AMERICANISME (AMERICANISMO). É necessário recordar as origens da civilização norte-americana para apreciar com exatidão as duas tendências que constituem, por assim dizer, a dupla característica dominante dos costumes dos Estados Unidos: a tendência “naturalista” e a tendência “liberal”. A paixão do americano pela liberdade individual só é igualada pela sua aspiração veemente ao ideal de bem-estar temporal que a exploração ilimitada das energias naturais do homem e do mundo material parece oferecer à vida presente. Este povo não recebeu no seu berço nem o batismo da fé cristã, nem o freio salutar de qualquer autoridade social forte: daí deriva, nele, uma concepção de vida prática que o deveria conduzir às inevitáveis exagerações de um egoísmo puramente positivista e de uma espécie de repugnância crônica por todos os tipos de autoridade — intelectual, moral e política. Para erguer um dique contra esta corrente, a religiosidade composta que ele recebeu das inúmeras seitas dissidentes, as quais, ao acaso da imigração, implantaram as variedades infinitas dos seus dogmas e das suas morais nos quatro pontos cardeais da América setentrional, era insuficiente. É certo que a influência preponderante do protestantismo, religião radicalmente incapaz de produzir as virtudes que constituem o homem perfeito tal como a providência criadora e redentora de Deus deseja realizá-lo, não pôde trazer, e na verdade não trouxe até o presente, senão uma atenuação bastante superficial ao culto um tanto excessivo que se professa nos Estados Unidos pela natureza e pela liberdade.
Ora, a doutrina revelada da Igreja Católica ensina: 1° a queda original do homem e a persistência do desequilíbrio intelectual, moral e, sobretudo, passional que dela resultou, em estado habitual, nas profundezas da sua natureza; daí a necessidade da graça, das virtudes sobrenaturais e da lei sob todas as suas formas para restaurar em cada um de nós, à imagem de Cristo, a humanidade degradada que haurimos nas próprias fontes da vida, envenenadas pela culpa dos nossos primeiros pais; 2° a necessidade absoluta e primordial, para o homem, desde a sua entrada na ordem sobrenatural, da fé e da graça para chegar, ao seu fim último, à salvação eterna; daí a preeminência, por razão de superioridade evidente a priori, e também a título de meio essencial de justificação, da ordem sobrenatural sobre a ordem natural; daí também a necessidade da compenetração harmônica, divinamente querida, das duas ordens, sob o duplo ponto de vista da formação da inteligência pelo contato da verdade divina integral e da direção moral sobrenatural da sua conduta no domínio prático da ação.
Os missionários católicos pregam há muito tempo esta doutrina, toda a doutrina cristã, nos Estados Unidos. Eles a pregaram, certamente, sem hesitação e com sucesso. Ninguém ousa pôr em dúvida a perfeita ortodoxia, teórica e prática, dos novos convertidos, a perfeita ortodoxia “católica” do episcopado americano e do ensino público ministrado aos fiéis sob a sua vigilante direção.
Nos últimos tempos, porém, surgiram pregadores da fé aos quais o muito louvável zelo pelo objetivo buscado inspirou, quanto aos meios a empregar, “ideias” e “procedimentos” um pouco desprovidos de escrúpulos dogmáticos. Pareceu-lhes que as conversões seriam mais rápidas se, para entrar no seio da Igreja, os dissidentes tivessem menos sacrifícios a fazer, menos ídolos queridos a queimar; e, como a estrada é por vezes longa antes do encontro, imaginaram poupar o esforço dos desencaminhados convidando a Igreja a fazer a maior parte do caminho, a mostrar-se mais conciliadora, a deixar-se infundir um sangue novo pelo contato da moderna civilização, a relegar ao menos certos dogmas antigos tornados inúteis, incômodos, difíceis de fazer aceitar e, finalmente, a arredondar, para melhor os tornar aceitáveis, as arestas da sua doutrina e da sua moral.
Sonharam com um sistema de concessões mútuas de que a Igreja Romana, em grande parte, teria de arcar com os custos, e de onde sairia, num futuro próximo, a bem-aventurada fusão da fé dos nossos pais com as aspirações da civilização moderna, na apoteose final de um catolicismo esmondado, modernizado e renovado, que seria o “catolicismo americano”.
Terão sido numerosos estes sonhadores? Que importa! Tal foi, pelo menos, o Padre P. Hecker, fundador da Sociedade Americana dos Missionários Paulistas; tais foram também aqueles que patrocinaram a difusão das suas “ideias” na Europa por meio de uma tradução francesa parafraseada da “Vie du P. Hecker”, originalmente composta em inglês pelo P. W. Elliott. Da publicação deste célebre volume, Le Père Hecker, Paris, 1897, data, na controvérsia religiosa contemporânea, senão como prática nova, ao menos como fórmula nova de ideias ditas “americanas”, o aparecimento do americanismo, termo vago que, pela própria natureza da sua significação coletiva, escapa aos rigores da definição.
O que se convencionou chamar de americanismo não é, de fato, propriamente falando, um sistema doutrinário, uma síntese didática de argumentos e conclusões de onde se desprende a fisionomia de um erro nitidamente caracterizado. É um conjunto bastante disparatado de aspirações naturalistas e liberais, mais acentuadas no terreno prático da ação do que no domínio teórico das ideias. Com a maioria dos escritores que criticaram Le Père Hecker, a sua Introdução e o seu Prefácio, retemos o termo no sentido que acaba de ser indicado e que, cremos, permanecerá na história, ressalvada a estima respeitosa que podem merecer muitas ideias e maneiras de agir americanas; pois existe um bom americanismo, excelente mesmo, que os velhos povos da Europa podem invejar aos seus irmãos de além-mar; mas com esse não temos de nos ocupar; é apenas do outro que falamos.
Comovido pelas audácias dogmáticas do P. Hecker e dos seus padrinhos da Europa, não menos que pelo transtorno causado ao mundo cristão pelas calorosas polêmicas das quais foram ocasião, Leão XIII interveio no debate através de uma carta, Testem benevolentiae, de 22 de janeiro de 1899, endereçada ao Cardeal Gibbons e comunicada a todos os bispos dos Estados Unidos. Nela, expõe e reprova sumariamente as principais “novidades” caras aos partidários do americanismo. Não temos de empreender aqui a refutação detalhada de todas essas proposições; encontrá-la-á o leitor nos diferentes artigos deste dicionário que a elas se possam referir. Que nos baste apresentar ao leitor a série brevemente resumida das mais salientes e repreensíveis “ideias” do americanismo, em conformidade com o plano traçado na carta de Leão XIII. Advirta-se que as citações latinas sem indicação de fonte foram extraídas do documento pontifício.
I. NOVO ARTE DE CONVERTER. — Esta é a ideia fundamental, a inspiração diretriz de todo o americanismo, novarum opinionum id fere constituitur fundamentum.
Para atrair mais facilmente os dissidentes à fé católica, a Igreja deve aproximar-se mais da sociedade, acomodar-se às exigências novas das sociedades, e isso na ordem doutrinária tanto quanto no terreno prático da ação: Quo facilius qui dissident ad catholicam sapientiam traducantur, debet Ecclesia ad adulti seculi humanitatem aliquanto propius accedere, ac, veteri relaxata severitate, recens invectis populorum placitis ac rationibus indulgere; id autem non de vivendi solum disciplina, sed de doctrinis etiam quibus fidei depositum continetur, intelligendum esse multi arbitrantur.
É, portanto, de desejar que se deixe no esquecimento do silêncio certos capítulos da doutrina, por serem de menor importância, ou que sejam suavizados de modo que não conservem mais o sentido ao qual a Igreja se manteve constantemente apegada: Opportunum esse contendunt, ad voluntates discordium alliciendas, si quaedam doctrinae capita, quasi levioris momenti, praetermittantur, aut molliantur, ita ut non eundem retineant sensum quem constanter tenuit Ecclesia. — Leão XIII contrapõe a essa teoria a origem e a importância igualmente divinas de todos os dogmas, quaisquer que sejam, sua imutabilidade e a fixidez católica de sua interpretação tradicional. Acrescenta que, se a disciplina eclesiástica sabe, segundo as circunstâncias, adaptar-se harmoniosamente aos costumes dos povos, não há nisso, contudo, nada que possa jamais atingir a imobilidade eterna do dogma, do direito divino, dos princípios essenciais da moral e que, em todo caso, cabe ao magistério da sociedade cristã, e não à autoridade privada dos fiéis, determinar as variações de conduta que a diversidade dos tempos pode exigir na vida cristã.
II. EXTENSÃO DA LIBERDADE INDIVIDUAL. Chegou a hora, diz-se, de reservar na Igreja uma parte mais ampla às expansões da liberdade individual, de restringir de certa forma a força e a vigilância do poder, a fim de que os fiéis possam dar um pouco mais de livre curso à sua inspiração e à sua atividade pessoais: Rerum novarum sectatores arbitrantur libertatem quandam in Ecclesiam esse inducendam, ut, constricta quodammodo potestatis vi ac vigilantia, liceat fidelibus suo cujusque ingenio actuoseque virtuti largius aliquanto indulgere. — O Papa diz dessa novidade, entre todas as outras, que plus affert periculi estque magis catholicae doctrinae disciplinaeque infestum consilium, e contenta-se em remeter, para sua refutação, à sua encíclica Immortale Dei, sobre a constituição cristã dos Estados, de 1º de novembro de 1885.
III. LIBERDADE DE PENSAR, CONSEQUÊNCIA DA INFALIBILIDADE PONTIFÍCIA. — Como o Papa foi declarado infalível pelo Concílio do Vaticano, sendo a indefectibilidade do magistério supremo doravante abrigada de qualquer ataque, os desvios da liberdade individual de pensar entre os fiéis não serão mais no futuro tão prejudiciais ao conjunto da doutrina católica, uma vez que a Santa Sé está sempre presente para remediar eficazmente o mal em tempo oportuno. Cada um pode, portanto, pensar e agir mais livremente, sem ter que se preocupar com o magistério pontifício. — Praeposterum arguendi genus, diz Leão XIII, pois a definição da infalibilidade não fez, ao contrário, senão confirmar e tornar mais estrito o dever que têm os católicos de buscar nas direções da Santa Sé o remédio aos licenciosos transbordamentos do pensamento e da ação individuais nas sociedades contemporâneas: Licentia quae passim cum libertate confunditur, quidvis loquendi obloquendique libido, facultas denique quidlibet sentiendi, litterarumque forma exprimendi, tenebras tam alte mentibus obfuderunt ut major nunc quam ante sit magisterii usus et necessitas, ne a conscientia quis officioque abstrahatur. Cf. encyc. Libertas, de 20 de junho de 1886.
IV. OPERAÇÕES INDIVIDUAIS DO ESPÍRITO SANTO. A perfeição da vida cristã já não reclama, diz-se, a submissão às direções do magistério eclesiástico externo, tornado supérfluo e até mesmo inútil; pois o Espírito Santo derrama hoje, mais ampla e abundantemente do que outrora, os seus dons nas almas dos fiéis; ele as ilumina e as dirige, sem intermediário, como por uma espécie de instinto secreto: Externum magisterium omne ab iis qui christianae perfectioni adipiscendae studere velint, tanquam superfluum, imo etiam minus utile rejicitur; ampliora, aiunt, atque uberiora nunc quam elapsis temporibus in animos fidelium Spiritus Sanctus influit charismata, eosque, medio nemine, docet arcano quodam instinctu atque agit. Leão XIII, após ter lembrado que não pertence a ninguém dizer em que medida apraz a Deus comunicar-se aos homens, invoca o testemunho da história para estabelecer que a comparação das eras cristãs, férteis em santos e mártires, com a época presente, não permite pensar que a ação do Espírito Santo no mundo tenha sido então menos intensa que hoje: Ecquis repetens Apostolorum historiam, exordientis Ecclesiae fidem, fortissimorum martyrum certamina et caedes, veteres denique plerasque tales sanctissimorum hominum fecundissimas, audeat priora tempora praesentibus componere, eaque affirmare minore Spiritus Sancti effusione donata? Aliás, as «inspirações privadas» são, de direito divino, na economia providencial da graça e da salvação, subordinadas à autoridade pública do magistério social da Igreja, como prova, por exemplo, a ordem dada por Deus a São Paulo convertido de se apresentar diante de Ananias, para aprender dele o que deveria fazer: Tibi dicetur tibi quid te oporteat facere. Act., IX, 7º Tal é a tradição constante, dogmática e prática da Igreja, tal o remédio divinamente instituído para precaver o perigo que a ilusão das inspirações privadas pode acarretar às almas.
V. APOTEOSE DAS VIRTUDES NATURAIS. — Qui nova sectari adamant, naturales virtutes praeter modum efferunt, quasi hae praesentis aetatis moribus ac necessitatibus respondeant aptius, iisque exornari praestet, quod hominem paratiorem ad agendum ac strenuiorem faciant. O homem não vale, diz-se, no concerto da evolução progressiva da civilização, senão pela medida do desenvolvimento que imprime às energias latentes de sua natureza, às manifestações naturais de sua atividade e de seu gênio. O culto das virtudes naturais deve, portanto, ser para ele uma preocupação de primeira ordem, se quiser, não somente seguir a marcha do mundo, mas dirigi-la, fazer nele um lugar de escolha, exercer uma salutar influência sobre seus contemporâneos. Aqui o Papa se espanta que católicos possam, na comparação das duas ordens de virtudes, dar a preeminência às virtudes naturais e atribuir-lhes uma eficácia, uma fecundidade, que não teriam as virtudes sobrenaturais! Difficile quidem intellectu est eos, qui christiana sapientia imbuantur, posse naturales virtutes supernaturalibus anteferre, majoremque illis efficacitatem ac fecunditatem tribuere.
A natureza, auxiliada pelo concurso da graça, seria então mais débil do que entregue às suas próprias forças? Ergone natura accedente gratia infirmior erit quam si suis ipsa viribus permittatur? Será que os santos, honrados pela Igreja com um culto público, mostraram-se fracos e incapazes na ordem natural, porque praticaram excelentemente as virtudes cristãs? Num vero homines sanctissimi, quos Ecclesia observat palamque colit, imbecillos se atque ineptos in naturae ordine probavere, quod christianis virtutibus excelluerunt? Como, ainda, sem estas resistir às más inclinações da natureza? Como prescindir dos socorros de ordem sobrenatural para a observação integral da lei moral? E que tipo de perfeição humana realizarão jamais as obras exclusivamente naturais, que muitas vezes só têm da virtude o nome e a aparência? Mas enfim, e sobretudo, com essa teoria, que se torna o dogma católico da necessidade absoluta da graça e das virtudes sobrenaturais para a santificação da vida presente e a obtenção da futura beatitude do céu? Sicut enim presidio gratiae natura hominum, quae ob communem noxam in vitium ac dedecus prolapsa erat, erigitur, novaque nobilitate evehitur ac roboratur, ita etiam virtutes quae, non solis naturae viribus, sed ejusdem ope gratiae exercentur, et fecunde fiunt beatitatis perpetuo mansurae et solidiores ac firmiores existunt.
VI. VIRTUDES ATIVAS E VIRTUDES PASSIVAS.
— As virtudes passivas — aquelas que dispõem o homem à humildade, à obediência, a uma vida em que sua personalidade se apaga na proporção dos sacrifícios que faz às exigências da autoridade — eram boas, necessárias até, outrora, quando se tratava de fundar a sociedade cristã sobre a base de uma forte coesão das vontades individuais em uma mesma unidade de movimento social, ou ainda de defendê-la dos ataques da heresia, agrupando os fiéis sob uma poderosa autoridade diretriz de resistência. Hoje as coisas mudaram; é às virtudes ativas que convém deixar o campo livre. Os homens de ação são os mestres do mundo! — Singular teoria! Pois o conceito de virtude passiva implica contradição, sendo a virtude uma perfeição das faculdades ativas do homem: Virtus quae vere passiva sit nec est nec esse potest. É o ensinamento de São Tomás: Virtus nominat quamdam potentiae perfectionem; finis autem potentiae actus est, et nihil est aliud actus virtutis quam bonus usus liberi arbitrii. Sum. theol., Ia IIae, q. LV, a. 4º As virtudes cristãs são de todos os tempos, como o divino Exemplar que veio mostrar aos homens a sua sublime realização na sua pessoa sagrada sobre a terra: Haud mutatur Christus progredientibus seculis, sed idem heri et hodie et in secula. Hebr., XIII, 8º Ad omnium igitur aetatum homines pertinet illud: Discite a me quia mitis sum et humilis corde, Matth., XI, 29; nulloque non tempore Christus se nobis exhibet factum obedientem usque ad mortem, Philip., II, 8; valetque quavis aetate Apostoli sententia: Qui sunt Christi carnem suam crucifixerunt cum vitiis et concupiscentiis. Galat., V, 24º Quas utinam virtutes multo nunc plures sic colerent, ut homines sanctissimi preteritorum temporum, qui demissione animi, obedientia, abstinentia, potentes fuerunt opere et sermone, emolumento maximo nedum religiosae rei sed publicae ac civilis.
VII. MAIS VOTOS NAS ORDENS RELIGIOSAS. — Eis a consequência lógica do descrédito em que caíram, na estima dos inovadores, as virtudes «passivas» evangélicas, que fizeram, contudo, a grandeza e a força moral das eras cristãs, assim como o fundamento da vida religiosa realizada nas numerosas ordens antigas de que se honra a história da Igreja. Ex virtutum evangelicarum veluti contemptu, quae perperam passive appellantur, pronum erat sequi, ut religiosae etiam vitae despectus sensim per animos pervaderet. Os votos, diz-se, não se ajustam mais aos costumes do tempo presente; eles restringem a liberdade, não convêm mais às almas fortes e não podem ser senão a parte dos fracos; eles são um obstáculo à perfeição cristã e ao bem geral da sociedade. Quamvis illa (vota) ab ingenio aetatis nostrae dissidere plurimum, utpote quae humanae libertatis fines coerceant, esseque ad infirmos animos magis quam ad fortes apta, nec admodum valere ad christianam perfectionem humanaeque consociationis bonum, quin potius utrique rei obstare atque officere. — Nada mais falso, diz Leão XIII, nada mais contrário aos usos e à doutrina da Igreja, que sempre consagrou com sua alta aprovação o gênero de vida próprio às ordens religiosas; e isso com razão, pois aqueles que Deus chama e que abraçam espontaneamente a prática de uma perfeição evangélica superior, não contentes em cumprir os preceitos da lei comum, mostram-se sempre ativos e generosos soldados de Cristo. Verum haec quam falso dicantur ex usu doctrinaque Ecclesiae facile patet, cui religiosum vivendi genus maxime semper probatum est; nec sane immerito; nam qui a Deo vocati, illud sponte sua amplectuntur, non contenti communibus praeceptorum officiis, in evangelica euntes consilia, Christi se milites strenuos paratosque ostendunt. É esse o feito de espíritos fracos, um desígnio inútil ou nocivo à perfeição da vida? Hocne debilium esse animorum putabimus, aut ad perfectionem vitae modum inutilem aut noxium? É fazer injúria às ordens religiosas e desmentir a história da conversão dos povos, da própria conversão da América no momento presente, sustentar que a vida religiosa é inútil à Igreja, ainda que praticada longe da agitação das multidões na contemplativa solidão do claustro, onde, com o benefício de suas preces e de suas penitências, ela ainda dá ao mundo o espetáculo da mais edificante prova de energia heroica que existe aqui embaixo: o completo triunfo da vontade sobre si mesma! A Igreja não teme nem o progresso temporal da civilização nem a evolução eventual de sua disciplina em conformidade com as exigências dos meios onde recebeu a missão de acompanhar sempre a humanidade, até o fim dos séculos, para santificá-la pela efusão dos dons sobrenaturais do espírito e do coração, dos quais ela é divinamente a depositária. Que se inventem, pois, novas formas de associações religiosas sem votos, que se coloquem em uso novos processos de pregação mais adaptados às necessidades dos povos; não há nada nisso de que a Igreja possa se alarmar muito, nada mesmo que ela não encontre, na ocasião, perfeitamente aceitável, mas sob a condição de que não se lhe peça sacrificar às novidades a imutabilidade de seu dogma, nem os processos essenciais de vida e de pregação cristãs tais como foram praticados por Jesus Cristo, pelos apóstolos e pelos santos de todas as eras.
Leão XIII termina: Ex his quae hucusque disseruimus patet non posse Nobis opiniones illas probari quarum summam americanismi nomine nonnulli indicant.
A exemplo do soberano pontífice, para não trazer nenhum elemento irritante a uma controvérsia onde haveria certamente mais incorreções dogmáticas a assinalar do que censuráveis intenções — mens, ut credimus, non mala, at certe res carere suspicione minime videntur — abstivemo-nos de pôr em questão qualquer nome próprio, exceto o do Pe. Hecker, que era impossível passar sob silêncio; não mais que Leão XIII, não julgamos oportuno pedir emprestado literalmente às suas fontes o texto das proposições ditas «americanistas», nem censurá-las com qualquer nota teológica. De que serviria, aliás? Roma falou; o debate está encerrado; não pertence mais, doravante, senão à história.
W. Elliott, The Life of F. Hecker, 2ª ed., Nova York, 1894; Le Père Hecker, pelo Pe. W. Elliott, traduzido e adaptado do inglês, introdução por Mons. Ireland, prefácio pelo abade Félix Klein, Paris, 1897; Mons. Ireland, The church and modern society, 1898; F. Klein, Nouvelles tendances en religion et en littérature, 1897; Ch. Maignen, Le P. Hecker est-il un saint ? Paris, 1897; A.-J. Delattre, S. J., Un catholicisme américain, Namur, 1898; Mons. O’Connel, L’américanisme d’après le P. Hecker, 1897; H. Schell, Die neue Zeit und der alte Glaube, 1898; Ami du Clergé, n. 41, 13 out. 1898; Revue du clergé français, março e agosto 1898; Contemporary review, dez. 1897; Revue française d’Edimbourg, set.-out., 1897; Mons. Ireland, The Church and modern society, 1898; Université catholique, set. 1897; Catholic world, passim; Etudes religieuses des jésuites, t. LXXII, p. 807; t. LXXVI, p. 214, 535; t. LXXIX, p. 759; Revue thomiste, set. 1897; H. Coppinger, La polémique française, l'américanisme et la conjuration antichrétienne, Paris, 1899; Lambertini, L’américanisme, Paris, 1899; Saint-Clément, Cuique suum : La liquidation du consortium américaniste, Paris, 1899; G. Périés, L’Américanisme à la Revue des Deux Mondes, Paris, 1899; J. Tardivel, La situation religieuse aux Etats-Unis, Paris, 1900.
Autor original: F. Deshayes
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor