2. BLASFÊMIA CONTRA O ESPÍRITO SANTO. — I. Natureza. II. Espécies. III. Irrremissibilidade.
I. NATUREZA. — É da própria boca de Jesus Cristo que saiu a expressão: «blasfêmia do Espírito Santo», πᾶσα ἁμαρτία καὶ βλασφημία ἀφεθήσεται τοῖς ἀνθρώποις, ἡ δὲ τοῦ πνεύματος βλασφημία οὐκ ἀφεθήσεται. Matth., XII, 31.
Para determinar o sentido preciso desta expressão, é preciso recorrer ao contexto. Jesus acabava de curar um endemoninhado que era ao mesmo tempo cego e mudo, e ao libertá-lo, tinha-lhe devolvido a visão e a fala. Este milagre resplandecente tinha lançado em estupor os presentes, que se perguntavam se o taumaturgo não era o filho de Davi ou o Messias esperado. Ao ouvir estas palavras da multidão, os fariseus replicavam dizendo: «Este não expulsa os demônios senão pelo poder de Belzebu, o príncipe dos demônios.»
Jesus, conhecendo a malícia dos seus pensamentos, refutou-os diretamente mostrando que, se ele expulsasse os demônios pelo poder de Belzebu, Satanás seria ele mesmo o seu adversário e destruiria o seu próprio reino. A expulsão dos demônios, quer seja feita por Jesus ou pelos exorcistas judeus, não pode, portanto, ser a obra do seu príncipe. É a obra de Deus e ela se cumpre pelo seu espírito. Se, pois, Jesus expulsa os demônios pelo Espírito e pelo poder de Deus, ele funda e estabelece sobre a terra o reino de Deus, oposto ao império do demônio sobre as almas, e cumpre assim uma função da sua missão messiânica, a de aniquilar a dominação dos espíritos das trevas entre os homens. O demônio é ligado por ele e a sua casa é devastada. Os homens, consequentemente, se não querem perder o fruto da sua missão terrestre, devem unir-se ao Cristo e proclamar-se manifestamente por ele ou contra ele.
Chegado a este ponto da sua argumentação, Jesus tira esta conclusão: «É por isso que vos digo: Todo pecado e toda blasfêmia será perdoado aos homens, mas a blasfêmia do Espírito Santo não será perdoada.» Há, pois, ao lado dos pecados e das blasfêmias dos homens que serão perdoados, uma blasfêmia contra o Espírito Santo que não o será. Matth., XII, 22-32; Marc., III, 22-30; Luc., XI, 14-20.
O que é a blasfêmia irremissível contra o Espírito Santo? A comparação com outra blasfêmia, aquela que é feita contra o Filho do homem, no-lo fará compreender. Primeiramente, como toda blasfêmia, é uma palavra injuriosa para aquele contra quem ela é pronunciada. Ver col. 907. O texto de São Mateus, XII, 32, e de São Lucas, XII, 10, é explícito: «E se alguém disser uma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas aquele que tiver falado contra o Espírito Santo não será perdoado nem neste mundo nem no outro.»
Por outro lado, a blasfêmia contra o Espírito Santo difere da blasfêmia contra o Filho do homem. Ora, o Filho do homem é o próprio Jesus, considerado na sua natureza humana e na humildade da sua aparência sensível. A expressão aramaica bar ’ēnaš não significa «filho de um homem», mas «homem», e designa um membro da humanidade. G. Dalman, Die Worte Jesu, Leipzig, 1898, t. I, p. 191-197; V. Rose, Études sur les Évangiles, 2ª édit., Paris, 1902, p. 165-173.
Blasfemar contra o Filho do homem era, pois, pronunciar palavras injuriosas contra Jesus enquanto homem, por exemplo, tratá-lo, porque ele comia e bebia como todos os homens, porque ele se sentava à mesa dos publicanos, de voraz, de beberrão, de amigo dos publicanos e dos pecadores. Matth., XI, 19.
Blasfemar contra o Espírito Santo era dizer uma injúria ou, como entenderam a maioria dos Padres e dos comentadores católicos, contra a terceira pessoa da santíssima Trindade (e daí veio a denominação ordinária de blasfêmia contra o Espírito Santo), ou antes contra a potência, se não mesmo, indiretamente pelo menos, a natureza divina da qual Jesus está investido. Com efeito, o Salvador estabelece aqui uma oposição entre o humano e o divino que estão nele. Blasfemar o Filho do homem é injuriar somente a sua humanidade; mas blasfemar o espírito de Deus que se manifesta nele é um pecado mais grave, um pecado irremissível. Ora, os fariseus tinham proferido esta blasfêmia contra o espírito de Deus, declarando que o espírito pelo qual Jesus expulsava os demônios era o espírito mau, Belzebu, o príncipe dos demônios. Rose, op. cit., p. 178. Além disso, São Marcos, III, 30, cujo contexto é contudo divergente, é formal: «Porque eles (os fariseus) diziam: Ele tem um espírito impuro.»
Portanto, no pensamento de Nosso Senhor, blasfemar contra o Espírito Santo é atribuir à ação e à potência do demônio um milagre resplandecente, tal como a expulsão dos demônios eles mesmos, que não poderia ser senão a obra de Deus. Jesus expulsava os demônios pelo espírito de Deus, Matth., XII, 28; dizer com os fariseus que ele não os expulsava senão por Belzebu, príncipe dos demônios, v. 24, é blasfemar, dizer uma palavra injuriosa a Deus, ao seu espírito, que este espírito seja o Espírito Santo ou o espírito divino por cuja potência Jesus agia.
Esta interpretação, que ressalta nitidamente do texto evangélico, foi proposta pela maioria dos Padres e dos comentadores. S. Pacien, Epist., III, 15, P. L., t. XIII, col. 1073-1074; S. Ambroise, De penitent., l. II, c. IV, n. 21, 22, P. L., t. XVI, col. 502; De Spiritu Sancto, l. I, c. I, n. 54, ibid., col. 717; Exposit. Ev. sec. Luc., l. VII, n. 121, P. L., t. XV, col. 1729-1730; S. Jéréme, Epist., XLIII, ad Marcellam, P. L., t. XXII, col. 477; S. Athanase, Epist., IV, ad Serapionem, n. 15, 16, 19, P. G., t. XXVI, col. 660-661, 665; S. Basile, Moral., reg. 35; Reg. brevius tract., 273, P. G., t. XXXI, col. 756, 1279; S. Chrysostome, In Matth., homil. XLI, 3, P. G., t. LVIII, col. 449; S. Bède, In Marc., III, 28-30, P. L., t. XCII, col. 162; S. Bruno d'Asti, Comment. in Matth., part. III, P. L., t. CLXV, col. 180.
Alberto Magno, In IV Sent., l. II, dist. XLIII, a. 6, Opera, Paris, 1894, t. XXVII, p. 684, distingue a blasfêmia contra o Espírito Santo do pecado contra o Espírito Santo. Santo Tomás, Sum. theol., IIa IIae, q. XIV, a. 1, cita em primeiro lugar esta interpretação, e Suárez a adota, In IIIam Sum., q. LXXXVI, disp. VIII, sect. 1, n. 18, Opera, Paris, 1861, t. XXII, p. 136, assim como Belarmino, Controv., De penit., l. I, c. XVI, Milan, 1721, t. II, col. 1018. Os exegetas modernos não propõem outra. Santo Tomás, loc. cit., relata, é verdade, duas outras explicações da blasfêmia contra o Espírito Santo. A primeira é a de Santo Agostinho.
O bispo de Hipona, que estimava a questão da blasfêmia do Espírito Santo a mais difícil de todas as questões escriturárias, entendeu pela blasfêmia irremissível contra o Espírito Santo a impenitência final do homem que morre em estado de pecado mortal. Serm., LXXI, n. 8, 20, P. L., t. XXXVIII, col. 449, 455; Epist., CLXXXV, ad Bonifacium, n. 49, P. L., t. XXXIII, col. 814; Epist. ad Rom. inchoata expositio, n. 14, P. L., t. XXXV, col. 2097; Enchiridion, c. LXXXIII. LXXII, P. L., t. xu, col. 272. Cf. Liber de fide ad Petrum, c. m, n. 41, P. L., t. xu, col. 766 (tratado atribuído a S. Fulgêncio); S. Fulgêncio, De fide, n. 39, P. L., t. Lxv, col, 691; De remissione peccatorum, l. I, c. xxv, ibid., col. 547; Liber de vera et falsa pœnitentia, c. iv, P.L., t. xxxix, col. 2304.
*Ce blasphème qui a lieu, non solum verbo oris, sed etiam verbo cordis et operis, non uno, sed multis, est un blasphème contre le Saint-Esprit, quia est contra remissionem peccatorum, quæ fit per Spiritum Sanctum, qui est charitas et Patris et Filii.* São Tomás, que resume nestes termos o pensamento de Agostinho, é forçado pela verdade a acrescentar: *Nec hoc Dominus dicit Judæis, quasi ipsi peccarent in Spiritum Sanctum, nondum enim erant finaliter impœnitentes.* Ele acredita, todavia, poder interpretar Marc., III, 30, neste sentido: *Sed admonuit eos, ne taliter loquentes ad hoc pervenirent quod in Spiritum Sanctum peccarent.* Reconheçamos francamente que esta interpretação não tem qualquer fundamento no Evangelho.
A terceira explicação relatada por São Tomás está também longe do pensamento explicitamente formulado por Nosso Senhor. Outros dizem que há pecado ou blasfêmia contra o Espírito Santo, *quando aliquis peccat contra appropriatum bonum Spiritui Sancto*. Ver APPROPRIATION, t. I, col. 1708 sq. São Tomás cita aqui a bondade que se atribui ao Espírito Santo por apropriação. Conclui daí que o pecado contra o Espírito Santo é um pecado de malícia, cometido *ex ipsa electione mali*. Ora, age-se por malícia de duas formas: ou *ex inclinatione habitus vitiosi*, mas esta malícia não é o pecado contra o Espírito Santo; ou, quando, por desprezo, rejeita-se ou afasta-se o que poderia impedir a eleição do pecado, por exemplo, a esperança pelo desespero ou o temor pela presunção. *Hæc autem omnia quæ peccati electionem impediunt, sunt effectus Spiritus Sancti in nobis; et ideo sic ex malitia peccare, est peccare in Spiritum Sanctum.* Cf. Alberto Magno, In IV Sent., l. II, dist. XLII, a. 1, Opera, Paris, 1894, t. XXVII, p. 675.
Passamos em silêncio as numerosas opiniões particulares dos Padres ou dos comentadores sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo, porque carecem de todo fundamento exegético e não apresentam mais que um interesse histórico e arqueológico. Ver t. I, col. 899-900.
II. ESPÉCIES. — A blasfêmia contra o Espírito Santo, tal como ressalta do texto evangélico, não parece comportar espécies diferentes. É, com efeito, uma palavra injuriosa ao Espírito Santo, pela qual se atribui aos demônios uma obra divina. Pode ter objetos diferentes segundo as obras divinas atribuídas à potência diabólica; mas esses objetos não mudam a espécie do pecado. Todavia, desde Pedro Lombardo, Sent., l. II, dist. XLII, P. L., t. CXCII, col. 754-756, os teólogos admitem geralmente seis espécies de blasfêmias contra o Espírito Santo, a saber: *desperatio, præsumptio, impœnitentia, obstinatio, impugnatio veritatis agnitæ et invidentia fraternæ gratiæ*. Cf. Alberto Magno, In IV Sent., l. II, dist. XLIII, Opera, Paris, 1894, t. XXVII, p. 676-679; S. Boaventura, Breviloquium, III, 11, Opuscula, Paris, 1867, t. I, p. 26; In IV Sent., l. II, dist. XLIII, a. 3, q. 3, Opera, Lyon, 1668, t. IV, p. 524-525.
Mas se considerarmos sua origem e o princípio de sua distinção, essas seis espécies de blasfêmia contra o Espírito Santo não entram de nenhuma forma no pensamento de Nosso Senhor. Elas não são, com efeito, senão as diversas explicações de doutores diferentes e, em particular, aquelas que o bispo de Hipona deu, em épocas diferentes de sua atividade literária, à questão, tão árdua a seus olhos, da blasfêmia contra o Espírito Santo. De sermone Domini in monte, l. I, c. xxiii, n. 79, P. L., t. XXXIV, col. 1267. Cf. S. Tomás, Sum. theol., IIa IIæ, q. XIV, a. 2, sed contra. Aliás, no corpo do mesmo artigo, o Doutor Angélico, justificando a divisão da blasfêmia contra o Espírito Santo em seis espécies, a vincula expressamente à terceira explicação que havia relatado no artigo precedente: *quæ distinguuntur secundum remotionem vel contemptum eorum per quæ potest homo ab electione peccati impediri*. Ora, essa terceira explicação não responde ao pensamento do Salvador. As seis espécies de blasfêmia contra o Espírito Santo que a ela se referem não convêm, portanto, de modo algum à blasfêmia que atribui ao demônio obras manifestamente divinas. Cornélio a Lapide, Comment. in Matth., Lyon, 1685, p. 261. Assim, São Boaventura e Duns Escoto distinguiram com razão a blasfêmia contra o Espírito Santo, que é única de sua espécie e a única irremissível, dos pecados contra o Espírito Santo, que são múltiplos, especificamente distintos e remissíveis. Ver col. 914.
III. IRREMISSIBILIDADE. — Jesus não se limitou a nos fazer conhecer a blasfêmia contra o Espírito Santo; disse-nos ainda a sua gravidade, afirmando expressamente que, se todo pecado e toda blasfêmia são perdoados aos homens, a blasfêmia contra o Espírito Santo não o é. A qualquer um que disser uma palavra contra o Filho do homem, seu pecado lhe será perdoado; mas àquele que falar contra o Espírito Santo, sua falta não será perdoada nem neste mundo nem no outro. Matth., XII, 31, 32; Marc., III, 28, 29; Luc., XII, 10. Estas palavras, que exprimem o fato da não remissão deste pecado, e não o princípio de sua irremissibilidade, foram interpretadas diversamente.
Muitos comentadores e teólogos não admitem a irremissibilidade total e pensam, com nuances diversas, que esta blasfêmia pode ser perdoada de alguma maneira. São Cirilo de Alexandria, Comment. in Matth., P. G., t. LXXII, col. 409, diz que Jesus Cristo apenas quis mostrar por estas palavras a grandeza da blasfêmia contra o Espírito Santo. Santo Epifânio, Adversus hær., hær. LI, 2, P. G., t. XLI, col. 963, pretende que o Salvador manifestou por aí sua presciência e sua bondade ao incitar à penitência os fariseus que haviam pronunciado esta blasfêmia. São Crisóstomo, In Matth., homil. XLII, n. 8, P.
G., t. LVIII, col. 449, não fala senão da pena que não será perdoada aos blasfemadores do Espírito Santo, mesmo que façam penitência. São Pascásio Radbert, Exposit. in Matth., l. VI, P. L., t. CXX, col. 471, e São Bruno de Asti, Comment. in Matth., part. III, P. L., t. CLXV, col. 180, admitem também a remissão para aqueles que fazem penitência e não perseveram em sua falta; apenas a impenitência torna a falta irremissível.
Os escolásticos reconhecem que este pecado não é irremissível da parte de Deus, que por milagre pode converter os blasfemadores do Espírito Santo, mas que o é de sua natureza, na medida em que afasta do pecador o remédio que o curaria. Alberto Magno, In Ev. sec. Matth., Opera, Paris, 1893, t. XX, p. 531; In IV Sent., l. II, dist. XLII, a. 5, ibid., 1894, t. XXVII, col. 682-683; S. Bonaventure, Breviloquium, 1, 11, Opuscula, Paris, 1647, t. 1, p. 26.
São Tomás, Sum. theol., IIIa IIae, q. xiv, a. 3, desenvolve essa ideia e explica a irrerrissibilidade do blasfemo contra o Espírito Santo, non quod nullo modo remittatur, sed quia, quantum est de se, habet meritum ut non remittatur. E após ter mostrado que a punição desse pecado de malícia não é diminuída nem perdoada nem neste mundo, nem no outro, ele fala da culpa em si mesma. Ele a compara a uma doença incurável, não pela potência de Deus que pode sempre curá-la, mas pela sua natureza, enquanto ela não pode ser vencida pelos remédios ou não permite tomar o remédio que poderia levar à cura. Ita etiam peccatum in Spiritum Sanctum dicitur irremissibile secundum suam naturam, inquantum excludit ea per quæ fit remissio peccatorum. Per hoc tamen non præcluditur via remittendi et sanandi omnipotentiæ et misericordiæ Dei, per quam aliquando tales quasi miraculose spiritualiter sanantur.
S. Bonaventure, In IV Sent., l. II, dist. XLIII, a. 2, q. 1, Opera, Lyon, 1668, t. IV, p. 522, e Duns Scot, In IV Sent., l. III, dist. XLIII, q. 1, Opera, Paris, 1893, t. XXXI, p. 486, declaram a impenitência final irrerrissível, mas os outros pecados contra o Espírito Santo só são ditos irrerrissíveis propter difficultatem remissionis. Afonso Tostado, In Matth., q. LXV, c. xl, diz apenas que esse pecado não é perdoado sem penitência. Caetano assegura que sua remissão não ocorre no curso regular das coisas. Maldonado é da opinião dos escolásticos e afirma que esse pecado não merece nenhuma desculpa, nem de si mesmo qualquer perdão.
Belarmino, Controv., De pœnitentia, l. I, c. xvi, Milão, 1721, t. II, col. 1015, reconhece que ele não é perdoado ordinarie et plurimum, e ele atribui duas causas a esse fato: a oposição direta desse pecado à graça de Deus e sua malícia que não admite desculpa e de si não merece perdão. Suarez, In IIIam Sum., disp. VIII, sect. 1, n. 19, Opera, Paris, 1861, t. XXII, p. 136, declara-o irrerrissível, quia difficile tollitur, podendo o blasfemador dificilmente arrepender-se de seu pecado.
Collet, De pœnit., part. II, c. II, n. 26; Cornélio a Lapide, Comment. in Matth., Lyon, 1685, p. 261; Calmet, Commentaire littéral, Paris, 1726, t. VII, p. 146; Palmieri, Tract. de pœnitentia, Roma, 1879, p. 60; Van Steenkiste, Sanctum J.C. Evangelium sec. Matth., 3ª édit., Bruges, 1880, t. I, p. 517-519; Fillion, Évangile selon S. Matthieu, Paris, 1878, p. 248, admitem apenas uma grande dificuldade em receber o perdão dessa blasfêmia. Schanz, Commentar über das Evangelium des heiligen Matthäus, Friburgo em Brisgóvia, 1879, p. 330, não exclui toda possibilidade de perdão, ao mesmo tempo em que reconhece que in concreto esse perdão é muitas vezes impossível. Ver também Roux, t. I, col. 1810.
As precedentes explicações reconhecem todas que a blasfêmia contra o Espírito Santo não é irrerrissível absolutamente, mas relativamente, ou que sua remissão não é impossível, mas muito difícil e rara. Ora, seus autores introduzem exceções em uma sentença de Nosso Senhor, que não suporta nenhuma. A oposição estabelecida por Jesus ele mesmo entre os outros pecados e blasfêmias que são perdoados, mesmo entre a blasfêmia contra o Filho do homem, a quem remissão é concedida, e a blasfêmia contra o Espírito Santo, que não é perdoada, exclui toda distinção de irrerrissibilidade relativa e absoluta, de remissão difícil ou não concedida. Schegg, Evangelium nach Matthäus, Munique, 1857, t. I, p. 155.
Toda exceção é ainda excluída por esta indicação de que esse pecado não é perdoado nem neste mundo nem no outro, Matth., XII, 32, εἰς τὸν αἰῶνα, e que o blasfemador será culpável eternamente. Marc., III, 29. A não remissão da blasfêmia contra o Espírito Santo é uma exceção, e a única, à regra geral da remissão dos pecados. Enfim, o verbo empregado, ἀφεθήσεται, significa ação de relaxar e de deixar ir, de perdoar o pecado; logo, para o blasfemador do Espírito Santo não haverá relaxamento, de remissão nem neste mundo nem no outro.
É preciso, portanto, reconhecer que Nosso Senhor diz da blasfêmia contra o Espírito Santo, não certamente que ela é irrerrissível, mas bem que, de fato, ela não será perdoada. Essa interpretação se impõe e deveria ser aceita, mesmo se não se pudesse explicar convenientemente o fato afirmado tão categoricamente. Todavia, os Padres e os teólogos buscaram explicá-lo e disseram ou bem que Jesus, ao anunciar a não remissão da blasfêmia contra o Espírito Santo, havia previsto que os fariseus que se tinham tornado culpáveis dela não se arrependeriam e não fariam penitência, ou bem que Deus havia resolvido não conceder aos homens que cometessem um crime semelhante ao dos fariseus as graças eficazes que lhes seriam necessárias para se converterem.
Um bom número de Padres e de comentadores católicos aceitaram o princípio da irrerrissibilidade da blasfêmia contra o Espírito Santo, ao mesmo tempo que o aplicando a objetos diferentes segundo a diversidade de seus sentimentos sobre a natureza dessa culpa. Cf. S. Hilaire de Poitiers, Comment. in Matth., XII, 17, P. L., t. IX, col. 989; S. Athanase, Epist., IV, ad Serapionem, n. 12, 17, 18, P. G., t. XXV, col. 653, 661, 663; S. Chrysostome, In Matth., homil. XLII, n. 8, P. G., t. LVII, col. 449; S. Ambroise, De Spiritu Sancto, l. I, c. III, n. 53, P. L., t. XVI, col. 747; De pœnit., l. II, c. IV, n. 20, ibid., col. 502; Laposit. in Luc., l. VII, c. XII, n. 121, P. L., t. XV, col. 1729-1730; S. Jérome, Epist., XLI, ad Marcellam, P. L., t. XXII, col. 478; Didyme, Liber de Spiritu Sancto, n. 63, P. G., t. XXXIX, col. 1085; S. Pacien, epist., I, 40, P. L., t. XIII, col. 1074; S. Augustin, De Serm.
Dom. in Monte, l. I, c. XXII, P. L., t. XXXIV, col. 1267; Epist. 185, c. XI, P. L., t. XXXIII, col. 811; De corrept. et gratia, c. XII, P. L., t. XLIV, col. 936; S. Béde, In Marc., l. I, c. III, P. L., t. XCII, col. 164, 165; Raban Maur, Comment. in Matth., P. L., t. CVII, col. 929; Druthmar, Exposit. in Matth., c. XXXIV, P. L., t. CVI, col. 1867; Anselme de Laon, Enarr. in Matth., c. XII, P. L., t. CLXII, col. 1362; Rupert, In quatuor evangelistas, c. XXIV, P. L., t. CLXVII, col. 1563; Zacharie, De concordia evangelistarum, l. I, c. XXI, P. L., t. CLXXXVI, col. 200-202; Richard de Saint-Victor, De spiritu blasphemiæ, P. L., t. CXCVI, col. 1189. Cf. Pierre Lombard, Sent., l. II, dist. XLIII, n. 2, P. L., t. CXCII, col. 754; Véga, Tridentini decreti de justificatione expositio, l. XIII, c. IX, Alcala, 1564, p. 448.
Essa explicação da não remissão da blasfêmia contra o Espírito Santo não retira nem diminui o poder das chaves da Igreja. Esta recebeu o poder de perdoar todos os pecados dos quais os culpados fazem confissão e se arrependem. Se se encontram pecadores que não têm o arrependimento de suas faltas, o sacerdote não pode absolvê-los, não porque lhe falte o poder para tal, mas porque o penitente carece das disposições necessárias para receber o perdão. Tais são os blasfemos contra o Espírito Santo que, sem serem privados da graça divina, perseveram, todavia, de fato, em seu pecado, resistem às graças e morrem impenitentes.
Enfim, é preciso restringir a não remissão somente à blasfêmia contra o Espírito Santo, da qual fala Nosso Senhor, e que consiste em atribuir aos demônios obras manifestamente divinas, e não estendê-la aos pecados contra o Espírito Santo, dos quais tratam os teólogos e dos quais Nosso Senhor não afirmou a irremissibilidade.
Além dos teólogos e exegetas citados no artigo, pode-se consultar Noël Alexandre, Hist. eccl., sec. II, diss. XXII, Paris, 1744, t. 1, p. 748-752; Calmet, Dissertation sur le péché contre le Saint-Esprit, em Commentaire littéral, Paris, 1726, t. VII, p. 294-298; Knabenbauer, De peccato in Spiritum Sanctum quod non remittatur, na Revue biblique, 1892, t. I, p. 161-170, ou em Commentarius in Ev. sec. Matth., Paris, 1892, t. I, p. 487-495; Id., Commentarius in Ev. sec. Marc., Paris, 1894, p. 106-109; Id., Commentarius in Ev. sec. Luc., Paris, 1896, p. 382.
Pode-se consultar também, para a Idade Média, os comentadores das Sentenças de Pedro Lombardo, l. I, dist. XLII.
Autor original: E. MANGENOT
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