CARDINAIS (VIRTUDES)

CARDINAIS (VIRTUDES)

CARDINAIS (virtudes). — I. Etimologia. II. Histórico. III. Definições.

I. ETIMOLOGIA. — «As virtudes cardinais são assim nomeadas por analogia com as dobradiças, cardines, sobre as quais se apoia o movimento das portas.» S. Tomás, In IV Sent., l. III, dist. XXXIII, q. 1, a. 4, sol. 2, Opera omnia, Parma, 1857, t. VII, p. 358. Cf. S. Boaventura, ibid., Quaracchi, t. III, p. 721. Para justificar esta etimologia, o Doutor Angélico analisa subtilmente os três termos que definem a função das dobradiças: servir de apoio, servir de apoio a uma porta, servir de apoio ao movimento de uma porta, e empenha-se, não sem verossimilhança, em fazer corresponder a eles os aspectos ou propriedades das virtudes cardinais.

1° «Pela porta penetra-se no interior de uma casa: toda porta é em vista desse movimento ulterior. As virtudes teologais, tendo por objeto o fim último, que atingem eficazmente, não oferecem nada de comum com a ideia de entrada, de porta, e é por isso que não são chamadas cardinais. O mesmo ocorre com as virtudes intelectuais que têm relação com a vida contemplativa, a qual não é ordenada a uma vida ulterior, mas, pelo contrário, ordena a si a vida ativa. As virtudes morais, ao contrário, são perfeições da vida ativa; seus atos não visam diretamente o fim último, mas certos objetos que a ele conduzem. É por isso que as virtudes cardinais só se encontram entre as virtudes morais.» S. Tomás, loc. cit.; cf. De virtutibus in communi, a. 12, ad 24um, Opera, Parma, 1856, t. VIII, p. 576; S. Boaventura, loc. cit.

2° Se se objeta que as virtudes teologais são elas também um ponto de apoio para a vida moral, São Tomás responde insistindo em outra propriedade das dobradiças: «As virtudes teologais são chamadas fundamento, âncora, raiz, todas expressões que designam o ponto de apoio de uma coisa em estado estático; por isso convêm às virtudes teologais que têm por objeto o fim, no qual se repousa; a dobradiça, ao contrário, designa o ponto de apoio de uma coisa em movimento: é por isso que se comparam justamente a ela as virtudes que têm relação com os meios pelos quais se vai ao fim.» Ibid., ad 2um.

3° Se se objeta, finalmente, que o verdadeiro ponto de apoio da vida moral é a razão, São Tomás desenvolve, ao explicá-lo, o terceiro aspecto das dobradiças. «As dobradiças são o ponto de apoio imediato do movimento da porta. Assim, é preciso que a virtude cardinal diga respeito ao que há de principal em cada uma das diversas matérias da moralidade, e não apenas em geral, o que é o ofício da razão.» Ibid., sol. 3, ad 2um.

II. HISTÓRICO. — A origem desta denominação das virtudes morais remonta, cremos nós, a Santo Ambrósio. Comparando as quatro bem-aventuranças de São Lucas, VI, 21-22, às oito bem-aventuranças de São Mateus, V, 3-10, o santo doutor diz: «São Lucas teve em vista as quatro virtudes cardinais; São Mateus nos dá a entender um número místico.» Expos. Evang. sec. Luc., l. V, n. 49, P. L., t. XV, col. 1649. E um pouco mais adiante: «Sabemos que há quatro virtudes cardinais: a temperança, a justiça, a prudência e a fortaleza.» Ibid., n. 62, col. 1653.

O texto do De sacramentis, l. III, c. 1, P. L., t. XV, col. 434, que aplica o epíteto cardinal aos dons do Espírito Santo, não é, portanto, a fonte da presente denominação, como sustenta o Vocabulaire philosophique publicado pelo Bulletin de la Société française de philosophie, 3ª ano, Paris, n. 6, junho de 1908, p. 158, verbete Cardinal.

O Mestre das Sentenças, Pedro Lombardo, atribuía a paternidade desta qualificação a São Jerônimo: Hæ virtutes cardinales vocantur, ut ait Hieronymus, Sent., l. III, dist. XXXIII, P. L., t. CXCII, col. 823. Esta atribuição é inexata: ela se refere a um comentário sobre São Marcos falsamente atribuído a São Jerônimo, onde é dito: «Estas quatro virtudes são chamadas cardinais, porque pela prudência obedecemos; pela justiça, agimos virilmente; pela temperança, calcamos aos pés a serpente; pela fortaleza, merecemos a graça de Deus.» Comment. in Evang. sec. Marc., c. 1, P. L., t. XXX, col. 596.

São Tomás de Aquino não segue o Mestre das Sentenças em seu erro e restabelece a origem ambrosiana da expressão. Sum. theol., Ia IIæ, q. LXI, a. 4. Ela torna-se corrente entre todos os escolásticos, que a consideram como o nome teológico das quatro grandes virtudes morais. Talvez, por causa desta origem teológica, conviesse reservar a qualificação de cardinais às virtudes morais infusas, para distingui-las das virtudes morais naturais reconhecidas pelos filósofos pagãos.

III. DEFINIÇÕES. — Encontramos na tradição três acepções diferentes do qualificativo cardinal aplicado às quatro virtudes morais.

1° Cardinal é sinônimo de principal. — É esta acepção muito ampla que segue São Tomás, Sum. theol., Ia IIæ, q. LXI, a. 1. Nela ele compara, sob o aspecto da importância, as três grandes divisões genéricas da virtude: virtude teologal, moral e intelectual. Deixando de lado as virtudes teologais por serem mais sobre-humanas do que humanas, ibid., ad 2um, o santo doutor dá prioridade às virtudes morais sobre as intelectuais (excetuada a prudência, que aliás está na fronteira dos dois grupos). O motivo desta primazia é que as virtudes morais realizam por excelência o que constitui a virtude, não dando apenas a faculdade remota de operar o bem, mas o exercício mesmo e o bom uso dessa faculdade, em razão da retificação anteriormente em exercício da intenção voluntária que elas supõem e da qual procedem. Este primeiro sentido do qualificativo cardinal é, pois, por um certo lado, relativo. É, por comparação com as quatro virtudes intelectuais restantes — sabedoria, ciência, hábito dos primeiros princípios e arte —, que as virtudes morais seriam chamadas cardinais ou principais, como sendo virtudes, virtutes (virtualidades agentes), no sentido preciso e absoluto da palavra. Esta primeira acepção não leva em conta a analogia da dobradiça. Ela não é, aliás, em São Tomás, senão genérica e provisória, sendo a noção específica entregue apenas nos artigos seguintes.

2° Cardinal é sinônimo de geral. — As virtudes cardinais representam condições gerais da vida humana que devem se encontrar em todo ato de virtude. Sum. theol., Ia IIae, q. LXI, a. 4. Essas condições são o discernimento ou prudência, a retidão ou justiça, a medida ou temperança, a firmeza ou fortaleza. Ibid., a. 1.

Elas são inseparáveis uma da outra e envolvem todo ato de virtude, qualquer que seja; a firmeza, por exemplo, não merece o nome de virtude se não estiver acompanhada de medida, de retidão e de discrição. Ibid.

Sendo apenas condições gerais de todo ato virtuoso, as virtudes cardeais não constituem, segundo esta acepção, habitus especiais e distintos, salvo talvez a prudência em razão de seu papel ordenador e preponderante. Jbid., a. 2.

E, portanto, um ato de virtude qualquer, enquanto comporta um discernimento racional, será um ato de prudência; enquanto retificado, um ato de justiça; enquanto implica a moderação das paixões, um ato de temperança; enquanto revela a firmeza, um ato de fortaleza. Ibid.

Esta acepção não deve ser desdenhada, porque tem a seu favor a maior parte da tradição. Et sic multi loquuntur de istis virtutibus tum sani doctores quam etiam philosophi. Ibid. Encontra-se, com efeito, em Cícero, Tusculanes, c. xiv; De officiis, l. I, c. xx; em S. Ambrósio, In Lucam, l. V, n. 49, t. xv, col. 1843; De officiis, l. I, c. xxvi, t. xvi, col. 75 sq.; em S. Agostinho, que não considera as virtudes morais senão como aspectos do amor, prudentia est amor Dei sagaciter seligens, De moribus Ecclesiae, l. I, c. xv, n. 25, t. xxxii, col. 1322; em S. Gregório Magno, Moral., l. XXII, c. 1, n. 2, P. L., t. LXXVI, col. 212.

São Tomás, que conhece e cita estas autoridades, preferirá, contudo, a terceira acepção. Se, com efeito, esta noção de virtude cardeal tem a vantagem de levar em conta o envolvimento recíproco das virtudes morais — envolvimento do qual testemunha, por exemplo, o fato de que o homem forte carecerá de força em certas circunstâncias, se não for ao mesmo tempo temperante —, ela não dá o porquê. Ela expõe o que é, em vez de explicar o organismo psicológico subjacente. Ela permite uma explicação cômoda da conexão das virtudes, mas esta explicação não deixa de ser superficial. Nem mais que a acepção precedente, ela responde à etimologia da palavra cardeal.

3° A terceira acepção remete à ética aristotélica. — São Tomás prefere-a à precedente. Sum. theol., Ia IIae, q. LXI, a. 4. Seu fundamento é a psicologia dos hábitos, pois a virtude moral é um hábito bom, que permite realizar bem um bom objeto. Ora, o hábito deve sua determinação específica aos seus atos, pela repetição dos quais é GERADO, e os atos, por sua vez, determinam-se por seu objeto ou matéria. É, pois, à importância para a vida moral do objeto ou da matéria de uma virtude que se deve recorrer para determinar o papel mais ou menos cardeal que ela exerce em relação às outras virtudes.

Dois critérios são utilizados para este fim por São Tomás:

1. É de importância maior, cardeal, isto é, tal que a vida moral gira sobre ela como uma porta sobre seus gonzos, toda matéria a virtude particularmente difícil. Este critério deduz-se do caráter essencial da virtude moral, que é proporcionar eficazmente o exercício dos atos bons. É evidente que a pedra de tropeço desta eficácia são as paixões particularmente difíceis de vencer e que, vencidas essas paixões, o resto vai, por assim dizer, por si só: Sicut potissimum in illis quae ad concupiscibilem pertinent sunt delectationes secundum tactum; unde temperantia, quae est circa illas delectationes, est virtus principalis, eutrapelia quae est circa delectationes quae sunt in ludis est virtus secundaria. S. Thomas, In IV Sent., l. III, dist. XXXIII, q. 1, a. 1, sol. 18, Opera, t. VII, p. 308. A virtude cardeal será, portanto, aquela que, em uma matéria moral dada, encara o ponto crítico, especialmente dificultoso desta matéria. Ela serve de tipo às virtudes secundárias, que abordam os aspectos menos dolorosos do mesmo objeto e não têm mais que reproduzir, em pequena escala, o esquema da manobra que as cardeais realizam de maneira total e excelente. Sua influência é de ordem formal enquanto causas exemplares; e de ordem preparatória, enquanto uma grave dificuldade vencida em um terreno facilita outras vitórias no mesmo terreno. Sum. theol., Ia IIae, q. LXI, a. 4, ad 4um. É em relação às suas irmãs, as pequenas virtudes morais, que estas virtudes são ditas cardeais.

2. O segundo critério da importância de um objeto é o papel diretor que este objeto, porque ocupa um escalão mais próximo do fim último, exerce em relação a outros objetos que constituem os meios de alcançá-lo. É assim que a arte da construção de navios é subordinada à arte da navegação, porque esta última é o fim e o objetivo da primeira. A razão desta influência é que, em todas as coisas, convém considerar sobretudo o fim. As artes e as virtudes que encaram os fins, em razão do império que exercem sobre as artes e as virtudes que encaram os meios, são, portanto, como o fundamento, a base de fixação, digamos a palavra, os gonzos, cardines, destes últimos. Et quia actus moti fundatur super actione moventis, ideo actus virtutis secundae fundatur super actione principali, sicut fundatur super cardinem motus ostii ; et ideo virtus principalis dicitur esse cardinalis. S. Thomas, In IV Sent., l. III, dist. XXXIII, q. II, a. 4, sol. 4. A este segundo título, a influência da virtude cardeal participa da causalidade eficiente e da causalidade final. É uma influência diretiva do movimento da vida moral.

A esta conclusão de São Tomás faz eco São Boaventura, que atribui às virtudes cardeais o primeiro lugar na colocação em marcha e na direção das virtudes especiais. Loc. cit., Quaracchi, t. III, p. 730.

Esta terceira acepção tem a vantagem de apresentar uma concepção orgânica e dinâmica da virtude cardeal, que se harmoniza tão bem com os dados psicológicos mais bem estabelecidos quanto com as exigências da etimologia. Ela não se opõe à primeira acepção e supera a segunda em verdade psicológica e em profundidade. Ela deixa, sem dúvida, inexplicada a questão da conexão das quatro grandes virtudes morais, mas, ao resolver a das virtudes secundárias com as virtudes cardeais, ela simplifica os dados do problema e prepara uma solução da relação muito mais profunda que a solução esboçada pela segunda acepção. Pois, do fato de que as quatro virtudes cardeais serão soldadas entre si pelo vínculo da prudência e, anteriormente, na ordem sobrenatural, pelo vínculo da caridade, todas as virtudes secundárias que estão sob a direção destas quatro grandes virtudes encontrar-se-ão ordenadas em um só todo orgânico e dinâmico.

Não pretendemos falar aqui senão daquilo que há de verdadeiramente específico na propriedade das virtudes morais expressa pela palavra cardeal.

Para as questões comuns, que se resolvem pela consideração da virtude moral enquanto tal, por exemplo, para a distinção e as espécies das virtudes cardeais, seus estados, suas relações com as virtudes teológicas e intelectuais, com as paixões, para a aquisição ou a infusão das virtudes cardeais ou morais, para a teoria do justo meio, ver VERTUDE MORAL.

Autor original: A. Gardeil

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor