BRUCOLAQUE

BRUCOLAQUE

BRUCOLAQUE. Nas superstições populares dos gregos e dos eslavos, fantasma malfazejo que se imagina sair à noite do túmulo.

I. Nome. II. Quem se torna brucolaque. III. Meio de escapar à sua influência. IV. Origem dessa crença.

I. Nome. — Este nome reveste uma multidão de formas. Ao lado de Βουρδουλακας e de Βουρδουλακας, que são as mais frequentes, encontram-se Βουρδουλακας, Βουρδουλακας, Βουρδουλακας, ou ainda Βουρδουλακας, Βουρδουλακας, Βουρδουλακας, Βουρδουλακας, Βουρδουλακας, Βουρδουλακας, Βουρδουλακας, e mesmo Βουρδουλακας, Βουρδουλακας, Βουρδουλακας. O verbo que deriva dele e que significa tornar-se brucolaque, comporta ele também várias ortografias. As mais usadas são as seguintes: βουρδουλακιαζω, βουρδουλακιαζω, βουρδουλακιαζω, βουρδουλακιαζω, etc.

De resto, não há apenas esta palavra para exprimir o ser imaginário em questão. Designa-se aqui por καταχθονιος, o exterminador, o glutão; lá por γαστριμαργος, o ventrudo; alhures por αντιπαθουμενος (= ανακαλυπτομενος), o revenante; em outros lugares por κατσικας, o cabreiro, sem falar das expressões mais raras de βρυκολακας, βουρκολακας ou βουρκολακας, ανθρωποφαγος, αστριγγελος, etc.

Os sábios deram-se ao trabalho de fornecer uma etimologia aceitável para a palavra brucolaque. A maioria fá-la derivar do nome eslavo que designa o lobisomem. Não se pode, com efeito, deixar de reconhecer entre este último nome e o termo que nos ocupa uma grande analogia. O lobisomem chama-se em eslavo vlkodlak, em esloveno volkodlak e vukodlak, em búlgaro vrkolav’k, vrlak, frkulav’k, vrakalok, em sérvio vukodlak, em boêmio vlkodlak, em polonês vilkoljak, vilkoljek, em albanês vourvoljak, em romeno varcolac, valcolac, em turco vourcolak, etc. Neste composto, a primeira parte deriva do eslavo vluku, "lobo", e a segunda de um termo hoje perdido, mas que se reencontra em sérvio sob a forma dlak e em antigo boêmio sob a forma tlak, e que significa pelo. Brucolaque significaria, pois, etimologicamente lobo de pelos.

Apressemos-nos, porém, a acrescentar que há entre o lobisomem e o brucolaque uma diferença essencial. Enquanto o primeiro desses termos designa um homem vivo que reveste a forma de lobo para melhor prejudicar os seus semelhantes, o segundo designa apenas um homem já morto que sai à noite do seu túmulo. Para verter a palavra brucolaque por um termo que lhe corresponda em realidade, é por vampiro que se deve traduzi-la. Ainda assim, esta última palavra ultrapassa o sentido da primeira. O vampiro é um ser malfazejo que suga o sangue dos vivos durante o seu sono; o brucolaque é muitas vezes isso, mas muitas vezes também é um simples revenante, pelo menos na crença popular dos gregos, cujo cadáver é momentaneamente vivificado por uma alma de empréstimo que não é outra senão o diabo.

Assim, os gregos, que não querem dever nada aos estrangeiros, nem mesmo um simples artigo do vocabulário, ligam de preferência o nome que nos ocupa a duas velhas palavras clássicas, diferentes de forma, mas de mesmo sentido, as de βορβοροδης e de βορβοροδης; a primeira teria produzido a forma Βουρδουλακας e os seus congêneres, a segunda a de Βουρδουλακας. Esta etimologia, já proposta por Coray na sua edição de Heliodoro, t. II, p. 5, 119, e nos seus "Ατακτα, t. I, p. 84; t. V, p. 31, acaba de ser retomada e vigorosamente defendida por N. G. Politis, Μελεται περι του βιου και της γλωσσης του ελληνικου λαου, Atenas, 1901, t. III, p. 261. Devo, de resto, acrescentar que ela tem muito menos verossimilhança que a primeira.

II. Quem se torna brucolaque. — Se a origem da palavra é duvidosa, a crença que ela recorda é por demais real. Por que, após a sua morte, torna-se alguém brucolaque? Os motivos, infelizmente, não faltam.

1º Se um homem cometeu durante a sua vida grandes pecados, se morreu sobretudo antes de ter sido levantada uma excomunhão incorrida, a terra não saberia guardá-lo no seu seio, seguindo estas frequentes imprecações populares: Να μην τον δεχθη η γη, το χωμα να τον ξεραση, e ele cai fatalmente no vampirismo. Um destino análogo espera qualquer um que coabite com a sua madrinha ou foi concebido na origem num dia de grande festa, o dia da Anunciação em particular. Tais concepções votam de antemão ao vampirismo as criaturas que são o seu objeto; chamam-nas, com um termo difamante, τα αφορισμενα, isto é τα αφορισμενα; elas expiam, de resto, por uma morte precoce o crime dos pais. É preciso classificar na mesma categoria as vítimas do aborto e os mortos sem batismo, aqueles que mortem de uma ferida ou que se afogam e, em geral, todos aqueles que uma morte violenta arranca à vida ou que se vão deste mundo malditos pelos seus pais, ou por cima de cujo cadáver um animal, um gato sobretudo, ou um homem teria saltado. Aqueles que não pertencem à Igreja ortodoxa, os latinos e os turcos, por exemplo, são muito mais sujeitos que os bons ortodoxos a este triste destino. O contrário teria sido muito surpreendente. Certos desses preconceitos não datam de ontem; eles já são combatidos por São João Crisóstomo em dois dos seus discursos, de onde ninguém até aqui se lembrou de os extrair. Na sua Concio II de Lazaro, P.G., t. XLVIII, col. 983, o santo doutor exprime-se assim: Πολλοι των αφελεστερων νομιζουσι τας ψυχας των βιαιω θανατω τελευτωντων δαιμονας γινεσθαι. E alhures, In Matth., homil. XXVII, 2, P.G., t. LVII, col. 353, o mesmo Pai utiliza uma fórmula muito mais geral: Τι δηποτε δη και τοις παροις συμβουλευεσθαι; Ολεθριον δογμα τοις πολλοις ενθειναι βουλομενοι, οιον οτι αι ψυχαι των απελθοντων δαιμονες γινονται. Estes δαιμονες em que passam as almas de certos mortos não são outra coisa que os βουρδουλακες do folclore moderno.

2º Não é somente pelo seu género de vida ou de morte, mas ainda por certos sinais exteriores que se trai o brucolaque. Eis um cadáver que não se decompõe e cuja pele fortemente esticada e horrivelmente tumefeita toma a forma de um tambor; não há dúvida: é a um brucolaque que se tem de lidar. Assim, entre os castigos com que se ameaça os excomungados, não se deixa nunca, hoje ainda, de mencionar esse pela fórmula protocolar: ο τοιουτος ειν... τυμπανιαιος και μετα θανατον αλυτος; em outros termos, que ele seja brucolaque, pois é bem a esse género de castigo póstumo que fazem alusão as expressões supracitadas ou outras semelhantes, sem as quais não se concebe no mundo ortodoxo de verdadeira excomunhão.

3º Não sofrer os efeitos da decomposição e permanecer inchado como um tambor fortemente esticado, eis uma condição indispensável para se tornar brucolaque; mas isso não basta. É preciso ainda que, sob a ação de um mau demônio, o cadáver assim tumefeito saia do túmulo e vá sugar o sangue dos animais ou dos homens, depois sufocá-los no seu sono. É às pessoas que lhe eram mais caras durante sua vida, aos membros de sua própria família, que ele ataca de preferência. Mais de um provérbio popular menciona essa predileção do brucolaco, este, por exemplo: "Eyivinne Boixddanac xal tomyer an’ th yevie tov", que se encontra com variantes diversas em todos os pontos do mundo grego. Ver N. G. Politis, op. cit., t. 111, p. 259-265.

Um homem vem a morrer de uma doença desconhecida, faz-se dele imediatamente a vítima de um brucolaco. As visitas deste último ocorrem sobretudo à noite. Ele bate às portas e chama alguém da casa; se este tiver a imprudência de responder, morre no dia seguinte; mas não há perigo algum em responder a um segundo chamado, pois o brucolaco nunca chama senão uma vez. Frequentemente ele se comporta como um simples poltergeist, derrubando os móveis, apagando as lâmpadas, batendo nas pessoas ou montando em suas costas; se ele deixou uma viúva ao morrer, ele vem por vezes coabitar com ela. É ordinariamente durante a noite que ele se entrega a essas excentricidades e a cem outras semelhantes; mas ele opera também durante o dia, e então sua ação nem sempre é malfazeja. Citam-se brucolacos que velaram pela manutenção de sua família; um sapateiro de Santorini vinha remendar, no século XVII, os sapatos de seus filhos. Fr. Richard, Relation de ce qui s’est passé de plus remarquable a Sant-Erini, ile de l’Archipel, depuis l’établissement des Péres de la Compagnie de Jésus en icelle, in-8°, Paris, 1657, p. 208 sq.

III. MEIOS DE ESCAPAR À SUA INFLUÊNCIA. — Como se abrigar desses seres importunos? A resposta encontra-se inteiramente no Nomocanon de Manuel Malaxos, que serviu durante quatro séculos de único manual de direito canônico ao clero grego. Ei-la textualmente: _ Teevpe be ott, Otay evpeb TOUTO TO astbavoy, <0 émotoy clive. 2oyov TOD Sta6ddov, we EiToUe, vaxaréante tous lepetc vie VAP AovY TAPAXANOL Tis VeotdxoU, va zdyovv xal ulxpov aytacuoy, cit v& evtoupyncouy xal va SUadcouv mavaylay etc GorPerav movtrwy xab vx xiuovv xal uvqudcuva pete xorAv6wv. Elta tovs d&popxta- povg tod weycdov Bacthefov xak toe d30 d&popxtopovc ths Bameioswc Crabaters amavW eto TO hettpavov. TOTe pe uae) dey Lous yc én0d EXOLES Too yixpod AY LAKop.0d va pgving TOV adv, omov 6 va ty exet, xat Td TEotaadtepOv v& tO ywons ttave ele 70 Detbavov" xaL xKLTt Notorod gevyet Td Boy.d- viov an’ adc to Aetbavoy. Ver Allatius, De Grecorwm hodie quorundam opinationibus, Cologne, 1645, p. 144; Nomocanon manuscrit de la bibliothéque des assomp- tionnistes 4 Cadi Keui, p. 68.

Em geral, começa-se por celebrar um serviço (uynydovvov) para o defunto suspeito de vampirismo. Em caso de insucesso, abre-se o túmulo e, se o cadáver apresentar os sinais exteriores indicados mais acima, o padre pronuncia sobre ele os exorcismos e o libera da excomunhão recitando uma fórmula entregue pelo bispo do local. Pode-se ver exemplos disso em Goar, Euchologion, Paris, 1637, p. 686-690. Feito isso, o cadáver deve entrar em decomposição, contanto, todavia, que o tenham exumado em um sábado, o único dia da semana em que o brucolaco não pode deixar o túmulo. Se a decomposição tarda a vir, não resta senão recorrer aos meios violentos: arrancar o coração do morto e queimá-lo com o restante do cadáver após tê-lo reduzido em pedaços, ou ainda pregar solidamente o defunto pelas mãos e pelos pés, e entregá-lo às chamas. Mas, como a polícia proíbe hoje essas medidas, limita-se muitas vezes a desenterrar o cadáver muito irrequieto para ir sepultá-lo novamente em algum ilhéu solitário, de onde não sairá mais, pois o brucolaco não pode atravessar a água salgada.

IV. ORIGEM. — Essa curiosa crença, que é muito difundida em todo o mundo grego, deve vir de muito longe; ela se vincula sem dúvida à doutrina dos antigos sobre o estado das almas após a morte. Segundo Platão, Phedon, p. 81, as almas dos maus, em punição de sua vida anterior, erram ao redor dos túmulos como sombras. Do mesmo modo, uma alma saída do corpo por uma morte violenta não podia gozar de repouso. Ver — BRUEYS Lucien, Philops., 29; Héliodore, Acthiop., ii, 5; S. Jean Chrysostome, lac. cit.

Seguindo uma crença comum aos gregos e aos romanos, se um defunto permanecia sem sepultura ou se seus funerais eram feitos fora dos ritos estabelecidos, sua alma, em vez de descer aos infernos, era condenada a errar sem descanso à superfície da terra. Homére, Iliad., xxi, 71 sq.; Odys., xi, 51 sq.; xii, 12; Virgile, Aen., vi, 325 sq.; Pline, Epist., vii, 27, 5-11; Lucien, Philops., 38 sq.; Tertullien, De anima, c. LVI, P. L., t. 11, col. 745-746. E, para falar de outro caráter dos brucolacos, certos autores da antiguidade fazem menção de cadáveres que se nutrem do sangue dos vivos. Euripide, Hécube, 536 sq.; Sophocle, Oedipe Col., 621 sq. Outros nos representam espectros que se obstinam em dar a morte aos vivos, Zenobius, Centur., 1, 3; Pausan., 1, 3, 7; vi, 6, 7-10; ix, 38, 9. Esses exemplos bastam para mostrar que, se os gregos emprestaram aos povos vizinhos, aos eslavos sobretudo, alguns traços de seu vampirismo, eles receberam o maior número deles da própria antiguidade.

Aos elementos fornecidos pela tradição clássica, misturaram-se desde cedo aportes novos provenientes das ideias cristãs. Que um cadáver saia do túmulo, não é mais, como no paganismo, sob a influência de uma alma privada de todo repouso; é o demônio que dele se apoderou e que cumpre por seu intermédio mil delitos. Assim, os melhores meios de preservação são diretamente dirigidos contra o espírito mau. A cruz, sobretudo, desempenha um grande papel. Em Rodes, deposita-se na boca do morto uma velha moeda, sobre a qual o padre desenhou previamente os cinco alfas místicos e a legenda: "Iesous Christos Nika". Alhures, espalha-se sobre o cadáver um pouco de óleo tirado de uma lâmpada que queima diante de uma imagem de São João Batista. Outros procedimentos, absolutamente revoltantes, não são nem cristãos nem pagãos; é pura selvageria. Ver os Echos d’Orient, t. VII (1904), p. 26 sq. Sabe-se que os gregos têm sobre o destino da alma após esta vida ideias bastante flutuantes.

Não se ficará, portanto, muito surpreso ao saber, e é por aí que eu gostaria de terminar, que, uma vez pronunciada a absolvição sobre o brucolaco, sua alma, até então nas mãos do diabo, vai direto para o paraíso. Tal é, ao menos, a afirmação de Malaxos. Ver Allatius, op. cit., p. 157.

Os preconceitos dos eslavos sobre os brucolacos são, à exceção de alguns detalhes, idênticos aos dos gregos. Entre os sérvios, atribui-se frequentemente aos vlkodlaci os eclipses do sol ou da lua. Mesma crença entre os habitantes da Ucrânia, e também entre os romenos, embora, para estes últimos, os vrykolakas sejam, na maioria das vezes, as almas errantes das crianças mortas sem batismo. Mas, à medida que nos aproximamos dos povos germânicos, na Boêmia, por exemplo, o vlkodlak tende a se confundir com o "homem-lobo", com o lobisomem.

Os brucolacos foram objeto de uma multidão de artigos mais ou menos extensos e completos. Limitemo-nos a citar os principais: Allatius, De templis Grecorum recentioribus, ad Joannem Morinum; de narthece ecclesie veteris, ad Gasparem de Simeonibus ; nec non de Grecorum hodie quorundam opinationibus, ad Paullum Zacchiam, in-8°, Colônia, 1645, p. 142-158; Tournefort, Voyage du Levant, Lyon, 1747, t. 1, p. 158-164; Roidis, Οι βρυκόλακες του μεσαίωνος, em Vretos, ’Ebytxdy “Hyzgohdytov do ano de 1869, p. 412-421; B. Schmidt, Das Volksleben der Neugriechen, in-8°, Leipzig, 1871, p. 157-171; C. Jirecek, Das Fiirstenthum Bulgarien, in-8°, Viena, 1891, p. 99-102; C. F. Abbott, Macedonian Folklore, in-8°, Cambridge, 1903, p. 217-222.

Um estudo completo será publicado por N. G. Politis, no artigo Ψυχή (alma), em suas Μελέται περί τοῦ βίου καί τῆς γλώσσης τοῦ ἑλληνικοῦ λαοῦ, atualmente em curso de publicação na Biblioteca Marasli.

Autor original: L. Petit

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