AGONIA DE CRISTO. O SUOR DE SANGUE

AGONIA DE CRISTO. O SUOR DE SANGUE

AGONIA DE CRISTO. O suor de sangue. — I. Existência dos suores de sangue. II. Condições em que ocorrem. III. O suor de sangue de Cristo.

I. EXISTÊNCIA DOS SUORES DE SANGUE. — O suor, incolor em estado normal, pode por vezes apresentar-se corado (cromidrose). Quando é de cor vermelha, esta coloração pode suscitar a ideia de suor de sangue (hematidrose). E, efetivamente, é neste sentido que os autores antigos e muitos modernos interpretaram o fenómeno, que é, aliás, muito raro. Contudo, certos espíritos acharam estranho este suadouro de sangue através da pele sã; não o tendo observado pessoalmente, puseram em dúvida a perspicácia daqueles que relataram exemplos e supuseram que tinham sido enganados por doentes inclinados à fraude ou por aparências. «Daí, no espírito médico da nossa época, uma espécie de ceticismo clássico mais ou menos explicitamente admitido em relação à hematidrose: falta pouco para que a releguem entre os factos raros e algo fabulosos, admitidos frequentemente sob a fé da tradição e aos quais falta o controlo de uma ciência rigorosa.» J. Parrot, Étude sur la sueur de sang et les névropathies, na Gazette hebdomadaire de médecine et de chirurgie, 1859, p. 634.

Na época em que Parrot escrevia estas linhas, ainda não se conhecia o suor vermelho de origem microbiana que Pick, Berichte der Natur. zu Gratz, 1873, e Wiener med. Woschenschrift, 1873, na Alemanha, parecem ter sido os primeiros a assinalar. Babes, em 1883, Observations sur quelques lésions infectieuses des muqueuses et de la peau, no Journal de l’anatomie et de la physiologie, 1884; Barthélemy e Balzer, em 1884, Contribution à l’étude des sueurs colorées, nos Annales de dermatologie, t. v, 1884, relataram novos casos com exame microscópico, espectroscópico e químico em apoio. Babes conseguiu mesmo obter uma coloração análoga à do suor cultivando o micróbio em questão sobre gelatina coagulada. Tratava-se de uma demonstração clara, estabelecendo a existência de uma categoria especial de suores vermelhos que, até ao presente, só foi observada na região axilar, permanecendo o suor incolor em qualquer outra parte.

A coloração vermelha do suor não basta, portanto, para demonstrar a origem hemática, mas seria um raciocínio singular apoiar-se na existência de suores vermelhos de origem microbiana para negar os suores de sangue, sob o pretexto de que o exame microscópico não teria confirmado estes como confirmou aqueles. Podemos admitir, se quisermos, que, nos casos de suores vermelhos observados antes do uso e sem o controlo do microscópio, houvesse alguns falsos, mas, ainda assim, teria de tratar-se de suores axilares vermelhos. Nada autoriza, a priori, o ceticismo supracitado em relação à hematidrose. Sem dúvida, possuímos hoje meios de controlo que faltavam aos antigos e que são indispensáveis quando se trata de afirmar com toda a certeza a presença de sangue numa mancha mal percetível a olho nu, mas estes meios nem sempre são necessários para reconhecer a natureza sanguínea de um líquido, e seria um insulto gratuito aos antigos, tal como aos modernos, acreditar que se enganaram sempre que, ao diagnosticar a hematidrose, não apoiaram o seu diagnóstico em investigações microscópicas ou químicas. Aliás, é inútil insistir neste raciocínio: foram observados factos bem autênticos de suores de sangue que são de natureza a satisfazer os espíritos, tanto pelo valor dos observadores como pelos meios de controlo empregues. Estes factos são em número de dois e foram relatados pelo professor Parrot, loc. cit., e pelo Dr. Magnus Huss, Cas de maladies rares observées et commentées, nos Archiv. gén. de médecine, agosto de 1852. Ambos reconheceram ao microscópio a natureza sanguínea do suor dos seus pacientes, de modo que as suas observações, ainda que pouco numerosas, bastam para legitimar todas ou quase todas as observações similares.

Existe, portanto, entre os suores vermelhos um grupo de suores de sangue, tal como existe um grupo de suores microbianos. No caso de Parrot, o sangue escapava-se da pele da testa e formava como uma coroa em redor da raiz dos cabelos; na dobra das pálpebras inferiores, escorria em quantidade bastante considerável para que se pudessem recolher várias gotas. No de Magnus Huss, «habitualmente, era apenas pelo crânio que a doente sangrava, mas noutras ocasiões a hemorragia efetuava-se pelas pestanas; mais raramente em redor dos pelos da axila esquerda, dos pelos do mamilo esquerdo, uma vez pela raiz dos pelos do púbis; três vezes hemorragia dos condutos auditivos esquerdos», etc., etc. Caizergues, de Montpellier, diz, a propósito de uma doente por ele observada: «Não fiquei pouco surpreendido ao examinar o seu rosto, o seu pescoço, a parte anterior do peito, o côncavo das axilas, etc., ao ver suar, sem qualquer lesão de continuidade da pele, através dos poros deste órgão, gotículas de um sangue muito vivo, muito vermelho e de consistência natural. À medida que estas gotículas transudavam, eram substituídas por outras que, escapando-se assim através da pele, estendiam-se por toda a sua superfície, formando uma espécie de orvalho e um verdadeiro suor. Quando a doente se levantou, os lençóis, as camisas, tudo estava tingido de sangue, o que indicava que o suor tinha sido geral.» Nesta doente, a hematidrose voltava por crises separadas por vários meses de intervalo e o autor diz de uma delas que «a efusão de sangue pelo órgão cutâneo foi geral e excessivamente abundante». Annales cliniques de Montpellier, novembro de 1874.

