BECANUS, Martin (Schellekens seria o seu sobrenome; Becanus remeteria ao local de origem), célebre controversista, nasceu em Hilvarenbeeck (Brabante Setentrional, Holanda), em 6 de janeiro de 1563, estudou com os jesuítas em Colônia, entrou na sua ordem em 22 de março de 1583, ensinou filosofia em Colônia de 1590 a 1593, e teologia durante vinte e dois anos em Würzburg, Mogúncia e Viena, foi confessor do imperador Fernando II, desde 1620 até a sua morte, que ocorreu em Viena, em 24 de janeiro de 1624.
Muito apreciado como professor, não o foi menos como escritor, o que atestam as edições repetidas das suas numerosas obras, não somente na Alemanha, mas ainda na França e na Itália. A maior parte delas é dirigida contra os erros dos protestantes, e em particular dos calvinistas. Dentre os seus opúsculos de controvérsia, publicados primeiro separadamente, depois reunidos em 2 in-fol. ou 4 in-4º, os mais notáveis tratam da predestinação, do livre-arbítrio, da eucaristia, da invocação dos santos, da infalibilidade da Igreja, da hierarquia eclesiástica e do poder do papa.
Ele expõe e refuta o conjunto dos erros dos luteranos, dos calvinistas, dos anabatistas e dos "políticos" (maus católicos favoráveis aos inovadores), no seu Manuale controversiarum, in-4º, 1623, cujas edições são quase inumeráveis (a melhor, segundo Hurter, Nomenclator, t. 1, p. 294, é a de Colônia, in-12, 1696), como também as do resumo que dele fez, Compendium Manualis controversiarum, que surgiu primeiro em Mogúncia, in-12, 1623, e do qual houve várias edições "de bolso", nos menores formatos. São Vicente de Paulo escreve, numa carta datada de Beauvais, 1628: "Estuda-se, exerce-se sobre as controvérsias?... Que se tente possuir bem o Pequeno Bécan, não se pode dizer o quanto este pequeno livreto é útil para este fim." Lettres, t. 1, p. 20, em Sommervogel, Bibliothèque, t. 1, col. 1441.
Becanus abraçou toda a teologia na sua Summa theologiae scholasticae, 4 in-4º, Mogúncia, 1612, e frequentemente depois; reimpresso em Lyon, Ruão e alhures: é sobretudo o ensino de Suarez que se encontra ali sob forma mais breve. A precisão e a clareza são, com a solidez da doutrina, as qualidades que distinguem todos os escritos deste laborioso teólogo.
Contudo, aquele onde, seguindo Bellarmin (J. de la Serviere, Une controverse au début du XVIIe siècle : Jacques Ier d’Angleterre et le cardinal Bellarmin, em Études, t. XCIV [1903], p. 628 sq.; t. XCV, p. 493 sq., 765 sq.; t. XCVI, p. 44 sq.), ele defendeu a autoridade dos papas sobre os reis contra Jaime I, rei da Inglaterra, sob o título: Controversia anglicana de potestate regis et pontificis contra Lancellottum Andream sacellanum regis Angliae qui se episcopum Eliensem vocat, pro defensione ill. card. Bellarmini, Mogúncia, 1612, foi proibido donec corrigatur por decreto do Index, em 3 de janeiro de 1613, como contendo algumas "proposições falsas, temerárias, escandalosas e sediciosas, respective". Mas o objetivo desta condenação parece ter sido menos o de proscrição de um livro que, salvo talvez algumas exagerações, quase não continha senão a doutrina então comum entre os teólogos, galicanos excetuados, do que o de impedir o Parlamento e a Faculdade de teologia de Paris de fazerem eles mesmos a censura, com declarações hostis à autoridade papal. P.-J.-M. Prat, Recherches historiques et critiques sur la Compagnie de Jésus en France du temps du P. Coton, Lyon, 1876, t. III, p. 394. Ver uma carta do P. Adam Contzen, S. J., sobre a censura romana, endereçada ao cardeal Bellarmin, de Mogúncia, 26 de março de 1613, em Döllinger-Reusch, Geschichte der Moralstreitigkeiten, Nördlingen, 1889, t. II, p. 252-259. Reimpresso três meses mais tarde, com algumas correções e uma dedicatória ao papa Paulo V, este livro nunca figurou em nenhuma edição oficial do Index. Reusch, Der Index, t. 1, p. 345-348.
O tom da polêmica de Becanus contra os heterodoxos é digno, medido, contrastando com as violências dos adversários que combatia. Também o sábio protestante Fabricius, Historia bibliothecae Fabricianae, Wolfenbüttel, 1718, t. II, p. 108, concede-lhe este elogio: Certe omnino laudanda videtur modestia, qua Becanus in disputationibus suis utitur. Martin Becanus é um dos teólogos que melhor definiram as circunstâncias que permitem ou mesmo impõem um dever aos soberanos católicos de conceder a tolerância religiosa aos não católicos nos seus Estados.
Recentemente, a sua lealdade foi posta em causa, injustamente, a respeito de uma pretensa citação de Calvino concernente aos jesuítas, que se lê em vários escritores católicos. O reformador daria ali como instrução aos seus partidários "matar os jesuítas ou, se isso não pudesse ser feito facilmente, exilá-los, e em todo caso acabá-los sob as mentiras e as calúnias". Não se encontra nada semelhante nos escritos de Calvino, ainda que eles contenham, aliás, a expressão de um vivo rancor contra os jesuítas. Ver Institution chrestienne, 2ª ed. dada por Calvino, Genebra, 1559, p. 388.
Protestantes, portanto, acusaram Becanus de ter caluniosamente atribuído este dito atroz a Calvino. É verdade que, dentre os Aphorismes calvinistes, opostos por Becanus como justa retorsão aos Aphorismi doctrinae jesuitarum et aliorum aliquot pontificiorum doctorum, libelo calvinista largamente difundido em latim, em francês e em inglês, encontra-se este Aphorismus XV: Jesuitae vero qui se maxime nobis opponunt, aut necandi, aut si id commode fieri non potest, ejiciendi, aut certe mendaciis ac calumniis opprimendi sunt; mas Becanus não o apresenta de modo algum como uma citação ou uma asserção de Calvino ou de um autor calvinista. Na realidade, depreende-se do título mesmo que deu ao seu escrito: Aphorismi doctrinae calvinistarum, ex eorum libris, dictis et FACTIS collecti, cum brevi responsione ad Aphorismos falso jesuitis impositos, e sobretudo da maneira como desenvolve cada um destes "aforismos", que pretendeu apenas formular ali os princípios que os calvinistas do seu tempo professavam explicitamente ou implicitamente ou, ao menos, seguiam na prática. Que eles se comportassem realmente em relação aos jesuítas como se tivessem tido por palavra de ordem o "XVº aforismo", Becanus prova por fatos incontestáveis. Becanus, Opuscula theologica, in-fol., Paris, 1642, p. 233. Sobre a "falsa citação" de Calvino ver A. Sabatier, Calvin, Pascal, les jésuites et M. F. Brunetière, no Journal de Genève, 26 de janeiro de 1896, ou Revue chrétienne, 1º de março de 1896, p. 161; J.
Brucker, Calvin, les jésuites et M. A. Sabatier, em Études, 15 de abril de 1896, p. 683; A. Sabatier, Histoire d’une fausse citation, Réponse au P. Brucker, no Journal de Genève, 10 de maio de 1896; Revue chrétienne, 1º de junho de 1896, p. 457. Sabatier reconhece ter se enganado ao supor que Becanus «dava seus aforismos como extraídos textualmente das obras de Calvin»); J. Brucker, Observations sur une réponse de M. A. Sabatier, em Études, 15 de julho de 1896, p. 511.
Mencionemos, para finalizar, uma pequena obra de Becanus referente à Escritura sagrada: Analogia Veteris et Novi Testamenti, in-12, Mainz, 1623, frequentemente reeditada, ainda no Scripture S. cursus de Migne, t. 11, col. 9-336.
Para a lista detalhada das obras de Martin Becanus, ver De Backer et Sommervogel, Bibliothèque de la Cª de Jésus, t. I, col. 1091-1111; t. VII, col. 1789-1790. Cf. Hurter, Nomenclator literarius, 2ª ed., t. 1, p. 293-294; Stanonik, em Kirchenlexikon, 2ª ed., t. II, col. 161-162; Werner, em Allgemeine deutsche Biographie, t. VI, p. 199-200; E. Colmans, em Biographie nationale (da Bélgica), t. 1, p. 70-71.
Sobre as relações de Becanus com seu imperial penitente, ver B. Dudik, O. S. B., Korrespondenz Kaisers Ferdinand II und seiner erleuchten Familie mit den kaiserlichen Beichtvätern P. Martinus Becanus und P. W. Lamormaini S. J., em Archiv für österreichische Geschichte, Viena, 1877, t. LIV, p. 226 sq., 258 sq.
Autor original: Jos. Brucker
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