I. Do século VII ao XII. II. Século XII. III. Século XIII até São Tomás de Aquino.
Do século VII ao XII, a angelologia foi incapaz de se sistematizar. Ela fizera pouco progresso no tempo dos Padres, porque não se ligava estreitamente o bastante aos dogmas que atraíram sobretudo a sua atenção, os da Trindade e da Encarnação. Não fez mais do que isso do século VII ao XII; pois ligava-se ainda menos às matérias que se elucidaram durante esse período, especialmente à dos sacramentos. As opiniões do Pseudo-Dionísio sobre a hierarquia angélica e as suas relações com Deus e o mundo, já adotadas por São Gregório Magno e por São João Damasceno, foram aceites sem discussão. Sobre os outros pontos, oscilou-se entre as informações diversas fornecidas pelos Padres, sobretudo por Santo Agostinho.
I. DO SÉCULO VII AO XII. — Os autores falam dos anjos de forma muito sumária e reproduzindo textos anteriores. No século VII, Santo Isidoro de Sevilha consagra-lhes duas páginas onde se limita praticamente à explicação dos nomes que lhes são dados pela Escritura. Etymologiarum, l. VII, c. v, P. L., t. LXXXII, col. 272-274. No século IX, Rabanus Maurus transcreve estas páginas de Santo Isidoro, no seu tratado De universo, l. I, c. v, P. L., t. CXI, col. 28-32, acrescentando-lhes algumas glosas de caráter moral. Eis o que os cinco séculos que se seguiram à morte de São Gregório Magno nos deixaram de mais considerável sobre os espíritos celestes.
II. SÉCULO XII. — 1º Autores que tratam dos anjos. — A curiosidade teológica desperta no século XII. Honório de Autun consagra aos anjos e aos demônios quatro capítulos do seu Elucidarium, l. I, c. VI-X, P. L., t. CLXXIII, col. 1113-1116. Sem entrar em qualquer desenvolvimento, expõe num diálogo preciso as opiniões correntes na sua época sobre os anjos. Insiste na maneira como o demônio caiu. Esta questão e a do estado dos anjos antes da queda atraem também a atenção de Rupert, abade de Deutz († 1135). Estabelece os seus sentimentos sobre esta matéria através de considerações pessoais bastante longas, primeiramente no seu De victoria Verbi Dei, l. I, P. L., t. CLXIX, col. 1218-1244; em seguida, em De operibus S. Trinitatis, Genesis, l. I, c. x-xviii, P. L., t. CLXVII, col. 206-214; finalmente, no seu De glorificatione Trinitatis, l. III, c. iii-xxiii, P. L., t. CLXIX, p. 54-74º Cf. também o seu Comment. in Matth., l. XIII, P. L., t. CLXVI, col. 1627. Alguns anos mais tarde, Santo Anselmo estuda o mesmo assunto com a mesma preocupação e de uma forma mais aprofundada, num tratado distinto, De casu diaboli, P. L., t. CLVIII, col. 325-360. Abelardo ocupou-se pouco dos anjos, embora tenha reunido no seu Sic et non diversos textos que lhes dizem respeito, XLII, XLVI-L, P. L., t. CLXXVIII, col. 1404, 1412 sq. São Bernardo falou frequentemente desses espíritos bem-aventurados, mas de passagem. A partir de meados do século XII, as somas de teologia que são publicadas sob diversos títulos contêm todas um tratado dos anjos bastante desenvolvido. Este tratado é incompleto nas Sententiæ do cardeal Robert Pullus, l. II, c. iii-iv, P. L., t. CLXXXVI, col. 719-726; muito detalhado e sob uma forma absolutamente escolástica no livro das Sentenças de Roland Bandinelli, o futuro Alexandre III, Die Sentenzen Rolands, Friburgo em Brisgóvia, 1891, p. 85-103; igualmente detalhado, mas muito menos didático, quer no De sacramentis, part. V, P. L., t. CLXXVI, col. 245-264, e no comentário do De hierarchia cœlesti, P. L., t. CLXXV, col. 923 sq., de Hugo de São Vítor, quer na Summa sententiarum, tr. II, P. L., t. CLXXVI, col. 79-89, falsamente atribuída a este autor. (Ver o art. ABELARD, col. 53.) No segundo livro das Sentenças, dist. II-XI, P. L., t. CXCII, col. 655-655, Pedro Lombardo resume bastante bem as visões e as opiniões emitidas pelos seus antecessores.
2º Estado dos anjos no momento da sua prova. Maneira como chegaram à bem-aventurança. — A questão principal que preocupa os autores do século XII é aquela que Rupert e Santo Anselmo tinham tentado resolver nas obras de que falamos. Todos se questionam sobre em que estado estavam os anjos maus antes da sua queda e os anjos bons antes da sua glorificação, e também como os primeiros foram endurecidos no mal e os segundos confirmados na bem-aventurança. É, em outros termos, a questão do papel da graça na prova, na perseverança e na bem-aventurança dos anjos. Robert Pullus, op. cit., l. II, c. v, investiga se os anjos bons tiveram a bem-aventurança desde a sua criação. Segundo Pedro Lombardo, dist. IV, alguns autores afirmavam-no então; diziam, consequentemente, que não tinha havido intervalo entre a criação dos anjos e a sua posse do céu. Robert Pullus combate esta opinião; estima, muito justamente, que os anjos tiveram primeiro a fé e só depois a visão de Deus. Mas não se explica sobre a natureza dessa fé. Os outros teólogos que citamos não se questionam se os anjos eram bem-aventurados, mas se eram bons ou maus durante a sua prova. A solução que deveria prevalecer no século XIII, a saber, que possuíam a graça habitual, não é dada por ninguém no século XII. Pedro Lombardo, II Sent., dist. II, fala-nos de uma opinião segundo a qual os demônios teriam sido maus desde o tempo da sua criação. Rupert parece admitir esta opinião no seu comentário sobre São Mateus. Loc. cit. Isto era fazer de Deus o autor do mal, uma vez que é Ele quem criou os demônios. Rupert nota-o e muda de sentimento no De Trinitatis operibus, l. I, c. xii-xvi; este autor parece mesmo crer, no seu De victoria verbi, l. I, c. xxv, que os demônios receberam a bem-aventurança celeste não no momento da sua criação, mas antes da sua queda. Cf. De Trinit. op., P. L. ibid.
A questão foi resolvida de uma forma muito nítida e muito firme por Santo Anselmo, no tratado De casu diaboli, que escreveu para este fim. Segundo ele, o demônio e os anjos bons foram criados por Deus com uma natureza boa. Receberam igualmente de Deus o querer e o poder perseverar no bem, c. iii. Os anjos maus não receberam a perseverança, porque caíram no orgulho e quiseram elevar-se de uma forma contrária à vontade de Deus. Rupert, De victoria Verbi, l. I, c. viii-xiii, tinha atribuído a Satanás o ter procurado fazer-se adorar como Deus pelos outros anjos; mas Santo Anselmo crê que, com a sua inteligência, os demônios não teriam tido a loucura de querer ser deuses. Mereceram a danação, sem terem previsto essa consequência da sua conduta, mas sabiam que agiam mal e que se tornavam dignos de um castigo (que poderia ou não ser-lhes infligido). Cf. Roland Bandinelli, p. 95, e Honório de Autun, c. vii. Os anjos bons perseveraram e obtiveram a bem-aventurança por um dom de Deus; pois devem a Deus tudo o que houve de bem neles; devem-lhe ter podido perseverar e ter perseverado (Santo Anselmo distingue as duas graças que se chamarão mais tarde suficiente e eficaz, a primeira dada aos demônios, a segunda concedida aos anjos bons) e possuir a bem-aventurança. Estes ensinamentos tão precisos reencontram-se, pelo menos no que diz respeito à graça atual concedida aos anjos bons, nas somas que foram escritas a partir desta época por Robert Pullus, c. iv; Hugo de São Vítor, De sacramentis, c. xxiv, xxviii; Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. iii, e Pedro Lombardo, II Sent., dist. V. Roland Bandinelli, p. 89-93, afirma que os demônios foram criados bons; mas aplica-se a demonstrar que nunca possuíram a caridade que Abelardo lhes tinha atribuído. Dialogus inter philos. judeum et christianum, P. L., t. CLXXVII, col. 1659. Hugo de São Vítor, De sacramentis, c.
[...], diz que eles possuíam a perfeição que convinha ao tempo da prova, mas não aquela que deveria torná-los bem-aventurados. Parece fazer consistir essa perfeição do tempo de sua prova na liberdade e em outras vantagens puramente naturais, c. xii, xix, xxx. Seu modo de ver é, contudo, adotado pelo Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. iii, vi, e por Pedro Lombardo, II Sent., dist. IV.
Todos os teólogos do século XII estão de acordo que, de fato, os demônios estarão sempre endurecidos no mal e que os bons anjos estão para sempre confirmados no bem. Ver Honório, c. vii, x; S. Anselmo, op. cit., c. vi; Roberto Pullen, c. vi; Rolando Bandinelli, p. 95; Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. iv; Pedro Lombardo, dist. VII. Contudo, eles tendem a acreditar que uns e outros conservaram seu livre-arbítrio. Santo Anselmo, c. xvii, xxv, pensa que os demônios não podem mais querer o bem, por falta de graça, e que os bons anjos não podem mais pecar pelo temor da danação que atingiu os demônios; é também o sentimento de Roberto Pullen, c. v. Pedro Lombardo, dist. VII, estima mesmo que o livre-arbítrio dos bons anjos é mais perfeito desde o fim de sua prova. Ele crê também, dist. VII, que os bons anjos guardaram a liberdade de fazer o mal, e os maus a de fazer o bem, ainda que nunca a usem. Este autor, dist. V, inclina-se mesmo a pensar que os bons anjos merecem hoje, por sua conduta em relação aos homens, a beatitude que obtiveram outrora. Esta opinião enquadra-se muito bem com outro sentimento de Rupert, segundo o qual Jesus Cristo foi o fim da criação dos anjos que têm a missão de ajudar os homens resgatados por Ele. De glorif. Trinit., l. III, c. xxi. Pedro Lombardo, dist. XI, diz ainda que o amor dos anjos por Deus e seu conhecimento da verdade aumentarão com seus méritos até o dia do juízo. O Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. vi, admite também que o conhecimento dos anjos aumentará até o dia do Juízo; mas ele atribui este acréscimo ao beneplácito de Deus e não aos seus méritos.
3º Espiritualidade dos anjos. — Outra questão que preocupa menos os autores do século XII, mas sobre a qual a maioria se detém, é a da espiritualidade dos anjos. Rupert admite que eles têm um corpo aéreo, que foi mudado em um corpo celeste nos bons anjos, De victoria Verbi, l. I, c. xxvii, P. L., t. CLXIX, col. 1262, e em um corpo de ar espesso e úmido nos demônios, De Trinitatis oper., l. I, c. xi, P. L., t. CLXVII, col. 209. Honório de Autun declara os anjos incorpóreos, Elucidarium, mas acaba de dizer um pouco acima que eles são um fogo espiritual, seguindo esta palavra da Epístola aos Hebreus, I, 7, que facit angelos suos flammam ignis.
São Bernardo atribui aos bons anjos um corpo etéreo, De consideratione, l. V, c. iv, P. L., t. CLXXXII, col. 790, após ter dito na página anterior que são espíritos, Ibid., c. iii, col. 789. Ele reconhece, é verdade, que a existência de seu corpo etéreo é contestada por diversos doutores, mas, no que lhe diz respeito, ele se aplica a demonstrar esta existência, In cantica, serm. V, n. 2, P. L., t. CLXXXIII, col. 799, pelos ministérios que desempenham os espíritos celestes. Roberto Pullen, c. I, e Hugo de São Vítor, De sacramentis, c. vii, afirmam a espiritualidade dos anjos de uma maneira que parece absoluta. Rolando Bandinelli parece atribuir-lhes a incorporeidade quando lhes nega as três dimensões, p. 89; mas parece, por outro lado, conceder-lhes apenas a mesma espiritualidade que às almas; pois ele diz que os anjos são a forma de todas as almas futuras, como os quatro elementos são a matéria de todos os corpos, p. 87º Pedro Lombardo, dist. VIII, atribui expressamente um corpo aéreo aos bons e aos maus anjos. Ele pensa que é este corpo que permite aos demônios serem torturados pelas chamas do inferno. Ele se pergunta se, em suas aparições aos homens, os bons anjos transformam seu corpo para torná-lo visível, ou se assumem um corpo diferente deste corpo etéreo para se mostrarem aos nossos olhos, questão que já se havia colocado São Bernardo, In cantica, serm. V, n. 7, P. L., t. CLXXXIII, col. 801.
4º Outras questões. — Abelardo admitiu que os anjos estão fora de todo lugar? Epitome, c. xxv, P. L., t. CLXXVIII, col. 1738. Concluiu-se isso de seus raciocínios; mas ele não o diz, na realidade, senão de Deus. Seus discípulos, como Rolando Bandinelli, p. 88, e os outros teólogos da época ensinam que os anjos estão em um lugar. Rupert, De victoria Verbi, l. I, c. xxv; De Trinit. op., l. I, c. xi, diz que eles foram criados fora do céu dos bem-aventurados, onde foram depois colocados. Foram criados no céu empíreo, segundo Honório, c. vii; Roberto Pullen, c. II; Rolando Bandinelli, p. 88; Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. I; Pedro Lombardo, dist. II. — Rupert, De glorif. Trinit., l. II, cc. I; De Trinit. op., l. I, cc. x, e Honório de Autun, c. vi, dizem que os anjos foram criados no primeiro dia quando Deus disse: Fiat lux. Roberto Pullen, c. II, sustenta, ao contrário, que eles foram criados com a matéria, seguindo este texto: In principio creavit Deus celum et terram, onde celum designaria os anjos; o Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. I, compartilha este parecer; ele acrescenta que os bons anjos foram confirmados em graça no primeiro dia, quando Deus disse: Fiat lux. Pedro Lombardo, dist. II, relata esta opinião; mas seu sentimento, o de Rolando Bandinelli, op. cit., p. 86, 87; de Hugo de São Vítor, De sacramentis, c. IV; do Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. I, é que os anjos foram criados ao mesmo tempo que os corpos, segundo esta palavra do Eclesiástico, XVI, 1: Creavit omnia simul.
As sumas teológicas do século XII afirmam o caráter pessoal dos anjos, sua ciência, sua liberdade, mas sem desenvolver estas afirmações. Insistem mais na desigualdade que reina no mundo angélico. A doutrina do Pseudo-Dionísio sobre os nove coros dos anjos é aceita por Roberto Pullen, c. III; Rolando Bandinelli, p. 97; Hugo, De sacramentis, c. X; Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. V; Pedro Lombardo, dist. IX. Contudo, Rolando Bandinelli, p. 98, e a Summa Sententiarum, c. V, atribuída a Hugo de São Vítor, enumeram estes nove coros em uma ordem um pouco diferente da do Areopagita. Rupert, De glorif. Trinit., l. III, c. xvii, Hugo de São Vítor, De sacramentis, c. XXX; Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. V, pensam que a divisão hierárquica dos anjos precedeu a queda do demônio e a entrada dos bons anjos na beatitude. Rolando Bandinelli, p. 101, e Pedro Lombardo, dist. IX, estimam, ao contrário, que a seguiu.
Ninguém duvida, no século XII, da assistência que recebemos dos anjos da guarda. Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. VI, e Pedro Lombardo, dist. XI, se perguntam se cada homem tem um anjo da guarda particular. Eles respondem que é mais provável que um mesmo anjo se ocupe de vários homens. Pensam, com efeito, que haverá no céu tantos homens salvos quantos anjos bem-aventurados. Concluem daí que a milícia celeste não é numerosa o bastante para fornecer a cada homem um anjo particular. São Bernardo não examina este ponto, mas expõe, em páginas célebres, qual é o ministério dos bons anjos em relação aos homens e quais são os deveres dos homens em relação a eles, In Psalm. Qui habitat, serm. XI-XIV, P. L., t. CLXXXIII, col. 225-238. — Rolando Bandinelli, p. 100; Hugo de São Vítor, De sacramentis, c. XXXIII; Pedro Lombardo, dist. X, conhecem a teoria dionisiana que reserva as missões, no mundo material, apenas aos anjos dos coros inferiores, e a teoria oposta que as atribui igualmente aos anjos das hierarquias superiores. Hugo, De sacramentis, c. XXX, e Pseudo-Hugo, Sum. sent., c. VI; Pedro Lombardo, dist.
X, expõem essas duas opiniões sem se pronunciarem entre elas. Roland Bandinelli, p. 100, sustenta que as missões são dadas aos anjos de todos os coros, embora os anjos superiores as recebam mais raramente.
III. SÉCULO XIII ATÉ SÃO TOMÁS DE AQUINO. — A influência de Aristóteles e dos filósofos árabes faz-se sentir; mas combate-se as suas teorias sobre os espíritos superiores em vez de subscrevê-las. Ver mais adiante ANGELOLOGIA entre os averroístas latinos, col. 1260. Guilherme de Auvergne recusa-se a admitir a sua doutrina que faz dos anjos os motores ou mesmo as almas do céu e dos astros. De universo, part. II, c. LXXXV, XCVI, XCVII, Opera, Paris, 1674, p. 940, 950, 951. Alberto Magno, IV Sent., l. II, dist. II, III, sustenta que os anjos diferem das inteligências separadas das quais tratam os filósofos. Ele rejeita as consequências fatalistas que os árabes tiravam de seu sistema relativamente à influência do céu sobre a terra. Ele mostra que os anjos não poderiam conhecer os eventos daqui de baixo pela ação que exercem sobre os céus.
O tratado dos anjos de Guilherme de Auvergne é considerável. Ele forma a segunda e a terceira parte de sua obra De universo; mas a exposição é mais oratória do que precisa e não é sempre fácil apreender suas conclusões. A partir de Alexandre de Hales, o tratado dos anjos assume, pelo contrário, uma forma didática que se encontra nos comentários do segundo livro das Sentenças de São Boaventura e de Alberto Magno. Essas obras inspiram-se mais na psicologia de Aristóteles do que nas teorias desse filósofo e dos filósofos árabes sobre os espíritos superiores. As visões desses teólogos ainda não possuem todo o caráter sistemático que encontraremos em São Tomás de Aquino e em Duns Scot; mas a doutrina de São Tomás já se preparava nas opiniões de seu mestre Alberto, o Grande, assim como as de Duns Scot se elaboram nos escritos dos doutores franciscanos Alexandre de Hales e São Boaventura.
A questão da natureza espiritual dos anjos coloca-se sempre; mas ela fez progressos. Os autores do século XII definem os anjos como espíritos que não são destinados a serem unidos a corpos e que não têm necessidade de corpos. Esta noção já se encontra indicada em Guilherme de Auvergne, mas este autor ainda não afirma com certeza que o anjo não tem corpo etéreo (Loc. cit., c. I, II, XXV, XXVIII). Alexandre de Hales, São Boaventura e Alberto Magno não duvidam mais deste ponto; apenas se perguntam se os anjos são compostos de matéria e forma, e se a matéria da qual seriam compostos é uma matéria comum aos espíritos e aos corpos. Alexandre de Hales, Summa, part. II, q. XX, m. II, sustenta-o contra os filósofos, e São Boaventura, IV Sent., l. II, dist. III, part. I, a. 1, inclina-se para o mesmo sentimento. Ver na edição de São Boaventura, Quaracchi, 1885, t. II, p. 92 sq., uma dissertação sobre esta teoria do doutor seráfico. Ver também mais acima o artigo ALMA, col. 1028. — Alberto Magno, IV Sent., l. II, dist. II, a. 2, diz, ao contrário, que não há matéria comum aos anjos e aos corpos, que o anjo não é composto de matéria, mas somente de possível e de necessário, de individualidade (quod est), e de natureza (quo est). Nenhum desses teólogos atribui aos anjos a consciência sensível; mas os doutores franciscanos concedem à inteligência angélica o poder de perceber diretamente os eventos particulares, à medida que eles chegam. Alexandre de Hales, ibid., q. XXII; S. Boaventura, IV Sent., l. I, dist. III, part. II, a. 2, q. 1º O doutor dominicano sustenta que o anjo conhece os eventos daqui de baixo por ideias recebidas desde sua criação; somente, ele acrescenta que essas ideias não são nem universais nem particulares, que elas se prestam a tornar-se uma ou outra, segundo a necessidade. IV Sent., l. II, dist. III, a. 15, 16º Não é ainda a firme doutrina que veremos professar pelo doutor angélico.
Os ensinamentos de Santo Anselmo de que o demônio não pôde ser criado mau prevaleceram. O sentimento contrário foi até condenado por Guilherme de Paris. D’Argentré, Collectio judiciorum, t. I, p. 186, Paris, 1728. Todo mundo admite, portanto, que se passou um intervalo entre a criação dos anjos e o ato de livre-arbítrio que fixou sua sorte. Alexandre de Hales, ibid., q. XXIX; Alberto Magno, ibid., dist. III, a. 14; S. Boaventura, IV Sent., l. II, dist. III, a. 7º Os anjos que iam ser submetidos à prova receberam o estado de graça no momento mesmo de sua criação? Alberto Magno o crê, ibid., dist. III, a. 12º Mas São Boaventura inclina-se a pensar que nem os bons, nem os maus anjos receberam o estado de graça antes de sua prova. A seu ver, os demônios nunca foram elevados ao estado sobrenatural; os bons anjos foram elevados a ele ao mesmo tempo em que foram glorificados. IV Sent., l. II, dist. IV, a. 1, q. 1º Tal tinha sido também a opinião de Alexandre de Hales. Sum. theol., l. II, q. XIX, m. I, a. 5º É preciso notar que esses autores não recusam aos anjos a graça atual em sua prova, mas somente a graça habitual. Cf. S. Boaventura, Opera, Quaracchi, 1885, t. I, p. 134, Scholion.
Mignon, Les origines de la scolastique et Hugues de Saint-Victor, Paris, 1895, c. IX, Les anges (doutrina de Santo Anselmo, de Rupert, de Honorius d’Autun e sobretudo de Hugo de São Vítor), t. I, p. 339-373; Dom Cellier, Histoire des auteurs sacrés, 2ª edição, Paris, 1858 sq. (doutrina de Ambrósio Autpert, t. XII, p. 122; de Rathére de Vérone, t. XII, p. 827; de Hildebert du Mans, t. XIV, p. 219; de Honorius d’Autun, t. XIV, p. 800; de Robert Pullus, t. XIV, p. 893 sq.; de São Bernardo, t. XIV, p. 465, 486; de Pedro Lombardo, t. XIV, p. 355 sq.); Petau, De angelis, l. I, c. XIII, n. 8-46 (doutrina do século XII sobre a localização dos anjos) e passim em Dogmata theologica, Paris, 1865, t. III, p. 679 sq.
Autor original: G. BAREILLE
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