I. América inglesa até o estabelecimento da hierarquia em 1789. II. Organização do catolicismo (1789-1829). III. Afirmamento do catolicismo (1829-1866). IV. Florescimento do catolicismo (1866-1900). V. Estado atual.
I. A AMÉRICA INGLESA ATÉ O ESTABELECIMENTO DA HIERARQUIA CATÓLICA EM 1789. — A Igreja católica nos Estados Unidos é superior a cada uma das outras comunhões religiosas desse país, pelo número de seus fiéis e pela forte organização de sua hierarquia. As fontes de onde ela proveio são bastante variadas. Os Estados do Sul receberam o Evangelho em meados do século XVI por missionários espanhóis que trabalhavam em Cuba e no México; os Estados do Nordeste e do Leste conheceram a verdadeira fé por intermédio da França no século XVII; os Estados da costa do Atlântico abriram-se às influências do catolicismo graças às pregações dos padres ingleses que vieram buscar na América um refúgio contra as perseguições religiosas. Desde então, tendo os territórios das colônias espanholas e francesas sido anexados aos Estados Unidos, suas missões também entraram na organização da Igreja americana. É-nos impossível dar mesmo um curto resumo das missões indígenas às quais a Espanha e a França se dedicaram para a conversão das raças nativas por todo o território que forma hoje a República americana. Não se pode tampouco deixar de mencionar de passagem o fato da descoberta e da evangelização desses países pelos Northmans da Escandinávia nos séculos X e XI. Segundo as Sagas, monumentos autênticos da literatura islandesa, missionários teriam visitado, desde o século X, uma terra que chamavam de "Vinland", por causa da abundância de suas vinhas selvagens. Cf. Cantu, Histoire universelle, Paris, 1865, t. XII, p. 20; Goschler, Dictionnaire de théologie, art. Groënland. O Vinland não pode ser senão uma parte dos Estados Unidos atuais, correspondendo muito provavelmente às costas da Nova Inglaterra.
BIBLIOGRAFIA: I. Sobre a introdução do cristianismo na América no século XI, ver Beauvois, Origine et fondation du plus ancien évêché du nouveau monde, Paris, 1878, e os documentos que ele menciona; Gaffarel, Etude sur les rapports de l’Amérique et de l’ancien continent avant Colomb, Paris, 1889, que dá, nos capítulos IX e X, uma abundante bibliografia e remete sobretudo às fontes; Gravier, Découverte de l’Amérique par les Northmans au Xe siècle, Paris, 1894; Reeves, The Finding of Vinland, Londres, 1896; Quarterly Review, abril 1880: The norse Hierarchy in America; Jelic, L’évangélisation de l’Amérique avant Colomb, Paris, 1890; O'Gorman, Roman catholics, New-York, 1895, p. 1-12; Brugère, Histoire de l’Eglise, autographiée, Paris, 1875. II. Sobre as missões dos espanhóis junto aos índios, ver: — 1º Para a evangelização da Flórida, F. de Soto, Histoire de la conquête de la Floride, tradução francesa por de Citry, Paris, 1865; — 2º para a evangelização do Novo México, do Texas e do Arizona, Bandelier, An historical introduction to studies among the sedentary Indians of New-Mexico, Boston, 1881; Dufour, The martyrs of New-Mexico, Santa-Fé, 1880; — 3º para a evangelização da Califórnia, Adam, Life of Venerable Padre Junipero Serra, San-Francisco, 1884. III. Sobre as missões dos franceses, ver: — 1º para as missões do Maine, a leste, na costa do Atlântico, Allen, History of Norridgewock, New-York, 1829; Moreau, Histoire de l’Acadie française, Paris, 1872; — 2º para as missões da parte nordeste, ao redor dos grandes lagos e no centro do Estado atual de Nova York, as obras protestantes de Parkman, publicadas de 1887 a 1898, como: The Pioneers of France in the New-World; La Salle and the discovery of the Great-West; The Jesuits in North-America; Félix Martin, Vie du P. Jogues, martyr des missions iroquoises, New-York; Sagard, Grand voyage au pays... [Continuação da bibliografia do verbete anterior]: — 3° para as missões do sul e em particular da Louisiana: de Montigny, S. J., Relation de la mission du Mississippi en 1700, Nova York, 1861; Tranchepain, Relation du voyage des premières Ursulines à la Nouvelle-Orléans, Nova York, 1859; Marquette, Voyages et découverte de quelques pays et nations de l’Amérique du Nord; Shea, Discovery of the Mississippi Valley, Nova York, 1852; Id., Vie du P. Marquette; Le Page du Pratz, Histoire de la Louisiane, Paris, 1758. IV. Em geral, ver: Lafitau, S. J., Mœurs des sauvages américains, Paris, 1724; de Charlevoix, S. J., Histoire et description générale de la Nouvelle-France, Paris, 1744; Bancroft, Histoire de l’Amérique, tradução de M. Gotti de Gamond, Paris, 1861; P. Margry, Découvertes et établissements des Français dans l’ouest et le sud de l’Amérique septentrionale, de 1614 à 1698, Paris, 1879; C. Leclerc, Établissement de la foi dans la Nouvelle-France, Paris, 1690; O’Gorman, Roman catholics, Nova York, 1895; Shea, History of the catholic missions among the Indian tribes of the United-States, Nova York, 1860.
O nascimento do catolicismo nas possessões inglesas data da colonização de Maryland no século XVII. Já em 1584, alguns católicos ingleses tinham vindo estabelecer-se no Maine para escapar às perseguições religiosas de seu país. Um segundo ensaio de colonização católica tinha ocorrido em 1605, sob o patrocínio de Lord Arundel de Wardour, e um terceiro em 1617. Nenhuma dessas tentativas pôde ter sucesso. Finalmente, em 1634, no dia 25 de março, dia da Anunciação, Lord Cecil Baltimore, herdeiro de Lord Calvert, a quem Jaime I tinha feito concessões de terra no novo continente, aportou com dois pequenos navios, o Ark e o Dove, no ponto onde o rio Potomac se lança na baía de Chesapeake. Dois jesuítas, os Padres White e Altham, acompanhavam os colonos. O país onde se fixaram esses nobres exilados recebeu o nome de Maryland (terra de Maria) em honra de Henriqueta-Maria da França, rainha da Inglaterra, ou, segundo alguns historiadores, em honra de Maria, rainha do céu. A primeira capela onde se celebraram os santos mistérios foi a pobre choupana do P. White, que seu zelo pela conversão dos índios Paskatoways e Patuxents tornou o digno émulo dos apóstolos franceses e espanhóis.
Desde o início, o fundador da colônia afirmou por dois atos importantes as condições nas quais ele acreditava poder assegurar a paz religiosa na terra marylandesa. Partidário sincero da liberdade, que ele tinha vindo buscar com seus colonos na terra de exílio, ofereceu uma larga hospitalidade aos puritanos perseguidos da Virgínia e aos quakers expulsos da Nova Inglaterra. Por outro lado, para evitar conflitos e ciúmes dos quais o catolicismo teria sofrido, deixou aos missionários o cuidado de prover eles mesmos aos custos do culto sem subvenções do governo, reconhecendo-lhes, contudo, como aos outros colonos, o direito de adquirir domínios de onde eles poderiam retirar um rendimento suficiente para sua manutenção pessoal e para suas obras. A liberdade dos cultos e uma certa independência do clero face ao Estado impunham-se em uma sociedade composta de tantos elementos religiosos diversos, enquanto em toda parte a intolerância fazia tantas vítimas.
Sob esse regime inaugurado pela colônia católica e imitado mais tarde pela Pensilvânia, tudo parecia prometer um rápido desenvolvimento das missões. A oposição dos protestantes da Virgínia ao governo de Lord Baltimore em 1645 e a perseguição que eles sublevaram contra os católicos quase aniquilaram toda esperança. Nem um padre foi deixado em Maryland. Cf. O’Gorman, p. 132. Quando, por volta do fim do ano 1646, Lord Leonard Calvert recuperou suas possessões, os jesuítas se puseram novamente ao trabalho e, em 1649, a assembleia legislativa de Maryland proclamou solenemente a liberdade de consciência. Mas cinco anos tinham apenas decorrido quando Clayborne, governador da Virgínia, inimigo pessoal de Lord Baltimore, invadiu de novo Maryland, acusando a colônia de ter permanecido fiel ao rei Carlos I, destronado por Cromwell.
A liberdade religiosa foi oficialmente abolida e a perseguição recomeçou. O flagelo, contudo, não foi senão transitório, como a Revolução da Inglaterra. Em 1660, Carlos II restabeleceu Lord Baltimore em seus direitos e, pela terceira vez, a liberdade reapareceu nas bordas da baía de Chesapeake.
Durante trinta anos, nada perturbou a paz religiosa na província marylandesa. Os missionários, à procura de almas, dispersaram-se pelas colônias vizinhas. Encontramo-los em 1674 em Nova York, onde fundam a primeira escola católica inglesa no continente americano; dois anos mais tarde, nas terras de Long Island e de Nova Jersey; em 1681, na Pensilvânia. Sob Jaime II, em 1685, a Inglaterra recebeu como vigário apostólico o primeiro bispo católico que ali foi estabelecido desde o reinado de Isabel. Tudo prometia, portanto, o florescimento do catolicismo nas colônias inglesas, doravante colocadas sob sua jurisdição. A esperança foi de curta duração. O advento ao trono de Guilherme de Orange, em 1688, inaugurou um longo período de intolerância religiosa. Leis violentas foram portadas contra a Igreja. O banimento dos padres, a inelegibilidade dos cidadãos católicos aos cargos do Estado e as multas para aqueles que davam asilo aos jesuítas constituíram, desde essa época, um sistema de proscrições que se prolongou, mais ou menos, até a Revolução das colônias em 1775. Cf. o artigo seguinte.
Em 1755, alguns infelizes acadianos, banidos de sua pátria pelos protestantes ingleses, encontraram um refúgio entre os fiéis perseguidos de Baltimore e formaram, nesta cidade recentemente fundada, a primeira paróquia católica dos Estados Unidos. Cf. Shea, The catholic Church in colonial days, c. IV, p. 421-440; o abade Casgrain, Les sulpiciens en Acadie, p. 412. Havia nessa época quatorze padres nas missões de Maryland, da Pensilvânia e de Nova York. Os católicos dispersos sobre essa vasta extensão de território eram ao número de cerca de 15.000, sobre uma população total de três milhões de almas. Algumas modestas capelas, construídas aqui e ali, a grandes distâncias, serviam de locais de reunião aos pobres fiéis. North American Review, janeiro de 1876. Em 1773, quando a Sociedade de Jesus foi suprimida, os padres missionários secularizados formaram, com alguns outros padres, o primeiro clero paroquial da América inglesa. Tal era o catolicismo nos Estados Unidos há cento e cinquenta anos. Cf. Catholic world, t. XI.
Sob influências múltiplas, a Revolução que separou as colônias da Inglaterra (1775-1789) operou uma feliz mudança. O sexto artigo da Convenção de Filadélfia, em 1787, e a primeira emenda da constituição proposta pelo Congresso nacional, em 1789, segundo os quais o governo dos Estados Unidos se comprometia a nunca colocar obstáculo ao livre exercício da religião, deram à Igreja católica como que uma existência oficial. Deixada a toda sua força nativa de expansão, nesta sociedade mista da América onde se encontram os elementos mais diversos de nacionalidades e de religiões, ela pôde doravante entregar-se, senão sem medo, pelo menos com esperança, à sua divina missão. Durante a guerra da Independência, as relações dos católicos com o vigário apostólico de Londres tinham se tornado difíceis. O clero americano compreendeu que deveria ter seu governo próprio. Em 1784, na sequência de uma petição endereçada à corte de Roma, Pio VI nomeou o P. Carroll prefeito apostólico. Nascido em 1735, em Maryland, ele tinha sido enviado desde sua jovem idade ao colégio católico inglês de Saint-Omer. Entrado após seus estudos clássicos na Sociedade de Jesus, ele retornou à América, em 1775, ao início da Revolução, para servir a Igreja em seu próprio país. Cinco anos depois, em 1789, o soberano pontífice o colocava na primeira sede episcopal dos Estados Unidos, nomeando-o bispo de Baltimore. A Igreja americana encontrava-se assim hierarquicamente estabelecida, no momento mesmo em que se constituía o governo da União, sob a presidência de Washington, amigo pessoal de Mons. Carroll. Havia então em Maryland vinte e cinco padres, com uma população de cerca de 20.000 católicos. A Pensilvânia contava 800 fiéis; o Estado de Nova York, 1.500; os Estados do norte possuíam apenas algumas centenas: podia-se avaliar em 30.000 o número total de católicos disseminados nos Estados Unidos. A diocese de Baltimore compreendia em extensão os treze Estados primitivos, a saber: a Geórgia, as duas Carolinas, a Virgínia, Maryland, Delaware, Nova Jersey, Pensilvânia, Nova York, Connecticut, Rhode Island, Massachusetts e New Hampshire. É preciso juntar a isso todas as províncias a leste do Mississippi, exceto Nova Orleans e a Flórida, que se encontravam ainda sob a jurisdição do bispo de Havana, e alguns distritos das redondezas de Detroit, que dependiam do bispado de Quebec. Cf. O’Gorman, p. 276. O colégio de Georgetown, fundado em 1786 pelos jesuítas, era a única instituição que a Igreja possuía naquele momento. Ela não tinha ainda nem escolas paroquiais propriamente ditas, nem internatos de meninas, nem seminários, nem hospitais, nem estabelecimentos de caridade.
II. ORGANIZAÇÃO DO CATOLICISMO NOS ESTADOS UNIDOS (1789-1829). — Um dos primeiros cuidados de Mons. Carroll foi formar um clero indígena. Assim, aceitou voluntariamente a oferta que lhe fez o Sr. Emery, superior geral de Saint-Sulpice, de fundar um seminário em sua cidade episcopal (1790). Esta primeira casa sulpiciana tornou-se desde então uma fonte abundante de vida católica nos Estados Unidos. Cf. Memorial volume of the centenary of the Seminary of St. Sulpice, Baltimore, 1891. Pouco depois, em 1791, Mons. Carroll convocou em Baltimore o primeiro sínodo americano. Ele se compunha de vinte e cinco padres de cinco nacionalidades diferentes. Nesse pequeno senado da Igreja americana, elaboraram-se os primeiros elementos de disciplina eclesiástica e tratou-se a importante questão da manutenção voluntária do clero pelos fiéis.
Entretanto, a fé crescia. Os Padres jesuítas, cuja Sociedade o Papa Pio VII, pela bula Catholicae fidei, acabava de reconstituir (1801), retomavam seu colégio de Georgetown, tornado hoje uma universidade. Cf. History of Georgetown College, Washington, 1876. Em 1809, o Pe. Dubois, padre de Saint-Sulpice, mais tarde bispo de Nova York, abria em Emmitsburg, perto de Baltimore, um colégio que foi justamente chamado de "um viveiro de bispos", por causa do número considerável de prelados que ali receberam sua primeira educação clerical. Por volta da mesma época, os dominicanos estabeleciam-se no Kentucky; os agostinianos, na Filadélfia; as carmelitas belgas formavam em Baltimore a primeira comunidade de mulheres; em 1792, as clarissas, expulsas da França, expatriavam-se para os Estados Unidos; alguns anos depois, a ordem da Visitação implantava-se em Washington, e a Sra. Seton, protestante convertida, dava nascimento à Congregação das Irmãs de Caridade americanas. Ver White, Vie de Mme Seton, 2 volumes, tradução de Mme de Barberey. Os sulpicianos, por seu lado, prestavam-se às necessidades imperiosas dos tempos e espalhavam-se pelo Maryland, entre os índios do Maine e no noroeste dos Estados Unidos para ali se dedicarem às missões.
O campo da evangelização estendia-se rapidamente. Em 1797, Albany, futura capital do Estado de Nova York e antigo teatro das missões iroquesas, possuía sua primeira igreja; o Pe. Matignon, outrora professor da Sorbonne, e o Sr. de Cheverus, o futuro cardeal-arcebispo de Bordeaux, esforçavam-se para fazer penetrar a fé na Nova Inglaterra, no centro mesmo do protestantismo; o Pe. Badin, primeiro padre ordenado no seminário de Baltimore, visitava o vale do Mississippi; o Pe. de Galitzin, príncipe russo convertido e membro da sociedade de Saint-Sulpice, tornava-se o apóstolo da região das Alleghanies, enquanto o Sr. Richard, da mesma companhia, percorria Indiana, Ohio e Michigan para reanimar a fé entre os índios e os colonos franceses.
A Louisiana, anexada aos Estados Unidos em 1803, ampliou ainda mais, como se viu acima, a imensa diocese de Baltimore a oeste do Mississippi. Assim, tornou-se necessário pedir a Roma a ereção de novas sedes. Pio VII, em 1808, criou a província eclesiástica de Baltimore com quatro bispados sufragâneos: Nova York, Filadélfia, Boston e Bardstown.
A diocese de Nova York compreendeu o Estado de Nova York e a parte oriental de Nova Jersey; a diocese da Filadélfia era composta pela Pensilvânia e pelo Delaware; as províncias de Massachusetts, New Hampshire, Connecticut, Rhode Island e Vermont formavam a diocese de Boston; enfim, à diocese de Bardstown vinculavam-se o Kentucky, o Tennessee e os territórios do noroeste. Baltimore conservou a Virgínia, as Carolinas e a Geórgia; a Louisiana foi confiada a Mons. Dubourg, primeiro como administrador apostólico, depois como bispo (1815). Os prelados colocados à frente desses vastos distritos foram chamados com justiça, junto a Mons. Carroll, os Padres da Igreja americana. Mons. de Cheverus, em Boston, Mons. Dubois, em Nova York, Mons. Flaget, em Bardstown, Mons. Egan, em Filadélfia, e Mons. Dubourg, em Nova Orleans, abrem gloriosamente a lista de sua poderosa hierarquia. Sob o episcopado de Mons. Dubourg, os Padres lazaristas fundaram um seminário em sua diocese e a Sra. Duchesne abriu, perto de Nova Orleans, o primeiro convento americano das Damas do Sagrado Coração. É também a Mons. Dubourg que se deve, indiretamente, o estabelecimento da Propagação da Fé. O plano que ele formou, em sua passagem por Lyon, de retorno de Roma, em 1815, de uma associação de damas para suprir as necessidades de sua vasta diocese, foi, com efeito, a ocasião desta obra. Cf. Baunard, Vie de Mme Duchesne; Annales de la Propagation de la foi, t. 1; Visconde de Meaux, L’Eglise et la liberté aux Etats-Unis, Paris, 1893, p. 23º Tais foram os primeiros progressos da Igreja católica. Mons. Carroll morreu em 1815. Fecundo havia sido seu episcopado. O clero da arquidiocese de Baltimore contava mais de cem padres. Seu sucessor, Mons. Neale, da Companhia de Jesus, não lhe sobreviveu senão dois anos, e foi substituído por Mons. Maréchal, padre de Saint-Sulpice. Graças à sua energia, este prelado, que se comparou justamente a Mons. Carroll por seu patriotismo, pôde deter, ao menos em larga medida, um movimento de indisciplina que se produzia entre certos católicos e ameaçava a Igreja nascente. Sob a influência da Revolução e, sem dúvida, ao contato do protestantismo, as comissões laicas dos Trustees das igrejas — essas comissões correspondiam, pouco mais ou menos, aos conselhos de fábrica na França —, secundadas por alguns padres ou religiosos turbulentos, pretendiam ter o direito, como nas seitas protestantes, de fundar igrejas, de escolher e nomear os pastores sem o assentimento do bispo e, se necessário, depô-lo contra a sua vontade; elas se atribuíam a administração completa das propriedades eclesiásticas e virtualmente a direção das paróquias. Começada em Nova York, essa agitação tendia a tomar a aparência de uma revolta aberta contra a autoridade religiosa. Viu-se acentuar na Filadélfia onde, sob o episcopado de Mons. Egan, suscitou um cisma bastante prolongado; em Norfolk, na Virgínia, em Charleston, nas Carolinas, em Nova Orleans, na Louisiana, e mais tarde em Buffalo, no Estado de Nova York. Mons. Maréchal obteve a condenação pelo breve Non sine magno do Papa Pio VII. Cf. Visconde de Meaux, op. cit., p. 273-291. Um outro perigo, não menos grave, aparecia no horizonte: a ingerência estrangeira nos assuntos da Igreja americana, principalmente no que dizia respeito à nomeação dos bispos. Cf. O’Gorman, p. 304. Mons. Maréchal obteve do soberano pontífice, para os bispos, o direito de apresentar os candidatos aptos ao episcopado. Ele livrava, assim, a Igreja da América do controle indevido dos Estados europeus, para torná-la dependente apenas de Roma, e fortificar seus membros em seu apego à Igreja católica romana, bem como em sua devoção à sua pátria americana. Grande administrador, apóstolo incansável, Mons. Maréchal teve a consolação de ver o soberano pontífice reconhecer, pela criação de novas sedes, a extensão do catolicismo ao Novo Mundo. As duas Carolinas e a Geórgia formaram a vasta diocese de Charleston, que Roma confiou a Mons. England, um dos mais notáveis prelados dos Estados Unidos pela extensão de seu saber, pela atividade de seu zelo e pela influência que exerceu sobre os concílios daquela época; o Alabama e a Flórida constituíram, em 1822, um vicariato apostólico sob a administração de Mons. Portier, lazarista; a Louisiana foi dividida em duas grandes dioceses: a de Nova Orleans e a de Saint-Louis. Mons. Maréchal morreu em 1828, e teve como sucessor Mons. Whitfield, de origem inglesa, antigo aluno do seminário de Lyon. Para realizar o projeto de seu predecessor, o novo bispo de Baltimore convocou, em sua cidade episcopal, o primeiro concílio provincial (1829); seis bispos reuniram-se ali. A carta coletiva dos Padres desta assembleia ao soberano pontífice é um testemunho autêntico dos progressos da Igreja nos Estados Unidos. «Deus nos abençoou», diziam eles. «Seis seminários, nove colégios, trinta mosteiros de mulheres, várias ordens religiosas de homens; eis nossa glória e nossa consolação!» Aqui termina a primeira fase da Igreja americana, justamente chamada a época de seu estabelecimento e de sua organização.
Para este período, além das obras mais extensas mencionadas ao final do artigo, veja Mons. Bayley, A brief sketch of the early history of the catholic Church, Baltimore, 1874; Memoirs of right Rev. G. Bruté, Baltimore, 1870; Campbell, Life and times of Arch. Carroll, Baltimore, 1860; Hamon, Vie du cardinal de Cheverus; Desgeorges, Vie de Mgr Flaget, évêque de Bardstown, Paris, 1855; Brownson, Life of Prince Galitzin, New-York, 1873; Statuta synodi Baltimorensis, anno 1794 celebrata, reproduzidos na coleção dos concílios de 1829 a 1840; Gil Mary Shea, Life and times of Arch. Carroll, 2 vol., New-York, 1880; Brent, Historical sketches of Arch. Carroll, Baltimore, 1843; Spalding, Sketches of early catholic missions in Kentucky, Louisville, 1870.
III. CONSOLIDAÇÃO DO CATOLICISMO NOS ESTADOS UNIDOS. — Após as guerras de Napoleão e com a paz de 1815, os Estados Unidos entraram em um período de progresso e prosperidade que não foi sem influência sobre o desenvolvimento da Igreja católica, mas que a expôs a novos perigos. Desde a formação do governo federal, quarenta anos haviam sido suficientes para elevar a treze milhões de almas a população do país. Cf. Fiske, History of the United States, New-York, 1897, p. 304.
Novos Estados haviam sido criados no vasto território que se estende entre as montanhas do leste e o Mississippi. Uma nação nova, por assim dizer, havia se desenvolvido no oeste. A imigração europeia, sobretudo irlandesa, começava a verter seus fluxos apressados sobre o novo continente, a ponto de excitar a inveja dos descendentes dos primeiros colonos ingleses e puritanos. Foi essa a origem do movimento conhecido sob o nome de Native Americanism. Dirigido inicialmente contra os estrangeiros, tornou-se logo, sob a influência de preconceitos religiosos, uma oposição sistemática ao catolicismo, considerado antinacional. Cf. O’Gorman, p. 341. Sob o especioso pretexto de patriotismo, uma verdadeira perseguição assolou os católicos. Tentou-se excluí-los dos cargos civis. Na Filadélfia, em 1843, igrejas foram destruídas e o sangue correu; em Boston, em 1844, o convento das ursulinas foi entregue às chamas e a cidade ameaçada de guerra civil; no mesmo ano, Nova York não escapou senão com grande dificuldade de sangrentas colisões. Uma imprensa odiosa espalhava por toda parte suspeitas e calúnias. A questão das escolas, muito debatida naquela época e que permaneceu desde então um problema difícil de resolver, exacerbava ainda mais os sentimentos anticatólicos da população protestante. Ver adiante. A Igreja encontrava-se seriamente ameaçada em sua existência social; ela precisava reunir todas as suas forças contra os perigos, sem deixar, contudo, de se desenvolver em meio ao prodigioso crescimento da nação. Tais foram as razões de uma série de concílios provinciais cujo salutar eco foi repercutir em numerosos sínodos diocesanos, e que contribuíram poderosamente para o fortalecimento da Igreja americana naqueles tempos conturbados. Bastará fazer aqui a simples nomenclatura dessas assembleias legislativas do episcopado americano. O segundo concílio provincial realizou-se em 1833. Cf. Concilia provincialia habita ab anno 1829 usque ad annum 1849, Baltimore, 1892. A hierarquia compunha-se então de doze bispos, entre os quais contavam-se seis franceses, e de trezentos e oito eclesiásticos, dos quais setenta de origem francesa. Foi nesta reunião de prelados que foi adotado, com a aprovação de Roma, um modo de nomeação dos bispos completado, em 1884, pelos decretos do terceiro concílio nacional. Ver adiante. Os Padres do concílio acreditaram ser seu dever precaver oficialmente os fiéis contra a imprensa anticatólica que começava a espalhar seus preconceitos na nação. Antes de se separarem, solicitaram a Roma a criação das dioceses de Vincennes e de Detroit. A diocese de Vincennes, desmembrada daquela de Louisville ou de Bardstown, deveria abranger o Estado de Indiana e a parte leste de Illinois; foi confiada a Mons. Bruté, sacerdote de São Sulpício, que havia acompanhado Mons. Flaget à América, em 1808. Cf. Bayley, Memoirs of right Rev. Bruté. Vários bispos franceses como Mons. de la Hailandière (1839), Mons. Bazin (1847), Mons. de Saint-Palais (1849), ocuparam esta sede episcopal. Foi nesta diocese que um jovem padre da congregação de Santa Cruz de Le Mans, o Pe. Sorin, veio abrir, em 1842, uma escola que se tornou desde então a florescente universidade católica de Notre-Dame. Cf. Silver Jubilee of the University of N.-D. Indiana, 1892. A diocese de Detroit no Estado de Michigan, teatro clássico das missões francesas no século XVIII, foi por muito tempo administrada pelo Pe. Badin, primeiro aluno de São Sulpício ordenado na América. De 1833 a 1849, realizaram-se em Baltimore seis concílios provinciais, sob a presidência de Mons. Eccleston. Cada uma dessas assembleias solicitou a Roma a ereção de novas sedes. Ao terceiro concílio (1839) corresponde a criação por Gregório XVI dos bispados de Pittsburg na Pensilvânia, cf. Lambing, History of the diocese of Pittsburg, Pittsburg, 1860; de Nashville no Tennessee, e de Dubuque em Iowa. No quarto concílio (1840), os Padres solicitaram e obtiveram a criação do bispado de Natchez no Estado do Mississippi: foi confiado a Mons. Chance, da sociedade de São Sulpício. Cf. Janssens, History of the catholic Church in the city of Natchez, Nova York. Após o quinto concílio (1843), o soberano pontífice erigiu as sedes episcopais de Little Rock na parte oeste do Arkansas, de Chicago em Illinois, de Milwaukee em Wisconsin, de Hartford em Connecticut, e confiou ao zelo de Mons. Blanchet o vicariato apostólico do Oregon, que se estendia ao sul até a Califórnia mexicana, ao norte até a província russa do Alasca, ao leste até as montanhas Rochosas. No ano seguinte, a cidade de Oregon tornou-se a capital de uma província eclesiástica composta por dois dioceses: aquela de Vancouver, nas possessões inglesas, e aquela de Nesqually, nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, Saint-Louis foi erigida em metrópole com Dubuque, Nashville, Chicago e Milwaukee como sufragâneas. O sexto concílio (1846) compunha-se já de vinte e três bispos; obteve a formação dos bispados de Buffalo e de Albany no Estado de Nova York, e de Cleveland em Ohio. Por ocasião do sétimo concílio, Roma julgou dever fortificar a hierarquia pelo estabelecimento de três novas províncias eclesiásticas: a de Nova Orleans, que compreendeu as dioceses de Mobile, Natchez, Little-Rock e Galveston; a de Cincinnati com Louisville, Detroit, Vincennes e Cleveland como sufragâneas; a de Nova York, composta dos bispados de Boston, Hartford, Albany e Buffalo. Além disso, novos assentos foram adicionados aos que já existiam: os de Savannah e de Wheeling na província de Baltimore e o de Saint-Paul em Minnesota; este último teve como primeiro titular Monsenhor Crétin, missionário francês.
Em 1845, após a batalha de Santa-Anna, os Estados Unidos anexaram o Texas, isto é, um território equivalente a quase a Áustria, a Itália e a Suíça reunidas (Cf. Fiske, p. 333). O tratado de Guadalupe (1848), que pôs fim à guerra do México, adicionou ainda as províncias da Califórnia e do Novo México e vários outros Estados adjacentes que superam em extensão a Alemanha, a França e a Espanha. A Igreja teve, portanto, de tomar posse desses campos imensos, fecundados outrora pelos missionários espanhóis, mas caídos em abandono há muito tempo. Ela formou três vicariatos apostólicos: o do Texas (1841), sob administração de Monsenhor Timon, lazarista francês; o do Novo México (1848), confiado a Monsenhor Lamy, também ele de origem francesa; e o do território indígena que se estendia, desde as fronteiras do Arkansas e do Missouri até as montanhas Rochosas, sobre todo o território ocupado atualmente pelos Estados das duas Dakotas, de Nebraska, de Kansas, de Colorado, de Wyoming e de Montana. Monsenhor Alemany, dominicano espanhol, foi nomeado ao assento episcopal de Monterey na Califórnia.
Este prodigioso desenvolvimento da jurisdição eclesiástica não pôde realizar-se sem heroicos labores. Vários operários evangélicos morreram na tarefa, vítimas de seu zelo. A penúria de padres e a falta de recursos materiais forçaram a maioria dos bispos dessas regiões a ir solicitar na Europa vocações e socorros pecuniários. Nessas circunstâncias difíceis, a obra da Propagação da Fé rendeu imensos serviços à Igreja americana. Até este dia, ela distribuiu às diferentes dioceses dos Estados Unidos perto de vinte e cinco milhões de francos. Por outro lado, a cada assembleia do episcopado, a disciplina eclesiástica se fortificava por uma legislação sábia e progressiva.
Graças à direção dos pastores, a vida católica dos fiéis acentuava-se ainda mais diante dos perigos que a ameaçavam.
O movimento de Oxford fez sentir sua influência até na América; apesar dos ataques dos quais o catolicismo era objeto, brilhantes inteligências vieram buscar em seu seio a paz e a luz: Brownson, célebre filósofo e publicista; Hecker, o futuro fundador da ordem dos paulistas; Walworth, filho do chanceler do Estado de Nova York, abraçaram nessa época a fé romana. As forças católicas dos Estados Unidos apareceram sobretudo no primeiro concílio nacional realizado em 1852, em Baltimore, sob a presidência de Monsenhor Kenrick, cujas obras de controvérsia e de teologia o colocaram no primeiro plano entre os prelados americanos: cinco arcebispos e vinte e quatro bispos fizeram parte desta imponente assembleia. Ao mesmo tempo, catedrais eram construídas em diversas dioceses; seminários abriam-se em Troy e em Cincinnati; os sínodos diocesanos e os concílios provinciais sucediam-se no Oeste e no Leste. Novos assentos eram criados, sobretudo nas partes da União para onde se dirigia, preferencialmente, a imigração; pode-se citar o de Brooklyn no Estado de Nova York, o de Newark em Nova Jersey, o de Burlington em Vermont, o de Fort-Wayne em Ohio e o de Quincy no sul de Illinois. Os vicariatos apostólicos de Nebraska, nas Dakotas, e de Marysville, na Califórnia, facilitaram a evangelização dessas regiões remotas. É assim que a Igreja se afirmava cada vez mais na república americana.
A guerra de Secessão (1861-1866) foi para ela uma nova prova. Ela teve muito a sofrer nos Estados do sul e do oeste, transformados em campo de batalha. Mas, graças à poderosa corrente de vida católica que os concílios tinham feito circular por toda a extensão do território, sua unidade tornou-se ainda mais forte. Divididos em política, os fiéis permaneceram ligados aos seus bispos do ponto de vista religioso. No meio dos exércitos, nas prisões e nos hospitais, os padres e as religiosas, sem distinção de partidos, mostraram uma dedicação que conquistou à Igreja católica o respeito unânime da nação. O governo de Washington não temeu, inclusive, enviar à Europa o arcebispo de Nova York, Monsenhor Hughes, para pleitear junto aos governos os interesses da república.
Após a guerra de Secessão, diante das divisões políticas do país e da desorganização das diversas comunhões religiosas, a Igreja sentiu, mais uma vez, a necessidade de fazer, por assim dizer, o recenseamento de suas forças antes de se lançar em novas obras. Com a aprovação de Pio IX, Monsenhor Spalding, sucessor de Monsenhor Kenrick na sede de Baltimore, convocou o segundo concílio nacional. "É preciso", dizia ele em sua carta aos bispos, "que a Igreja apresente à nação sua indestrutível unidade; ela deve avisar as medidas a tomar na fase nova que começa para a vida nacional; ela deve prover às necessidades de quatro milhões de negros que se encontram jogados sobre seus braços; resta-lhe, enfim, completar sua disciplina." Em resposta a este convite, em 7 de outubro de 1866, sete arcebispos, trinta e oito bispos, três abades mitrados e cento e vinte teólogos reuniram-se na catedral de Baltimore. Por mais imponente que fosse esta hierarquia, o concílio julgou necessário pedir ao soberano pontífice que a fortificasse ainda mais, concedendo o título de metropolitanos aos bispos de Filadélfia e de Milwaukee. Obteve, ao mesmo tempo, a ereção das sedes de Wilmington em Delaware, de Scranton e de Harrisburg na Pensilvânia, de Green-Bay e de Lacrosse em Wisconsin, de Omaha em Nebraska, de Saint-Joseph no Missouri, de Columbus em Ohio, de Grand-Valley na Califórnia e de Rochester no Estado de Nova York. É preciso adicionar a estes resultados do concílio a criação dos vicariatos apostólicos da Carolina do Norte, de Montana, do Arizona e do Colorado. Cf. os atos do concílio e a obra do Padre Smith sobre o segundo concílio nacional de Baltimore, Nova York, 1880. A Igreja tinha verdadeiramente tomado raiz no país; ela podia, desde então, florescer: esta será a terceira fase de sua história.
IV. FLORESCIMENTO DO CATOLICISMO NOS ESTADOS UNIDOS (1866-1900). — Não pode entrar no plano deste artigo descrever em detalhe todos os eventos da história eclesiástica dos Estados Unidos desde o segundo concílio nacional (1866). Bastará mencionar os principais fatos que marcam o constante progresso do catolicismo na república americana. A nomeação do arcebispo de Nova York ao cardinalato, em 1875, foi como o coroamento desta hierarquia que, em menos de um século, tinha se constituído tão fortemente. Na mesma época, Boston, Milwaukee, Filadélfia e Santa Fé foram elevadas ao posto de igrejas metropolitanas. A multiplicação prodigiosa dos fiéis e do clero, o desenvolvimento das ordens religiosas, a diversidade das obras às quais a Igreja devia se dedicar, o número sempre crescente das instituições que ela fundava, o contato cada vez mais íntimo que ela mantinha com os poderes civis e com a nação, as necessidades e os perigos do novo estado social, o progresso material em si, exigiam imperiosamente que o episcopado inteiro se reunisse uma terceira vez para concertar seus meios de ação e aperfeiçoar ainda mais o espírito de disciplina que faz sua força. O soberano pontífice Leão XIII fez vir a Roma os arcebispos americanos para preparar com eles o futuro concílio nacional que se abriu em 1884 em Baltimore, sob a presidência de Monsenhor Gibbons, nomeado para este efeito delegado apostólico da Santa Sé. Setenta e cinco arcebispos ou bispos, seis abades mitrados, trinta e dois superiores de ordens religiosas, onze superiores de seminários e mais de cem teólogos formaram essas solenes assembleias da Igreja da América. Desta imponente assembleia saiu uma legislação eclesiástica completa, cujo mérito incontestável é sua admirável adaptação às circunstâncias de tempo e de país. As questões mais importantes sobre as quais ela versa são: as relações do clero com o episcopado, os direitos dos metropolitanos, a propriedade eclesiástica, as ordens religiosas, a educação do clero, as universidades, os seminários e as escolas, o ministério sacerdotal, a disciplina eclesiástica e as causas matrimoniais.
A carta pastoral que os Padres endereçaram aos fiéis ao final do concílio insiste na submissão que é devida à autoridade infalível do soberano pontífice, exalta a grandeza do matrimônio cristão em suas prerrogativas de unidade e de indissolubilidade, recomenda uma formação vigorosa da juventude católica, põe em guarda contra os perigos das sociedades secretas e repudia formalmente a pretensa oposição que certos espíritos persistiam em ver entre a Igreja e o verdadeiro patriotismo. Cf. Acta concilii tertii Baltimorensis, Baltimore, 1886. O arcebispo de Baltimore foi elevado à dignidade de cardeal em 1886: ele é uma das grandes figuras da Igreja americana nesta terceira fase de sua história.
Desde o concílio, novos assentos foram criados: o de Syracuse, na província de Nova York; o de Saint-Augustin, na província de Baltimore; os de Concordia, Kansas-City, Wichita, Leavenworth, na província de Saint-Louis; os de San-Antonio e de Brownsville, na província de Nova Orleans; o de Boise-City, no Oregon; os de Cheyenne e de Lincoln, sufragâneos do arcebispado de Dubuque; os de Belleville e de Peoria, na província de Chicago; os de Saint-Cloud e Duluth, sob a jurisdição metropolitana de Saint-Paul. É em meio a esse florescimento da vida católica que ocorreu, em 1889, o centenário da fundação da primeira diocese e do estabelecimento da hierarquia eclesiástica nos Estados Unidos. O contraste era marcante: ao invés de um bispo e quinze mil católicos, havia naquele momento quatorze arcebispos, setenta e três bispos, dez mil padres seculares ou regulares e perto de dez milhões de fiéis.
A este brilhante aniversário, ao qual assistia Monsenhor Satolli, representante da Santa Sé, reportam-se dois fatos importantes que não são as menores provas do florescimento da Igreja americana: o primeiro congresso católico leigo sob a direção da autoridade eclesiástica, e a fundação da Universidade Católica de Washington, cujo conselho nacional de Baltimore havia emitido o voto em 1852. No congresso, onde se reuniu a elite dos fiéis, várias graves questões foram estudadas em comum, entre outras a da imprensa, da organização das associações religiosas e da cooperação dos leigos às obras do clero.
Leão XIII deu o coroamento a esta maravilhosa evolução do catolicismo na América pela criação de uma delegação apostólica permanente em Washington (1892). Monsenhor Satolli, tornado desde então cardeal, foi o primeiro representante da Santa Sé nos Estados Unidos. Esta delegação é estritamente eclesiástica e não diplomática. O delegado não é acreditado junto ao governo de Washington, mas junto aos arcebispos e aos bispos da República americana. As autoridades civis sempre renderam de bom grado a Monsenhor Satolli e a seu sucessor, Monsenhor Martinelli, da ordem dos agostinianos, as honras que reclama sua alta situação, como fazem aliás para com todos os dignitários da Igreja romana; mas as relações entre os dois poderes são oficiosas mais do que oficiais e não acarretam nenhuma consequência diplomática.
A estatística que segue colocará sob os olhos do leitor os progressos realizados pela Igreja católica da América, nas diversas fases das quais acabamos de esboçar a história:
[Tabela de Estatísticas omitida por legibilidade, mantendo-se a referência final]
Veja o Catholic Directory, de 1900. Ele dá para a população católica um aumento de 222.000 almas sobre o ano 1898. Após ter percorrido a história da Igreja americana durante um século, parece evidente que suas conquistas não se limitam ao fato puramente extrínseco da imigração europeia. Mas até que ponto o progresso é real? Não houve perdas consideráveis que poderiam fazer duvidar do futuro do catolicismo neste imenso país protestante? Cahensly dava para a razão de sua demanda de "bispos nacionais" que, sem um clero da mesma nacionalidade que os fiéis, a fé se perdia. Ele avaliava em vinte milhões o número de católicos que deveria haver hoje nos Estados Unidos. Murray, em seu Popular history of the Catholic Church, afirma que há vinte e quatro milhões de irlandeses, o que suporia quase tantos católicos, se não tivesse havido imensas perdas. Segundo Gil Mary Shea, dois ou três milhões de fiéis teriam se desviado: seguindo seus cálculos, a população católica deveria elevar-se a doze ou treze milhões de almas. Que tenha havido perdas reais, isso se compreende. As perseguições do período das leis penais desde 1688 até a revolução contra a Inglaterra, a escassez de padres nos inícios, os escândalos e os cismas de certos eclesiásticos, o ostracismo ao qual a sociedade protestante condenava os católicos, a falta de estabelecimentos para a educação da juventude, são tantas causas que explicam o desaparecimento da fé em um certo número. Hoje, todas essas lacunas se preenchem pelo simples fato do desenvolvimento progressivo das instituições católicas. A descrição do estado atual da Igreja nos Estados Unidos terminará de dar uma ideia exata desse desenvolvimento.
V. ESTADO ATUAL DO CATOLICISMO. — I. PROVÍNCIAS ECLESIÁSTICAS E BISPADOS. — Há hoje nos Estados Unidos quatorze províncias eclesiásticas, sessenta e nove dioceses, três vicariatos apostólicos e a prefeitura apostólica do Alasca. O número de católicos é de 10.129.677, sobre uma população total de 72 milhões de almas. O modo de nomeação dos bispos foi regulado com a aprovação da Santa Sé pelos dois últimos concílios nacionais de 1866 e 1884. Eis a substância dessa disciplina: todos os três anos, cada bispo envia ao seu metropolita e à S. C. da Propaganda o nome dos eclesiásticos que julga dignos do episcopado. Quando uma sé torna-se vacante, todos os párocos inamovíveis da diocese e os padres que têm o título de consultores são convocados em assembleia pelo metropolita ou pelo bispo mais idoso da província e, após terem prestado o juramento de não eleger segundo sua consciência senão o sujeito mais digno, eles enviam uma lista de três candidatos aos bispos da província e à Propaganda em Roma. Dez dias após, os bispos reunidos, por sua vez, escolhem também três nomes sem estarem obrigados a levar em conta a lista dos consultores, contanto, todavia, que deem à S. C. da Propaganda as razões que têm para agir assim. Roma reserva-se o direito de fazer a escolha definitiva como julga a propósito. Se se trata de eleger um arcebispo ou um coadjutor ao arcebispo, todos os metropolitas dos Estados Unidos devem ser consultados. Cf. O’Gorman, p. 466.
Os prelados que compõem a hierarquia eclesiástica na América pertencem, de fato, a nacionalidades diferentes. Mas a homogeneidade da Igreja não subsiste menos em razão da unidade nacional que forma a sociedade civil e política. Em 1890, a questão da nomeação em direito de bispos nacionais para cada um dos povos cujos representantes se encontram nos Estados Unidos criou uma certa agitação conhecida sob o nome de "Cahenslysmo", porque foi Cahensly, presidente na Alemanha da obra dos emigrantes, que pediu a Roma, com o concurso da Áustria e da Itália, para dar às diversas populações dos Estados Unidos bispos de sua nacionalidade de origem. Esse perigo de esfacelamento da Igreja americana em várias igrejas nacionais distintas foi evitado pela recusa de Leão XIII. Cf. Brunetière, Le catholicisme aux Etats-Unis, na Revue des Deux Mondes, 1898, e o visconde de Meaux, L’Eglise catholique et la liberté aux Etats-Unis, apêndice, p. 411.
A unidade da hierarquia eclesiástica aparece ainda mais nas assembleias anuais dos arcebispos. Cada ano, com efeito, os metropolitas se reúnem em uma cidade designada de antemão para ocupar-se seja dos interesses da universidade católica, seja das questões religiosas ou sociais que tocam a vida católica e a missão da Igreja americana.
O quadro seguinte é tirado do anuário publicado em Milwaukee para o ano de 1900.
Cada arquidiocese é seguida das dioceses que dela dependem.
A província do Alasca tem uma extensão de 531.409 milhas quadradas inglesas, isto é, mais de duas vezes a superfície da França. Foi erigida em prefeitura apostólica em 1894. Possui apenas cinco igrejas com residência de missionários. Treze padres jesuítas dedicam-se ali à evangelização dos esquimós e de outras tribos indígenas; as irmãs de Sainte-Anne do Canadá ocupam-se ali das escolas e de cinco instituições de caridade.
II. ORDENS RELIGIOSAS E CONGREGAÇÕES. — A prodigiosa expansão que tiveram, nestes últimos tempos, as ordens religiosas de homens e de mulheres não é um dos sinais menos significativos do vigor religioso da Igreja americana. Todas as ordens que a Europa ocidental possui estão agora naturalizadas nos Estados Unidos, exceto os cartuxos. Várias congregações tiveram ali mesmo o seu nascimento: a congregação das irmãs oblatas de Saint-François, fundada em 1810 por um padre sulpiciano, M. Joubert, para a direção das escolas de negros; a das irmãs de caridade da Sra. Seton; a sociedade dos paulistas, fundada pelo P. Hecker para a conversão dos protestantes (cf. Hewitt, Vie du P. Hecker, New-York, 1889); enfim, o ramo americano dos padres josefitas para a evangelização dos negros. Além de suas missões, esta última congregação dirige hoje dois seminários, um colégio, numerosas escolas e algumas paróquias. Cf. a pequena obra do P. Slattery, superior geral dos josefitas na América, Our Africa, Baltimore, 1875. Existem atualmente nos Estados Unidos quarenta e cinco congregações religiosas de homens e noventa e cinco de mulheres. Trinta e seis são de origem francesa. São eles: os cistercienses reformados ou trapistas, os irmãos maristas, os padres assuncionistas, a congregação da Sainte-Croix, os padres do Saint-Esprit, a sociedade de Marie, os padres oblatos de Marie-Immaculée, os padres oblatos do Sacré-Cœur (Pontigny), os missionários do Sacré-Cœur (Issoudun), os irmãos do Sacré-Cœur (le Puy), os padres missionários da Salette, a comunidade de Saint-Viateur (Lyon), as petites sœurs de l’Assomption (Paris), as irmãs de Notre-Dame de Bon-Secours (Troyes), as irmãs do Bon-Secours (Paris), as irmãs de Saint-Vincent-de-Paul, as fidèles compagnes de Jésus (Paris), as irmãs do Bon-Pasteur (Angers), a sociedade das auxiliatrices des âmes du purgatoire (Paris), as dames du Cénacle (Paris), as irmãs servantes du Sacré-Cœur de Marie (Lyon), as irmãs de Saint-Joseph de Cluny, as irmãs de Saint-Joseph (Chambéry), as petites sœurs des pauvres, as dames du Sacré-Cœur, as filles de Notre-Dame de Sion, as filles du Cœur-Immaculé de Marie, a sainte union du Sacré-Cœur (Douai), as religiosas da Visitation, as irmãs da Croix et des Sept-Douleurs, os padres de Saint-Sulpice, os padres da Miséricorde.
III. UNIVERSIDADES CATÓLICAS E SEMINÁRIOS. — Distinguem-se várias classes de instituições que possuem o título de universidades.
1º Universidade católica de Washington. — Deve-se colocar em primeiro lugar a universidade católica estabelecida em Washington, sob a jurisdição imediata da hierarquia eclesiástica. O cardeal de Baltimore é o seu chanceler de direito. Dom Conaty sucedeu a Dom Keane como reitor. Os edifícios espaçosos encontram-se a três milhas de Washington, em um dos subúrbios da cidade. Fundada em 1888, a universidade católica possui hoje as três faculdades de direito, de filosofia e de teologia, que deverão completar-se um dia com a criação da faculdade de medicina. A faculdade de teologia compreende quatro ramos de estudos eclesiásticos com as suas respectivas cátedras: as ciências bíblicas e o curso de línguas orientais semíticas, a teologia dogmática e a teologia moral, às quais é preciso juntar a teologia ascética, as ciências históricas em sua conexão com a apologética e a patrologia. Sete professores, vários agregados e conferencistas lecionam nesta faculdade.
Nove professores, quatro agregados e diversos repetidores compõem a faculdade de letras ou de filosofia, à qual se vinculam as cátedras de filosofia moral, de ciências naturais e exatas, de literatura grega e de literatura inglesa. Além dos cursos de direito civil e de direito romano, a faculdade de direito compreende as diversas ciências sociais, econômicas e políticas que lhe permitem exercer uma influência crescente sobre a juventude laica. Um ensino tecnológico ou de matemática aplicada é agregado a essas três faculdades. O número de alunos é, para o ano de 1900, de 176. A afiliação à universidade de diversos colégios e seminários de diferentes dioceses e as assembleias gerais dos professores de diversas instituições eclesiásticas sob a presidência do reitor da universidade provocam, por todo o país, uma emulação crescente, e permitem esperar essa unidade de ensino que será mais tarde a força da Igreja americana. O Bulletin da universidade, de abril de 1900, anunciava as questões relativas à unidade de ensino que deveriam ser tratadas em 1900, no congresso dos professores. Em torno dos edifícios da universidade, agruparam-se diversos colégios ou noviciados de ordens religiosas que frequentam os seus cursos, como o colégio de Saint-Thomas, dirigido pelos Padres paulistas, o colégio dos Padres maristas e o dos Padres de Sainte-Croix, o colégio de Terre-Sainte sob a direção dos Padres franciscanos de Jerusalém. A universidade de Washington já faz sentir a sua ação nas Summer schools e nas Winter schools, ou escolas de inverno e de verão. Chamam-se por este nome as reuniões de professores, eclesiásticos e leigos de toda condição, que ocorrem durante as duas estações de férias em cidades determinadas. Oradores de escolha aí proferem conferências sobre todas as grandes questões religiosas, científicas ou históricas. Consciente da sua missão providencial face ao agnosticismo do nosso século e às exigências atuais da apologética cristã, a universidade católica americana prepara-se, através do trabalho, para a formação séria de um clero e de uma juventude de elite. Cf. Year-Book, 1897, 1898, 1899, ou Anuários da universidade publicados em Washington, e os boletins trimestrais onde ela dá um relatório dos seus trabalhos.
2º Universidades de Georgetown e de Fort-Wayne. — Muito perto da universidade de Washington, encontra-se a universidade dos Padres jesuítas de Georgetown. Fundada em 1789, possui hoje um colégio preparatório, uma escola de medicina, cursos de direito e de letras. A esta classe de estabelecimentos religiosos pertence a universidade de Notre-Dame em Fort-Wayne, no Indiana. Estabelecida em 1842 sob a direção dos Padres de Sainte-Croix, e reconhecida pelo Estado, esta universidade oferece treze cursos de direito, de ciências comerciais e de literatura; conta com quase 800 alunos.
3º Seminários de teologia e colégios secundários, conferindo graus acadêmicos. — O terceiro grupo de instituições com título universitário compõe-se dos seminários de teologia e dos colégios secundários que receberam, seja de Roma, seja do Estado, o poder de conferir todos os graus acadêmicos nas suas faculdades respectivas. O mais antigo seminário é o de Baltimore, dirigido pelos sulpicianos. Pio VII, em 1810, concedeu-lhe os privilégios das universidades romanas. Em 1803, o Estado elevou o colégio que lhe estava anexado ao nível de universidade do Estado, com poder para conferir todas as honras universitárias na faculdade de letras. Os dois estabelecimentos complementam-se um ao outro e formam hoje, na diocese de Baltimore, a universidade de Sainte-Marie, que conta com cerca de 550 alunos. As outras instituições são os seminários teológicos de Niagara e de Brooklyn, confiados aos Padres lazaristas; o colégio dos Padres jesuítas e o seu noviciado de Saint-Louis, compostos por 375 alunos e 92 noviços; os colégios de Fordham e de Saint-François, na diocese de Nova York, sob a direção da Companhia de Jesus; quase 900 alunos recebem, nesses dois grandes estabelecimentos dos Padres jesuítas, a instrução secundária e podem aí obter os seus graus acadêmicos ès lettres.
4º Seminários diocesanos e escolasticados religiosos. — Há hoje, nos Estados Unidos, 129 seminários eclesiásticos, incluindo os escolasticados das diferentes ordens religiosas. Os seminários diocesanos propriamente ditos são em número de trinta, compreendendo 2.630 alunos. Os escolasticados de ordens religiosas reúnem um número de 1.998 estudantes eclesiásticos em filosofia e teologia. Os principais são os de Baltimore, Nova York, Boston, Filadélfia, Milwaukee, Niagara, Brooklyn, Saint-Paul, Saint-Louis, San Francisco, Fort-Wayne, Louisville, Rochester.
5º Colégios americanos na Europa. — Além disso, a Igreja americana possui na Europa dois colégios para onde os bispos enviam todos os anos um certo número de alunos eclesiásticos: em Roma, o colégio nacional dos Estados Unidos, fundado por Pio IX em 1859 e elevado ao nível de colégio pontifício por Leão XIII, conta com 60 a 80 alunos; em Lovaina, o colégio americano da Imaculada Conceição, fundado pelo episcopado dos Estados Unidos com a aprovação do cardeal de Malinas e colocado sob o patrocínio dos bispos da Bélgica, reúne 80 a 90 alunos.
IV. ESCOLAS CATÓLICAS. — A questão das escolas paroquiais foi objeto de uma atenção particular em todos os concílios da Igreja americana. Já em 1840, em pleno movimento de know nothingism, o problema havia se apresentado com todas as suas dificuldades. Segundo o School act da assembleia legislativa de Nova York, de 1812, as escolas católicas deveriam receber a sua quota-parte dos fundos públicos. Pouco a pouco, uma associação protestante havia acabado por excluí-las da distribuição dos recursos. A famosa defesa dos direitos da Igreja perante o governo, por Mgr Hughes (1840), não pôde obter plena justiça. Mas, desde então, as comissões diretoras do ensino primário são nomeadas pelo sufrágio universal, e os católicos participam como eleitores na formação desses conselhos escolares dos quais depende a escolha dos professores. Cf. Hassard, Vie de Mgr Hughes, p. 223. A neutralidade das escolas do Estado não reveste, nos Estados Unidos, um caráter de antagonismo contra a Igreja. Todavia, os bispos e os soberanos pontífices Pio IX e Leão XIII nunca consentiram em permitir a separação da educação religiosa da instrução; recomendaram constantemente a ereção de escolas católicas na medida dos recursos de que se pudesse dispor. Por ocasião de um sistema particular de escolas inaugurado por Mgr Ireland, em Faribault, no Minnesota, um debate bastante vivo travou-se entre os católicos. Cf. Visconde de Meaux, p. 216. Só foi encerrado pela intervenção de Mgr Satolli, delegado do soberano pontífice. Numa assembleia dos arcebispos, os decretos dos dois últimos concílios nacionais foram condensados em catorze proposições que regem a conduta do clero em relação ao estabelecimento e à direção das escolas paroquiais. Cf. Satolli, Loyalty to church and state, Baltimore, 1895, p. 29-50º Existe em cada diocese uma comissão de examinadores das escolas e um inspetor-geral, encarregado de apresentar ao bispo um relatório anual do estado das escolas católicas. Contam-se atualmente, nas diferentes dioceses dos Estados Unidos, 3.811 escolas paroquiais, 662 internatos de meninas e 178 colégios de meninos; 854.553 alunos frequentam os colégios ou escolas católicas.
V. IMPRENSA E PUBLICAÇÕES CATÓLICAS. — Pode-se dizer que a imprensa católica não tem mais de meio século de existência nos Estados Unidos.
No período colonial, desde 1675 até o final do século XVIII, o estado de opressão dos católicos não lhes permitia sequer possuir uma tipografia: os padres eram frequentemente obrigados a copiar os missais de que se serviam. Após a Revolução Americana, os trabalhos extenuantes das missões tampouco favoreceram a difusão da literatura religiosa. Mas, à medida que a Igreja se consolidava e o número de fiéis crescia, a atividade intelectual dos católicos manifestou-se em importantes publicações. Dom England, Dom Kenrick, Dom Hughes, Dom Spalding, no seio da hierarquia, distinguiram-se por suas obras de teologia e de controvérsia; Brownson editou sua revista literária e filosófica. Gil Mary Shea mereceu, pelo número e pelo valor de suas obras, o título de historiador da Igreja americana. Mais recentemente, o Pe. Hecker e o cardeal Gibbons fizeram um nome na literatura religiosa. Apesar de lacunas que reconhece, aliás, voluntariamente, a imprensa católica desempenha atualmente um papel dos mais importantes nos Estados Unidos. Possui 158 jornais semanais, 67 publicações mensais, 10 diários e 6 grandes revistas, das quais as principais são a Catholic quarterly review, de Filadélfia, o Catholic world, fundado em Nova York pelos paulistas, e a American ecclesiastical review, publicada pelo grande seminário de Filadélfia: esta última revista é destinada ao clero e trata das ciências eclesiásticas. Cada obra tende a ter seu jornal, e os boletins paroquiais multiplicam-se todos os anos. Ao progresso da imprensa vincula-se intimamente a organização de bibliotecas e de gabinetes de leitura, que fazem penetrar na sociedade as salutares influências da literatura ortodoxa. Em Nova York, além das bibliotecas "circulantes", uma coleção de trinta e seis mil volumes é colocada pela catedral à disposição de todos os que desejam instruir-se. Na mesma cidade, existe uma reunião de censores católicos aos quais os próprios editores protestantes não desdenham recorrer: a aprovação dos censores é um atestado de ortodoxia para suas publicações.
VI. ASSOCIAÇÕES E CÍRCULOS. — A liberdade de associação é um fato característico da situação da Igreja da América. A todos os grandes interesses religiosos, morais ou sociais vinculam-se associações que se vão ramificando em grupos de obras de toda sorte em todos os pontos do território. Entre as principais associações, contam-se aquelas que concernem à difusão da fé (ver abaixo), os reading circles mencionados acima, as associações de beneficência, de temperança e de socorros mútuos, como The catholic total abstinence union of America, que conta 80.348 membros divididos em 985 grupos secundários, sob a presidência geral de Dom Tierney, bispo de Hartford; The catholic benevolent legion, entre os irlandeses; The catholic truth society, para a difusão dos bons livros e a apologética católica; The catholic young men association, análoga à sociedade protestante The Christian young men association e difundida por todos os Estados Unidos com o objetivo de favorecer as relações sociais dos jovens católicos e de fortalecê-los na fé; as associações exclusivamente religiosas como a Liga do Sagrado Coração, o Apostolado da Oração, cuja sede é em Nova York e que tem membros em todas as dioceses dos Estados Unidos, a União Apostólica do Clero, estabelecida primeiro na França pelo Sr. Lebeurier. Esta associação eclesiástica tem seu centro em Nova York e existe nas arquidioceses de Boston, Cincinnati, Dubuque, Nova York, Portland, São Francisco, Saint-Louis e em 41 dioceses. A liga eucarística dos padres, que publica um jornal mensal sob o título de Emmanuel, tem seu centro em Covington; Dom Maes, bispo desta cidade, é o diretor-geral; possui membros em 13 arquidioceses e 49 dioceses. O congresso que se formou em Louisville em 1897 contribuiu poderosamente para a extensão das conferências de São Vicente de Paulo. Apenas a circunscrição de Nova York não conta menos de 412 conferências. Conselhos centrais existem em Boston, Providence, Springfield, Washington, Chicago, Saint-Louis, Nova Orleans, Filadélfia e outras grandes cidades dos Estados.
Nas cidades, um grande número de paróquias possui associações para a abolição do blasfêmio e outras boas obras. Um movimento organiza-se hoje em todas as províncias eclesiásticas para agrupar em uma federação geral as numerosas associações católicas dos Estados Unidos, que tendem a trabalhar na propagação da verdade religiosa e na defesa dos interesses da Igreja.
VII. PROPRIEDADES E RECURSOS DA IGREJA. — A Igreja católica nos Estados Unidos é mantida pelas contribuições livres dos fiéis. Essas contribuições são de duas sortes: umas servem para fundar os estabelecimentos religiosos, igrejas, presbitérios, escolas, conventos, orfanatos, etc.; as outras suprem as despesas correntes. As propriedades, igrejas, bispados, presbitérios, instituições de caridade, não produzem renda, mas o valor dos imóveis católicos aumenta a cada ano, seja por causa do rápido crescimento das cidades, seja por causa do aumento da própria população católica que, tornando-se mais rica, multiplica os estabelecimentos religiosos. É difícil determinar a que cifra monta hoje a fortuna da Igreja. Segundo um quadro traçado no recenseamento de 1890 pelos comissários federais com a cooperação cordial do episcopado, havia nessa época 8.765 igrejas, estimadas em um valor de 118.388.151 dólares. Atualmente, há mais de 10.000 e seu valor aumentou consideravelmente. Trata-se aqui apenas dos edifícios consagrados ao culto.
Cada paróquia católica provê primeiro a manutenção do clero por um estipêndio que é fixado em cada diocese pelo bispo, deliberando em sínodo, e que é, em média, no maior número das províncias, de 500 a 600 dólares para os vigários, de 800 a 1.000 dólares para os párocos; em segundo lugar, às despesas ordinárias e extraordinárias do culto, entre as quais é preciso sobretudo incluir a manutenção das igrejas e a construção das escolas; enfim, a certas obras não paroquiais, como as mensas episcopais, as missões e o óbolo de São Pedro. As receitas que permitem suprir essas despesas consistem na locação dos bancos, nas coletas semanais e nas contribuições extraordinárias pedidas segundo as circunstâncias. Ver Visconde de Meaux, op. cit., p. 245-267.
VIII. MISSÕES. — 1° Missões entre os protestantes. — A ordem americana dos paulistas, fundada pelo Pe. Hecker, é especialmente consagrada à obra da conversão dos protestantes. Um jornal, The Missionary, dá conta de seus trabalhos e dos resultados obtidos. Desde alguns anos, formaram-se também associações para a propagação da fé no interior, como The Catholic Missionary Union. Seu objetivo é procurar os fundos necessários para permitir aos bispos destinar padres exclusivamente à obra das missões diocesanas. Essa associação existe em 13 dioceses. As missões para a conversão dos protestantes multiplicam-se hoje. Várias ordens religiosas imitam os paulistas. Serão, sem dúvida, seguidos cada vez mais pelo clero secular.
Segundo o anuário publicado para o ano de 1900 pela casa Wiltzius, Milwaukee, haveria cada ano mais de 4.000 batismos de adultos em vinte das dioceses menos povoadas. Segundo os relatórios oficiais, houve na diocese de Baltimore 3.500 convertidos durante os cinco últimos anos, o que faz uma média de 700 por ano. Em várias outras dioceses, obtiveram-se resultados, no mínimo, tão encorajadores. As estatísticas não fornecem dados precisos; mas se a proporção for em toda parte tão considerável, ter-se-ia em média cada ano 30.000 conversões. Cf. Cardeal Gibbons, L’ambassadeur du Christ, tradução francesa, Paris, 1897, prefácio, p. 3º
2° Missões entre os Índios.
— Há hoje perto de 200.000 indígenas disseminados em dezenove Estados da União. Segundo as estatísticas mais recentes (cf. Catholic Directory, 1900), 81.000 são ainda evangelizados de uma forma mais ou menos permanente por 78 missionários pertencentes, em sua maioria, a ordens religiosas. Cf. Visconde de Meaux, L’Église catholique et la liberté aux États-Unis, Paris, 1893. Em 1874, o arcebispo de Baltimore estabeleceu em Washington uma comissão especial para suprir as necessidades das missões católicas indígenas. Essa comissão, aprovada pelo terceiro concílio de Baltimore (1884), sob o nome de Bureau das missões católicas indígenas, recebeu em 1894 existência legal por um ato oficial da assembleia legislativa de Maryland. O governo federal concedeu-lhe várias vezes fundos para o estabelecimento de escolas entre os indígenas (cf. sobre a questão das escolas indígenas, Visconde de Meaux, op. cit., p. 205). Em 1889, uma rica americana, Miss Drexel, consagrou-se pessoalmente à obra dos indígenas, após ter empregado nela uma parte de sua fortuna: ela fundou a congregação das irmãs do Santíssimo Sacramento para a conversão dos negros e dos indígenas. Esta congregação, que conta atualmente 54 membros, dirige escolas e orfanatos indígenas, dedicando-se também à visita dos doentes e dos pobres e à instrução dos adultos.
Os melhores livros a consultar sobre a grande obra da evangelização das raças indígenas são as Relations des Pères jésuites e John Gil Mary Shea, History of the catholic missions among the indian tribes of the United States.
3° Missões entre os negros. — A evangelização dos negros foi recomendada ao clero secular pelos concílios nacionais de 1866 e 1884. Além do ministério paroquial do clero secular, a ordem dos Padres Josefitas de Mill-Hill, na Inglaterra, é especialmente consagrada à conversão e à educação religiosa dos negros. A casa-mãe da filial americana é em Baltimore. A ordem possui um grande seminário onde são admitidos até alunos negros, um pequeno seminário e várias paróquias na Virgínia, Maryland, Delaware e Mississipi. Um jornal semanal, intitulado The Colored Harvest, publica-se no interesse desta obra. [...continuação da tabela de estatísticas sobre os negros católicos nos Estados Unidos, conforme dados do anuário de Wiltzius, 1900].
Missões para a propagação da fé no exterior. — Viu-se como, em 1820, Dom Dubourg, bispo de Nova Orleans, tinha contribuído para a fundação da obra da Propagação da Fé. Por intermédio do seminário de Saint-Sulpice, a obra tinha sido introduzida nos Estados Unidos; mas não pôde desenvolver-se por toda parte devido às necessidades incessantes da Igreja americana no período de sua organização. O terceiro concílio de Baltimore (1884) ordenou que uma dupla coleta fosse feita a cada ano em todas as paróquias para os negros e os indígenas e para a Propagação da Fé. Desde então, a obra da Propagação da Fé organizou-se sobre o mesmo pé que na França, pelo menos nas principais dioceses do leste, e promete fornecer doravante abundantes recursos. Há, como na França, dezenas, comitês e diretores diocesanos correspondendo com o centro da obra. A assembleia dos arcebispos confiou a sua direção geral, em 1897, ao seminário de Saint-Sulpice em Baltimore. O desenvolvimento desta instituição apostólica deverá ocorrer pouco a pouco, à medida que as pregações e as distribuições de anais ensinem ao povo católico as esperanças que a Igreja deposita em sua generosidade.
I. OBRAS SOBRE A HISTÓRIA GERAL DA AMÉRICA. — Shea, The hierarchy of the catholic Church in the United States, Nova Iorque, 1886; Id., The catholic Church in colonial days, Nova Iorque, 1886; Clarke, History of the deceased bishops, Nova Iorque, 1876; Murray, Popular history of the catholic Church, Nova Iorque, 1892; Currier, Carmel in America; history of religion’s orders, Boston, 1879; Bancroft, Histoire des États-Unis, traduzida por Mme Gotti de Gamond, 8 vol., Paris, 1860; as obras de controvérsia de Dom Hughes, de Dom England, de Dom Spalding, de Dom Kenrick e do cardeal Gibbons, principalmente deste último, L’ambassadeur du Christ, tradução francesa, Paris, 1897; Pierre Margry, Découvertes et établissements des Français dans l’ouest et le sud de l’Amérique septentrionale, Paris, 1879; o Pe. de Coynard, Précis de la guerre des États-Unis d’Amérique, Paris, 1869; Histoire naturelle et politique de la Pensylvanie et de l’établissement des quakers, traduzida do alemão, Paris, 1768.
II. MONOGRAFIAS SOBRE AS IGREJAS DOS DIFERENTES DIOCESES (essas monografias, mencionadas em sua maioria por O’Gorman, encontram-se na livraria Benziger em Nova Iorque). — Hurd et Edverts, History of the catholic Church in New-England, Boston, 1899; Wallace Joseph, History of Illinois and Louisiane, Cincinnati, 1893; Webb, The centenary of catholicity in Kentucky, Louisville, 1884; Timon, Missions in western, Nova Iorque; Sherey, History of Maryland, Baltimore, 1852; Lambing, History of the catholic Church in the diocese of Pittsburg, Pittsburg; Lettres édifiantes et curieuses, Paris, 1781.
III. HISTÓRIA DAS PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES, UNIVERSIDADES, SEMINÁRIOS, COLÉGIOS. — O’Gorman, Roman catholic, Nova Iorque, 1895 (ver sua bibliografia, p. I-XVIII); Annales de la Propagation de la foi, t. I; Collection du journal Le pilote de Boston; Annuaires de l’Église publicados por Hoffman (Milwaukee) ou por Benziger (Nova Iorque); L’année de l’Église (1898, 1899) publicada por Lecoffre, Paris; The centenary of Baltimore seminary, Baltimore, 1889.
IV. BIOGRAFIAS PARTICULARES. — Hassard, Vie de Mgr Hughes, Nova Iorque, 1866; Vie de Mgr Spalding, archevêque de Baltimore, Baltimore, 1875; O’Connor, Vie de Mgr Kenrick, Baltimore; Maés, Vie du R. P. Ch. Nerincks, apôtre du Michigan; Desgeorges, Vie de Mgr Flaget, Paris, 1855.
Autor original: G. ANDRÉ
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