ARÍSTIDES

ARÍSTIDES

ARISTIDES, filósofo ateniense e apologista da primeira metade do século II. Eusébio lembra que ele endereçou a sua Apologia a Adriano, durante a estada deste imperador em Atenas; mas, contrariamente aos seus hábitos, São Jerônimo não especifica nada sobre isso. H.E., IV, 3, P.G., t. xx, col. 308. Ele cita pensamentos emprestados dos filósofos, que ele dá como modelo a São Justino; ele exalta a coragem, a eloquência e a erudição de Aristides. De vir. ill., 20, P.L., t. xxiii, col. 640; Epist. ad Magn., lxx, P.L., t. xxii, col. 607.

Foi impossível, durante muito tempo, verificar as afirmações de Eusébio e de Jerônimo, de ter uma ideia objetiva da obra de Aristides, pois acreditava-se que ela estava perdida. Contudo, desde 1878, os mequitaristas de Veneza publicaram um fragmento bastante curto de uma versão armênia. E mais tarde, em 1889, Rendel Harris encontrou no monte Sinai, no convento de Santa Catarina, uma coletânea de quinze peças, entre as quais a Apologia de Aristides na íntegra numa versão siríaca; Robinson reconheceu que esta versão se assemelhava ao discurso de Naor ao rei Abener da Vida de Barlaão e Josafá, que se encontra entre as obras de São João Damasceno, P.G., t. xcvi, col. 1008-1124.

Esta tríplice descoberta não deixava mais dúvidas. Um trabalho de comparação tornou-se necessário. Possuía-se a Apologia, sem o fragmento armênio que se encontrava mais ou menos, seja no grego, seja no siríaco. Mas os dois textos, grego e siríaco, estavam longe de ter o mesmo comprimento. Esta desigualdade provém primeiramente do fato de que o autor da Vida de Barlaão e Josafá, ao colocar a Apologia de Aristides nos lábios de Naor, conservou estritamente dela apenas o que se ajustava sem disparidade aos dados do seu romance: donde a redução nas informações sobre a divisão da humanidade, e uma supressão no siríaco de muitas repetições; em seguida, o siríaco contém cerca de duas páginas no final e, além disso, traduz largamente.

Todavia, como as versões siríacas são em geral muito sinceras, é a descoberta de Rendel Harris que nos dá, por ora, a ideia mais completa da Apologia. Não resta mais do que descobrir o original. Enquanto isso, se o véu que recobre a vida de Aristides não pôde ser levantado pelas recentes descobertas, pode-se ao menos ter uma ideia mais exata da obra do filósofo ateniense. As informações de Eusébio e de Jerônimo parecem indicar como data o inverno de 125-126. Mas a inscrição oferece alguma dificuldade. «Ao todo-poderoso César Tito Adriano Antonino, Augusto, Clemente, Marcianus Aristides, filósofo ateniense.»

Não se contentava com os imperadores o título de aùToxpàTwp; o qualificativo de 7ravroxpâTwp; aquele de Augusto e de Clemente, no plural, não poderia convir a um só personagem; se se trata de Antonino ao mesmo tempo que de Adriano, a Apologia dataria de 138; com mais razão, se se trata apenas de Antonino sozinho, a data de 125-126 não poderia convir. Assim pensam Rendel Harris, Harnack, Bardenhewer. Kihn mantém ainda assim a data de Eusébio e de Jerônimo. Seja como for a data, a Apologia pode resumir-se assim: dada a verdadeira noção da divindade, importa saber quem a possui.

Ora, a humanidade divide-se em quatro categorias: os Bárbaros, os Gregos, os Judeus e os cristãos. Nem os Bárbaros, por causa da sua idolatria; nem os Gregos, por causa do seu politeísmo, Egípcios e Caldeus incluídos, e nem mesmo os Judeus, por causa das suas ideias e dos seus usos obsoletos, poderiam pretender a posse da verdadeira noção da divindade. Esta noção verdadeira, apenas os cristãos a possuem: e o que o prova é a vida que levam, que tem um selo de superioridade moral absolutamente incontestável. Esta apologia, desprovida de estilo e de arte na composição, está longe de valer as que apareceram no século II; ela pouco acrescenta ao conhecimento da antiguidade cristã; e contudo não é absolutamente isenta de teologia própria.

Ela não pode ser de modo algum comparada aos trabalhos de São Justino, no que diz respeito à penetração teológica, à arte e à erudição; mas ela traduz os princípios do helenismo cristão com uma força e uma clareza extraordinárias. Quem quer que tenha conservado, como teólogo, o sentimento da força eficaz das ideias simples, lerá com prazer a nova Apologia e sentir-se-á tomado no final pela descrição da vida das antigas comunidades cristãs. » Harnack, citado por Kihn, Compte rendu du IIIe congrès scientifique des catholiques, 1894, IIe section, p. 188.

Hilgenfeld pensa o mesmo em seu livro sobre o Kîpuyua HeTpou. Zeitschr. für wiss. Theol., Leipzig, 1894, p. 540. O que se deve reter, com efeito, é primeiramente a noção de Deus dada como pedra de toque para julgar a verdade da religião cristã; é, em seguida, o argumento tirado da superioridade moral do cristianismo; é, finalmente, o quadro da vida cristã, que lembra por numerosos traços a Didachè, e sobretudo a Epístola a Diogneto. Além disso, encontram-se nela traços inegáveis, ainda que incompletos, do símbolo dos apóstolos, no que toca, por exemplo, à encarnação de Jesus Cristo, ao seu nascimento de uma virgem santa, à sua morte na cruz, à sua ressurreição no terceiro dia e à sua ascensão; o agrupamento destes diversos pontos não poderia ser fortuito: um eco do símbolo não escapou à clarividência irônica de Celso.

Aristides, com efeito, pretendera que o ritual dos Judeus era antes uma adoração dos anjos; Celso concluiu que os Judeus adoravam os anjos. Aristides mostrara que Deus fez tudo para o homem; Celso faz a caricatura deste princípio e mostra que as rãs, os pássaros, as formigas raciocinam do mesmo modo, fazem-se o centro do universo e estimam que Deus fez tudo para eles. Orígenes responderá mais tarde a Celso com o argumento da providência; argumento que Aristides teve pelo menos o mérito de vislumbrar e de formular. Independentemente da Apologia, quis-se atribuir ainda a Aristides uma Homilia sobre Lucas, xxiv, 43, na qual as palavras de Jesus na cruz servem de prova para a sua divindidade; mas, pela confissão de todos os críticos, deve-se renunciar a tal atribuição; deve-se dizer o mesmo de um fragmento de Carta a todos os filósofos.

Kihn, em seu Ursprung der Briefes an Diognet, 1882, havia emitido a ideia de que a Epístola a Diogneto e a Apologia coincidem tão bem no fundo e na forma que Aristides deve ser tido por autor de uma e de outra. Ele retornou a isso com mais insistência no III Congresso Científico dos Católicos, em 1894. A carta a Diogneto, diz ele, apoia-se na Apologia de Aristides como em sua base e em seu amplo conteúdo necessários: é o desenvolvimento da Apologia. A Epístola trata tudo o que não foi tratado pela Apologia e desliza sobre o que foi dito pela Apologia. Da concordância e da homogeneidade formal e objetiva, é legítimo concluir que Aristides é também o autor da Epístola. Compte rendu du IIIe congrès des savants catholiques, 1894, IIe section, p. 189-190.

Esta demonstração merece ser assinalada; e, se fosse mais do que uma sedutora hipótese, provaria que o filósofo ateniense fez questão de completar por carta o que seu correspondente Diogneto encontrava apenas indicado na Apologia. É assim, pelo menos, que mais tarde Atenágoras teve de completar sua Πρεσβεία por sua Περὶ τῆς ἀναστάσεως νεκρῶν.

Mas a questão do estilo permanece uma dificuldade grande demais para admitir a atribuição proposta por Kihn. O autor da Epístola pode ter tido em vista o que faltava à Apologia; mas não é Aristides, pois ele a supera, e de muito, pelo seu mérito literário. S. Aristidis, philosophi atheniensis, sermones duo, Veneza, 1878; cf. Pii; m. Hinnüler, 1882, Posen, t. iv. O texto armênio: Martin, p. 6-11, e nos Analecta, p. 282-286, da Carta a todos os filósofos; Rendel Harris, The Apology of Aristides, 1891, em Texts and Studies, t. i, fasc.

1; Harris, The doctrine and the ethics, newly recovered Apology of Aristides, Londres, 1891; R. Raabe, Die Apologie des Aristides aus dem syrischen übersetzt; em Texte und Untersuchungen, Leipzig, 1897. ARISTIDE. Para a bibliografia, ver Pape, t. I, p. 110; Ehrhard, « Die Predigt », em Theologische Studien, 1887, p. 85; 1er supplément, Estrasburgo, 1888, p. 202-211. G. DAREMBERG.

Autor original: G. Bareille

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