CAHIER Charles, nascido em Paris, em 26 de fevereiro de 1807, aluno brilhante do colégio de Saint-Acheul, já com um toque de originalidade, entrou no noviciado da Companhia de Jesus em 7 de setembro de 1824; após seu tempo de provação, professou em Saint-Acheul e, após a supressão dos jesuítas na França, em Brieg, no Valais, e em Turim, na Itália; em 1853, foi ainda, por pouco tempo, prefeito no colégio de Brugelette, na Bélgica; mas sua vida foi sobretudo consagrada aos trabalhos de erudição e, especialmente, à arqueologia cristã.
Ocupou um lugar honroso e teve uma influência real no grande movimento que se produziu por volta de meados do século XIX para o estudo e a apreciação mais justa da Idade Média. Sem falar de um bom número de artigos de revistas e de brochuras, tão interessantes pela erudição quanto picantes pelo tom humorístico, o Pe. Cahier deixou obras consideráveis e honradas pelos sufrágios dos melhores juízes, referentes à arte e à arqueologia medieval.
Trata-se, primeiramente, da Monographie de la cathédrale de Bourges. Première partie. Vitraux du XIIIe siècle, in-fol., Paris, 1841-1844. O próprio Pe. Cahier nos ensinou que foi ao aceitar, no final de 1840, a colaboração com o Pe. Martin que ele orientou decididamente sua vida para os estudos de arqueologia e de arte cristã, enquanto suas «verdadeiras inclinações» o levavam «há muito tempo para a história eclesiástica pura». Sua associação com o eminente artista que era o Pe. Arthur Martin durou até 1856, data da morte do segundo, e foi muito fecunda, apesar de uma profunda diferença de caracteres entre os dois associados. O traço elegante e extraordinariamente fácil do Pe. Martin ia recolher por toda parte, visitando os monumentos originais, a vasta matéria artística que o Pe. Cahier deveria, em seguida, classificar, completar pelas aproximações com os documentos já conhecidos, interpretar e comentar.
A primeira parte dos Vitraux de Bourges foi a única publicada pelos dois autores; um «sumário das matérias mais notáveis contidas no texto e nas pranchas» desta obra está inserido na colaboração que se continuou nos Mélanges d’archéologie, d’histoire et de littérature, redigidos ou recolhidos pelos autores da Monographie de la cathédrale de Bourges. Collection de mémoires sur l’orfèvrerie et les émaux des trésors d’Aix-la-Chapelle, de Cologne, etc.; sur les anciens ivoires sculptés de Bamberg, Ratisbonne, Munich, Paris, Londres, etc.; sur des étoffes byzantines, arabes, etc.; sur des peintures, bas-reliefs mystérieux de l’époque carlovingienne, romane, etc., 4 in-4°, Paris, 1848-1856.
O Pe. Cahier publicou sozinho, mas ainda utilizando desenhos de seu confrade, as Caractéristiques des saints dans l’art populaire énumérées et expliquées, 2 in-fol., Paris, 1867.
Mais tarde apareceram os Nouveaux mélanges d’archéologie, d’histoire et de littérature sur le moyen âge par les auteurs de la Monographie des vitraux de Bourges. Curiosités mystérieuses. Ivoires, miniatures, émaux. Décorations d’églises. Bibliothèques, 4 in-4°, Paris, 1874-1877. À frente do 1º volume destes Nouveaux mélanges, o Pe. Cahier colocou uma curiosa notícia sobre seu colaborador falecido. O IV volume termina com um apêndice sobre as Bibliothèques espagnoles, que é do Pe. Jules Tailhan.
Para o Pe. Cahier, a antiga arte cristã era como uma parte da teologia, e é isso que o prendia às suas pesquisas especiais. Ele escreve, a propósito da decoração das igrejas da Idade Média: «Fará arqueologia quem quiser, história da arte, etc.; para mim, vejo aí patrística popular, teologia das pessoas do mundo, catequese tradicional; e este ponto de vista apaga todo outro aos meus olhos. Fico encantado quando o belo vem se juntar a isso como splendor veri, mas é um simples acidente que não é nada perante a substância; e essa substância foi por demais negligenciada. Aliás, quem sabe bem hoje o seu catecismo?» Nouveaux mélanges, 1875, t. III, p. 284.
Ele nos ensinou também que, se tinha «concedido sem demora» sua colaboração ao Pe. A. Martin, em 1840, seu objetivo era «afastar esses intérpretes mais que leigos da Idade Média», que ele via ali «forragear abusivamente» com a pretensão de explicar «à Igreja seu simbolismo, ao padre sua catedral» (Victor Hugo). Ibid., p. 224. E ele caracteriza o que fez com verdade e modéstia, dizendo ainda: «O sentido das obras (sobretudo religiosas) produzidas por nossos ancestrais é o verdadeiro terreno onde posso manobrar quase de pé firme. Meus predecessores ocupavam-se da forma arquitetônica, escultural ou outra; e suas explicações, quando as davam, eram comumente feitas de verve pura: verdadeiras de tempos em tempos, por sorte; mas quase sempre duvidosas ou extremamente recusáveis para os espíritos que não se inebriam de frases e de fórmulas afirmativas. Quanto a mim, se valho algo nestas matérias, é por ter afastado resolutamente a fantasia e a poesia (ou prosa poética) descritiva, ao mesmo tempo que as soluções peremptórias.» Ibid., Prefácio, p. vii.
O estilo do Pe. Cahier não tem nada de moroso; nele reina uma bonomia gaulesa, que realçam palavras incisivas, aguçadas pela franqueza e pelo amor do verdadeiro, jamais por um sentimento baixo ou maldoso. Os literatos delicados acham-no por vezes negligenciado demais, abandonado demais, como uma conversa onde abundam digressões e parênteses. Ele sabe, contudo, também expressar considerações belas e altas, com o tom apropriado, e, sempre sério e grave no fundo, nunca entedia. De Backer et Sommervogel, Bibliothèque de la Cie de Jésus, t. I, col. 515-518; Ch. Daniel, S. J., L’art et l’archéologie dans l’iconographie chrétienne, à propos des Caractéristiques des saints, nas Etudes religieuses, setembro e novembro de 1868, p. 353-377, 729-750.
Autor original: Jos. Brucker
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