BULL (BULLUS) Georges, célebre teólogo anglicano da escola de Andrews, de Laud, de Hammond, de Taylor, e adversário resoluto tanto das teorias presbiterianas quanto da Igreja Católica, nasceu em 25 de março de 1634 em Wells, no condado de Somerset. Dedicado desde cedo ao estado eclesiástico, foi provido por longo tempo apenas com benefícios bastante escassos. Não obstante, persistiu em dedicar-se ao estudo e vendeu até seu patrimônio para poder comprar livros. Os vastos conhecimentos de Bull e suas obras retiraram-no ao final da obscuridade e abriram-lhe a porta das honras. A universidade de Oxford, em 1686, conferiu-lhe o barrete de doutor em teologia. Bispo de Saint David em 1705 e membro da Câmara dos Lordes, morreu no mês de fevereiro de 1710.
Georges Bull, ao que parece, escreveu muito mais do que publicou. Em sua Harmonia apostolica, a primeira obra que fez publicar, 1669-1670, ele combate o dogma protestante da justificação pela fé somente, Reformate Ecclesia opprobrium ac dedecus, com um vigor que Moehler em sua Symbolique não superou, sobre este fundamento de que a epístola de São Tiago, posterior em data à epístola aos Romanos, é a explicação desta e que São Tiago deve ser tido por intérprete autêntico de São Paulo. O livro, na Inglaterra, desencadeou sobre a cabeça do autor uma tempestade; conformistas e não conformistas atacaram-no por emulação. Bull, sem se desconcertar, ripostou, em 1675, aos uns e aos outros, àqueles em seu Examen censurae, a estes em sua Apologia pro Harmonia; e pode-se dizer que, no seio da Igreja episcopal, a doutrina da justificação pela fé, por mais apoiada que esteja sobre os trinta e nove artigos, não se reergueu dos golpes de Georges Bull. Ver Dellinger, L’Eglise et les Eglises, trad. fr., Paris, 1862, p. 106.
A esta polêmica vincula-se a mais importante e a mais famosa das obras de Bull. Por ter sustentado a necessidade das boas obras, o teólogo inglês havia incorrido da parte de seus antagonistas, se não na acusação formal, ao menos na suspeita de socinianismo. É a fim de lavar-se disso, disse-se, e de colocar sua ortodoxia fora de contestação que compôs sua Defensio fidei Nicenae, a qual permaneceu vários anos manuscrita por falta de editor, e só foi publicada em 1685, graças à liberalidade do doutor Fell, bispo de Oxford. Livro de uma ciência extensa e de uma excelente latinitas, no qual Bull se esforça por mostrar, contra tudo e contra todos, o acordo perfeito, até um iota, dos Padres antenicenos e do símbolo de Niceia, mas que é inspirado e prejudicado por uma concepção muito estreita do desenvolvimento doutrinal. Pois, segundo Bull, o desenvolvimento doutrinal não é nada mais que uma pura questão de terminologia; através das mudanças de formas e de expressões, a ciência sagrada não nos oferece em lugar nenhum um progresso dialético, um progresso de luz e de certeza; o próprio nome de história do dogma não é senão um logro e um engano.
Se formos acreditar em Richard Simon, o desígnio de Bull era menos justificar os Padres de Niceia do que abrir brecha no dogma da transubstanciação. «Quando se opõe aos católicos, escreve R. Simon, que o concílio de Latrão, sob o papa Inocêncio III, não teve provas suficientes para estabelecer este dogma, os católicos respondem que a consubstancialidade do Verbo, que foi definida no concílio de Niceia, não tem provas mais claras na antiguidade, que, contudo, os protestantes, que fazem esta objeção, reconhecem como ortodoxa a fé do concílio de Niceia. Bullus, que havia sentido a força deste raciocínio, julgou que, para responder a isso, era absolutamente necessário refutar o Pe. Petau, e é a isso que não prestaram atenção a maior parte dos católicos, que, não conhecendo o desígnio de Bullus, dão a este autor louvores excessivos.» Ver os Mémoires de Niceron, Paris, 1787, t. XXXVII, p. 156. De fato, Bossuet, a quem R. Simon parece aqui fazer alusão, compraz-se em destacar a erudição e a candura de Georges Bull. Ver 3e et 6e avertiss. sur les lettres de M. Jurieu.
Em 1694, Bull publicou, sob o título de Judicium Ecclesiae catholicae, uma espécie de suplemento à sua Defensio fidei Nicenae. Nele, ele derruba uma tese de Episcopius e faz ver que o dogma da consubstancialidade do Verbo e da divindade de Jesus Cristo sempre foi, até no período anteniceno, um dos artigos fundamentais da fé católica. Veio então uma terceira obra, Primitiva et apostolica traditio, contra a teoria de Daniel Zwickler, que classificava a divindade do Verbo e sua encarnação entre os frutos da imaginação dos heréticos dos primeiros tempos. Bull deixou, portanto, sobre a questão trinitária uma espécie de trilogia.
Desta trilogia saiu muito incidentalmente uma quarta obra, que, sobre um assunto totalmente à parte, caracteriza os teólogos anglicanos, ao refletir seu ódio de Roma e da Igreja romana. Bossuet, encantado com a leitura da Defensio e do Judicium, havia felicitado calorosamente o autor e espantado-se de que Bull não tivesse retornado ao redil da Igreja. Às propostas de Bossuet, Bull respondeu com seu livro Des corruptions de l’Eglise de Rome, livro cujo título apenas diz o suficiente sobre o espírito e explica a popularidade entre os ingleses do século XVIII.
Ernest Grabe deu uma edição completa das obras latinas de Bull, in-fol., Londres, 1703. Mas a melhor edição é a de Burton, 7 in-8°, Oxford, 1827. A Defensio fidei Nicenae foi publicada de novo pelos cuidados do professor Zola, Pavia, 1784. Número de sermões de Bull também apareceram em inglês, 3 in-8°. Nelson, Life of bishop Bull; Encyclopedia britannica, t. IV, p. 517; W. Hunt, no Dictionary of national Biography de Leslie Stephen, Londres, 1886, t. VII, col. 236 sq.
Autor original: P. Godet
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