Augustin et le néoplatonisme, 1896, p. 70-81, 117-147. Les Confessions, l. VII, c. ix, xx-xxi, P. L., t. XXXII, col. 740, 746, descrevem o entusiasmo acendido nele pelos livros platônicos. E esse entusiasmo viveria muito tempo no coração de Agostinho, fonte de elogios magníficos e repetidos. Cont. acad., l. III, c. xviii; Epist., cxviii, n. 20-31, P. L., t. xxxiii, col. 441-448; De vera relig., c. iii, paucis mutatis, christiani fierent; De civit. Dei, l. VIII passim, c. i, iv, v, x.
2. Esta influência foi exclusiva: nenhuma outra filosofia imprimiu uma direção séria sobre o espírito de Agostinho. Poder-se-ia hesitar quanto a Pitágoras ou, antes, os pitagóricos, cuja doutrina é chamada venerabilis ac prope divina, De ordine, l. II, n. 53, P. L., t. xxxii, col. 1020, elogio considerado excessivo nas Rétract., l. II, c. iii, 43. Mas não se vê que ele lhes deva outra coisa que pesquisas demasiadamente sutis sobre a alegoria dos números. Segundo Grandgeorge, op. cit., p. 31, Aristóteles só é citado três vezes por Agostinho e, apesar do respeito que lhe reconhece, De civit., l. VIII, c. xii, ele o julga muito inferior a Platão. Os estoicos e os epicuristas, embora citados mais vezes (vinte e três e vinte e duas vezes),
3. Fontes platônicas onde Agostinho bebeu: é certo que o Timeu foi diretamente conhecido por Agostinho, que o leu, De civit., l. X, c. xxxi, P. L., t. xli, col. 310; l. X, c. xxx, ele compara o ensinamento de Platão ao de Porfírio, l. III, 18. De beata vita, c. iv, ele diz: Lectis autem Platonis paucissimis libris, e tudo o que ainda se pode conceder: cinco manuscritos pouco lidos em latim. Cf. Conf., l. VIII, c. ii. A influência foi, portanto, exercida pelos neoplatônicos em vez de por Platão: embora se constate que a marca na alma de Agostinho vem mais do fundo platônico do que das ideias especialmente neoplatônicas indicadas com precisão por Grandgeorge, op. cit., p. 41, as partes das obras de Plotino e de Porfírio que Agostinho citou ou, pelo menos, conheceu. Jâmblico permaneceu-lhe estranho, ele nunca o cita e mal o nomeia uma vez. De civ., l. VIII, c. xii, P. L., t. xli, col. 237.
4. Método que preside o estudo dos neoplatônicos por Agostinho: é a regra que determinará a medida imposta da influência sofrida. Repetiu-se que ele foi durante muito tempo um neoplatônico adotando fórmulas cristãs. O contrário é a verdade. Já em Cassiciacum e ainda mais tarde, ele era um neoplatônico tornado um cristão muito sincero, mas procurando ainda revestir seus dogmas com expressões neoplatônicas.
a) A fórmula desse método nos é dada desde o início em uma de suas notas autobiográficas, que são a história de seu espírito. Em Cont. acad., l. III, c. xx, ele nos adverte que há duas vias para chegar à verdade: a autoridade e a razão. Ora, acrescenta ele, escolhi a autoridade e por mestre Cristo, de quem jamais me afastarei. » Quanto à filosofia, eis sua regra: Quod autem subtilissima ratione persequendum est, ita jam sum affectus, ut quid sit verum non credendo solum, sed etiam intelligendo apprehendere impatienter desiderem; apud platonicos me interim quod sacris litteris nostris non repugnet reperturum esse confido. Assim, ele crê em Cristo, mas vai buscar e tem certeza de encontrar nos platônicos uma filosofia que se adapte à explicação de sua fé.
b) As disposições de espírito são, portanto, absolutamente as de um crente: ele está pronto a condenar o Evangelho em nome de Platão, mas não a explicá-lo por sua filosofia. O Sr. Grandgeorge, op. cit., p. 155, concluiu muito bem nestes termos: « Portanto, enquanto sua filosofia concorda com suas doutrinas religiosas, Santo Agostinho é francamente neoplatônico; assim que uma contradição se apresenta, Santo Agostinho nunca hesita em subordinar sua filosofia à religião, a razão à fé... Ele foi, antes de tudo, um cristão: as questões filosóficas encontravam-se em seu espírito (e sempre mais) relegadas ao segundo plano. » Esta observação basta para demonstrar o quanto Dorner, em seu Augustinus, p. 326 seg., exagerou a influência neoplatônica.
c) O método era, contudo, perigoso: buscando assim, de caso pensado, o acordo entre as duas doutrinas, ele acreditará, sem fundamento, encontrar o cristianismo em Platão, ou o platonismo no Evangelho. Alternadamente ele exagerará o que podemos tomar emprestado dos platônicos e o que os platônicos devem à revelação: ele os tornará tributários da Escritura e, nas Retratações, l. II, c. iv, n. 2, P. L., t. xxxii, col. 632, ele deverá corrigir esta afirmação do De doct. christ., l. II, c. xxviii, n. 43, P. L., t. xxxiv, col. 56, de que Platão se inspirara em Jeremias. Agostinho percebeu isso tão bem que, desde o ano 400, nas Confissões, l. VII, c. xiv, n. 20, P. L., t. xxxii, col. 744, ele agradecia a Deus por ter conhecido as Escrituras somente após os platônicos, porque assim pôde constatar que bebia nos santos Livros grandes verdades e nobres sentimentos que nenhum platônico poderia ter-lhe inspirado. Se ele tivesse experimentado esses sentimentos antes de ler os platônicos, teria imaginado que estes os excitavam por sua vez, enquanto, tendo-os lido antes, constatou sua impotência, e essa experiência precedente o desenganou para sempre. No De civit., l. XXII, c. xxviii, P. L., t. xli, col. 795, ele censurará essa tendência entre os cristãos de encontrar seus dogmas em Platão: Amantes Platonem, dicunt eum aliquid simile nobis etiam de resurrectione sentisse. E as Retratações, l. I, c. iii, n. 2, P. L., t. xxxii, col. 588, contêm a admissão de que ele nem sempre evitou esse escolho.
2° Os resultados. — Não podendo fazer um estudo detalhado, assinalaremos, em quatro séries, os pontos de contato do platonismo e do cristianismo em Santo Agostinho. 1. O que ele acredita, erroneamente, encontrar nos platônicos.
a) A mais célebre: a doutrina do Verbo. Quando se lê, Confess., l. VII, c. ix, esses livros platônicos, ele lê hoc idem omnino, o prólogo de São João em sua geração divina, sed a Deo natus est, para explicar-se essas exacerbações, não se deve esquecer seu estado de alma naquela época: O mundo inteligível de Platão era para ele o Deus imaterial, imediatamente seduzido, ele vislumbra em seus livros todos os nossos mistérios. Tractatus in Joa., n. 1, P. L., t. xxxv, col. 390, ele acredita ler em seus filósofos, quia genitum habet Deum, per quem sunt omnia. D. Dei, l. X, c. iii, n. 1, P. L., t. xli, col. 280, e Plotino, Enéada, l. I, trad. Bouillet, t. II, p. 561.
b) Sobre a Trindade, Agostinho foi menos entusiasta do platonismo: em 413, ele declara formalmente que esses filósofos não conheceram o Espírito Santo, sine Spiritu Sancto philosophati sunt, quamvis de Patre et Filio non tacuerint. Quæst. in Heptat., l. II, q. xxv, P. L., t. xxxiv, col. 767. No De civit., l. X, c. xxix, P. L., t. xli, xli, col. 307, ele é menos categórico e diz a Porfírio: Prædicas Patrem et ejus Filium, quem vocas paternum intellectum seu mentem ; et horum medium, quem putamus te dicere Spiritum Sanctum, et more vestro appellas tres deos. Mas ele adverte, ibid., c. xxiii, col. 300, que a semelhança é apenas aparente, que Plotino e Porfírio não se entendem quanto ao lugar desta alma em sua Trindade, que, enfim, o pensamento de Porfírio permanece obscuro.
c) Uma outra semelhança imaginária é assinalada nas Rétract., l. I, c. iii, n. 2, P. L., t. xxxii, col. 588. Nas palavras: Regnum meum non est de hoc mundo, ele havia percebido a teoria platônica do mundo inteligível das ideias, oposto ao mundo real!
2. Teorias platônicas que Agostinho sempre aprovou e adaptou às suas explicações dogmáticas. Estas teorias constituem a parte da influência real exercida pelos platônicos sobre Agostinho e, por ele, sobre a filosofia cristã no Ocidente; aliás, muito desta filosofia faz parte desta vera philosophia que Leibnitz chamava de perennis, apenas a expressão e o próprio aspecto do pensamento são emprestados dos neoplatônicos.
A. A concepção da filosofia em Agostinho é toda emprestada dos platônicos. De ord., l. II, c. xi, n. 32, P. L., t. XXXII, col. 993, retira sua definição de filosofia, amor sapientiae, que já coloca a doutrina agostiniana a salvo de todo intelectualismo frio, e cf. De civil., l. VIII, c. iv; e o objeto da filosofia é Deus e a alma, o que há de mais grandioso e nossa origem e nossa natureza. De ord., l. II, c. xviii, n. 57, ibid., col. 1017;
c) o fim da sabedoria identificado com a verdadeira felicidade, de tal sorte que Agostinho, com um exagero que será assinalado, identifica a filosofia e a vida feliz; todo o De beata vita desenvolve esta ideia; até mesmo, cf. ibid., col. 959; cf. De civ., l. XVIII, c. xi;
d) a estima e o amor entusiasta por esta sabedoria que é o verdadeiro tesouro da alma; ela é tão grande que é preciso sacrificar-lhe tudo, honra, bens, prazeres, De beata vita, n. 35, ibid., col. 961;
e) a distinção essencial entre a intelecção, conhecimento das coisas eternas que só ela merece o nome de sabedoria, e o conhecimento raciocinado das coisas temporais, que constitui a ciência. De magistro, c. xii, n. 39; Soliloq., l. I, c. 1; cf. Contra academic., l. III, c. xix, n. 41; Saint Augustin, P. 1-6;
f) a necessidade de refrear a imaginação para compreender e para chegar à percepção do incorpóreo, o que lhe fora por tanto tempo impossível. Esta foi uma das grandes luzes recebidas do platonismo, cf. Confess., l. VI, c. x; l. VII, c. I, c. XVII, c. XX; De Genesi ad litt., l. XII, c. XVI, n. 32, P. L., t. XXXIV, col. 472; De Trinit., l. VIII, c. ii, n. 3, ibid., col. 949;
g) os graus pelos quais se chega à contemplação da verdade divina, quanto à realidade imutável. Cf. De ord., l. II, c. viii-x; De immortal. anim., c. i, viii. Cf. André Martin, De la théodicée de S. Aug., part. II, c. I.
3. O que inspiraram de mais grandioso: a noção de Deus considerado em si mesmo em seus atributos infinitos. Na Cidade de Deus, l. VIII, c. VI, P. L., t. XLI, col. 231, ele os felicita por terem compreendido nullum esse Deum..., etc., isto é, por terem se elevado acima de todo o sensível até o incompreensível, a inefável simplicidade daquele em quem ser, saber, amar, viver, são uma só coisa. Esta extrema simplicidade do Um supremo o arrebata vivamente e ele faz dela a base de sua teodiceia. Cf. De Trinit., l. VI, c. vi, n. 8, P. L., t. XLII, col. 928, simplex et multiplex illa substantia. Cf. In Joa., tr. XXIII, n. 9, P. L., t. XXXV, col. 1587; De civ., l. XI, c. x, P. L., t. XLI, col. 325; De Trinitate, l. I, c. i, n. 2, P. L., t. XLII, col. 821-828.
b) Ver a síntese do triplo papel de Deus princípio das coisas. Em Deus, causa suprema, tudo tem sua fonte: eis o que é platônico, mas vulgar. Eis, sobre esta causalidade de Deus, uma teoria platônica profunda, pouco notada, e que ilumina singularmente a doutrina de Agostinho: Deus, diz ele, é princípio das coisas por uma tripla influência: 1° fonte do Ser das coisas, como criador; 2° fonte da Verdade das coisas, como luz intelectual; 3° fonte da Bondade moral, por sua graça.
Assim, ele reconduz à unidade toda a teoria de sua teologia: 1° a teoria do Verbo fonte de toda verdade, e do verdadeiro, que não é outra coisa senão a ideia eterna divina, visto que este mundo presente não é senão uma cópia das ideias divinas. De div. quaest. LXXXIII, q. XLVI, De ideis, n. 2, P. L., t. XL, col. 30; 2° do verdadeiro em nós, uma vez que o Verbo é a luz que nos coloca em comunicação com as verdades, único mestre. De magistro, na íntegra, P. L., t. XXXII, col. 1193 sq.; enfim, a teoria do Bem supremo, ao mesmo tempo objeto da beatitude e, por sua graça, princípio da santidade que nos conduz a ela. Não se compreenderá nem a teoria agostiniana do conhecimento, nem a da graça, se as considerarmos isoladamente, fora desta síntese do triplo papel de Deus ao qual o santo doutor retorna.
Uma passagem capital é aquela em que, expondo os motivos de sua admiração pelos platônicos, ele desenvolve este triplo papel de Deus. De civ., l. VIII, c. iv, P. L., t. XLI, col. 234-236, especialmente c. ix, n. 2: uno vero Deo atque optimo, et naturam nobis esse qua facti ad ejus imaginem similis, et doctrinam qua eum nosque noverimus, et gratiam, qua illi similis... Os platônicos, continua ele, conheceram que Deus era causa constitutio universitatis, e lumen veritatis, e fons bibendae felicitatis. Cf. leitura de fórmulas análogas em Philosophia Augustiniana por A. Martin, p. 104 sq. Santo Agostinho fundou sobre esta tripla influência de Deus a divisão da filosofia em física, lógica e moral, ciência do Ser, do Verdadeiro e do Bem. De civit., l. VIII, c. iv, n. 2, P. L., t. XLI, col. 235.
C. Sobre a natureza do mundo criado, ele deveu ao platonismo: a) A bondade de todos os seres. Eles são bons em si mesmos e por sua origem (imitação das ideias eternas); bons em seu destino, visto que todo ser louva a Deus. Confess., l. VII, c. xii, n. 18, 19, P. L., t. XXXII, col. 743.
b) A natureza do mal lhe foi explicada pelos platônicos e este foi o grande serviço prestado ao seu espírito perturbado. Por isso, com eles, ensinou que o mal não é um ser, mas uma privação, um limite, Confess., l. VII, c. xii; l. VIII, c. xiii; cf. IIIe Ennéade de Plotin, l. II, c. v; que o mal serve à ordem geral do mundo, que ele é um fator de progresso, De libero arb., l. III, c. ix; cf. IIIe Enn., l. II, 11; que o mal tem sua fonte na liberdade humana. De lib. arb., l. III, c. i; cf. IIIe Enn., l. II, 7; Enchirid., c. xxiii, P. L., t. XL, col. 244.
D. Na cosmologia, ele tomou emprestada dos neoplatônicos a sua teoria complicada das rationes seminales, mas modificou-a tão profundamente que parece ser uma teoria pessoal. Ver adiante.
E. A psicologia espiritualista dos platônicos habituou-o a conceber um ser incorpóreo e preservou-o do erro em que caíram outros Padres de atribuir à própria alma um sutil envoltório corpóreo. Confes., l. VIII, c. xxvi.
F. O fundamento e as fórmulas da sua moral tão nobre passaram para as obras de Agostinho, por exemplo: a sua teoria da beatitude na contemplação de Deus, cf. De beata vita, l. II, c. v, P. L., t. XXXII, col. 961; as suas leis fundamentais da perfeição: a) O verdadeiro sábio é aquele que conhece e ama a Deus. De civ., l. VIII, c. v, P. L., t. XLI, col. 229; b) Para se assemelhar a Deus, é preciso desapegar-se de todas as coisas temporais e passageiras. Ibid., l. X, c. xix, n. 2, col. 308.
3. Teorias neoplatônicas sempre rejeitadas por santo Agostinho. — A. Ele sempre censurou os platônicos por ignorarem — ou rejeitarem — três grandes dogmas cristãos: a) A Encarnação está ausente da sua filosofia, Conf., l. VII, c. ix, n. 13, P. L., t. xxxii, col. 740; ela é até declarada impossível, non verum est, diz-lhes Agostinho, De civit., l. IX, c. xvi, P. L., t. xli, col. 269, quod idem Platonicus (Apuleio) — dixit Platonem mesmo: nullus Deus miscetur homini. O mistério da cruz, os abaixamentos inefáveis do Filho de Deus e a grande lição de humildade que deles emana, tudo isso lhes é igualmente desconhecido. Epist., cxviii, n. 17, et passim, P. L., t. xxxiii, col. 440 sq. (toda esta carta ao pagão Dioscoro resume as impressões de Agostinho sobre as diversas escolas de filosofia). Eles ignoram também a graça que dá a virtude. Conf., l. VII, c. xxi, n. 27, P. L., t. xxxii, col. 748. Eles dão sublimes preceitos de moral, nenhum socorro para realizá-los.
