AMÉRICA LATINA

AMÉRICA LATINA

I. História geral. II. Concílio plenário. III. Privilégios. IV. Educação do clero e ciências sagradas. V. São Domingos e Haiti. VI. Cuba e ilhas vizinhas. VII. México. VIII. Guatemala e repúblicas vizinhas. IX. Colômbia. X. Equador. XI. Bolívia. XII. Peru. XIII. Chile. XIV. República Argentina e Patagônia. XV. Uruguai. XVI. Paraguai. XVII. Brasil. XVIII. Venezuela. XIX. Quadro estatístico.

A América é dividida geograficamente em América do Norte, América Central e América do Sul. O termo América Latina é uma denominação eclesiástica. Aplica-se à parte do Novo Mundo que compreende o México, a América Central com as Antilhas e toda a América do Sul. A América Latina forma na Igreja Católica um grupo distinto, cuja homogeneidade foi fortificada e consagrada nestes últimos anos, seja pela realização e pelos decretos doutrinários e disciplinares de um grande concílio plenário, seja pelos privilégios concedidos em comum a todas as dioceses reunidas sob esta denominação.

Este grupo é, aliás, caracterizado por traços particulares bem distintos. Foi colonizado pelos espanhóis e pelos portugueses; permaneceu até o início deste século sob a dependência da Espanha e de Portugal; ainda fala a língua desses países. É também, como eles, quase totalmente católico. Os protestantes e os judeus encontram-se ali apenas em número muito reduzido. Encontram-se, sem dúvida, ainda alguns indígenas, descendentes dos primeiros habitantes, que conservaram a língua e a religião de seus ancestrais, mas vivem em estado selvagem, fora da população civilizada, e são, eles também, relativamente poucos.

Para colocar um pouco de ordem neste artigo, o mais simples é começar pelas indicações comuns a toda a América Latina — sua história, seu concílio plenário, seus privilégios, as regras prescritas para a educação de seu clero — para percorrer, em seguida, cada país individualmente. Deter-nos-emos primeiro nas Antilhas, primeiro país descoberto por Cristóvão Colombo, depois no México. De lá, passaremos pela América Central, tomando-a pela esquerda, e percorreremos a Colômbia, o Equador, depois o Peru e a Bolívia. Chegaremos pelo Chile ao Estreito de Magalhães e voltaremos pela costa leste; encontraremos em nosso caminho a República Argentina, o Uruguai e o Paraguai e, enfim, o Brasil que, pela Guiana, nos levará à Venezuela. Teremos, assim, visto toda a América Latina, uma vez que teremos retornado aos confins da Colômbia.

I. HISTÓRIA GERAL. — Dois grandes povos, dois idiomas compartilharam o Novo Mundo, segundo o arbítrio de Alexandre VI. Este Papa emitiu três bulas para resolver o litígio que surgira entre João II, rei de Portugal, e Fernando V, rei de Castela, a respeito da posse dessas vastas regiões; a mais célebre, aquela que solucionou toda a dificuldade, é a bula Inter cetera, de 4 de maio de 1493. Em virtude desta bula, traçou sobre um mapa, que ainda existe no museu Bórgia da Propaganda, uma linha ideal, a oeste dos Açores e de Cabo Verde. O rei de Castela deveria possuir as terras, ilhas ou continentes a descobrir a oeste desta linha, e o rei de Portugal, aquelas que descobrisse a oriente desta mesma linha; segundo uma concessão anterior, Eugênio IV concedia a este último soberano os países a descobrir na África e na Etiópia. A linha de demarcação traçada pelo pontífice situa-se no 55º grau de longitude oeste de Paris e corta uma parte da América do Sul. É por este motivo que o Brasil foi português, enquanto as outras partes deste mesmo continente, que se encontravam a oeste desta divisão, tornaram-se espanholas.

O objetivo da conquista destas novas terras estava claramente indicado na bula pontifícia: Unde omnibus diligenter et presertim fidei catholice exaltatione et dilatatione (prout decet catholicos reges et principes) consideratis, more primogenitorum vestrorum clare memorie regum, terras firmas et insulas predictas illarumque incolas et habitatores vobis, divina favente clementia et ad fidem catholicam reducere proposuistis. A conversão dos infiéis era o único objetivo que o piedoso rei Fernando tinha em vista; é aquele que o Papa persegue. Se ele concede aos dois reis cristãos terras e novos súditos, é para que os levem a Jesus Cristo. Plantar a cruz foi o primeiro ato de Cristóvão Colombo quando tocou, em 11 de outubro de 1492, uma das Lucaias; firmar a cruz foi a obra de Alexandre VI e de seus sucessores: é o que prova, com evidência, a criação das diversas sedes americanas.

Se os colonos europeus agiram com excessiva frequência como carrascos perante os indígenas da América, os missionários católicos aplicaram-se a convertê-los com toda a caridade e zelo que a religião cristã inspira. A história da evangelização da América Latina é fácil de relatar. Júlio II enviava, em 1512, dois bispos às ilhas de São Domingos e Porto Rico. Sete anos depois, em 1519, Leão X enviava Julián Garcés ao Iucatã, onde fundou a cidade de Angélopolis, perto de Tlaxcala. Instituiu Alessandro Giraldini, bispo de São Domingos, com os poderes de legatus a latere, e encarregou-o de organizar a religião cristã nestas novas regiões. Adriano VI, em 1522, dava à ilha de Cuba seu primeiro bispo. Em 1527, Clemente VII concedia ao México seu primeiro prelado, na pessoa de Juan de Zumárraga, da Ordem de São Francisco; e, três anos depois, nomeava um bispo para a Venezuela. Sob Paulo III, são criadas as sedes da Guatemala, de Lima e de Quito. Estamos em meados do século XVI, cinquenta anos após a descoberta da América: o Brasil e o Chile têm bispos e todo o novo continente possui uma hierarquia eclesiástica. Bastará aos sucessores deste Papa desenvolvê-la e aumentá-la, segundo as necessidades dos fiéis. Foi o que não cessaram de fazer até o fim do século XVIII, encorajando os esforços e o zelo do clero americano. Nessa época, a religião e a civilização eram florescentes em toda a América Latina. «Enquanto a Revolução percorria a Europa, derrubando altares, quebrando tronos, toda a Igreja da América, ignorando esses distúrbios, servia a Deus e desfrutava do benefício da paz. Não era mais aquele mundo desconhecido pelos antigos e que sacrifícios humanos maculavam. De um mar ao outro, do norte ao sul, erguiam-se cidades e fortalezas que, pelo número de habitantes, pela grandeza dos palácios, rivalizavam com as cidades da Espanha, da França e da Itália. As basílicas resplandeciam com o fulgor do ouro e da prata e ouviam retumbar em suas muralhas o nome suave do verdadeiro Deus. Insignes santuários dedicados à Rainha do Céu testemunhavam por toda parte a piedade dos habitantes. Colégios numerosos, academias, escolas, hospitais, mosteiros atestavam a liberalidade dos pastores e do rebanho. As estradas abertas a grandes custos entre montanhas altas e difíceis provavam a vigilância dos chefes dos Estados, dos quais muitos foram bispos. Mas uma obra mais bela havia se cumprido: Cristo tinha vencido, Cristo reinava, Cristo governava. A heresia tinha sido expulsa, a idolatria quase completamente extinta: era difícil encontrar, entre tantos milhares de habitantes, alguns que não se chamassem cristãos e católicos.» Estas palavras de Dom Montes de Oca, secretário do concílio plenário da América Latina, realizado em Roma em 1899, em um discurso que pronunciou perante aquele concílio, descrevem bem o estado desta cristandade florescente que compreendia mais da metade do Novo Mundo.

Laudatio funebris Episcoporum Americæ latinæ, Rome in acta conciliare IV nonas Julias 1899 habita, Roma, 1899, e in Acta et decreta concilii, Roma, 1900.

Contudo, no início do século XIX, a Revolução que causara tanto mal à Europa atravessou os mares e rompeu os laços dos diversos países da América Latina com sua pátria-mãe. Constituir-se em república foi fácil; mas, logo, sob essa forma de governo, os poderes públicos buscaram oprimir a religião católica; a Igreja teve seus mártires, cuja lista gloriosa foi também recordada por Mons. Montes de Oca. Ibid., p. LXXIX. Indicaremos mais adiante as provações pelas quais ela passou em cada Estado específico.

II. CONCÍLIO PLENÁRIO. — Leão XIII acreditou que um concílio plenário daria um novo impulso a esta Igreja provada. Já haviam ocorrido antigamente concílios provinciais na América do Sul e no México; mas nunca houvera um concílio plenário para toda a América Latina. Os bispos que deveriam assistir a ele preferiram reunir-se em Roma a qualquer outra cidade de seu vasto país. O concílio foi anunciado pelo soberano pontífice em 25 de dezembro de 1898 e a convocação foi feita em 7 de janeiro de 1899. Todos os arcebispos foram pessoalmente convidados, assim como os bispos das repúblicas que possuem apenas uma sede episcopal. Os outros bispos não estavam obrigados a comparecer todos ao concílio. Em cada província, deveriam eleger um ou mais dentre eles para representá-los. As sessões foram realizadas em Roma, no Seminário Latino-Americano, de 28 de maio a 9 de julho de 1899. Doze arcebispos e quarenta e um bispos assistiram a ele. Os arcebispos presentes foram sucessivamente delegados pelo soberano pontífice para presidir, em regime de rodízio, as congregações gerais e dirigir as deliberações do concílio. Diversos cardeais foram delegados para presidir as sessões solenes.

A partir da 17ª congregação (26 de junho), o cardeal Vives, que acabara de receber a púrpura após ter sido consultor do concílio, assistiu às congregações como presidente de honra. Os secretários do concílio foram Mons. Montes de Oca, bispo de São Luís de Potosí, no México, e Mons. de Rego Maia, bispo de Petrópolis, no Brasil. Leão XIII aprovou os atos do concílio em 25 de janeiro de 1900. No dia do encerramento dessas solenes assembleias, os Padres reunidos escreveram ao clero e aos fiéis de suas dioceses que, desde a conversão da América Latina, não ocorrera para este país nenhum evento mais importante: Nihil in tota America latina post ejus conversionem majoris momenti unquam factum est quod solemni celebrationi concilii plenarii antecedat splendore, magnificentia et gratiarum ubertate. Acta, p. XCVIII. Os decretos do concílio abrangem, de fato, todo o dogma e toda a disciplina, em dezesseis títulos subdivididos, eles próprios, em capítulos e em 998 artigos: 1º De fide et ecclesia catholica; 2º De fidei impedimentis et periculis; 3º De personis ecclesiasticis; 4º De cultu divino; 5º De sacramentis; 6º De sacramentalibus; 7º De institutione clericorum; 8º De vita et honestate clericorum; 9º De catholica institutione juventutis; 10º De doctrina christiana; 11º De zelo animarum et caritate christiana; 12º De modo conferendi ecclesiastica beneficia; 13º De jure Ecclesiæ acquirendi et possidendi bona temporalia; 14º De rebus sacris; 15º De judiciis ecclesiasticis; 16º De promulgatione et executione decretorum concilii. Estes decretos, inspirados no Concílio do Vaticano, no Concílio de Trento, nos concílios realizados anteriormente na América (Acta, p. LXXX), nos decretos dos papas e das congregações romanas, formam um volume compacto, ao qual se seguiu um segundo volume de apêndices contendo, em 435 artigos, os principais documentos próprios para esclarecer ou completar os atos do concílio: Acta et decreta concilii plenarii Americæ in Urbe celebrati ano Domini MDCCCXCIX e Appendix ad concilium plenarium, 2 vol. in-8 de CXVI, 462 e 779 p. Os decretos devem ter força de lei em toda a América Latina, um ano após sua promulgação. Acta, n. 997. Eles ab-rogam todas as leis e costumes contrários. Acta, n. 998. Há, portanto, motivos para esperar que eles conduzam a uma verdadeira renovação religiosa nessas vastas regiões.

Para assegurar a perfeita compreensão e a completa execução, o concílio reservou a interpretação aos bispos, para as questões menores, e à Sagrada Congregação dos Assuntos Eclesiásticos, para os pontos importantes. Acta, n. 995. Também proibiu a tradução em língua vulgar de qualquer título, e com maior razão da totalidade dos atos, sem a permissão da Santa Sé. Acta, n. 996. Os dois secretários do concílio permaneceram em Roma, após sua realização, para redigir a tradução oficial.

III. PRIVILÉGIOS. — Os bispos do concílio conformaram-se às leis gerais da Igreja em seus decretos. Mas a Santa Sé dignou-se a conceder a toda a América Latina privilégios que constituem a parte mais importante de sua disciplina particular e merecem, a este título, ser indicados aqui. Eles estão consignados em quatro documentos principais: a carta apostólica Trans oceanum, de 18 de abril de 1897; um decreto da S. C. dos Assuntos Eclesiásticos de 6 de julho de 1899, regulando a obrigação do jejum e da abstinência para a América Latina; um decreto de 1º de janeiro de 1900, concedendo diversas graças solicitadas ao Santo Padre pelos bispos do concílio plenário; enfim, um decreto semelhante da S. C. do Concílio de 4 de maio de 1900.

1º Carta apostólica de 18 de abril de 1897. — Por sua carta Trans oceanum, de 18 de abril de 1897, Leão XIII renova por trinta anos e condensa em quatorze artigos os diversos privilégios concedidos por seus predecessores à América Latina, privilégios dos quais um certo número havia sido ab-rogado, outros reconhecidos como insuficientes.

Eis os principais destes artigos: 1º Um bispo poderá, se necessário, ser sagrado por qualquer bispo em comunhão com a Sé Apostólica, assistido por dois ou três sacerdotes, na falta de bispos assistentes; — 2º Poder-se-á contentar em celebrar os concílios provinciais apenas a cada doze anos; — 3º Os bispos poderão preparar o santo crisma e os santos óleos fora da Quinta-Feira Santa, se houver necessidade; — 4º Em caso de necessidade, poderá usar-se dos santos óleos com quatro anos de antiguidade, desde que não estejam corrompidos; — 5º Permissão de celebrar três missas no dia 2 de novembro, com a obrigação de aceitar honorário apenas por uma missa e aplicar as outras duas a todos os defuntos; — 6º O tempo da Quaresma começará no domingo da Septuagésima e encerrar-se-á na oitava de Corpus Christi; — 7º Se, para ganhar as indulgências ou jubileus, a condição da confissão e da comunhão for imposta com o jejum, os fiéis poderão contentar-se com o jejum na falta de confessor, desde que tenham o firme propósito de se confessar o mais cedo possível ou ao menos dentro do mês; — 8º Os indígenas e negros podem contrair matrimônio no terceiro e no quarto grau de afinidade e de consanguinidade; — 9º Eles podem receber a bênção nupcial durante todo o ano, mas sem pompa durante o tempo em que as núpcias são proibidas; — 10º Os indígenas e os negros estarão obrigados a jejuar apenas nas sextas-feiras da Quaresma, no Sábado Santo e na véspera de Natal. Appendix ad concilium plenarium, docum. XCVI, p. 608.

2º Decreto da S. C. dos Assuntos Extraordinários de 6 de julho de 1899. — A pedido dos bispos presentes ao concílio plenário, e independentemente dos outros indultos próprios a cada diocese, o soberano pontífice concede por dez anos aos bispos da América Latina, com direito de delegá-lo a qualquer sacerdote, o poder de dispensar os fiéis e os religiosos ou religiosas da abstinência e do jejum sob as seguintes ressalvas: 1º Lex jejunii sine abstinentia a carnibus servetur feriis VI adventus et feriis IV quadragesime; 2º Lex jejunii et abstinentiae a carnibus servetur feria IV cinerum, feriis VI quadragesime et feria V majoris hebdomade. Sed diebus jejunii semper licebit omnibus, etiam regularibus, quamvis specialem dispensationem non petierint, uti ovis ac lacticiniis; 3º Abstinentia a carnibus sine jejunio servetur in quattuor pervigiliis festorum nativitatis D. N. J. C., Pentecostes, Assumptionis in caelum B. M. V. et sanctorum apostolorum Petri et Pauli. Appendix ad concilium plenarium, docum.

3º Decreto de 1º de janeiro de 1900. — Concede igualmente treze pedidos feitos pelos bispos da América Latina reunidos em concílio, uns por dez anos, outros a perpetuidade. Eis os principais. A. Concessões por dez anos. — 1º A profissão de fé que deve ser feita perante o bispo poderá, em caso de necessidade grave, ser feita diante de seu delegado. — 2º Quando a escassez de sacerdotes a isso obrigar, o bispo poderá limitar-se a convocar para o sínodo apenas uma parte dos párocos. — 6º Os eclesiásticos suspensos por mais de três anos de todo ofício e de todo benefício serão, ao fim de três anos, privados pelo próprio fato do direito de usar a batina. — 7º A Santa Sé aprova que se prive os párocos de sua paróquia pelas seguintes causas determinadas pelo concílio plenário, artigo 820: reputação muito má e culpável no que se refere aos costumes; — admissão temerária e repetida ao matrimônio sem dispensa dos impedimentos públicos; — omissão dos catecismos durante a maior parte do ano e negligência obstinada na administração dos sacramentos in articulo mortis, devido à distância; — injustiça obstinada na exigência de honorários; — negligência obstinada do ministério junto aos indígenas e negros da paróquia, durante a maior parte do ano. — 8º Poderes muito amplos são concedidos aos bispos para a alocação e a alienação dos bens eclesiásticos. — B. Concessões a perpetuidade. — 5º Os esponsais contraídos sem documento público serão inválidos; — 9º Em cada província eclesiástica, poderá ser erigida, seja no seminário da cidade metropolitana, seja em outro seminário escolhido pelos bispos, faculdades de filosofia escolástica, de teologia e de direito canônico, conferindo-se nelas os graus acadêmicos. Nos países que possuem várias metrópoles, essa ereção não poderá ser feita senão em um único seminário escolhido pelos bispos. — 13º A constituição Romanos pontifices de 8 dos idos de maio de 1881, regulando as dificuldades pendentes entre os bispos e os religiosos missionários da Inglaterra e da Escócia, é estendida a toda a América Latina.

4º Decreto de 4 de maio de 1900. — Os Padres do concílio plenário americano haviam pedido, além disso (cf. Acta, n. 822), poder, devido à dificuldade de realizar os concursos canônicos, conferir as curas vagas a título amovível, e conceder sem concurso todos os canonicatos. Em 4 de maio de 1900, a S. C. do Concílio pediu aos Ordinários que designassem em cada diocese as paróquias principais que seriam providas de pastores conforme as regras do direito; consequentemente, o concurso subsistiria para estas. Ela concede a favor pedido para todas as outras paróquias (mesmo as principais que acabamos de excetuar, se as circunstâncias o exigirem), contanto que os direitos da Santa Sé estejam salvaguardados. Adverte, ao mesmo tempo, aos bispos que ajam com moderação e por uma causa justa quando trocarem os pastores das paróquias, e encarrega a consciência dos bispos do cumprimento dessa condição. A faculdade é concedida por dez anos. A congregação concedeu, da mesma forma, por dez anos, a faculdade pedida para os canonicatos. Essas concessões conferem à América Latina uma situação análoga à da França, onde temos párocos inamovíveis e párocos amovíveis.

IV. EDUCAÇÃO DO CLERO E CIÊNCIAS SAGRADAS. — Já se pôde notar, pelos privilégios concedidos à América Latina, que o número de sacerdotes ali é muito restrito. Esta observação impressionará ainda mais ao percorrer a estatística que termina este artigo. Ver-se-á que, em certas dioceses, não há um sacerdote para cada 10.000 católicos e que, em um número bastante grande de outras, não há um para 5.000 fiéis, penúria tanto mais sensível quanto se trata ordinariamente de populações dispersas em um território vastíssimo e em relação às quais o ministério sagrado é, consequentemente, mais difícil. Nesta situação precária, sente-se inclinado a ser menos exigente quanto à formação dos clérigos. Se não se tomasse cuidado, o valor dos sacerdotes tenderia, portanto, a decair na mesma proporção que seu número. Por isso, é evidente que o recrutamento e a formação do clero devem ser objeto particular da vigilância do episcopado. Para elevar a instrução religiosa e a moralidade das populações, é necessário dar-lhes sacerdotes e, sobretudo, dar-lhes sacerdotes excelentes. É por isso que Leão XIII insistiu neste ponto na carta de 18 de setembro de 1899 aos bispos do Brasil, Appendix ad concilium plenarium, docum. CXXVIII, p. 729, e, de maneira ainda mais marcante, na alocução que dirigiu a todos os Padres do concílio da América Latina, quando vieram despedir-se dele, em 10 de julho de 1899. Acta concilii, t. 1, p. CIV. O concílio também se ocupou longamente disso. Indicaremos mais adiante, ao falar de cada país, os principais seminários e as universidades que neles estão estabelecidos. Façamos conhecer aqui as recomendações e prescrições feitas pelo concílio plenário para toda a América Latina, relativamente à formação dos clérigos e à sua instrução nas ciências sagradas. Elas encontram-se principalmente no título VII, De institutione clericorum, dividido ele próprio em quatro capítulos.

O primeiro capítulo, De electione et preparatione puerorum ad statum clericalem in seminario, recomenda aos párocos e aos confessores que cultivem as vocações (art. 607); que haja em cada diocese ao menos um seminário e, tanto quanto possível, dois seminários: um menor para o estudo das letras, um maior para os alunos de filosofia e de teologia. Os cursos de filosofia poderão ser concluídos, a critério do bispo, nos seminários menores, contanto que sejam cursos de filosofia escolástica, que se excluam os textos em língua vulgar e que se consagre a eles o tempo prescrito.

O capítulo II trata dos seminários menores. Não se admitirá ali senão as crianças que se destinam ao sacerdócio. Estas não retornarão à sua família, nem mesmo durante as férias, até o fim de seus estudos eclesiásticos. A piedade é recomendada aos seminaristas ainda mais que a ciência. Aprenderão o latim, o grego se possível, a língua nacional e também a dos indígenas de cada região, a fim de estarem aptos a administrar-lhes os sacramentos. Estudarão retórica, história sagrada e profana, geografia, aritmética e as outras ciências naturais.

O capítulo III ocupa-se dos seminários maiores. Após as férias, o ano começará com um retiro. A cada dia, terão lugar em comum a oração da manhã, na capela, a oração mental, que durará meia hora, a assistência à missa, o exame de consciência, a visita ao Santíssimo Sacramento, o terço, a oração da noite. Os seminaristas confessar-se-ão cada semana e aplicar-se-ão à sua formação espiritual. Ninguém será admitido ao seminário sem ter seguido regularmente o curso dos estudos. Dar-se-á pelo menos dois anos ao estudo da filosofia, e quatro à da teologia. Seguir-se-á São Tomás nos cursos de filosofia e de teologia e não se interpretará senão autores de uma doutrina aprovada. Far-se-á também no seminário cursos de hermenêutica sagrada, de exegese bíblica, de história eclesiástica, de direito canônico, de liturgia, de eloquência sagrada e de pastoral.

Os clérigos aperfeiçoar-se-ão no estudo das línguas dos indígenas; exercitar-se-ão nas cerimônias sagradas e no canto. O concílio testemunha o desejo de que não se negligencie a teologia positiva, sobretudo a patrística, nem a apologética. Exprime, inclusive, o voto de que haja uma cátedra especial de teologia positiva. Cada ano, os seminaristas serão submetidos a dois exames sobre todas as matérias ensinadas. Todos levarão vida comum. Não se admitirá entre eles nenhum externo, senão por razões muito graves aprovadas pelo bispo. Todos usarão a batina.

O capítulo IV é relativo ao exame que é conveniente que os jovens padres realizem, pelo menos sobre a teologia moral e dogmática, durante os cinco anos que seguirão sua promoção ao sacerdócio.

Alhures, tit. VII, c. VII, o concílio prescreve a realização de conferências eclesiásticas sobre a teologia e a liturgia, cuja determinação deixa ao cuidado do bispo. Nas regiões onde não é possível aos padres reunirem-se, o bispo poderá propor-lhes questões teológicas e litúrgicas, às quais estarão obrigados a responder por escrito.

No capítulo consagrado às universidades, tit. IX, c. I, o concílio testemunha o desejo de que haja, em cada república ou em cada região, uma universidade católica onde se estudem, em particular, as ciências sagradas. Vimos precedentemente as concessões feitas pela Santa Sé à América Latina para a ereção de faculdades de filosofia escolástica, de teologia e de direito canônico em cada país ou em cada província eclesiástica. Acta concil., a. 697, p. 307 et p. cix.

Pio IX havia erigido em Roma um seminário destinado a receber jovens clérigos da América Latina que seguem os cursos das universidades romanas. Prescrevera que todas as dioceses deste país contribuiriam para sua manutenção. O concílio recorda os imensos serviços que este seminário já prestou à Igreja da América; prescreve não enviar senão jovens de saúde robusta, de espírito sólido e de grande inteligência. Insiste também sobre a obrigação de pagar exatamente as taxas que servem para sua manutenção. Tit. XI, c. VII, a. 797, 798.

Terminamos estas informações gerais para percorrer rapidamente cada república da América. Reservamos, para o quadro que terminará este artigo, o número dos fiéis, dos padres, das paróquias e das igrejas; mas faremos conhecer aqui, quando houver lugar, o estado religioso, as universidades, seminários, escolas e congregações de cada país.

Saint-Domingue é a primeira sé erigida no Novo Mundo. Júlio II deu, em 13 de agosto de 1513, a bula de ereção que constituía o primeiro anel da hierarquia e enviou Garcia de Padilla, franciscano, confessor da rainha Leonor, que morreu antes de ser sagrado. Seu sucessor foi um romano (em 1520), Alexandre Geraldino, que iniciou a catedral. Em 1547, Saint-Domingue foi elevada à dignidade arquiepiscopal por Paulo III, que lhe adjuntou como sufragâneas Cuba, Porto Rico, Caracas e Jamaica (que era então uma simples abadia). O século XVI foi a época brilhante de Saint-Domingue; mas seu comércio começou a declinar e os eventos do século passado, as revoltas dos negros e as guerras que foram sua sequência fizeram desta parte da ilha de Haiti uma colônia infeliz que, em 1844, se separou da outra parte e se erigiu em república (Dominicana). Encontramos uma prova desta decadência na lista dos bispos. Sua sucessão é regular até 1798; depois, vem uma interrupção até 1817, quando encontramos Pierre Valera, que resignou sua sé em 1830. Então, novo abandono. Os bispos reaparecem desde 1848 até 1866, quando Benvenuto Monzon y Martins é transferido a Granada. Mas então sobrevém outra lacuna de vinte anos; a sé é abandonada; os indígenas, que se teve tanta dificuldade em cristianizar, retornam às suas práticas idolátricas. Um arcebispo (imediatamente submetido à Santa Sé desde a criação da república dominicana) foi dado a esta diocese em 1885.

Os católicos destes países dividem-se em duas classes: os brancos, quase todos imbuídos das ideias voltairianas, ligados à franco-maçonaria, e as pessoas de cor, que são cheias de orgulho e creem fazer grande honra a Deus pelo cumprimento de algumas práticas religiosas. Estas práticas, aliás, são misturadas de muita superstição, seja por restos da antiga idolatria dos habitantes, seja por frutos de seitas secretas que fazem entre os negros numerosos prosélitos e se assemelham bastante às assembleias dos feiticeiros e dos sábados. Esta indicação aplica-se não somente à república dominicana, mas à sua irmã vizinha, a do Haiti.

O Haiti tem uma circunscrição eclesiástica melhor organizada; encontramos ali um arcebispado cuja jurisdição se estende sobre toda a república, e quatro dioceses que se partilham a ilha. Pio IX criou estes bispados por tantas bulas que foram dadas em 3 de outubro de 1861, determinando os limites das diferentes dioceses conforme as divisões administrativas da ilha. Estas dioceses não têm história, já que sua criação é tão recente, mas oferecem uma particularidade interessante. O seminário do Haiti não se encontra nesta ilha, mas na Bretanha, na diocese de Vannes; são também franceses que estão à frente de todas as dioceses, salvo a de Port-au-Prince, onde Mons. Tonti, delegado apostólico, quis ser arcebispo sem cessar de ser delegado.

A ereção destas dioceses ocorreu na sequência de uma concordata de Pio IX com a república do Haiti que data de 1860. Eis o seu primeiro artigo: «A religião católica, apostólica e romana, que é a religião da grande maioria dos haitianos, será, ela e seus ministros, protegida de uma maneira particular na república do Haiti e gozará dos direitos e atribuições que lhe são próprios. Os arcebispos e bispos serão livres de exercer no governo de suas igrejas tudo o que entra nas atribuições de seu ministério paroquial, segundo as regras canônicas.» O artigo 3 da mesma concordata declara que o governo da república se obriga a fornecer e a conservar aos arcebispos e bispos uma alocação conveniente sobre os fundos do tesouro público. Esta alocação é de 15.000 francos para o arcebispo, de 10.000 francos para os bispos, mas o governo não coloca toda a pontualidade desejável para cumprir seus compromissos.

A diocese de Port-au-Prince, metrópole de toda a ilha, possui 1 colégio e 24 escolas católicas. Estes números mostram que uma grande parte da população escapa à ação da Igreja e que a instrução cristã faz muita falta. A diocese de Les Cayes possui também 1 colégio e 16 escolas católicas; a de Gonaïves, 10 escolas com uma população de 4.620 alunos.

As frequentes mudanças de poderes na ilha do Haiti e as revoluções que são sua consequência estão longe de ter sido favoráveis ao desenvolvimento e à manutenção das instituições religiosas. Entretanto, a Igreja Católica, apesar das provações, soube manter sua presença e sua influência espiritual no seio da população haitiana, testemunhando uma resiliência histórica face às vicissitudes políticas que marcaram a evolução da ilha desde sua independência. O orgulho bem conhecido das populações de cor parece ser o principal obstáculo à formação de um clero indígena.

É por este motivo que o projeto concebido pelo atual delegado de fundar em sua cidade metropolitana um seminário para um clero que seria nacional, projeto calorosamente patrocinado pelo governo da república, impaciente por sentir-se sob uma tutela estrangeira, não pôde concretizar-se. O seminário do Haiti em Vannes fornece padres suficientes para manter o clero existente, mas não o bastante para evangelizar os povos que lhe estão confiados.

VI. CUBA E ILHAS VIZINHAS. — Esta província eclesiástica conta com dois sufragâneos: um é Havana, na própria ilha de Cuba; o outro, Porto Rico, na ilha de mesmo nome. Esta ilha, que foi descoberta por Cristóvão Colombo, recebeu a fé cristã nos primeiros dias da ocupação e tornou-se propriedade dos espanhóis, que a conservaram até 1762, época em que os ingleses a tomaram. Mas eles a devolveram pelo tratado de 1763 e a ilha retornou à dominação espanhola até 1899, quando a guerra hispano-americana a fez passar, juntamente com Porto Rico, para a dominação dos Estados Unidos da América.

O orçamento eclesiástico da ilha de Cuba, outrora custeado pelo governo espanhol, era considerável. A dotação do clero, tanto regular quanto secular, elevava-se a 2.329.244 francos; os tribunais eclesiásticos absorviam, sozinhos, 176.166 francos. O arcebispo de Santiago e o bispo de Havana recebiam, cada um, 8.200 francos; os 15 cônegos de Santiago, juntos, 203.840 francos; os de Havana, 181.700 francos. Certas curas valiam de 8 a 10.000 francos, e o número total de curas e vicariatos na diocese da ilha de Cuba era de 325. Desde a conquista pelos Estados Unidos, o governo americano tratou esta parte da ilha como os outros Estados da América e suprimiu o orçamento dos cultos. Mas, para além da dotação regular do governo espanhol, que era sobreabundante para as necessidades normais dessas populações, o clero pôde constituir fundos de reserva, adquirir imóveis de rendimento e, enfim, criar rendas; disso resulta que padres e bispos encontram-se em uma situação relativamente confortável.

VII. MÉXICO. — A história deste rico país pode dividir-se em três épocas bem distintas: 1º o México antes da conquista por Fernando Cortez, que entrou na Cidade do México em 1521: é o período indígena ou, se preferir, arqueológico; 2º a dominação espanhola, desde a conquista até 1810; e 3º o período de independência, que começou nesta data e se prolonga até os nossos dias.

A religião católica penetrou nestas regiões com os espanhóis, mas a cupidez de alguns europeus reduziu-as a uma situação deveras triste. Comerciantes de Cádis obtiveram o monopólio do comércio e, para assegurar o escoamento de seus produtos, proibiram toda indústria similar àquela da qual podiam exportar amostras. Além disso, a avidez conduziu os espanhóis a usar frequentemente de violência contra os indígenas, e toda a eloquência do venerável Las Casas não bastou para defendê-los e protegê-los. A Igreja, contudo, era materialmente florescente. Os indígenas foram convertidos; mas o medo dos espanhóis contava muito nessas conversões, e os indígenas podiam dificilmente conceber como infinitamente bom um Deus cujos servidores eram tão cruéis.

A terceira parte da história do México, isto é, o período de sua independência, foi funesta para este país. A ambição dos políticos substituindo o bem público, as guerras civis como consequência dessa ambição e as ruínas que delas decorreram exerceram a mais infeliz influência. Ademais, sob os governos republicanos que se sucederam, e em particular sob as presidências de Comonfort e de Juárez, a Igreja foi despojada de seus bens, estando reduzida a viver, agora, de suas taxas e das esmolas dos fiéis. Mas os fiéis são generosos para com suas igrejas e seus padres: a basílica de Nossa Senhora de Guadalupe custou milhões; a grande igreja de São Francisco, readquirida dos protestantes, revestiu-se de um esplendor inaudito graças aos padres jesuítas que dela cuidam. A catedral de São Luís de Potosí foi ricamente decorada por Dom Montes de Oca; a de Guadalajara cobriu-se de pinturas e ouro; a de Puebla embeleza-se ainda todos os dias graças ao zelo de seu bispo; a catedral da Cidade do México possui riquezas fabulosas, não sendo igualada, sob este aspecto, por nenhuma basílica de Roma ou do mundo católico.

As comunidades religiosas foram desapossadas e expulsas pela revolução, mas a guerra religiosa terminou há muito tempo, e a sábia administração do atual presidente, Porfirio Díaz, autor da constituição que rege este país, permitiu-lhes retornar — não como comunidades com os direitos que tinham outrora, mas sob o benefício do direito comum. Assim, encontram-se em várias cidades do México as seguintes ordens: os franciscanos, que se reconstituem rapidamente; os jesuítas, que possuem colégios florescentes; os agostinianos mexicanos. Por outro lado, os dominicanos e os carmelitas, outrora muito numerosos, quase não estão mais representados. As novas congregações fornecem um contingente importante e, em primeira linha, convém mencionar uma congregação mexicana, a dos josefinos ou missionários de São José, cujos estatutos foram aprovados em 1897 pela Santa Sé. Os lazaristas dirigem três grandes seminários; os maristas têm, na Cidade do México, o encargo da paróquia francesa; os missionários do Coração Imaculado de Maria, fundados pelo venerável Antônio Claret, arcebispo de Cuba, possuem colégios e missões. Citemos ainda as damas do Sagrado Coração, as ursulinas, as irmãs da Imaculada Conceição de Guadalupe, estas últimas ocupando-se de oficinas e orfanatos.

Não há concordata entre a Santa Sé e o México. Contudo, Dom Averardi foi enviado recentemente a este país precisamente para tentar chegar a um entendimento e fazer cessar legalmente uma perseguição que não passa de uma lembrança, mas que, vivendo ainda nas leis e regulamentos de polícia, poderia eclodir novamente. Não se diz que sua missão tenha tido sucesso sob este aspecto: ainda não há um diplomata acreditado perante a Santa Sé para representar o governo do México.

Do ponto de vista da instrução, o México possui quatro faculdades de teologia e de direito canônico; estão estabelecidas na Cidade do México, em Guadalajara, em Puebla e em Mérida. A de Guadalajara é a mais renomada, tanto pelo número de seus estudantes quanto pela ciência de seus professores. O ensino primário é, ao contrário, bastante negligenciado, e esta é uma das questões que mais preocupam os bispos. Tendo os bens do clero sido tomados pela revolução, este só possui os recursos indispensáveis ao seu ministério e não pode, por falta de dinheiro, criar escolas. Ora, no México, como em todos os países submetidos ao regime maçônico, a escola é gratuita, obrigatória, neutra e laica. O ensino que os pais podem dar em casa não saberia contrabalançar o do mestre-escola. Os bispos, reunidos em diferentes concílios provinciais realizados em 1896, resolveram unanimemente a fundação de escolas católicas; mas, sendo as dificuldades antes de tudo de ordem financeira, a questão foi resolvida apenas para as paróquias ricas, isto é, para uma pequena minoria.

A imprensa religiosa desenvolveu-se no México. Encontra-se lá o El País, jornal a cinco centavos, que imita o gênero de La Croix e obtém o mesmo sucesso. O Tiempo é na Cidade do México o que L’Univers e La Vérité são em Paris. A Voz de México é muito católica. Mencione-se o Estandarte de São Luís de Potosí, La Rosa de Tepeyac, El Domingo impresso em Durango, La Linterna de Diógenes em Guadalajara, e o Amigo de la verdad de Puebla, que teve grande difusão.

Os Padres jesuítas redigem um Messager du Sacré-Coeur e existe ainda na Cidade do México uma revista de ciências eclesiásticas análoga à L’Ami du clergé: é a Gaceta ecclesiastica mexicana.

As obras estão em honra no México e, sem entrar nos detalhes, basta citar esta conclusão da nota que a Année de l’Eglise, Paris, 1899, consagra a este país: «Em suma, as obras se desenvolvem no México em todos os terrenos, mesmo no da política, e é permitido saudar o dia em que o poder civil e o poder eclesiástico se darão o beijo de paz ao pé da cruz de Jesus Cristo.»

O México teve quatro concílios. O primeiro foi realizado em 1524 ou 1534 e determinou vários pontos de disciplina eclesiástica, entre outros que os mexicanos que quisessem professar a religião católica seriam obrigados às leis da Igreja sobre o matrimônio. O segundo, mais célebre, realizado sob Pierre Moya de Contreras em 1585, fez para o uso dos índios convertidos à fé numerosos regulamentos, emprestados dos concílios anteriores e particularmente do Concílio de Trento. Entre as proibições figurava a de tomar tabaco nas igrejas. Estes regulamentos, divididos em cinco livros, foram aprovados pelo Papa em 1586 e impressos. No elogio fúnebre dos bispos da América Latina, que pronunciou diante do concílio plenário, Acta, p. 81, Monsenhor Montés de Oca chama este concílio de terceiro do México, o que supõe que o primeiro teria sido desdobrado; como se dão diversas datas, poderia muito bem, com efeito, que este concílio realizado em 1524 se tenha renovado dez anos mais tarde.

O quarto concílio do México foi realizado em 1766 sob François-Antoine de Laurenzana; mas este prelado, tendo sido após esta reunião nomeado para Toledo, não pôde obter da Santa Sé a aprovação dos atos conciliares que, por consequência desta circunstância, não foram promulgados. Em 1896, as diversas províncias eclesiásticas do México realizaram um concílio provincial.

O México conta atualmente 6 arquidioceses e 22 dioceses, ou seja, ao todo 28 sedes e, neste número, estão compreendidas 6 dioceses que foram criadas desde 1890. A população total do México, segundo o último recenseamento, é de 11.092.246 habitantes. O México está administrativamente dividido em 31 Estados. Entre as suas 28 dioceses, 19 têm por limite a dos Estados. Vamos percorrê-las por províncias.

Antequera (Oaxaca) é uma diocese erigida por Paulo III, em 21 de junho de 1535; seu primeiro bispo foi Jean Lopez de Zarate. Entre os prelados que ilustraram esta sede, é preciso citar Barthélemy de Benavente y Benavide († 1652), escritor eclesiástico; Thomas de Monterroso († 1678), que fundou o seminário; Nicolas de Puerto, seu sucessor, escritor eclesiástico; Ange Maldonado († 1728), autor de várias obras; François de Santiago y Calderon, que consagrou a catedral e nela acrescentou as duas torres († 1733). Em 1891, Leão XIII elevou esta sede à dignidade arquiepiscopal, dando-lhe como tributárias Campeche, Chiapas, Tabasco, Tehuantepec e Mérida (Yucatan).

A arquidiocese de Antequera tem 2 seminários, 4 colégios e 64 escolas católicas; a de Tehuantepec, 1 colégio e 3 escolas católicas com 600 alunos; a de Yucatan, 1 seminário, 4 casas religiosas e 15 escolas católicas, com uma população de 2.946 crianças.

Durango é a segunda província do México; tem como sufragâneas Chihuahua, Sinaloa, cujo bispo reside em Culiacan, e Sonora. Durango possui 1 colégio e 12 escolas católicas com uma população de 2.643 alunos; Chihuahua, 1 seminário, 1 colégio e 2 escolas; Sinaloa, 1 seminário e 9 escolas católicas; Sonora, 1 seminário e 9 escolas católicas.

Província de Guadalaxara: três dioceses, as de Colima, Tepic, Zacatecas. Guadalaxara tem 1 seminário, 1 colégio e 26 escolas católicas; Tepic, 1 grande e 1 pequeno seminário que contam 150 alunos e 1 colégio.

Província de Linares ou Monterrey, três dioceses: Saint-Louis de Potosi, Saltillo e Tamaulipas. Linares tem 1 seminário e 10 escolas católicas com 637 alunos; Saint-Louis de Potosi, 1 colégio e 6 escolas católicas com 754 alunos; Saltillo, 1 seminário, 1 colégio e 46 escolas católicas com 7.320 alunos; Tamaulipas ou Ciudad Victoria tem 1 seminário.

Província de Mechoacan, cuja sede metropolitana é em Morelia, três dioceses: Léon, Queretaro e Zamora. A arquidiocese de Mechoacan possui 3 escolas católicas; a diocese de Queretaro ou Saint-Jacques de Queretaro tem 1 seminário, 1 colégio e 11 escolas católicas; a de Zamora, 6 colégios e 159 escolas católicas que têm uma população de 10.260 habitantes.

México é a mais importante das províncias do México. Tem, como sufragâneas, as sedes de Chilapa, Cuernavaca, Tlascala, Tulancingo e Vera-Cruz. A arquidiocese do México conta 1 seminário e 8 colégios; a diocese de Cuernavaca tem 1 seminário e 6 escolas católicas; a de Tulancingo, 1 colégio; a de Vera-Cruz ou Jalapa, 1 seminário e dois colégios.

VIII. GUATEMALA E AS OUTRAS PEQUENAS REPÚBLICAS VIZINHAS. — A Guatemala é um Estado situado entre o México e a república de Honduras. Este país pertenceu à Espanha durante três séculos. Em 1821, seguindo o exemplo das outras colônias espanholas, declarou-se independente, uniu-se primeiro ao México em 1822, separou-se em 1823, formou uma república federal com os Estados vizinhos e retomou em 1840 a sua independência. Enquanto este país não foi senão uma colônia espanhola, a metrópole tratava as suas questões religiosas por intermédio do núncio de Madrid e do seu embaixador em Roma, mas quando a Guatemala proclamou a sua independência, resolveu fazer com Roma uma concordata que foi assinada em 1853. (Uma convenção quase idêntica com a Santa Sé foi assinada por Honduras em 1861, por Costa Rica em 1853 e por Nicarágua em 1863.)

O artigo 1º diz que a religião católica, apostólica, romana continua a ser a religião da república da Guatemala e nela será sempre conservada e protegida com todos os direitos e prerrogativas de que goza por ordenação divina e em virtude dos santos cânones. — A concordata reconhece à Santa Sé o direito de erigir novas dioceses; mas com a condição de se colocar para isso de acordo com o governo. — O presidente da república pode propor às sedes vacantes e a Santa Sé dará aos candidatos nomeados a instituição canônica, se forem dignos; enquanto isso, a pessoa nomeada não poderá, sob nenhum título, imiscuir-se na administração da diocese. O governo da Guatemala reconhece o direito dos bispos de levantar os dízimos, e como os dízimos atuais não podem bastar para a manutenção do clero, acrescenta uma soma anual de 4.000 escudos (20.000 francos) que formará um crédito da Igreja sobre o Estado. Estas poucas linhas indicam o teor deste tratado. É ligeiramente modificado para as repúblicas vizinhas. As variações encontram-se sobretudo na parte financeira que devia se moldar de certa forma sobre a situação das diferentes igrejas.

Eclesiasticamente, a Guatemala, capital da Guatemala, é metrópole. Tem como sufragâneas Comayagua da república de Honduras; Saint-Joseph da Costa Rica pertencente à república deste nome; Nicarágua, que depende do estado da Nicarágua, e San-Salvador, capital da república de Saint-Sauveur. Todas as sedes sufragâneas desta metrópole são, portanto, capitais de pequenos Estados independentes. Assinalemos 2 colégios na arquidiocese da Guatemala, 1 seminário e 1 colégio na diocese da Costa Rica.

IX. COLÔMBIA. — A história das colônias espanholas separadas da metrópole no início do século é sempre idêntica. Ela foi na Colômbia a mesma que nas outras partes da América.

Este vasto país, que mede 1.200.000 quilômetros quadrados, tem, é preciso confessar, uma população bem fraca em relação à sua superfície (4 habitantes por quilômetro quadrado); mas a raça indígena não tinha sido esmagada pela raça conquistadora.

A prova disso é que, de acordo com as estatísticas atuais, não há na Colômbia senão 400.000 brancos, contra 1.600.000 mestiços, ou cholos, 1.350.000 índios civilizados, 50.000 não civilizados, e 700.000 negros, mulatos ou zambos.

A fé foi levada a este país desde o tempo da conquista pelos espanhóis: ela se fortaleceu e se desenvolveu sob o seu domínio. Em 1819, tendo Bolívar sublevado estas províncias, declararam-se independentes da pátria-mãe, no congresso de Angostura de 17 de dezembro de 1819. Em 1831, os doze departamentos que as constituíam desuniram-se e dividiram-se em três grupos diferentes: os cinco primeiros formaram a Nova Granada; os três outros formaram o Equador, e os quatro últimos, a leste dos primeiros, formaram a Venezuela. Em 1836, Gregório XVI estabeleceu relações diplomáticas com a Nova Granada. Nela estabeleceu um encarregado de negócios que tinha ainda o cuidado de todas as repúblicas americanas desprovidas de delegado apostólico ou de qualquer representação da Santa Sé. Este posto era, como se vê, muito importante devido à jurisdição estendida de seu titular; mas perdeu muito dessa importância, em consequência da criação de numerosos delegados apostólicos, núncios e internúncios na América Latina. Em 1851, a Nova Granada, constituindo-se sobre novas bases, tomou o nome de Estados Unidos da Colômbia, título que mudou, em 1886, pelo de República da Colômbia.

Em 8 de dezembro de 1887, Leão XIII fez uma convenção com a Colômbia. Este país deve dar à Igreja uma soma anual de 500.000 francos e continuará a pagar a renda dos bens eclesiásticos ou religiosos dos quais se tinha apossado. — Em 2 de julho de 1893, acrescentou-se a este tratado uma convenção adicional versando sobre a regulamentação do foro eclesiástico, a organização dos cemitérios e a obrigação para os párocos de se submeterem aos recenseamentos exigidos pelo estado civil. Atualmente, a Colômbia mantém um enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto à Santa Sé. O Papa tem ali um delegado apostólico e enviado extraordinário que reside em Bogotá, capital da República.

A divisão eclesiástica é calcada sobre a divisão civil. Há apenas uma única província eclesiástica, a de Bogotá, que compreende as sés sufragâneas que se seguem: Antioquia, Cartagena, Santa Marta, Medellín, Nueva Pamplona, Panamá, Pasto, Popayán, Socorro, Tolima, cujo bispo reside em Neiva, e Tunja. É, como se vê, um dos arcebispados que possui mais sufragâneos: só é superado a este respeito pela sé de Westminster, que tem todos os bispos da Inglaterra, em número de 15, sob sua jurisdição.

Santa Fé de Bogotá, agora, de acordo com um decreto consistorial muito recente (1896), simplesmente Bogotá, foi erigida em bispado em 11 de setembro de 1562, e em arcebispado em 22 de março de 1564, mas não teve seu primeiro bispo senão em 1570. Foi um franciscano, que entrou na diocese em 1573, fundou o seminário e reuniu, em 1582, um concílio provincial. Em 1624, Fernando Arias de Ugarte celebrou um segundo concílio provincial. Bernardino de Almansa (+ 1633) construiu a catedral, que é dedicada à Imaculada Conceição. Existe nesta catedral um costume comovente. Todos os anos, no dia 6 de agosto, aniversário da fundação da cidade, expõem-se os ornamentos sagrados que serviram para celebrar pela primeira vez o santo sacrifício nesta terra, em uma pequena capela que ainda subsiste. Cristóvão de Torres, dominicano, erigiu, por volta de 1670, a universidade chamada Communio Indorum. Notemos ainda um outro sínodo provincial, em 1868. A arquidiocese possui 1 seminário, 30 colégios e 160 escolas. Em uma parte do território (dito de São Martinho), há ainda cerca de vinte mil índios que são infiéis.

Cartagena das Índias foi erigida em diocese em 24 de abril de 1534 e tinha sua catedral dedicada à Santa Virgem. Esta cidade era muito frequentada, pois era o porto de escala onde vinham desembarcar os navios que faziam o tráfico de negros. Foi em Cartagena das Índias que São Pedro Claver exerceu sua admirável caridade para com os negros. Há nesta cidade um seminário.

Há também um em Medellín, que possui, além disso, 3 congregações religiosas, 1 universidade, 4 colégios e 141 escolas católicas tendo uma população de 16.035 alunos. Notemos a este respeito que o presidente da Colômbia, respondendo ao discurso de boas-vindas do novo delegado apostólico, Mons. Vico, congratulava-se por a Colômbia gozar do privilégio inestimável da unidade da fé. Ele acrescentava: "O ensino público distribuído às custas do Estado foi colocado sob a inspeção da autoridade eclesiástica em tudo o que concerne à fé e à moral e, por uma parte muito considerável, em todos os departamentos da República, foi posto sob a direção imediata dos institutos e congregações religiosas."

A diocese de Nueva Pamplona conta 250.480 católicos e 50 paróquias. Infelizmente, de acordo com as estatísticas que tenho sob os olhos, o clero falta quase totalmente: pois haveria apenas 8 padres seculares e 7 padres regulares; há, contudo, 1 seminário e 31 escolas católicas.

Panamá possui 1 colégio e 147 escolas católicas, com uma população de 5.830 alunos. Os trabalhos de abertura do canal transpacífico trouxeram a esta diocese uma grande quantidade de operários de todas as nações e de todas as religiões; mas o catolicismo teve pouco a se louvar deste fluxo de estrangeiros, para os quais tudo tinha sido preparado, exceto um clero em consonância com suas necessidades. Hospitais mantidos pelas irmãs de São Vicente de Paulo são a única obra católica criada por ocasião. — Mencionemos ainda 1 seminário e 3 colégios na diocese de Pasto.

X. EQUADOR. — A fé implantou-se nesta região com a conquista espanhola, e desde meados do século XVI Paulo III já tinha enviado um bispo a Quito. Em 1811, este país uniu-se às províncias vizinhas sob o impulso de Bolívar, para se libertar do jugo dos espanhóis. Fez então parte dos Estados Unidos da Colômbia. Reivindicou sua autonomia em 1830 e é atualmente regido por uma constituição, modificada em várias ocasiões, em particular em 1883.

Em 1862, Pio IX fez uma concordata com a República do Equador. Após o parágrafo dedicado a reconhecer a religião católica, apostólica e romana como religião da República, lia-se: "Por isso, não se poderá permitir na República outro culto ou uma sociedade que tenha sido condenada pela Igreja." O governo prometia (art. 6) dar seu apoio aos bispos, sobretudo quando estes tivessem que se opor à impiedade e à corrupção dos bons costumes. Deveria também (art. 22) cooperar com as missões para a conversão dos infiéis. Esta concordata foi renovada em 2 de maio de 1881, com algumas modificações.

O nome da República do Equador está intimamente ligado ao de seu ilustre presidente, García Moreno, que morreu assassinado (1875) por ordem dos maçons ao pronunciar esta frase sublime: "Deus não morre." (Cf. A. Berthe, Garcia Moreno, Paris, 1887). Desde então, o governo caiu nas mãos dos maçons, que fizeram todo o possível para arrancar a religião do coração dos habitantes. A fé teve não apenas seus confessores, mas também seus mártires. Atualmente, é um dos governos mais irreligiosos que existem. A nomeação de um delegado apostólico parece um sinal ou uma promessa de distensão; mas é preciso notar que este reside em Lima (pois é delegado para o Equador, a Bolívia e o Peru), e não em Quito, sé dos antigos delegados do Equador.

Se o Equador faz profissão de catolicismo, os costumes são ali muito relaxados, não apenas entre o povo, mas no clero e até mesmo no clero regular.

A perseguição atual terá, ao menos, o resultado de separar o trigo do joio, de podar as plantas parasitas que maculavam o santuário, em vez de orná-lo, e de dar à religião a força que lhe advém do sacrifício e das dores de seus filhos.

A república conta 1.400.000 habitantes. Possui um arcebispado em Quito, com seis sés sufragâneas: Cuenca, Guayaquil, Ibarra, Loxa, Puerto Viejo e Rio Bamba, independentemente de quatro vicariatos apostólicos que substituíram o antigo vicariato apostólico denominado do Oriente.

Uma universidade muito famosa foi fundada em Quito em 1586 por Filipe II, rei da Espanha, e sua biblioteca é considerada a mais rica da região. Há também nesta cidade um colégio mantido pelos jesuítas.

Guayaquil possui 1 seminário, 4 colégios e 60 escolas católicas com uma população de 4.390 alunos; Loxa ou Loja, 2 colégios.

O antigo vicariato apostólico do Oriente, assim chamado por estar situado a oriente da república, foi dividido, em comum acordo entre Leão XIII e o presidente Antoine Flores, em quatro vicariatos: o primeiro, Napo, pertence aos jesuítas; o segundo, Canelos e Macas, aos dominicanos; o terceiro, Mendez e Gualaquiza, foi confiado à Sociedade de São Francisco de Sales; o quarto, Zamora, aos franciscanos. O governo do Equador reconhece a estes vicariatos o direito de perceber dízimos e concede a cada um deles um subsídio para as despesas do culto. Estes vicariatos que, regularmente, deveriam depender da Propagação da Fé, subordinam-se, ao contrário, à S. C. dos Assuntos Eclesiásticos Extraordinários.

BOLÍVIA

Este país, situado ao sul da república do Equador, não possui saída para o mar. Compreende 1.334.200 quilômetros quadrados, com uma população de 2.325.000 habitantes, dos quais 250.000 são indígenas. Revoltou-se em 1808 contra os espanhóis, mas não constituiu um Estado independente senão em 1825, no congresso de Chuquisaca, após a vitória de Ayacucho. Em 1879, engajou-se, em união com o Peru, em uma guerra infeliz contra o Chile, que lhe ditou as condições da paz em 1882, apoderou-se dos departamentos de Atacama e Mejillones e de seus portos, privando, assim, a Bolívia de toda comunicação com o Oceano.

La Plata é a cidade metropolitana. Possui três sés sufragâneas: Cochabamba, La Paz e Santa Cruz de la Sierra.

PERU

Quando era governado pelos vice-reis da Espanha, o Peru dividia-se em Alto Peru e Baixo Peru. O Alto Peru tornou-se a Bolívia; o Baixo Peru conservou a denominação de Peru. Possui uma superfície de 1.137.000 quilômetros quadrados e 3.050.000 habitantes, a maior parte mestiços espanhóis, além de 400.000 indígenas, 100.000 negros e 30.000 chineses. O Peru não se insurgiu contra a Espanha senão quando um exército chileno veio, de certa forma, forçá-lo a declarar-se contra a metrópole. Constituiu-se, primeiro, em república independente. Uma cisão separou, mais tarde, o Alto Peru do Baixo Peru. As revoluções são frequentes no Peru e a religião não tem nada a ganhar com isso. A Santa Sé possui neste país um delegado apostólico cuja residência é em Lima e que está encarregado do Peru, da Bolívia e do Equador. O governo peruano mantém, por sua vez, um embaixador junto à Santa Sé. Contudo, acaba de tomar uma medida contrária à religião ao estabelecer o casamento civil. — Como acabamos de dizer, há ainda numerosos indígenas nesta república e os franciscanos espanhóis têm a missão de evangelizá-los.

Lima é a metrópole do Peru; há bispados em Arequipa, Chachapoyas, Cuzco, Guamanga, Huanuco, Puno e Trujillo.

Lima, a capital do Peru, fundada por Francisco Pizarro em 1535, foi erigida em bispado em 19 de março de 1537, e em arcebispado em 11 de fevereiro de 1546: é a mais antiga metrópole da América Latina. Os autores fazem notar a riqueza incrível das igrejas principais de Lima, onde se admiram candelabros e estátuas de tamanho natural, em prata maciça. Lima teve três concílios provinciais. O primeiro e o segundo, realizados em 1552 e 1567, deixaram poucos vestígios. O terceiro, realizado em 1583 e presidido por São Turíbio de Mogrovejo (canonizado em 1726), é bem mais importante pelos numerosos cânones que nele foram estabelecidos. Estes abrangiam todas as obrigações da vida cristã e as do ministério paroquial. Estabelecem regras muito sábias não apenas para a conduta dos brancos, mas também para a dos indígenas. Este concílio teve uma grande influência sobre a vida religiosa no Peru. Lima foi a pátria de Santa Rosa de Lima, que morreu em 1620.

Arequipa, bispado erigido em 15 de abril de 1577, é, do ponto de vista religioso, a pérola do Peru. Chama-se-a "a católica Arequipa". Encontram-se ali três conventos masculinos e três femininos. Os jesuítas possuem um colégio; os lazaristas dirigem o seminário; os salesianos acabam de estabelecer-se ali. Os Irmãos de São João de Deus possuem um hospital. — Guamanga ou Ayacucho possui, por sua vez, 2 congregações religiosas, 1 seminário e 2 colégios.

CHILE

Este país forma uma imensa faixa de terra, limitada de um lado pelas ondas do Pacífico, do outro pela cadeia dos Andes. Possui, de fato, 4.200 quilômetros de extensão, por uma largura média de 170 quilômetros. Sua superfície é de 776.000 quilômetros quadrados, sua população de 3.500.000 habitantes. Para conquistá-lo, a Espanha teve de lutar longamente com os habitantes. A submissão completa só ocorreu em 1775. Em 1810, os chilenos recuperaram sua independência; recaíram sob o jugo dos espanhóis em 1814, insurgiram-se novamente em 1817 e asseguraram sua liberdade em 1818 pela vitória de Maipo.

Os católicos não tiveram o que ganhar com a mudança de governo. A insurreição contra a Espanha não era apenas um movimento nacional: era também, sob uma forma dissimulada, um movimento contrário à religião. A prova disso está nas perseguições surdas que os católicos sempre tiveram de sofrer desde então pela influência dos radicais, que são muito poderosos. Há quinze anos, Mons. del Frate, que era delegado apostólico em Santiago do Chile, só deveu sua salvação à fuga. As relações estão menos tensas desde então. Em 1898, o Chile acreditou um representante junto à Santa Sé; e esta decidiu nomear novamente um delegado apostólico em Santiago.

O Chile possui 1 arcebispado em Santiago e 3 bispados que estão em Concepción, em San Carlos de Ancud e em La Serena.

Santiago do Chile foi erigido em diocese em 17 de maio de 1561 e em arcebispado em 21 de maio de 1840. Em 1586, o bispo Diego de Medellín celebra um sínodo diocesano; em 1607, outro bispo, Pérez de Espinosa, erige um seminário. Existem em Santiago 18 institutos religiosos masculinos, 23 femininos, 1 universidade, 4 colégios, 29 escolas católicas, com uma população de 8.440 alunos. — A diocese de Concepción possui 10 institutos masculinos, 7 femininos, 1 seminário, 1 colégio e 9 escolas católicas com uma população de 2.500 alunos. A diocese de La Serena, 1 seminário e 50 escolas católicas. No norte do Chile encontram-se dois vicariatos apostólicos, que dependem da S. C. dos Assuntos Eclesiásticos Extraordinários: um é Antofagasta, na província deste nome; o outro, Tarapacá, no Estado do mesmo nome que pertencia, antes de 1883, ao Peru.

REPÚBLICA ARGENTINA E PATAGÔNIA

Ao longo da costa da América meridional encontramos a Patagônia e depois a República Argentina, que confina com o Chile e dele é separada pela cadeia dos Andes. A República Argentina tem 2.789.400 quilômetros quadrados. Para uma superfície tão considerável, ela tem apenas 4.500.000 habitantes. Mas estes aumentam todos os anos, pela imigração, cuja parte mais considerável vem da Itália.

Este território, que pertencia aos espanhóis, proclamou sua independência em 1818, mas não pôde obter um pouco de tranquilidade senão em 1853. Recentemente, a especulação desencadeou sobre este país, que tem imensos recursos materiais, uma crise financeira dita de 1890, da qual ainda não se recuperou.

É lamentável que a religião cristã não seja florescente ali. A revolução de 1810 não quebrou apenas todo vínculo com a metrópole, ela rompeu também com a Igreja. O casamento civil foi admitido e o padre obrigado a não celebrar o casamento religioso senão após o casamento civil. Ora, as distâncias são tais, o número dos oficiais do estado civil é tão pouco considerável para as necessidades da população, que os noivos são por vezes obrigados a fazer 200 quilômetros para encontrar aquele que pode casá-los. Para departamentos que têm 170 quilômetros de comprimento por 40 de largura, há apenas um oficial do estado civil. Muitos habitantes passam, em consequência, sem o casamento civil, e veem-se privados ao mesmo tempo do casamento religioso. Esta é uma das grandes chagas de que sofre o catolicismo; pois ela vicia a raiz mesma da família.

Não há, contudo, da parte do governo, hostilidade aberta contra a Igreja. Todavia, o Estado não se ocupa dela, não retribui nenhum dos ministros do culto, embora tenha se apoderado dos bens da Igreja. O argentino não gosta do que o incomoda em seus hábitos, e uma profunda indiferença pelas coisas religiosas é seu mal característico, aquele do qual é mais difícil curá-lo: a religião não é para ele senão uma coisa de conveniência; o batismo e o enterro na Igreja lhe bastam. O clero não se recruta quase neste meio. É formado sobretudo de italianos e também de espanhóis e de franceses. Os bispos não têm quase nada a se louvar dos padres italianos; pois eles vão à Argentina para encontrar recursos antes que para salvar almas. As posturas do clero são, aliás, muito livres.

A República Argentina tem um arcebispado, Buenos Aires, do qual dependem 7 bispados: Córdova, São João de Cuyo, Paraná e Salta, aos quais Sua Santidade Leão XIII acaba de adicionar La Plata, Santa Fé e Tucumán. A carta apostólica In Petri cathedra, que estabelece estes três últimos assentos (15 de fevereiro de 1897), diz que o tratamento dos bispos será formado pelas alocações que o ministério dos cultos da república constituiu sobre os fundos públicos para estes novos assentos. Se não houve uma concordata formal entre a República Argentina e a Santa Sé, houve, portanto, ao menos um acordo verbal; sem isso o Papa não falaria das rendas estabelecidas pela república para estes bispados.

A Patagônia estende-se ao sul da República Argentina. Ela compreende 776.000 quilômetros quadrados, e a ilha da Terra do Fogo, que dela depende, 47.000º Ela foi evangelizada, mas sem sucesso, pelos franciscanos; em 1875, os salesianos enviaram missionários que se estabeleceram no Rio Negro, em Carmen. Deus abençoou sua dedicação, suas obras desenvolveram-se e Leão XIII pôde, em 15 de novembro de 1883, erigir o vicariato norte da Patagônia. Em 26 do mesmo mês, ele erigia o sul deste país em prefeitura, confiada, como o vicariato, aos filhos de Dom Bosco.

O vicariato apostólico da Patagônia setentrional compreende a região dos pampas e não tem delimitações ainda bem precisas, pois toda a parte da Patagônia central, que ainda é inexplorada, lhe é até nova disposição atribuída. O número dos católicos é de 90.000; há 3.000 protestantes e estima-se em 15.000 aproximadamente o número dos indígenas que se encontram nas regiões inexploradas. Os missionários (salesianos de Dom Bosco) têm 9 residências principais e 45 estações secundárias. Eles são ao todo 36, com 18 leigos e 8 catequistas. As Filhas de Maria Auxiliadora têm 60 sujeitos destinados a três orfanatos, 3 hospitais e 27 estabelecimentos de instrução, com 900 alunas. O seminário diocesano é em Buenos Aires e tem 90 alunos.

A prefeitura apostólica da Patagônia meridional ou austral compreende, com a Terra do Fogo, toda a parte sul da América. Do ponto de vista político, este território é submetido em parte à República Argentina, em parte ao Chile, e as ilhas Falkland dependem dos ingleses. Há 9.500 católicos, 1.800 protestantes e estima-se em 45.000 o número dos indígenas. A residência do prefeito é em Puntarenas. Há 6 paróquias, 5 igrejas, 4 estações principais, 10 secundárias, 14 padres e 20 catequistas europeus. O seminário é em Santiago do Chile e encerra 50 alunos. As escolas de meninos são em número de 4 com 200 alunos. As Filhas de Maria Auxiliadora dirigem 4 escolas com 450 crianças. Há, além disso, 3 pensionatos para meninos e outros tantos para jovens moças. A residência do prefeito apostólico, Puntarenas, é ao mesmo tempo paróquia, e esta oferece a particularidade de ser a mais vasta do mundo inteiro. Ela tem uma superfície de 195.000 quilômetros quadrados, ou seja, dois terços da Itália.

Esta pequena república, limitada ao norte pelo Brasil, a oeste pelo rio Uruguai, que lhe dá seu nome, tem 190.000 quilômetros quadrados e uma população de 788.130 habitantes. Até 1620 este país era unido à Igreja do Paraguai. Foi então anexado ao assento episcopal de Buenos Aires. Sua independência política determinou a ruptura destes vínculos eclesiásticos. Ele tinha sido declarado estado independente em 1828 por um tratado feito entre o Brasil e a Argentina. Obteve pouco depois do soberano pontífice o estabelecimento em Montevidéu de um vicariato apostólico, que foi, em 1879, elevado ao posto de bispado. A república não cessou de usurpar os direitos da Igreja. A época mais nefasta para a religião foi a ditadura de Santos. É a ele que se deve a lei sobre o casamento civil, tornado ainda mais odioso pela defesa feita ao padre de batizar qualquer criança que não estivesse inscrita nos registros do estado civil. Não ousando proceder à expulsão pura e simples das congregações religiosas, decretou-se que seus membros não poderiam pronunciar seus votos senão à idade de 40 anos. Mas estas leis não obtiveram o resultado que se queria atingir. Hoje as congregações são relativamente mais numerosas em Montevidéu do que em qualquer país do mundo. Há, com efeito, 10 comunidades de homens e 8 comunidades de mulheres ligadas a estabelecimentos de instrução, enquanto as irmãs de São Vicente de Paulo, de Nossa Senhora do Huerto e as capuchinhas se partilham o cuidado e a assistência dos doentes. O bispo atual, Mons. Soler, desenvolveu os elementos religiosos que tinha entre as mãos e preparado no elemento leigo uma defesa contra as perseguições a vir. Ele fundou escolas provinciais, conferências de São Vicente de Paulo em todas as paróquias da capital, círculos católicos de operários que contam mais de 1.000 aderentes, um grande clube católico. Ele obteve, de concerto com o governo, a ereção de Montevidéu em arcebispado (19 de abril de 1897), com dois sufragâneos. Estas duas sedes ainda não estão erigidas, mas o arcebispo tem consigo dois auxiliares que ele destina a esta nova situação. Montevidéu possui um grande seminário dirigido pelos jesuítas e vários colégios de ensino secundário, mantidos por religiosos.

XVI. PARAGUAI. — O Paraguai tem uma extensão de 240.000 quilômetros quadrados, sobre os quais estão disseminados 700.000 habitantes.

Em 2 de fevereiro de 1535, Pedro de Mendoza estabeleceu-se no local onde hoje é Buenos Aires, depois, buscando uma comunicação por água com o Peru, seu lugar-tenente Ayolas remontou o Paraná, entrou de lá no Paraguai e, em 15 de agosto de 1536, fundou a cidade da Assunção. Esta cidade tornou-se um bispado em 1º de julho de 1547. Os jesuítas, tendo vindo ao Paraguai em 1609, formaram na margem direita do alto Uruguai e nas duas margens do Paraná as famosas reduções, onde 130.000 índios foram iniciados na fé cristã e na civilização.

Carlos III da Espanha, iludido pelos filósofos, deu a ordem de expulsar todos os jesuítas e quis substituí-los por franciscanos, mas estes, não sabendo o idioma dos índios, não puderam ter sucesso; os índios retornaram às suas florestas e recaíram rapidamente no estado selvagem. Sobre as reduções do Paraguai e sua organização, ver Sagot, Le communisme au nouveau monde, Paris, 1900.

O Paraguai declarou-se independente em 14 de maio de 1811, mas sofreu, de 1824 a 1840, a mais odiosa tirania por parte de seu presidente, José Gaspar Francia. Ele perseguiu a Igreja e encarregou um padre de sua escolha de administrar a diocese em lugar do bispo relegado em sua própria casa. O presidente López reparou em grande parte os erros de seu predecessor e morreu em 1862; mas seu filho, que lhe sucedeu, perseguiu cruelmente os homens de bem e engajou-se em uma luta insensata contra o Brasil, o Uruguai e a Argentina; esta guerra foi tão infeliz que a população foi reduzida de 1.000.000 para 300.000 habitantes. O bispo Palacios lançou-se no partido do presidente que, após tê-lo tomado como conselheiro íntimo, fê-lo fuzilar em 1868. Em 1879, Mons. Aponte foi nomeado bispo da Assunção. Seu episcopado marca o relevamento moral e religioso do país. Desde 21 de setembro de 1894, Mons. Bogarín governa por sua vez esta igreja. Ele teve que lutar energicamente contra o governo que editou, da maneira mais inesperada e apressada, o casamento civil. Tornou-se esta lei obrigatória no dia seguinte à sua promulgação. Ora, não se tinha pensado em criar os cartórios de registro civil necessários. Seguiu-se que os paraguaios não podiam mais se casar religiosamente, já que o casamento civil em vigor tinha a precedência, nem civilmente, pois não havia oficial de registro civil para receber o consentimento legal dos esposos.

Estas lutas contra a Igreja não são demandadas pelo país. A situação religiosa seria bastante satisfatória se o clero estivesse em número suficiente para o ministério. Há bem poucos padres de campo que não tenham a seu cargo duas ou três paróquias e não devam atender territórios de 15 a 20 léguas de raio. Os homens vivem na indiferença e deixam às mulheres as práticas religiosas. Conseguiu-se, contudo, formar na Assunção uma conferência de São Vicente de Paulo. As confrarias de mulheres são numerosas e muito florescentes. Seriam necessários estabelecimentos de instrução para a juventude de ambos os sexos. Há apenas um pensionato de São Vicente de Paulo com 300 alunas e um colégio de artes e ofícios dirigido pelos salesianos, que tem 200 alunos. A imprensa (5 jornais) está inteiramente nas mãos da maçonaria, mas o bispo espera fundar em breve uma folha católica.

XVII. BRASIL. — A descoberta do Brasil é devida a um lugar-tenente de Cristóvão Colombo, Pinzón, que abordou o cabo da Consolação e dele tomou posse em nome do rei da Espanha. No ano seguinte, o português Álvares Cabral, querendo evitar as correntes da costa da África, inclinou-se demais para o oeste e encontrou-se, sem saber e sem querer, na costa do Brasil, da qual tomou posse em nome do rei de Portugal. Daí o conflito, apaziguado por Alexandre VI, que traçou sua famosa linha de demarcação da qual falamos no início. Esta dava o Brasil aos portugueses, mas por conta de um erro de cartografia, pois o mapa que serviu para a arbitragem tinha colocado o Brasil 20 graus muito a leste. O diferendo foi completamente terminado sob Filipe II em 1594. Este rei da Espanha, que governava também Portugal, traçou outra linha de demarcação que conservava o Brasil para Portugal. O calvinismo tentou introduzir-se no Brasil em 1556. Sob Filipe IV, em 1624, os holandeses apoderaram-se da capital do país, mas foram depois obrigados a capitular; outra frota holandesa fez a conquista de Pernambuco e submeteu mais da metade do Brasil, mas os holandeses foram depois definitivamente expulsos.

Em 1807, os exércitos franceses apoderaram-se de Lisboa. O rei de Portugal, João VI, embarcou para o Rio de Janeiro, capital do Brasil desde 1773, seguido de sua corte e do núncio apostólico, Mons. Caleppi. Quando retornou a Lisboa, o rei deixou no Brasil seu filho mais velho, com o título de príncipe regente; mas isso desagradou aos brasileiros que proclamaram sua independência e deram ao governo a forma de um império constitucional. Em 15 de novembro de 1889, uma revolução militar substituiu este império por uma república.

O Brasil tem uma superfície aproximativa de 8.337.218 quilômetros quadrados; é 16 vezes mais extenso que a França. Mas a população é muito rarefeita. De acordo com as recentes estatísticas, ele conta 14.333.915 habitantes; sobre este número, 14.179.615 católicos, 16.730 gregos ortodoxos, 19.957 protestantes evangélicos, 1.347 presbiterianos, 122.409 protestantes pertencentes a outras seitas, 309 muçulmanos, 1.327 positivistas e 7.257 pessoas não professando nenhum culto. A religião católica é, portanto, a da imensa maioria dos brasileiros, mas esta constatação feita, não se deveria concluir que o brasileiro seja sempre e em toda parte um bom católico. Há várias causas que colocam obstáculo a isso.

A primeira é uma causa comum a quase todos os povos da América Latina. O clero é infelizmente muito relaxado. O padre isolado de seus confrades, vivendo a seis ou sete dias de marcha de outro padre, habitando sozinho no meio de populações de costumes bastante fáceis, corre muitos perigos e tem poucos socorros para não se deixar frequentemente arrastar pela inclinação das paixões. Ele sabe, por outro lado, que, seja efeito da ignorância, seja por qualquer outro motivo, seu ministério não terá que sofrer com isso. Os fiéis recorrem ao ministério de seu pároco sem serem impedidos por suas faltas pessoais. Outra causa é a ingerência da maçonaria sobre o Brasil, não apenas desde o estabelecimento da república atual, mas desde o império filosófico e liberal de Dom Pedro. É sob seu governo que as seitas fizeram decretar a supressão das comunidades religiosas. É também à maçonaria que é devida a violenta perseguição contra os bispos que defendiam no Brasil os direitos da Igreja. Os mais célebres destes confessores são Vital Gonçalves de Oliveira, nomeado bispo de Olinda em 1871, que morreu exilado em Paris em 1878 e pertencia à ordem dos capuchinhos. Contudo, o governo mantém um ministro plenipotenciário em Roma e o Papa tem um internúncio no Rio de Janeiro.

Desde alguns anos, a situação religiosa está, aliás, um pouco melhorada. O soberano pontífice, sabendo quão raras são as vocações eclesiásticas no Brasil, endereçou, em 18 de setembro de 1899, uma carta aos bispos para lhes recomendar a ereção dos seminários, já pedida pelo concílio plenário de que falamos. Ele insiste neste ponto: é preciso procurar para esses estabelecimentos uma casa de campo para impedir que os jovens retornem às suas famílias durante as férias, o que seria para eles muito danoso por causa dos perigos aos quais se encontrariam expostos. Abordando a questão do orçamento dos cultos, ele diz que antigamente o governo retribuía o clero, mas que hoje a caridade dos fiéis deve preencher esse dever negligenciado pelo Estado. Ele preconiza para esse efeito a formação de caixas diocesanas alimentadas pelas oblações dos fiéis, a contribuição dos curas ricos que existem ainda em diversas partes do Brasil, e sobretudo a criação de confrarias que viriam em auxílio ao clero.

O Papa exprime ainda o desejo de que os padres se ocupem das obras de imprensa, não deixando nas mãos de adversários uma arma que pode desferir golpes tão terríveis; ele acrescenta que seria desejável que os católicos convencidos e os membros mais marcantes do clero brasileiro pudessem entrar no Parlamento, contanto que não fosse por ambição, mas para procurar o bem da religião em seu país.

Tal é, em poucas palavras, esta carta que traça um programa de ação para o Brasil católico.

O que dá muito a esperar pelo reerguimento religioso desta região é o número sempre crescente de comunidades de homens e de mulheres que vêm se estabelecer e prosperar. Os beneditinos do Brasil, que não eram mais que uma sombra, recrutam-se de novo. Os jesuítas, os dominicanos, os franciscanos, os lazaristas, os salesianos — estes últimos, sobretudo — desenvolveram-se enormemente. Eles se ocupam da educação dos jovens. Esses institutos religiosos enviam também missionários ao meio dos indígenas ainda pagãos. As irmãs de caridade, as damas de Sion, as franciscanas da Holanda, as religiosas de São José de Cluny, as irmãs doroteias de Roma se consagram à educação das jovens.

A história da hierarquia eclesiástica do Brasil se divide em quatro épocas diferentes. A sé da Bahia é fundada a primeira; depois, Inocêncio XI, em 1676, erige as dioceses do Rio de Janeiro, Pernambuco e Maranhão (este último no ano seguinte). É a primeira época. Cem anos depois, Bento XIV, em 1746, faz uma segunda ereção de dioceses em São Paulo, Mariana, Goiás e Cuiabá. Numa terceira época, Leão XII e Pio IX fazem ereções isoladas de alguns bispados. Leão XIII, em sua bula Ad universas orbis ecclesias, de 27 de maio de 1892, retorna às tradições de seus predecessores. Ele erige o Rio de Janeiro em metrópole, funda quatro bispados novos: Amazonas, Paraíba, Niterói ou Petrópolis, e Curityba do Paraná.

O Brasil encontra-se assim dividido em duas províncias eclesiásticas: Bahia, sé não somente metropolitana, mas ainda primacial, que tem sob sua jurisdição Amazonas ou Manaus, Belém do Pará, Fortaleza, Goiás, São Luís do Maranhão, Olinda e Paraíba. Esta província compreende todo o norte do Brasil. O sul compõe a província eclesiástica do Rio de Janeiro, que tem sob sua dependência Cuiabá, Curityba, Diamantino, Mariana ou Minas Gerais, Petrópolis, São Paulo, São Pedro do Rio Grande e Espírito Santo.

Assinalemos na Bahia um seminário diocesano, que não foi fundado senão no começo do século pelo franciscano Damásio de Abreu Vieira; no Amazonas ou Manaus, um seminário, uma comunidade religiosa e 105 escolas católicas; em Belém do Pará, um seminário, 6 colégios e 5 escolas católicas com uma população de 1.320 alunos; em Goiás, 3 comunidades de homens, uma de mulheres e um seminário; em Curityba do Paraná, 2 comunidades de religiosos, 3 de religiosas, 1 seminário, 2 colégios e uma escola católica contendo 300 alunos; em Petrópolis, 1 colégio e 4 escolas católicas, com 380 alunos; em São Paulo do Brasil, 7 comunidades de homens, 4 de mulheres, 1 seminário, 3 colégios e 36 escolas católicas; em São Pedro do Rio Grande, 4 comunidades de homens, 3 de mulheres, 1 seminário, 6 colégios e 203 escolas católicas que formarão a base do renovamento religioso desta diocese, grande como um reino da Europa.

XVIII. VENEZUELA. — Os territórios que se compreendem sob o nome de Guiana francesa, holandesa e inglesa não fazendo parte da América Latina, nós os atravessamos e chegamos mais ao norte, à Venezuela. Este território mede 1.043.900 quilômetros quadrados (o dobro da França), mas não tem senão uma população de 2.238.900 habitantes. Recebeu dos espanhóis o nome de Venezuela, ou Pequena Veneza, por causa da semelhança que ofereciam as lagoas de Maracaibo com as de Veneza e de Chioggia. Pertenceu aos espanhóis até 1822. Estes não se deixaram arrancar essas belas províncias sem luta, mas, apesar de seus esforços, a independência desses Estados foi proclamada. A Venezuela fez primeiro parte da república federativa da Colômbia, da qual constituiu o Estado oriental, depois tornou-se completamente autônoma em 1863. É regida por uma constituição elaborada em 1881.

O país forma uma província eclesiástica, a da Venezuela ou Caracas, com 5 sedes sufragâneas: Barquisimeto, Calabozo, Nova Guiana ou Angostura, Mérida e Zulia. O clero, rico sob a dominação espanhola, foi despojado de seus bens sob a república, que se contenta em lhe servir uma renda.

XIX. TABELA ESTATÍSTICA. — Quase todos os dados desta tabela nos foram fornecidos pelo Annuario ecclesiastico, Roma, 1900. Emprestamos de Werner, Orbis terrarum catholicus, Friburgo em Brisgóvia, 1890, as informações omitidas no Annuario ecclesiastico. Os números tirados de Werner são seguidos de um asterisco (*).

(Continuação da tabela estatística de circunscrições eclesiásticas na América Latina)

| ARQUIDIOCESES E DIOCESES | DATA DE EREÇÃO | POPULAÇÃO CATÓLICA | PADRES SECULARES E REGULARES | IGREJAS PARÓQUIAS E CAPELAS | | :--- | :---: | :---: | :---: | :---: | | Diocese de São Cristóvão de Havana | 1787 | 441.700 | 228 | 237 | | Diocese de Porto Rico | 1511 | 800.000 | 136 | - | | Arquidiocese de Porto de Espanha | 1850 | 415.000 | 50 | 73* | | Diocese de Roseau | 1850 | 50.000 | 21 | 26* |

MÉXICO | ARQUIDIOCESES E DIOCESES | DATA DE EREÇÃO | POPULAÇÃO CATÓLICA | | :--- | :---: | :---: | | Arquidiocese de Antequera (Oaxaca) | 1894 | 894.650 | | Diocese de Campeche | 1895 | 153.800 | | Diocese de Chiapas | 1538 | 271.620 | | Diocese de Tabasco (São João Batista) | 1880 | 116.435 | | Diocese de Tehuantepec | 1893 | 150.620 | | Diocese de Mérida (Iucatã) | 1519 | 304.820 | | Arquidiocese de Durango | 1895 | 301.600 | | Diocese de Chihuahua | 1893 | 244.400 | | Diocese de Sinaloa (Culiacán) | 1884 | 250.700 | | Diocese de Sonora (Hermosillo) | 1779 | 130.340 | | Arquidiocese de Guadalajara | 1863 | 810.400 | | Diocese de Colima | 1881 | 71.820 | | Diocese de Tepic | 1891 | 460.000 | | Diocese de Zacatecas | 1863 | 526.430 | | Arquidiocese de Linares (Monterrey) | - | 251.200 | | Diocese de São Luís de Potosí | 1854 | 481.300 | | Diocese de Saltillo | 1891 | 163.640 | | Diocese de Tamaulipas (Ciudad Victoria) | 1870 | 180.700 | | Arquidiocese de Mechoacán (Morelia) | 1863 | 1.014.640 | | Diocese de León | 1863 | 1.107.416 | | Diocese de São Tiago de Querétaro | 1862 | 220.600 | | Diocese de Zamora | 1863 | 246.460 | | Arquidiocese do México | 1546 | 778.969 | | Diocese de Chilapa | 1863 | 332.887 | | Diocese de Cuernavaca | 1891 | 160.500 | | Diocese de Tlaxcala | 1525 | 987.436 | | Diocese de Tulancingo | 1863 | 200.000 | | Diocese de Vera-Cruz | 1845 | 645.750 |

GUATEMALA, HONDURAS, COSTA RICA, NICARÁGUA, SAN SALVADOR | ARQUIDIOCESES E DIOCESES | DATA DE EREÇÃO | POPULAÇÃO CATÓLICA | | :--- | :---: | :---: | | Arquidiocese de Santiago da Guatemala | 1534 | 1.387.990 | | Diocese de Comayagua | 1531 | 380.690 | | Diocese de São José da Costa Rica | 1850 | 245.490 | | Diocese da Nicarágua | 1531 | 390.640 | | Diocese de San Salvador | 1842 | 800.900 |

COLÔMBIA | ARQUIDIOCESES E DIOCESES | DATA DE EREÇÃO | POPULAÇÃO CATÓLICA | | :--- | :---: | :---: | | Arquidiocese de Santa Fé de Bogotá | 1563 | 600.980 | | Diocese de Antioquia | 1873 | 131.500 | | Diocese de Cartagena das Índias | 1534 | 300.250 | | Diocese de Santa Marta | 1534 | 437.220 | | Diocese de Medellín | 1868 | 363.710 | | Diocese de Nueva Pamplona | 1835 | 950.480 | | Diocese do Panamá | 1534 | 240.650 | | Diocese de Pasto | 1849 | 315.640 | | Diocese de Popayán | 1546 | 450.630 | | Diocese de Socorro | 1896 | 66.000 | | Diocese de Tolima (Neiva) | 1894 | 931.000 | | Diocese de Tunja | 1880 | 750.870 |

EQUADOR | ARQUIDIOCESES E DIOCESES | DATA DE EREÇÃO | POPULAÇÃO CATÓLICA | | :--- | :---: | :---: | | Arquidiocese de Quito | 1848 | 420.560 | | Diocese de Cuenca | 1786 | 196.930 | | Diocese de Guayaquil | 1837 | 95.370 | | Diocese de Ibarra | 1865 | 100.420 | | Diocese de Loja | 1866 | 80.530 | | Diocese de Puerto Viejo | 1871 | 78.000* | | Diocese de Riobamba (Bolívar) | 1863 | 165.640 |

BOLÍVIA Arquidiocese de La Paz: 1609, 366.560 (população), 200 (sacerdotes), 134 (paróquias), 505 (igrejas e capelas). Diocese de Cochabamba: 1847, 200.320, 160, 55, 80º Diocese de Santa Cruz de la Sierra: 1605, 250.490, 105, 54, 70º PERU Arquidiocese de Lima: 1545, 606.900, 310, 411, 500. Diocese de Arequipa: 1577, 270.460, 63 (paróquias). Diocese de Chachapoyas: 1805, 95.720, 45 (paróquias). Diocese de Cusco: 1536, 450.680, 450, 106, 650. Diocese de Guamanga ou Ayacucho: 1612, 200.610, 120, 96, 212. Diocese de Huánuco: 1865, 288.400, 75, 45, 210. Diocese de Huaraz: 1861, 260.840, 75, 62, 320. Diocese de Trujillo: 1577, 580.900, 160, 400, 350.

CHILE Arquidiocese de Santiago do Chile: 1840, 1.153.780, 673, 94, 450. Diocese de Concepción: 1563, 835.790, 190, 51, 135. Diocese de La Serena: 1840, 250.530, 82, 18, 410. Diocese de São Carlos de Ancud: 1840, 84.970, 50, 17, 42º REPÚBLICA ARGENTINA E PARAGUAI Arquidiocese de Buenos Aires: 1866, 1.537.680, 24 (paróquias). Diocese de Córdoba: 1570, 480.720, 24 (paróquias). Diocese de La Plata: 1897, 1.060.000º Diocese de Paraná: 1859, 615.960, 39 (paróquias). Diocese de Salta: 1806, 816.590, 54 (paróquias). Diocese de Santa Fé: 1897, 89.000º Diocese de São João de Cuyo: 1834, 460.820, 23 (paróquias). Diocese de Tucumán: 1897. Diocese da Assunção (Paraguai): 1547, 700.000, 92 (paróquias).

PATAGÔNIA Vicariato apostólico da Patagônia setentrional: 1883, 90.000, 36, 13, 24º Prefeitura apostólica da Patagônia meridional: 1883, 9.500, 14, 6, 5º URUGUAI Arquidiocese de Montevidéu: 1897, 788.130, 125, 40º BRASIL Arquidiocese primacial da Bahia ou São Salvador: 1676, 2.060.900, 346, 226. Diocese do Amazonas ou Manaus: 1892, 400.470, 19, 30º Diocese de Belém do Pará: 1719, 600.580, 18, 98, 487. Diocese de Fortaleza ou Ceará: 1854, 955.680, 142, 75, 290. Diocese de Goiás: 1826, 600.870, 68, 100, 189. Diocese de São Luís do Maranhão: 1677, 660.950, 92, 94, 108. Diocese de Olinda ou Pernambuco: 1676, 1.901.500, 50 (paróquias). Diocese da Paraíba: 1892, 700.890. Arquidiocese do Rio de Janeiro: 1892, 2.051.620, 202 (paróquias). Diocese de Cuiabá: 1826, 100.460, 20, 14º Diocese de Curitiba do Paraná: 1892, 600.830, 85, 69º Diocese de Diamantina: 1854, 55 (paróquias). Diocese de Mariana ou Minas Gerais: 1745, 4.500.000, 395, 258, 258. Diocese de Niterói ou Petrópolis: 1892, 1.041.470, 86, 282. Diocese de São Paulo do Brasil: 1745, 1.802.690, 250, 140, 530. Diocese de São Pedro do Rio Grande: 1848, 4.120.374, 147, 95, 603. Diocese do Espírito Santo: 1895, 100.000º VENEZUELA Arquidiocese da Venezuela ou Caracas: 1803, 425.440, 102, 90, 110. Diocese de Barquisimeto: 1847, 528.215, 68, 101, 140. Diocese de Calabozo: 1863, 210.430, 38, 115, 69º Diocese da Nova Guiana ou Angostura: 1790, 400.600, 36, 50, 50º Diocese de Mérida: 1777, 425.630, 99, 117, 147. Diocese de Zulia ou Maracaibo: 1897. Uma parte dos nossos esclarecimentos sobre a América Latina foi-nos fornecida, seja pelas observações pessoais que fizemos em nossas viagens a este país, seja por nossas entrevistas com os bispos que assistiam em Roma ao Concílio Plenário da América Latina. Pode-se consultar: Chaulmer, Le Nouveau Monde ou l’Amérique chrétienne, 21, em 1 vol. in-12, Paris, 1659-1663; Davila, Teatro ecclesiastico de la primitiva Iglesia de las Indias Occidentales, 2 vol. in-fol., Madrid, 1649-1655; Bourgoing, Histoire des missions d’Amérique, Paris, 1654; Eyzaguirre, Los intereses catolicos en America, 2 vol. in-8°, Paris, 1859; Geronimo de Mendieta, Historia ecclesiastica indiana escrita al fin de siglo XVI, México, 1870; Fabié, Vida y escritos de Fray Bartholomé de las Casas, Madrid, 1880; Restrepo, La Iglesia y el Estado, Bogotá; L. Marroquin, Las cosas en su punto (Ojeada sobre la Iglesia en Colombia), Bogotá; Jose de Sanza Amado, Historia da Egreja catholica em Portugal, Brasil..., Porto; Hernzer, Colleccion de bulas, breves, y otros documentos relativos a la Iglesia de America, Paris; Mendes de Almeida, Direito civil ecclesiastico Brazileiro em suas relações com o direito canonico, Rio de Janeiro, 1866; Estadistica de la comisaria general de la orden Francescana en la republica Mexicana, Guadalajara, 1885; Orbis seraphicus, Quaracchi, 1887; Franciscalium missionum descriptio, Quaracchi, 1893; R.

Pérez, La compania de Jesus en America de 1861 hasta nuestros dias, Valladolid; Gams, Series episcoporum Ecclesiae catholicae, Ratisbonne, 1873; Werner, Orbis terrarum catholicus, Fribourg-en-Brisgau, 1890; Annales de la propagation de la foi, 1834 sq.; Les Missions catholiques, Lyon, 1868 sq.; Kirchenlexikon, t. 1, Fribourg-en-Brisgau, 1882, art. Amerika, por J. Spillmann; Moroni, Dizionario di erudizione, Veneza, 1840, 1841; Ch. Egremont, L’année de l’Eglise, 1899 sq.; Acta et decreta concilii plenarii Americae latinae, com o apêndice, que fornece todos os documentos pontifícios de interesse para a América Latina, e o elogio fúnebre de seus bispos pronunciado no concílio por Mons. Montes de Oca, 2 vol. in-8°, Roma, 1900.

Autor original: A. TANQUEREY

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