BÉRULLE (PEDRO DE)

BÉRULLE (PEDRO DE)

BÉRULLE (Pierre de). — I. Vida. II. Obras.

I. Vida. — Nasceu em Cérilly, na Champagne, em 4 de fevereiro de 1575, de uma ilustre e antiga família de magistrados. Ainda muito jovem e antes de ser honrado com o sacerdócio, empregou-se na conversão dos protestantes e compôs um *Discours de l'abnégation intérieure*, que fez prever de que autoridade ele seria um dia um escritor místico. Tornando-se sacerdote e capelão honorário de Henrique IV, que lhe ofereceu inutilmente diversas vezes vários bispados, assistiu o cardeal Du Perron em suas conferências com os ministros huguenotes. Du Perron dizia dele: "Se se trata de convencer os hereges, trazei-mos; se se trata de convertê-los, apresentai-os ao Sr. de Genebra (são Francisco de Sales); mas se se trata de convencê-los e convertê-los ao mesmo tempo, conduzi-os ao Sr. de Bérulle."

Ligado pelo sangue e pela amizade à Srta. Acarie (a futura Beata Maria da Encarnação), o jovem de Bérulle empreendeu com ela e com diversos personagens a introdução na França das carmelitas reformadas de santa Teresa. Esta negociação foi longa e penosa, mas terminou felizmente no início do século XVII. O papel do Pe. de Bérulle neste assunto foi diversamente apreciado. O cardeal Pie tomou calorosamente a defesa do Carmelo da França, sempre florescente com a organização que lhe deram, com a aprovação reiterada da Santa Sé, o Pe. de Bérulle, a B. Acarie e a Venerável Madalena de São José.

Em 1614, o Pe. de Bérulle fundou o Oratório da França, sobre o modelo daquele de são Filipe Néri, mas com algumas modificações que o muito grande desenvolvimento tomado por essa congregação nos séculos XVII e XVIII justificou, enquanto as tentativas de transplantação do Oratório filipino na França sempre definharam. Encontrar-se-á no artigo ORATÓRIO a história da fundação do Pe. de Bérulle e alguns detalhes sobre sua organização. Digamos apenas aqui que do Oratório — de quem o célebre Pe. Cotton dizia "que era necessário à Igreja", palavra repetida assim por são Francisco de Sales: "Não há nada mais santo e de mais útil à Igreja de Deus" — saiu a renovação do clero da França no século XVII. "Durante a disputa que um partido poderoso suscitou... vários de seus membros, diz Feller, não souberam defender-se suficientemente contra a novidade; mas a generalidade da congregação permaneceu sempre apegada à doutrina da Igreja e aos decretos de seus pontífices."

O Pe. de Bérulle, fundador da nova congregação, foi naturalmente o seu primeiro superior geral. Embora sempre encarregado com isso da direção das carmelitas, encontramo-lo também ativamente ocupado com os negócios públicos de seu tempo. É preciso assinalar nomeadamente seu papel no assunto do casamento de Carlos I da Inglaterra. Em 1627, o chapéu de cardeal veio recompensar o zelo do Pe. de Bérulle e os eminentes serviços prestados por ele ao Estado e à Igreja. Morreu santamente, no altar, em 2 de outubro de 1629. São Vicente de Paulo, seu discípulo, disse dele: "É um dos mais santos sacerdotes que conheci", e são Francisco de Sales, seu amigo: "Ele é tal qual eu saberia desejar ser eu mesmo."

II. OBRAS. — Sabe-se que o papa Urbano VIII tinha chamado o Pe. de Bérulle de apóstolo do Verbo encarnado. "Esta palavra, diz o cardeal Perraud, não é apenas um magnífico elogio concedido à piedade do fundador do Oratório; encontra-se nela ainda, por assim dizer, o resumo substancial de suas obras escritas; pois pode-se dizer delas, como da vida inteira do santo cardeal, que todas têm por objetivo fazer conhecer e amar mais N.-S. Jesus Cristo."

Eis a lista de suas principais obras teológicas: 1° *Traité des énergumènes*, in-8°, Troyes, 1599; 2° *Trois discours de controverse* (sobre a missão dos pastores, o sacrifício da missa e a presença real), in-8°, Paris, 1609; 3° *Discours de l'état et de la grandeur de Jésus, par l'union ineffable de la divinité avec l'humanité, et de la dépendance et servitude qui lui est due et à sa très sainte mère en suite de cet estat admirable*, in-8°, Paris, 1623, obra frequentemente reeditada e cuja substância e muitas vezes as próprias expressões passaram para as célebres *Méditations* do Pe. Bourgoing, como também nas *Élévations sur les mystères* de Bossuet; 4° *Vie de Jésus*, in-8°, Paris, 1629, continuação inacabada da obra precedente; 5° *Élévation à J.-C... sur sainte Magdelaine*, in-12, Paris, 1627.

Todas essas obras foram reunidas em uma edição das obras completas do Pe. de Bérulle dada pelo Pe. Bourgoing, in-fol., Paris, 1644, que acrescentou "uma tabela da teologia deste grande autor preparada segundo a ordem da *Suma* de são Tomás". Migne reimprimiu (1856) a terceira edição desta coleção. Estas obras contêm uma doutrina sólida e forte, cheia de unção e de piedade, mas apresentada infelizmente em um estilo muitas vezes difuso e monótono. Como diz um dos historiadores do Pe. de Bérulle, o Pe. Cloyseault, "é preciso lê-las com lazer e pesar cada palavra; mas é impossível lê-las sem sentir-se abrasado de amor para com J.-C."

Tabaraud, *Histoire de Pierre de Bérulle*, 2 in-8°, Paris, 1817; Perraud, *L'Oratoire de France*, c. II, IV; Houssaye, *M. de Bérulle et les carmélites*; *Le P. de Bérulle et l'Oratoire*; *Le cardinal de Bérulle et Richelieu*, 3 in-8°, Paris, 1872-1876; Ingold, *Essai de bibliographie oratorienne*, c. XXXIV, in-8°, Paris, 1880-1882.

Autor original: A. Ingold

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