2. BOÉCIO DE DÁCIA. — I. Identificação. II. Biografia. III. Obras.
I. IDENTIFICAÇÃO. — O catálogo dos escritores da ordem dos frades pregadores, devido às pesquisas de Bernardo Gui, no início do século XIV, cita treze obras de filosofia aristotélica compostas por um Boetius natione Dacus (cf. Denifle, Archiv für Litt. und Kirchengeschichte, t. II, p. 230) que, se acreditarmos em Jean Meyer, cronista dominicano do século XV, teria sido doutor em teologia. Echard, Scriptores ord. pred., t. I, p. 640, 734, coloca-o em 1354, mas atribui a maior parte das obras mencionadas acima a um anônimo. Jourdain, Recherches critiques sur les anciennes traductions d’Aristote, p. 57, 400, e Cousin, Journal des savants, 1848, p. 232, veem em Boécio de Dácia o tradutor dos livros De l’âme e La métaphysique de Aristóteles citado por São Tomás de Aquino.
O primeiro que conseguiu fornecer algo, senão completo — resta quase tudo por descobrir da vida de nosso personagem — pelo menos preciso e certo sobre Boécio de Dácia, é Hauréau, Un des hérétiques condamnés à Paris en 1277, no Journal des savants, 1886, p. 167-183; Boetius, maître ès arts à Paris, em Hist. litt. de la France, 1888, t. XXX, p. 270. Sabe-se (ver AVERROÍSMO, t. I, col. 2632-2634) os distúrbios causados na universidade de Paris no século XIII pelo ensino averroísta de certos mestres da faculdade das artes. No ano de 1277, no quarto domingo da quaresma, que caía em 7 de março, o bispo de Paris, Etienne Tempier, condenava em sínodo, solenemente, 219 proposições. Elas eram extraídas, em sua maioria, dos cadernos de diversos regentes das artes. Por muito tempo ignorou-se o nome desses regentes. Hoje, a luz começa a surgir. Já Siger de Brabante, um deles, é bem conhecido. Ver AVERROÍSMO, t. I, col. 2636-2637, e SIGER DE BRABANTE.
Ora, um volume da Sorbonne, Bibl. nat., lat. 16533, fol. 60, após o texto dos artigos condenados, traz esta menção: Principalis assertor istorum articulorum fuit quidam clericus Boetius appellatus. Um sinal de abreviação colocado sobre o 'e' de Betus e as pesquisas de Hauréau mostram que se deve ler Boetius. Uma outra cópia da sentença de 1277, Bibl. nat., lat. 4391, fol. 68, que data provavelmente do final do século XIII, diz: contra Segerum et Boetium hereticos. Finalmente, a refutação das proposições condenadas, composta em 1297 ou 1298 por Raimundo Lúlio, é intitulada em 1311, em um catálogo de suas obras: Liber contra errores Boetii et Sigerii. Bibl. nat., lat. 15450, fol. 80. Mas é sobretudo ao Pe. Mandonnet, em seu excelente e, na maioria dos pontos, definitivo estudo sobre Siger de Brabant et l’averroïsme latin au XIIIe siècle, que devemos o pouco que a história está hoje em condições de afirmar sobre o cúmplice filosófico de Siger.
II. BIOGRAFIA. — Boécio de Dácia ou o Dácio é anterior ao ano de 1354 que lhe atribui Echard, uma vez que em 1277 ele já é mestre das artes, suficientemente antigo para ter feito escola e, observa Hauréau, a propósito de sua condenação, suficientemente jovem também, contudo: pois «as temeridades que têm tais consequências, é ordinariamente a juventude que as faz cometer». Hist. litt. de la France, t. XXX, p. 272.
Ele não é doutor em teologia da ordem dos frades pregadores: «Possuímos um catálogo completo e muito preciso dos mestres em teologia dominicanos devido a Bernardo Gui, e Boécio de Dácia não aparece nele.» Mandonnet, op. cit., p. CCXLI. Ele não é dominicano. Ele pertence à faculdade das artes, onde os dominicanos e, em geral, os religiosos não ensinavam. Ele não é, portanto, religioso tampouco. De resto, Peckham nos diz que Siger e ele eram seculares. Mandonnet, p. CXVI.
Ele não é, inclusive, nem padre, nem teólogo; ele é um simples clérigo secular na hierarquia, e, cientificamente, ele é exclusivamente filósofo. «O ensino no tempo de que falamos estava nas mãos da Igreja e, por conseguinte, ministrado por clérigos. Estes, depois de se entregarem mais ou menos longamente à profissão das artes liberais, terminavam sempre, ao que parece, por chegar ao sacerdócio e ao ensino da teologia. Siger e Boécio fizeram exceção à regra, em consequência dos eventos de 1277 que quebraram subitamente sua carreira eclesiástica e não lhes permitiram ir mais longe. Devem, portanto, a essas circunstâncias excepcionais permanecer como simples filósofos.» Mandonnet, p. CCCXV.
Boécio ensina em Paris na faculdade das artes. Dissemos, no artigo AVERROÍSMO, t. I, col. 2632-2634, a agitação que reina então na grande universidade parisiense. Boécio, embora menos influente que Siger, é certamente um dos autores dos distúrbios por seu ensino, uma vez que as proposições condenadas são especialmente indicadas como sustentadas por ele e extraídas de seus cadernos. Provavelmente também, suas intrigas mantêm e aumentam a agitação, uma vez que ele é objeto de perseguições especiais com Siger. Que parte precisa ele teve nos fatos que comprometeram então a existência da universidade? Não o sabemos.
Seja como for, atingido pela condenação de 7 de março de 1277, ele não deve ter se submetido imediatamente. Fugiu como Siger de Brabante e foi citado como ele a comparecer perante o grande inquisidor da França? Ignora-se. O que se sabe é que ele deixou a França e pereceu miseravelmente além dos montes. Peckham atesta-o em uma passagem que se deve aplicar a Siger de Brabante e a Boécio de Dácia: Nec eam (opinionem de unitate forme) credimus a religiosis personis, sed secularibus quibusdam duxisse originem, cujus duo precipui defensores vel forsitan inventores miserabiliter dicuntur conclusisse dies suos in partibus transalpinis, cum tamen non essent de illis partibus oriundi. Registrum epistolarum Joannis Peckham, édit. Martin, t. I, p. 847, em Mandonnet, p. CCLXX.
Siger e Boécio haviam comparecido à corte de Roma após a condenação. Eles haviam sido objeto de um processo em regra. Sua doutrina havia sido examinada e julgada herética. Mas, seja porque, ao lado de uma filosofia herética, protestavam sua fidelidade à Igreja e aos seus dogmas, seja porque abjuraram, não haviam sido condenados à morte; haviam sido submetidos à pena dos heréticos que abjuravam, isto é, à detenção perpétua. Morreram, portanto, na prisão, Siger sob o ferro de um louco furioso. Quanto aos detalhes da morte de Boécio, ignoram-se. Sabe-se apenas que ele já não existia em 1284.
III. OBRAS. — Elas compreendem um comentário sobre os Tópicos de Aristóteles (Bib.
nat., lat. 14617) e um tratado intitulado em um manuscrito da Biblioteca Nacional (lat. 14876) : Commentum magistri Boetii super majus volumen Prisciani, que não é outra coisa senão uma gramática dividida em duas partes, cuja primeira trata dos signos em geral, de modis significandi (daí o nome por vezes atribuído a esta obra), e a segunda das partes do discurso.
No manuscrito 509 da biblioteca de Bruges, encontram-se questões sobre os Primeiros e Segundos Analíticos, e nove Sophismata, ou exercícios práticos de sofística. O comentário sobre os Tópicos remete a duas obras, a primeira sobre a Metafísica, e a segunda que ele designa sob o nome de Questiones elenchorum ou ars sophistica. Havia ainda um livro De animalibus ao qual o autor faz alusão na sua gramática.
Terá ele feito outras obras? É provável, e é verossímil que se possa aceitar como sendo dele a seguinte lista de obras atribuídas por Bernardo Gui a um Boetius natione Dacus: Fr. Boetius natione Dacus, scripsit [1°] libros de modis significandi. [2°] Item questiones super topica Aristotelis. [3°] Item super librum physicorum questiones. [4°] Item questiones super de celo et mundo. [5°] Item questiones super librum de anima. [6°] Item questiones super de generatione et corruptione. [7°] Item questiones super de sensu et sensato. [8°] Item questiones super de somno et vigilia. [9°] Item questiones super de longitudine et brevitate vite. [10°] Item: questiones super de memoria et reminiscentia. [11°] Item questiones super de morte et vita. [12°] Item questiones super de plantis et vegetabilibus. [13°] Item librum de eternitate mundi. Denifle, Archiv für Litt. und Kirchengeschichte, t. 1, p. 230.
Como se vê, ele ter-se-ia dedicado exclusivamente a questões relativas aos tratados de Aristóteles. Mas ele teria comentado quase toda a obra do Estagirita.
Quanto a fazê-lo um tradutor dos livros de Aristóteles, é necessário renunciar a isso, e as traduções que lhe foram atribuídas devem-se à pena do antigo Boécio, Manlius Severus Boethius. Ver Hauréau e Mandonnet, op. cit.
Autor original: A. CHOLLET
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