4. BOÉCIO. — I. Vida. II. Obras. III. Influência.
I. Vida. — Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius ou Boetius nasceu em Roma por volta de 470-480; pertencia à ilustre família dos Anicii, que, desde Constantino, era cristã, e não há dúvida de que ele mesmo, a despeito do que se tenha dito, tenha feito profissão de catolicismo. Bosisio, Sul cattolicismo di Boezio, Pavia, 1867; Aschbach, Die Anicier und die römische Dichterin Proba, Viena, 1870; Prietzel, Boethius und seine Stellung zum Christenthume (Progr.), Loehau, 1879; G. Boissier, Le christianisme de Boéce (extrato do Journal des savants), Paris, 1889; Semeria, Il cristianesimo di Sev. Boezio rivendicato, Roma, 1900.
Órfão desde cedo, Boécio recebeu em Atenas uma excelente educação literária e impregnou-se sobretudo da filosofia grega, ao mesmo tempo que das outras ciências que a ela se ligavam e para ela preparavam: aritmética, geometria, música, astronomia. De volta a Roma, sua surpreendente erudição, a nobreza de sua estirpe e o encanto de suas qualidades pessoais valeram-lhe, além da estima, o favor particular do rei dos ostrogodos, Teodorico, o Grande. Em 510, Boécio tornava-se cônsul; em 522, era nomeado mestre do palácio e via seus dois filhos elevados, na flor da idade, às honras do consulado.
Mas a hora das tempestades e dos sofrimentos estava prestes a soar. O ariano Teodorico, comovido e inquieto com as relações amistosas que o imperador do Oriente, Justino I, mantinha com o papa João I, íntimo amigo de Boécio, redobrou o rigor contra seus súditos católicos. A audácia e o zelo que o “último romano” demonstrou em sua defesa do senador Albinus, indiciado por alta traição, apressaram sua ruína. Boécio foi acusado, por sua vez, de inteligência com a corte bizantina, acusado além disso, naturalmente, de magia. Teodorico, prestando ouvidos à calúnia, fê-lo prender, sem ouvi-lo, em Pavia, muito provavelmente na segunda metade do ano 524. A condenação à morte e a execução seguiram-se de perto, esta última em meio a suplícios atrozes.
A desgraça e a ruína de Boécio não tinham, segundo ele, senão um caráter político. Todavia, desde o século VI, fosse porque se tivesse identificado Boécio com um bispo africano do mesmo nome e do mesmo tempo, relegado por sua fé na Sardenha, veja Jourdain, Excursions historiques et philosophiques a travers le moyen age, Paris, 1888, p. 1-27, — conjectura, afinal de contas, pouco verossímil; fosse, antes, porque entre a morte de Boécio e a perseguição da qual o papa João I foi a vítima, se tivesse visto bem outra coisa que uma simples coincidência, veja a Chronique de saint Adon, P. L., t. cxxi, col. 107; cf. C. Cipolla, Per la storia del processo di Boezio, Roma, 1900, Pavia, Bréscia e algumas dioceses da Itália veneraram Boécio como um mártir. A S. C. dos Ritos confirmou este culto para Pavia por um decreto de 15 de dezembro de 1883. Veja Analecta juris pontificii, 1884, t. xx, col. 629-680.
II. Obras. — Espírito enciclopédico, teólogo, filósofo, sábio e poeta, ao mesmo tempo que homem de Estado, Boécio não cumpriu a tarefa com a qual sonhara: a explicação de Aristóteles e de Platão com a conciliação de seus dois sistemas; sua vida não bastou para esse vasto desígnio. Ele nos deixou, contudo, número de obras, que se podem dividir em três classes: 1º opusculares teológicos; 2º obras filosóficas; 3º obras científicas.
1º Os opusculares teológicos, que visam, em geral, a formular os dogmas cristãos na linguagem da filosofia, a nos dar dos mistérios da fé uma ideia ou concepção racional, são em número de cinco. O primeiro, De sancta Trinitate, P. L., t. LXxiv, col. 1247-1256, estabelece, inspirando-se em santo Agostinho, a unidade da natureza das três pessoas divinas. O segundo, dedicado ao futuro papa João I, estuda rapidamente a relação das três pessoas divinas com a natureza de Deus: Utrum Pater et Filius et Spiritus Sanctus de divinitate substantialiter predicentur. P. L., ibid., col. 1299-1302. O terceiro, Quomodo substantiae in eo quod sint bonae sint, cum non sint substantialia bona, P. L., ibid., col. 1311-1314, é dedicado semelhantemente ao futuro papa João I. O quarto, De fide catholica ou Brevis fidei christianae complexio, P. L., ibid., col. 1333-1388, esboça em grandes traços os dogmas fundamentais do cristianismo, trindade, criação, queda original, encarnação, redenção, e indica as duas fontes da verdade católica, a tradição e a Escritura. O quinto, Liber contra Eutychen et Nestorium, P. L., ibid., col. 1337-1354, o mais extenso de todos e, no fundo, o mais importante, assenta o dogma católico sobre a refutação da heresia de Nestório e da de Eutiques.
A autenticidade, longamente controversa, destes opusculares, ou pelo menos de alguns deles, não parece estar mais em questão. Pois, em 1877, o Sr. Alfred Holder reencontrou na biblioteca de Karlsruhe um extrato autêntico de um pequeno escrito, hoje perdido, de Cassiodoro, onde este, falando de Boécio, fala também de suas obras teológicas: Scripsit librum de sancta Trinitate et capita quaedam dogmatica et librum contra Nestorium. Veja Usener, Anecdoton Holderi, Leipzig, 1877, c. IV. Certos críticos persistiram, contudo, por falta, aparentemente, de uma menção mais explícita, em ter o De fide catholica por apócrifo, apoiando-se, por um lado, nas nuances de ideias entre este opuscular e o Liber contra Nestorium, e, por outro, no silêncio de alguns manuscritos. E. K. Rand, Der dem Boethius zugeschriebene Tr. de fide catholica, Leipzig, 1901, atribui este tratado a João, o Diácono. Mas, ao lado dos manuscritos nos quais o De fide não figura, pelo menos sob o nome de seu autor, quantos outros que restituem o opuscular a Boécio! E, quanto às nuances de ideias que se destacam nos julgamentos sobre Nestório e Eutiques, além de que o estudo do contexto as suaviza muito, seria impossível ou apenas estranho que Boécio tivesse adquirido progressivamente das duas heresias um conhecimento mais completo e mais preciso? Cf. Bosisio, Sull’autenticità delle opere teologiche di A. M. T. S. Boezio, Pavia, 1869.
2º As obras filosóficas são de três tipos: 1. Traduções latinas dos tratados de lógica de Aristóteles e da Isagoge de Porfírio. — 2. Comentários, quase todos sábios e penetrantes, sobre as Categorias do Estagirita, P. L., t. LXiv, col. 159-294, e sobre o tratado da Interpretação, veja Meiser, A. M. S.
Boethii commentarii in librum Aristotelis περὶ ἑρμηνείας, 2 vol., Leipzig, 1877-1880; sobre as duas versões da Isagoge de Porfírio, uma por Mário Vitorino, a outra por Boécio mesmo, P. L., t. LXiv, col. 4-158; sobre os Tópicos de Cícero, veja Th. Stangl, Boethiana vel Boethii commentariorum in Ciceronis Topica emendationes, Gotha, 1882. O comentário dos Tópicos de Cícero não nos chegou senão mutilado; o dos Tópicos de Aristóteles desapareceu.
3. Tratados originais sobre o silogismo categórico, o silogismo hipotético, a divisão, as diferenças tópicas. P. L., t. LXIV, col. 761-891. O tratado da Definição, perdido entre as obras de Boécio sobre a lógica, P. L., ibid., col. 891-910, parece ser de Mário Vitorino. Ver Usener, op. cit., p. 59-66.
Mas, bem acima de todos esses trabalhos, a grande obra desta classe é a Consolação da filosofia, que Boécio compôs em seu cárcere, Nurembergue, 1473; in-64, Douai, 1616, Leyde, 1668, 1671 (com os escritos teológicos); P. L., t. LXIII, col. 547-862; edit. Obbarius, Iena, 1843; edit. Peiper, Leipzig, 1871. A beleza do estilo, apesar dos vestígios inevitáveis do gosto da época, a variedade e a vida que a forma do diálogo espalha por toda parte, a feliz mistura da prosa e dos versos, acrescentam ao encanto da composição e fazem dos cinco livros da obra uma obra inteiramente à parte. Pensamentos e linguagem, tudo se inspira em um neoplatonismo emendado por certas ideias peripatéticas, com um matiz de estoicismo onde se refletem o caráter pessoal de Boécio e suas leituras dos filósofos romanos. Nem uma palavra de Jesus Cristo, nem dos apóstolos e dos Padres, nem uma citação dos Livros santos; o autor não se reclama senão da filosofia.
Seria um erro, contudo, concluir disso, com Obbarius, com Ch. Jourdain, op. cit., etc., que Boécio não era cristão, ou pelo menos não o era apenas de nome. A Consolação da filosofia não é de modo algum uma confissão do escritor, o espelho fiel de sua vida moral; é um dos raros exemplares dessa literatura parênclica da antiguidade, que ocupava na vida um lugar muito importante e que devia ter para Boécio, pelo fato de sua educação e de seus gostos, um atrativo particular. Falta muito, porém, para que seja, de uma maneira absoluta, um livro pagão; está todo impregnado, ao contrário, de cristianismo. Boécio não fala aí de nossos dogmas em termos expressos; mas sente-se que ele os pressupõe. Não há nada em sua obra que não esteja conforme à moral cristã, nada em suas palavras e seu tom que não traia a fé viva e profunda do cristão. A. Engelbrecht, Die « Consolatio philosophiae » des Boethius; Beobachtungen über den Stil des Autors und die Ueberlieferung seines Werkes, in-8°, Viena, 1902.
3° As obras científicas limitam-se a dois tratados, um em cinco livros Sobre a música, o outro em dois livros De institutione arithmetica, P. L., t. LXIII, col. 1079-1300. Cf. edit. Friedlein, Leipzig, 1867; G. Schepss, Zu den mathematisch-musikalischen Werken des Boethius, em Abhandlungen aus dem Gebiet der klassischen Altertumswissenschaft, publicadas por W. v. Christ, Munique, 1891, p. 107-113. Boécio havia escrito uma Geometria; mas a autenticidade da Geometria que porta seu nome é das mais suspeitas, e a renomeada literária de Boécio não perde nada com isso. Segundo Cassiodoro, Var., l. I, epist. XLV, P. L., t. LXIX, col. 539, Boécio havia também traduzido uma obra de Ptolomeu sobre a astronomia e uma obra de Arquimedes sobre a mecânica. Dessas duas versões, nada nos restou.
III. INFLUÊNCIA. — Pouquíssimos escritores sobreviveram a si mesmos em suas obras tanto quanto Boécio e exerceram sobre os séculos seguintes uma influência igual à sua. Espírito e método, os opúsculos de teologia pressagiam e preparam os trabalhos dos escolásticos; pois, ao aceitar o dogma, eles vão, não para compreendê-lo, mas para prová-lo aos olhos da razão; a fé ali busca a inteligência e, por outro lado, as vantagens que a filosofia retira da revelação sobressaem nitidamente. Tais definições teológicas de Boécio, nomeadamente a da eternidade, que se apropriou São Tomás, Sum. theol., I, q. X, a. 1, e mais ainda as da natureza e da pessoa, P. L., t. LXIV, col. 1341, 1342, tornaram-se clássicas. Pedro Lombardo, em seu Livro das Sentenças, tomou emprestado mais de um texto de Boécio. Desde o século IX e o século X, testemunham os manuscritos, os opúsculos que nos ocupam encontraram intérpretes. Os comentários de Gilberto de la Porrée, P. L., t. LXIV, col. 1254-1412, de Godofredo de Auxerre e de São Tomás de Aquino serão, na sequência, impressos. Ver col. 834-835.
Mais geral e mais profunda foi a influência das obras filosóficas. Boécio é, sem contestação, depois de Aristóteles, a maior autoridade filosófica da Idade Média. Tudo o que a Idade Média, antes da segunda metade do século XII, havia conhecido de Aristóteles, ela o tinha lido em Boécio; é do hábil intérprete da lógica peripatética que a escolástica tudo recebeu, língua e método; é o intérprete de Porfírio que deu o impulso às longas e ardentes querelas do realismo e do nominalismo.
A voga e a influência da Consolação, em particular, ultrapassam toda ideia. Nenhuma obra teve mais traduções, comentários, imitações. Jourdain, Commentaires de Guillaume de Conches et de Nicolas Triveth sur la Consolation de la philosophie de Boèce, Paris, 1861. Leibniz mesmo compôs dos dois primeiros livros um resumo para seu próprio uso. Ver Foucher de Careil, Lettres et opuscules inédits de Leibnitz, Paris, 1864, p. 265 sq. Desde Asser, o mestre do rei Alfredo, em fins do século IX, até Murmellius, nos primeiros anos do século XVI, a Consolação da filosofia foi traduzida, comentada ou imitada na maioria das línguas da Europa: em anglo-saxão por Alfredo, o Grande; em provençal, no século XII, por um poeta desconhecido; em alemão pelo monge Notker, da abadia de São Galo, ver P. Piper, Die Schriften Notkers und seiner Schule, Friburgo em Brisgóvia, 1882, t. I, p. 1-588; em francês, no século XIII e no século XIV, por Jean de Meung, Renaud de Louhans, talvez Carlos d’Orléans, e intérpretes anônimos; em italiano, em espanhol, em flamengo, por número de intérpretes; em grego, em meados do século XIV, por um monge de Constantinopla, Máximo Planudes. A biblioteca Vaticana possui também uma versão hebraica; em nossos dias, o Sr. Octave Cottreau publicou uma tradução francesa muito cuidada e muito exata, Paris, 1889.
Às traduções em língua vulgar, é preciso acrescentar número de comentários latinos, uns já publicados, outros ainda inéditos, e todos em geral medíocres. Ver Jourdain, op. cit., p. 28-69.
Entre as imitações, a Consolação da teologia, que Gerson, refugiado nas montanhas da Baviera, escreveu em 1418-1419, merece o primeiro lugar. Ver Di Giovanni, Severino Boetio filosofo e i suoi imitatori, Palermo, 1880.
As obras científicas de Boécio serviram igualmente, por sua parte, à educação da Idade Média. É sobre o tratado da Música principalmente que Hucbaldo, no século X, apoia sua teoria da harmonia. Apareceram edições completas de Boécio em Veneza em 1492, 1499, 1556, em Basileia, em 1546 e 1570. A edição de Migne, P. L., t. LXIII, col. 587 sq.; t. LXIV, a mais completa de todas, contém ao mesmo tempo o apócrifo e o autêntico.
Gervaise, Histoire de Boéce, Paris, 1715, P. L., t. LXIV, col. 1411 sq.; G. Baur, De A. M. S. Boethio christiane doctrinae assertore, Darmstadt, 1841; Suttner, Boethius, der letzte Römer (Progr.), Eichstedt, 1852; Fr. Nitzsch, Das System des Boethius und die ihm zugeschriebenen theologischen Schriften, Berlin, 1860; L. Biraghi, Boetio filosofo, teologo, martire Calvenzana milanese, Milão, 1865; Bourquard, De A. M. S. Boetio christiano viro, philosopho ac theologo, Paris, 1887; G. Bednarz, De universo orationis colore et syntaxi Boethii, Pars I, Breslau, 1883; Id., De syntaxi Boethii, Particula I, Striegau, 1892 (Progr.); Ebert, Hist. générale de la littérature du moyen âge en Occident, trad. fr., Paris, 1883, t. I, p. 546-529; Bardenhewer, Les Pères de l'Eglise, trad. fr., Paris, 1899, t. III, p. 156-164; Hurter, Nomenclator, 1903, t. I, col. 459-462.
Autor original: P. GODET
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor