BIEL (GABRIEL)

BIEL (GABRIEL)

BIEL Gabriel, teólogo alemão do século XV.

I. Vida. II. Obras. III. Doutrina. IV. Influência.

I. Vida. — Nascido em Espira, por volta de 1425, Gabriel Biel fez os seus estudos em Heidelberg e em Erfurt. Tendo obtido o grau de licenciado em teologia, foi nomeado vigário e pregador na catedral de Mogúncia. Os seus talentos de orador iniciaram a sua reputação. Mas o que o colocou sobretudo em relevo foi a parte que tomou numa grave querela política e religiosa. Diether d'Ysenbourg, eleito arcebispo de Mogúncia, tinha incorrido na excomunhão pela sua resistência às ordens do papa Pio II e tinha-se colocado à frente do partido antipontifício que queria constituir uma Igreja nacional alemã. Pio II tinha-o deposto e tinha nomeado arcebispo de Mogúncia Adolfo de Nassau. A guerra colocava em confronto partidários e adversários de Diether. Pastor, Histoire des papes depuis la fin du moyen âge, trad. franc. por Furcy-Raynaud, Paris, 1892, t. III, p. 154-157.

Biel tomou resolutamente a defesa da causa pontifícia: em Mogúncia e no país renano, ele pregou a obediência ao papa. Atacado pela sua atitude, ripostou compondo um escrito que estabelecia os direitos de Pio II e de Adolfo de Nassau, Defensorium obedientie apostolice ad Pium papam II destinatum. Esta obra designou-o à atenção reconhecida do soberano pontífice: o papa tentou atrair Biel a Roma a fim de o recompensar. Demasiado modesto para aceitar, o pregador de Mogúncia preferiu retirar-se do mundo e entrou na fervente e estudiosa congregação dos clérigos da vida comum de Windesheim.

Mas Pio II não era o único que tinha notado Biel. Um dos partidários de Adolfo de Nassau, o conde Eberhard de Wurtemberg, quis tê-lo junto de si. Fez com que fosse nomeado primeiro membro, depois preboste do capítulo que tinha fundado em Urach, a sua residência. Investiu-o da sua confiança, levou-o a Roma, em companhia dos seus dois outros íntimos conselheiros Reuchlin e Jean Bergenhanns, 1482. Dois anos mais tarde, Eberhard nomeou Biel professor de filosofia e de teologia na faculdade de Tubinga.

Enquanto ao seu lado, Heynlin von Stein (Johannes a Lapide) e Conrad Summenhart, fiéis representantes da antiga escola, ensinavam o realismo, Biel professou com brilho o que se chamava então a teologia moderna, o nominalismo de Occam. Contribuiu para assegurar à universidade de Tubinga o bom renome de que goza então. Escolástico convicto, soube interessar-se pela vida política e social do seu país e não entrou em luta com os humanistas. Estreitamente ligado aos sábios de Basileia e de Estrasburgo, nomeadamente com Pierre Schott e Geiler, estimado pelos seus alunos dos quais alguns, como Wendelin Steinbach, parecem ter-lhe votado um verdadeiro culto de amizade, viu o seu estilo louvado pelos adversários mais declarados da escolástica. O humanista Henri Bebel apelidou-o o rei dos teólogos.

Em 1492, Eberhard deu-lhe uma última marca de confiança fazendo-o nomear preboste do capítulo que tinha acabado de fundar na sua estância favorita de Schonbuch. Foi lá que Biel morreu, três anos depois, 1495.

II. Obras. — 1° Lectura super canone misse in alma universitate Tuwingensi ordinarie lecta. Esta obra apareceu ainda sob o título: Sacri canonis misse expositio resolutissima, litteralis ac mistica. É um longo comentário doutrinal, moral, canónico, litúrgico e ascético sobre as palavras e os ritos da missa. O autor coloca e resolve um grande número de questões de teologia ou de direito eclesiástico. A obra foi editada, à revelia de Biel, pelos cuidados do seu aluno e amigo Wendelin Steinbach em 1488, em Reutlingen. O autor queixou-se vivamente desta publicação; o seu trabalho não lhe parecia digno da impressão, achava-o demasiado pouco pessoal, declarava ter tudo emprestado aos antigos mestres; a Lectura, segundo ele, não era senão a reprodução, com algumas adições e retoques, dos ensinamentos de Eggeling de Brunswick, pregador da catedral de Mogúncia. Contudo, a comparação minuciosa desta obra com o Collectorium estabelece manifestamente que Biel, no seu trabalho sobre o cânone da missa, nos entrega o seu próprio pensamento. Este escrito obteve, com razão, grande sucesso e foi frequentemente reeditado; Tubinga, 1499; Colónia, 1499; Basileia, 1510, 1515; Lyon, 1514, 1527, etc. Gaspard Haslach enriqueceu-a com uma excelente tabela. Apareceram dois resumos da Lectura de Biel: Epithoma expositionis canonis misse, Tubinga, 1499; Espira, s. d.; e um compêndio mais curto: Expositio brevis et interlinearis sacri canonis misse, Ss. l. n. d. Hain, Repertorium, n. 3178-3183.

2° Uma série de sermões para o ano eclesiástico: Sermones de festivitatibus Christi; sermones de festivitatibus beate Marie Virginis; sermones de sanctis, s. l. (Tubinga), 1499; Sermones dominicales de tempore, Tubinga, 1500. Hain, n. 3184-3185. Anexou-se a esta recolha vários apêndices: Contra pestilentiam sermones medicinales; De non timendo mortem tempore pestis; Questio de fuga pestis; e finalmente o Defensorium obedientie apostolice ad Pium papam II destinatum et ab eo approbatum. Estes sermões foram reimpressos mais tarde em Haguenau, 1510; Basileia, 1519, 1520; Brixen, 1583. Destinados a um auditório muito culto, os sermões de Biel são do mais alto interesse para o historiador e o teólogo. Sem ser indiferente aos abusos da época, o pregador pensa menos em flagelar o vício do que em expor a verdade. Esforça-se sobretudo por fazer conhecer, aceitar e amar a doutrina cristã. Assim, os sermões de Biel são verdadeira dissertações sobre assuntos por vezes muito árduos. Encontram-se neles, ao lado de movimentos oratórios e de impulsos de uma terna piedade, exposições doutrinais que completam e frequentemente explicam as teses do Collectorium. O autor não se contenta em invocar os Padres: cita Aristóteles e os escolásticos. Tschackert é obrigado a confessar que Biel supera os pregadores seus predecessores. Realencycl. für protest. Theol. u. Kirche, art. Biel, Leipzig, 1897, t. III, p. 210. Janssen afirma que os seus sermões, a par dos de Henri Herp e de Geiler, são os mais notáveis da época. L’Allemagne à la fin du moyen âge, trad. franc., Paris, 1887, p. 34.

3° Sermo historialis passionis dominice, Reutlingen, 1498; Mogúncia, 1509; Basileia, 1519; Haguenau, s. d. Hain, n. 3186.

4° Epithoma pariter et collectorium circa quatuor Sententiarum libros egregii viri magistri Gabrielis Biel sacre theologie licenciati bene meriti. — A obra foi editada em 1499, Coppinger, n.

3187, depois em 1501 por Wendelin Steinbach, em Tubinga, Hain, n. 3187. Desde então, foi várias vezes reimpressa: Basileia, 1512; Lyon, 1514, etc. É a obra capital de Biel, a segunda série de lições que deu na universidade de Tubinga. Seguindo o uso da época, o autor comenta o livro das Sentenças, mas tomando Occam por guia. Cada um dos quatro livros que compõem a obra divide-se em distinções, no início das quais se encontra um breve resumo da doutrina de Pedro Lombardo.

Em seguida, Biel propõe uma ou várias questões que, todas, se subdividem em três artigos. O primeiro contém noções preliminares: são definições, distinções frequentemente muito sutis, claras, contudo, e sempre muito precisas. Às vezes, também, Biel apresenta as diversas opiniões emitidas sobre o assunto, estabelece as premissas da tese. Esta é exposta e provada em um segundo artigo que, ordinariamente, contém várias conclusões. Finalmente, um terceiro artigo afasta as objeções, levanta novos problemas e completa a solução principal. A obra de Biel está inacabada: o livro IV, dist. I-XXIII, contém apenas os tratados dos sacramentos em geral, do batismo, da confirmação, da eucaristia, da penitência e um curto estudo da extrema-unção. Wendelin Steinbach completou a obra de seu mestre Supplementum in XX VII distinctiones ultimas Sententiarum, Tubingue, 1520. O todo, 5 in-4°, Brixen, 1574.

5° Tractatus de potestate et utilitate monetarum, impresso primeiro em Oppenheim em 1516, e depois várias vezes reeditado. Hain, n. 3188. É uma dissertação de economia política e de teologia moral sobre a moeda. [Biel] também estudou esta questão no Collectorium, l. IV, dist. XV, q. Ix.

6° Tractatus artis grammatice, s. 1. n. d. (Spire). Hain, n. 3189. — Linsenmann menciona a existência de cartas inéditas conservadas nos arquivos municipais de Darmstadt. Kirchenlexikon, art. Biel, Fribourg-en-Brisgau, 1883, t. 11, col. 808, Ill. Doerring.

III. Doerring. — 1° Traços característicos. — Biel declara que toma Occam por mestre, quer apegar-se a ele sem desprezar os outros doutores. Propõe-se abreviá-lo quando estudar as questões que foram longamente discutidas por ele. Consultará os outros mestres sobre os sujeitos que Occam negligenciou tratar ou aprofundar. Mas declara que, mesmo nesse caso, não se desviará do seu guia: colocará de acordo com os princípios de Occam as conclusões das outras escolas. Prohemium prologi, l. I, dist. XLVI; l. II, prol.; l. III, dist. XV.

Biel executou o seu programa. Sem dúvida, ele conhece, cita e frequentemente segue os outros nominalistas, Pedro d’Ailly, Marsílio d’Inghem, Holkot, Henrique de Oyta, Gregório de Rimini, Nicolau d’Oresme, Gerson. Faz também numerosos empréstimos aos teólogos das diversas escolas; nomearemos aqui apenas aqueles que são mais frequentemente citados por Biel: santo Anselmo, Hugo e Ricardo de São Vítor, são Bernardo, Alexandre de Hales, são Tomás, são Boaventura, Henrique de Gante, Duns Scot, Pedro de Palude, Durand, Ricardo de Middletown, Tomás de Estrasburgo. Ele sabe também ser pessoal e não é um simples compilador. Mas a aceitação das teses fundamentais do nominalismo confere à obra de Biel uma poderosa unidade; é como discípulo de Occam que ele acolhe, expõe e prova as teses dos outros mestres; e, como ele diz, se parece por vezes contradizer o seu guia, é para permanecer fiel aos seus princípios. E, certamente, jamais o nominalismo foi apresentado em uma exposição mais clara.

Sem dúvida, a leitura de Biel exige um esforço do leitor moderno, pouco preparado pela sua educação teológica para compreendê-lo. Mas deve-se confessar também que o amor pela ordem e pela precisão de que o professor de Tubinga faz prova, o cuidado minucioso que ele coloca em tudo definir, explicar, distinguir, permitem seguir facilmente a exposição de teses frequentemente muito sutis e muito complicadas. Esta arte da composição une-se a preciosas qualidades de fundo. Biel tem um espírito muito judicioso, seus estudos de teologia moral o atestam, ele tem um senso prático muito afinado. Fez, em seu Collectorium, um lugar bastante largo aos problemas de direito, de moral e de economia política, frequentou e conhece bem os juristas e os casuístas; ele sabe melhor do que muitos teólogos do seu tempo e da sua escola parar discretamente diante do mistério; não negligencia mostrar as consequências práticas das doutrinas, aprofunda com uma complacência visível os problemas da teologia que têm uma relação imediata com a condução da vida: tentação, anjo da guarda, oração pelos defuntos, fruto do sacrifício, reparação do pecado, etc.

O que caracteriza sobretudo Biel é a preocupação com a ortodoxia doutrinal. Sem dúvida, o Collectorium contém teses que estão ou em oposição ou dificilmente conciliáveis com as afirmações dos concílios de Trento e do Vaticano. Mas, jamais o sábio alemão pôs em dúvida ou negou uma única verdade tida pelos seus contemporâneos como definida pela Igreja ou pelo papa. Biel, aliás, era feito para ser católico. O seu robusto bom senso não lhe permite aceitar as conclusões arriscadas e singulares às quais chegaram vários occamistas: assim, ele não ousará dizer que Deus poderia ter se encarnado em um demônio, tomado a natureza de uma pedra ou de um asno. Collect., l. III, dist. I, q. iii.

Sua humildade e sua modéstia quase excessivas o predispunham à submissão. Ele escreve, por muitas vezes: "Não ouso decidir se esta conclusão é certa, contento-me em expô-la sem querer defendê-la, isto seja dito sob reserva do sentimento dos antigos doutores ou de mestres mais competentes, com uma humilde deferência, etc." Jamais teólogo foi mais disposto a duvidar de si mesmo. Se ele tem em alta estima o parecer dos doutores privados, com muito mais razão fará grande caso das decisões da Igreja ou do papa. Elas exigem uma adesão inteira e sem reserva. Biel submete o seu ensino ao julgamento da Igreja romana e de todo cristão piedoso e bem pensante. Collect., prologi prohem.; II, prohem. O nominalismo, de resto, comanda esta atitude; de acordo com este sistema, deve-se apoiar tanto mais na revelação devidamente interpretada quanto menos se pode contar com a razão. O que acaba por manter Biel na ortodoxia é a distinção à qual ele recorre sem cessar entre o que Deus decidiu de fato (potentia ordinata) e o que ele poderia ter decretado (potentia absoluta). Para saber o que é, o que o Criador quis, Biel recorre pouco mais que à revelação. Para determinar o que Deus poderia ter feito, ele se abandona à especulação.

O católico crê no que é, o nominalista pesquisa o que poderia ser. Fé e razão têm o seu domínio próprio e não se chocam. Biel não poderia deixar de ser ortodoxo. E é nisso que reside a importância da sua obra. O teólogo de Tubinga é o melhor representante do nominalismo. Entre os outros partidários principais do sistema, a teoria ou é enfraquecida por teses místicas, ou unida a concepções agostinianas, ou ainda comprometida por ataques contra a autoridade do papa, por paradoxos ou por erros: determinismo, ceticismo, panteísmo. Biel é um dos últimos defensores do nominalismo. Ele conhece as pesquisas de seus predecessores, evita seus passos em falso e os excessos de sua crítica, recolhe de cada um deles as proposições que lhe parecem boas e apresenta o todo em uma exposição ortodoxa. Se o nominalismo pôde ser um sistema católico, é graças a Biel que o teria se tornado. O teólogo de Tubinga é também um dos últimos representantes ilustres da ciência religiosa da Idade Média e, como pratica um sábio ecletismo, como expõe bem as ideias de outrem, pode-se dizer que nele se ouve quase toda a escola. Sua obra tem um último mérito. Ela é um documento histórico de alto valor. Biel é o melhor teólogo alemão da época e ele professa vinte anos apenas antes de Lutero. Os escritos do teólogo de Tubinga permitem-nos, portanto, saber se o ensino católico do tempo merecia os ataques dos quais foi objeto e em que medida ele os preparava.

2º Principais pontos. — Sendo a doutrina de Biel a da Igreja no século XV, seu sistema o dos nominalistas, basta dar uma ideia geral de seu ensino, assinalar suas principais ideias pessoais e dar a conhecer seu pensamento sobre os problemas agitados nos séculos XV e XVI. BIEL

1. Fontes do conhecimento religioso: razão e revelação. A autoridade ensinante, o papa. — Há verdades teológicas das quais o homem toma conhecimento e faz a prova por sua única razão. Collect., prol., q. I, 1. III, dist. XXIV. O número delas é muito restrito. Quando a razão é impotente, é preciso aceitar a autoridade, recorrer à revelação, segunda fonte de conhecimento. A palavra de Deus dá inteira certeza, assim não pode ela jamais ser posta em dúvida nem rejeitada. Uma vez posta em presença do mistério, a inteligência só tem que se submeter; todavia, se é impossível ao teólogo falar dignamente da verdade divina, não lhe é proibido dar conta de sua fé; pelo contrário, ele se coloca por aí em estado de melhor a captar, defendê-la e explicá-la. Op. cit., 1. I, dist. I, q. v; dist. XIII, q. 1; 1. III, dist. XXIV. A revelação está contida primeiramente e sobretudo na Escritura: inspirados e ditados pelo Espírito Santo, todos os livros canônicos do Antigo e do Novo Testamento contêm, sem nenhuma mistura de erro, a palavra de Deus. Encontra-se ainda nas tradições orais ou escritas vindas dos apóstolos, pode-se obtê-la por revelações privadas. Enfim, é também palavra de Deus a conclusão que se desprende da Escritura com a ajuda de um termo médio fornecido pela razão. Op. cit., 1. I, dist. XXV; dist. XXXVIII; 1. IV, dist. XIII, q. III. Sabemos com certeza que uma proposição é revelada quando a Igreja ou o papa o declaram. Assim, não se conheceu, desde a origem, não se conhece ainda hoje todas as verdades contidas na Bíblia ou na tradição. Há, portanto, em certo sentido, acréscimo das verdades a crer: sem dúvida, a Igreja ou o papa, ao definir, não revelam nada, mas eles nos fazem conhecer que tal verdade é revelada. Antes desta decisão, era permitido duvidar dela ou ignorá-la, não o pode mais depois, sob pena de heresia, sendo a Igreja, após a Escritura, a autoridade mais alta. Op. cit., 1. I, dist. I, q. III; dist. XI, q. 1; 1. IV, dist. XIII, q. III.

Os órgãos do magistério são os concílios, op. cit., 1. I, dist. XI, q. 1, e o papa. Muitas vezes, Biel emprega esta fórmula determinatio Ecclesie aut pape, que parece reconhecer mesmo poder ao soberano pontífice e à Igreja. Op. cit., 1. IV, dist. XII, q. II. Ademais, os protestantes mesmos convêm hoje que Biel jamais foi antipapista. Tschackert, loc. cit. Vigário de Cristo e sucessor de Pedro, o bispo de Roma tem sobre a Igreja uma primazia absoluta e universal, é a ele que as questões de fé devem ser submetidas e todos os fiéis são obrigados a aceitar seus juízos. Ele é também o chefe supremo e é de seu poder que deriva mediatamente ou imediatamente toda jurisdição espiritual, é por ele que são dispensados todos os bens eclesiásticos. Próprio sacerdote de cada fiel, superior ao direito positivo humano, ele pode dispensar um cristão de uma lei portada por um concílio. Defensorium, n. 6; Sacr. can. mis., lect. XXIII, fol. 32, 33; Collect., 1. I, dist. I, q. v; dist. XI, q. 1; 1. III, dist. II; 1. IV, dist. XV, q. VIII; 1. IV, dist. XVI, q. 1. Assim, Biel prova várias teses unicamente por uma decisão pontifical, ele modifica seu ensino sobre as indulgências para colocá-lo de acordo com uma declaração de Sisto IV, Sacr. can. mis., lect. LVII, fol. 414; ele escreve: se há pessoas que não creem no valor das afirmações do concílio de Basileia sobre a Imaculada Conceição, ao menos que aceitem o ensino do papa. Collect., 1. IV, dist. III, q. 1. Não obstante, o poder do soberano pontífice não é ilimitado como o de Cristo. Contra a Escritura, o direito natural ou divino, o papa não pode nada. Ele não deve usar de sua autoridade senão para o bem da Igreja ou a salvação dos fiéis. Se ele concede dispensas injustificadas, seu ato, válido perante a Igreja militante, é nulo no que diz respeito à Igreja do céu. Homem, ele está exposto ao erro e nós devemos rezar por ele como por alguém que pode se enganar. Mas enquanto não for estabelecido com certeza que ele viola a Escritura, o direito natural ou divino, os fiéis são obrigados a lhe obedecer. Seus pecados não lhe retiram sua dignidade de chefe da Igreja; ele não a perderia senão se, caído na heresia, não fosse mais membro da sociedade cristã. Defensorium, n. 8, 9; Sacr. can. mis., lect. XX, fol. 32, 33; Collect., 1. III, dist. XXXIX, q. 1; 1. IV, dist. XV, q. VIII.

2. Alma e Deus. — A psicologia e a teodiceia de Biel, que têm uma tão grande influência sobre seu sistema teológico, são nitidamente nominalistas. Ver de Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, Louvain, 1900, p. 350-356; Ueberweg-Heinze, Grundriss der Geschichte der Philosophie, Berlin, 1898, t. 1, p. 307-310. Assinalemos somente algumas particularidades e algumas teses fundamentais. Não há distinção entre a essência e as faculdades. Collect., 1.

II, dist. XVI. Não se saberia demonstrar pela razão e se aprende pela fé somente que a alma é imaterial, incorruptível e indivisível. Ibid. Nossa ciência de Deus é bastante curta. No céu, nós o conheceremos por intuição. Aqui, neste mundo, recorremos, para chegar a ele, ao processo da abstração; mas este processo não nos permite obter um conceito de Deus que o designe em si mesmo de uma maneira absoluta e exclusiva. Collect., prol., q. 1, 6, etc.

A razão pode demonstrar a existência de uma causa primeira que conserva o mundo. Op. cit., l. III, dist. XXIV. A inteligência descobre também algumas das perfeições de Deus: ele é bom, vivente, sábio, inteligente. Op. cit., prol., q. I. Mas os atributos do Altíssimo não são senão nomes diferentes designando uma só e mesma coisa. Op. cit., l. I, dist. II, q. 1, 1.

É a fé somente que prova a unidade, a omnisciência, a omnipotência do ser divino; somente ela estabelece com certeza que Deus é a causa imediata de todos os seres, que ele age livremente no mundo e que ele é o fim do universo. Op. cit., l. I, dist. XXXV, XXXVI, XXXVII; l. II, dist. I, q. II, V. Biel afirma frequentemente que Deus coage, simul causat, isto é, com a criatura, a causa imediata de tudo o que se produz. Op. cit., l. I, dist. XLV. Todavia, este fato não bastaria para estabelecer que ele está presente em toda parte, visto que a ação à distância é possível. Op. cit., l. I, dist. XXXVIII.

Mas a tese mais importante da teologia de Biel é a sua afirmação da independência total e absoluta do querer divino. O Altíssimo decreta o que lhe agrada. O que é, não existe senão pela sua ordem, mas ele poderia não tê-lo querido. Ele é, portanto, livre para fazer o que não é justo; se o faz, o ato torna-se justo. Sua vontade livre, tal é a regra da moralidade. Op. cit., l. I, dist. XLII; dist. XLIII, q. 1.

3. Trindade. — Em seu tratado da Trindade, Biel mostra bem que ele é um dos adeptos deste sistema nominalista que concede um tão grande lugar à lógica. A maioria dos problemas são colocados por ele nestes termos: Pode-se dizer?... Ele se mantém a igual distância daqueles que, como santo Tomás e Scot, invocam a razão em apoio das verdades reveladas e dos teólogos tímidos que, como Gregório de Rimini, Oyta, Holkot, não querem perder o seu tempo e o seu esforço falando longamente da Trindade. A afirmação à qual Biel retorna sempre é a seguinte: Entre a essência e a relação, há distinção formal, dito de outro modo, essência e relação nos aparecem como uma só realidade, mas a fé nos ensina que tudo o que é verdadeiro de uma não o é da outra. Collect., l. I, dist. II, q. XI; dist. V, q. 1; dist. X, q. 1; dist. XI, q. 1; dist. XXXIV.

4. Fim do homem, meio de chegar a ele: a graça e a obra salutar. Predestinação. — Deus é o nosso fim último e o que torna este destino sobrenatural é que o criador decidiu permitir-nos alcançá-lo por auxílios inteiramente gratuitos, acrescentados àqueles que mantemos da nossa constituição e das nossas faculdades. Collect., l. I, dist. I, q. 1; l. II, dist. I, q. V; dist. XXIX.

Para chegar a este fim, o homem deve produzir atos ao mesmo tempo virtuosos e meritórios. Virtuosos, eles o serão contanto que tenham um objeto honesto, ao testemunho da consciência, e que sejam livremente produzidos nas circunstâncias requeridas pela razão para a moralidade. Eles se tornarão meritórios se forem dirigidos a Deus amado por si mesmo e, consequentemente, se forem produzidos sob a influência da caridade ou graça santificante. Op. cit., l. II, dist. VII, XL, XLI; l. III, dist. XVIII.

A graça santificante é, portanto, o poder de fazer obras que Deus, por pura bondade, digna-se a ter por dignas da vida eterna. É a este título que ela nos torna agradáveis a ele. Ela é um dom criado e interior e não a pessoa do Espírito Santo; ela se confunde, aliás, com a virtude da caridade. Tudo isso resulta da livre disposição de Deus. É o que é, de fato (Biel diz: de potentia ordinata). Mas Deus poderia decidir (potentia absoluta) que fosse tudo muito diferente, ele poderia santificar sem se servir de um dom criado, ter por meritório da vida eterna um ato realizado sem a graça, e, pelo contrário, recusar a glória a quem possui a virtude da caridade. E é assim que o mérito depende da pura liberalidade de Deus, é assim que nós somos verdadeiramente santificados por sua vontade, ou, segundo a linguagem da apropriação, pelo Espírito Santo. Op. cit., l. I, dist. XVII; l. II, dist. XXVI, XXIX; l. III, dist. XXXII.

Este dom sobrenatural, Deus não o recusa a ninguém. Muito frequentemente, Biel recorda e aplica o famoso princípio: se alguém faz o que está em seu poder, ele receberá a graça. Aliás, a teoria da predestinação que ele propõe é significativa. Explicando a presciência dos futuros livres, ele a tinha feito depender da sua realização contingente, e tinha escrito: mesmo se Deus, por impossível, não devesse concorrer à sua produção, ele saberia que eles devem chegar livremente. Op. cit., l. I, dist. XXXVIII.

As teses sobre a predestinação são a conclusão lógica desta afirmação. Os réprobos são condenados, porque Deus previu as suas faltas; os justos são predestinados porque Deus previu os seus méritos; pelo menos tal é a regra. Pois, há santos à eleição dos quais não se pode atribuir outro motivo que a vontade do Altíssimo: Biel cita a Virgem Maria, são Paulo, aqueles que foram santificados no seio de sua mãe. Al lado destas afirmações, é verdade, encontram-se outras que soam de forma bem diferente. Toda criatura razoável predestinada por Deus pode ser condenada: ele tem o direito absoluto de recusar a glória a quem tem a graça; se, sem razão, ele faz escolha de certos homens, não se pode acusá-lo de injustiça, pois ele é livre, não deve nada a ninguém e não há que procurar as razões da sua suprema vontade. Op. cit., l. I, dist. XXXIX, XL, XLVI.

5. Estado primitivo do homem e pecado original. — Adão possuía, com a graça santificante, o dom de justiça original, que refreava nele a concupiscência. Op. cit., l. II, dist. XXIX, XXX, q. 1. Sua falta passou aos seus descendentes. Ela não é um simples castigo: nós nascemos pecadores; mas ela não é senão a ausência em nós da justiça original, isto é, daquela retidão da vontade que preservava da concupiscência e que o homem era obrigado a guardar. Sobre as consequências do pecado original: perda da graça, etc., Biel propõe o ensinamento tradicional.

Ele é indulgente para com as crianças mortas sem batismo: a morte aqui embaixo, a pena do dano, mas sem dor, na outra vida, tal é o seu castigo. L. II, dist. XXX, XXXI, XXXII, XXXIII, XXXIV; dist. I, q. II. Biel é um dos mais ardentes defensores da Imaculada Conceição, ele insiste fortemente sobre esta tese; ele crê também que Maria nunca pecou. L. III, dist. III.

6. Encarnação e redenção. — Aqui, como no tratado da Trindade, Biel desdobra à vontade todo o seu talento de lógico; mas tem o bom gosto de não propor ou de não resolver muitas questões indiscretas que atormentavam um grande número de teólogos da época. Ele não ousa decidir se Deus poderia assumir a natureza de qualquer ser, op. cit., l. III, dist. I, q. 11; ignora mesmo se, não pecando Adão, o Verbo se teria encarnado. L. III, dist. II. Não crê, aliás, que se possa demonstrar, uma vez admitida a hipótese da queda, a necessidade da encarnação e da redenção. L. III, dist. XX. Pensa que o mérito de Cristo não tem em si senão um valor limitado, mas que Deus o considera como infinito. Do mesmo modo, estima que Jesus, devendo a Deus todos os seus atos e não tendo suportado sofrimentos iguais aos tormentos do inferno, não ofereceu uma satisfação que fosse rigorosamente suficiente, em estrita justiça; ela o é, de fato, acrescenta ele, porque Deus a aceita como tal. L. III, dist. XIX; l. IV, dist. XVI, q. 1.

7. Justificação. — Merecida principalmente por Cristo, a salvação deve ainda ser merecida pelo homem; ela exige a sua cooperação. Op. cit., l. III, dist. XIX. O pecado original é remetido pelo batismo: visto que a falta consistia na privação da retidão de vontade que éramos obrigados a guardar, Deus, pelo sacramento, comuta essa obrigação de ter a justiça original naquela de possuir a graça, e no-la dá. O homem merece esse favor, não por direito estrito, de condigno, mas pela liberalidade de Deus, de congruo; o adulto pela sua boa vontade, a criança pelos atos daquele que administra o sacramento ou daqueles que o pedem para ela. Loc. cit., l. II, dist. XXXII. Quanto ao pecado atual, ele é mortal ou venial. L. IV, dist. XVI, q. v. Este último, que não faz perder a graça, é remetido assim que o homem não se compraz mais nele e expiou a pena temporal devida à sua falta. Ibid.

Ocorre de outro modo com o pecado mortal. Uma vez que o cometeu, o homem está condenado à morte eterna, e é nisto que consiste o estado de pecado, reatus culpae. Ser justificado é ser aliviado desse decreto e de novo destinado ao céu. L. IV, dist. XIV, q. 1. Deus, que tem o direito de punir aquele que não o mereceu, poderia perdoar sem exigir a penitência, justificar sem dar a graça, deixar a caridade e o pecado mortal coexistirem. L. IV, dist. IV, q. 1, IV; dist. XIV, q. I. Mas, de fato, não é assim. Primeiramente, o pecador pode preparar-se para a justificação. Pelas forças do livre-arbítrio apenas, o homem é capaz de cumprir atos que, sem serem meritórios, são moralmente bons, de evitar o pecado mortal, de respeitar a letra dos mandamentos. Que ele faça o que está em seu poder e então merecerá, não de condigno, em rigor de justiça, mas de congruo, pela liberalidade divina, a primeira graça. L. II, dist. XXVII, XXVIII.

Em uma fina análise que faz pensar na do concílio de Trento, sess. VI, c. vi, Biel enumera os atos pelos quais o pecador se dispõe à justificação. L. IV, dist. IV, q. 1. Ele não omite nem a esperança, nem o temor; a seus olhos, este último não é mau a menos que o pecador, embora o experimentando, estivesse disposto a cometer ainda o mal, no caso em que seu ato devesse ficar impune. L. III, dist. XXXV. Para a justificação, uma única condição é ao mesmo tempo necessária e suficiente: a detestação, pelo pecador, de todas as suas faltas mortais, mas detestação motivada pelo pensamento de que Deus é o seu fim último. Este ato não é tanto uma disposição à graça, mas a sua recepção: assim que é produzido, o homem já não está condenado à morte eterna, a graça é dada. E é por este motivo que jamais amamos Deus soberanamente e por Ele mesmo sem possuir a caridade. Ao contrário, a atrição não pode justificar, nem mesmo no sacramento da penitência. L. IV, dist. XVI, q. 1, II.

Assim, de congruo, em virtude da liberalidade de Deus, o homem merece pela sua boa vontade a primeira graça e, pela contrição perfeita, a justificação. De condigno, em rigor de justiça, aquele que tem a caridade merece, pelos atos livres e virtuosos que produz sob a sua influência, um acréscimo de santidade e o céu. L. II, dist. XXVII. Biel é da opinião de que, para saber com uma certeza absoluta se está em estado de graça, o homem precisa de uma revelação especial. L. II, dist. XXVII.

8. Fé. — A fé é o conhecimento certo das verdades religiosas que Deus revelou. A repetição do ato de crer produz a fé adquirida; a liberalidade divina coloca gratuitamente no justo a fé infusa ou sobrenatural. Somente a revelação estabelece que esta última é necessária; ela tem por efeito acrescentar à perfeição da nossa alma e dos nossos atos. Mas ela não basta. Vaga tendência a crer, é pela fé adquirida que ela é dirigida para uma verdade determinada. A virtude infusa e a ciência podem, portanto, coexistir; mas não se poderia, ao mesmo tempo, aderir a uma proposição pela fé adquirida e aceitá-la em virtude de uma demonstração. A tendência sobrenatural desaparece apenas quando Deus a aniquila, o que ele faz, não todas as vezes que pecamos, mas quando, por um erro culpável, rejeitamos voluntariamente uma verdade revelada.

Há uma outra distinção sobre a qual Biel se estende longamente: a fé é explícita ou implícita. Mas esta última, que deveria ser, pouco depois, tão violentamente atacada, não é um simples cheque em branco concedido pelo leigo ao sacerdote, para o maior proveito da hierarquia: primeiramente, por definição, ela pressupõe a fé explícita em várias verdades; depois, não é somente a virtude dos simples, nenhum cristão pode ter a pretensão de conhecer, em seu teor, todas as verdades reveladas; enfim, Biel enumera um grande número de dogmas que todo fiel é obrigado a aceitar. Op. cit., l. III, dist. XXIII, XXIV, XXV.

9. Sacramentos em geral. — Os sacramentos produzem a graça, op. cit., l. IV, dist. I, q. 1; pois Deus decidiu livremente que a dará quando eles forem administrados. É apenas neste sentido que eles são ditos causa da graça.

De resto, acrescenta Biel, não se poderia afirmar que tal é sempre a eficácia das causas segundas; é Deus quem produz, e imediatamente, o seu efeito, mas ele decidiu não o fazer senão no momento em que elas passam ao ato. Ibid.

A graça sacramental não difere da graça santificante, mas tem por objetivo a cura do pecado ou o acréscimo da justiça já recebida. Ela é concedida mais ou menos abundantemente ao arbítrio da vontade de Deus e em uma medida proporcionada às santas disposições do sujeito. L. IV, dist. I, q. 1; dist. IV, q. 1.

Quanto ao caráter sacramental, sua existência não é demonstrada com evidência sequer pela revelação, ela é apenas provável; não é por ele, mas pela vontade positiva de Deus que se explica principalmente a impossibilidade de reiterar o batismo, a confirmação e a ordem. No mais, tudo o que se diz do caráter é em grande parte arbitrário. L. IV, dist. VI, q. 1.

10. Baptéme. — Biel apresenta muito exatamente a doutrina tradicional. A notar apenas estas duas afirmações: A misericórdia divina dispõe de meios que ignoramos para salvar o pequeno ser que morre no seio de sua mãe e a quem é impossível conceder o sacramento. Op. cit., l. IV, dist. IV, q. 1.

Quando o batismo conferido à criança não é válido, pode-se crer piamente que o sumo sacerdote encontra o meio de remediar a insuficiência do rito. Ibid., dist. VI, q. 1.

11. Eucharistie. — Sobre a presença real, a transubstanciação, a comunhão sob as duas espécies, a adoração devida à santa hóstia, Biel professa a mais pura doutrina. Ele descreve com complacência os efeitos do sacramento. Sacr. can. mis., lect. LXXXV, LXXXVI, fol. 136 sq.; Collect., l. IV, dist. XIII, q. 11.

Sobre as questões de escola, ele se apega ordinariamente às teorias de Ockham ou de Escoto; frequentemente ele só as admite fazendo ressalvas, por vezes, mesmo, ele as expõe sem ousar concluir. Ele admite a presença no ser sacramental da extensão da qual Jesus desfruta no céu, mas as coisas se passam como se ela não estivesse sob as espécies: o corpo eucarístico estando presente todo inteiro em cada parte da hóstia. Collect., l. IV, dist. X.

Quando o sacerdote desloca as espécies, a alma de Cristo ou Deus imprime um movimento semelhante ao corpo do Senhor, ibid.; é ainda a atividade divina que produz imediatamente todos os efeitos que parecem ser a obra dos acidentes da substância do pão desaparecida. L. IV, dist. XII, q. 1.

A eucaristia não é somente um sacramento, ela é um sacrifício. Sem dúvida, a única imolação perfeita da nova lei é a morte sangrenta de Cristo. Não obstante, na missa, pela consagração e a comunhão, oferecemos um sacrifício, e isso por duas razões: primeiro, porque esses dois ritos representam a paixão e dela são o memorial; depois, porque produzem os mesmos efeitos que a morte do Salvador. No altar, mesmo sacerdote e mesma vítima que no Calvário, e, como a redenção, a missa apaga os pecados, concede a paz, une a Deus, evidentemente por causa dos méritos da paixão. É sobretudo o sangue que é um memorial do Calvário, o corpo de Cristo é antes um símbolo de união, uma lembrança da encarnação. O vinho consagrado recorda melhor a morte sangrenta; e o que torna mais viva ainda essa representação do sacrifício do Calvário é que o sangue é consagrado isoladamente no cálice, do mesmo modo que outrora foi separado do corpo do Salvador. Sacr. can. mis., lect. LIII, fol. 99; lect. LIII, fol. 101 sq.; lect. LXXXV, fol. 136 sq.

12. Pénitence. — Este sacramento não tem por efeito remir as faltas mortais: se o pecador se arrepende de todos os seus pecados porque Deus é seu fim último, ele obtém seu perdão imediatamente; se ele não o faz, ainda que tenha a atrição, ele recebe sem fruto a absolvição. O sacramento é, pois, instituído para dar ao homem um penhor assegurado do perdão que ele já obteve, para lhe remir sua falta diante da Igreja, para lhe conceder um acréscimo de graça santificante, enfim, para lhe obter, pela imposição da penitência, a condonação ao menos parcial da pena temporal que ele ainda tem de expiar.

Ele consiste, portanto, essencialmente na absolvição pela qual o sacerdote declara ao fiel que já Deus o absolveu. Esta sentença deve ser precedida do aviso das faltas. Instituída por Jesus Cristo e imposta por ele, sob pena de danação, a todo adulto culpado de pecado mortal, a confissão íntegra remete uma parte da pena temporal, tem o mérito de um ato de obediência, instrui o fiel e permite ao sacerdote lhe escolher uma satisfação conveniente. Este último ato é ordinariamente necessário. Deus, sem dúvida, poderia não tê-lo exigido. Mas, de fato, ele decidiu que não remiria a falta sem pedir uma reparação. Por vezes, o ato de caridade, tão intenso é ele, é, por si só, essa satisfação; ordinariamente, contudo, não é assim. Collect., dist. XIV, q. 1; dist. XVI, q. 1, 11; dist. XVII, q. 1; dist. XVIII, q. 1.

Biel professa a doutrina católica sobre os sufrágios pelas almas do purgatório e sobre a indulgência. Logo a princípio, por falta de prova convincente, ele não ousava afirmar que esta última pudesse ser aplicada aos defuntos; um texto de Sisto IV pôs fim à sua hesitação. Sacr. can. mis., lect. LV, LVI, fol. 108 sq.

13. Morale. — A vontade soberana de Deus, tal é a regra primeira e única da moralidade. Um ato é justo se ele o quer. Collect., l. I, dist. XLIII, q. 1, etc. Assim, a mentira não seria um pecado se Deus ab-rogasse a ordem de não a cometer. L. II, dist. XXXVIII.

Biel insiste sobre a necessidade da liberdade, ela é a glória do homem, a condição do mérito. L. II, dist. XLIV. Ele pensa que há atos indiferentes, seja na ordem natural, seja na ordem sobrenatural. Esta distinção lhe serve para estabelecer, contra os agostinianos da época, que todas as obras dos pecadores não são faltas, todas as virtudes dos filósofos, vícios. L. II, dist. XLI.

Na solução dos casos de consciência, Biel ordinariamente não se mostra nem rigorista, nem laxista, mas faz prova de um grande bom senso. Ele estuda com extrema atenção os mais graves problemas sociais e políticos, o direito de propriedade, a legitimidade da guerra, a origem do poder, as condições do imposto verdadeiramente justo, os deveres dos magistrados, a licitude do negócio, as vantagens da moeda e as obrigações daqueles que a cunham, a taxa do justo salário, a questão do empréstimo a juros. L. IV, dist. XV, q. 1-11.

Não é somente como moralista, mas também como economista que ele encara esses assuntos. Ele não perde uma ocasião de protestar contra o absolutismo.

Ele fustiga em termos muito enérgicos a apropriação dos espólios, as alterações da moeda, os impostos excessivos, mal repartidos ou insuficientemente motivados, os gastos abusivos de justiça, as usurpações praticadas pelos príncipes contra os direitos de pesca, de caça, de pastagem, de usufruto do comunal, etc. As ideias políticas e sociais de Biel são dignas do mais alto interesse. Roscher, Geschichte der Nationalökonomik in Deutschland, Munique, 1874, p. 21 sq.; Janssen, L’Allemagne à la fin du moyen âge, Paris, 1877, p. 169-170, 476.

IV. INFLUENCE. — Wendelin Steinbach, fiel discípulo de Biel, professou as ideias de seu mestre, em Tubinga; João Eck comentou o Collectorium em Friburgo. As numerosas edições das obras de Biel testemunham que ele foi lido e apreciado. Talvez tivesse exercido uma influência duradoura se o declínio da escolástica, o abandono das discussões da escola pelas controvérsias, não tivessem precipitado a queda do nominalismo. A neoescolástica não tentou reerguê-lo; aliás, algumas das teses de Biel, sem terem sido visadas, tinham, de fato, sido atingidas por afirmações do Concílio de Trento. Contudo, o teólogo de Tubinga guardou a estima dos doutores católicos. Eles combatem-no em termos respeitosos e, quando querem dar a conhecer a opinião dos nominalistas, são as suas teses que expõem de preferência. No século XIX, Franzelin, Palmieri, Mazzella, Stentrup, etc., citam-no ainda. Parece que ele é o representante autêntico do nominalismo de boa cepa que se digna, na ocasião, discutir.

Lutero conhecia muito bem os escritos de Biel; ele sabia-os de cor, diz-se. Kuhn, em Encyclopédie des sciences religieuses, art. Luther, Paris, 1880, t. VII, p. 440. Ele declara que o livro sobre o cânon da missa é o melhor que possuem os católicos. Tischreden, c. xxvii, n. 144, édit. Walch, Halle, 1743, t. xx, p. 1418.

As doutrinas de Biel prepararam os erros protestantes? O respeito que o professor de Tubinga testemunha à Igreja coloca-o em oposição formal com o reformador de Wittemberg; o sistema do teólogo católico e o de Lutero são totalmente diferentes. E, no entanto, se os compararmos de perto, deve-se confessar que as teorias de Biel sobre a vontade de Deus, a fraqueza da razão, a natureza da justificação, a causalidade dos sacramentos, a eficácia da penitência, estão muito menos em desacordo do que as teses tomistas com as concepções do reformador, e é preciso reconhecer que mais de uma afirmação do teólogo de Tubinga sobre o que Deus teria podido realizar assemelha-se singularmente a proposições protestantes: Lutero dá como real e verdadeiro o que Biel declarava possível. Mas os historiadores que tentaram apresentar Biel como um precursor da reforma tomaram o caminho errado e tentaram o impossível. Wigand Biel, De Gabriele Biel, celeberrimo papista antipapista, Wittemberg, 1719; Moser, Vitae professorum Tubingensium, ordinis theologici, decas prima, Tubingue, 1718.

Sobre a vida, as obras, a doutrina, ver Linsenmann, Gabriel Biel und die Anfänge der Universität zu Tübingen, em Theologische Quartalschrift, 1865, p. 195-226; Gabriel Biel, der letzte Scholastiker und der Nominalismus, ibid., p. 449-481, 601-676. Este estudo muito cuidado foi resumido pelo autor em Kirchenlexikon, art. Biel, 2ª édit., Fribourg-en-Brisgau, 1883, t. II, vol. 804-808. Ver também Tschackert, art. Biel, em Realencyclopädie, 3ª édit., Leipzig, 1897, t. II, p. 209 sq.

Sobre o conjunto da doutrina de Biel, fora de Linsenmann e da curiosa obra de Wigand Biel citada no decorrer do artigo, ver um resumo do Collectorium, em Werner, Die Scholastik des späteren Mittelalters, Viena, 1887, p. 262-296. Os manuais de história do dogma de Schwane, Harnack, Loofs, citam alguns textos de Biel. Seeberg, Lehrbuch der Dogmengeschichte, Erlangen et Leipzig, 1898, t. II, faz-lhe um largo lugar. A doutrina de Biel sobre questões particulares é exposta nos tratados dogmáticos dos teólogos católicos, como também em monografias consagradas à história de um dogma especial: Thomassin, Consensus scholae de gratia, tr. I, part. II, n. 24, Dogmata theologica, Paris, 1870, t. VI, p. 194 sq.; Renz, Die Geschichte des Messopferbegriffs, Freising, 1901, t. I, p. 809 sq.; Ritschl, Geschichtliche Studien zur christlichen Lehre von Gott, em Jahrbücher für deutsche Theologie, t. X, fasc. 2, p. 816 sq.; Hermann Schulz, Der sittliche Begriff des Verdienstes, Theologische Studien und Kritiken, 1894, p. 304 sq. Sobre os sermões de Biel, ver Plitt, Gabriel Biel als Prediger, Erlangen, 1879.

Autor original: C. Ruch

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor