1. APOSTÓLICOS, hereges do século III. Na segunda metade do século III, surgiu na Síria e na Ásia Menor a seita dos encratitas que, fundamentando-se em certos princípios emprestados tanto de Tatiano quanto de Marcião, praticava um ascetismo excessivo, cujo erro não era apenas exagerar a moral cristã, mas também desfigurar o ensino da Igreja. Ora, no decorrer do século III, esta subdividiu-se em vários grupos, tais como o dos apostólicos, dos apotácticos, dos hidroparastatas ou aquarianos, dos sacóforos, etc.; estes termos bastam para caracterizar as pretensões de uns ou os costumes de outros.
É assim que certos encratitas tomaram o nome de apostólicos, porque se reivindicavam dos apóstolos e pretendiam viver a vida apostólica. Consequentemente, proscriviam o matrimônio e a propriedade, excluindo de sua comunhão todo homem proprietário ou casado: este era o seu direito. Estritamente mantidos nos limites da prudência e da sabedoria, poderiam ter realizado, por meio disso, o ideal da perfeição evangélica. Mas, além de condenarem — contrariamente ao Evangelho e em nome de falsos princípios — o matrimônio e a propriedade como coisas más, cuidavam de subtrair-se à autoridade da Igreja para formar uma coterie à parte e praticar um culto arbitrário; mas, por isso mesmo, rompiam a unidade.
Seu ascetismo exagerado e desviado, em vez de basear-se na humildade, servia apenas para alimentar o orgulho. Ademais, ao impor como um dever, e sob pena de danação, o que não passava de um conselho de perfeição, os apostólicos caíam na intolerância e na tirania. Finalmente, permaneciam acessíveis a toda influência insalubre, de tal modo que, desde o surgimento do novacianismo, passaram a excomungar para sempre aquele que tivesse a infelicidade de cair uma única vez. Acabaram por se perder no maniqueísmo. Ignoram-se quem foram seus chefes e seus principais partidários; e não resta o menor vestígio de sua atividade literária, que deve ter sido nula.
São Epifânio observa quão distantes estavam dos sentimentos da Igreja. A Igreja, de fato, aprecia como convém a pobreza, a temperança, a continência e a virgindade; mas não vai ao ponto de condenar, como eles, o matrimônio e a propriedade. Do fato de os apostólicos estarem confinados na Frígia, na Cilícia e na Panfília, Epifânio conclui que não poderiam ser a verdadeira Igreja; pois esta tem como nota característica a catolicidade. Por fim, ele os encurralou, segundo se pretende, neste dilema: ou sois puros, e então o matrimônio, sendo um dom, como dizeis, é puro em si mesmo e o vosso princípio é falso; ou então, como dizeis, o matrimônio é impuro, e desde logo participais igualmente de sua impureza, o que vos condena a todos, indignos de todo desprezo.
De notar que, em matéria de Escritura, os apostólicos apegavam-se aos Atos apócrifos de André e de Tomé, razão pela qual foram tachados de hereges, excluídos da regula fidei e do governo eclesiástico (cf. Epifânio, XL, 1; Hær., L, I, t. xli, col. 881 sq.; S. Agostinho, De Hær., 40; P. L., t. XLII, col. 32). 2. APOSTÓLICOS, — hereges dos séculos XIII e XIV. — I. História. II. Doutrinas. I. História. A seita dos apostólicos ou falsos apóstolos começou em Parma, em 1260. Seu iniciador foi Gerardo Segarelli (que se encontra também grafado como Segalelli, Sagarelli, Cicarelli).
Era um homem de baixa extração, ignorante e razoavelmente louco, que os franciscanos não haviam querido acolher entre eles. Sonhou em reproduzir a vida dos apóstolos. Com este objetivo, adotou o traje que acreditava ter sido o dos apóstolos, porque os vira pintados dessa forma: manto branco enrolado ao redor dos ombros e hábito cinza. Deixou crescer a barba e os cabelos, e tomou as sandálias e a corda dos franciscanos. Este é, aliás, o único ponto de ligação dos apostólicos com a ordem de São Francisco, e houve erro ao confundi-los com os fraticelos.
Depois, tendo vendido uma pequena casa, jogou o dinheiro a libertinos e pôs-se a percorrer as ruas da cidade, pregando, num jargão meio latino, meio italiano, a penitência e a imitação da pobreza apostólica. Acolhido por risadas, acabou por ter alguns adeptos, cujo número cresceu rapidamente e que foram, em diversas direções, levar a sua palavra. Sua propaganda estendeu-se bastante, pois, em 1287, o concílio de Wurzburg, can. 3, proibiu-os de continuar o seu modo de vida e aos fiéis de recebê-los e alimentá-los. Cf. Labbe et Cossart, Sacrosancta concilia, Paris, 1671, t. XI, col. 1331.
Quanto a Segarelli, permaneceu em Parma, livre a princípio, depois na prisão e, logo após, no palácio do bispo, aos olhos de quem não passava de um bobo da corte divertido. Contudo, os progressos da seita foram tais que Honório IV, em 11 de março de 1286, e Nicolau IV, em 1290, julgaram útil condená-la. Cf. Prou, Les registres d'Honorius IV, Paris, 1886, t. I, col. 236; Raynaldi, Annal. eccles., ad an. 1290, n. 51. Em 1294, o bispo de Parma aprisionou Segarelli. Deve-se reconhecer, com Mansi, os apostólicos naqueles hereges tão energicamente estigmatizados, mas sem serem nomeados, por Bonifácio VIII, em uma bula de 1. de agosto de 1296? Cf. Raynaldi, Annal. eccles., ad an. 1296, n. 34, e, ibid., V. Additamentum de Mansi.
Parece mais provável que Bonifácio VIII vise os irmãos do livre espírito. Segarelli conseguiu evadir-se; recapturado, abjurou. Finalmente, convicto de reincidência, foi entregue ao braço secular e queimado em Parma, em 18 de julho de 1300. A direção dos falsos apóstolos foi assumida por Dulcino, especulativo bizarro e medíocre, mas homem intrépido, temperamento de condottiere e de revolta sem escrúpulos. Tendo caído três vezes nas mãos dos inquisidores, renegou três vezes a seita. Quase no dia seguinte à execução de Segarelli, em agosto de 1300, lançou uma espécie de manifesto; outro seguiu-se, em 1303.
Depois, passando da teoria à ação, reuniu seus partidários e retirou-se com eles para as montanhas das dioceses de Vercelli e Novara. Manteve-se ali até 1306, vivendo de contribuições voluntárias ou forçadas, escapando das tropas que vinham atacá-lo e cortando-as em pedaços. Em 1306, Clemente V promulgou contra ele uma cruzada. Cf. Bernard Gui, Practica inquisitionis heretice pravitatis, p. 340. O bispo de Vercelli foi posto à frente da expedição. Os discípulos de Dulcino foram esmagados; ele mesmo foi capturado e, em 1. de junho de 1307, seu corpo foi cortado em pedaços e entregue às chamas.
A seita não desapareceu de imediato. Encontramos apostólicos na Espanha, em 1315. João XXII incitou contra os falsos apóstolos o zelo do bispo de Cracóvia, em 1318. Cf. Raynaldi, Annal. eccles., ad an. 1318, n. 43-II. Vemo-los ainda mencionados pelo concílio de Narbona, de 1374, can. 5. Cf. Labbe et Cossart, Concilia, t. XI, col. 2500. — II. Doutrinas. O que caracterizou a seita, desde o princípio, foi a ideia do retorno à vida e, sobretudo, à pobreza apostólicas. Honório IV e Nicolau IV incriminam, nos apostólicos, o fato de constituírem uma ordem mendicante nova, contrariamente ao decreto do II concílio ecumênico de Lyon (1274), em Labbe et Cossart, Concilia, t. XI, col. 988, que os havia englobado, sem designá-los nominalmente, em uma condenação geral; ademais, os dois papas reprovam-nos por terem sustentado, pelo menos alguns deles, heresias que não são especificadas.
O ensino de Dulcino é-nos mais conhecido. O ponto de partida é a pobreza absoluta; devem ser também a obediência e a imitação dos apóstolos; a pobreza interior — assume-se o compromisso, mas no íntimo do coração, sem voto, de viver de esmolas. Sobre esta teoria, Dulcino enxerta doutrinas escatológicas, inspiradas nos devaneios da escola de Joaquim de Fiore. Existem quatro tempos na história da humanidade. O primeiro é o do Antigo Testamento; o segundo, o de Jesus Cristo e dos apóstolos; o terceiro abriu-se com o Papa Silvestre e Constantino e, pela Igreja, o amor declinou, corrompido pelas riquezas e pela ambição; a despeito de São Bento e, mais tarde, de São Domingos e São Francisco, a decadência continuou sua marcha.
O quarto período foi inaugurado por Segarelli e Dulcin; durará até o fim do mundo. A Igreja é a grande prostituta do Apocalipse, infiel à sua missão. Dulcin, que se proclama eleito de Deus para explicar os mistérios das Escrituras e desvendar o futuro, anuncia, em 1300, que o rei Frederico II da Sicília tornar-se-á imperador e será o instrumento da vingança divina; o Papa Bonifácio VIII, os cardeais, os bispos, os clérigos e os monges serão mortos; um papa virá, enviado de Deus, com a missão de estabelecer a vida apostólica e a comunidade das mulheres; este imperador e este papa permanecerão até a vinda do Anticristo.
A Igreja deveria terminar em três anos; como o evento o desmentiu, Dulcin anunciou para 1305 um triunfo que não ocorreu. Nesse ínterim, não se deve obedecer a ninguém, nem mesmo ao papa. Como tantos outros hereges daquele tempo, Dulcin prega a liberdade de espírito. Despreza a letra dos preceitos, o culto, as cerimônias, os ritos. Ptolomeu de Lucca, em sua Vita di Clemente V, em Baluze, Vitae paparum Avenionensium, Paris, 1693, t. i, p. 27, cf. p. 905, diz, sem outra explicação, que Dulcin havia pecado contra o sacramento da eucaristia.
O juramento é proibido, a menos que seja para prestar homenagem à sua fé; mas tem-se o direito de perjurar para evitar a morte, caso não se possa escapar da perseguição; é-se obrigado a professar abertamente a sua crença. O sistema da liberdade de espírito conduz facilmente à liberdade dos costumes. O que se deve pensar da moralidade dos apostólicos? Textos de Salimbene, Chronica, p. 117, sobre Segarelli, e de Bernard Gui, Practica inquisitionis haereticae pravitatis, p. 339, cf. Muratori, Rerum italicarum scriptores, t. ix, col. 539, sobre Dulcin e sua "irmã" Margarida, são no mínimo inquietantes. Bernard Gui, p. 260, imputa à seita dois artigos secretos que autorizavam, em sua doutrina, a prática de atos impudicos, e até mesmo gloriosos.
As bulas dos papas são silenciosas quanto a essa acusação (a menos que a carta de Bonifácio VIII, mencionada no processo, aplique-se igualmente a eles); ela está ausente também de um apostólico... DICT. DE THÉOL. CATHOL.
Autor original: G. Bareille
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