AMÉRICA (ESTADOS UNIDOS DA). PROTESTANTISMO

AMÉRICA (ESTADOS UNIDOS DA). PROTESTANTISMO

I. Classificação das diversas comunhões. II. Escolas teológicas. III. Vida religiosa.

I. CLASSIFICAÇÃO DAS DIFERENTES COMUNHÕES. — Sendo a América a terra clássica da liberdade, as comunhões protestantes desenvolveram-se nela em tais proporções que é difícil classificá-las. Não somente todas as grandes seitas estão representadas, mas cada uma delas ramifica-se em um número considerável de ramos independentes. É assim que existem 17 ramos de metodistas, 16 de luteranos, 13 de batistas, 12 de presbiterianos, etc. No último recenseamento oficial (1890), contaram-se cerca de 120 seitas protestantes e mais 150 congregações separadas que não dependem de nenhuma seita: certamente, seria difícil encontrar maior variedade; há para todos os gostos.

A causa principal dessas divisões é o livre exame, favorecido pelo caráter individualista e independente da raça americana, composta por tantas nacionalidades diferentes, e que não é restringido por nenhuma autoridade civil ou religiosa. A essa causa geral somam-se outras: a) as controvérsias doutrinárias que surgem entre membros de uma mesma seita; b) as diversas formas de governo que adotam: um bom número de metodistas, por exemplo, reconhece a autoridade episcopal, outros são presbiterianos, outros, enfim, são congregacionalistas; c) as diferenças de cor e de nacionalidade: há os batistas negros e os batistas brancos, os batistas do norte e os batistas do sul, os luteranos alemães e os luteranos dinamarqueses, noruegueses e outros; e essas diferenças puramente acidentais acarretam logo diferenças mais profundas.

Para dar uma ideia da força numérica e do progresso das principais seitas, indicaremos o número de comungantes (adultos admitidos a participar da Ceia) para os anos de 1890 e 1899, ressaltando que o primeiro algarismo é o do recenseamento oficial e o segundo é o fornecido, ao final de cada ano, pelas próprias seitas ao jornal The Independent. Ver o n.º de 4 de janeiro de 1900, p. 64º Adventistas: 60.494 Universalistas: 49.194 Menonitas: 54.457

Ao somar esses números aos das seitas menos importantes, chega-se, para o ano do recenseamento oficial (1890), ao total de 14.180.000 comungantes. Havia então uma população total de 62.622.250 habitantes; é preciso deduzir desse número 6.257.871 comungantes católicos, depois as crianças que não são contadas entre os comungantes e, finalmente, os judeus, mórmons, etc.; mas, após todas essas eliminações sucessivas, restará uma massa considerável, cerca de 38 milhões, que, cristãos de nome, não praticam sua religião. Há, portanto, um vasto campo aberto ao zelo evangélico. Pôde-se notar também, de acordo com os números fornecidos, que todas as comunhões, exceto os universalistas, estão em progresso, e quando se segue o movimento da população, vê-se que o número de comungantes aumenta em uma progressão mais forte que a da própria população: de 1880 a 1890, a população aumentou cerca de 25%, o número de comungantes em 42%. É um ganho, certamente, mas muitos pensam que o cristianismo não lucrou muito com isso, porque o número de verdades que é preciso crer para ser um comungante torna-se cada vez mais ínfimo. Há no povo americano um sentimento religioso profundamente enraizado e muito universal, que faz com que se interessem pelas questões de religião, que se respeite o cristianismo e que seja de bom tom fazer parte de uma comunhão cristã; mas esse sentimento é bem vago, mesmo quando se trata dos dogmas fundamentais da Trindade e da Encarnação; por isso, exige-se muito pouco dos leigos, muitos ministros, mesmo ortodoxos, aceitando em seu rebanho fiéis que não creem na divindade de Jesus Cristo, sob o pretexto de que as confissões de fé se dirigem ao clero e não às suas ovelhas.

II. PRINCIPAIS ESCOLAS TEOLÓGICAS. — 1.º A primeira escola teológica americana deve sua origem a Jonathan Edwards (1703-1758), que é comumente considerado como o maior filósofo que a América produziu; por isso, chama-se às vezes essa escola de edwardiana, mais frequentemente, porém, a escola teológica da Nova Inglaterra, ou simplesmente a escola americana. Seu fundador era, em filosofia, um discípulo de Locke e, em religião, um calvinista austero; por isso, fez um dever de refutar as teorias arminianas que, no início do século XVIII, haviam passado da Inglaterra para a América. Em psicologia, ele é determinista e ensina que a vontade segue invariavelmente, mas não necessariamente, as tendências antecedentes mais fortes: o pecador é, portanto, capaz fisicamente de fazer o bem, mas moralmente é inapto a fazê-lo enquanto não for regenerado pela graça de Deus. Para explicar o pecado original, ele mantém que, por uma lei especial de Deus, nossa vontade foi identificada com a de Adão. A redenção operou-se pela livre substituição de Cristo pelo pecador, mas, mesmo após a encarnação, Deus não é obrigado a regenerar e salvar os homens: sua predestinação depende sempre de seu livre arbítrio. A justificação faz-se pela fé, não enquanto esta é meritória, mas enquanto ela nos une a Cristo. A verdadeira virtude consiste no amor de benevolência que devemos aos seres segundo o grau de perfeição ou de bondade que há em cada um deles: ao Ser infinito, devemos um amor sem limites, às criaturas um amor limitado. Esses princípios foram adotados, com variantes, pelos discípulos de Edwards, a saber: Joseph Bellamy (1719-1790), Samuel Hopkins (1721-1803), John Smalley (1734-1820), Jonathan Edwards júnior (1745-1801) e Nathaniel Emmons (1745-1840). Timothy Dwight (1752-1817), presidente do colégio de Yale, suavizou singularmente essas doutrinas calvinistas para torná-las mais aceitáveis; e seu discípulo, Nathaniel Taylor (1786-1858), fê-lo ainda mais ao dizer que o pecado original não é um pecado hereditário, nem uma corrupção antecedente da natureza humana, mas somente uma disposição ou inclinação, em virtude da qual pecamos, enquanto não somos regenerados: por isso, foi tratado de semipelagiano. Essa tendência foi ainda acentuada pela escola de Oberlin, Ohio, cujo principal representante foi Charles G. Finney (1792-1875). Segundo ele, o pecador é perfeitamente capaz de se arrepender sob a ação do Espírito Santo; a fé e o arrependimento são tão necessários à justificação quanto a redenção, que não faz senão remover um obstáculo ao perdão; a felicidade é o objetivo supremo que se deve perseguir, e a santidade consiste em desejar e promover a felicidade do universo. Finalmente, as visões liberais de Albert Barnes (1798-1870) e de Lyman Beecher (1775-1863), que ensinaram a universalidade da redenção, por oposição ao estrito calvinismo, levaram a uma cisão na igreja presbiteriana e a uma distinção entre a antiga e a nova escola. A universidade de Princeton, Nova Jersey, sustentou vigorosamente as velhas doutrinas, que se podem encontrar expostas na Teologia sistemática de Charles Hodge (1797-1878), um dos melhores manuais de teologia calvinista.

2.º Escola unitária. — As doutrinas calvinistas, comumente aceitas na Nova Inglaterra, não deixavam de revoltar bom número de espíritos sérios, e vários, por via de reação, caíram não somente no arminianismo, mas ainda no unitarismo de Priestley. Em 1805, Henri Ware, unitário, foi nomeado professor de teologia na Universidade Harvard, perto de Boston, e essa escola, embora declarada mais tarde não confessional, está ainda hoje nas mãos dos unitários. Mas o grande campeão das novas doutrinas foi Channing (1780-1842), que a pureza e a nobreza de seu caráter, assim como seu talento literário, fizeram estimar mesmo por seus adversários. Andrews Norton (1786-1853) veio dar à seita o apoio de sua erudição; R. W.

Emerson (1803-1882) trouxe-lhe seu talento literário, mas foi mais longe que seus predecessores e caiu em uma sorte de transcendentalismo muito vizinho do panteísmo. Theodore Parker (1810-1860), sem ir tão longe, negou os milagres e o caráter sobrenatural do cristianismo, que, segundo ele, não é senão o fruto natural da razão humana. É assim que o unitarismo tornou-se, por assim dizer, uma ponte entre o cristianismo e o racionalismo moderado; muitos unitários, com efeito, caem no racionalismo, e eis por que, apesar de suas conquistas, eles não aumentam quase em número. Entre os defensores recentes das doutrinas unitárias, mencionemos James Freeman Clarke, morto em 1888, e A. P. Peabody, morto em 1893. A essa escola se vincula, em certa medida, a escola universalista; sem dúvida, seu fundador na América, John Murray (1744-1815), cria na Trindade; mas aquele que mais fez pela seita e formulou mais claramente suas doutrinas, Hosea Ballou (1771-1852), rejeita, como os unitários, a Trindade, a divindade de Jesus Cristo e a redenção propriamente dita.

3° Escola de Mercersburg. — É na Igreja reformada alemã que nasceu essa escola, cujos três principais chefes são F. A. Rauch (1806-1841), o filósofo, J. W. Nevin (1803-1886), o teólogo, e P. Schaff (1819-1893), o historiador; Mercersburg é o nome de um vilarejo da Pensilvânia, situado nas montanhas do condado de Franklin, onde os reformados alemães tinham seu principal seminário de teologia. A ideia-mãe da nova escola foi deixar na sombra as questões de predestinação e de graça para remeter a teologia ao seu centro, o Cristo: daí o seu nome de Cristocêntrica. Ela insiste na divindade de Jesus Cristo, que deve ser o fundamento de toda teologia cristã; vem em seguida a Igreja, fundada pelo Cristo e revestida por ele de uma autoridade divina: como ela deve durar durante todos os séculos e abraçar todas as nações, ela deve se adaptar a todos os tempos e a todos os países, e consequentemente suas decisões, assim como sua organização, não são imutáveis; o papado pôde ser útil na Idade Média, mas em nosso século de liberdade uma organização democrática é preferível. Os ministros do Evangelho recebem sua missão do Cristo por imposição das mãos, mas não é necessário que ela seja conferida por bispos. Os sacramentos não são sinais vazios de graça, como queria Zwingle, mas sinais e meios de graça operando pela fé, no sentido de Calvin. Não foi sem resistência que essas ideias foram aceitas na Igreja reformada, e mais de uma vez os chefes do movimento foram acusados de papismo, porque falavam com respeito das instituições da Igreja romana: terminou-se por reconhecer que eles não tinham deixado de ser protestantes.

Como se vê, os calvinistas (presbiterianos, congregacionalistas e reformados) e os unitários fizeram algo no domínio da teologia: os episcopais e os luteranos se contentaram em receber suas inspirações da Inglaterra e da Alemanha; os metodistas e os batistas são antes homens de ação do que de doutrina e não publicaram nada de original.

Hoje a teologia americana, seguindo o movimento alemão e inglês, tende a se tornar mais histórica e crítica do que filosófica. Entre os eruditos de renome, pode-se citar Charles A. Briggs, que suas ideias liberais em matéria escriturística fizeram excluir da Igreja presbiteriana e que acaba de ser recebido pelos episcopais: ele publica, com a colaboração de D. F. Salmond, a Bibliothèque théologique internationale, e, com a ajuda de Driver e de Plummer, o Commentaire critique international. Seus colaboradores nos Estados Unidos, para o comentário crítico, são: G. Moore, professor no seminário de Andover; H. P. Smith, antigo professor no seminário de Lane; M. R. Vincent e F. Brown, do seminário de Union em Nova York; E. L. Curtis, da Universidade de Yale; E. P. Gould e L. W. Batten, professores na Filadélfia; J. H. Ropes, C. H. Toy, da Universidade Harvard; W. R. Harper, presidente da Universidade de Chicago; J. P. Peters, antigo professor na Filadélfia; E. D. Burton, da Universidade de Chicago. Para a Biblioteca teológica, ele assegurou o concurso de H. P. Smith, professor no colégio de Amherst; de Arthur C. Mc Giffert, do seminário de Union; de F. C. Porter, G. B. Stevens e G. P. Fisher, todos os três professores em Yale; de Newman Smyth e Washington Gladden, pastores congregacionalistas em New-Haven e Columbus. Os volumes publicados até aqui mostram erudição e espírito crítico, mas bem pouca precisão e lógica do ponto de vista doutrinal.

III. VIDA RELIGIOSA. — Encontram-se na vida religiosa dos americanos as qualidades e os defeitos que eles mostram no comércio ordinário da vida: a seriedade, a atividade, a indomável e perseverante energia, o espírito de organização e, é preciso dizer também, uma certa dose de farisaísmo, que os faz crer facilmente que eles são o povo mais cristão do mundo. Em geral, mostram respeito pela religião e seus ministros; há, sem dúvida, alguns voltairianos que, como Ingersoll, morto no mês de agosto de 1899, insultam e zombam de tudo o que há de mais sagrado; mas isso é uma exceção; os homens públicos, os políticos eles mesmos, assim como os particulares, são respeitosos em relação à religião, e aqueles mesmos que não creem veem as diferentes comunhões como instituições respeitáveis. Por outro lado, quase não se encontra entre eles o que chamamos de piedade; sem dúvida, os ritualistas traduziram para o inglês algumas de nossas obras espirituais, e há algumas almas devotas que fazem delas suas delícias e vivem, como elas dizem, sob a direção do Espírito Santo; mas elas são pouco numerosas e, em geral, a vida religiosa manifesta-se no exterior. Numerosas obras e associações foram fundadas para manter e propagar a fé, seja no interior, seja nas missões.

I. OBRAS E ASSOCIAÇÕES PARA OS PRÓPRIOS ESTADOS UNIDOS. — 1º Em primeiro lugar, colocamos a Sunday-school, ou o ensino do catecismo que se dá regularmente no domingo, e às vezes em outro dia da semana. As seitas que possuem um credo preciso, como os luteranos e os presbiterianos, têm, como os católicos, um pequeno catecismo que se explica às crianças; as outras se contentam com um ensino oral, que varia segundo o catequista; mas quase por toda parte adiciona-se a esse exercício a leitura ou a explicação da Bíblia, com o apoio de mapas geográficos. Professores de talento preparam programas analíticos detalhados, publicados em revistas especiais, que facilitam singularmente a tarefa do catequista. A famosa escola que, a cada ano, durante os meses de verão, realiza-se às margens do lago Chautauqua, a oeste do Estado de Nova York, foi fundada em 1874 para formar professores de Sunday-school; e, embora seu programa contenha hoje todo tipo de exercícios literários e atléticos, ela permanece fiel ao seu objetivo primitivo e estabeleceu uma multidão de sucursais. Além disso, um certo número de Igrejas luteranas e anglicanas fundaram escolas paroquiais para contrabalançar a influência das escolas neutras; nelas, ensina-se o catecismo e a história da Bíblia todos os dias.

2º Para ajudar os jovens a perseverar, há um grande número de associações, em particular a Associação Cristã de Moços, organizada em Londres em 1844, e que se difundiu rapidamente nos Estados Unidos, onde conta 237 976 membros e possui um capital de mais de 90 milhões de francos; seu objetivo principal é agrupar os jovens de todas as diferentes comunhões cristãs para facilitar-lhes a oração e o estudo da Bíblia; mas ela também lhes fornece os meios de se instruírem e se recrearem honestamente.

Uma associação semelhante existe para as jovens mulheres. É de data mais recente e já alistou 35.000 membros. A Sociedade do Esforço Cristão dirige-se tanto aos jovens quanto às jovens; fundada em 1881, no Estado do Maine, espalhou-se tão rapidamente que conta hoje com 3.276.660 sujeitos, dos quais quatro quintos estão nos Estados Unidos; os membros comprometem-se a orar e a ler a Bíblia em particular todos os dias, a reunir-se semanalmente para orar em conjunto e, mais solenemente, mensalmente para renovar o seu ato de consagração; ademais, obrigam-se a assistir ao serviço divino e a servir a sua Igreja com todas as suas forças. Estas sociedades dirigem-se a todas as comunhões; mas, além disso, as principais seitas fundaram associações especiais ou denominacionais; os metodistas têm a Liga Epworth, estabelecida em maio de 1889 com 600 membros e que contava, no mês de outubro de 1899, 1.800.000; os episcopais organizaram a Fraternidade de Santo André, que compreende 13.000 homens, os quais se comprometem não apenas a orar pela extensão do reino de Deus, mas também a trazer semanalmente para a pregação pelo menos um de seus amigos. — Algumas comunhões, como os luteranos, os episcopais e os metodistas, possuem também diaconisas, encarregadas de ajudar os ministros no cuidado aos pobres e enfermos e na educação religiosa das crianças e dos ignorantes. Os ritualistas fundaram até mesmo ordens religiosas de homens e mulheres, que vestem o hábito monástico e fazem votos temporários; mas os protestantes são obrigados a confessar que essas imitações de nossas ordens religiosas assemelham-se muito a plantas exóticas que é difícil aclimatar em um solo estrangeiro.

3º A essas associações é preciso juntar os colégios, universidades e seminários teológicos fundados e mantidos pelas diversas comunhões: são em número considerável (os metodistas, por exemplo, têm 54 colégios e universidades), e o seu nível intelectual tende a aumentar, sobretudo nas instituições pertencentes às seitas importantes. Houve um tempo em que quase todas as universidades eram religiosas; mas, há um quarto de século, abriram-se universidades de Estado e universidades livres completamente neutras e que favorecem a indiferença.

4º É sob a direção das Igrejas protestantes, e em particular graças às mulheres, que se formaram sociedades de temperança destinadas a combater a embriaguez: elas não obtiveram completamente o objetivo que se propunham e favoreceram, por vezes, uma certa hipocrisia; contribuíram, contudo, para criar uma corrente profunda na opinião pública contra um vício outrora muito comum, mesmo entre as pessoas de boa sociedade.

5º A imprensa é também um grande instrumento de proselitismo entre as mãos dos protestantes: cada seita tem os seus jornais semanais e, frequentemente, as suas revistas e os seus folhetos distribuídos a profusão. Os metodistas, por exemplo, vendem a cada ano dez milhões de francos de obras religiosas. Além disso, a Sociedade Bíblica Americana, fundada em 1816, distribuiu desde a sua origem 63 milhões de exemplares da Bíblia; atualmente, ela espalha um milhão e meio por ano. Uma outra casa, a American Tract Society, estabelecida em 1825, distribuiu em setenta e três anos 475 milhões de exemplares de diversos livros religiosos.

6º Os orfanatos e hospitais são outros meios de propaganda, sobretudo os primeiros, onde são atraídas por vezes crianças católicas para serem criadas no protestantismo. Nestes últimos tempos, a atividade protestante desenvolveu-se muito desse lado.

7º Enfim, quando todos esses meios foram insuficientes, resta um último recurso, o despertar religioso: é uma espécie de pregação inflamada, acompanhada de cânticos e outros exercícios destinados a excitar a imaginação e a mover os sentimentos; frequentemente ela se faz ao ar livre, e as populações da vizinhança deixam as suas ocupações habituais e vêm acampar ao redor do pregador: daí o nome de camp-meetings. Por vezes, contudo, um despertar é pregado em uma grande cidade, ou mesmo no interior de um colégio ou de uma universidade. Hoje, são sobretudo os metodistas e os batistas que recorrem habitualmente a esses meios extraordinários de despertar a fé. Não se pode negar que eles tenham por vezes bons resultados; mas frequentemente degeneram em uma sorte de reunião mais ou menos alegre, onde se vai para se divertir, e que nem sempre é isenta de desordens morais.

II. MISSÕES ESTRANGEIRAS. — Os americanos voltaram também uma parte da sua atividade para as missões estrangeiras. Desde os tempos coloniais, alguns esforços foram feitos para converter os índios: é preciso confessar que eles não foram quase coroados de sucesso. Mais tarde, em 1810, foi fundada, no seminário congregacionalista de Andover, a primeira sociedade destinada a favorecer as missões, sob o nome de American Board of Commissioners for Foreign Missions; de acordo com os relatórios oficiais, essa sociedade enviou ao estrangeiro, desde a sua fundação, mais de 2000 missionários, dos quais 539 estão atualmente em serviço ativo, e despendeu cerca de 135 milhões de francos; ela mantém 2977 pastores ou catequistas indígenas, sustenta 465 igrejas contando juntas 47.122 membros, e 1284 escolas frequentadas por 56.625 alunos. Além disso, há cerca de 25 outras sociedades do mesmo gênero estabelecidas pelas principais comunhões, sobretudo os metodistas, os batistas, os congregacionalistas e os presbiterianos. Essas quatro últimas seitas consagraram às missões, durante o ano 1897, a soma de 19 milhões de francos; nesse mesmo ano, elas tinham 476.348 comungantes em países estrangeiros, um progresso notável sobre 1890, quando tinham apenas 308.901. Esses são, ao menos, os seus números, que não temos os meios de controlar, mas que cremos sinceros. Notar-se-á as somas enormes despendidas por essa obra, e os resultados relativamente medíocres obtidos por tantos esforços, sobretudo se os comparamos aos sucessos dos missionários católicos que, contudo, estão longe de ter os mesmos recursos à sua disposição. Não se pode, contudo, dizer que as missões protestantes são absolutamente estéreis: elas produziram e produzem ainda alguns resultados, e sobretudo geram consideravelmente o desenvolvimento das missões católicas.

A Conferência missionária ecumênica, que acaba de se realizar em Nova York no fim de abril de 1900, não fará sem dúvida senão dar uma nova impulsão à propaganda já tão ativa dos missionários protestantes. Com essa atividade e esse espírito de organização, o protestantismo americano está destinado provavelmente a crescer ainda durante alguns anos: ele perde sem dúvida um grande número de sujeitos, que caem no racionalismo e no indiferentismo; mas ele se recruta também pela imigração, pelos despertares religiosos e pelas suas múltiplas associações.

Há alguma esperança de ver um dia os Estados Unidos católicos? Há a cada ano um certo número de convertidos (ver o artigo precedente), e esse número aumentará à medida que tivermos um clero mais numeroso e que possa consagrar mais tempo à obra das conversões.

Os preconceitos protestantes, tão intensos há meio século, diminuem cada dia, e frequentemente desaparecem ao contato de padres que sabem juntar às boas maneiras a ciência e o espírito eclesiástico. Mas resta ainda tantos obstáculos: muitos imaginam que se pode obter a salvação em todas as comunhões cristãs; aliás, ao se tornar católico, é preciso sacrificar frequentemente os laços da amizade e da família, expor-se a perder casta, sobretudo se se é rico, e algumas vezes até mesmo se condenar à pobreza quando se foi criado no luxo; são considerações que sufocam muitas dúvidas no momento em que elas se fazem ver, e detêm muitos impulsos.

Não se pode, portanto, esperar, ao menos num futuro próximo, conversões em massa: algumas almas de boa-fé, entre as mais religiosas, unir-se-ão à Igreja; muitos protestantes tíbios cairão na indiferença; e a maioria permanecerá como é, pessoas honestas com um verniz de cristianismo, indo ao sermão uma vez por semana, recitando alguma breve oração todos os dias e reunindo-se de tempos em tempos em um clube para discorrer sobre os melhores meios de estender o reino de Deus.

OUVRAGES A CONSULTER: Robert Baird, Religion in America, 2ª ed., New-York, 1856 (a 1ª edição foi traduzida em francês, por L. Burnier, De la religion en Amérique, 1844); Bancroft, History of the United States, Boston e New-York, numerosas edições; Tocqueville, De la démocratie en Amérique, Paris, 1835; J. P. Astié, Histoire de la République des Etats-Unis, Paris, 1865; E. Laboulaye, Histoire des Etats-Unis, 5ª ed., Paris, 1870; Claudio Jannet, Les Etats-Unis contemporains, 4ª ed., Paris, 1889, t. I, C. XVIII-XXIII, XXVII; Auguste Carlier, L’histoire du peuple américain depuis la fondation des colonies anglaises jusqu’à la Révolution de 1776; Id., La République américaine, Paris, 1890, t. II; Paul de Rousiers, La vie américaine, Paris, 1899, 2 vol. in-12; James Bryce, The American commonwealth, 3ª ed., New-York, 1896, t. I. c. CVI-CVII; H. K. Carroll, The religious forces of the United States, New-York, 1893; L. W. Bacon, A history of American Christianity, New-York, 1897; American Church history series, 13 vol., New-York, 1893-1897; Fisher, History of Christian doctrine, New-York, 1896, p. 394-445; J. F. Hurst, Our theological century, New-York, 1877; W. Gladden, The Christian pastor and the working Church, New-York, 1898. — Para as estatísticas recentes, consultamos, além dos relatórios oficiais, The independent, o grande jornal protestante de New-York e The world almanac, New-York, 1899.

Autor original: G. ANDRÉ

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor