2. CALIXTO II, papa, eleito em 2 de fevereiro de 1119, coroado em Vienne no dia 9 do mesmo mês, falecido em 13 ou 14 de dezembro de 1124. O título de glória deste pontífice é ter terminado a querela das investiduras na Alemanha pelo concordata de Worms, concluído com o imperador Henrique V em 1122.
Diversas circunstâncias facilitaram-lhe a tarefa; primeiramente a sua origem e as suas relações de família. Guido da Borgonha era o quinto filho de Guilherme, conde da Borgonha; tinha laços de parentesco com os reis da Inglaterra e da Alemanha e com a casa real da França. Urbano II nomeara-o arcebispo de Vienne (1088) e Pascoal II criara-o seu legado na França.
Quando Henrique V, por astúcia e pela força, arrancou de Pascoal a concessão das investiduras, Guido veio assistir ao concílio de Latrão (março de 1112) que declarou nulo o privilégio extorquido. Ele próprio presidiu pouco depois a um concílio em Vienne que se mostrou mais severo tanto na condenação da investidura leiga, qualificada de heresia, quanto na medida de excomunhão decretada contra o imperador (setembro de 1112). A ameaça de se retirar da obediência de Pascoal, caso ele não ratificasse a excomunhão, era de pura forma. O papa louvou o zelo do prelado e aprovou-o em linhas gerais, sem pronunciar ele próprio a excomunhão.
Pascoal morreu em 1118. Gelásio II apenas passou pelo trono e veio a falecer em Cluny (29 de janeiro de 1119), onde os cardeais, quatro dias após a sua morte, deram-lhe como sucessor Guido da Borgonha (2 de fevereiro de 1119). Ele tomou o nome de Calixto II e fez-se coroar em Vienne no dia 9 de fevereiro. Quis, contudo, receber dos romanos, cardeais, clero e povo, uma solene ratificação da sua eleição.
A rigidez da sua atitude para com Henrique V, após o atentado cometido contra Pascoal II, não impediu Calixto II de entrar em contato com o imperador, que mantinha uma dieta de bispos e príncipes em Tibur e que o empenho submisso dos seus bispos para com Calixto persuadia da oportunidade de um arranjo. Guilherme de Champeaux, bispo de Chalons-sur-Marne, e Ponce, abade de Cluny, exortavam-no a título de negociadores oficiosos. Henrique anunciou que iria pessoalmente ao concílio de Reims, que Calixto II acabara de convocar para o fim de outubro.
O concílio abriu-se no dia 20 de outubro. Seguindo o tratado concluído no intervalo com Henrique, o papa foi ao encontro do imperador em Mouzon, mas a escolta de trinta mil homens que acompanhava o imperador fez-lhe temer, com razão, cair numa armadilha; aliás, o entendimento não pôde ser feito à última hora entre os interessados sobre a interpretação do tratado convencionado; o papa voltou então a Reims, onde proibiu novamente as investiduras e excomungou o imperador, assim como o antipapa Gregório VIII (29 e 30 de outubro de 1119).
As peregrinações de Calixto II na França, a sua entrevista em Gisors com o rei da Inglaterra, a sua ação política nos assuntos anglo-franceses haviam fortalecido o poder e aumentado o prestígio de Calixto, que regressou à Itália (1120). Foi acolhido em triunfo em Roma, Jaffé, 6852, e na Itália. Jaffé, 6877, 6892. Os habitantes de Sutri entregaram Bourdin, o antipapa Gregório VIII, que foi submetido a humilhantes ultrajes em Roma e finalmente encerrado num mosteiro.
A intervenção dos príncipes e, nomeadamente, do duque Henrique da Baviera, acabou por trazer a paz à Alemanha; eles não aceitaram as puras doutrinas gregorianas tais como as representava o intransigente Adalberto de Mogúncia, mas não tinham a obstinação e o orgulho de Henrique V. Um terreno de conciliação foi encontrado. Uma primeira assembleia de príncipes em Wurzburgo (outono de 1121) decidiu que o imperador deveria reconhecer Calixto e os outros bispos em comunhão com ele. O papa acabou por ceder às aberturas. Nihil, Henrice, escrevia ele, de tuo jure vindicare sibi quaerit Ecclesia, Jaffé, 6950; mas ele usava ainda ameaças para obter uma submissão. Os cardeais Lambert de Óstia, Saxo, conde de Anagni, e Gregório fizeram a viagem à Alemanha.
Após uma nova assembleia de príncipes em Wurzburgo (junho de 1122), o sínodo de Worms abriu-se finalmente no mês de setembro e resultou num entendimento impropriamente chamado de "pacto calixtino" ou "concordata de Worms". O entendimento recebe a sua expressão em duas declarações consecutivas, que não se referem oficialmente uma à outra. Henrique V declara que deixará livres a eleição e a consagração dos prelados; mas Calixto II admite que a eleição dos bispos e dos abades na Alemanha propriamente dita terá lugar na presença do rei. Henrique V renuncia à investidura pelo báculo e pelo anel, mas Calixto II admite que o rei dará a investidura do temporal pelo cetro, o que acarretava para o eleito a obrigação da homenagem feudal. Na Itália e na Borgonha, a consagração do eleito deveria preceder a investidura feudal; mas na Alemanha, a investidura temporal precederia a consagração.
