Há lugar para distinguir diversos sentidos no uso desta expressão. É evidente que a apreciação do amor-próprio pelo moralista será diferente segundo o sentido no qual ele se detiver.
1° Num sentido que poderíamos chamar de literal, e que é o ordinário em nossos antigos autores, amor-propre significa amor de si. "Nenhuma distinção entre estes dois termos existia no século XVIII", diz Littré, Dictionnaire de la langue française, Paris, 1876, t. I, p. 134. O amor de si pode ser bom ou mau, segundo se mantenha ou não na ordem querida pela razão e pela caridade. Ver o artigo CARIDADE.
2° Num sentido mais especial e que parece ter prevalecido hoje em nossa língua, o amor-próprio é "a opinião demasiado vantajosa que se tem de si mesmo". Larive et Fleury, Dictionnaire des mots et des choses, Paris, 1888, t. I, p. 55º Porque se tem de si mesmo esta opinião demasiado vantajosa, compraz-se com exagero na consideração de seus méritos e de suas vantagens pessoais, mostra-se desdenhoso, desafiante e suscetível em relação aos outros. O amor-próprio, assim entendido, é uma das formas do orgulho; é como o primeiro grau, queremos dizer, o grau inferior e menos grave. Ver art. ORGULHO. Este amor-próprio é pecado, uma vez que implica um exagero, partindo de uma desordem moral; mas esta desordem, pela própria definição, não é em matéria grave e, por conseguinte, o pecado não é senão venial de sua natureza. Ver Génicot, Theologia moralis institutiones, II, 177, Louvain, 1898, p. 129.
3° A mesma expressão é ainda empregada no sentido do respeito de si mesmo que inspira uma legítima altivez e uma sábia emulação. O amor-próprio, se o compreendemos assim, não tem nada de censurável; é antes uma virtude digna de todos os elogios. Assim, moralistas identificando, ao que parece, o amor-próprio com o amor da glória e a ambição, dizem que é um sentimento que tem um bom como um mau lado, e que pode assegurar por vezes vantagens preciosas, como acarreta, outras vezes, desastrosas consequências. Poujol, Dictionnaire des facultés, Migne, Paris, 1849, p. 222-223. Ver AMBIÇÃO, col. 940.
S. Thomas, Sum. theol., IIa IIae, q. CLXII, De superbia; Bossuet, Traité de la concupiscence, Œuvres complètes, Bar-le-Duc, 1879, t. XI, p. 653-684; Bourdaloue, Pensées sur divers sujets, De l’humilité et de l’orgueil, Œuvres complètes, Bar-le-Duc, 1874, t. IV, p. 405-440; Poujol, Dictionnaire des facultés intellectuelles et affectives de l’âme, em Migne, Encyclopédie théologique, 1ª série, t. XXXIX, Paris, 1849.
Autor original: A. BEUGNET
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