Será necessário citar outros exemplos? Não creio, da mesma forma que não creio ser útil investigar se o sangue assim exalado à superfície do corpo sai realmente das glândulas sudoríparas, se o fenómeno merece verdadeiramente o nome de suor de sangue. Os autores discutiram abundantemente sobre isto e apresentam excelentes razões para provar que, entre as glândulas da pele, são as sudoríparas que parecem as mais dispostas para a produção do fenómeno, graças à delicadeza da sua estrutura e às suas relações vasculares, mas faltam-lhes provas materiais, isto é, não constataram ao microscópio a presença do sangue nos condutos destas glândulas. Isso pouco importa na espécie: «A hemorragia, diz Parrot, ibid., tem por sede um órgão secretor, eis o facto importante: quanto a determinar a variedade de glândulas pelas quais o sangue se escapa, essa é uma questão secundária.»

II. CONDIÇÕES EM QUE OCORREM. É muito mais interessante, aqui, determinar as condições nas quais se observou a hematidrose. Ora, sob este aspeto, a análise das observações demonstra que ela está intimamente ligada a perturbações do sistema nervoso ou a impressões morais. «É no meio do turbilhão sintomático, simultaneamente tão completo e tão variado, das doenças essencialmente nervosas que a vemos aparecer. Quase sempre está associada a outros acidentes e ao mais habitual, sem dúvida, destes acidentes: a dor. Por vezes, a hemorragia e a dor têm um foco comum, mas nem sempre se concentram num mesmo ponto e têm, pelo contrário, por sede, partes mais ou menos distantes. Em certos casos, a hemorragia manifesta-se isoladamente, fora de qualquer conexão com fenómenos neuropáticos.»

As mulheres são mais sujeitas a isto do que os homens. Raro na infância, este acidente parece ser particular à juventude e à idade adulta; não tenho conhecimento de que tenha sido observado na velhice. Um temperamento nervoso, uma natureza impressionável, um carácter irascível predispõem singularmente para ele.

« Dentre as causas determinantes, o pavor, a cólera, o temor, um desgosto violento, uma contrariedade viva, a alegria, os grandes prazeres e as grandes dores, em uma palavra, as perturbações morais de toda sorte ocupam o primeiro lugar. » Parrot, ibid.

Feitas estas constatações, pode-se ir mais longe e precisar o mecanismo da ação nervosa na produção da hematidrose? Até o presente momento, este fenômeno não pôde ser realizado experimentalmente, embora a secreção sudoral tenha sido objeto de numerosas pesquisas por parte dos fisiologistas. Estes demonstraram que o funcionamento das glândulas sudoríparas, isto é, a produção de suor, é antes de tudo um ato de atividade celular próprio às células epiteliais que revestem os canais destas glândulas, sendo regulado por nervos especiais ditos nervos excito-secretórios. Os nervos excito-secretórios podem agir sozinhos ou conjuntamente com os nervos vaso-motores, cujo papel consiste em aumentar ou diminuir a quantidade de sangue na rede vascular das glândulas sudoríparas. Se agem sozinhos, a pele permanece pálida e ocorre o suor frio, fenômeno que não exclui, aliás, a ação vaso-constritiva: nestas condições, a hematidrose não é possível, uma vez que os capilares sanguíneos dos aparelhos sudorais não estão distendidos. A hematidrose só é possível se a ação nervosa vaso-dilatadora congestionou estes capilares a ponto de determinar sua ruptura; então, o sangue derrama-se na atmosfera conjuntiva da glândula, rompe a fina barreira epitelial que a separa do canal glandular e, por este canal, vem aflorar à superfície da pele.

Ao lado dos fatos em que a hematidrose está manifestamente sob a dependência de distúrbios nervosos ou de impressões morais, há outros em que ela se explica por diversas alterações do sangue. É assim que foi assinalada no escorbuto, no curso de febres malignas e na hemofilia, mas, em suma, estes casos são raros e não fazem mais do que confirmar a possibilidade do fenômeno. Não insistiremos, portanto, e diremos, para concluir:

III. O SUOR DE SANGUE DE CRISTO. — 1° O relato de São Lucas não oferece nada de inverossímil, visto que outros observadores relataram fatos do mesmo gênero.

2° O suor de sangue experimentado por Nosso Senhor Jesus Cristo é um fenômeno de ordem natural, verossimilmente provocado nele pela iminência da morte terrível que ele iria sofrer. « E posto em agonia, orava com mais instância e o suor tornou-se como gotas de sangue a cair até o chão. » Luc, XXII, 43, 44º 3° Este suor que caía até o chão foi suficientemente abundante para enfraquecer grandemente Nosso Senhor, e deve-se considerar como não natural a força mostrada depois por ele? Não se poderia responder a esta dupla questão porque não se sabe nem a duração do suor sangrento, nem sua distribuição. Foi geral ou simplesmente localizado no rosto? Na primeira hipótese, teria podido evidentemente determinar um abatimento, como toda hemorragia um pouco séria; na segunda, a saída de alguns gramas de sangue poderia bastar para a produção do fenômeno, constituindo assim uma perda sanguínea insignificante por si mesma, importante apenas enquanto manifestação das angústias morais do Salvador. Dr. BARABAN.

Autor original: Dr Baraban

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