes, acontece que ela segue um impulso de nosso coração para o bem. Coll., XIII, 14. Daí decorrem dois corolários inevitáveis, que rejeitam Cassiano, a despeito dele, para o pleno pelagianismo e implicam, ambos da sua parte, uma contradição: um, que Cassiano, afinal, endossa uma tese contra a qual se havia erguido inicialmente e que Pelágio havia desavindo ele mesmo no concílio de Diospolis, a saber, que a graça é a recompensa, o salário dos méritos do homem; o outro, que Cassiano não somente confere à nossa vontade a melhor parte na obra da salvação, mas também coloca na base desta obra, essencial e totalmente sobrenatural, um ato puramente natural, o da vontade livre. De resto, em nenhum caso, nem mesmo na vocação de são Mateus e de são Paulo, Cassiano quer ouvir falar da irresistibilidade da graça; mantenhamos como indubitável que Deus nunca abole nossa liberdade.
Cassiano, enfim, revolta-se contra a ideia agostiniana da predestinação ante previsa merita ad gratiam et ad gloriam e da impecabilidade dos eleitos. "Não se pode pretender sem um enorme sacrilégio", diz ele, Coll., XII, 7, "que Deus tenha querido salvar, não todos os homens, mas uma parte dos homens." Deus quer sinceramente a salvação do gênero humano em sua totalidade; somente aqueles que não a querem não são salvos. Mas, ao estender a todos os homens, sem exceção, a vontade salvífica de Deus, Cassiano comete o erro de negar o amor, o olhar especial de Deus para os eleitos. Além disso, a predestinação, segundo ele, não pode apoiar-se senão na presciência, não, como quer santo Agostinho, na previsão do que Deus mesmo fará, mas na previsão do concurso condicional do homem à graça, isto é, em última análise, na previsão da fé natural do homem e dos primeiros movimentos de seu coração.
Entre as diversas teses deste sistema incoerente e impreciso, algumas são ortodoxas, outras são equívocas, e a maioria, mais ou menos atentatória tanto à necessidade quanto à gratuidade da graça, cai, sem que o nome do autor seja pronunciado, sob os anátemas do II concílio de Orange (529), Hefele, Hist. des conc., trad. Leclercq, 1908, t. I, p. 1093.
Deve-se uma edição das obras completas de Cassiano ao beneditino Gazet (Alardus Gazzeus), Douai, 1616; Paris, 1682; Francfort, 1722; Leipzig, 1733; Migne a reproduziu, P. L., t. XLIX-L. A edição mais recente e a melhor é a de M. Petschenig, t. XIII-XVII do Corpus de Vienne, 1866-1888. O P. Hurter também editou as Collationes, Opuscula selecta SS. PP., 2ª série, Inspruck, 1887, t. I. Sobre o mau estado do texto das Collationes, veja Refferscheid e Petschenig, Ueber die teathritizchen Grundlagen im 2 H.
von Cassians Collationes, em Sitz. Ber. der Wiener Akademie, t. CII, p. 491-519. O resumo das Instituta encontra-se em grego, P. G., t. XLIX, col. 849-906; nova edição por K. Wotke, Viena, 1898; e em latim, P. L., t. L, col. 867-894. Uma tradução alemã dos três escritos de Cassiano foi feita por A. Abt e K. Kolhund, em Bibliotek der Kirchenvater, 2 vol., Kempten, 1879. Há também versões francesas das obras de Cassiano, P. L., t. XLIX, col. 9-52; t. L, col. 341-372.
Actu sanct., t. V julii, p. 458 sq.; Tillemont, op. cit., t. XIV, p. 157 sq.; Wiggers, De Joanne Cassiano... (progr.), Rostock, 1824, 1825; Id., Darstellung des Augustinismus und Pelagianismus, Hamburgo, 1833, t. I, p. 8-183; Baehr, Gesch. der reem Litter., Suppl., 1837, t. II, p. 362 sq.; Lombard, Jean Cassien, sa vie, ses écrits, sa doctrine, Estrasburgo, 1868; A. Ebert, Hist. geral da literatura da Idade Média no Ocidente, trad. franc., Paris, 1883, t. I, p. 369-375; Paucker, op. cit., t. I, p. 391-448; Bardenhewer, Les Peres de l’Eglise, 2ª ed. franc., Paris, 1904, t. II, p. 465-468; Petschenig, Prolegomena, no Corpus, Viena, 1888, t. XVII, p. I-CXVI; A. Hoch, Lehre des Joh. Cassianus von Natur und Gnade, Friburgo em Brisgóvia, 1895; Fr. Worter, Beitrage zur Dogmengeschichte des Semipelagianismus, Paderborn, 1898; L. Valentin, Saint Prosper d’Aquitaine, Paris, 1900, p. 306-319, 851-856; Hurter, Nomenclator, 3ª ed., Innsbruck, 1903, t. I, col. 894-895; Kirchenlexikon, t. II, col. 2021-2025; Realencyclopadie, t. I, p. 746-749.
Autor original: P. Godet
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor