APÓSTOLOS (DOUTRINA DOS DOZE)

APÓSTOLOS (DOUTRINA DOS DOZE)

6. APÓSTOLOS « A Doutrina dos doze ». — I. História do escrito. [I. Autenticidade da Didaquê de Bryennios. III. Integridade. IV. Características da Didaquê. V. Autor, data e local de composição da Didaquê. VI. Análise da Didaquê. VII. Ensinamentos doutrinais. VIII. Conclusão.] — I. HISTÓRIA DESTE ESCRITO. — Encontramos várias vezes mencionado nos escritos dos primeiros autores cristãos um opúsculo intitulado: Doutrina dos doze apóstolos, nomeado em escritos apócrifos por Eusébio, H. E., iii, 25; por São Atanásio, Epístola Pascal, xxxix, P. G., t. xxvi, col. 1437; na Esticométria de Nicéforo, linha 68, na Sinopse dita de Atanásio, P. G., t. xxviii, col. 432. Zonaras, no século XII, P. G., t. cxxxviii, col. 863, Blastares, no século XIV, P. G., t. cxliv, col. 1142, e Nicéforo Calisto, H. E., ii, 46, P. G., t. cxlv, col. 888, também falam dele.

No Ocidente, encontramo-lo mencionado pelo autor do livro De aleatoribus, século III, c. iv, P. L., t. iv, col. 830, e por Rufino, em sua tradução latina de Eusébio. A partir do século XIV, a Doutrina dos doze apóstolos desaparece da história. Foi reencontrada em 1883 por Dom Bryennios, metropolita de Nicomédia, no mosteiro de Jerusalém do Santíssimo Sepulcro, no bairro do Fanar, em Constantinopla. O manuscrito foi, em 1887, transportado para Jerusalém. A primeira edição foi dada por Dom Bryennios em Constantinopla e, desde então, a Didaquê tem sido publicada e estudada por numerosos estudiosos.

Ver a bibliografia. — II. Autenticidade da Didaquê de Bryennios. A Didaquê, publicada por Dom Bryennios, é certamente o escrito com esse nome, do qual se fala na antiga literatura cristã. Para se convencer disso, basta compará-la, seja com os documentos que são sua tradução ou reprodução mais ou menos fiel, seja com as passagens de autores cristãos que são quase idênticas. a) Um fragmento latino, extraído de um manuscrito hoje desaparecido da biblioteca de Melk (Áustria), reproduz os versículos I, 1-3, e II, 2-6 da Didaquê. Uma antiga versão latina da primeira parte, «dos dois caminhos», foi encontrada em um manuscrito de Munique, do século XI, e editada por J. Schlecht, in-8°, Friburgo em Brisgóvia, 1900. b) Os capítulos XVIII, XIX e XX da Epístola de Barnabé coincidem quase textualmente com passagens dos cinco primeiros capítulos da Didaquê. c) Os Cânones eclesiásticos dos apóstolos, iv-xiv, reproduzem passagens da Didaquê, i-iv. d) O VII livro das Constituições apostólicas é uma reprodução bastante interpolada de toda a Didaquê. e) O Syntagma doctrinae, P. G., t. xxxviii, col. 835, atribuído a São Atanásio, contém fragmentos, assim como a Vida de Schnoudi e a Fides Nicæna, Paris, 1889, P. G., t. xxxviii, col. 1639.

