ALMA NA SAGRADA ESCRITURA

ALMA NA SAGRADA ESCRITURA

Não nos ocuparemos, neste momento, nem da vida futura, nem da liberdade, nem do conhecimento, nem das forças da razão. Não trataremos sequer, aqui, de forma exaustiva, senão do tema da espiritualidade da alma. Voltaremos, em outra ocasião, à sua origem, à sua unidade e à sua união com o corpo. Contudo, estas últimas questões encontram-se ordinariamente mescladas à da espiritualidade, tanto nos livros da Bíblia quanto nas obras dos santos Padres, dos escritores orientais e até mesmo dos teólogos latinos até o século X. Assim, julgamos dever reuni-las nos artigos que consagraremos à história das doutrinas cristãs sobre a alma nas Igrejas do Oriente e na Igreja latina até o século X. Não havia necessidade de prosseguir com esta história comum para os teólogos ocidentais que viveram a partir do século XI, uma vez que cada questão teve sua evolução de forma inteiramente independente a partir de São Tomás de Aquino. Deste modo, os primeiros artigos que se lerão terão um caráter histórico e ocupar-se-ão da origem, da unidade da alma e de sua união com o corpo, bem como de sua espiritualidade. Os últimos, ao contrário, tratarão apenas da sua espiritualidade, tendo por fim estabelecê-la seja por meio de provas teológicas, seja por meio de provas racionais.

Eis a ordem em que se encontrarão estes diversos artigos: I. Alma na Sagrada Escritura. II. Alma. Escritos sobre a Alma considerada sob o ponto de vista teológico. III. Alma. Doutrinas dos três primeiros séculos. Este artigo recebeu desenvolvimentos mais consideráveis, devido à dificuldade da matéria. IV. Alma. Desenvolvimento da doutrina do século IV ao século X. V. Alma entre os gregos. VI. Alma entre os sírios. VII. Alma entre os armênios. VIII. Espiritualidade da alma. Demonstração teológica. IX. Espiritualidade da alma. Demonstração racional, segundo a doutrina de São Tomás de Aquino.

1º ALMA na Sagrada Escritura. — I. Denominações.

I. Denominações da alma. II. Natureza da alma. III. Psicologia bíblica. IV. Unidade da alma. V. Origem da alma. VI. Resumo.

Não farei mais do que resumir o artigo Âme do Sr. Vacant no Dictionnaire de la Bible, com as modificações exigidas pela diferença dos pontos de vista; e contentar-me-ei em destacar os dados principais sem tentar seguir o desenvolvimento histórico.

1º DENOMINAÇÕES DA ALMA. — Há quatro palavras na Bíblia para designar a alma, as três primeiras (néfés, nesamah, ruah) devidas à analogia do sopro (vento ou sopro vital), a quarta (léb) sendo o nome do órgão ao qual se atribuía vagamente a vida íntima do sentimento, da paixão, do pensamento. Néfés é ordinariamente vertido em grego por ψυχή, em latim por anima; aplica-se ao animal tanto quanto ao homem: é a vida e o princípio da vida, e como tal tem a sua sede no sangue e morre; é também o princípio comum dos sentimentos e das paixões, dos pensamentos e da ciência; é, enfim, o ser animado em sua totalidade, homem ou besta, e a palavra deriva daí até aplicar-se ao cadáver ou até exercer a função de simples pronome reflexivo. — Nesamah é ordinariamente πνοή em grego, spiraculum, halitus, spiritus em latim; os empregos são análogos aos de néfés: sopro vital, vida e princípio da vida, princípio do sentimento, ser animado. — Ruah, ordinariamente πνεῦμα, spiritus, é ora o vento, ora o sopro respiratório (de onde os sentidos derivados: vida animal e seu princípio, princípio das paixões ou das resoluções, princípio da inteligência e da sabedoria), ora o espírito de Deus, agindo exteriormente para conferir sabedoria e habilidade, ou também para punir. — Léb (καρδία, cor) significa o coração e, por conseguinte, o princípio dos sentimentos, dos pensamentos, das resoluções.

Por vezes, néfés e ruah são contrapostos entre si: néfés aplica-se então às bestas, ruah ao homem; ruah, aliás, não se diz da alma das bestas (salvo a exceção célebre, Ecl., III, 21).

Nos originais gregos, as palavras ψυχή, καρδία, πνεῦμα possuem o mesmo sentido que na Septuaginta. Deve-se notar apenas o emprego mais frequente de ψυχή para designar a alma dos mortos, a alma separada; notar também o emprego especial de πνεῦμα para os dons sobrenaturais: de onde a oposição entre o homem natural, ψυχικός (animalis homo), e o homem espiritual, πνευματικός, tão frequente em São Paulo, e que Tertuliano, entre outros, voltará contra os católicos; de onde, ainda, em São Paulo, o emprego da palavra pneumático para distinguir o corpo dos eleitos, espiritualizado na ressurreição, do corpo psíquico ou animal que possuímos aqui embaixo. — Finalmente, os originais gregos nos oferecem a palavra νοῦς, princípio pensante (em latim sensus ou intellectus), palavra sem equivalente em hebraico, mas da qual a Septuaginta se servira por vezes para traduzir léb ou ruah. Em suma, o sentido e o emprego das palavras que designam a alma na Bíblia permanecem vagos, e não se poderia extrair deles — olhando apenas para isso — noções precisas sobre as doutrinas.

II. NATUREZA DA ALMA. — A Bíblia ensina ou supõe a todo instante a distinção entre a alma e o corpo. Diversidade de origem: o corpo é formado do limo da terra e é animado pelo sopro divino, Gên., II, 7; separação na morte: o corpo retorna à terra de onde veio, a alma volta a Deus que a deu, Gên., XXXV, 18; Sl. CXLV, 4; Ecl., XII, 7; a alma é despojada do corpo como de uma veste, Is., LXI, 10; Jó, IV, 19; II Cor., V, 2; ressurreição pelo retorno da alma ao corpo, Ez., XXXVII; Luc., VIII, 55; oposição frequente entre os termos, basar de um lado, léb ou néfés de outro. Jó, XIV, 22; Sl. XV, 9º Ensina ela a espiritualidade da alma? Sim, em termos equivalentes; pois reconhece no homem a inteligência, a liberdade, a sobrevivência ao corpo; distingue o homem das bestas, opondo sua alma (ψυχή) que sobe ao céu, à delas (néfés) que retorna à terra, Ecl., III, 21; mostrando o homem como rei da criação, Gên., I, 26, um pouco abaixo dos anjos, Sl. VIII, sem que ele possa encontrar entre os animais qualquer auxílio semelhante a ele, Gên., II, 20º Enfim, o que é, a este respeito, talvez mais expressivo do que todo o resto, ela o mostra, sozinho neste mundo visível, feito à imagem e semelhança de Deus, Gên., I, 26, graças evidentemente ao sopro com o qual Deus mesmo animou o limo, Gên., II, 7; que esta semelhança seja entendida como natural ou sobrenatural, ela implica a espiritualidade.

III. PSICOLOGIA BÍBLICA. — Nada, aliás, na Bíblia que se assemelhe a um tratado de psicologia. Nenhuma distinção entre a alma e suas diversas potências, nenhuma distinção das potências entre si, nenhuma análise, enfim, dos diferentes atos para agrupá-los ou distingui-los, para mostrar suas nuances delicadas: os pensamentos, os sentimentos, as paixões, assim como a própria vida do corpo, são vagamente atribuídos à alma como a seu princípio ou a sua sede; os fatos íntimos, tanto de conhecimento quanto de amor, tanto de ordem moral quanto de ordem física, passam-se no coração, são atos do coração; as ideias de conhecimento misturam-se com as de amor: o Senhor conhece o caminho dos justos, o esposo da parábola ignora as virgens insensatas; os atos exteriores são tomados como a medida dos atos interiores: se Deus fere, ele está irritado; se ele pune, ele odeia e se vinga; se ele não age, ele dorme; não atender a um pedido é não ouvir; deixar seus pais por Deus é odiá-los. Os originais gregos, a este respeito, distinguem-se apenas levemente dos escritos hebraicos: eles vestem de grego a psicologia judaica — salvo exceções, contudo, como a adoção das quatro virtudes cardeais no livro da Sabedoria, VIII, 7º Tudo isso, evidentemente, está fora de qualquer doutrina psicológica. Por toda parte, a linguagem corrente é plena destas locuções, e nós as empregamos em francês, parte sob a influência bíblica, parte como expressão espontânea de uma análise psicológica inteiramente rudimentar.

IV. UNIDADE DA ALMA.

Sobre a unidade da alma no homem, o que diz a Bíblia? À primeira vista, muitos textos pareceriam favoráveis a uma distinção entre o princípio de vida e o princípio pensante. Inúmeros heréticos, gnósticos, montanistas, maniqueístas, apolinaristas, acreditaram encontrá-la ali; alguns Padres tenderam à mesma opinião, e Joseph de Maistre inclinava-se a ver no relato da criação do homem um apoio para as doutrinas de Barthez. De fato, a alma, princípio de vida corporal, é ordinariamente chamada néfés, e a alma, princípio de vida espiritual, ruah. O cântico dos três jovens na fornalha, Daniel, III, 86, distingue os espíritos e as almas dos justos. São Paulo, em muitos lugares, opõe o espírito à alma e parece considerá-los como distintos. I Thess., V, 23; I Cor., II, 14; XV, 45; Heb., IV, 12º Um olhar mais atento oferece uma visão mais exata. Ao tomar em seu conjunto o segundo relato do Gênesis e ao compará-lo com o primeiro, chega-se à conclusão de que a alma, princípio de vida, é também a alma pensante que faz do homem a imagem de Deus e que o distingue dos animais. Em outros lugares, esta alma, princípio de vida, néfés, nos é também apresentada como princípio das operações espirituais. Quanto aos textos que causam dificuldade, explicam-se sem esforço pelo desejo de distinguir quer o que se denominou mais tarde a parte superior da alma e a parte inferior, a vida do espírito e a vida dos sentidos, quer, em várias passagens de São Paulo, a vida natural e a vida sobrenatural. Da mesma maneira que o apóstolo não recusa uma alma espiritual àqueles que chama de psíquicos ou carnais, da mesma forma ele não pretende atribuir aos pneumáticos uma alma distinta, mas simplesmente um princípio superior de operação, a graça e o Espírito Santo. É assim, como veremos, que a tradição católica compreendeu geralmente as doutrinas bíblicas; é neste sentido que ela adotou as locuções da Bíblia.

V. ORIGEM DA ALMA. — Resta a origem da alma. A Bíblia só fala expressamente dela para a alma de Adão; tudo o que se pode dizer para as outras é que ela insinua a criação por Deus. Orígenes pretendia encontrar suas ideias sobre a preexistência das almas em Gen., VIII, 21; Ps. civ, 9; cviii, 9-10; Sap., viii, 19-20 (texto onde o Sr. Chaignet vê ainda esta opinião, Psychologie des Grecs, t. iii, p. 409, Paris, 1890); Rom., ix, 24; Philip., i, 23; mas é manifestamente ele quem as colocava lá. Os textos que se podem trazer em favor da criação individual de cada alma são de valor totalmente distinto. Ps. xxxiii, 15; Sap., vii, 17; Eccli., xvii, 1; Zach., xii, 1; Joa., v, 17º Não se pode dizer, contudo, que sejam decisivos, e é isso que explica as hesitações e as divergências dos Padres sobre a questão.

VI. RESUMO. — Em resumo, a Bíblia indica nitidamente a distinção da alma e do corpo e a superioridade do homem sobre a besta; a espiritualidade da alma está ali implicada por toda parte; sua unidade e a identidade do princípio pensante com o princípio vital destacam-se suficientemente, apesar de alguns textos que poderiam causar dificuldade; a psicologia é das mais rudimentares; sobre a origem imediata da alma humana, nenhum ensinamento preciso, nenhum texto decisivo.

A. Vacant, no Dictionnaire de la Bible, art. Ame, t. I, col. 453-477, Paris, 1895; Calmet, Dissertation sur la nature de l’âme et sur son état après la mort, d’après les Hébreux, em suas Nouvelles dissertations, Paris, 1720; em latim, em Migne, Cursus Script. sacræ, t. vi, p. 721-748; Vigouroux, Le Nouveau Testament et les découvertes modernes, Paris, 1890; Fr. Delitzsch, System der biblischen Psychologie, 2ª ed., Leipzig, 1861; J. E. Beck, Umriss der biblischen Seelenlehre, 2ª ed., Tubinga, 1862; K. Niese, Die Johanneische Psychologie, Naumburg, 1865; Th. Simon, Die Psychologie des Apostels Paulus, Göttingen, 1897; H. Luedemann, Die Anthropologie des Apostels Paulus, Kiel, 1872 (menos ad rem); J. Frey, Tod, Seelenglaube und Seelenkult im alten Israel, Leipzig, 1898 (ocupa-se apenas incidentalmente do nosso assunto). Obras mais gerais, as numerosas teologias bíblicas dos alemães, em particular: H. Schultz, Alttestam. Theologie, 4ª ed., Göttingen, 1888; Kayser, Theologie des Alt. Testam., editado por K. Marti, Estrasburgo, 1894; B. Weiss, Lehrbuch der biblisch. Theologie des N. Testam., 6ª ed., Berlim, 1895; Mons. Simar, Die Theologie des hl. Paulus, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1883; H. Holtzmann, Lehrbuch des Neutestam. Theologie, Friburgo em Brisgóvia, 1896; Beyschlag, Neutestam. Theologie, 2ª ed., Halle, 1896.

Autor original: J. BAINVEL

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