Como todas as concordatas, a de Worms consagrava uma transação. Os imperadores não tinham mais, como Henrique III, o direito de designar os bispos; a eleição retomava vigor; mas conservavam uma influência considerável nas nomeações eclesiásticas. Em caso de dúvida sobre uma eleição, o imperador deveria dar o seu assentimento à parte mais estimável (sanior pars) dos eleitores, conduzindo-se pelo parecer do metropolita e dos bispos da província. Como Henrique V é o único nomeado por Calixto, sem alusão aos sucessores do imperador, pode-se sustentar que as concessões feitas pelo papa diziam respeito apenas a Henrique, a título de privilégios pessoais. Jaffé, 6986.
O concílio de Latrão, IX concílio ecumênico, que se abriu em Roma no dia 18 de março de 1123, reuniu cerca de 300 bispos e 600 abades. O papa ali promulgou a concordata de Worms, renovou antigos cânones e promulgou novos concernentes à simonia, ao matrimônio dos sacerdotes, às eleições dos prelados, à invasão dos bens da Igreja pelos leigos, à trégua de Deus. O imperador foi solenemente reconciliado com a Igreja. Uma cruzada foi decidida, mas o papa morreu em meio aos preparativos.
Cânones da mesma natureza, relativos à disciplina da Igreja, tinham sido objeto dos cuidados de Calixto II no sínodo de Toulouse, onde tinha igualmente tomado medidas contra os petrobrusianos (8 de julho de 1119), e no concílio de Reims de 1119. A sua correspondência abunda em peças que regulam litígios entre mosteiros ou igrejas. Ele favoreceu, nomeadamente, os antoninos no Delfinado.
Calixto II ocupou-se muito das circunscrições eclesiásticas. Como arcebispo de Vienne, ele havia apoiado as pretensões de sua igreja contra a de Grenoble a respeito do pagus Salnvoracensis; foi suspeito de ter feito ou deixado constituir um dossiê de documentos destituídos de autenticidade para combater a rival de Vienne, a cidade de Arles; mas tem-se a prova de que muitos desses documentos, escalonados pelos falsários desde o século XI até ao pontificado de Pascal II, foram empregados e fabricados, em sua maioria, antes de sua ascensão à sé de Vienne. Ocorre que, tornado papa, Calisto II autenticou todo o dossiê com os seus documentos mais recentes. As bulas originais autenticando a coleção foram reencontradas por Ulysse Robert, Bullaire du pape Calixte II, n. 25, 145.
Na Espanha, transferiu os direitos metropolitanos de Emerita (ou Mérida) para a sé de Santiago de Compostela. Uma extensão dos direitos de primazia da sé de Lyon sobre a sé de Sens encontrou oposição no rei Luís VI. Na Itália, Calisto reuniu a diocese de Santa Rufina (Silva Candida) à de Porto, reduzindo assim a seis o número das dioceses suburbicárias.
Na Inglaterra, teve o desapontamento de ver um de seus legados recebido com honra, porém colocado na impossibilidade de cumprir efetivamente o seu encargo. Na interminável rivalidade das sés de Cantuária e de York, apoiou Thurston, eleito arcebispo de York, na sua recusa em reconhecer a primazia da sé de Cantuária. Canonizou São Conrado, bispo de Constança.
Jaffé, Regesta pontificum, t. I, p. 780; Duchesne, Liber pontificalis, 1892, t. I, p. 322, 376; U. Robert, Bullaire du pape Calixte II, 2 in-8°, 1891; as cartas e os opuscula supposita em P. L., t. CLXIII, col. 1093; Watterich, Romanorum pontificum vitæ, 1862, t. II, p. 1145; Hefele, Conciliengeschichte, 2ª ed. por Knöpfler, 1886, t. V, p. 344; Gregorovius, Geschichte der Stadt Rom im Mittelalter, 4ª ed., 1890, t. IV, p. 369; Giesebrecht, Geschichte der deutschen Kaiserzeit, 3ª ed., 1869, t. I, p. 907; U. Robert, Histoire du pape Calixte II, 1891; Maurer, Papst Calixt II, 1886; F. Rocquain, La cour de Rome et l'esprit de réforme avant Luther, Paris, 1893, t. I, p. 138-149; Hauck, Kirchengeschichte Deutschlands, Leipzig, 1896, t. IV, p. 909-916; Stephens, The English Church from the Norman conquest to the accession of Edward I, 1066-1272, Londres, 1901, p. 136-140; Bernheim, Zur Geschichte des Wormser Konkordats, Göttingen, 1898; o texto da concordata de Worms em Monumenta Germaniæ, Leges, sect. IV, Constitutiones imperatorum, t. I, p. 159-161, e em Mirbt, Quellen zur Geschichte des Papsttums, 2ª ed., 1901, p. 115; as Epistolæ Viennenses, em Monumenta Germaniæ, Epistolæ, 1892, t. III, p. 84. Cf. Gundlach, Der Streit der Bisthümer Arles und Vienne, Hannover, 1890 (tiragem à parte com alguns complementos de artigos publicados no Neues Archiv, t. XIV, XV); Duchesne, Fastes épiscopaux de l’ancienne Gaule, Paris, 1894, t. I, p. 162-166.
Autor original: H. Hemmer
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