BOGOMILOS

BOGOMILOS

BOGOMILOS. — I. História. II. Doutrinas.

I. História. — Os bogomilos formaram uma das seitas dualistas que, desde o gnosticismo até o albigensismo, sucederam-se ao longo da história da Igreja. Questionou-se se, entre essas seitas e, particularmente, entre os bogomilos e os cátaros do Ocidente, existiu um vínculo de dependência propriamente dita. As opiniões variaram a esse respeito. Parece que os bogomilos foram, ao menos, um ramo do catarismo, e que as origens do catarismo, tanto ocidental quanto oriental, assim como as do bogomilismo, devem ser buscadas na Bulgária. Cf. C. Schmidt, Histoire et doctrine de la secte des cathares ou albigeois, Paris, 1849, t. 1, p. 2, 12; t. 11, p. 265, 271; L. Leger, na Revue des questions historiques, Paris, 1870, t. vi, p. 495; A. Rébelliau, Bossuet historien du protestantisme, Paris, 1891, p. 475-484.

Da mesma forma, o termo bogomilo foi diversamente explicado. Adotou-se durante muito tempo a etimologia de Euthymius Zygabene, Panoplia dogmatica, tit. xxvil, P. G., t. Cxxx, col. 1289, segundo a qual ele seria composto pelas palavras búlgaras Bog = Deus e miloui = tem piedade, e teria sua razão de ser no costume dos bogomilos de repetir a fórmula: "Deus, tem piedade de nós." Sabe-se agora que bogomilo vem do búlgaro Bog = Deus e miloi = amigo, e que é a tradução literal do nome grego Teófilo. Um uso de várias seitas dualistas era que os doutores ou chefes da seita portassem dois nomes: geralmente, escolhiam para segundo nome o de um personagem evangélico ou de um discípulo dos apóstolos, notadamente de São Paulo. O fundador do bogomilismo optou pelo de Teófilo e foi chamado, na língua de sua nação, de papa Bogomilo. Cf. Leger, Revue des questions historiques, t. vii, p. 486-487.

Acrescentemos que seus discípulos não se denominavam bogomilos, mas cristãos; essa apelação foi-lhes dada pelos gregos. Sobre os outros nomes que receberam, cf. Euthymius Zygabene, P. G., t. CxxxI, col. 39, 41, 47, e as explicações de J. Tollius, Insignia itineris italici, Utrecht, 1696, p. 122.

Do papa Bogomilo, fundador do bogomilismo, os textos gregos e latinos não falam; sua existência foi revelada pelos textos paleoeslavos. Chamava-se talvez, a princípio, Jeremias, viveu sob o reinado do tsar búlgaro Pedro e começou a dogmatizar em público entre 927 e 950. A Bulgária encontrava-se em condições favoráveis à propaganda das novidades que ele ensinou; o cristianismo, de importação recente, era ali combatido pelo judaísmo e pelo islamismo, por armênios sectários de Eutiques e por duas seitas cujas doutrinas o bogomilismo retomou e amálgama: os paulicianos dualistas e os euquitas ou massalianos gnósticos. Os detalhes da história do papa Bogomilo são desconhecidos.

O bogomilismo adquiriu cedo uma certa importância. Não tardou a dividir-se em duas igrejas divergentes, das quais teremos de falar ao tratar das doutrinas bogomilianas. Seu centro principal foi Filipópolis (Plovdiv), na Trácia. De uma e de outra igreja, irradiou-se em todas as direções. Desde a segunda metade do século XII, havia ganhado Constantinopla. Em 1118, o imperador Aleixo Comneno soube que os bogomilos existiam naquela cidade e que nela haviam feito muito progresso. Seu chefe era um monge médico, de nome Basílio, que pregava cercado por doze companheiros, que ele designava como seus doze apóstolos. O imperador deu ordem de que o trouxessem a ele e, para conhecer os segredos da seita, fingiu querer fazer parte dela. Lisonjeado por essa promessa, Basílio expôs francamente suas doutrinas, enquanto um taquígrafo, escondido atrás de uma cortina, escrevia suas palavras. Quando Basílio terminou, a cortina caiu; na presença dos membros notáveis do clero e do conselho do império, leu-se a exposição de Basílio. Este a confirmou e, porque não consentiu em retratar-se, foi condenado à morte e queimado no hipódromo. A maioria de seus partidários abjurou por medo dos suplícios. Aleixo Comneno ocupou-se em converter, por seus discursos, os bogomilos que permaneceram firmes em suas crenças e confiou a missão de refutá-los ao monge Euthymius Zygabene.

O bogomilismo enfraquecido não sucumbiu. Em 1140, o sínodo de Constantinopla prescreveu que fossem lançados ao fogo os escritos de Constantino Crisomale, impregnados pelas ideias da seita e lidos com avidez em mosteiros. Três anos mais tarde, foram depostos dois bispos da Capadócia que haviam aderido a essa heresia; Cosme, patriarca de Constantinopla, foi deposto, por sua vez, por ter favorecido o monge bogomilo Nifon (1147). Durante esse tempo, o bogomilismo havia prosseguido sua marcha na Bulgária. No final do século XII, havia se introduzido na Sérvia, de onde uma repressão enérgica o fez desaparecer. No começo do século XIII, penetrou na Bósnia e, em seguida, na Eslavônia. Quando, após a tomada de Constantinopla pelos cruzados, a sede do império grego e do patriarcado de Constantinopla foi transferida para Niceia, os bogomilos apareceram na Ásia Menor e dedicaram-se ali a um ardente proselitismo; o patriarca Germano combateu-os (1226) pela palavra e pela pena.

Comunidades bogomilas haviam, aliás, permanecido na península helênica; condenações foram proferidas contra a seita pelos sínodos que se realizaram em Constantinopla, em 1316 e em 1325. Elas não a impediram de atingir o Monte Athos, onde massalianos, bogomilos e hesicastas misturaram mais ou menos suas divagações. Na Grécia, na Bulgária, na Bósnia, os bogomilos sobreviveram até a conquista desses reinos pelo islamismo. A Santa Sé identificava-os com os cátaros do Ocidente e designava-os, como a eles, sob o nome de patarinos, mais ainda do que sob o de cátaros; eles mesmos davam-se o nome de cristãos, e textos eslavos chamam-nos bogomilos. É provável que os bogomilos bósnios e búlgaros abraçaram a fé dos muçulmanos vencedores. Sobre a persistência da memória dos bogomilos na Bulgária, cf. H. Dfoulcet, no Bulletin critique, Paris, 1895, nova série, t. 1, p. 169-170. Ver BÓSNIA-HERZEGOVINA e BULGÁRIA.

II. DOUTRINAS. — Não há o que mencionar, "senão para memória", a opinião sustentada no século XVIII por vários escritores protestantes, notadamente por J. L. Mosheim, Prodromus historiae bogomilorum critice, em Heumann, Nova sylloge dissertationum, Rostock, 1754, t. 1, p.

"de que os bogomilos, longe de terem ensinado uma doutrina dualista, professaram o cristianismo em sua pureza primitiva e só foram acusados de heresia pela má-fé de seus adversários." Schmidt, Histoire et doctrine de la secte des cathares ou albigeois, t. 11, p. 266.

O dualismo foi certamente a base do bogomilismo. Na origem, o dualismo bogomilo foi absoluto: admitia a perfeita igualdade dos dois princípios, um e outro eternos. Uma tendência a mitigá-lo manifestou-se rapidamente; atribuiu-se a eternidade apenas ao princípio bom, Deus supremo, e sustentou-se que o princípio mau foi um espírito criado bom, mas que se destacou do princípio bom por um ato de seu livre-arbítrio.

Daí, entre os bogomilos, dois sistemas, ou, como se expressam os documentos ocidentais, duas ordens: o búlgaro, ordo de Bulgaria, que adotou o dualismo mitigado, e o ordo de Dugrutia (Tragurium, mais tarde Trau, na Dalmácia, segundo Schmidt, Histoire et doctrine de la secte des cathares ou albigeois, t. 1, p. 15-16, 58, ou melhor, segundo Leger, Revue des questions historiques, t. vii, p. 493, «o país onde permaneciam os Apayouvérrat, isto é, o povo búlgaro-eslavo dos dragovicianos», na Trácia sobre o rio Dagrovica, próximo a Plovdiv, e na Macedônia, não longe de Tessalônica): este último professou um dualismo rigoroso. Os dois sistemas passaram para o catarismo ocidental. Cf. ALBIGEOIS, t. I, col. 678.

Eis as grandes linhas do dualismo mitigado, tal como prevaleceu em Constantinopla ao início do século X e tal como nos apresentam os escritos de Euthymius Zygabéne, que são a fonte a melhor e a mais rica para conhecer as doutrinas bogomilianas. O Deus supremo, o Pai, é uma substância espiritual, embora se diga, por figura, que ele tem a forma humana, uma vez que ele serviu de protótipo ao homem. Ele tem dois filhos, Satanaél e Jesus. Satanaél, o primogênito, foi instituído governador do reino celeste e dotado da virtude criadora. Embriagado de orgulho, ele se revoltou contra seu Pai e arrastou anjos em sua revolta. Ele foi expulso do céu com eles. Então ele criou o mundo terrestre e fez Adão de um pouco de lodo, mas sem conseguir comunicar-lhe a vida; quando o teve erguido sobre seus pés, do pé direito de Adão saiu um humor que se transformou em serpente e, com ela, passando para o corpo da serpente, o espírito com o qual Satanaél quisera animar o homem. Em sua impotência, Satanaél pediu uma dama ao Pai, que enviou ao homem uma centelha de vida do pleroma, sob a condição de que o homem pertenceria em comum a Satanaél e a ele. A criação de Eva foi semelhante. Satanaél seduziu Eva e teve dela Caim e uma filha, chamada Calomena; em seguida, Eva GEROU Abel de Adão. Satanaél, após essa sedução, foi despojado de sua beleza e do poder de criar, mas Deus lhe abandonou o governo da terra, esperando que as almas resistissem à influência do mal. Não foi assim, os homens perderam-se em multidão. Para salvá-los, Deus, no ano 5500, fez sair de seu coração seu Verbo ou seu filho Jesus, chamado também o Cristo ou o arcanjo Miguel. Jesus entrou em Maria pela orelha direita (cf., sobre esta opinião, Schmidt, Histoire et doctrine de la secte des cathares ou albigeois, t. II, p. 41-42), revestiu uma aparência de corpo, venceu Satanaél, chamado doravante Satanás, a sílaba el sendo retirada, a qual lembrava sua origem celeste, e retornou ao céu, onde tomou o lugar de Satanaél à direita do Pai; ao remontar ao céu, ele deixou o Espírito Santo que ele produziu para completar sua obra.

O Espírito habita entre os bogomilos e os torna aptos a ir ao céu; sua morte não é uma morte propriamente dita, mas uma sorte de sono isento de dor, durante o qual eles revestem a natureza imortal e divina do Cristo e se despojam do corpo que cai em pó e não ressuscitará. De resto, desde este mundo, eles veem, não em sonho, mas em realidade, o Pai sob os traços de um ancião de longa barba, o Filho sob aqueles de um jovem que começa a ter barba, o Espírito Santo sob aqueles de um adolescente imberbe. Os outros homens pertencem aos demônios. E, porque Satanás e seus demônios podem ainda prejudicar, é preciso honrá-los, a fim de escapar à sua cólera.

Ao fim dos tempos, o Espírito Santo por sua vez ganhará o céu e se absorverá, com o Verbo, no Pai; ele constitui, portanto, com o Pai e o Verbo, uma Trindade que supõe, segundo a expressão de Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, Munique, 1890, t. I, p. 37, «uma extensão da mônada divina em tríade e uma contração da tríade na mônada originária». Os livros do Antigo Testamento, se se exceptuam os salmos e as profecias, são obra de Satanás e devem ser repudiados. O Novo Testamento é recebido, mas interpretado, com grande reforço de alegorias, no sentido bogomiliano; por exemplo, o administrador infiel da parábola, que diminui a dívida dos devedores de seu mestre, não é outro senão Satanaél, seduzindo os anjos rebeldes pela promessa de deveres menos difíceis de cumprir.

Encontra-se, entre os bogomilos, com o dualismo, as outras doutrinas cujo conjunto constitui o catarismo primitivo: a rejeição do batismo de água e do batismo das crianças, a comunicação do Espírito Santo pela imposição das mãos, a condenação do casamento, a condenação da alimentação animal, a negação da presença real na eucaristia, o desprezo da cruz e das imagens, assim como dos edifícios afetados ao culto. Eles olhavam o Pai-Nosso como a única oração permitida aos cristãos. À diferença dos cátaros do Ocidente, eles acreditavam legítimo recorrer à mentira para escapar às perseguições, justificando essa conduta por uma palavra que atribuíam a Jesus Cristo: «Salvai-vos por astúcia». Euthymius Zygabéne, Liber invectivus, P.G., t. CXXXI, col. 55-56, atribui-lhes abominações sacrílegas e conta que os chefes exigiam dos novos adeptos o compromisso escrito de nunca retornar à fé cristã.

I. FONTES ANTIGAS. — Sobre as fontes eslavas, cf. Leger, Revue des questions historiques, t. VII, p. 480-481; a principal é o Discurso do santo sacerdote Kosma sobre os hereges, Agram, 1854, cf. L. Leger, na Revue des cours littéraires, Paris, 1869, t. VI, p. 573-576. Entre as fontes gregas, é preciso citar sobretudo Euthymius Zygabéne, Panoplia dogmatica, tit. XXV, P. G., t. CXXX, col. 1289-1332; Confutatio et eversio impia et multiplicis execrabilium massalianorum secta, P. G., t. CXXXI, col. 39-48; Liber invectivus contra heresim hæreticorum qui phundagiate dicuntur, P. G., t. CXXXI, col. 47-58; cf. K.

Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Litteratur, 2ª edição, Munique, 1897, p. 84-85; sobre escritos inéditos de Euthymius, cf. Leger, Revue des questions historiques, t. VII, p. 480, nota.

Ver ainda Georges Cédréne, Historiarum compendium, P. G., t. CXXI, col. 559-560, 595-596 (dá já, por antecipação, o nome de bogomilos aos massalianos); Ana Comnena, Alexiadis, l. XV, P. G., t. CXXXI, col. 1467-1486; João Cinamo, Historiarum, l. II, c. x, P. G., t. CXXXIII, col. 383-386; João Zonaras, Annalium, l. XVII, c. xx, P. G., t. CXXXV, col. 305-306; Teodoro Balsamon, In can. 51 apost., In can. 14 conc. Ancyr., In can. 19 conc. Gangr., P. G., t. CXXXVII, col. 141-142, 1161-1162, 1265-1266, e In Photii Nomocanon., tit. ix, c. XXv; tit. x, c. viii, P. G., t. CIV, col. 1111-1112, 1147-1148; Nicétas Acominat, Historia, l. II, c. 1, P. G., t. CXXXIX, col. 415-416 (os bogomilos não são nomeados, mas trata-se da deposição do patriarca Cosme ocasionada por suas relações com o bogomilo Nifon) e Thesaurus orthodoxe fidei, l. XIX, P. G., t. CXXIX, col. 1099-1100 (apenas o título do livro); Germano II, patriarca de Constantinopla, Homil. in exaltationem venerande crucis et contra bogomilos, P. G., t. CXL, col. 621-658; Nicéforo Gregoras, Byzantine historiae, l. XIV, c. vi, nn. 2; l. XVIII, c. 5, nn. 1; l. XIX, c. 1; l. XXXVI, c. iii-vi, P. G., t. CXLVIII, col. 947-948, 1133-1134; t. CXLIX, col. 225-230, 469-484; Constantino Harmenópulo, De heresibus, c. XIX, P. G., t. CL, col. 27-80; Miguel Glicas, Annalium, part. IV, P. G., t. CLVII, col. 619-620.

Os atos dos sínodos de Constantinopla contra os bogomilos em 1144 e 1147 são publicados por L. Allatius, De Ecclesiae orientalis et occidentalis perpetua consensione, Colônia, 1648, l. II, c. XII. — Bulas dos papas relativas aos bogomilos encontram-se em A. Theiner, Vetera monumenta Slavorum meridionalium historiam illustrantia, Roma, 1863, t. I.

Os atos do conciliábulo cátaro de Saint-Félix de Caraman (condado de Toulouse), presidido por "o papa dos heréticos" Niquinta (Nicetas), bispo bogomilo de Constantinopla, em 1167, cf. Leger, Revue des questions historiques, t. VIII, p. 503, encontram-se em J.-J. Percin, Monumenta conventus Tolosani ordinis FF. praedicatorum. Note ad concilia, Toulouse, 1693, p. 1-2, e em Brial, Recueil des historiens des Gaules et de la France, Paris, 1806, t. XIV, p. 448-450; eles são suspeitos. Cf. C. Devic e J. Vaissete, Histoire générale du Languedoc, 3ª ed., Toulouse, 1879, t. VIII, p. 4, e A. Molinier, ibid., nota.

II. TRABALHOS MODERNOS. — N. Foggini, em P. G., t. CXXXVII, col. 27-836; C. Schmidt, Histoire et doctrine de la secte des cathares ou albigeois, Paris, 1849, t. I, p. 12-15; t. II, p. 57-62, 263-266, 272-274, 284-285; Raczki, Bogomili i Patareni, nas Mémoires de l'académie slave d’Agram (em língua croata), Agram, 1869, t. VI, VII, IX; L. Leger, L’hérésie des bogomiles en Bosnie et en Bulgarie au moyen âge, na Revue des questions historiques, Paris, 1870, t. VIII, p. 479-517; I. von Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, Munique, 1890, t. I, p. 34-51; Y. de la Calmontie, Le bogomilisme, na Revue des religions, Paris, 1890, t. III, p. 414-425; F. X. Funk, em Kirchenlexikon, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1882, t. II, col. 972-977.

Ver, além disso, as obras indicadas por Ul. Chevalier, Répertoire des sources historiques du moyen âge. Topo-bibliographie, col. 425, e por K. Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Litteratur, 2ª ed., p. 1091, 1095.

Autor original: F. VERNET

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