2° Assinalaram-se aproximações entre a Didaquê de Bryennios e passagens da Apologia de Aristides, de São Justino, de Taciano, de Teófilo de Antioquia, de Santo Ireneu, dos Oráculos Sibilinos, do Pseudo-Focílides, de Tertuliano, de Orígenes, de Doroteu da Palestina; elas são bastante vagas. Como mais certas, citaremos as aproximações entre passagens da Didaquê e os seguintes escritores: Clemente Romano, I Cor., iii, 1, P. G., t. i, col. 217 = Did., iv, 3; xvii, 3 = Did., i, 4; xx, 5 = Did., ix, 2; Hermas, Pastor, Mand., ii, 4-6, P. G., t. ii, col. 915 = Did., iv, 7; i, 5; Pseudo-Cipriano, De aleatoribus, iv, P. L., t. iv, col. 830 = Did., iv, 4; xiv, 2; xv, 3; Clemente de Alexandria, Strom., i, 20, P. G., t. viii, col. 836 = Did., i, 5; ix, 2; iii, 5; Quis dives salvus, 29, P. G., t. ix, col. 633 = Did., xii, 2; Pseudo-Inácio, Ad Trall., virginitate, P. G., t. v, col. 785; Pseudo-Atanásio, P. G., t. xxviii, col. 266 = Did., ix, 2; Lactâncio, Epit. de div. Inst., xlix, P. L., t. vi, col. 1085-1086 = Did., i, 5. A sentença do capítulo i, 5: «Que saibas bem a quem dás», encontra-se em Santo Agostinho, In Ps., cii, 12; cxlvi, 17, P. L., t. xxxvii, col. 1326, 1910-1911; Gregório Magno, Regula pastoralis, iii, 30, P. L., t. lxxvii, col. 109; Cassiodoro, Exp. in Ps. XL, P. L., t. lxx, col. 296; Pedro Comestor, Hist. schol., liber Deuteronomii, c. v, P. L., t. cxcviii, col. 1251; Piers Plowman, B. vii, 73.

Desse conjunto de testemunhos, resulta que a Didaquê foi sobretudo difundida durante os primeiros séculos da Igreja, que era conhecida na Síria, na Ásia Menor, mas sobretudo em Alexandria. Espalhou-se até o Ocidente e parece ter ali subsistido por bastante tempo, enquanto no Oriente desapareceu, substituída por outros manuais, que são um rearranjo, adaptado aos séculos que os viram nascer. Resulta também que a Doutrina dos doze apóstolos, conhecida pelos primeiros séculos, é bem aquela que Dom Bryennios publicou. — III. Integridade.

«À parte algumas passagens do primeiro capítulo, diz Harnack, Die Apostellehre, p. 7, que podem trair uma adição posterior, devemos afirmar a integridade da Didaquê. De fato, do II capítulo ao fim, não se pode citar nada que não se ajuste ao conjunto do trabalho; nada também parece ter se perdido. Apenas três passagens oferecem verdadeiras dificuldades de interpretação (i, 6; xi, 2; xvi, 5)». Quanto aos versículos do capítulo i, 3 ao ii, 2, eles têm em seu favor a Didaquê de Bryennios, as Constituições apostólicas, Hermas, Clemente de Alexandria, São João Clímaco, e, contra eles, a Epístola de Barnabé, os Cânones eclesiásticos, os fragmentos de versão latina e o Syntagma doctrinae, que omitem esses versículos.

Do ponto de vista interno, esses versículos interrompem o curso lógico das sentenças e expressam preceitos que encontrarão em outros lugares seu lugar natural. Basta observar, contudo, que, sendo a Didaquê uma coleção de preceitos destacados, não se deve esperar vê-los dispostos em uma ordem muito rigorosa. Resta, portanto, provável que esses versículos estivessem no nosso documento desde que ele foi constituído fora da tradição oral. IV. Características da Didaquê. — Para dar a este documento todo o seu valor dogmático, é preciso determinar a data de sua composição, a fim de recolocá-lo em seu meio histórico.

É pelo estudo da língua e das fontes do escrito que se chegará a este resultado. 1. Língua da Didaquê. O vocabulário e o estilo são, com pouquíssimas diferenças, os do Novo Testamento. Há, ao todo, 2190 palavras, das quais apenas 552 são diferentes; 501 encontram-se no Novo Testamento, 479 na Septuaginta e 497 no grego clássico. Uma única palavra, πpoσeξομολογέω, confessar, xiv, 1, é particular à Didaquê. A língua é o grego hebraizante; as palavras são gregas, mas o estilo e o pensamento são hebraicos. As frases são curtas, sentenciosas, unidas por uma simples cópula e sem desenvolvimentos incidentes.

Os hebraísmos são numerosos e o paralelismo das sentenças é observado com bastante frequência. 2. Fontes da Didaquê. Ela reproduz mais ou menos textualmente 10 passagens do Êxodo, 8 do Levítico, 3 de Números, 15 do Deuteronômio, 3 de Neemias, 4 de Tobias, 8 dos Salmos, 16 de Provérbios, 7 da Sabedoria, 11 do Eclesiástico, 4 de Isaías e 9 dos outros profetas. Teriam sido feitos, ao Novo Testamento, mais de duzentos empréstimos, mais ou menos literais. Precisaremos mais adiante o número e a exatidão desses empréstimos.

Notar-se-á também na Didaquê algumas passagens que lembram bastante de perto sentenças rabínicas. Em resumo, as fontes da Didaquê são judaicas e cristãs. Devemos concluir que ela é um documento judaico, ao qual foram acrescentados preceitos cristãos? Essa é a opinião de Harnack, Realencyclopädie für protest. Théologie, t. i, p. Os judeus tinham, diz ele, no século I, ou talvez antes, uma instrução para os prosélitos sob este título: Os dois caminhos: ela continha as passagens I, 3; II, 2-V, 2, e talvez o capítulo VI da Didaquê.

Os cristãos serviram-se desta instrução como manual preparatório para o batismo. Um cristão desconhecido acrescentou-lhe o fragmento I, 3-II, 1, e algumas outras passagens curtas, de modo a modificar inteiramente o espírito deste escrito. Pela adição dos capítulos VII-XVI, o documento tornou-se especificamente cristão. É possível que tenha existido no século I da era cristã uma coletânea de sentenças, prescrevendo o que o homem devia fazer e o que devia evitar, e que tenha sido estabelecida primeiramente por judeus; mas a Didaché, ao utilizar esta coletânea talvez ainda oral, modificou-a profundamente ao cristianizá-la e judaizá-la especificamente.

Certamente o autor é um cristão, um convertido do judaísmo; era um homem, aliás, a par dos ensinamentos dos rabinos, do Antigo Testamento e de alusões frequentes aos costumes judaicos. Além disso, era um companheiro dos apóstolos, ou um de seus ouvintes; vivia no entorno de São Tiago, o Menor; pois, seja pela escolha dos materiais, seja pelo espírito que o anima, seu trabalho recorda em mais de um ponto o espírito deste apóstolo. Para ele, o cristianismo é uma doutrina sobretudo moral, toda de caridade e de fraternidade.

Conhece bem as fórmulas litúrgicas e os regulamentos de disciplina. Finalmente, o espírito de conciliação, a prudência e a serenidade que reinam na obra inteira fazem pensar em um ancião, ou pelo menos em um homem instruído por uma longa experiência. A época de composição só pode ser fixada aproximadamente. Se nos reportarmos à maioria dos críticos, a Didaché teria sido escrita entre 80 e 120 depois de Jesus Cristo. Contudo, se levarmos em conta os ensinamentos nela contidos, por exemplo sobre os últimos dias, sobre as observâncias legais e sobretudo sobre a organização do ministério sagrado, que mantém o meio-termo entre o do Novo Testamento e o dos escritos pós-apostólicos, parece que se pode situar a composição da Didaché por volta de 70-80.

Sua pátria de origem seria provavelmente a Palestina e talvez Jerusalém. Outros países foram indicados, sobretudo a Síria e Antioquia, o Egito, etc. VI. Análise da Didaché. — Os ensinamentos e as prescrições estão arranjados segundo um plano muito simples e muito lógico: 1. A catequese ou preceitos morais, I-VI; 2. ordenanças litúrgicas, VII-X; 3. regulamentos disciplinares, XI-XV; 4. últimos tempos, XVI. A catequese é dividida em duas partes, uma tratando do caminho da vida, e a outra do caminho da morte, I, 1.

O autor descreve primeiro o caminho da vida, I-IV; emite os dois princípios fundamentais deste caminho, o amor de Deus e o amor ao próximo, dos quais dá a regra geral: «Tudo o que não gostarias que te fizessem, não o faças a outrem», I, 2. Desta regra ele dá dois desenvolvimentos, um fundado no princípio positivo, emitido por Nosso Senhor no Evangelho de São Mateus, VII, 12: «Tudo o que vós gostaríeis que os homens vos fizessem, fazei-o vós também a eles», I, 3-6; e o outro sobre o preceito negativo que ele acaba de enunciar, II-III, 7.

No primeiro desenvolvimento, I, 3-6, os preceitos, misturados aos conselhos, regem o que se deve fazer a respeito do próximo, e em particular a respeito dos inimigos; quase todos positivos, recordam de muito perto os preceitos e os conselhos evangélicos. Um só preceito, o último, parecerá, à primeira vista, pouco em harmonia com o resto, I, 6. No segundo desenvolvimento, II-III, 7, os preceitos são negativos. O autor defende primeiro, em geral, tudo o que pode causar prejuízo ao próximo, II, 2-3; depois, volta a essas defesas, primeiro detalhando-as, precisando-as por exemplos, II, 3-7, e depois defendendo as causas desses pecados, III, 1-7.

A forma, aqui, como já foi notado, é toda particular e oferece vários exemplos de paralelismo hebraico. Uma primeira causa de pecado é emitida, depois são levantadas mais duas, três ou quatro. Dos deveres para com o próximo e também para consigo mesmo, III, 1, o autor passa aos deveres para consigo mesmo, III, 7-10, para com nossos superiores e nossos irmãos, IV, 1-4, para com os pobres, IV, 5-8, para com a família, filhos e servos, IV, 9-11, aos deveres dos servos para com seus senhores, IV, 13-14, e finalmente dá algumas exortações gerais, IV, 15-18; das quais uma é o desejo de ver-se libertado do caminho da noite, V, 1.

A segunda parte, VII-X, trata da vida litúrgica: ele descreve a matéria e a forma do batismo, VII, 1-4; fixa os dias de jejum, VIII, 1, e ordena recitar três vezes por dia a oração dominical, VIII, 2-3. Fala da eucaristia, IX, 2, da qual dá as orações para a fração do pão, IX, 3-4, e as orações após a comunhão, X, 1-6. A terceira parte, XI-XV, codifica as ordenanças disciplinares sobre o princípio geral segundo o qual se julgará aqueles que vêm ensinar, XI, 1-2, sobre as regras para provar os profetas, XI, 3-6, sobre a conduta para com os irmãos, XI, 7-12, XII, 1-5, sobre a manutenção dos ministros sagrados, XIII, 1-7, sobre a celebração do domingo, XIV, 1, sobre a escolha dos ministros, XV, 1-2, e a correção fraterna, XV, 3.

A quarta parte, XVI, sobre o último dia, adverte o fiel a manter-se pronto, descreve o reino do Anticristo, os sinais da verdade e, finalmente, a vinda do Senhor, XVI, 1-8. VII. Ensinamentos dogmáticos. — Eis um resumo. 1. Deus é um em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, VII, 2; criador, I, 2, e todo-poderoso, governa tudo, X, 1, 3. Ele é nosso benfeitor, IV, 1. Ele é santo, X, 1. É o inimigo do mal e da hipocrisia, IV, 12, o fundamento da nossa esperança, IV, 10, o autor da nossa salvação e o objeto das nossas orações e dos nossos louvores, IX, X. Nada acontece no mundo sem ele, III, 10, e a ele pertence a glória eterna por Nosso Senhor Jesus Cristo, VII, 4; IX, 4; X, 4.

Jesus Cristo é nosso Senhor e nosso Salvador, X, 2, o filho de Deus, IX, 2; X, 6. Ele é o Deus de Davi, IX, 2. Voltará visivelmente no dia do julgamento, XVI, 1, 7. É ele quem nos fala no Evangelho, VIII, 2; XV, 4; é por ele que conhecemos a verdade e a vida eterna, a fé e a imortalidade, IX, 3; X, 2. A divindade de Jesus Cristo é claramente ensinada. Jesus Cristo é chamado Senhor. Nas orações eucarísticas, IX, X, o poder e a glória em todos os séculos são primeiro o apanágio do Pai; depois, no final, são o atributo do Senhor, isto é, de Jesus Cristo, cuja vinda se deseja, e que é saudado como o Deus de Davi.

No capítulo XIV, 3, as palavras que Malaquias atribui a Jeová são postas na boca do Senhor que, segundo o contexto, é Jesus Cristo. Ele é nitidamente chamado Deus na aclamação que termina a ação de graças após a comunhão, X, 6: «Que a graça chegue, e que este mundo passe! Hosana ao Deus de Davi.» O Espírito é o Espírito de Deus que fala pela boca dos profetas, IV, 10. A Igreja é universal. É por ela que o homem é libertado de todo mal, tornado perfeito no amor divino e preparado para o reino eterno, IV, 1. O batismo e a eucaristia foram instituídos por Cristo; após ter instruído o catecúmeno na doutrina, ele receberá o batismo, VII, 1.

Somente o cristão pode participar da eucaristia, IX, 5, pela qual devemos render graças, IX, X. O dia do Senhor será santificado pelo sacrifício eucarístico, XIV, 1. Cada dia se dirá a oração que Nosso Senhor nos ensinou no Evangelho, VIII, 2, e jejuar-se-á às quartas e sextas-feiras, VIII, 1. Os ministros de Deus serão honrados e recebidos como o Senhor, XI, 1, 4; XII, 1; XIII, 1, 2. No fim dos tempos ocorrerão a ressurreição e o julgamento geral, XVI. O homem é feito à imagem de Deus, v, 2, mas é pecador e necessita de perdão, viii, 2; para obtê-lo, confessará os seus pecados, iv, 14; xiv, 1, 2.

Deve amar a Deus e ao seu próximo, i, 2, e praticar este amor abstendo-se de todo pecado de pensamento, de palavra e de ação, i, 3; ii, 1, 4; iii, iv, praticando os mandamentos como lhe ensina o Evangelho, xi, 3, sem nada acrescentar nem nada subtrair, iv, 13. Sobre os fins últimos, a Didaqué é muito explícita; ela reconstrói em seu conjunto o quadro dos últimos dias do mundo. Dá, primeiramente, os seus sinais precursores. Não se sabe a que hora o Senhor virá, xvi, 1; nesses dias, os falsos profetas e os corruptores multiplicar-se-ão, o amor transformar-se-á em ódio, xvi, 3, 4; então aparecerá, como filho de Deus, o sedutor do mundo, que fará coisas iníquas, xvi, 1.

Os homens sofrerão uma provação; muitos perecerão, mas alguns serão salvos pelo próprio anátema, xvi, 5. Este anátema é, provavelmente, Jesus Cristo, que será nesses dias um objeto de contradição e sobre quem se disse anátema. Gal., iii, 13; I Cor., xii, 3. Em seguida, aparecerão os sinais da verdade: o sinal da expansão (provavelmente a cruz), a voz da trombeta, a ressurreição dos mortos, não de todos, mas dos santos que devem acompanhar o Senhor, xvi, 6, 7. Então o Senhor virá sobre as nuvens do céu, xvi, 8. 2. Ensinamentos morais.

Os seis primeiros capítulos da Didaqué são uma catequese moral, onde são revistos os nossos deveres para com Deus, para com o próximo e para conosco mesmos. Não há nada de particular a assinalar, a não ser que, após a enumeração dos preceitos, é dito: «Vigia para que ninguém te desvie deste caminho da doutrina de Deus. Pois se puderes suportar todo o jugo do Senhor, serás perfeito; se isso não te for possível, faze ao menos o que puderes», vi, 1, 2. Esta conclusão foi explicada de diversas maneiras; é de crer que o jugo do Senhor seja o conjunto dos preceitos e dos conselhos que foram enumerados nos capítulos precedentes.

O cristão está autorizado a fazer apenas o que lhe é possível, porque nem tudo é preceito rigoroso; encontram-se ali misturados conselhos de perfeição. 3. O culto e os sacramentos. A Didaqué é um testemunho precioso da liturgia primitiva, que ainda está reduzida às suas partes essenciais. A Didaqué proíbe jejuar no mesmo dia que os hipócritas, isto é, os judeus, e ordena jejuar no quarto dia (quarta-feira) e no dia da preparação (sexta-feira). Três vezes ao dia recitar-se-á a oração prescrita pelo Senhor em seu Evangelho.

É ordenado ensinar, antes do batismo, tudo o que está contido nos seis primeiros capítulos. Aquele que administra o batismo e aquele que o recebe deverão jejuar um ou dois dias antes. Batizar-se-á em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, em água viva ou, na sua falta, em outra água, fria ou quente, vii, 1-3; se não se tiver nem de uma nem de outra em quantidade suficiente, derramar-se-á água sobre a cabeça três vezes, vii, 4. A Didaqué afirma claramente que os pecados poderão ser remidos, xi, 7; a alma é purificada pela confissão, iv, 14; xiv, 1.

Fala-se detalhadamente da eucaristia nos capítulos ix e x; encontram-se ali reproduzidas as orações de bênção que devem ser ditas sobre o cálice e sobre o pão partido, orações de ação de graças pela refeição eucarística; estas orações, contudo, não são orações oficiais, visto que é permitido aos profetas render graças conforme o seu arbítrio; elas referem-se certamente à eucaristia, sacrifício e sacramento, xvi, 1, 2, dos quais relatam os efeitos; é um alimento espiritual, x, 3, que produz em nós a vida e a ciência por Jesus Cristo, x, 2, faz habitar o santo nome de Deus em nossos corações, ibid., dá-nos a fé e a imortalidade, que são reveladas por Jesus Cristo, gratifica-nos com a vida eterna, ibid. Para participar da eucaristia, é preciso ser cristão e santo, ix, 5; reunia-se no domingo para celebrá-la, xiv, 1, e é para realizar essas assembleias que se deviam eleger episcopoi e diáconos, xv, 1. 4.

O ministério cristão, na Didaqué, está em um estado de transição; é mais desenvolvido que no Novo Testamento, menos que nos escritos pós-apostólicos. É difícil precisar as funções dos ministros; é até provável que, sob nomes diferentes e com certas nuances, eles desempenhassem as mesmas funções. A pregação e a celebração da eucaristia, no dia do Senhor, são as duas principais. A primeira parece ter sido reservada aos apóstolos e aos profetas, com estas duas diferenças: que o apóstolo não era sedentário, enquanto o profeta podia sê-lo, e que a missão do profeta advinha-lhe do fato de ser inspirado por Deus, inspiração que deve ser provada pela sua conduta.

A segunda parece ser a dos episcopoi, pois, após ter dito que era necessário reunir-se no domingo para partir o pão e oferecer um sacrifício, a Didaqué acrescenta: «Escolhei para vós episcopoi e diáconos», xv, 1; não pode ser, portanto, senão para o ofício de que se acabou de falar que esses ministros devem ser eleitos. O seu papel, contudo, era mais amplo, visto que desempenhavam para os fiéis o ministério dos profetas e dos doutores, xv, 1. Mas o ministério destes últimos estava restringido à pregação? É pouco provável, pois os profetas são os grandes sacerdotes dos cristãos; eles têm o direito de render graças conforme o seu arbítrio após a celebração da eucaristia; somente eles podem formar assembleias para um mistério terreno.

Apesar dessas prerrogativas dos profetas, que derivam do fato de serem inspirados por Deus, cremos que o profeta estava fora da hierarquia eclesiástica, que tendia a fixar-se. A base dela eram os episcopoi e os diáconos, aos quais se juntavam em certas comunidades, principalmente para a pregação e o ensino, o apóstolo, o profeta e o doutor. Somente os episcopoi e os diáconos são ditos como objeto de uma escolha e de uma espécie de consagração que o termo χειροτονήσατε indica, empregado ao falar deles. 5. Cânon das Escrituras.

A Didaqué fala do Evangelho em diversas ocasiões, viii, 2; xi, 3; xv, 3, 4. Faz apenas alusão à tradição evangélica oral ou a um Evangelho escrito? Talvez a ambos. No capítulo i, 3-5, ela reproduz passagens comuns a São Mateus e a São Lucas, mas acrescenta-lhes sentenças especiais a cada um dos dois, e não segue exatamente a ordem nem de um nem de outro. Nesses versículos, ela deve ter reproduzido uma catequese provavelmente oral ou uma harmonia evangélica no gênero do Diatessaron de Taciano. É certo, contudo, que a Didaqué conheceu um Evangelho escrito.

Os termos empregados provam-no claramente: «Assim como o Senhor prescreveu em seu Evangelho», viii, 2; «como tendes no Evangelho», xv, 3, 4. Este Evangelho era, provavelmente, o de São Mateus. Duas citações, das quais uma bastante longa, são quase textuais: Ibid., Matth., vii, viii, 2. Assinalaram-se semelhanças de texto entre São Mateus e a Didaqué; várias são bastante distantes; algumas são evidentes. Matth., xxii, 37 Did., i, 2; Matth., v, 26 Did., i, 5; Matth., v, 5 Did., iii, 7; Matth., xviii, 19 Did., viii, 1, etc. Ver E. Jacquier, La doctrine des douze apôtres, p. 13-45.

Nunca cita São Marcos; não o cita textualmente e, nos paralelos que se encontram em Mateus e Marcos, ele não o citou, não o conheceu; parece ter conhecido São Lucas, claramente o Evangelho de São Lucas, a menos que tenha tomado emprestadas essas passagens da mesma fonte que São Lucas. Parece ter conhecido os Atos dos Apóstolos, testemunha a relação de ideias e de termos que existe entre os Atos, iv, 32, e Did., iv, 8. Não há qualquer citação textual do Evangelho de São João na Didaché; existem, contudo, semelhanças muito marcantes entre os discursos da ceia em São João, xiii-xvii, e as orações eucarísticas na Didaché, x. Tais semelhanças explicam-se pelo fato de a Didaché reproduzir as orações eucarísticas, compostas a partir da oração sacerdotal de Nosso Senhor, reiterada por São João.

Foram contadas 75 referências às Epístolas de São Paulo; nenhuma é textual e a maioria é muito vaga. A primeira Epístola de São Pedro, ii, 11, é citada textualmente. Did., i, 4. Vimos acima o uso que foi feito dos livros do Antigo Testamento. — CONCLUSÃO. Em resumo, a Doutrina dos Doze Apóstolos, manual elementar de religião, escrito na segunda metade do século I, situa-se, tanto do ponto de vista dogmático quanto litúrgico, entre o Novo Testamento e os escritos pós-apostólicos. Foi compilada por um judeu convertido e apresenta numerosos vestígios de judaísmo e de dialética rabínica.

Mostra como se efetuou a passagem do judaísmo ao cristianismo, assinala o que foi conservado das cerimônias judaicas e como se operou a transformação que lhes infundiu uma vida nova. Finalmente, permite compreender qual era o estado moral e social das primeiras comunidades cristãs; é, portanto, para os teólogos, os historiadores da Igreja e os liturgistas, um documento muito precioso. Citaremos apenas as obras mais importantes; encontrar-se-á uma lista mais completa em E. Jacquier, La doctrine des douze apôtres, p. 261. Bryennios Philotheos, Διδαχὴ τῶν δώδεκα ἀποστόλων, Constantinopla, 1883; Funk, Doctrina duodecim apostolorum, in-8°, Tubinga, 1887; Harnack, Die Lehre der zwolf Apostel, in-8°, Leipzig, 1884; Die Apostellehre und die jüdischen beiden Wege, in-12, 1896; Harris, The teaching of the twelve apostles, Londres, 1887; Ad.

Hilgenfeld, Novum Testamentum extra canonem receptum, fasc. 3, 2ª ed., in-8°, Leipzig, 1884; Hitchcock et Brown, Teaching of the twelve apostles, 2ª ed., in-8°, Nova Iorque, 1886; E. Jacquier, La doctrine des douze apôtres et ses enseignements, in-8°, Paris-Lyon, 1891; Majocchi, La dottrina dei dodici apostoli, Módena, in-12, 1886; Pinasi, La dottrina del Signore, detta la dottrina dei dodici apostoli, in-8°, Roma, 1891; von Renesse, Die Lehre der zwölf Apostel, in-8°, Giessen, 1897; Sabatier, La Didaché ou l'enseignement des douze apôtres, in-8°, Paris, 1885; Schaff, The teaching of the twelve apostles, 3ª ed., Nova Iorque, 1889; Taylor, The teaching of the twelve apostles, with illustrations from the Talmud, in-8°, Cambridge, 1886; Wohlenberg, Die Lehre der zwölf Apostel in ihrem Verhältniss zum neutestamentlichen Schrifttum, in-8°, Erlangen, 1888; J. Schlecht, Die Lehre der zwölf Apostel in der Liturgie der katholischen Kirche, Friburgo em Brisgóvia, 1900.

Autor original: E. Jacquier

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