APARIÇÕES

APARIÇÕES

APARIÇÕES. – I. Noção. II. Espécies. E. Jacquier. III. Possibilidade. IV. Conveniência. – Este nome, na linguagem teológica, designa toda manifestação sensível de uma pessoa ou de um ser cuja presença, nas circunstâncias em que se produz, não poderia explicar-se pelo curso ordinário e natural das coisas. Em rigor de termo e de acordo com a etimologia, uma aparição dirige-se aos olhos daquele que a percebe. Contudo, não é indispensável, segundo o uso comum, que o que aparece seja tornado visível aos sentidos propriamente ditos ou em virtude de sua natureza; basta que, escapando Deus aos sentidos e às condições dos corpos, Ele se encontre como um homem, ou um anjo, de maneira a ser percebido por nós.

Distingue-se geralmente a aparição da visão, que não implica necessariamente um objeto exterior; da visão imaginária, que pode ocorrer no estado de êxtase ou de arrebatamento; e da visão intelectual, tal como é a visão intuitiva de Deus pelos bem-aventurados. A aparição é manifesta aos sentidos exteriores. Diz-se aparição em relação ao objeto que aparece, e visão em relação àqueles que percebem o objeto que aparece. II. Espécies. – As aparições não podem, se considerarmos o grau de certeza dos fatos e a natureza de assentimento que deles resulta para o crente, ser colocadas no mesmo patamar: há as que estão consignadas na Escritura e atestadas pela palavra divina; outras só nos são conhecidas por documentos profanos ou testemunhos históricos mais ou menos autênticos e mais ou menos dignos de fé. – APARIÇÕES BÍBLICAS. – A Bíblia atesta aparições.

1º De Deus. – Desde os primeiros tempos da humanidade, Deus mesmo se revela sensivelmente ao homem: conversa com Adão e Eva, Gen., II, 10, 11, 23-24, para proibi-los de tocar no fruto da árvore da ciência do bem e do mal, depois para anunciar-lhes a sua desobediência; intima a Caim, Gen., IV, 9-15, a sentença de condenação que incorreu em punição pelo assassinato de Abel. Abraão é o primeiro de quem se diz expressamente que Deus se mostrou a ele: vê o Senhor em Siquém, Gen., XII, 1-3, depois, quando já atingira a idade de noventa e nove anos, Gen., XVII, 1-22º Sob o carvalho de Mambré, recebe a visita de três estrangeiros, dos quais um é Adonai e Jeová, Gen., XVIII, 1-33º Em outros fatos análogos, o caráter estrito da aparição é evidente, nomeadamente na visão de Abraão, Gen., XV, 1-19, e no sonho de Jacó, Gen., XXVIII, 11-16º No decorrer dos tempos, o Senhor aparece ainda a Isaac, Gen., XXVI, 2-23, a Jacó, Gen., XXXI, 24, a Moisés, na sarça ardente, Exod., III, 2, e no Sinai, Exod., XIX, 3º Deus também se mostrou aos homens sob uma forma simbólica, a de uma chama, Gen., XV, 17, Exod., III, 3; de uma coluna de nuvem, Exod., XIII, 21, XXXIV, 5, III Reg., VIII, 10, II Par., V, 13; de um sopro leve, III Reg., XIX, 12º O Espírito Santo desceu no batismo de Jesus no Jordão, Luc., III, 22, e em línguas de fogo sobre os apóstolos no Pentecostes, Act., II, 3º 2º Dos anjos. – A Bíblia fala-nos também de aparições de anjos.

Assim, um anjo vem ao deserto, Gen., XVI, 9-13; anjos, enviados para destruir Sodoma, recebem a hospitalidade na casa de Abraão, Gen., XVIII, 2-16; o anjo Rafael torna-se o companheiro de viagem do jovem Tobias, Tob., V, 5-XII, 15; um anjo aparece a Gedeão, Jud., VI, 11-22; a Manué, Jud., XIII, 3-6; a David, II Reg., XXIV, 15-17; a Elias, III Reg., XIX, 5-7; aos três jovens israelitas na fornalha, Dan., III, 19, 92; a Habacuc, Dan., XIV, 33, etc. No Novo Testamento, o papel visível dos anjos é assinalado em muitos lugares.

Lembremos apenas as aparições de Gabriel a Zacarias, Luc., I, 11, e a Maria, Luc., I, 26-38º Anjos anunciaram aos pastores de Belém o nascimento de Jesus, Luc., II, 8-15º Anjos serviam Jesus após sua tentação, Matth., IV, 11º Um anjo anunciou às santas mulheres a ressurreição do Salvador, Matth., XXVIII, 2-5º Um anjo libertou São Pedro da prisão, Act., V, 19; XII, 7-15; um anjo apareceu ao centurião Cornélio, Act., X, 3, etc. Os livros do Antigo Testamento mencionam apenas aparições de bons anjos; é em São Mateus, IV, 1-11, a propósito da tentação de Nosso Senhor, que pela primeira vez se trata do anjo decaído.

3º Dos mortos. – Pouco numerosas são as aparições de mortos mencionadas nas páginas inspiradas. Lemos, todavia, I Reg., XXVIII, 8-21, que Samuel se apresentou à pitonisa de Endor, que o havia evocado por ordem de Saul. Nem todos os Padres, contudo, admitiram a realidade desta aparição. Vigouroux, Manuel biblique, 10e édit., Paris, 1899, t. II, p. 109. Da mesma forma, Judas Macabeu viu, mas em sonho, II Mach., XV, 11-16, o sumo sacerdote Onias e Jeremias, que conversaram com ele. Moisés apareceu no Tabor, Matth., XVII, 3º Entre os prodígios que marcaram o momento solene em que o Salvador expirou na cruz, São Mateus, XXVII, 52-53, relata que mortos saíram de seus sepulcros, entraram em Jerusalém e apareceram a várias pessoas.

Jesus ressuscitado apareceu a Maria Madalena, Marc., XVI, 9; às santas mulheres, Matth., XXVIII, 9; a dois discípulos, no caminho de Emaús, Luc., XXIV, 15; aos apóstolos reunidos, Marc., XVI, 14, Matth., XXVIII, 16; a São Paulo, Act., IX, 3-7, etc. Jesus aparecerá ainda no fim do mundo para julgar os vivos e os mortos. – Todas estas aparições, atestadas pela Bíblia, impõem-se evidentemente à nossa crença, quando o sentido do texto sagrado é claro e indubitável. III. Aparições extrabíblicas. – Para além das aparições cuja realidade repousa sobre a autoridade mesma de Deus, existem outras cuja autenticidade só está apoiada em testemunhos ordinários e documentos profanos.

A Igreja admite a existência de várias aparições desta segunda categoria. Frequentemente, nos processos de canonização, relatos de aparições são examinados, discutidos e apreciados segundo a natureza e o valor das garantias que oferece cada caso particular. As relações deste gênero não são raras nas lições do breviário, e a instituição de várias festas prende-se a uma aparição de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem ou de outros santos; tais como as festas do Sagrado Coração, de Nossa Senhora das Neves, da aparição da Virgem Imaculada em Lourdes, da aparição de São Miguel Arcanjo no Monte Gargano.

Quer isso dizer que estas aparições são impostas à nossa crença como artigos de fé, de tal sorte que um católico se tornaria herege pelo simples fato de rejeitá-las? De modo nenhum. Primeiramente, não pode haver questão de artigos de fé divina fora dos limites da revelação pública, conservada e transmitida pelo duplo órgão da Escritura e da tradição; esses fatos estão fora destes limites. Em seguida, embora certos fatos possam ser compreendidos no domínio da infalibilidade eclesiástica, por certos aspectos, quando se prendem ao depósito da revelação, a Igreja não profere sobre nenhum deles um desses julgamentos definitivos que acarretam a obrigação de um assentimento absoluto.

Ao aceitá-los, ela indica apenas que podem ser considerados como autênticos. Se, portanto, deve-se evitar a seu respeito negações temerárias, soberbas, ou menos sistemáticas, conserva-se também o direito de examinar cada um deles, segundo as regras da prudência e os princípios da crítica histórica. E. Jacquier. Nenhum católico inteligente jamais tomou as lições do breviário, embora adotadas, mantidas ou toleradas pela Igreja, como uma regra de fé, nem mesmo como documentos cuja certeza histórica esteja demonstrada.

Nos processos de beatificação e canonização, os tribunais eclesiásticos discutem com cuidado minucioso e crítica severa as aparições que são submetidas ao seu julgamento. Encontrar-se-á em Bento XIV, De servor. Dei beatif. et canon., III, 51, 52, Opera omnia, Veneza, 1767, t. III, p. 265-272, as regras seguidas para discernir as aparições verdadeiras das falsas. Nestas matérias, há sempre que se precaver contra os erros de uma imaginação exaltada. Ver Alucinação. O extremo rigor com que é conduzido o procedimento dos tribunais eclesiásticos é, por si só, independentemente até da assistência do Espírito Santo, uma garantia da veracidade das aparições cuja realidade é reconhecida pela Igreja.

Contudo, essa realidade não é imposta à fé dos fiéis. — III. Possibilidade. As aparições de Deus, dos anjos, dos santos ou dos mortos, quando ocorrem nas circunstâncias exigidas pela definição, ultrapassam o curso ordinário das coisas e são verdadeiros milagres. Negar a sua possibilidade seria negar a possibilidade do milagre, que será provada mais adiante. Ver Milagre. Limitemo-nos aqui a algumas observações.

1° Nas aparições divinas, não era evidentemente o ser divino em si mesmo, a sua substância espiritual, que entrava diretamente em contato com os sentidos do homem; a sua absoluta espiritualidade opunha-se a isso. Deus recorria a um instrumento, a um intermediário material, forma humana ou outra, para se colocar ao alcance das faculdades orgânicas daqueles a quem aparecia. É nesse intermediário, do qual se fazia o motor, e por meio dele, que se tornava perceptível aos olhos mortais. Deus, criador e senhor absoluto da matéria, tem o poder necessário para adaptar uma forma corpórea e sensível e empregá-la para esse fim.

No artigo Teofania, determinar-se-á qual pessoa divina movia, por si mesma ou por intermédio de um anjo, a forma corpórea que aparecia.

2° A manifestação sensível dos espíritos angélicos sob uma forma corpórea não é mais difícil de conceber e de realizar do que a de Deus mesmo. Pela vontade divina, essas substâncias puramente espirituais podem, por um tempo, assumir e mover um corpo humano.

3° No que se refere às aparições dos mortos, a sua possibilidade concebe-se tanto mais facilmente quanto é natural a uma alma habitar e animar um corpo humano. Que Deus, aliás, possa ter boas razões para querer, excepcionalmente e raramente, esses retornos momentâneos das almas que haviam deixado a terra, é algo que ninguém contestará com qualquer verossimilhança; não é manifesto que um evento desse gênero é de natureza, segundo as circunstâncias, a humilhar e a punir mais a alma que reapareceria assim, ou a esclarecer os vivos, a comovê-los mais fortemente, para os levar ao bem ou retirá-los do mal?

Eu disse: excepcionalmente, raramente, porque, ao se multiplicarem, esses fatos perturbariam a ordem estabelecida, trariam necessariamente a agitação e o pavor entre os homens, consequência que um Deus infinitamente bom e infinitamente sábio não poderia permitir. Esta reserva deve bastar para tranquilizar todos aqueles que se perturbariam com o pensamento de semelhante eventualidade. — IV. Conveniência. As aparições, aliás, não são inúteis. Nos desígnios de Deus que as opera, elas têm um fim digno da sua sabedoria e da sua potência.

O objetivo que Deus se propôs nas aparições bíblicas não é duvidoso. Como todos os milagres relatados na Bíblia, elas têm a vantagem de confirmar a revelação primitiva, a revelação mosaica e a revelação cristã, e de as apresentar como munidas de um selo divino. As aparições produzem frequentemente um efeito análogo. Em todo caso, justificam-se suficientemente por esta consideração: que Deus é o senhor absoluto e o juiz perfeitamente livre de conduzir à verdade não apenas por pregações, mas por exortações indiretas, e que, além dos meios ordinários da ação religiosa, ele se compraz às vezes em despertar as almas que a tibieza, a indiferença ou a impiedade abandonam às suas obrigações, ou que viviam na desordem; estas encontram-se, por uma causa semelhante, subitamente transformadas e capazes dos esforços mais meritórios.

Tal foi outrora São Paulo; tal, mais recentemente, Santa Teresa; e que legião de outros! Longe de serem inúteis ou indignas de Deus, tais aparições têm grandes vantagens e testemunham a bondade inefável do Criador; mostram seguramente a força com a qual ele dispõe tudo para o homem, e são o meio de fazer conhecer que esta religião revelada é a obra de Deus, isto é, a única via pela qual ele poderá alcançar a salvação eterna, tornando-se um estímulo a mais, uma perfeição moral a que ele pode aspirar, ou porque, na vida mais alta da qual se aproxima, ele lhe dá um título a uma soma mais considerável de glória e felicidade na vida futura. — V. Formas e Diversidade.

Os anjos apareceram frequentemente revestidos de formas corpóreas, e essa forma humana é a maneira que parece adequada ao seu objetivo, que é entrar em relação com os homens, a sua maneira de se fazerem compreender. Por vezes, contudo, mostraram-se sob aparências simbólicas, coisas que assumem facilmente uma significação; assim, o Espírito Santo apareceu sob a forma de uma pomba, no batismo de Nosso Senhor, e sob a de línguas de fogo, no dia de Pentecostes. Nenhuma dessas diversidades deve nos espantar; Deus, criador da natureza humana e dos espíritos, não tem nada a temer: não tem qualquer dificuldade em realizar tais manifestações; e, quando se pensa na união santa da Trindade na encarnação, aproximação que nada indica nas aparições, não se vê nada nisso que repugne à razão.

Ver São Tomás, Sum. theol., IIIa, q. xxix, a. 6-8; Gonet, Clypeus theol. thomistarum, ed. Paris, 1669, t. III, disp. VI, a. 1, p. 270-276. Realidade. — Para a natureza íntima dos corpos, humanos ou outros, que assumem os espíritos que aparecem, é impossível chegar a uma certeza absoluta, e é até perigoso formular um juízo conjetural que abranja todos os casos. São Tomás, Sum. theol., IIIa, q. LXVII, a. 2, admite a realidade das aparições dos mortos e dos santos, mesmo após a sua ressurreição, como corpos humanos sob os quais esses espíritos puderam justamente afetar os sentidos. Cf. Gonet, Clypeus theol. thomistarum, ibid., e falando depois da ressurreição, reconhece a identidade com o corpo mortal.

A realidade da Virgem e do corpo da Virgem na sua própria identidade, no sentido rigoroso da palavra, e a realidade do corpo elevado, que valeria a prova sem a fé, assim resumia ele. Finalmente, depois, para mim, tendo a mãe de Deus aparecido ao dia, o profeta Elias não morreu, e isso é próprio ao corpo angélico. Quanto às aparições dos mortos, Sum. theol., I, q. lxxxix, a. 8, ad 4um; III, q. xcv, a. 1, ad 1um; q. clxxiv, a. 5, ad 4um, diversas explicações da aparição da alma de Samuel ao rei Saul; não parece impossível que ele tenha realmente aparecido, querendo Deus fazê-lo, seja do paraíso ou do inferno.

Alhures, indaga se as almas dos defuntos podem sair do inferno. Se não podem sair naturalmente, mesmo por um tempo, podem-no em virtude de uma disposição especial da providência; os santos, todas as vezes que o querem, os outros somente algumas vezes e com a permissão de Deus. Todavia, acrescenta, ibid., ad 3um, elas não estarão sempre realmente no lugar onde aparecem, pois essas aparições ocorrem frequentemente em sonho no estado de vigília, tanto pela operação dos bons ou maus anjos quanto dos homens vivos a outros vivos.

Bento XIV, De servorum Dei beatificatione et canonizatione, l. III, c. 3, ed. Veneza, 1767, t.

2º Théologie mystique, trad. franc., édit., Paris, 1879, t.

2º A realidade das aparições angélicas, P. J. PÉRON.

Autor original: J. Forget

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