CASSIODORO. — I. Vida. II. Obras. III. Influência.
I. Vida. — Magnus Aurelius Cassiodorius Senator nasceu, provavelmente por volta do ano 477, segundo Usener não antes do ano 481, em Squillace, na Calábria, de uma família antiga e ilustre, que, sobretudo desde três gerações, distinguira-se fortemente na carreira política, a serviço do país. Cassiodoro, ou, como o chamavam em seu tempo, Senator, aliava em sua pessoa belos talentos e um nobre caráter, a paixão pela vida intelectual e o espírito de governo, uma rara habilidade de pena e de palavra e uma vasta erudição. Desde cedo o rei Teodorico, de quem compusera o panegírico antes de Enódio de Pavia, testemunhou-lhe um favor marcado. Cassiodoro tinha apenas vinte anos quando se tornou questor e, por aí, secretário particular do rei, deveria dizer, ministro do interior. Sucessivamente questor, prefeito do pretório, patrício como Clóvis e Carlos Magno, exercerá em 514 o cargo de cônsul. Continuava, contudo, suas funções e sua obra no gabinete do rei; súdito fiel da realeza ostrogótica e filho devotado da Igreja católica, mediador inteligente e corajoso entre os conquistadores bárbaros e a população conquistada, que ele trabalhava, segundo o pensamento do soberano, para aproximar e unir. É a ele que se deve atribuir a mais bela parte no grande reinado de Teodorico. Após a morte deste príncipe em 526, conservou todo o seu crédito durante a regência da rainha Amalasunta, mãe do jovem Atalarico. Os reis Teodato e Vitiges procuraram-no depois ou pouparam-no à porfia. «O último estadista dos romanos» não deixava de interessar-se ao mesmo tempo pelas questões de educação e, preocupado em conjurar os perigos dessa retórica toda pagã que causava uma admiração sem reserva a Enódio, empreendia, com a ajuda do papa santo Agapito, fundar em Roma, por subscrição, escolas cristãs onde o estudo das letras sagradas ocuparia um lugar e coroaria o ensino. O infortúnio dos tempos não lhe permitiu executar seu empreendimento.
Por volta de 540, quando nenhuma desgraça o ameaçava, o velho ministro deixou a corte de Ravena e, aos mais de sessenta anos, foi encerrar-se no mosteiro de Viviers, Vivarium, que construíra no domínio de seus pais, na extremidade da Calábria e às margens do golfo de Squillace. Estadia fascinante, que Cassiodoro descreveu com amor, De instit. divin, litt., c. xxix, P. L., t. LXX, col. 1144, e que se apraz em enriquecer com uma imensa biblioteca. Aqueles de seus discípulos que aspiravam viver como anacoretas encontravam, nas encostas do monte Castellum, acima do mosteiro, celas isoladas, para ali saborear a felicidade do retiro absoluto. No claustro, sob a condução e pelo exemplo do abade, que não era outro senão Cassiodoro, os cenobitas dedicavam-se ao estudo das ciências e das letras tanto quanto aos exercícios da vida religiosa. Não se sabe bem qual regra Cassiodoro adotara. Reconhece-se, ao menos, entre a regra de são Bento e aquela que estava em vigor em Viviers, uma profunda analogia. Cassiodoro, sem dúvida, faz do trabalho do espírito, e não do trabalho das mãos, o primeiro, o mais rigoroso dever de seus monges; o trabalho dos campos e dos jardins é a parte de quem quer que não saiba estudar ou transcrever os manuscritos. Mas, em Viviers e nos claustros beneditinos, a mesma solicitude afetuosa para com os viajantes, os pobres e os enfermos da vizinhança; mesma preocupação com o bem-estar temporal e espiritual dos camponeses das terras monásticas; mesmo culto pela salmodia noturna e quase perpétua, etc. Após ter tudo disposto e posto em marcha, Cassiodoro resignou seu título de abade e viveu, simples monge, em Viviers. Morreu ali em odor de santidade, por volta de 570 (ou 575), com a idade de noventa e três anos. O martirológio romano não registrou, contudo, seu nome.
II. Obras. — Antes e sobretudo durante seu retiro em Viviers, Cassiodoro deixou número de obras, que refletem menos a originalidade do gênio do que o saber enciclopédico do autor, e que, sem terem sobrevivido todas, testemunham seu zelo infatigável para manter a educação pública e a vida intelectual na Itália. Podemos distingui-las em: 1° obras profanas; 2° obras religiosas.
1° Obras profanas. — A primeira em data das obras de Cassiodoro é uma curta Crônica, Chronicon ab Adamo usque ad annum 519, P. L., t. LXIX, col. 1214-1248, dedicada a Eutarico, o genro de Teodorico e marido de Amalasunta, cônsul em 519 para o Ocidente. Dir-se-ia, pelo título, uma crônica universal. Em realidade, não é mais que uma lista dos cônsules de Roma, com um prefácio que liga a lista à criação do mundo. Cassiodoro utiliza ali, primeiramente, trabalhos anteriores, nomeadamente os de Eusébio, de são Jerônimo e de são Próspero; mas, a partir de 496, já não extrai senão de suas lembranças pessoais. Tudo respira o desejo de reconciliar a raça vitoriosa e a raça vencida. O mesmo espírito animava outra obra muito mais extensa e mais importante, De origine actibusque Getarum sive Gothorum. Esta história dos godos em XII livros, escrita sobre as instâncias do rei Teodorico, entre 526 e 533, não chegou até nós. Dela não temos senão um resumo muito imperfeito por Alano Jornandes (551), P. L., t. LXIX, col. 1251-1296, reeditado por Mommsen, Monumenta Germaniæ. Auct. antiquiss., t. V, p. 53-138. Dos panegíricos de Cassiodoro em honra «dos reis e das rainhas dos godos», não nos restam senão fragmentos suspeitos. Por outro lado, possuímos, sob o título de Variæ (epistolæ), a coletânea, em XII livros, das ordenações que Cassiodoro redigira, seja como questor ou magister officiorum, em nome de Teodorico e de seus sucessores, seja como prefeito do pretório, em seu próprio nome. P. L., t. LXIX, col. 501-880. Esta coletânea, cujo interesse histórico salta aos olhos, contém cerca de quatrocentas peças. O autor publicou-a, entre 534 e 538, a pedido de seus amigos. As digressões às quais se abandona sobre toda sorte de terrenos, sobre os da política, da ciência, da arte, até mesmo das artes mecânicas, não datam provavelmente, pelo menos em grande parte, senão da publicação da coletânea. Aos noventa e três anos, Cassiodoro escrevia ainda, a pedido e para as necessidades dos monges de Viviers, um tratado De orthographia, P. L., t. LXX, col. 1239-1270. Pura compilação, sem ordem sistemática. O Sr.
Holder reencontrou em 1877, na biblioteca de Carlsruhe, um fragmento importante de apenas uma página, restos de um opúsculo de Cassiodoro, hoje perdido e que continha, com uma genealogia do autor, o catálogo de suas obras e as de seus amigos. Ver Usener, Anecdoton Holderi, Bonn, 1877; cf. Boécio, col. 920.
2° Obras religiosas. — O opúsculo De anima, P. L., t. LXX, col. 1279-1308, que seguiu de muito perto as Varia, parece como uma ponte lançada entre as duas fases da atividade literária de Cassiodoro. O velho estadista, tornado filósofo, sem deixar de ser um espírito prático, estuda nela a natureza da alma, que ele considera imaterial, depois as virtudes da alma, a sua origem, o seu assento aqui na terra e o seu imortal futuro. A influência de Santo Agostinho e de Claudiano Mamerto é visível em toda parte. Em mais de uma página, e especialmente no final, Cassiodoro deixa transparecer as suas aspirações à vida contemplativa no silêncio do claustro. D. de Sainte-Marthe, La vie de Cassiodore, Paris, 1695, p. 354-361, vingou o seu herói da suspeita de ter adiado, para o dia do juízo final, a visão beatífica dos eleitos e os sofrimentos do inferno.
As Institutiones divinarum et secularium lectionum ou litterarum, publicadas em 544, foram o primeiro fruto do retiro de Cassiodoro em Viviers. O autor, impregnado da leitura do tratado de Santo Agostinho, De doctrina christiana, P. L., t. XXXIV, col. 15-122, proclama a união da ciência sagrada e da ciência profana, para formar um ensino completo e verdadeiramente cristão. À falta de poder aplicar estas ideias em Roma, como tinha sonhado, queria pelo menos, ao consigná-las por escrito, deixar em certa medida um mestre e um guia aos monges de Viviers. A obra compõe-se de dois livros. O I, P. L., t. LXX, col. 1105-1150, cujo mérito Richard Simon, Hist. critique du Vieux Testament, l. III, c. x, Rotterdam, 1685, não contestou, oferece-nos uma introdução ao estudo da teologia, partindo para a da Escritura sagrada sobre a qual a teologia repousa, ao mesmo tempo que um catálogo das obras latinas ou traduzidas para o latim, necessárias à aquisição da ciência teológica. O II livro, que, na maior parte das edições, traz o seu título especial, De artibus ac disciplinis liberalium litterarum, P. L., t. LXX, col. 1149-1220, não é mais que um resumo conciso, para a educação geral dos monges pouco letrados, das sete artes liberais: gramática, retórica, dialética, aritmética, música, geometria, astronomia.
Ao escrever as suas Institutiones, Cassiodoro já tinha no tear o seu volumoso comentário dos Salmos, Complexiones in Psalmos, P. L., t. LXX, col. 9-1056, que só terminou muito tempo depois. Inspirou-se nele sobretudo nas Enarrationes de Santo Agostinho, o seu mestre preferido, não sem recorrer a outras fontes que a sua erudição lhe abria. Explica nele sempre vários versículos de uma só vez; donde provém o título da obra. O largo espaço reservado à exegese alegórica, ao sentido místico dos números e às figuras de retórica das quais os Salmos fervilham, confere a originalidade e o interesse a este trabalho. Notker, o Gago, De interpret. div. Script., c. ii, P. L., t. CXXXI, col. 995, encontra nele toda a sabedoria do século e louva a doçura e a variedade do estilo.
As Complexiones in Epistolas et Acta apostolorum et Apocalypsin, P. L., t. LXX, col. 1321-1448, datam também de Viviers. Apesar da menção que o autor fez delas no prefácio do seu tratado De orthographia, n. 6, esta explicação curta e clara das Epístolas, dos Atos e do Apocalipse de São João permaneceu desconhecida da Idade Média. Scipion Maffei encontrou-a na biblioteca do cabido de Verona e publicou-a pela primeira vez em Florença, em 1721. O comentário atribuído a Cassiodoro sobre o Cântico dos Cânticos, P. L., t. LXX, col. 1086 sq., não é dele. O Liber titulorum de divina Scriptura collectus, que Cassiodoro chama ainda Memorialis, De orthographia, pref., P.L., t. LXX, col. 1244, devia ser a coletânea dos sumários analíticos colocados por ele no início de cada um dos livros, na sua edição da Bíblia.
Cassiodoro só teve uma participação secundária na célebre Historia ecclesiastica tripartita, em XII livros, P. L., t. LXX, col. 879-1150. Zeloso por completar e prosseguir a versão e a continuação por Rufino da História de Eusébio, tinha encarregado um dos seus amigos, Epifânio, de traduzir para o latim Sócrates, Sozomeno e Teodoreto; após o que, fundiu os três textos e compôs uma única obra, deixando a palavra ora a um, ora a outro dos três historiadores, retocando e completando, com os dois outros relatos, o relato preferido. A tradução de Epifânio não vale grande coisa; o trabalho de Cassiodoro tampouco, tal é o seu caráter superficial e precipitado! A Historia tripartita é bem menos uma história do que um centão histórico, cento historiarum. Wattenbach, Deutschlands Geschichts-Quellen im Mittelalter, 6ª ed., t. I, p. 65-72. Não é certo que o opúsculo De computo paschali, P. L., t. LXIX, col. 1249, seja de Cassiodoro. Várias obras do infatigável erudito perderam-se, entre outras, uma explicação da Epístola aos Romanos, onde naturalmente o fervoroso discípulo de Santo Agostinho combatia o pelagianismo.
III. Influência. — Cassiodoro partilha com Boécio e com São Gregório Magno a glória de ter salvo do naufrágio os restos da civilização e da literatura greco-romanas; proclamaram-no, não sem razão, o herói e o restaurador da ciência no século VI. Deu, no seu retiro de Viviers, um dos primeiros e dos mais ilustres modelos da aliança da vida religiosa com a vida intelectual; abriu o caminho no qual os beneditinos, nomeadamente, caminharam sobre os seus passos. As bibliotecas e as escolas dos claustros, que permaneceram, no meio das ondas crescentes da barbárie, os asilos da ciência, são os frutos da iniciativa de Cassiodoro e como um legado da abadia de Viviers a toda a ordem monástica.
Ao irradiar do exemplo do mosteiro de Viviers juntou-se, para aumentar e prolongar a sua potência, a irradiação dos escritos do fundador. Aqui e ali, mesmo objetivo e mesmo sucesso. O estilo das Variae, sem sombra de monotonia e de uma elegância não isenta de rebuscamento, transportava de admiração os contemporâneos; servirá de modelo, segundo o desejo do autor, na Alta Idade Média, a todas as chancelarias. Rabano Mauro, no século IX, tomará quase literalmente o seu tratado De anima, P. L., t. CXI, col. 1109-1120, do opúsculo de Cassiodoro sobre o mesmo assunto.
Acima das Institutiones, as escolas da Idade Média não colocarão nada; as Institutiones serão o código da educação monástica e o programa da educação intelectual dos novos povos; uma das obras mais importantes de Rabano Mauro, o De clericorum institutione, P. L., t. CVII, col. 293-420, inspirar-se-á muito largamente nelas.
A Historia tripartita será também o principal manual de história eclesiástica na Idade Média; Fréculfo haurirá nela, para a sua Crónica universal, P. L., t. CVII, col. 919-1258, a mãos cheias, e, na sua Vida de Santa Helena, o monge de Hautvilliers, Almann, não deixará de tirar proveito dela.
Grandes foram também a voga e a autoridade das Complexiones in Psalmos; elas forneceram a Remígio de Auxerre, em particular, um sem-número de materiais para o seu comentário dos Salmos.
João de Salisbury, no século XII, recomendará o estudo de Cassiodoro ao mesmo tempo que o dos clássicos pagãos; e ver-se-á, dois séculos depois, os escritos de Cassiodoro figurarem, com os de São Fulgêncio e de Sidônio Apolinário, no programa das lições do colégio de Navarra.
Edição das obras completas de Cassiodoro pelo maurista J. Garet, Ruão, 1679; 2 in-fol., Veneza, 1727; Migne, Patr. lat., t. LXIX-LXX, reproduziu-a, enriquecendo-a com as descobertas de Sc. Maffei e do cardeal Mai.
Th. Mommsen publicou à parte o Chronicon em Abhandl. der philol.-hist. Classe der K. Sächs. Ges. der Wiss., Leipzig, 1861, t. III, p. 547-696, e em Monum. Germ. hist. Auct. antiquiss., Berlim, 1894, t. XI, p. 120-161; as Variae, em Monum. Germ. hist. Auct. antiquiss., Berlim, 1894, t. XII.
O capítulo da Retórica no II livro das Institutiones foi reeditado por C. Halm, Rhetores latini minores, Leipzig, 1863, p. 493-504. Traube editou as Cassiodori orationum reliquiae, em Monumenta Germ, Auct. antiquiss., t. XII, p. 459-484.
Sobre a vida de Cassiodoro ver P. L., t. LXIX, col. 425-500; prefácio de Mommsen, nos Monum. Germ. Auctor. antiquiss., Berlim, 1894, t. XI, p. 141-149; t. XII, p. v sq.; A. Olleris, Cassiodore conservateur des livres de l’antiquité latine, Paris, 1841; P. P. M. Alberdingk Thijm, Iets over M. A. Cassiodorus Senator en zijne eeuw, Amsterdã, 1857; 2ª ed., 1858; A. Thorbecke, Cassiodorus Senator (progr.), Heidelberg, 1867; A. Franz, M. A. Cassiodorus Senator, Breslau, 1872; J. Ciampi, Cassiodori nel v° e nel vi° secolo, Ímola, 1876; Hodgkin, The letters of Cassiodorius, being a condensed translation of the Variae, Londres, 1886; G. Minasi, M. A. Cassiodoro Senatore, Nápoles, 1895; A. Ebert, Hist. générale de la litt. du moyen âge en Occident, trad. franc., Paris, 1883, t. I, p. 529-552; Bardenhewer, Les Pères de l’Eglise, 2ª ed. franc., Paris, 1904, t. II, p. 164-170; Hurter, Nomenclator, 3ª ed., Innsbruck, 1903, t. I, col. 523-527; Kirchenlexikon, t. II, col. 2026-2030; Realencyclopädie, t. III, p. 749-750.
Para uma bibliografia mais desenvolvida, ver A. Potthast, Bibl. hist. medii aevi, 2ª ed., t. I, p. 197 sq. Sobre os comentários exegéticos e as Bíblias de Cassiodoro, ver Batiffol, col. 482.
Autor original: P. Godet
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor