BASÍLIO (REGRA E MONGES DE SÃO)

BASÍLIO (REGRA E MONGES DE SÃO)

II. BASÍLIO (Regra e monges de São). — I. Vida monástica. II. Regra. III. Monges de São Basílio.

I. VIDA MONÁSTICA. — São Basílio sentia uma viva atração pela vida monástica. Não encontrava na Capadócia nenhum meio de satisfazê-la plenamente. Empreendeu uma viagem através do Oriente monástico. O que lhe foi dado ver e ouvir em Alexandria, no Egito, na Palestina, na Celessíria e na Mesopotâmia revelou-lhe toda a tradição dos mestres da vida religiosa. Muitos de seus compatriotas queriam, eles também, levar a vida dos monges. Gregório de Nazianzo era um deles. Retiraram-se com Basílio às margens do Íris, numa profunda solidão (por volta de 356). Santa Macrina, irmã de Basílio, governava uma comunidade de virgens na margem oposta do rio. Os aspirantes afluíram numerosos; o que necessitou a criação de vários mosteiros no Ponto. O retorno de Basílio a Cesareia (364), após sua ordenação sacerdotal, provocou na Capadócia uma semelhante eflorescência do monaquismo. No momento de sua eleição episcopal, os monges eram suficientemente numerosos para exercer uma grande influência. Tillemont, Mémoires pour servir a l’histoire ecclésiastique, t. vi; Allard, Saint Basile, Paris, 1898; dom Besse, Les moines d’Orient, Paris, 1900.

II. REGRA. — É no seu mosteiro às margens do Íris que São Basílio redigiu sua regra. Teve como colaborador São Gregório de Nazianzo. Esta regra compõe-se de duas partes: as grandes e as pequenas regras. As primeiras compreendem cinquenta e cinco interrogações e outras tantas respostas; há trezentas e treze nas segundas. Estas são mais curtas; daí o seu nome. Ver col. 447.

O legislador adotou a forma catequética. O discípulo interroga o mestre. O texto da questão, ao entrar no corpo mesmo da regra, precisa o sentido da resposta. Este método contribui muito para a clareza da doutrina. Todas essas questões e respostas vêm de um mesmo autor; elas se completam umas às outras. Reconhece-se nelas um mesmo espírito. São Basílio supõe o mosteiro organizado materialmente. Por isso, não se poderia, apenas com o socorro de sua regra, reconstituir a vida monástica tal como a praticavam os monges da Capadócia. Essas observâncias foram inculcadas aos monges verbalmente; elas se transmitiam pela tradição. São Basílio deixava assim aos superiores uma maior liberdade para adaptá-las às circunstâncias de lugares, de pessoas e de tempos. Contentou-se em estabelecer princípios seguros e luminosos, que poderão esclarecer os monges e guiar a sua conduta.

O legislador apaga-se completamente para colocar seu discípulo na escola das divinas Escrituras; ele responde à maioria das questões com um texto sagrado que ele completa, seja por meio de uma glosa pessoal, seja aproximando-o de passagens análogas. A Bíblia permanece assim o fundamento da legislação monástica, a regra verdadeira. A obra de São Basílio impressiona sobretudo por sua discrição e sua sabedoria. O monaquismo, contudo, não perde nada de seu vigor. Não se saberia levar mais longe a prática da pobreza religiosa, da obediência, do renunciamento e da morte a si mesmo. A regra basiliana aplica-se às mulheres tanto quanto aos homens. Ela foi prontamente adotada pelos mosteiros da região.

Rufino, que a conheceu durante suas viagens ao Oriente, fez dela uma tradução latina, a pedido de Urseus, abade de um mosteiro da Itália meridional. Sem a menor preocupação de traduzir exatamente o texto primitivo, ele reduziu as duas regras em uma só: Regule sancti Basilii episcopi Cappadociæ ad monachos, P. L., t. cit, col. 483-554, onde se encontram apenas duzentas e três interrogações. É sob esta forma que São Bento a conheceu e que ela figura no Codex regularum de São Bento de Aniane. Ela fez parte das regras das quais se serviram os abades da França merovíngia nos séculos V e VI para organizar seus mosteiros. Atribuiu-se falsamente ao bispo de Cesareia as Constitutiones monasticæ, P. G., t. xxxI, col. 1815-1428, redigidas em uma época posterior em uma contrada onde os cenobitas e os anacoretas eram numerosos.

As regras de São Basílio receberam, na sequência, numerosas adições que, sem modificar seu texto, precisaram mais a prática e as completaram pela adjunção de observâncias novas. Os concílios e os patriarcas de Constantinopla enriqueceram com numerosas ordenanças o corpo das leis monásticas do Oriente. Convém citar João, o Jejum, Nicéforo e Fócio. Os abades de alguns mosteiros célebres fundiram num todo metódico esses elementos esparsos da disciplina religiosa oriental, os quais tiveram o cuidado de explicar e comentar. As constituições que São Nilo redigiu para seu mosteiro de Santa Maria de Chipre, as de São Teodoro para o mosteiro de Estúdio em Constantinopla e de Santo Atanásio para o monte Atos são as mais importantes; elas exerceram uma grande influência sobre o desenvolvimento do monaquismo oriental. Os imperadores de Bizâncio, Justiniano em particular, legislaram frequentemente para os monges.

Um grande número dessas leis e desses regulamentos caíram hoje em desuso. Os mosteiros basilianos atuais conservam contudo o suficiente para guardar sua fisionomia arcaica. Muitos entre eles adotaram observâncias especiais, mas elas não bastam para estabelecer entre eles diferenças comparáveis àquelas que distinguem as ordens religiosas no Ocidente. S. Basílio, Regulæ fusius tractatæ, P. G., t. xxxI, col. 889-1052; Regulæ brevius tractatæ, ibid., col. 1051-1506; Ascetica, ibid., col. 619-889; Pitra, Juris ecclesiastici Græcorum historia et monumenta, Roma, 1864.

III. MONGES. — Preferimos este termo de monges de São Basílio ao de ordem. O último deixaria supor toda uma organização hierárquica do monaquismo que nunca existiu no Oriente. O padre Clavel, Antiguedad de la religion y regla de san Basilio, Madrid, 1645, gostaria de fazer remontar até São Basílio uma organização deste gênero. Os papas Libério, São Dâmaso e São Leão teriam solenemente aprovado sua regra. A maioria dos mosteiros do Oriente e do Ocidente tê-la-iam imediatamente adotado. Daí a extrema facilidade com a qual os historiadores basilianos inscrevem entre os bem-aventurados de sua família monástica todos os santos monges e monjas que viveram desde o século V. O próprio São Bento pertenceria à ordem de São Basílio. Dom Mennuti, Kalendarium sanctorum ordinis sancti Basilii. Estas pretensões, comuns às ordens religiosas antigas, não merecem confiança.

A regra de São Basílio tornou-se, pouco a pouco, a norma dos mosteiros das igrejas que seguem a liturgia grega, em todas as regiões submetidas à dominação bizantina, sem que se possa fixar uma data precisa para cada um deles. Seus monges foram intimamente misturados à vida da Igreja. Narrar a sua história seria fazer a história das igrejas do Oriente. Sua atividade foi muito grande; atividade intelectual, atividade artística, atividade apostólica.

Saíram de suas fileiras patriarcas: Maximiano, Eutíquio, João o Jejuno, Ciro, Nicéforo, Metódio, Inácio, etc., apenas para a sede de Constantinopla, e inúmeros bispos. Mesmo o episcopado acabou por se recrutar exclusivamente nos claustros, a partir do dia em que o casamento se generalizou entre o clero secular. É ainda o que acontece em nossos dias.

Os monges tomaram uma parte muito ativa nas discussões teológicas que agitaram as igrejas do Oriente: monofisismo, monotelismo, a questão dos Três Capítulos, a questão das santas imagens. Se houve entre eles numerosos hereges, souberam dar à ortodoxia seus campeões mais intrépidos; por exemplo, São João Damasceno, que lutou com tanta energia contra os iconoclastas, São Máximo, o mais temível adversário dos monotelitas, São Teodoro Estudita, São Estêvão do monte Santo-Auxêncio, São Sabas, hegúmeno do Estúdio. A perseguição iconoclasta fez entre eles uma legião de mártires.

Os monges foram, no Oriente, os propagadores da fé no meio dos pagãos. Os povos eslavos que habitavam para além das fronteiras do Império, e sobretudo aqueles que as atravessaram mais de uma vez, receberam deles o Evangelho. São Cirilo e São Metódio são os mais conhecidos desses monges apóstolos. Todos trouxeram aos novos convertidos, com a liturgia grega, a vida monástica, tal como a praticavam os basilianos. Os mosteiros tornaram-se numerosos e influentes nessas regiões ganhas à fé.

Os monges cultivaram as letras divinas e humanas. Os defensores da ortodoxia, enumerados acima, foram, ao mesmo tempo, os homens mais instruídos de sua época, teólogos muito estimados. Houve ainda nos mosteiros cronistas, tais como Jorge o Sincelo, seu amigo Teófanes (+817); hagiógrafos, cuja pena foi particularmente fecunda; poetas e hinógrafos, que enriqueceram com suas composições a literatura litúrgica. Os mais conhecidos são o santo abade Máximo de Crisópolis, São Teodoro Estudita e São Romanos. Muitos entre eles cultivaram as belas-artes, particularmente a pintura e a miniatura. Esta permaneceu uma tradição cara aos grandes mosteiros basilianos.

A transcrição dos manuscritos era uma das ocupações mais úteis dos monges. Graças ao zelo que nisto empregavam, seus principais mosteiros acabaram por possuir ricas bibliotecas, onde os manuscritos eram conservados com um cuidado religioso. Mesmo após séculos, as bibliotecas monásticas do Oriente rendem à atividade inteligente e ao saber extenso dos basilianos do passado uma preclara homenagem. Os eruditos modernos fizeram nelas numerosas descobertas e estão longe de ter esgotado os tesouros que elas encerram. As mais ricas são as do Sinai e do monte Athos.

Os progressos incessantes do islamismo e o afrouxamento da verdadeira vida cristã que seguiu o cisma de Bizâncio levaram, entre os monges basilianos, uma irremediável decadência. Um grande número de mosteiros desapareceu, outros subsistem ainda, mas, apesar dos monges mais ou menos numerosos que os povoam e de uma fidelidade rígida a certas observâncias, não são mais do que ruínas morais. Estes mosteiros mantêm, contudo, um lugar muito importante na vida religiosa das Igrejas orientais. Os mais conhecidos e os mais influentes são o do monte Sinai, o de São Sabas na Palestina e o grupo dos mosteiros do monte Athos. Os basilianos são numerosos na Grécia e nas ilhas do Arquipélago. Não há mais vida intelectual e apostólica nesses mosteiros desde que se tornaram presa do cisma. Ver CONSTANTINOPLA (Igreja de).

As Igrejas que seguiram Constantinopla em seu cisma conservam uma população monástica bastante numerosa. Os basilianos da Rússia são os que mais merecem fixar a atenção. Eis a lista de seus principais mosteiros: Petchersky de Kiev, São Sérgio de Troitsa ao norte de Moscou e Santo Alexandre Nevsky em Petersburgo, que portam o nome de lavras, e Potchaief na Volínia; são os grandes santuários da Rússia. Abaixo deles, há um grande número de mosteiros de menor importância. Mantêm um lugar considerável na constituição da Igreja ortodoxa. Ver RÚSSIA.

No movimento de retorno à união com Roma, que quase aniquilou o cisma entre os rutenos, os monges tiveram um grande papel a desempenhar. Seus mosteiros, reformados por Rutski e São Josafá, foram os instrumentos dos quais Roma se serviu para retomar contato com essas igrejas. A partilha da Polônia e a política dos czares fizeram retornar ao cisma a maioria dos basilianos rutenos. Aqueles da Galícia, submetidos ao império da Áustria, com seus confrades da Hungria, conservam ainda sua fidelidade ao soberano pontífice. Os primeiros formam uma congregação, sob o vocábulo do Santo Salvador, com 14 mosteiros; os segundos formam uma outra, composta de 7 mosteiros. Leão XIII fundou em Roma o colégio greco-ruteno perto da igreja dos Santos Sérgio e Baco e entregou-o aos basilianos.

Os gregos unidos possuem no Oriente um certo número de mosteiros basilianos distribuídos em três congregações governadas por um abade geral: a do Santo Salvador, fundada em 1715, com 8 mosteiros, 21 hospícios e 400 religiosos; a de Alepo, com 4 mosteiros e 2 hospícios; e a dos valaditas, com o mesmo número de mosteiros e 3 hospícios. Estas duas últimas estão espalhadas no Líbano.

Os basilianos tiveram no Ocidente numerosos mosteiros, sobretudo na Sicília e na Itália meridional. A fundação da maioria deles remonta ao tempo da perseguição iconoclasta e da dominação dos príncipes normandos. Todavia, esses príncipes, após terem concedido alguns privilégios aos monges gregos, buscaram substituí-los por beneditinos. A mudança de conduta em relação aos basilianos explica-se pelo seu apego à Santa Sé e ao rito latino, e também pelo seu antagonismo político com a corte de Bizâncio. O mosteiro de Rossano, um dos mais célebres, conservou por muito tempo as melhores tradições literárias de Bizâncio, graças sobretudo a São Nilo o Jovem, seu fundador, ao abade São Bartolomeu e aos monges Paulo e Neófito. O de São Nicolau de Otranto não é menos célebre. Santo Salvador de Messina e Grotta Ferrata, nos Estados Pontifícios, foram também ilustres.

O breve retorno dos gregos à unidade romana conferiu alguma vida a esses mosteiros italianos no tempo do Concílio de Florença. Eles se beneficiaram da emigração dos bizantinos para o Ocidente após a tomada de Constantinopla. Vê-se, assim, o nome deles figurar com certa dignidade na história do Renascimento. O cardeal Bessarion, abade comendatário de Grottaferrata e protetor de todos os basilianos, não negligenciou nada do que pudesse estimular a vida intelectual deles e tirar proveito dos tesouros literários encerrados em suas bibliotecas.

O relaxamento foi profundo nesses mosteiros no século XVI. Para remediar isso, Gregório XIII empreendeu uma reforma (1573). Os mosteiros italianos formavam as três províncias da Sicília, da Calábria e de Roma. Eles seguiam a liturgia grega com costumes emprestados da liturgia latina, tal como a consagração do pão ázimo. Alguns mosteiros obtiveram do soberano pontífice a permissão de seguir integralmente a liturgia romana.

Não havia mais do que 22 abadias na Sicília, 13 no reino de Nápoles e algumas nos Estados Pontifícios, ao final do século XVII. Elas quase todas desapareceram nas revoluções do século seguinte. Grottaferrata é o único mosteiro que goza de alguma celebridade.

A Ordem de São Basílio teve várias casas na Espanha, seguindo a liturgia latina. Elas recrutavam-se entre os espanhóis e reconheciam a autoridade do superior-geral residente em Roma. Formavam as duas províncias de Castela e da Andaluzia. O frei Mathieu della Fuente fundou, por volta de 1557, a congregação reformada de Turdon, na diocese de Córdoba. Esses mosteiros espanhóis desapareceram completamente.

Clavel, Antiguedad de la religion y regia de san Basilio, 1645; Heimbucher, Die Orden und Kongregationen der katholischen Kirche, 1896, t. 1, p. 44-49; Hélyot, Histoire des ordres religieux, 1792, t. 1; Lenormant, La Grande Grèce, Paris, 1881, t. 1; Marin, Les moines de Constantinople, Paris, 1897; Batiffol, L’abbaye de Rossano, Paris, 1891; Leroy-Beaulieu, L’empire des tsars, Paris, 1889, t. II, La religion.

Autor original: J. Besse

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