B. Na sua cosmogonia — história da criação — ele refutava seis graves erros: a) Os seus deuses inferiores, espécies de demiurgos colocados entre Deus e as criaturas, e encarregados de produzir os animais inferiores. — De civit., l. XII, c. xxii, xxiv, xxvi; l. II, c. vii. b) O princípio criador não era para eles senão uma das três hipóstases das quais compunham a sua tríade; Agostinho nega que a criação seja obra das três pessoas. — De vera relig., c. xiv; De Genesi ad litt., l. IX, c. xxvi. Deus produz o mundo por geração ou emanação, segundo os platônicos. Agostinho sempre defendeu a verdadeira criação ex nihilo. De vera relig., c. xxxv; Contra Secundin. manich., c. iv, P. L., t. xlii, col. 580; De Actis cum Felice Fortun., l. II, c. xviii, n. 13, ibid., col. 547; d) A criação é necessária, segundo eles; para Agostinho, ela é sempre um ato da livre vontade de Deus. Ad Oros. cont., c. ix, P. L., t. xlii, col. 670-671. e) A criação é eterna, segundo os platônicos; em particular, eles querem que a alma seja coeterna a Deus; Agostinho relata o seu argumento semper et semper: si et per vestigium, si et per pulvere, etc. Ele não hesita em repelir a possibilidade da criação eterna: o tempo começa com a criatura, e o tempo, sendo medido, é essencialmente finito. De civit., l. XI, c. iv-vi, ibid., col. 319-322; l. XII, c. xv-xx, col. 363-370, sobretudo c. xvi, col. 365, onde se lê a fórmula tão enérgica: Creatori non potest esse coseternum. E trata-se do direito tanto quanto do fato. No c. xv, n. 2, col. 364, ele tinha dado a prova nestes dois princípios: um que os atos dos anjos têm uma duração sucessiva, o outro que toda duração sucessiva transcurrit, quoniam non potest esse eternitati immutabili coseternum. f) Acrescentemos que na criação neoplatônica parece estar implícito um panteísmo dinâmico, como estabeleceu Zeller. Ora, o sistema de Agostinho, tal como os textos já citados o apresentam, protesta contra as acusações de Lœsche, De Augustini plotinizante, p. 55, e de Ritschl. Ele repele com energia toda espécie de panteísmo. Cf. Retract., l. I, c. xv, P. L., t. xxxii, col. 608; De civit., l. IV, c. xi, n. 4, col. 111; l. VII, c. xxiii, col. 277. Grandgeorge reconheceu, op. cit., p. 602;
C. Em psicologia, Agostinho rejeitava duas doutrinas platônicas: a) A metempsicose que lhe causava horror, embora a preexistência das almas não o espantasse em nada. — Cf. De civit., l. X, c. xxx, P. L., t. xli, col. 312. b) Os platônicos atribuíam todos os vícios da alma à influência do corpo. Agostinho acredita que a alma tem as suas imperfeições próprias. De civit., l. XII, c. xxvi; l. XIV, c. v; De anima et ejus orig., c. xiii, xix. Na Idade Média, coisa curiosa, a tese platônica será retomada por santo Tomás e seus discípulos.
D. Finalmente, na vida dos platônicos, Agostinho estigmatizava a idolatria e o politeísmo práticos, dos quais faziam profissão com o povo, apesar da sua doutrina totalmente oposta. De vera relig., c. I, P. L., t. xxxiv, col. 722: scholas habebant dissentientes et templa communia. Cf. l. c. viii, v; De civit., l. X, c. xi; De consensu Evang., l. I, c. viii, n. 14.
4. Teorias neoplatônicas retratadas por Agostinho. — Esta série nos é fornecida pelo l. I das Retratações, onde são corrigidas as obras escritas antes do episcopado: é, de fato, o período de fervor neoplatônico.
A. Em geral, ele censura a admiração excessiva pela filosofia e pelos filósofos. Assim, ele retrata: — a) Os elogios exagerados aos platônicos no l. I, Cont. acad., c. XVII, n. 37, P. L., t. xxxii, col. 954; ver Retract., l. I, c. i, n. 4, ibid., col. 587: quantum impios homines extuli, tantum non oportuit. No l. II, De civit., c. xiv, n. 2, ele já tinha dito: Nos nec Platoni nec cuiquam christiano comparamus. b) O papel demasiado belo atribuído à filosofia, como se ela pudesse dar a felicidade completa. Retract., l. I, c. i. c) A afirmação do l. I, Soliloq., c. i, n. 2, de que a ciência é sempre reservada à virtude. Cf. Retract., l. I, c. iv, n. 2.
B.
Em particular, a teoria neoplatônica da felicidade tinha seduzido o seu sonho de vida filosófica: ele tinha acreditado que a ciência de Deus dá a verdadeira felicidade, desde esta vida: ilusão que inverte a ordem dos nossos destinos. Ele retifica nas Retract., l. I, c. iv, n. 3, col. 590, e sobretudo c. xiv, n. 2, col. 606. A felicidade só está em Deus conhecido e amado, mas na vida futura somente, e uma única via conduz a ela, o Cristo.
C. A demonologia platônica tinha-lhe inspirado dúvidas, hesitações, erros mesmo sobre o papel dos anjos. Por exemplo, Retract., l. I, c. xi, n. 1, col. 602, ele corrige a terminologia neoplatônica que confunde anjos e almas; ibid., c. iv, n. 7, col. 590, ele conta as suas hesitações sobre os tentadores: são bons ou inferiores por natureza ao homem? De duabus animabus, c. viii, n. 20, P. L., t. xlii, col. 108.
D. A teoria platônica da alma do mundo, imenso animal. De musica, l. VI, c. iv, n. 7, P. L., t. xxxii, col. 1186; De immort. animi, c. xv, n. 24, ibid., col. 1033. Mas nas Retract., 1. I, c. xi, n. 2, ibid., col. 602, sem condenar absolutamente a ideia, ele admite que ela carece de provas. Cf. De consensu Evang., 1. I, c. xxiii, n. 35, P. L., t. xxxiv, col. 1058; De Genesi ad litt. imperf., c. iv, n. 16-17, ibid., col. 226.
E. Na psicologia, foi demasiado indulgente para com dois grandes erros platônicos: — a) A ideologia dos platônicos, para quem toda ciência é uma reminiscência, foi inicialmente adotada. Sem dúvida, Agostinho jamais admitiu uma vida precedente cujos pecados seriam punidos nesta. Cf. De Genesi ad litt., 1. XII, c. vii, n. 12, P. L., t. xxxiv, col. 413. Mas ele recorria à memória para explicar a origem das ideias, 1. II, Soliloq., c. xx, n. 34, P. L., t. xxxii, col. 905; De quantit. anim., c. xx, n. 35, col. 1055, e ele refutou esse erro. Retract., 1. I, c. iv, n. 4; c. viii, n. 2, ibid., col. 587, 594; De Trinit., 1. XII, c. xv, n. 24, P. L., t. xlii, col. 1011; De civit., 1. X, c. xxx; Epist., clxiv, n. 20, P. L., t. xxxiii, col. 717. — b) Ele admitiu também dúvidas sobre uma questão não menos grave: existe uma única alma para todos, ou uma alma distinta para cada um? Cf. De quantit. anim., c. xxxiii, n. 69, ibid., col. 1075; Epist., clviii, n. 5, P. L., t. xliii, col. 695; refutação em De lib. arb., 1. II, c. ix, n. 27, P. L., t. xxxii, col. 1255; c. vii, n. 16.
F. Na escatologia platônica, ele havia extraído dois erros: a) uma falsa teoria sobre a ressurreição: os platônicos exageravam o horror que devemos ter pelo corpo, a ponto de tornar a ressurreição impossível, e nos Soliloq., l. I, c. xiv, n. 24, ele havia adotado o princípio. Cf. Retract., l. I, c. IV, n. 3, ibid., col. 590. Do mesmo modo, ele havia acreditado que os corpos ressuscitados não teriam mais nem membros, nem carne, nem ossos. De fide et symb. (393), c. x, n. 23. P. L., t. XL, col. 191; cf. Retract., l. I, c. XVII, col. 613. Ideia análoga em De musica, l. VI, c. iv, n. 7, retratada em Retract., l. I, c. xi, n. 2, col. 601. Ver estudo completo, — De civit., l. XII, c. xxvi; l. XIII, c. xvi. xix. b) A tese platônica da evolução das coisas levando à reintegração no estado primordial havia seduzido Agostinho, ele a formula vagamente, De morib. manich., l. II, c. vii, n. 9, P. L., t. XXXII, col. 1349, e mostra o perigo dela (o origenismo), Retract., l. I, c. vii, n. 6, ibid., col. 593. Cf. De civit., l. XII, c. xiii, P. L., t. XLI, col. 360-362.
Autor original: E. Portalié
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