APOLOGÉTICA (OBJETO)

APOLOGÉTICA (OBJETO)

II. APOLOGÉTICA. Objeto.

I. — Maisonneuve. I. Demonstração cristã. II. Demonstração católica. III. Lugares teológicos. IV. Apologética negativa. As questões que a apologética positiva trata são abordadas em três tratados: a revelação, a Igreja, os lugares teológicos, que constituem o que se designou sob o nome de teologia fundamental ou de introdução à teologia. Ela compreende a demonstração cristã, a demonstração católica, as fontes do dogma; razoável que deve ser — estas três proposições desenvolvem um vínculo lógico: Um homem lógico deve ser cristão; um cristão deve ser católico; um católico deve receber pelo ministério da Igreja as regras de sua crença e de sua conduta. I. Demonstração preliminar. — É o tratado da religião verdadeira.

1520 questões preliminares a respeito do qual o abade Didiot escreveu: DÉMONSTRATION PRÉLIMINAIRE ET TRAITÉS DES RELATIONS. Deve-se supor ou demonstrar as condições essenciais da fé? A natureza humana, a alma espiritual e livre, a existência e os atributos de Deus fazem parte integrante da apologética? Do ponto de vista científico e rigoroso, deveríamos responder negativamente; do ponto de vista prático e para que a demonstração seja plenamente persuasiva, não hesitamos em aprovar aqueles que fazem preceder a teologia fundamental de noções metafísicas e psicológicas, sem as quais o tratado da religião nos parece desprovido de bases.

Pois os teólogos e os filósofos não cessam de proclamar que, neste século, ainda mais do que no tempo de Fénelon: « O que falta a muitas pessoas, é a razão; ora, esta perdida, é impossível reencontrar aquela. » Nesse desamparo das doutrinas, nessa multiplicidade de sistemas, é preciso distinguir as maneiras de pensar incompatíveis com as crenças cristãs, e demonstrar que elas são ilegítimas, porque encerram uma contradição fundamental. Uma justificação das verdades elementares é, portanto, a obra preliminar do apologista.

Ela versará sobre diversos pontos: 1º Teoria do conhecimento. — Sabe-se que muitos reduzem a filosofia inteira à epistemologia; a verdade não é mais adaequatio rei et intellectus, mas somente o acordo de nossos conceitos entre si, e a coerência do conteúdo de nosso pensamento. Aplicar as categorias do espírito aos dados da experiência recebidos e elaborados nas formas subjetivas do espaço e do tempo, é a única ambição proposta, a única tarefa possível à razão. Não é preciso reivindicar e restabelecer a objetividade de nossos conhecimentos e, sem desconhecer o que há neles de forçosamente relativo, o que a atividade do espírito produz de original, de pessoal na sensação e no pensamento, não é indispensável sustentar e demonstrar que existem seres fora de nós, que eles são acessíveis às nossas faculdades de conhecer, que de nosso espírito não depende a natureza das coisas, que é verdadeiramente a evidência, o brilho da verdade percebida que engendra necessariamente a certeza?

Sem dúvida, estamos em presença de verdades indemonstráveis, para as quais os argumentos são ineficazes e, felizmente, inúteis, uma vez que nenhum passo intelectual, desde aquele exigido pelos atos ordinários e vulgares até o voo audaz das mais altas especulações metafísicas, é possível se elas não forem admitidas e asseguradas. Mas quem ousaria dizer que explicações, aproximações, análises não projetam sua luz sobre essas verdades, e não dissipam os sofismas que as alteram, ou os preconceitos que as obscurecem? Tanto mais que, sendo os meios de chegar ao verdadeiro muito diferentes, conforme se trate de um objeto de intuição ou de raciocínio, de experiência ou de testemunho, as regras da lógica e da crítica deverão ser lembradas, explicadas ao teólogo ou ao crente, que arriscaria iludir-se buscando uma evidência matemática onde uma evidência moral é a única apropriada, ou, muito pelo contrário, contentar-se com argumentos prováveis onde são requeridas provas apodíticas, e confundir as opiniões fugitivas e variáveis com a inabalável certeza.

O cônego Didiot julgou esta empresa necessária, e em seu volume intitulado Logique surnaturelle objective, Lille, 1891, consagrou diversos teoremas a essa objetividade de nossos conhecimentos, plenamente inteligível, inteiramente luminosa, totalmente evidente. Teor. II e III. Assim podem e devem ser afastadas as teses dos céticos, para 1521 os quais nenhuma verdade é absoluta, nenhum conhecimento definitivo, e que aliam as noções opostas na ilusória unidade de um juízo cujos termos se contradizem; os refinamentos dos idealistas cuja dialética reduz a realidade às combinações e aos jogos do pensamento, a um sonho, a uma sombra; as subtilezas dos fenomenistas que recusam perceber a substância sob os acidentes, e a reduzem a uma série, a um encadeamento de aparências cuja lei, estabelecida pela inteligência, permanece a única e permanente realidade. — 2º Verdades psicológicas.

O apologista deverá estabelecer os princípios que lhe permitirão colocar em relação a revelação cristã com o sujeito que deve recebê-la, isto é, conhecê-la e abraçá-la; esse sujeito é a alma humana. Se ela não for espiritual, não se elevará acima dos dados sensíveis, e o mundo superior da fé lhe será fechado; se ela não for livre, a obrigação de estudar e de abraçar uma doutrina sobrenatural não pode lhe ser imposta; se ela não for imortal, sua atividade, limitada aos objetos terrestres, não tendo outro objetivo que os bens, os prazeres e as ambições da vida presente, desinteressa-se naturalmente e necessariamente de um mundo invisível e inacessível, uma vez que ela nunca terá a ocasião de nele exercer-se.

A demonstração cristã implica, portanto, uma teoria espiritualista e cristã da alma. E, porque a pessoa humana é espírito e corpo, os problemas que concernem ao composto humano devem ser abordados, pois de sua solução dependem em parte as especulações da teologia sobre a ação sacramental, a ressurreição da carne, os preceitos da moral que se dirigem não a um espírito separado da matéria, mas ao homem todo. É evidente que não se pedirá à apologética um tratado completo sobre essa matéria; ela deverá limitar-se às noções indispensáveis e, para atingir todos os espíritos, manter-se fora dos sistemas e não afirmar senão as verdades conhecidas pela razão com certeza.

Significa isso que ela possa permanecer neutra e dispensar-se sempre de tomar partido entre as escolas? Não creio. Admitir-se-ia, por exemplo, que ela aceitasse, com Locke, que a matéria pode ser capaz de pensar, ou, com Condillac, que as nossas ideias não são senão sensações transformadas? Tanto mais que ela se encontra em presença de uma escola numerosa e ruidosa de sábios para os quais a psicologia não é outra coisa senão uma aplicação ou um ramo da fisiologia, e que reduz a sua ambição a medir a rapidez ou a intensidade dos atos psíquicos.

Certamente, não se deverá de modo algum desconhecer a legitimidade da psicologia experimental, cujos princípios e, até certo ponto, o método foram formulados pelos grandes escolásticos, e em particular por São Tomás de Aquino; as pesquisas às quais se entrega a psicofísica são úteis, e os resultados que ela obtém, muito dignos de interesse. Mas, embora a atividade mental esteja estreitamente ligada aos nossos estados somáticos e dependa, na maioria das suas manifestações, das condições fisiológicas entre as quais se exerce, o apologista deverá mostrar que é preciso guardar-se de considerar como idênticos os fenômenos que têm o corpo e o espírito por teatro, e que o pensamento aparecerá cada vez mais, à medida que se aprofundar a sua natureza, absolutamente irredutível ao movimento. — 8º Teodiceia.

A teologia sobrenatural supõe uma teologia natural que cabe à razão edificar. A revelação é uma realidade exterior e superior ao homem; ela é compreendida por uma inteligência criada; ela é recebida numa alma humana; ela vem de Deus. É preciso, pois, elevar-se até o Ser infinito de quem ela procede, e que a outorga à criatura como um dom gratuito. Estamos em presença dos tradicionalistas cujas oposições e resistências são conhecidas. Ver Traditionalisme et Fidéisme. Sem refutá-los aqui diretamente, é preciso dizer que se reencontram as suas afirmações em obras contemporâneas cujos autores se impõem à atenção e ao reconhecimento dos católicos pela sinceridade, pelos serviços e pelo talento.

Pois dizer, com um dos mais autorizados: «Não se demonstra a existência de Deus... crê-se nela ou não se crê», é bem a fórmula exata do fideísmo. Mas, visto que a essência divina não é objeto de intuição, visto que a existência de Deus não é um fato de experiência, é preciso que a proposição que a afirma seja a conclusão de um raciocínio, se não se quiser confundir a crença com uma tendência instintiva, uma opinião pessoal e subjetiva que permanece vaga, indeterminada, impressão pessoal, que seria impossível comunicar a outrem.

Importa, contudo, que a ideia de Deus seja precisa, a fim de que o Ser infinito permaneça distinto e transcendente em relação a todos os outros. Se se quer que ele não seja confundido com o conjunto das coisas, o conceito ideal do mundo, ou a resultante das forças cósmicas, é preciso desvencilhar a noção que o exprime dos devaneios monstruosos do panteísmo; se ele deve aparecer independente de tudo o que não é ele, e agindo com uma autoridade suprema sobre o mundo, o dogma da criação deve ser aprofundado para que, soberano mestre de todas as coisas, ele as dirija para o fim concebido pela sua sabedoria e querido pela sua bondade.

É, pois, com razão que, por métodos diversos e sob formas variadas, Santo Agostinho, Bossuet e Joseph de Maistre insistiram na demonstração da providência. Ali nos parece ser o ponto fixo de onde a apologética deve partir, a verdade fundamental sobre a qual se apoiam todos os seus argumentos, que a implicam como uma afirmação essencial, sem a qual eles permanecem ininteligíveis e ineficazes. Tais nos parecem ser os preliminares racionais da demonstração cristã, que se poderiam resumir nestes termos: O homem pode conhecer com certeza, pelo universo do qual faz parte, um Deus que o dirige para o seu destino imortal. — II. DA RELIGIÃO.

Sendo Deus e a alma conhecidos na sua existência e na sua natureza, nasce entre eles uma relação, que se chamou religião. Dificilmente se põe em dúvida, hoje, a realidade do fenômeno religioso, irredutível a todos os outros, que, nascendo das profundezas da natureza humana, aflora à sua superfície como expressão superior da sua atividade. Mas a religião é para os positivistas a manifestação primitiva das nossas aspirações suprassensíveis, o estado no qual ela constituiu a nossa raça foi substituído sucessivamente pela especulação ou estado metafísico, pela explicação ou estado científico.

Para os evolucionistas, ela é o florescimento de um germe que se descobre nas necessidades da vida animal e se desenvolve por uma diferenciação e um progresso das tendências que a constituem. Kant e os seus discípulos reduzem-na ao conceito místico da moralidade: a religião não seria senão o veículo dos preceitos que impõem o dever e uma forma concreta do imperativo categórico, especialmente adaptada à inteligência dos pequenos e dos humildes. Outros, com Schleiermacher, fazem-na consistir no sentimento da nossa dependência em relação a Deus, ou, com Jacobi, numa afeição piedosa sem objeto preciso.

Inumeráveis são as definições dos racionalistas modernos para exprimir a origem e as formas deste fenômeno religioso que os desconcerte, e para reduzi-lo a um fato psicológico, puramente natural, que se acomoda a todos os cultos e coexiste por vezes com o próprio ateísmo. O apologista deslindará no conceito complexo da religião o sistema das verdades que a constituem, conjunto de preceitos que delas decorrem, dos ritos pelos quais Deus e o homem estão ligados entre si; dogma, ética, culto, os elementos intelectuais, morais e rituais que a compõem, devem ser postos em luz para 1523 que a religião verdadeira não possa ser confundida com a filosofia, a moral, a arte ou com as práticas, outra majestade uma e bem ainda que resulta subsistentes, é uma das consequências relações da indis- pensáveis suprema, a expressão da criatura de com a vontade o bem infinito perfeita que que é a nos impõe a sua lei, o laço social por excelência que reúne na unidade a sociedade dos homens entre si e com o seu criador, assim se constitui imutável, constante e universal uma religião natural pela qual Deus é honrado e da qual se reencontra o esboço e os traços característicos, no tempo e no espaço, sob as deformações e as alterações do politeísmo.

É a ela que chegam, como ao seu termo, as mais altas especulações das inteligências, os esforços mais virtuosos da vontade, as melhores aspirações do coração, as instituições mais perfeitas da vida social. A religião aparece assim como o mais magnífico florescimento da alma e da cidade. Ver RELIGION. Mas não haveria uma religião positiva? A razão e a natureza são os limites das verdades que ela afirma, dos deveres que prescreve, dos bens que promete? A ordem fundada sobre as nossas exigências, as nossas forças e as nossas aspirações naturais não pode ser ultrapassada?

Responde-se a estas questões numa parte especial da apologética. III. TEORIA DO SOBRENATURAL. Vários teólogos pensaram que esta questão não poderia ser utilmente abordada senão no tratado da graça e, efetivamente, é apenas então que ela receberá todos os desenvolvimentos que comporta e será encarada em toda a sua amplitude; mas outros acreditaram, com Hettinger, Schrader, o abade Didiot, que era ao menos útil, senão indispensável, indicar os principais elementos da ordem sobrenatural, visto que a revelação não tem outro objetivo senão o de fazê-la conhecer.

É ela que a profecia anuncia, que o milagre e os critérios externos ou internos demonstram. Ademais, no plano providencial, é o fim que ocupa o primeiro lugar, é para ele que tudo converge, é ele que derrama a sua luz sobre todo o resto. Ora, o fim da ordem sobrenatural é Deus contemplado face a face, não mais no espelho das criaturas ou pelos enigmas das analogias, mas sem intermediários e pela visão direta da sua essência adorável; Deus possuído real e eternamente, sem mistura, Deus amado na união íntima das faculdades da nossa alma com as adoráveis pessoas da santíssima Trindade; Deus, enfim, comunicando para sempre às suas criaturas o seu amor e a sua felicidade.

E uma vez que este fim está evidentemente e infinitamente acima das nossas potências, uma vez que supera as nossas forças, qualquer que seja o desenvolvimento que elas tomem, qualquer que seja o progresso de que sejam capazes, uma vez que está situado além das nossas mais sublimes aspirações, ele não poderia ser alcançado sem meios proporcionados. E, primeiramente, como é indispensável: é o próprio objeto que o fim, a revelação e os meios com os quais aprouve a Deus enriquecer-nos. REVELAÇÃO SOBRENATURAL. — Dois métodos poderiam ser propostos: poder-se-ia limitar ao método histórico, isto é, expor, desde o protoevangelho ou a promessa de um redentor feita aos nossos primeiros pais após a queda, até às visões de São João em Patmos conservadas no Apocalipse, as comunicações pelas quais Deus fez conhecer ao homem, na harmonia e na hierarquia destes elementos, a religião sobrenatural, o benefício soberano da sua providência.

A prova seria suficiente e rigorosa, uma vez que nada se pode alegar contra um fato certo. Contudo, a maior parte dos apologistas procede de outra forma e faz preceder a constatação histórica, repousando sobre diversas partes, de uma teoria filosófica emprestada à razão. Esta oferece ao espírito noções que ele não terá mais do que aplicar aos fatos. Este método trata a fé como crítica dos fatos e dogmas que lhe permite reconhecer os elementos pelos quais a revelação nos é apresentada. Ela oferece ainda a vantagem de refutar, de antemão, as objeções que podem nascer diante da razão, de aplanar as dificuldades que impediriam a fé, de dissipar as obscuridades que ofuscariam o olhar do espírito, de afirmar nele como real, como possível o que ela lhe apresenta.

Esta teoria compreende no seu objeto: a noção de revelação, a sua conveniência e a obrigação de a procurar e de a ela aderir; os sinais externos e internos que são as suas provas.

1º Noção da revelação. — Sabe-se quão necessário e oportuno é manter a noção tradicional contra o racionalismo que se apoderou das teologias protestantes e busca penetrar nas nossas. Nítida e resolutamente, é preciso separar desta ação da providência dados puramente internos de certos dados racionais, de uma evolução progressiva de germes virtualmente contidos na alma humana. A estas doutrinas hegelianas que as obras de Pfleiderer e de M. Sabatier vulgarizaram, será preciso opor a manifestação sobrenatural feita por Deus das verdades que Ele quer fazer conhecer à sua criatura.

Umas são naturais em si mesmas, mas sobrenaturais quanto ao modo da sua manifestação e ao seu fim religioso; outras são inacessíveis e misteriosas. Estas serão o objeto próprio e necessário da comunicação recebida pelos homens. Nem a natureza destes, nem a aptidão e os direitos da razão, nem os atributos de Deus serão obstáculos para a providência; mas haverá, ao contrário, inteira conveniência entre as necessidades e as aspirações da alma, a potência, a bondade infinitas, e a revelação de verdades que ultrapassam e enriquecem a nossa inteligência. — 2º Modo e necessidade da revelação.

Será oportuno insistir sobre a revelação mediata; não somente Deus revela àquele a quem uma verdade ou prescreve uma obrigação por palavras ou imagens destinadas à instrução e à conduta universais, tornando-se um mediador entre Deus e nós; mas ainda o seu testemunho nos é transmitido por uma autoridade literária. Exigir uma comunicação distinta e especial para cada um daqueles que são chamados à vida sobrenatural é uma pretensão intolerável que desconhece os direitos de Deus e esquece a natureza social do homem, ao qual uma revelação mediata é perfeitamente apropriada.

A revelação que tem por objeto mistérios é indispensável, na hipótese de uma elevação à ordem sobrenatural, uma vez que a criatura é incapaz de a conhecer e de a ela atingir por si mesma. Mas a revelação que tem por objeto verdades naturais nos é apresentada como muito útil, para tornar universal, verdadeira e certa essa ciência da lei natural, condição essencial de virtude e de felicidade. Em que sentido é ela moralmente necessária para a nossa natureza depravada pela idolatria? É delicado e importante determiná-lo.

Um erro, nesta matéria, levaria até à heresia sobre a impotência humana, e retiraria ao sobrenatural o seu caráter absolutamente livre e gratuito. Bem conduzida e seriamente documentada, a razão, na sua verdadeira relação com a fé e com a graça, mantém o direito das primeiras ao fazer ressaltar o benefício das segundas e fixa as relações que as unem. — Mas, como serviria de pouco que a humanidade possuísse o tesouro das verdades reveladas, se ele fosse inacessível, notas, critérios nos devem ser providencialmente fornecidos.

O apologista encontra-se aqui perante as reivindicações da nova escola, para a qual as notas internas — isto é, aquelas que são inerentes ao seu conteúdo — são preferíveis à revelação, ou mesmo exclusivas, enquanto a escola tradicional permanece fiel ao método das notas externas, que iluminam a revelação de fora e a fortalecem, conferindo-lhe o apoio de sinais manifestos que estão ligados à maneira como ela nos chegou. Voir Apologétique (méthodes). O milagre é uma matéria que exige desenvolvimentos e precisões que não eram tão indispensáveis antes das espantosas maravilhas devidas às aplicações científicas, às quais o século XIX deveu a sua direção e a sua marca distintiva. Desde Houtteville até M. Sabatier, a noção dele está alterada, e o movimento contingentista que se manifestou e se propagou na filosofia contemporânea traz-nos uma confirmação tão preciosa quanto inesperada.

Contra aqueles para quem ele é um efeito insólito das leis ocultas da natureza (desconhecendo assim a intervenção direta e o elemento divino que o constitui); ou contra os refinados que atenuam a sua realidade reduzindo-o à relação pessoal de um fato religioso com tal ou qual sujeito que, alcançando-o por uma experiência interna, o considera como um testemunho do amor especial de Deus, é preciso reivindicar a sua realidade objetiva e a sua origem sobrenatural: realidade estabelecida pela crítica histórica, origem demonstrada pela crítica filosófica.

Àqueles que negam a sua possibilidade, e que Rousseau queria «enfermer» como a alienados, lembrar-se-á que, não sendo a ordem do universo metafisicamente necessária, não sendo infinita a força que a anima, e não sendo absoluta a sua perfeição, é sempre lícito Àquele que criou o mundo comunicar-lhe graus de ser, princípios de grandeza e de beleza, desde que as essências das criaturas que compõem o universo não sejam em nada violadas nem destruídas. Finalmente, contra aqueles que pretendem «qu'il n'y a pas lieu de croire à une chose dont le monde n'offre aucune trace expérimentale», E. Renan, Vie de Jésus, préface de la 13e édition, ou que pretendem que «le miracle ne pourra jamais être constaté, ... parce que la constatation suppose une connaissance totale et absolue que le savant n'a point et n'aura jamais, et que personne n'eut au monde», A. France, Jardin d'Épicure, Paris, 1895, p. 202, é preciso desembaraçar os sofismas que implicam o completo ceticismo histórico ou o absoluto ceticismo científico.

Esclarecimentos especiais são exigidos para a profecia, milagre da ordem intelectual, que suscita e sugere dificuldades metafísicas; tanto mais que ela desempenha um papel decisivo na economia do cristianismo. Confundida com vagos pressentimentos, uma intuição do gênio, uma inspiração tomada no sentido artístico ou poético, ela perde todo o seu valor; ela não é mais do que uma excitação especial, uma exaltação da sensibilidade e um fenômeno subjetivo cujo acaso ou o preconceito explicam sozinhos a realização. Não será supérfluo testar a noção que dela dão os teólogos, aproximando-a da ciência divina e da liberdade humana com as quais ela deve concordar. — A. Caractère obligatoire de la révélation.

Contudo, possível e discernível, a revelação não poderá vencer a neutralidade da indiferença ou a resistência da vontade a menos que se apresente como um dever. É necessário aderir a uma revelação pública e universal, cuja origem divina é demonstrada? Esta origem divina, é preciso pesquisar se ela é real, e por qual método este exame deverá ser instituído? Esta obrigação moral parece chocar-se, com efeito, com o caráter essencialmente livre do ato de fé, e desconhecer a natureza do privilégio que se pode, a seu bel-prazer, aceitar ou recusar.

O apologista provará que ela é uma consequência da nossa dependência perante Deus e do seu soberano domínio sobre nós. Porque Ele é causa primeira e causa final, a revelação que vem d'Ele e conduz a Ele é a condição nitidamente necessária como único meio querido pela providência. Feito este trabalho, a teoria da revelação está concluída: ela aparece isenta de contradições, em harmonia com os atributos de Deus e as aspirações do homem. Aprouve a Deus outorgar aos homens uma religião revelada e, entre todas as que se dão como tais, qual é aquela à qual pertence realmente este caráter, com exclusão de todas as outras?

Responde-se a esta pergunta estabelecendo a existência da revelação. — Para a demonstrar, pode-se seguir dois métodos. O primeiro consiste em abordar diretamente a revelação cristã: Jesus é uma personagem histórica a respeito da qual a tradição, o conjunto dos escritos conhecidos sob o nome de Novo Testamento, as próprias fontes não cristãs, nos oferecem informações. Ora, Ele apresenta-se como enviado de Deus e Deus Ele mesmo. As profecias realizadas na sua pessoa, os milagres operados por Ele, em seu favor, ou pelos seus discípulos, o estudo da sua pessoa e da sua obra provam a veracidade do seu testemunho.

O segundo remonta até às revelações primitiva e mosaica, anteriores ao cristianismo, e não aborda este último senão quando o mostrou suficientemente preparado nas suas origens. É evidente que o último é mais completo, mais conforme à evolução que é a lei dos seres vivos. Ele mostra como se desenvolve o germe contemporâneo do nascimento da humanidade, como ele se conserva e cresce. Se as revelações precedentes conduzem à revelação cristã, se ela é a sua razão de ser, a sua realização, a sua perfeição, não pode ser sem interesse considerá-las primeiro em si mesmas.

Finalmente, do ponto de vista polêmico, a história do povo de Israel levanta questões, suscita objeções que concernem e combatem indiretamente a religião cristã. Por estes motivos, parece mais lógico e mais científico colocar em plena luz os ensinamentos, os preceitos e os ritos que constituem a religião judaica. Sem desaprovar o primeiro método que, sendo mais curto, reúne os argumentos e concentra as suas forças, que não complica a demonstração misturando-lhe elementos estranhos, que não exige o aparato exegético e os conhecimentos filológicos que reclama o segundo, cremos ser útil resumir este último e mostrar a ligação das diversas partes de que se compõe. — 1º Révélation primitive.

Vários autores distinguem nela três épocas: 1° de Adão a Noé; 2° de Noé a Abraão; 3° de Abraão a Moisés. Seria uma petição de princípio alegar como revelados os ensinamentos e os preceitos contidos no Pentateuco, mas a tarefa do apologista consiste em mostrar que as leis positivas e as verdades doutrinais apresentadas nesta obra, como reveladas, possuem realmente esse caráter; e essa demonstração se faz, primeiramente de modo negativo, porque elas não contêm nada de contraditório, de impossível, de indigno da sabedoria e da bondade supremas, mas, ao contrário, porque convêm maravilhosamente aos conceitos mais depurados da nossa inteligência sobre Deus, o homem e a religião, e porque são auxílios para a nossa fraqueza e aumentam a dignidade da nossa natureza; em seguida, de modo positivo, porque profecias e milagres incontestáveis atestam que Deus as revelou verdadeiramente.

Conclui-se que essa religião natural, nos limites da qual os racionalistas e os naturalistas gostariam de nos enclausurar, nunca foi mais que uma construção abstrata do espírito, nunca existiu isolada e separada de um culto positivo.

2º Revelação mosaica. — Ela compreende dogmas que não são quase nada além da clara afirmação ou da explicação distinta das verdades gravadas no coração do homem ou transmitidas, de Adão a Moisés, por uma tradição contínua, mas, sobretudo, ela abunda em preceitos morais, cerimoniais (que dizem respeito aos sacrifícios, aos sacramentos, às festas e observâncias legais), civis e políticos. Em constante harmonia com a santidade de Deus e a pureza da moral, essas leis são admiravelmente adaptadas ao estado social e aos destinos de Israel; aliás, a história deste povo é característica e mais que humana; enfim, é preciso negá-la por inteiro ou admitir que ela supõe predições do futuro e intervenções sobrenaturais das quais só Deus pode ser o autor.

Esta revelação contém, contudo, um elemento que nos impede de considerá-la definitiva; ela supõe, com efeito, ela aguarda, ela prefigura, ela prepara a vinda de um enviado divino, de um Messias, que deve abrogar a lei mosaica em circunstâncias indicadas com precisão pelos livros que a contêm e a formulam. — 3º Revelação cristã. Porque ela está contida nos Evangelhos, muitos autores começam por um estudo sobre sua autoridade histórica: eles são autênticos, íntegros, verazes. Não se pode dissimular que esse procedimento tenha em seu favor a lógica rigorosa, mas, por outro lado, não parece ele invadir o domínio dos exegetas?

São, com efeito, questões escriturísticas que lhes pertencem, e é de um bom método que uma ciência não ponha em dúvida o que é demonstrado por outra; os físicos supõem demonstrados e consideram, com razão, como certos os teoremas matemáticos sobre os quais apoiam seu raciocínio. Além disso, poder-se-ia sustentar que os Evangelhos não são indispensáveis para que a existência de Jesus Cristo permaneça incontestada. Paganismi enim imperio, dit le P. Hurter, successit regnum Christi; scholis philosophorum, Christi schola; vitæ corruptissimæ vita ad doctrinam Christi expressa.

Sed omnis effectus exigit causam et quidem adæquatam. Hujus autem effectus ideo universalis, hujus commutationis orbis, hujus novæ creationis causa nequit esse fraus, deceptio, mendacium, ignorantia, Christus non existens sed mythicus et confictus. Theol. dogm. compendium, 7e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1898, t. I, p.

34º Pode-se, portanto, se não se quiser omitir o estudo dos Evangelhos, limitar-se a uma demonstração sumária de sua credibilidade. Duas questões se apresentam então, intimamente ligadas entre si e tão perfeitamente conexas que a resposta a uma delas é a solução indireta da outra: 1° Jesus Cristo é Deus?

2° a religião cristã é verdadeira? Tem-se o direito de responder afirmativamente à primeira, quando se analisou e aprofundou o testemunho de Jesus Cristo e dos profetas. Os milagres operados por Jesus, as predições realizadas das quais ele é o autor, o fato de sua ressurreição anunciada por ele, sua santidade e sua doutrina são provas sólidas. Resolve-se o segundo problema opondo aos incrédulos a propagação da religião cristã, sua maravilhosa conservação apesar dos obstáculos e dos perigos, a transformação moral e social da qual ela foi o princípio, a multidão e o heroísmo dos mártires que deram sua vida por ela.

Naturalmente, a ordem das provas não é imutável, mas ela se reconduz, mais ou menos, a esta, com as variedades que a diversidade dos pontos de vista impõe. Os teólogos recentes acrescentam, ordinariamente, um capítulo sobre a história das religiões. Um dos mais estimados, J. Unger, sem tratar diretamente desse assunto, faz com que ele retorne à sua tese, assim formulada ab omnibus: Religio christiana homini amplectenda est. Theol. fundamentalis, Fribourg-en-Brisgau, 1897, t. I, p. 905. Ele compara o cristianismo à lei natural insuficiente, à lei mosaica abrogada, aos diversos cultos do paganismo, ficções monstruosas da humanidade, ao budismo e ao maometismo; ele não tem dificuldade alguma em estabelecer a transcendência da religião de Jesus.

Outros começam por estabelecer que o monoteísmo é a religião primitiva e que a ideia de um fetichismo e de um animismo universais é inadmissível; eles passam, em seguida, em revista Zoroastro, Confúcio ou Çakya-Mouni e as religiões ocidentais (politeísmo grego e romano) para constatar que, apesar de algumas asserções, algumas leis justas e certas virtudes dos fundadores e dos discípulos, elas encerram perniciosos erros sobre a natureza divina e a lei natural, que sua influência não tornou melhores, isto é, mais perfeitos e mais felizes, os homens que as abraçaram, enfim que sua sucessão não constitui sempre um progresso, sendo muitas formas religiosas recentes menos puras e menos próximas da verdade que certas fés anteriores.

Essa comparação se impõe em presença dos preconceitos, dos erros engendrados e favorecidos pela pretensa «ciência das religiões» que as encara todas como produtos da imaginação, sínteses de lendas vulgares e de concepções filosóficas ou frutos naturais das diversas civilizações. O resultado desse exame é a convicção de que o cristianismo é a religião perfeita; de que ele não é o produto das qualidades de raça, dos procedimentos de educação, das tendências de um povo ou das circunstâncias de uma época, mas de que ele é eterno no pensamento de Deus e contemporâneo, para nós, da origem mesma da humanidade.

Em germe, em figura, em esboço no Antigo Testamento, ele se desenvolveu, realizou-se, precisou-se no Novo. É um conjunto completo de verdades e preceitos contendo todos os elementos de saber e de moralidade dispersos em todos os sistemas religiosos, absorvendo em si tudo o que neles pode haver de potência e de virtude, e superando-os incomparavelmente por ser irredutível e superior a eles, de uma outra ordem, à qual eles nunca poderão atingir, sejam quais forem o gênio de seus fundadores, os progressos de sua ciência e de sua vida moral, porque eles são produtos da natureza humana, enquanto, em sua origem, sua essência e seu fim, ele é verdadeiramente divino.

Eis o que a apologética deve, acima de tudo, pôr em luz. É aqui, para ela, o ponto central onde tudo converge. As outras partes de sua demonstração podem ser consideradas como preparações ou consequências. Mas ela deve estabelecer, em seguida, a forma organizada, coletiva, social que o Cristo imprimiu à sua obra. II. Demonstração católica. — Um homem deve ser cristão se ele segue a razão aonde quer que ela o leve; esta qualidade de cristão é reivindicada por várias sociedades religiosas. Incontáveis seitas, professando dogmas diversos e até mesmo opostos, pretendem possuir a verdadeira revelação cristã.

É claro que, não podendo duas contraditórias serem verdadeiras, uma única doutrina pode ser a do Cristo, em sua pureza e em sua integridade. Deve-se poder, aos homens, discernir a profissão, uma vez que a vontade divina prescreve o cristianismo como o único meio de salvação. É o objeto de um tratado teológico intitulado De Ecclesia Christi. Ele coloca em presença a Igreja romana, as Igrejas cismáticas, as protestantes, e demonstra que a primeira, apenas, foi instituída por Jesus Cristo. Sendo esta demonstração o assunto de artigos especiais (ver Église), bastará traçar aqui as grandes linhas que dão a sua forma atual.

A Igreja romana é uma sociedade espiritual e visível, fundada por Jesus Cristo, composta de criaturas humanas submetidas à autoridade de seu vigário, o soberano pontífice, e dos bispos, sucessores dos apóstolos. I. ORIGEM DIVINA DA IGREJA. Realidade histórica e experimental, é a Igreja um fato sobrenatural? Sua existência e sua duração permanecem inexplicáveis pelas forças naturais, as tendências sociais, a evolução humana das ideias religiosas? O apologista recorda e comenta as palavras do Salvador, que impõem uma autoridade hierárquica e viva à multidão dos fiéis; ele mostra, por documentos históricos, sua duração ininterrupta e sua forma essencial, idêntica desde os tempos apostólicos, apesar dos bouleversamentos das nações, as perseguições dos adversários e as falhas de seus membros.

Esta sociedade aparece como uma extensão da pessoa mesma do Filho de Deus feito homem, como o corpo do qual ele é a cabeça, possuindo todos os meios de salvação, e absolutamente original em sua essência e em seu fim, por sua doutrina que não tem nada em comum com a das escolas filosóficas, por suas leis que não têm por objeto a aquisição ou a proteção dos bens temporais e materiais, por seu organismo que não é civil ou político, mas exclusivamente religioso. Ela é propriamente e unicamente o reino de Deus, tão frequentemente anunciado e prometido no Evangelho. III.

CARACTERES DA IGREJA. — Pode-se, com M. Didiot, resumi-los a três: 1° caráter social; 2° perpetuidade; 3° infalibilidade.

1° Ela não se compõe de crentes dispersos; ela não é uma multidão confusa e amorfa, mas um organismo com partes específicas, funções precisas, — um sacerdócio, um governo, um chefe supremo.

2° Por sua instituição, seu objetivo, ela deve durar tanto quanto o mundo, as causas de transformações ou de ruína que ameaçam as sociedades humanas submetidas às vicissitudes do tempo não saberiam mudar sua constituição ou ameaçar sua existência garantida pelas promessas e pela assistência divinas.

3° Indefectível, ela deve ser infalível, pois não pode enganar seus aderentes, em matéria de dogma ou de moral religiosas; ela não seria mais guia da crença e da conduta se estivesse sujeita ao erro; e como esse privilégio seria vão e ineficaz se fosse reservado somente ao episcopado em sua totalidade, cujo concerto pode ser invisível e a reunião impedida, Jesus o concedeu, em circunstâncias que os teólogos devem determinar, ao seu vigário, o soberano pontífice. — Do ponto de vista apologético, as notas da unidade, da santidade, da catolicidade e da apostolicidade ocupam o primeiro lugar: elas são os sinais distintivos que permitem reconhecer, entre todas aquelas que pretendem a esse título, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo.

Será preciso, portanto, pôr em luz essa unidade que resulta do fundamento único e divino sobre o qual ela repousa; mas, porque ele permanece invisível, ele deverá aparecer concreto e tangível na pessoa de Pedro, e de seus sucessores, pastores, doutores e reis da sociedade espiritual. E já que esta tem por missão aplicar e, por assim dizer, continuar a redenção, ela se mostrará santa pela pureza de seu ensino, o amor de Deus e dos homens, seus procedimentos de governo e de propaganda, seu desejo de perfeição, a vida e a morte de seu fundador, a maravilhosa floração de heroísmo da qual ela deu o espetáculo, sua benfazeja influência sobre os costumes da humanidade.

Já que Deus quer a salvação de todos os homens, que a salvação tem por condições essenciais a fé e a graça, a Igreja será católica, abraçando todas as nações e todos os séculos, mas propriamente universal no espaço, na extensão, na aplicação ao gênero humano todo inteiro. Sem dúvida, a resistência dos homens, que são livres e desviados por tantos e tão poderosos obstáculos, restringe o fato dessa universalidade, mas ela se manifesta por uma força de expansão ilimitada e indefinida, manifestada de todas as maneiras e em todas as épocas pela Igreja romana.

Enfim, para que ela tenha o direito de se declarar sobrenatural e de origem divina, é preciso que ela se revele como apostólica, isto é, idêntica a esse pusillus grex que o Salvador dos homens reuniu em torno de si para fazer a conquista do universo. Se seu objetivo tivesse sido alterado, sua constituição deformada ou renovada, sua ação modificada, ela não seria mais ela mesma. Contudo, o apologista deve mostrar que essa imutabilidade essencial se concorda com uma evolução inevitável e uma adaptação indispensável às diversas civilizações humanas.

A conclusão será esta: um cristão deve ser católico. É fácil ver que todas as questões que concernem à Igreja não pertencem à teologia fundamental. Esta última estabelece princípios cuja aplicação constitui uma ciência complexa e muito extensa sob o nome de direito canônico. Uma vez estabelecida a legitimidade do poder legislativo, o apologista cede a palavra aos moralistas e aos canonistas, que enumeram, classificam e interpretam as leis editadas pela autoridade eclesiástica, e que regulam os direitos, os deveres e os privilégios dos membros da Igreja, tendo em vista o seu fim sobrenatural e a sua natureza espiritual. III.

Lugares teológicos. — «Um católico, dissemos, recebe, pelo ministério da Igreja, as regras da sua crença e da sua conduta». Esta afirmação, nitidamente deduzida das considerações que precedem, bastaria a um católico para crer e para agir; mas um teólogo não pode abordar o estudo do dogma ou da moral se ignorar as fontes onde deverá haurir as verdades cujo encadeamento constitui a ciência sagrada. O tratado dos lugares teológicos será, pois, o complemento indispensável dos outros dois. Foi frequentemente remodelado e em diversos sentidos desde o livro célebre de Melchior Cano.

Pode dizer-se que ele já existia, em certas obras, por exemplo o tratado De verbo Dei scripto et non scripto, do cardeal Bellarmin, e mesmo virtualmente nos escritos dos Padres, tais como o tratado De doctrina christiana, de santo Agostinho. Não deixa de ser interessante recordar que o P. Perrone fazia entrar neste tratado o De Ecclesia Christi, que é a regra imediata, próxima e soberana da fé, e, portanto, o principal lugar teológico.

Os lugares remotos (remoti) serão a Escritura e a tradição; sob o nome de lugares sobrenaturais, a maioria dos autores os estuda, e alguns conferem, com alguma razão, o primeiro lugar à tradição que bastaria, a rigor, para transmitir aos homens a doutrina ensinada pela Igreja em todos os tempos e em todos os lugares. Insistem nos caracteres de universalidade e de antiguidade que lhe conferem valor, examinam-na sob as formas oral, escrita ou monumental que ela reveste.

Mostram-na formulada nas constituições dos soberanos pontífices e dos concílios, nos símbolos e nas profissões de fé, expressa pelos ritos, pelas orações e pelas festas, conservada nos escritos dos Padres e dos doutores, nos atos dos mártires e nos sistemas dos heréticos que a citam para combatê-la. A epigrafia, a arqueologia, a numismática encontram-na nos edifícios sagrados, nas inscrições, pinturas, esculturas, medalhas, etc. A Escritura sagrada, que compreende os livros escritos sob a inspiração de Deus, deverá ser encarada pelo apologista, mas de uma forma ampla e geral.

Algumas noções claras e muito exatas sobre o cânone e a autoridade dos livros sagrados, a inspiração considerada na sua natureza e na sua extensão, as regras de interpretação, as diversas versões que os colocaram ao alcance dos fiéis bastam amplamente. As questões de detalhe são da alçada da exegese. Os teólogos de outrora juntavam a essas fontes o que denominavam loci mixti e naturales: verdades filosóficas, princípios de direito público, factos psicológicos ou de experiência externa.

Vê-se imediatamente que rico tesouro é oferecido ao teólogo e de que materiais comprovados e preciosos ele dispõe para erguer o seu edifício. Contudo, com razão, os autores modernos insistem nas relações da razão e da fé. Estas considerações, tão oportunas num tempo de ceticismo e de racionalismo, tornaram-se mais fáceis desde o concílio do Vaticano, onde foram traçados os limites, definidos os direitos e assinalados os domínios da ciência e da crença. Estabelece-se a mesma relação na inteligência que raciocina e que crê; é inevitável e obrigatório que ela se pergunte o que a fé lhe traz de novo, o que ela exige dela, como conciliará os princípios que lhe são próprios com os ensinamentos que lhe vêm de fora.

É tão perigoso aniquilar a razão, recusando-lhe todo poder, quanto exaltá-la, empurrando-a para a revolta. Já precisámos o papel da razão antes do ato de fé e no exame dos motivos de credibilidade, mas o apologista que teve, para tornar a crença possível, de desembaraçar a inteligência dos preconceitos panteístas, materialistas e deterministas, purificá-la-á dos devaneios do falso misticismo que alguns se obstinam em confundir com ela. Considerará também a obra própria da razão, cuja marcha pode ser paralela e até convergente com a da fé, nunca oposta.

Uma vez que o cristianismo nunca pede uma adesão cega e nunca propõe um dogma contraditório, a fé não extingue a luz natural; ela ajuda os seus esforços, encoraja o progresso da razão, e muito mais, no cultivo das ciências do pensamento e da natureza. Por fim, os serviços que recebe, a razão reta e sã os rende à fé; pois, além de que esta supõe, como condições indispensáveis, a história e a crítica, ciências racionais, a doutrina revelada só reveste um aparelho científico e só adquire, pela sua aliança com a razão, a amplitude e a fecundidade da ciência teológica.

A teologia fundamental pode deixar agora o campo livre à dogmática; a sua obra terminou. — IV. Apologética negativa. Se a apologética positiva está constituída num corpo sólido de doutrina, a apologética negativa ou defensiva, ou polémica, não pode ser tão exatamente determinada. Ela é tão geral e tão variada quanto o ataque. Tentámos defini-la, no início deste artigo, e voltamos a ele para determinar o seu objeto. Parece-nos que se pode reduzi-lo aos pontos indicados num programa elaborado, após longas reflexões, por M. Duilhé de Saint-Projet.

Ser-nos-á grato transcrevê-lo aqui: 1º Definição e divisões.

2º Plano de estudos apologéticos. A apologética e a exegese. Crítica bíblica.

3º A apologética e as ciências filosóficas. Fé e razão. A apologética face ao racionalismo, ao positivismo, ao monismo materialista.

4º A apologética e as ciências naturais. Problema cosmológico. — Problema biológico. Problema antropológico.

5º A apologética e as ciências históricas. História das religiões, transcendência do cristianismo. — Ação social e civilizadora da Igreja.

6º História e transformações da apologética no decorrer dos séculos, t. Quelques pages aux pieds d'un crucifix, Toulouse, 1897. A divisão da apologética defensiva repousa na própria natureza do homem, ser razoável, material e social. A fé, ao penetrar na sua inteligência, encontra nela as especulações do seu pensamento, os resultados da sua experiência sensível, as recordações da sua evolução histórica. É preciso que haja acordo entre todos esses elementos para que ele goze da «paz intelectual».

Ele depende do mundo exterior, no qual o seu corpo lhe atribui um lugar e que lhe fornece a matéria dos seus conhecimentos sensíveis, condição de todo pensamento; ele está ligado no tempo e no espaço aos grupos humanos, que chamamos de raças ou nações; enfim, ele só exerce e desenvolve a sua razão pela concatenação das verdades que decorrem dos primeiros princípios, seguindo as leis lógicas que se impõem ao seu espírito: não há ciência, história, filosofia, modernas, que não versem sobre o seu objeto. Duilhé de Saint-Projet, op. cit., p. 302.

É evidente que esta tríplice apologética nunca será definida: os argumentos que bastam para refutar o erro de hoje deverão ser modificados e completados para enfrentar a nova forma que o erro revestirá amanhã. O socialismo, o kantismo, o idealismo, o monismo, nos quais os teólogos de outrora não pensaram e que fornecem à compreensão, à análise, à crítica, um campo inexplorado até aqui. Naturalmente, antes de combater e de condenar, será preciso distinguir o que é verdadeiro, o que pode ser admitido, o que deve ser rejeitado, trabalho muito delicado, aberto, sutil, ao qual é preciso trazer um espírito imparcial e uma alma justa, sincera e benevolente.

É maravilhoso, os fatos sugerem nos seus pontos de vista inesperados e podem suscitar dificuldades às quais os apologistas de outrora não tinham de responder. A primeira condição para resolvê-las será examiná-las com seriedade, confiança e medida (parecer de M. de Lapparent no Congresso de Munique, 1901); ela consiste em expô-las tais como são, e, portanto, em compreendê-las primeiro para exprimir nitidamente o que elas podem ter de especioso, distinguindo os fatos das hipóteses e as leis certas das teorias provisórias; a confiança é justificada e será inabalável se formos cristãos convencidos, nulla inter fidem et rationem vera dissensio esse potest.

Concile du Vatican, const. De fide, c. iv. Não pode, portanto, existir senão um desacordo aparente entre afirmações temerárias ou não fundamentadas dos cientistas e as proposições demasiado absolutas dos teólogos. A medida será observada se tivermos o cuidado de não identificar o dogma com opiniões humanas, sistemas teológicos, comentários exegéticos, quaisquer que sejam o gênio, a ciência ou a autoridade dos seus autores. Haveria um real perigo, sobretudo ao querer buscar de uma maneira geral na Bíblia a expressão dos dados da ciência, ao procurar, por exemplo, no Gênesis a confirmação da cosmogonia de Laplace ou do transformismo de Darwin.

Quando as verdades científicas são também verdades religiosas (tais como a criação ou a unidade da espécie humana), é possível que a Bíblia o exprima, mas ordinariamente não é assim. A revelação não tem por fim o progresso da física ou da astronomia, e, por outro lado, ao querer encontrar confirmações da fé em hipóteses científicas, expõe-se a sustentá-la por frágeis apoios, que não lhe são necessários e cuja queda pode enfraquecê-la, não sem dúvida em si mesma, pois a sua solidez não depende disso, mas no espírito daqueles que a acreditam arruinada com os contrafortes que pareciam fortalecê-la.

A tarefa essencial do apologista na matéria, é claro: 1° a afirmação nítida e breve das proposições das verdades dogmáticas e das conclusões incontestáveis da ciência; 2° a exposição das doutrinas prováveis, mas livres, da teologia ou da metafísica e das hipóteses plausíveis, ou das teorias provisórias dos cientistas; 3° a refutação direta dos erros, mostrando que os termos absolutamente opostos à fé são inadmissíveis, e que a razão, a experiência ou a ciência os repelem tanto quanto a religião, porque são contrários aos fatos constatados e às leis certas, ou pelo menos desprovidos de provas e construídos a priori por espíritos temerários e inconsiderados.

Entre as certezas, harmonia; entre as opiniões, há liberdade; entre verdades e erros, há conflito necessário e vitória decisiva de umas sobre os outros. 1533 APOLOGÉTIQUE (OBJET) Inútil acrescentar que estas regras que concernem à apologética científica convêm à apologética histórica. Nunca perderemos de vista o lema tão conhecido e frequentemente repetido: Non indiget Ecclesia mendacio nostro. Retidão brilhante, boa-fé, lealdade, se estas qualidades são demasiado frequentemente ausentes nas discussões, não deve ser da parte dos católicos.

Nenhum evento histórico poderá arruinar um dogma cristão tal como a primazia de São Pedro ou a infalibilidade do Papa; a história imparcial nunca admitirá que o cristianismo seja uma decadência da nossa espécie e não se tenha mostrado benéfico para a humanidade. Se o dever do apologista é reduzir a nada as calúnias inspiradas por um ódio cego, ele se preocupará pouco com as discussões sobre a vida privada dos Bórgia, a revogação do Édito de Nantes ou as origens de tal igreja das Gálias ou da Espanha; não certamente que este gênero de questões seja negligenciável.

É interessante pesquisar a este respeito a verdade, seria vantajoso descobri-la, mas é o assunto do historiador, e o apologista, que é antes de tudo um teólogo, deve resistir à tentação de impor aos outros o que permanece livre, o que não é certo; ele não suspeitará de intenções que é mais honesto, mais caridoso, mais hábil supor retas e sãs; ele não condenará aqueles que resolvem, diferentemente dele, questões que a Igreja não dirimiu e que permanecem entregues às disputas dos homens. Pode-se consultar as obras indicadas ao final do artigo precedente.

Autor original: L. Maisonneuve

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